Teologia da Unificação

 

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Dra. Young Oon Kim - Julho de 1980 - Tradução Marcos Alonso - 2017

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Teologia da Unificação Young Oon Kim Primeira edição Library of Congress Cataloging number 80-52872 1

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Prefácio Cada tópico na teologia cristã tradicional é um tema de debate acalorado. Teólogos Protestantes e Católicos altamente respeitados discordam sobre a onipotência de Deus, a encarnação e ressurreição de Jesus Cristo, a autoridade da Bíblia, a própria missão da Igreja, o objetivo da história e a natureza da vida após a morte. Atualmente, assim como no século II, há tantas variedades de mensagens cristãs proclamadas a partir do púlpito. Nessa situação tão confusa, o Rev. Sun Myung Moon apareceu. Embora não seja um teólogo no sentido técnico, ele afirma esclarecer as ambiguidades na mensagem cristã tradicional e aponta graves erros na teologia tradicional. Com certeza absoluta, ele afirma que estamos vivendo em uma época de expectativa e urgência escatológica. Como um profeta bíblico, ele proclama uma mensagem especial de Deus para o nosso tempo. A maioria dos cristãos rejeita a mentalidade restrita e intolerância que marcaram a história da igreja. Aprendemos que o Cristianismo se beneficiou grandemente de Orígenes, como também Tertuliano, Nestorius como também Cirilo de Alexandria, o Arcebispo Laud como também os Pais Peregrinos, Paul Tillich como também Karl Barth. Como Rufus Jones observou, quão endividada a igreja tem estado com homens que uma vez ela condenou! É neste espírito que escrevi as seguintes páginas. Este livro compara o ensinamento básico do Princípio Divino do Reverendo Moon com o que é encontrado nos escritos teológicos publicados pelas principais denominações. De forma esperançosa, o leitor verá quão frequentemente esta nova teologia coreana é confirmada pelos teólogos profissionais do ocidente. E eu sinto que ele então concordará que os esclarecimentos do Reverendo Moon lhe deram uma nova perspectiva – se inesperada – sobre a fé cristã. Young Oon Kim Hudson Valley Julho de 1980 3

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Conteúdos Prefácio I. Antecedentes O Patrimônio Religioso Coreano Cristianismo Coreano Sun Myung Moon II. Revelação Revelação e Razão O Caso para Nova Revelação Sun Myung Moon e Revelação III. Princípio de Criação A Realidade e Natureza de Deus A Parceria de Deus e o Homem Significado da Família Vivendo em Dois Mundos IV. Pecado Original Diversas Intepretações de Pecado Visões Modernas da Queda O Ensinamento do Novo Testamento sobre Pecado Agostinho sobre Pecado Original A Realidade de Satanás Teologia da Unificação sobre a Queda A. Duas Árvores no Éden B. A Interpretação Sexual da Queda C. Aquela Antiga Serpente, o Diabo D. A Queda Espiritual e a Queda Física E. Deus Poderia ter Evitado a Queda? F. Efeitos da Queda V. Jesus: Sua Missão e Destino O Retrato da Crença sobre Jesus Resultados dos Estudos Bíblicos Modernos O Jesus Histórico Jesus e o Reino de Deus João Batista O Ministério Público de Jesus Opiniões Atuais sobre a Morte de Jesus Quem o Levou para a Cruz? O Jesus Ressuscitado 5

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Visão da Teologia da Unificação VI. Cristologia A Pessoa e Obra de Jesus Cristologia Atual Alguns Problemas Adicionais A. Seu Chamado Messiânico B. Geneologia de Jesus C. O Nascimento Virginal O Espírito Santo A Trindade VII. Escatologia e Teologia Moderna A Consumação da História Teologia Apocalíptica e Moderna Uma Teologia da História VIII. Deus Age na História Teologia da Reparação Restauração Através de Indenização Pistas Bíblicas para a História de Restauração Uma Visão Bíblica da História Cristã Idade da Ideologia Desastres e Reconstrução Globais IX. O Segundo Advento O Apocalíptico Fundamentalista "Sinais dos Tempos " A. Ajuda do Alto B. Ecumenismo Moderno C. O Curso de Eventos Humanos A Necessidade de Liderança Onde Ele Virá? O Regresso Final 6

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I. ANTECEDENTES O Patrimônio Religioso Coreano A herança religiosa da Coreia tem contribuído para o ensinamento da Igreja de Unificação. Sendo que ela apareceu primeiro no solo coreano, e foi nutrida pela filosofia de vida coreana, o novo movimento foi naturalmente influenciado até certa extensão por seu ambiente. Tal como a Ortodoxia Oriental não pode ser entendida separada do Helenismo Cristão, e o Catolicismo Romano é produto da civilização Latina, assim, a Igreja de Unificação é muito beneficiada pelo desenvolvimento religioso de sua terra natal. A religião nativa da Coreia, como da maioria das antigas culturas, era uma forma de xamanismo. Esta fé original nunca desapareceu completamente e ainda exerce considerável influência. Antigos coreanos acreditavam em uma variedade de espíritos sobrenaturais, bons e maus. Mas mais importante era o espírito supremo, Hananim, o criador e espírito governante sobre a criação. Este Deus elevado era adorado em santuários nas montanhas; e para obter seu favor, sacrifícios de animais eram oferecidos em momentos apropriados. Os festivais da primavera e da colheita eram particularmente importantes. Para mais detalhes, pode-se buscar em meu livro intitulado Faiths of the Far East. 1 Para os nossos propósitos, é meramente necessário ressaltar que desde tempos imemoriais, os coreanos acreditam na existência de um único Senhor de céu e terra, como também inúmeros espíritos menores. Desde tempos mais antigos, os coreanos têm experimentado contato direto com poderes sobrenaturais. Além disso, o xamanismo enfatizava o papel único da Coreia na história. Tradicionalmente, os coreanos se vestiam de branco, porque isto simbolizava sua crença que eles eram filhos da luz divina. Durante séculos, os xamãs ensinaram que os coreanos tinham sido escolhidos para um propósito especial no plano de Deus para a humanidade. Portanto, não devemos ignorar a dimensão religiosa do nacionalismo coreano. Então, enquanto o Budismo se espalhava da Índia através do Leste Asiático, se implantou na Coreia. Por mil anos, o Budismo Mahayana, que veio via China, foi a religião da corte e fé popular da monarquia coreana. Inúmeros templos Budistas foram construídos custeados pelo governo. Monges e freiras se tornaram uma característica normal da sociedade coreana. Educação e as artes plásticas foram inspiradas pelos ensinamentos Budistas. Poderosos abades eram conselheiros do rei, além de serem professores de moral convencional. Seria impossível exagerar o efeito religioso, ético e cultural que um milênio de vida e pensamento Budista teve na mente e coração coreanos. Quais foram algumas das contribuições duradouras do Budismo Mahayana para a religião coreana? Deixe-me mencionar cinco. Primeiro, o Budismo é uma religião que enfatiza a necessidade de salvação. De acordo com as Quatro Nobres Verdades de Gautama, todo homem sofre por causa de seus desejos insaciáveis. 7

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Os homens se encontram cativos em um desejo incessante por prazer, o que resulta inevitavelmente em decepção, dor, frustração e vazio. O que o Budismo oferece é uma forma para escapar deste carrossel sem sentido. Segundo, de acordo com Buda, liberação ou iluminação somente podem ser alcançadas como resultado de autodisciplina e abnegação. Não há uma maneira fácil de sair da situação humana. Um indivíduo deve conter seus desejos sensuais e dominar seu corpo. Gradualmente, mas vigorosamente, ele deve extinguir o desejo por prazeres físicos. Para realizar isto, os Budistas devem praticar extenuantes disciplinas morais e intelectuais. Terceiro, o Budismo Mahayana reforça o eixo ético dos ensinamentos de Gautama com uma escatologia vívida. Aqueles que vivem moralmente aqui na terra serão recompensados pela bem-aventurança do Paraíso da Terra Pura. Mas aqueles que violam os mandamentos morais serão punidos no inferno até que tenham pagado por sua loucura. Ao menos no Budismo popular (que é ensinado aos leigos), a promessa de recompensa celeste e a ameaça dos tormentos do inferno têm sido um importante estímulo para o comportamento ético. Quarto, o Budismo Mahayana enfatiza o valor supremo do auto sacrifício. O ideal mais elevado é ser um Bodhisattva. Um Bodhisattva é alguém que ganhou o direito de desfrutar a paz do Nirvana, mas que voluntariamente renuncia ao objetivo a fim de continuar ajudando seus semelhantes ao longo do caminho ascendente. Assim, os mais nobres valores morais para o Budismo são os de abnegação, compaixão e amor sacrificial. Finalmente, o Budismo Mahayana aguarda com expectativa a chegada de um novo Buda (Maitreya) que aparecerá na terra nos últimos dias para renovar toda a criação e trazer paz interna para toda a humanidade. Esta esperança escatológica sempre fez parte do Budismo Tradicional coreano, e tem sido particularmente proeminente em períodos de turbulência social. Por toda a Coreia, pode-se ver enormes monólitos esculpidos com cabeças humanas chamados Miryucks. Provavelmente eles são muito antigos, antes da missão Budista vir para a Coreia, mas por séculos eles foram interpretados como lembrança do Buda que virá. Gradualmente o Budismo degenerou, principalmente por causa de sua imensa riqueza e aliança com o governo. Quando a Dinastia Yi foi estabelecida em 1392, como parte de seu programa de reforma, o rei aboliu a religião de estado Budista. Em seu lugar, ele colocou o Confucionismo. Assim, por cerca de quinhentos anos o Confucionismo serviu como a crença oficial da nação coreana. Templos Confucionistas foram construídos com recursos do estado. Estudiosos Confucionistas ficaram encarregados de todas as funções de governo. Os ensinamentos do Mestre Kung foram feitos a base para a educação. Uma pessoa se tornava elegível para cargos públicos ao passar por exames sobre os clássicos Confucionistas. A vida familiar era regulada pelo ideal de piedade filial. A adoração aos antepassados servia como um fator importante na vida de todos os cidadãos. E o jen (coração humano) era exaltado como o mais elevado ideal moral. O Confucionismo era valioso por ao menos quatro razões. Por um lado, ele reforçava a importância natural da família. O Mestre Kung ensinava uma ética centrada na família. Tal como irmãos e irmãs pertencem a uma única família e são orientados pelo amor de seus pais, assim a nação inteira deveria agir como uma grande família baseada na 8

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piedade filial, afeição fraternal e responsabilidade paternal. O regente deveria pensar sobre ele mesmo como o pai de seus súditos, e todos os membros do governo deveriam tratar os cidadãos como irmãos mais jovens. Uma sociedade estável deve ser fundada sobre o respeito pelos superiores, reverência pelos pais, lealdade entre amigos e preocupação com as classes mais desfavorecidas. Em segundo lugar, o Confucionismo corrigiu o ideal monástico Budista. Para os Budistas, o homem ou mulher ideal é um monge ou uma freira, alguém que abandonou a sociedade para o benefício da salvação pessoal. Esta noção era ao mesmo tempo mundana e individualista. Em contraste, o Confucionismo exaltava o servido público responsável. O Confucionismo é orientado para a sociedade. De acordo com esta visão, um homem é realmente humano quando ele realiza fielmente suas obrigações com seus semelhantes. Terceiro, a ética centrada na família do Confucionismo produziu uma metafísica baseada na polaridade. O homem existe em um sistema harmonioso de relacionamentos. Utilizando o antigo conceito chinês de yin-yang, os confucionistas enfatizaram o fato que indivíduos alcançam felicidade ao submeterem seus desejos pessoais ao bem maior do todo. Este princípio de polaridade pode ser visto operando em cada nível da sociedade: o cuidado do esposo por sua esposa, a lealdade da esposa por seu esposo, o respeito dos filhos pelos pais, a amizade entre iguais e obediência aos superiores. Em quarto lugar, os confucionistas aguardavam com expectativa o objetivo final da história. Segundo os Clássicos, a humanidade está se movendo na direção de uma era de justiça, fraternidade, prosperidade e paz nesta terra. Permita-me corrigir uma noção errada. Provavelmente você leu livros que afirmam que a visão da história judaico-cristã é muito diferente da visão oriental. Considera-se que os asiáticos negam que a história tem significado e propósito, e que a visão Bíblica é que a história tem um objetivo. A filosofia oriental sobre a história é cíclica, e portanto, pessimista, enquanto a filosofia ocidental sobre a história é linear e otimista. Entretanto, o Confucionismo defende uma interpretação muito propositiva da história. Como a religião judaico-cristã, ela fala de uma era ideal dourada no passado distante e uma era dourada no final da história. Para os confucionistas, o objetivo da história é chamado “ta-tung”: a era de grande Unidade. A história progride através de três estágios: uma era passada de desordem, uma era presente de relativa paz e uma futura utopia de harmonia universal. Assim, os homens podem ter esperança porque o “tatung” virá na terra nos últimos dias. No passado, escritores europeus sobre religião contrastavam a luz que o Cristianismo trouxe com o período anterior de escuridão pagã. Historiadores recentes corrigiram essa interpretação simplista do ocidente pré-cristão. O mundo no qual o Cristianismo veio não estava apenas afundado no pecado. Muito pelo contrário, a civilização grecoromana forneceu um fundamento útil sobre o qual a igreja cristã pôde ser erigida. A filosofia grega foi uma preparação valiosa para a teologia cristã. A moralidade estoica foi útil na criação de uma ética social cristã. Religiões misteriosas pagãs prepararam o solo para plantar o Evangelho. 9

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Da mesma forma, quando missionários cristãos vieram para a Coreia, estavam inclinados a depreciar as crenças estabelecidas mais velhas. Eles diziam que o Confucionismo era antiquado e repressivo. O culto aos antepassados foi condenado. A ética confucionista foi denunciada por sua base meramente humanista, sua opressão das mulheres e sua veneração não progressiva do passado. O Budismo foi criticado como idolatria e outro ascetismo mundano. O xamanismo foi ridicularizado como superstição e ocultismo. Entretanto, em anos recentes vários estudiosos cristãos começaram a ver aspectos positivos da herança religiosa da Coreia. 2 Se a civilização Greco-romana foi uma preparação para o Evangelho no ocidente, o xamanismo, Budismo e Confucionismo prepararam para o Cristianismo no oriente. Portanto, a teologia da Unificação aprecia profundamente as muitas formas que Deus inspirou e orientou a busca religiosa dos coreanos por toda a sua longa história. 1 Y. O. Kim, Faiths of the Far East (1976), pp. 173-182. 2 Cf. Tongshik Ryu, "Religions of Korea and the Personality of Koreans" em H. S. Hong, ed., Korea Struggles for Christ (1973), pp. 148-165. Também S. J. Palmer, Korea and Christianity (1967). 10

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Cristianismo Coreano O Cristianismo coreano teve uma história estranha, conturbada e, contudo, notável. Como resultado, há agora uma maior percentagem de cristãos na Coreia do que em qualquer nação no leste da Ásia continental. Quando os seguidores do Patriarca Nestorius de Constantinopla foram excomungados pelos concílios ecumênicos do século V, eles fugiram para o leste, estabelecendo igrejas que prosperaram por muitos séculos no Iraque, Irã, Índia e China. No ano 1000, missionários Nestorianos ainda estavam trabalhando na Manchúria e Coreia. Uma cruz estoriana e outros objetos cristãos que datam do século XI foram descobertos na Coreia depois da Segunda Guerra Mundial. 3 Entretanto, gradualmente a comunidade Nestoriana Cristã foi engolida pelo ambiente hostil. Outro contato notável dos coreanos com o Cristianismo veio em 1592 quando Toyotomi Hideyoshi enviou exércitos japoneses para invadir a Coreia. Jesuítas portugueses estabeleceram missões no Japão e obtiveram muitos milhares de convertidos para a fé cristã. Um dos generais de Hideyoshi era um cristão chamado Konishi. Depois de capturar Seoul, ele convidou um missionário jesuíta e um sacerdote japonês para conduzirem cultos em seus campos dos exércitos. Eles passaram um ano na Coreia antes de serem chamados de volta para o Japão. A invasão japonesa foi finalmente revertida. É duvidoso se a obra missionária realizou algo concreto. Entretanto, centenas de prisioneiros da guerra coreana foram enviados para o Japão, e alguns destes se tornaram católicos devotos. Quando o governo japonês começou a perseguir os cristãos um ano mais tarde, vários cristãos coreanos foram martirizados. De 1614 até 1629 há registros públicos de católicos coreanos no Japão sendo assassinados. O fundador do Cristianismo coreano moderno foi um nobre jovem estudioso chamado Yi Pyok. Em 1777 um grupo de estudiosos confucionistas encontrou um monastério Budista isolado para discutir filosofia. Entre os livros que eles leram, havia alguns obtidos de Pequim sobre a religião católica. Yi Pyok ficou tão impressionado com esses tratados Jesuítas que ele se tornou um cristão e deixaram de lado o sétimo dia da semana para oração. Yi falou sobre sua nova fé com alguns amigos próximos e fez arranjos para aprender mais sobre a religião católica. O governo enviou anualmente uma delegação para a corte imperial chinesa. Um amigo de Yi, Yi Seung-Hoon, os acompanhou para Pequim, aprendeu mais sobre o Cristianismo e foi batizado por um missionário. Ele voltou com livros Jesuítas, rosários e crucifixos para Yi Pyok que foi batizado por Yi Seung-Hoon. Assim, os dois homens foram igualmente importantes na fundação do Cristianismo coreano. Muitos nobres se interessaram no catolicismo e algumas notáveis conversões foram feitas. Uma vez que este grupo tinha estudado os livros chineses, eles decidiram estabelecer sua própria igreja. Um homem foi eleito bispo e quatro foram escolhidos como sacerdotes. Uma casa em Seoul foi alugada para ser um lugar de encontro. 11

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Quando estes cristãos entraram em contato com o bispo em Pequim, ele lhes disse que seus sacerdotes tinham sido escolhidos de forma não canônica, e não deveriam ministrar os sacramentos. Mas ele elogiou o zelo deles e enviou mais livros. Os católicos coreanos aceitaram a opinião do bispo sobre seus sacerdotes. O que os perturbou foi a ordem posterior dos Jesuítas para abandonarem o culto aos antepassados. Alguns aceitaram, mas muitos perderam todo o interesse no Cristianismo. A controvérsia sobre o culto aos antepassados levou à perseguição do governo. Um erudito bem conhecido e seu sobrinho foram presos e decapitados por queimar suas mesas ancestrais. Outros cristãos foram aprisionados. Entretanto, a coragem dos mártires atraiu muitos novos convertidos. Em 1794, dez anos depois do primeiro batismo, havia 4.000 católicos na Coreia. O governo se opunha ao Cristianismo porque ele atacou o sistema moral confucionista, como a controvérsia sobre o culto aos antepassados parecia provar. Contudo, para piorar, era alegada a conexão do Cristianismo com políticos europeus. Sendo que a missão católica na Coreia era supervisionada por sacerdotes franceses, parecia que a nova religião era uma forma para imperialistas ocidentais transformarem a Coreia em uma colônia europeia. Assim, de 1794 até 1866 houve repetidos esforços feitos pelo governo para desarraigar a religião dos “estrangeiros bárbaros.” Mesmo assim, em 1860 havia 16.700 católicos na Coreia. Quando o devoto budista Daewongun (Regente) decidiu acabar com o catolicismo em seu país em 1866, muitos altos oficiais, a enfermeira do rei e a própria esposa do rei eram cristãos. Portanto, seus atos brutais devem ser vistos como uma tentativa desesperada de preservar a cultura tradicional da Coreia e independência política. Os séculos XVIII e XIX na Ásia foi um tempo de agressivo imperialismo ocidental. A Coreia tentou, como a China e Japão tinham feito, se proteger através de uma política de isolamento. Por um tempo a Coreia foi conhecida como o Reino Heremita. Sendo que os missionários cristãos na Ásia muitas vezes pavimentavam o caminho para soldados europeus, pode-se agora ver por que nacionalistas patriotas temiam a propagação de ideias cristãs. Os sacerdotes franceses eram vistos como agentes do imperialismo francês, particularmente porque os franceses estavam anexando o Vietnã, Laos e Cambodja a partir do império chinês naqueles anos. O primeiro missionário protestante chegou na Coreia em 1884. Em 1876 os Estados Unidos persuadiram a Coreia a fazer seu primeiro tratado com uma nação ocidental. Neste tempo, a Coreia estava sendo ameaçada pelo Japão por um lado, e a Rússia, por outro. Felizmente, para os coreanos, os missionários americanos, britânicos e canadenses que trouxeram o protestantismo para a Coreia não eram pró-japoneses e nem pró-russos. Muito pelo contrário. Através da construção de escolas e hospitais, como também pela promoção da modernização, eles fortaleceram a vontade da nação de sobreviver em um momento de perigo político. Por exemplo, Horace Allen, um médico presbiteriano, foi o primeiro missionário residente presbiteriano. Ele chegou em Seoul pouco antes de um grupo de reformadores tentar derrubar o governo. O príncipe Min Young-Ik, um notável estadista conservador, quase foi esfaqueado fatalmente pelos rebeldes. O Dr. Allen foi chamado para salvar sua vida. Depois de três meses de intensos cuidados, o estadista se recuperou. Este ato obteve confiança do rei e apoio da rainha porque o príncipe Min era seu primo. 12

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O Dr. Allen serviu como médico para os diplomatas estrangeiros e solicitou que o rei estabelecesse um hospital do governo. Esta solicitação foi atendida. O Dr. Allen assumiu o comando do novo hospital, e mais tarde se tornou o Cônsul Geral Americano (1897) e serviu como Ministro Plenipotenciário dos Estados Unidos até que os japoneses começaram a assumir o controle da Coreia em 1905. Os laços do Dr. Allen com a família real beneficiaram grandemente a causa protestante. No dia 5 de abril de 1885, o Rev. Horace G. Underwood (Presbiteriano) e o Rev. e Sra. Henry G. Appenzeller (Metodista) chegaram em Inchon; o Dr. William B. Scranton e sua mãe (Metodista) chegaram um mês mais tarde e Scranton se juntou ao Dr. Allen no hospital. A obra evangelística realmente começou por estes missionários. No dia 12 de setembro de 1887, a primeira igreja Presbiteriana foi organizada em Seoul com quatorze membros fundadores e no dia 9 de outubro, a Igreja Metodista Chong Dong foi estabelecida. Um erudito confucionista chamado Choi, Chei Woo (Choi, Soo Oon), experimentou visões, criando uma nova religião popular que se espalhou pela Coreia. Reivindicando defender o Ensinamento Oriental (Tonghak) contra o chamado Ensinamento Ocidental dos missionários católicos, Choi ensinava uma fé sincrética: a ética do Confucionismo, a ênfase Budista de purificação do coração, o monoteísmo, o uso de velas do Catolicismo e os encantos do xamanismo. Esta religião foi mais tarde chamada de Chondogyo. Choi foi preso e executado, mas seus seguidores começaram uma revolta para livrar o governo da corrupção. Seu exército Tonghak marchou em Seoul. A China enviou tropas para acabar com a rebelião; ao mesmo tempo os japoneses se movimentaram para assumir o controle da corte coreana. Durante o período entre 1894-1895 os japoneses livraram a Coreia da influência Chinesa. O velho Daewongun saiu da aposentadoria e se aliou com os japoneses contra sua nora, a Rainha Min. Ela foi assassinada mais tarde; o rei e o príncipe herdeiro fugiram para a região da Rússia. Quando o Rei Kojong foi finalmente capaz de voltar ao poder, ele contou com a ajuda russa e francesa. O Japão entrou em guerra com a Rússia em 1904 e assumiu o controle sobre os assuntos estrangeiros da Coreia em 1905. O príncipe Min cometeu suicídio em desespero. O Rei Kojung abdicou dois anos mais tarde. O Japão anexou a Coreia em 1910. Cristãos em geral, e os missionários em particular, se tornaram diretamente envolvidos na política durante este período de agitação social. Em 1888 o governo decretou um interdito proibindo a obra missionária cristã. Os católicos haviam despertado grande ressentimento popular porque eles tinham comprado secretamente um terreno e começado a construir uma catedral com vista para o palácio. Dez anos mais tarde, uma igreja ortodoxa russa foi estabelecida em Seoul, que foi amplamente interpretada como um movimento político. Quando trinta e três líderes coreanos assinaram a Declaração de Independência em 1919, dezesseis signatários eram cristãos, quinze eram seguidores da religião Chondogyo de Choi, e dois eram budistas. Missionários divulgaram as atrocidades japonesas cometidas na Coreia durante a ocupação oficial e ao menos indiretamente apoiaram a causa da independência coreana até a liberação nacional ocorrer em 1945. Ao mesmo tempo, deve-se ser observado que a maioria dos missionários e a maioria dos cristãos coreanos tentaram se envolver na política da melhor maneira possível. Quais foram os efeitos indiretos, mas reais do Cristianismo Protestante na sociedade coreana? 13

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