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revista ANO V - Nº 06 - 20 DE OUTUBRO DE 2017 - EDIÇÃO ESPECIAL ISSN 2238-1414 A filosofia de George Herbert Mead e a luta contra o câncer

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Editorial Nesta edição especial da Barbante abordamos um tema que exige o cuidado de si e do outro, o cuidado com o corpo, o cuidado com o toque, o cuidado com os sinais e sintomas do câncer. A professora Dra. Shirlene Mafra nos presenteia com um artigo sobre a filosofia de George Herbert Mead e esse cuidado de si na luta contra o câncer. Trazemos alguns depoimentos emocionantes da luta contra o câncer de várias mulheres do Brasil inteiro e também o depoimento do avô do pequeno Abraão, que luta há mais de um ano contra o câncer. São batalhas singulares, ímpares, cada uma com a sua história de pertencimento de si em si, cada uma com a sua vontade de desmistificar  o mal do câncer e mostrar ao mundo que é possível pensar numa vida de esperança e amor com e depois do câncer, sim. Sempre será possível. Trazemos, também, poemas de Christina Ramalho, Clécia Santos, Gloria Góes, Professora Fatuca, Ramon Medeiros, Renata de Castro, poetrix de Gilvânia Machado, uma crônica de Éverton Santos, um conto infantil de Rosângela Trajano dedicado ao seu sobrinho-neto que luta contra o câncer, um cordel de Rosa Regis e uma resenha de livro do poeta José de Castro. Lutemos sempre! Poesia à vida!  Rosângela Trajano Christina Ramalho Editoras REVISTA BARBANTE - 2

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Artigo REVISTA BARBANTE - 3

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A FILOSOFIA DE GEORGE HERBERT MEAD: uma interconexão com o papel social do enfermeiro com o cuidado dos pacientes com câncer Alane Hellen dos Santos1 Rozenísia Medeiros de Oliveira 2 Prof. Dra. Shirlene dos Santos Mafra Medeiros 3 RESUMO O presente estudo faz uma interface entre as concepções de George Herbert Mead, os cuidados interativos com o câncer no desempenho dos papéis sociais do enfermeiro nas interações sociais. Dessa forma, a pesquisa bibliográfica e os estudos dos conceitos meadianos de interação simbólica, de reconhecimento social, do cuidado e as perspectivas de resiliência em Boris Cyrulnik auxiliarão no entendimento de educação em saúde. Essas concepções são essenciais para o desenvolvimento do papel social do Enfermeiro na promoção de uma educação em saúde frente aos problemas de Câncer, bem como, pela problemática abordada por profissionais de Enfermagem no enfrentamento da doença, por atuarem no cuidado direto de pacientes portadores das neoplasias. A partir dessa discussão, pleiteia-se promover a reflexão/criticidade e o diálogo entre as equipes multidisciplinares entre profissionais/profissionais, profissionais/usuários, bem como através da linguagem da memória experiencial proposta por Mead em seus estudos, a fim de corroborar para com a problemática do diagnóstico, tratamento e cura dos cancerígenos. Utilizou-se como objeto metodológico acervo literário clássico que contempla as discussões dos renomados autores filosóficos: George Herbert Mead, Boris Cyrulnik, João Amós Comenius, bem como materiais disponibilizados pelo Instituto Nacional do Câncer. A interpretação dos assuntos abordados realizou-se a partir da análise dos conteúdos do filósofo George Herbert Mead ao se referir sobre o olhar de “si” do Enfermeiro, do “outro” do enfermo e os cuidados interativos na educação em saúde, no entendimento do problema, da problemática que envolve a patologia, suas bases epistemológicas necessárias ao combate e enfrentamento da doença. Assim, a resiliência como poder de superação das situações adversas, pode ser uma forma de estratégia de enfrentamento do paciente perante o câncer, sendo atribuído ao cuidado o significado do processo de adoecimento. Portanto, percebe-se compreender a máxima da enfermagem que vislumbra compreender os seus pacientes de forma holística e equânime. Descritores: Cuidado Interativo, Educação em Saúde, Neoplasias, Reconhecimento Social. Abstract: This study makes an interface between the conceptions of George Herbert Mead, interactive care with cancer in the performance of the social roles of nurses in social interactions. In this way, the bibliographical research and studies of the meadianos concepts of symbolic interaction, social recognition, the care and the prospects of resilience in Boris Cyrulnik will aid in the understanding of health education. These concepts are essential for the development of the social role of the nurse in promoting health education in face of the problems of cancer, as well as the problems addressed by nursing professionals in the fight against the disease by work in direct care patients with neoplasias. From this discussion, seeking to promote the reflection/criticality and the dialogue between the multidisciplinary teams among professionals/professionals, professionals/users as well as by the experiential memory language proposed by Mead on his studies in order to corroborate to the problem of diagnosis, treatment and cure of cancer. Used as methodological literary classic collection object that includes discussions of the renowned philosophical authors: George Herbert Mead, Boris Cyrulnik, John Amos Comenius, as well as materials made available by the National Cancer Institute. The interpretations of the subjects discussed was carried out the analysis of the contents of the philosopher George Herbert Mead when I mentioned about the "you" of the nurse, the "other" of the patient and the interactive care on health education in the understanding of the problem, the problems involving the pathology, epistemological bases 1 Discente do 3º período do curso de graduação em Enfermagem pela Universidade do Estado do Rio Gran- de do Norte (UERN), campus Caicó. E-mail: alanehellen@gmail.com 2 Discente do 3º período do curso de graduação em Enfermagem pela Universidade do Estado do Rio Gran- de do Norte (UERN), campus Caicó. E-mail: rozenisiaoliveira2015@gmail.com 3 Orientadora Profa. Dra. da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), do curso de gradua- ção em Filosofia, campus Caicó. E-mail: shirlenemafra@yahoo.com.br REVISTA BARBANTE - 4

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necessary to combat and fight disease. Thus, resilience as power of overcoming the adverse situations, can be a way of coping strategy of the patient before the cancer, being assigned to the meaning of the process of illness. Nursing seeks to understand his patients holistically and always balanced. Keywords: Interactive Care, health education, Neoplasms, Social recognition. Introdução: Este artigo é o resultado dos estudos em sala de aula, dos alunos do 3º período do Curso de Enfermagem do Componente Curricular Filosofia da Educação, ministrado pela Prof. Shirlene S. Mafra Medeiros, numa interface entre os saberes filosóficos, sua relevância para compreender o papel social do enfermeiro na promoção da educação em saúde. O objetivo do presente estudo é correlacionar a assistência de enfermagem com a filosofia meadiana, através da interação simbólica, reconhecimento social da doença, reflexão/ criticidade acerca da temática. Dessa forma, questiona-se como a concepção filosófica de Mead pode contribuir no enfrentamento dessa patologia? Como essas concepções epistemológicas meadianas contribuem e podem ser utilizadas por profissionais de Enfermagem através do cuidado interativo dos pacientes com câncer? Aliado a essas discussões, Mead também enfatiza sobre os gestos simples, que passam a ser significantes como ações sociais essenciais para o portador da doença, visando desenvolver a capacidade de aceitação da doença. Essas ações têm o intuito de promover um tratamento humano; holístico embasado na numa ética filosófica do cuidado de “si”, do “outro”, e consequentemente, da sociedade; do reconhecimento; em especial das bases científicas para o tratamento, bem como, o que foi preconizado pelo Ministério da Saúde. A partir dessa problemática, analisa-se a necessidade de criar estratégias e ações sociais impactantes pelos enfermeiros e equipes multidisciplinares para formar uma unidade na diversidade de profissionais para combater o câncer. Medeiros (2016), afirma que para Mead a inteligência seria a capacidade do indivíduo na resolução dos problemas. Dessa forma, os gestos simples podem transforma-se em significantes na articulação dos profissionais, pacientes e familiares. Além dos gestos supracitados, outro aspecto abordado foi a relevância do cuidado interativo da saúde com os pacientes com câncer. Utilizou-se como bases metodológicas o acervo literário clássico que contempla as discussões dos renomados autores filosóficos: George Herbert Mead, João Amós Comenius, Boris Cyrulnik, Medeiros, bem como, materiais disponibilizados pelo Instituto Nacional de Câncer – INCA. No Instituto Nacional de Câncer - INCA (2017), encontra-se o conceito de câncer, especificando que é o nome dado a um conjunto de mais de 100 doenças que têm em comum o crescimento desordenado (maligno), de células que invadem os tecidos e órgãos, podendo espalhar-se (metástase) para outras regiões do corpo. Dividindo-se rapidamente, essas células tendem a ser muito agressivas e incontroláveis, determinando a formação de tumores (acúmulo de células cancerosas) ou neoplasias malignas. Por outro lado, um tumor benigno significa simplesmente uma massa localizada de células que se multiplicam vagarosamente e se assemelham ao seu tecido original, raramente constituindo um risco de vida. Ao abordar sobre o Câncer o Ministério de Saúde através do INCA (2014) explicita que existem diferentes tipos de câncer correspondem aos vários tipos de células do corpo. Por exemplo, existem diversos tipos de câncer de pele porque a pele é formada de mais de um tipo de célula. Se o câncer tem início em tecidos epiteliais como pele ou mucosas ele é denominado carcinoma. Se começa em tecidos conjuntivos como osso, músculo ou cartilagem é chamado de sarcoma. Outras características que diferenciam os diversos tipos de câncer entre si são a velocidade de multiplicação das células e a capacidade de invadir tecidos e órgãos vizinhos ou distantes (metástases). O ambiente hospitalar é possuidor de características que deixam as pessoas triste, insegura e com medo. Todos esses procedimentos desgastam a si próprios, familiares, e a própria equipe que presta os cuidados. Sendo assim, se faz necessária a compreensão das relações entre enfermeiro e indivíduo. Esse tema foi escolhido diante das discussões em sala, acerca de sua relevância para o futuro profissional da enfermagem, é uma doença que vem matando milhares de pessoas. REVISTA BARBANTE - 5

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O Interacionismo Simbólico: A enfermagem, o câncer e o cuidado A perspectiva do interacionismo simbólico torna-se relevante nesse estudo por estabelecer uma relação das nossas experiências sociais como estudantes de enfermagem no processo formativo na universidade, as experiências vivenciadas no campo de estágio nas interações sociais enfermeiro, paciente e consequenbtemente com seus familiares e as demandas da problemática social, que envolve o cuidado com a doença. O Instituto Nacional de Câncer - INCA (2017) conceitua o câncer como sendo um processo mórbido, onde uma célula anormal é transformada por mutação genética do DNA celular. Essa célula anormal cria um clone e começa a se proliferar de maneira anormal. Com isso, as mesmas adquirem características invasivas, e as alterações têm lugar nos tecidos circunvizinhos. As células se infiltram nesses tecidos e ganham acesso aos vasos linfáticos e sanguíneos, na qual serão transportadas para outras localidades do corpo. Esse fenômeno é conhecido como metástase. O câncer é entendido pelas pessoas, em geral, como sinônimo do fim da vida, interiorizado pelas emoções decorrentes do tratamento de câncer. Neste tocante, cabe à equipe de enfermagem pensar em ferramentas que ajudem na superação desses pacientes, vislumbrando um cuidado integral, a fim de diminuir o sofrimento do usuário e consequentemente, contribuir para a aceitação da doença. A abordagem da enfermagem na área oncológica prima em analisar o contexto social, politico e cultural no qual o paciente esta envolvido. Visto que não basta a aplicação do conhecimento científico, mas da abordagem multidisciplinar, elucidando as intercorrências e incerteza do quadro clínico. A afirmativa de Medeiros (2016) ao afirmar a visão meadiana sobre o olhar para si e para o outro, que contribui para a constituição do self, pode ser associado à relação interacionista do paciente, e a necessidade do reconhecimento da doença para poder enfrentá-la, uma vez que o câncer é visto como uma pena de morte e de mutilações para com o sujeito, devido essa imagem estar defeituosa ao seu olhar e requer cuidados necessários ao longo da trajetória de vida. Assumir o cuidado como um valor, como imperativo moral, prescinde de uma consciência do que ele significa para cada um individualmente. Isso só é possível no momento em que se questiona acerca do significado da doença e de sua relação com a vida. Na perspectiva interacionista, o significado que a pessoa atribui a uma situação vivenciada surge da interação e da interpretação do momento em que o sujeito está exposto a uma determinada doença, podendo ser a enfermeira uma mediadora junto ao sujeito e sua família, na busca de facilitar tal significação através do ato de reflexão, além de um cuidado mais qualificado, pois aprender a lidar com as perdas em um ambiente onde a cura e a prevenção da doença predominam, é um desafio que poucos se propõem a discutir e muito menos enfrentar, gerando dificuldade no tratamento. A enfermagem propicia uma troca de saberes com a experiência compartilhada e alicerçada na confiança, respeito e ética. Assim, o cuidado transcende o saber científico pois. Do ponto de vista social, o estudo da resiliência representa uma nova possibilidade de se trabalhar com os problemas experimentados pela população que, cada vez mais, está vivendo em condições adversas, expostos a um potencial de risco importante. Representa ainda uma mudança paradigmática na área da saúde, na medida em que prioriza o potencial para a produção de saúde em vez de apenas focar os aspectos patológicos e também uma possibilidade de ampliar a compreensão do processo saúde doença centrado somente no indivíduo, passando para uma abordagem que inclui a família e a comunidade articulando as relações entre os contextos sociais, culturais, econômicos e políticos. (Silva et al., 2003 p.22) É a capacidade de o indivíduo se superpor e edificar-se positivamente diante das adversidades. Medeiros (2016, p.21) afirma que para Barreira e Nakamura a resiliência é uma: [...] terminologia originária do latim resilio, voltar ao normal; resiliens, que significa saltar para trás, voltar, ser impelido, recuar, encolher-se, romper, e do inglês resilient, que remete à capacidade de recuperação”. Para a autora, os estudos de resiliência possibilitaram apreender o sentido e o significado do indivíduo no enfrentamento das situações adversas, analisar os fatores de riscos e entender quais seriam os mecanismos de proteção para compreender o tratamento de câncer. Ampliando essa afirmativa, Alves afirma que: A palavra Resiliência vem do Latim: Resilire, que significa recusar, voltar atrás. Na psicologia, significa voltar ao estado anterior. Em física Resiliência se refere à capacidade que um material tem em suportar grandes impactos de temperatura e pressão, se deformar ao extremo, mas pouco a pouco conseguir se recuperar e voltar à sua forma anterior. Quando falamos em comportamento, resiliência significa a construção de novos REVISTA BARBANTE - 6

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caminhos a partir do enfrentamento de situações muito estressantes ou traumáticas. (ALVES, M., 2016.) A emoção interfere diretamente no processo saúde-doença, uma vez que o estado de saúde sofre influência do psíquico designado a coordenar os estímulos a serem enviados a todas as áreas do nosso corpo. O equilíbrio dos fatores mentais e fisiológicos são essenciais para a homeostase funcional humana. No nosso entendimento do pensamento de Alves(2016) torna-se importante compreender que a promoção da resiliência está articulada à questão emocional, dos aspectos biológicos, genéticos, sociais, articulados a teologia com a fé do indivíduo. A resiliência é a capacidade que o ser o humano tem de superar as adversidades, esse processo é dinâmico e utiliza a interação dos fatores de proteção( Religiosidade, família, esperança de cura) do indivíduo na superação das suas dificuldades contrapondo os fatores de risco (Medo, sem esperança de cura, incertezas sobre o tratamento). Do ponto de vista social, o estudo da resiliência representa uma nova possibilidade de se trabalhar com os problemas experimentados pela população que, cada vez mais, está vivendo em condições adversas, expostos a um potencial de risco importante. Representa ainda uma mudança paradigmática na área da saúde, na medida em que prioriza o potencial para a produção de saúde em vez de apenas focar os aspectos patológicos e também uma possibilidade de ampliar a compreensão do processo saúde doença centrado somente no indivíduo, passando para uma abordagem que inclui a família e a comunidade articulando as relações entre os contextos sociais, culturais, econômicos e políticos. (Silva et al., 2003 p.22) O diagnóstico do câncer e seu tratamento, geralmente produzem transtornos psicológicos, resultantes dos próprios sintomas da doença, causando no indivíduo medos em comum: a morte; a dependência da família; a mudança na imagem corporal com a desfiguração. A capacidade de resiliência dos sujeitos perpassa pela ativação de os sujeitos descobrirem seus limites e aceitarem, a fim de torná-los mais confiantes para enfrentar o dia a dia. Reconhecimento Social do Paciente com o Câncer Partindo do pressuposto do que Casagrande (2014) retrata sobre Mead ao afirmar que os seres humanos organizam-se socialmente e esta organização, por conseguinte, implica a constituição do modo de vida deste indivíduo, através do reconhecimento social da vida e da indissociabilidade entre sujeito e sociedade. Essas relações são essenciais para a compreensão do papel social do enfermeiro, bem como do paciente no enfrentamento do problema. Pode-se fazer uma relação entre o reconhecimento social e a cura do Câncer? A sociedade em geral possui concepções sobre o Câncer como sendo: uma patologia com elevado percentual de acometimento, mortalidade, como sendo devastador e com baixo percentual de cura e sobrevida, visto que muitos casos quando descobertos apresentam prognóstico desfavorável à cura, essa construção social para com a patologia, tratamento e cura influenciam diretamente indivíduos diagnosticados com a doença pois segundo Mead: “Não há organismo vivo de qualquer espécie, cuja natureza ou constituição seja tal que possa existir ou manter-se em completo isolamento de todos os demais organismos vivos.” (MEAD, 1992, apud Casagrande p. 288). Portanto, sendo nós sociais por natureza, as concepções negativas acima descritas acerca do Câncer, influenciarão diretamente indivíduos diagnosticados com a patologia uma vez que os gestos, a linguagem, a comunicação e as interações simbólicas realizadas pelo grupo, no qual o diagnosticado encontra-se inserido, são de alta relevância para o suporte necessário a este bem como para as ações desenvolvidas visando à cura do mesmo. Conforme a concepção de Mead apresentado por Casagrande (2014) : “[...] Através do uso da linguagem e de símbolos significantes, o indivíduo internaliza as atitudes do seu grupo social. Adota, em relação a si, a mesma atitude que a comunidade adota em relação a ele.” (CASAGRANDE, 2014, p. 25). Embora existam diversos fatores que contribuam atualmente para o prognóstico de cura ou sobrevida de um paciente oncológico, a internalização das afirmativas negativas para com o Câncer aliada à má comunicação de um indivíduo diagnosticado com a patologia favorecem a internalização de obscuridade na qual a doença encontra-se pautada, pois os gestos possuem caráter comunicativo e para que estes sejam realizados a contento, em se tratando de um diagnóstico cancerígeno, devem ter como base a significação daquele ato momentâneo para a vida do indivíduo em questão, pois, Casagrande (2014) afirma que para Mead: Os gestos se convertem em símbolos significantes quando provocam implicitamente num indivíduo que os faz as mesmas reações que provocam explicitamente num indivíduo que os faz as mesmas reações que provocam REVISTA BARBANTE - 7

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explicitamente ou que se supõe que devam provocar, em outros indivíduos aos quais estão dirigidos [...] (MEAD, 1992, p.47 apud Casagrande , 2014). Portanto, faz-se necessário que o profissional designado para repassar o diagnóstico tenha em mente a relevância da necessidade do diálogo humanizado, interativo, com gestual que favorece a criação de uma relação interpessoal satisfatória entre profissional/ paciente, contemplando gestos e palavras que emitam significados positivos acerca da patologia, tratamento, cura no intuito de descontruir a obscuridade e morte associadas ao Câncer. Pois, uma vez que sejam internalizadas pelo paciente concepções positivas para com a patologia, as chances para aceitação do problema, cooperação no tratamento aumentarão significativamente e contribuirão para o processo visando a cura desse indivíduo. Interacionismo Simbólico para a cura do paciente com Câncer Casagrande (2014) explica que para Mead é por meio das interações e das relações construídas socialmente que o indivíduo reconhece-se como objeto. Assim, a partir das interações e do diálogo sobre a doença, o indivíduo pode adquirir a consciência de si próprio transformando-se em um objeto para si devido às relações sociais estabelecidas deste indivíduo para com outros. Estabelecer uma relação interpessoal com o paciente com vistas a assegurar inicialmente a aceitação da doença pelo diagnosticado, fazendo com que este se reconheça como objeto do tratamento a ser realizado como passo posterior ao diagnóstico, se faz necessário para que as ações e práticas a serem realizadas pela equipe hospitalar sejam significantes para o indivíduo acometido, a fim de proporcionar desejo motivacional para obter a cura tendo em vista que segundo as premissas relacionadas ao interacionismo simbólico instituído por Mead e apresentadas por seu aluno Herbert Blumer ao afirmar que: 1) Os seres humanos agem com relação às coisas, tomando por base o significado que as coisas têm para ele; 2) O significado de tais coisas, às vezes, surge de uma interação social que a pessoa tem com seus iguais; 3) Esses significados são manipulados e modificados através de um processo interpretativo, usado pela pessoa para lidar com as coisas que ele encontra. (CASAGRANDE, 2014) Portanto, as concepções críticas/reflexivas após a aceitação do Câncer, o interacionismo realizado através da linguagem, gestos e símbolos por profissionais e familiares para com o diagnosticado influenciarão diretamente na construção e desconstrução da significação que todos os processos inerentes à doença irão possuir, por meio da ação/ reação. As interpretações que irão surgir a cada ação realizada por profissionais/familiares por meio da interação social aliadas à criticidade construída, proporcionarão ao indivíduo a consciência necessária para contribuir de forma positiva ou negativa no tratamento. Faz-se necessário para alcançar a confiança deste paciente além do uso de gestos, símbolos e linguagem adequada, que a equipe hospitalar seja multidisciplinar e possua formação humanizada, vendo este indivíduo como um ser holístico e não de forma fragmentada. Surge a partir daí, um exercício filosófico: Como informar um diagnóstico cancerígeno? Como descontruir nos indivíduos diagnosticados a obscuridade na qual a doença é pautada? O que fazer para que este indivíduo aceite que se encontra enfermo e necessita tratar-se, caso contrário, as chances de cura serão reduzidas? O cuidado vai além da clínica, ele perpassa por ações humanísticas e interacionistas, nas quais tem o diálogo como sendo a premissa necessária para o desenvolvimento destas ações de forma satisfatória. Aliado a este, o estabelecimento de uma relação interpessoal entre profissional/paciente favorece o surgimento de confiança que implicará de forma significativamente positiva no cuidado a ser prestado. Posto isso, deve-se mostrar as estatísticas que o Câncer possui. Segundo o INCA, atualmente a doença possui elevado índice de cura, visto que houve grande avanço tecnológico e algumas descobertas científicas favorecem para que os diagnosticados venham a curar-se. Esse percentual aumenta quando aliado à prevenção e a não exposição a fatores de risc,o tais como: tabagismo, exposição solar, radiação, obesidade, uso de álcool, obesidade, má-alimentação, medicamentos e práticas sexuais sem proteção, não praticar exercícios físicos. Nesse sentido, Comenius (1997) explica que para Sêneca “Não recebemos uma vida breve, mas tornamo-la, nem temos menos que o necessário de vida, mas desperdiçamo-la. Se se souber fazer bom uso da vida, ela é longa”. Portanto, os não se expor a fatores de risco e realizar os procedimentos preventivos necessários para detectar o Câncer em seu estágio inicial, auxiliam ao prolongamento da vida e sobrevida. O papel do Enfermeiro enquanto cuidador no combate ao Câncer REVISTA BARBANTE - 8

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No exercício filosófico questiona-se : Como conscientizar o usuário de que este necessita de um cuidado integral, humano, equânime e igualitário? No que concerne ao profissional de enfermagem, atribuo essa tarefa de educar-conscientizar como sendo difícil, visto que os usuários encontram-se habituados a serem tratados por meio de modelo curativista, o qual os trata apenas como um ser biológico e não holístico, sendo que o subjetivo de cada um, bem como as interfaces sociais e psíquicas contribuem de modo significativo para que adquiramos patologias, assim como para que haja a cura. É importante ressaltar que muitos destses profissionais que optam pelo modelo curativista encontram- se sobrecarregados, em virtude de uma carga horária excessiva, a correria e automatisto, feito muitas vezes pelos anos de prática profissional, assim como a superlotação dos locais de saúde, não os permite prestar um atendimento preventivo que busque prolongar a vida dos usuários a que este atende. Por outro lado, talvez seja cômodo para ambos (usuário e profissional), que o atendimento seja rápido, e voltado apenas para o biológico. Diante do exposto, faz-se necessária inicialmente, uma valorização da categoria dos profissionais da Enfermagem, por meio dos gestores oferecendo aos referidos profissionais, as condições necessárias no que se refere a melhores salários, diminuição de carga horária e infraestrutura nos locais de saúde de modo a proporcionar a realização de um trabalho eficaz para com os usuários, pois se motivados, estes prestarão um serviço humano e integral a todos que buscam o atendimento. O profissional enquanto educador deve buscar meios para desenvolver em comunidade ações interativas, a fim de que o paciente desenvolva senso crítico/reflexivo enquanto cidadão, conscientizando-os acera do papel participativo do mesmo enquanto sujeito ativo do processo inerente ao Sistema Único de Saúde (SUS), quanto a direitos, deveres do paciente oncológico, conforme preconiza a portaria. Como corrobora Silva com a seguinte colocação: Um cidadão atuante é um indivíduo capaz de enfrentar com racionalidade os problemas sociais, de levar em consideração todos os valores em jogo e de ser capaz de reconstruir essa situação problemática transcendendo a ordem específica da sociedade em que se vive. (SILVA, 2009, p.97). Enquanto líder da equipe, deve ser feito com que todos os inseridos nesta, tornem-se conscientes de sua importância para que o trabalho seja exercido a contento, a fim de obter a cura do paciente, desfazendo hierarquias e desmistificando que o Enfermeiro somente gerencia e delega funções. Portanto, a interação realizada deve contemplar gestos, nos quais o mesmo se envolva junto aos demais profissionais, pois, Casagrande (2014) aponta que para Mead : "Somente na medida em que alguém pode identificar com o bem comum seu próprio motivo e o fim que realmente persegue, somente nessa medida, poderá alcançar a felicidade moral.[...] (Mead, 1992, p.35). Percebe-se nessa citação, que a necessidade de reconhecimento social favorece a motivação que, por conseguinte, faz com que o tratamento quimioterápico ou radioterápico seja realizado a contento, e o indivíduo seja incluso no processo terapêutico realizado como sujeito ativo e participativo em todas as ações realizadas, de modo a ter acesso contínuo sobre o cuidado prestado ao mesmo. Por fim, ressalta-se a necessidade de se conhecer a comunidade e o paciente diagnosticado, para que através de seu conhecimento crítico/ reflexivo e com base no olhar para o outro, identifique-se como intervir para melhor desempenhar as ações de promoção à saúde e prevenção ao Câncer. Mead afirma que: [...] "O senso do todo é precioso para a educação, pois estabelece a ponte entre a sensibilidade e a ação intelectual da consciência." (Mead, 2008, p. 66). CONSIDERAÇÕES FINAIS Após a elaboração do presente trabalho, foi possível constatar que a filosofia meadiana é de grande relevância para a enfermagem. Medeiros (2016) explica que para Mead é necessário o olhar para “si”, para o “outro” colocar-se no lugar do “outro”, o reconhecimento contribuiria para constituição do self. Essa ação está ligada à prática do profissional de enfermagem, o qual objetiva prioritariamente, cuidar do outro, estabelecer uma relação de confiança entre o profissional e o sujeito. O cuidado é evidenciado pelo profissional de enfermagem de maneira verbal e não-verbal, atendendo os aspectos físico e emocional, de modo a preservar a dignidade de ser humano que é. A dor manifestada pelo outro sensibiliza o profissional, que busca em suas ações o seu alívio, mediante atitudes de empatia e resiliência na prática cuidativa. No tocante ao cuidado interativo, percebe-se que é por meio das interações e das relações construídas socialmente que o indivíduo reconhece-se como objeto. Pois, quando o indivíduo interage e adquire consciência de si REVISTA BARBANTE - 9

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próprio transforma-se em um objeto para si, devido às relações sociais estabelecidas deste indivíduo para com outros. As interpretações que irão surgir a cada ação realizada por profissionais/familiares por meio da interação social aliada à criticidade construída, proporcionarão ao indivíduo a consciência necessária para contribuir de forma positiva ou negativa no tratamento. Faz-se necessário para alcançar a confiança deste paciente além do uso de gestos, símbolos e linguagem adequada, que a equipe hospitalar seja multidisciplinar e possua formação humanizada, vendo esse indivíduo como um ser holístico e não de forma fragmentada. REFERÊNCIAS: ADORNO, T. W. Educação e emancipação. São Paulo: Paz e Terra, 1995. COMENIUS. J.A. Didática magna. Comenius; tradução Ivone Castilho Beneditti. – São Paulo: Martins Fontes, 1997. – Paidéia. CASAGRANDE, Cledes Antônio. G. H. Mead & a Educação. Belo Horizonte: Autitora, 2014. (Coleções pensadores & Educação). CYRULNIK, Boris. Resiliência: essa inaudita capacidade de construção humana. Editons.Odile. Jacob. 2001 MEDEIROS, S. S. M. Resiliência e a ética na escola: do ser ao dever ser: gestão da Escola Estadual Otávio Lamartine na cidade de Cruzeta-RN. Caicó: INFORCENTER, 2010. ______. Gestão participativa em educação: compasso e descompasso de uma experiência de democracia no espaço escolar. Natal, RN: Editora. INFORCENTER, 2008. ______,. Memórias e Identidade Social da Formação Docente em Rio de Contas nas décadas de 1920 a 1960: reminiscências das educadoras e educadores da cátedra à universidade / Mafra Medeiros, Shirlene Santos. UESB. Doutorado em Memória, Linguagem e Sociedade, 2016 SALETE, M. B. J, HELENA C. A. F. L. Interacionismo Simbólico e a possibilidade para cuidar em enfermagem. Revista Escola de Enfermagem. USP, 2005. Instituto Nacional de Câncer. Disponível em: http://www2.inca.gov.br/wps/wcm/connect/inca/portal/home. <> ALVES, M. Disponível em: http://www.marisapsicologa.com.br/. <> REVISTA BARBANTE - 10

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Depoimentos REVISTA BARBANTE - 11

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ABRAÃO E O SEU URSINHO DE PELÚCIA NA LUTA CONTRA O CÂNCER Meu nome é Rogério Soares, sou pai e avô de Abraão. Uma criança linda e cheia de alegria, mas a vida tem os seus mistérios e Abraão foi um desses anjos que Deus nos presenteou. Abraão, tem três anos e nasceu com Síndrome de Down. Mas perfeito, sem problemas com a visão, audição e nem cardiopatia, apesar de por causa da síndrome ele tem uma porcentagem maior de desenvolver alguma complicação cardíaca, por isso que ele tem uma alimentação diferenciada, visando ter um futuro excelente. Apesar da síndrome não atrapalhar em nada, infelizmente em um acidente simples como uma queda do sofá nós viemos a descobrir um câncer na escápula direita e um linfoma. Entre a descoberta e o início do tratamento foi super rápido, isso graças ao Hospital Infantil Varela Santiago e a Dra. Luciana que é a oncologista dele. Começamos o tratamento com quimioterapia em uma semana após o resultado da biópsia, foram muitos internamentos para fazer quimioterapia de vinte e quatro horas; um sofrimento maior por ser Down ele não fica totalmente quieto, graças a Deus, comigo na hora de acessar a veia ele se sentia muito mais seguro e mesmo assim ele várias vezes perdia a veia e a quimioterapia queimava a pele chegando a queimaduras de terceiro grau o que é bastante dolorido. Após quatro meses Abraão entrou em manutenção fazendo quimioterapia todas às quartas-feiras, duas semanas é intramuscular e uma semana endovenosa. Na semana que tem a endovenosa é a parte mais difícil, tanto pra ele como para mim, pois nesse dia ele é furado no mínimo três vezes, pois ele faz exame de sangue endovenosa e intramuscular. Mas, na graça de Deus, ele é muito forte com toda esse tratamento ele nunca perdeu cabelo nem mudou sua forma de vida, menino peralta vinte e quatro horas no dia, só para quando está dormindo. Como o tratamento é no mínimo dois anos aguardamos, agora, o protocolo de quimioterapia pra saber quando vamos ter alta. A medicação que ele toma em casa diariamente: Nistatina oral 4x ao dia, Purimethal comprimido ¾ todos os dias, Bactrim 400mg nas segundas, REVISTA BARBANTE - 12

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quartas e sextas-feiras, Ranitidina, Corticóide. Rezamos todos os dias pela sua cura. É tudo o que podemos fazer, acreditar no bom Jesus. REVISTA BARBANTE - 13

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DEPOIMENTO Sempre fui regrada com meus exames de rotina. Certo dia, notei um sangramento leve na mama direita e logo procurei o mastologista que me acompanha desde 2008. Nunca tive nada grave na mama; esse acompanhamento era só rotina mesmo, que fiz questão de começar cedo, apenas para ser vigilante com a saúde. Então, foram feitos todos os exames de imagem e laboratoriais, que diagnosticaram apenas um trauma num ducto de leite. Marcamos cirurgia para resolver esse caso. No procedimento foi retirada uma parte da minha mama para biópsia; e daí veio o resultado – um carcinoma. A notícia foi um baque! O chão parecia que tinha sumido e eu estava caindo em um abismo. A primeira coisa que pensei foi nas minhas filhas, Natália e Maria Luíza (crianças). ‘Meu Deus! Quero vê-las crescerem!’ O emocional virou de cabeça para baixo, e eu achava que morreria no outro dia. Foi algo inesperado e duro de aceitar! Passei uns dias muito mal, achando que tudo estava perdido. Mas, voltei ao consultório e Dr. Yuri Andrenovich, o mastologista, me orientou sobre todas as chances de cura que eu tinha. E, assim, comecei a seguir todos os passos que eu deveria para enfrentar essa batalha. Afinal de contas a doença já estava ali e eu só tinha dois caminhos: me entregar e esperar o pior; ou enfrentar tudo e usar todas as chances que eu tinha. Escolhi enfrentar! Como falei, eu queria ver minhas filhas crescerem... Elas foram a minha maior motivação. Passei por uma mastectomia, feita por Dr. Yuri; com reconstrução mamária, feita por Dra. Valéria Karla (cirurgiã plástica). Os procedimentos cirúrgicos e os resultados pós-operatórios foram um sucesso. Após o período de recuperação, iniciei, sob a orientação de Dra. Danielli Matias (oncologista) as sessões de quimioterapia (QT)... Momento bem difícil! Perdi os cabelos, mas não perdi a cabeça. A fé na cura continuava forte. O apoio da família e dos amigos, e até de pessoas que eu nem conhecia, foi fundamental. Fiquei debilitada, nesse período, mas sabia que tudo iria passar. Houve dias que eu nem conseguia sair da cama; que não conseguia nem levantar os braços; andava com dificuldade e tinha que fazer as refeições na cama. A quimioterapia tira toda a nossa força física. Mas, como cristã, estava certa de que meu Deus estava no comando de todas as coisas e eu só precisava fazer a minha parte e confiar. Quando eu estava REVISTA BARBANTE - 14

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