Livro - Histórias da Cantina do Lucas

 

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Description

Conheça um pouco mais sobre a Cantina do Lucas, capítulo fundamental na história de Belo Horizonte.

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HISTÓRIAS DA RUA DA BAHIA E DA CANTINA DO LUCAS

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Brenda Silveira Luiz Otávio Horta HISTÓRIAS DA RUA DA BAHIA E DA CANTINA DO LUCAS organização Brenda Silveira editor-colaborador Jeferson de Andrade co-editores Geraldo Magalhães Brenda Silveira pesquisa iconográfica Rua da Bahia Elder Mourão editoração André Vasconcelos edição Realizar Cine Vídeo & Idéias Ltda.

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© Brenda Silveira / Luiz Otávio Horta direitos desta edição: Realizar Cine Vídeo & Idéias Ltda. organização: Brenda Silveira concepção do projeto gráfico e revisão: Elder Mourão foto da capa: Alessandro Carvalho arte-final da capa: André Vasconcelos estagiária-pesquisadora: Maria Júlia Gomes Andrade reprodução do acervo fotográfico do Museu Histórico Abílio Barreto: Alessandro Carvalho   Silveira, Brenda S587 Trilhas urbanas: histórias da Rua da Bahia e da Cantina do Lucas / Brenda Silveira e Luiz Otávio Horta. – Belo Horizonte: Realizar Cine, Teatro, Vídeo & Idéias Ltda, 2002. 222 p. : Il. Ilustrado com fotos. 1. Belo Horizonte – Rua da Bahia – Descrição – História. 2. Cantina do Lucas – Histórias – Depoimentos. I. Horta, Luiz Otávio. II. Título. CDD: 981.511 CDU: 93 (815.11) Bibliotecária responsável: Maria Aparecida Costa Duarte CRB 6 / 1047 edição Realizar Cine Vídeo & Idéias Ltda Rua Espírito Santo, 2006/203 – Lourdes 30130-032 – Belo Horizonte – MG

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Apresentação 1 Rua da Bahia: um endereço histórico 11 2 Cantina do Lucas: um bar bem cultural 119

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APRESENTAÇÃO Na construção deste livro-reportagem tentamos redesenhar com palavras, os traços, o frescor, o encanto, os hábitos, os costumes, a lógica de uma cidade que se foi alterando pela evolução natural de uma sociedade em desenvolvimento. Um trabalho complexo no qual vezes sem conta surpreendi-me tentando reconstruir seus monumentos demolidos, revisitar seus mortos, desnudar o passado daqueles que escreveram cada capítulo da história desta generosa, acolhedora e persistente Rua da Bahia. E, de seu fruto mais carnudo: a resistente, quarentona - hoje Bem Cultural - Cantina do Lucas. Por isso mesmo, não seria pretensão abarcar nas páginas que se seguem todas as linhas de fatos que teceram e tecem a trama centenária deste vigoroso cenário cultural e histórico da capital mineira. Para tanto seriam necessários talvez mais cem livros, cem mãos, cem vezes, cem páginas. Isso porque se Belo Horizonte tem útero, este é a Rua da Bahia: território livre de preconceitos - província e metrópole. Com sua capacidade inata para harmonizar os contrários, talvez aí o grande segredo, a Rua da Bahia tornou-se arena perfeita para a gênese criativa de lúcidos e bêbados, medíocres e geniais, moralistas e imorais, ilustres e anônimos, anjos do bem e do mal, seres da mais pura ambiência boêmia, filhos de uma mesma mãe. Se a história de Belo Horizonte se confunde com as histórias de seus cafés, bares, restaurantes e cantinas, a história da Rua da Bahia foi e é em grande parte moldada na Cantina do Lucas, referência comportamental incontestável para algumas gerações. Para recompor parte da trajetória de suas pessoas e fatos, embarcamos na aventura de reportar o “espírito” da Rua da Bahia através de informações historiográficas, iconográficas e de episódios relatados por personagens vivas ou fixadas na memória escrita daqueles que já não estão aqui, em crônicas literárias da mais prazerosa leitura. Também fundamental nesta trilha de desfazer o presente para refazer o passado foi a parceria madura, competente e vigilante de um de seus protagonistas: o jornalista e cineasta Geraldo Magalhães, como o foram a dedicação e sensibilidade dos repórteres Jeferson de Andrade, Luiz Otávio Madureira Horta e Elder Mourão, da pesquisadora-estagiária Maria Júlia Gomes Andrade e do olhar criativo da André Vasconcelos. Sem falar, é claro, de inúmeras pessoas que, generosamente, nos forneceram dados, documentos, informações e depoimentos. Em 09 de dezembro de 1997 a Cantina do Lucas foi tombada pelo Departamento de Memória e Patrimônio Cultural da Secretaria Municipal de Cultura de Belo Horizonte como Bem cultural no reconhecimento cabal de sua importância. A cristalização desse sentimento foi genuinamente expressa por um de seus fiéis freqüentadores – o teatrólogo Helvécio Guimarães – que declarou: “deveriam tombar a alma da Cantina do Lucas.” Brenda Silveira Organizadora

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AGRADECIMENTOS Arildo Ferreira Hostalácio / Dinorah Maria do Carmo / Durval Ângelo / Edmar Roque / Família Antônio Correa Dolabella / Flávio de Lemos Carsalade / Geraldo Magalhães / Lorelei Simil Schneider / Luis Góes / Luiz de Mello Alvarenga Neto / Marco Antônio Marinho Vale / Márcia Machado / Marcílio Antônio Palhares Horta / Paulo Vilara / Rebecca Ferrari / Regina Vasconcelos / Rogério Cardoso / Simone Natália Fernandes / Soraya Dutra / Thaís Velloso Cougo Pimentel a todos que nos concederam seus depoimentos, histórias e emoções Arquivo Público Mineiro / Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais-BDMG / Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico-IEPHA / Museu Histórico Abílio Barreto / Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais / UAI Grupo Cultural.

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1 Rua da Bahia: um endereço histórico Brenda Silveira para Carol, Camila e Sofia

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em homenagem a LÍDIA AVELAR

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"A cultura, no amplo conceito antropológico, é o elemento identificador das sociedades humanas e engloba tanto a linguagem na qual o povo se comunica, conta suas histórias e faz seus poemas, como a forma como prepara seus alimentos, suas crenças, sua religião, o saber e o saber fazer as coisas, seu direito. Os instrumentos de trabalho, as armas e as técnicas agrícolas são resultado da cultura de um povo, tanto quanto suas lendas, adornos e canções." (Souza Filho, Carlos Frederico - Mares de. Bens Culturais e proteção jurídica. Porto Alegre, EU / Porto Alegre.140p.p.9)

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Percorremos a RUA DA BAHIA na tentativa de recuperar em fragmentos da sua história a memória de seus vários cenários. Reconhecemos não uma única Rua da Bahia evoluindo linearmente ao longo do trajeto. Ao contrário, nos defrontamos com várias Ruas da Bahia, sendo construídas e transformadas a um só tempo. Uma Rua multifacetada, cujas imagens históricas, em sua maioria, são retalhadas, recortadas, devastadas no acelerado e, em alguns casos, estúpido processo de especulação imobiliária e evolução urbana. Regras de uma dinâmica que, em nome de uma tal modernidade, não se detêm em preservar seus ícones arquitetônicos – templos de sua referência histórica – e negligencia sua identidade cultural e sua memória afetiva. Encontramos uma Rua que, em menos de quatro décadas, passa de um simples traçado no solo a lugar indispensável na bucólica vida social do início do século passado. Mais adiante desdenhará seus sobrados e edificações belle-époque em favor de modernos arranha-céus. O que podemos ver, a partir de então, é sua rápida transfiguração em aflito e desconfortável corredor para passagem de modernos veículos de transporte e de apressados, amedrontados metropolitanos transeuntes. Imagem contemporânea que nem de longe nos remete à origem de sua essência vigorosa e fundamental na construção do caráter cultural da cidade. Uma Rua cujo sentimento de seu povo já subestimou a Avenida Afonso Pena. Rua que se subia e descia lentamente de bonde, revelando aos curiosos passageiros a intimidade dos sobrados particulares. Arborizada que era, uma Rua perfumada pelo frescor das magnólias e damas da noite. Parlatório onde muitos falavam mal de outros. Onde tantos privilegiados dançavam nos saudosos bailes do Clube Belo Horizonte, do Minas Tênis Clube ou se juntavam aos populares na democrática “batalha real” no carnaval de rua da primeira metade do século XX. Rua que se tornava imensa para acolher a aglomeração popular defronte ao Cine Odeon. Que tramava ao “pé do ouvido” para receber a elite política nos banquetes do Grande Hotel. Rua que era adoçada pelas balas da Confeitaria Suíça. Cenário para a inspiração poética e romântica de seus primeiros literatos nas mesas de tradicionais cafés e que era apimentada pelo menos ingênua e falsamente ignorada zona do meretrício. Arena boêmia de incontáveis notívagos, intelectuais, artistas. Ribalta para a juventude politizada e rebelde dos anos 60 – desafio permanente à ditadura militar nas inúmeras mesas de seus não menos numerosos bares. Uma Rua na qual foram rascunhados os primeiros traços da personalidade de toda a população que nascia, crescia e firmaria esta Belo Horizonte como uma das mais importantes capitais do país. Por isso tudo caminhamos atentos e, como se fosse possível, voltamos no tempo para esquadrinhar esse fantástico universo, ainda presente no nosso cotidiano: Rua Da Bahia. A latente e promissora Bahia dos empreendedores do início do século XX, da Estação de Trens, das pensões de estudantes, do comércio popular. A bucólica Bahia dos poetas, dos literatos, do Bar do Ponto. A elegante Bahia das senhoras da alta sociedade, dos cafés, das confeitarias, da charutaria Flor de Minas. A elitista Bahia dos políticos, do Grande Hotel. A irreverente Bahia dos artistas, dos estudantes, dos jornalistas, dos cinemas, dos teatros. A culta Bahia da livraria Francisco Alves, da Academia Mineira de Letras. A Bahia do dedo de prosa na Farmácia Abreu. A alegre Bahia do Clube Belo Horizonte, das “missas dançantes” no Minas Tênis Clube, do carnaval popular, da Banda Mole. A proibitiva Bahia das prostitutas e de seus cafetões.

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A próspera Bahia dos estabelecimentos comerciais e bancos. A contestadora Bahia dos jovens rebeldes dos anos 60. A boêmia Bahia do Estrela, da Elite, do Trianon, da Gruta Metrópole, do Lua Nova, do Albamar, da Lanchonete Nacional e de todos os bares que fizeram tecer sonhos, delírios, ideais e seduções Bahia afora. A histórica e provinciana Bahia dos bondes e trólebus. A metropolitana Bahia do edifício Maletta, do trânsito alucinado, dos pivetes, das correrias do dia-a-dia, das tentativas de recuperação do seu passado. A Bahia da Cantina do Lucas. A eterna Bahia do Lucas. Uma Rua que de tantas revela-se particularmente única e permite múltiplos olhares, transformando-se na Bahia de Abílio Barreto, Moacyr Andrade, Pedro Nava, Paulo Mendes Campos, Hélio Pellegrino, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Rubião, Cyro dos Anjos, Fernando Brant, Fernando Sabino, Rômulo Paes, Affonso Romano de Sant’Anna, Petrônio Bax, José Bento Teixeira de Salles, Cyro Siqueira, Fernando Gabeira, Cordélia Fontainha Seta e de todos aqueles que se dispuseram a tentar desvendar sua quase indecifrável personalidade, escritores e protagonistas de suas inesgotáveis histórias. Peçamos permissão ao tempo e caminhemos a pé, de bonde, de automóvel, nas letras de seus cronistas, por essa cidade que nasce provinciana, concentrando seus primeiros movimentos em uma Rua principal. Surge pretensiosa, suscitando polêmica, críticas e curiosidades. Uma cidade e uma Rua cujo olhar histórico registrado tende a refratar sua narrativa aos focos de acontecimentos elitistas e subjugar sua face popular. Estamos entre os anos de 1894 e 1895. Vemos no coração do Estado de Minas Gerais, onde antes havia um lugarejo de nome Curral del Rey, uma cidade em construção. Uma ousadia do pacato povo mineiro após calorosa discussão envolvendo a transferência da capital de Ouro preto para outro local, o sonho mudancista que marcou a Nova República. De estudos e pesquisas elaborados por uma comissão construtora nomeada, surge, do traçado do engenheiro responsável Aarão Reis a planta de uma cidade, em formato xadrez, com quarteirões medindo 120m x 120m. A partir de então o local se transforma em um verdadeiro canteiro de obras, e passa a ser conhecido como Cidade de Minas, até o ano de 1901. Canteiro de obras com a primeira Estação de Trens ao fundo. (Acervo da Família Antônio Correa Dolabella–AFACD)  

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Esta ganha o apelido, dado por seus imigrantes e visitantes, de “poeirópolis”, devido à nuvem de poeira que cobre o lugar, resultante da intensa movimentação para a implementação da infra-estrutura. No início do século XX, a prefeitura de uma cidade semiconstruída, chega a instalar um serviço regular de irrigação. Providencialmente executado por um bonde com a função de molhar as ruas de chão batido, esta iniciativa é aplaudida pelos habitantes e imprensa local. “Ora, até que enfim! Devido às imprecações nossas contra essa maldita poeira que nos sufoca e nos muda a cor da roupa, a “Prefeitura Divina” apiedou-se de nós esta noite, mandando-nos um pouco de chuva.” (Folha de Minas. 1918. In: Bello Horizonte: bilhete postal Coleção Otávio Dias Filho. Belo Horizonte: Centro de Estudos Históricos e Culturais Fundação João Pinheiro, 1997. Coleção Centenário. 204 p. p.80) Desapropriações, demolições, demarcação de terrenos, captação e canalização de águas, essa é a rotina agitada dos pioneiros que vêm atraídos pelas facilidades que o governo lhes oferece para trabalharem e habitarem a nova capital de Minas. Como não poderia deixar de ser, todo esse burburinho da construção acaba se transportando dos braços operários para o meio intelectual da época que efervesce em apimentados debates sobre o assunto. Especialmente com relação ao nome a ser oficializado, “Bello Horizonte”, escolhido pelo Governador João Pinheiro. Até mesmo Machado de Assis, um dos maiores expoentes da literatura e da imprensa nacional, revela sua opinião e, com fina ironia, o seu desagrado quanto à denominação da capital mineira, em crônica publicada no jornal Gazeta de Notícias, em janeiro de 1894. “Sabe-se que Minas já escolheu o território de sua capital cuja descrição Olavo Bilac está fazendo na Gazeta. Chama-se Belo Horizonte. Eu se fosse Minas, mudava-lhe a denominação. Parece antes uma exclamação que um nome.” (Mário Casasanta. 1898. 1963. Machado. Belo Horizonte. In: Folha de Minas. 10 de março 1948. p.4) Como que ignorando a contrariedade de Machado de Assis e as discussões em torno de sua instalação, as obras seguem em ritmo frenético. Um ano depois, em 1895, já existe um ramal ferroviário responsável pela ligação com a localidade de General Carneiro. O entroncamento destes trilhos com as linhas da Central do Brasil permite o transporte de todo o material pesado das obras da capital. Neste ramal está planejada a edificação da Estação de Trens considerada, deste então, pórtico de entrada da cidade, e no seu entorno a construção da Praça da Estação. Nos arredores desta estação que está por vir, nasce a Rua da Bahia, predestinada por seu idealizador à objetiva missão de servir como principal via entre a Estação Ferroviária e o Poder Público centrado na Praça da Liberdade, epicentro das atividades de Belo Horizonte. Mesmo antes da inauguração, percebemos que a Rua da Bahia já se estabelece como incontestável corredor entre aqueles dois importantes vetores de ocupação urbana, possibilitando à “Mariquinhas” – uma pequena e charmosa locomotiva – o escoamento do material de edificação do Palácio, das Secretarias e do primeiro prédio destinado à Imprensa Oficial, que viriam a compor o histórico conjunto arquitetônico da Praça da Liberdade. Se no papel seu destino está traçado, no cotidiano a Rua da Bahia supera e até mesmo subverte tal incumbência: mais que passagem obrigatória, torna-se indispensável à vida da cidade. Revela sua misteriosa e inequívoca vocação como centro criador e propagador dos hábitos e costumes de uma nova sociedade que surge no centro do estado de Minas Gerais. Motivo para a percepção aguçada de seus primeiros intelectuais, escritores, poetas e artistas, é cantada e decantada como o próprio mundo, onde tudo acontece.

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“A vida é descer a Rua da Bahia que tinha dois ou três quarteirões de cidade grande, de prazer (...) Era a vida. Mas a Rua da Bahia, com seus dois quarteirões comerciais era a rua. Sem a vastidão da Avenida, onde a alma provinciana ainda não se acomodava, contentando-se de admirá-la. A Rua da Bahia era naquele trecho o lado feérico dos habitantes, a fantasia, a inquietação. Quem desejasse um cigarro de fumo fresco ou a extravagância de um charuto, ia para lá. Quem desejasse um bilhete de loteria, ia para lá. Quem sentisse um súbito desejo de sorvete, uma tentação de chope, um alvoroço de empadinha quente, um arrepio de moça bonita, um abismo de mulher casada, uma nostalgia de livro francês, ia tudo para lá. Todos iam para a Rua da Bahia. Todos subiam ou desciam disfarçando a ansiedade na esperança de um olhar, um encontro, uma aventura, um pecado, o mundo.” (CAMPOS, Paulo Mendes. Subir e descer Bahia. In: ANDRADE, Carlos Drummond de (org.) Brasil, terra & alma. Rio de Janeiro: editora do Autor. 1967) Inaugurada em 1897, apenas em 1901 a nova capital adota oficialmente o nome que não agrada Machado de Assis, Bello Horizonte. Passa então a receber visitantes ilustres: a curiosidade de alguns acaba por se transformar em franco deslumbramento e, de outros, em puro desalento. Início da construção da estação ferroviária da Central, vendo-se os engenheiros. (Acervo Museu Histórico Abílio Barreto – AMHAB)   Estamos na primeira Estação de Trens e vemos aportar o escritor, teatrólogo e jornalista Arthur Azevedo. Após sua estada em Belo Horizonte, publica no jornal O Paiz, em novembro de 1901, um exultante artigo citando a Rua da Bahia como uma das principais artérias da cidade. “... Metemo-nos em dois carros e atravessamos a principal artéria da cidade, em demanda da casa do coronel Martins, situada quase no ponto extremo. Nessa primeira visão rápida, fugaz, Belo Horizonte me deu uma bela impressão de opulência e grandeza. Nem uma rua: tudo avenidas. Nem uma habitação modesta: tudo palácios, palacetes ou casas assobradadas, de aparência nobre, sacrificando ao jardim boa parte do terreno... A casa em que reside o coronel Martins, no extremo da rua da Bahia, é propriedade do Dr. Pádua Rezende, que mandou construíla para seu uso...” (Cópia do microfilme do original do “O Paiz”, de 22 de novembro 1901. Revista do Arquivo Público Mineiro, ano XXXIII – 1982)

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Olavo Bilac, junta-se à opinião de Arthur Azevedo, e descreve Belo Horizonte de forma encantadora: “... criou-se, como por milagre, no meio de um rude sertão, uma bela cidade moderna, com avenidas imensas, com palácios formosos, com admiráveis parques! Pelas ruas largas e arborizadas, rolam bondes elétricos: lâmpadas elétricas fulguram entre os prédios elegantes e higiênicos; motores elétricos põem em ação, nas fábricas, as grandes máquinas cujo ron-rom contínuo entoa os hinos do trabalho e da paz.” (BILAC, Olavo. 1903. In: Bello Horizonte: bilhete postal. 204 p. p.40) Já para Monteiro Lobato, a capital não causava tanto furor: “... extrema escassez de gente pelas ruas larguíssimas, a cidade semiconstruída, quase que apenas desenhada a tijolo no chão.” (LOBATO, Monteiro. 1937. In: Bello Horizonte: bilhete postal 204 p. p.20) “As avenidas e ruas, apenas traçada, tinham quarteirões inteiros sem uma única construção. Em alguns, uma casa aqui outra acolá, exceto a Rua da Bahia, entre Avenida Afonso Pena e o Grande Hotel, já toda construída e onde andava a gente elegante da terra, discutindo política e falando mal dos outros.” (Augusto de Lima Júnior. In Estado de Minas. 15 de agosto 1963) Quando da inauguração da cidade, vemos instalados o comércio e os serviços necessários à infra-estrutura urbana, como o imponente Grande Hotel, construído no cruzamento de Bahia com Paraopebas (transformada em Av. Augusto de Lima no ano de 1936). O hotel abre suas portas antes mesmo da decretação oficial de “Bello Horizonte” como capital do Estado. Nessa época a população é de cerca de seis mil habitantes, composta principalmente por funcionários públicos e proletários mineiros, paulistas, baianos e portugueses. “O inaugurado era pouco mais que um acampamento, com algumas edificações de certa imponência, como o palácio e as repartições, muitas casas, ruas e avenidas traçadas, lojas, templos. Era habitada por operários dedicados às construções, funcionários, engenheiros, comerciantes e também desocupados, andando nas ruas empoeiradas ou enlameadas, entre andaimes e largos espaços vazios. De acordo com os rígidos costumes da época, apesar de tudo, os homens de condição não deixavam a gravata, a camisa de seda, as botas, como as mulheres que prosseguiam com seus vestidos compridos e caprichados. Andava-se em animais, raras bicicletas e mais raras carruagens, com tração animal. As linhas de bonde são do início do século atual (XX): começam a ser instaladas em 1901, inauguram-se em setembro de 1902.” (IGLÉSIAS, Francisco. s.d., p.12. In: Bello Horizonte: bilhete postal. 204 p. p.18) Trecho da Rua da Bahia e bonde. (AMHAB)  

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