Revista O Campo - 20ª edição

 

Embed or link this publication

Description

Revista O Campo - publicação do departamento de comunicação da Coopermota.

Popular Pages


p. 1

Edição 20 • maio | junho • 2017 gestão familiar na sucessão rural Produtor apresenta vantagens em milho irrigado por pivô Mexilhão traz grande impacto no custo de produção de pisciculturas maio | junho 2017 o campo 1

[close]

p. 2



[close]

p. 3

maio | junho 2017 o campo 3

[close]

p. 4

Suceder ao pai (mãe) ou trilhar novos rumos O avô de fulano comprou a propriedade onde ele cresceu, acompanhando seu pai na roça. Contudo, o ramo da agricultura não é exatamente o que está nos seus planos para o futuro. Fulano gosta da medicina. A propriedade rural, seja ela de grande ou pequeno porte, é um bem onde seus herdeiros ou sucessores atuam com entrega e dedicação. Assim como em outras profissões, ser agricultor exige que haja vontade por aquele que se envolve com a área. Não basta ser filho ou neto de produtor rural para nutrir dentro de si o gosto pelo negócio. Dificilmente alguém, de outros ramos profissionais, passa a se dedicar a agricultura sem nunca ter tido esta influência. Desta forma, a definição sobre o que fazer da propriedade na ausência dos progenitores não é uma tarefa fácil. Exige muita compreensão entre aqueles que teriam o direito àquela área. O destino da propriedade será o arrendamento para terceiros sem um envolvimento direto da família neste quesito? Algum filho ou neto irá se interessar em fazer daquela propriedade um de seus negócios propriamente dito? Aquela propriedade continuará sob o comando da família que hoje detém a posse dela? Diante da sua complexidade, a sucessão familiar nas propriedades rurais é e continua sendo tema de discussões e análises não só dos agricultores como também de pesquisadores de área acadêmicas. Em alguns casos, a adesão dos descendentes ocorre naturalmente, diante do potencial de negócio percebido por ele durante a sua vivência ao lado do avô, tio ou pai. Esta questão, entretanto, continua sendo um assunto mais voltado ao meio masculino. A sucessão de uma mulher no campo, sendo esta responsável pela decisão das medidas a serem tomadas ainda é exceção, embora ocorra em menor proporção. Em Cândido Mota e Palmital, encontramos dois casos de uma sucessão que provavelmente manterá as famílias retratadas na reportagem como proprietárias da área que segue há algumas gerações sob a posse de seus herdeiros. No primeiro caso, em Cândido Mota, o comando ainda permanece com o pai, Antônio Ireno, porém aos poucos seus filhos e neto, Donizete, Wilson e Kauê, tomam posse de pequenas áreas ou setores até assumirem de fato a propriedade. Já em Palmital, Alexandre Andrade já assumiu a gestão da propriedade herdada do avô e seu pai. Com algumas dificuldades conta a sua paixão pela agricultura. Além das abordagens sobre a sucessão familiar, a revista O Campo também traz reportagem sobre as vantagens da implantação de irrigação nas culturas de milho. Os benefícios desta tecnologia são retratados a partir da história da família Ludwig, de São José das Laranjeiras. O leitor desta edição da revista também terá informações sobre a cultura do feijão cultivado em área de sequeiro. Os resultados que Fábio Daparé terá nesta safra será a sua primeira experiência do produtor, tendo em vista a resistência que até então o seu pai nutria diante dos riscos da cultura. Uma curiosa variedade de mandioca, cultivada em Frutal do Campo, chamou a atenção da equipe de reportagem da O Campo, que foi até o sítio do produtor Antônio Facina para verificar o potencial produtivo da variedade. Avaliações visuais sugerem que a variedade, desconhecida atualmente, seja originada de um cruzamento espontâneo ocorrido na propriedade. Além disso, uma série de artigos também trarão ainda mais subsídio ao agricultor no trato de sua lavoura. Tenha uma boa leitura. Vanessa Zandonade Editora Expediente 4 o campo maio | junho 2017

[close]

p. 5

Olhar Cooperativo Expectativa de boa colheita Sumário 06 Famílias relatam processo sucessório de gestão de suas propriedades. 12 Pesquisa analisa impacto do mexilhão em pisciculturas. Na maior parte das áreas de abrangência da Coopermota, o visual das plantações de milho empolga. As boas condições climáticas verificadas pelo menos até a primeira quinzena de junho contribuiram para que houvesse um bom desenvolvimento nas culturas e despertaram expectativas de boa colheita. A Coopermota vem oferecendo diferentes formas de manter o produtor da região bem informado. Palestras de capacitação, cursos, eventos de demonstração de materiais, além da assistência técnica dirigida ao cooperado são as maneiras disponibilizadas pela cooperativa para a busca de alcançar o teto produtivo das lavouras. Sabemos que a informação é crucial, não só na agricultura como em qualquer outra atuação profissional ou social do ser humano. Nossos técnicos estão sempre atualizados para contribuir com as avaliações mais assertivas possíveis no encaminhamento das lavouras conforme a realidade de cada produtor, seja com maiores ou menores investimentos. Neste momento de vésperas de finalização da safra de inverno, o que esperamos é que essas perspectivas de bons negócios e de alta produtividade se concretizem, contribuindo também para boas condições de iniciativas no ponto de vista de investimentos para a safra verão, que logo em seguida já estará na pauta das tomadas de decisões dos agricultores. Esperamos que, de fato, os produtores obtenham bons resultados. Boa safra!!! Edson Valmir Fadel Presidente da Coopermota 16 21 24 28 30 32 38 42 45 48 Produtor fala de benefícios obtidos no milho com a irrigação via pivô central. Feijão cultivado em área de sequeiro apresenta perspectivas de boa produtividade. Possível cruzamento espontâneo de variedade de mandioca empolga produtor. Evento técnico de mandioca atrai centenas de produtores. Agricultores se mobilizam para criação de sede da Aprosoja/SP e Assis CampoCooper avalia comportamento de materiais em diferentes realidades de clima e solo. Festas juninas da Coopermota atraem milhares de pessoas em várias cidades. Artigo Embrapa: pesquisador avalia mudanças no histórico de produção agrícola. Artigo IAC: Uso de fertilizantes orgânicos é defendido por pesquisador. Artigo FCStone: Analista traz dados sobre o prêmio na composição do preço do milho. maio | junho 2017 o campo 5

[close]

p. 6

Sucessão na propriedade “Valorizo muito o trabalho do meu pai. Não vendo isso aqui por nada” “Fazer sucessores e não simplesmente herdeiros”. Um processo sucessório realizado com diálogo constante costuma trazer melhores resultados à propriedade e aos seus envolvidos” N o começo, o agricultor Antônio Ireno, 72 anos, trabalhava no campo dependendo prioritariamente de sua força. Os defensivos eram aplicados na lavoura com bomba costal e no preparo do solo, os animais eram o auxílio mais eficiente disponível. O trabalho ao lado do pai, seu José Ireno Filho, começou muito cedo. Aos oito anos já estava na roça e dividia o seu tempo diário com as tarefas da escola e da lida rural. “Quando minha irmã casou eu tive que deixar os estudos para cobrir a ausência dela. Mas nunca tive medo do trabalho e encarei isso com normalidade”, conta. José Ireno foi quem comprou as terras na região de Cândido Mota, hoje localizada na Água do Almoço, a qual vem sendo mantida sob gestão da família há pelo menos três gerações. Antônio Ireno conta que o pai deixou 14 alqueires como herança e desde então vem trabalhando para aumentar essa extensão para repassá-la aos filhos. “Desde quando separamos a sociedade com os irmãos venho preparando tudo para deixar aos meus filhos. Os bens que adquiro os registro no nome dos meus filhos. Hoje as coisas já são mais deles do que minhas. O segredo do sucesso em uma gestão rural é sempre trabalhar muito e com fé em Deus”, avalia. Antônio Ireno conta que “ganhou” a responsabilidade de trabalhar na lavoura muito cedo. “Quando já entendia o que meu pai pretendia, eu olhava aquilo com naturalidade. Via muitas pessoas que não conseguiam nada. Que pegavam heranças e acabavam com tudo. Acho que quanto a isso consegui cumprir o meu desafio de manter estas terras com a nossa família e ainda ampliar o que meu pai nos deixou”, afirma. Seu filho mais velho, Aparecido Donizete Ireno, 52 anos, avalia com orgulho o esforço do pai no trabalho desempenhado na propriedade que hoje atua. “Meu pai trabalhou muito aqui e essa questão da sucessão familiar a gente faz com muito diálogo e trabalho. Tudo o que vamos fazer tem muita conversa”, diz. Ao ser questionado sobre o choque geracional, bastante comum nestas questões, afirma que nunca teve problemas significativos com o pai, já que ele sempre foi adepto às novas tecnologias e formas de inovação na propriedade. 6 o campo maio | junho 2017 Capa

[close]

p. 7

Cândido Mota e Palmital O neto, Kauê, o avô, Antônio, e os filhos Wilson e Donizete. Atualmente, a sociedade da propriedade segue entre o progenitor, Antônio Ireno, acompanhado dos filhos, Aparecido Donizete Ireno e Wilson Atônio Ireno, bem como do genro Valdeciro da Rocha Dantas, esposo da filha Sandra Valentina Ireno Dantas, que por sua vez é mãe de Kauê Antônio Ireno Dantas, de 25 anos, que já segue como o possível sucessor na gestão da fazenda. Assim que terminou os estudos do ensino médio, decidiu se dedicar exclusivamente à vida no campo e divide com o tio, Donizete e o avô, Antônio Ireno, as decisões de gestão da propriedade. Antônio Ireno comenta que esta sucessão vem sendo feita gradativamente. Aos poucos cada um dos filhos vai assumindo alguma área da propriedade. Donizete lembra que passou a gerenciar seus negócios quando se casou. “Assumi uma área em meu nome mesmo quando me casei, mas meu pai sempre me levava em tudo o que ele fazia. Hoje a gente sabe que é preciso trabalhar sempre e andar com o pé no chão porque para ganhar é duro, mas é bem fácil para perder”, enfatiza. Acrescenta que valoriza muito o trabalho do seu pai que trabalhou muito para conquistar o que tem. “Se não fosse por ele não seríamos o que a gente é hoje. Não vendo isso aqui por nada, até mesmo porque não ganhei isso sozinho”, afirma. Suas duas filhas atualmente cursam medicina e é em Kauê que a família aposta para que a sucessão da propriedade se concretize entre seus próprios membros. Embora a passagem da gestão venha sendo realizada de forma gradual, o neto Kauê já assumiu toda a responsabilidade da sociedade quando o assunto é tecnologia. “Nesse ponto é ele quem decide”, enfatiza. Toda a atividade da propriedade dos Irenos é gerida e operacionalizada pela família. “Sempre gostei de trabalhar com a agricultura. Por enquanto nem penso em voltar a estudar. A minha vida é isso aqui. É o que eu faço. É o que gosto de fazer”, destaca. O tio, Donizete, comenta que tinha o sonho de vê-lo formado como engenheiro agrônomo, mas compreende que as pessoas precisam fazer o que gostam. Kauê comenta que a agricultura está muito ligada ao momento certo de plantio e as tomadas de decisões corretas. Neste quesito destaca a importância da tecnologia para esta medida. Donizete acrescenta que diante do alto custo da agricultura que, segundo ele, vem aumentando a cada dia, é necessário que todas as decisões sejam muito precisas. “É preciso fazer as coisas bem-feitas e com amor. Esta realidade que a gente vive hoje foi construída a partir de muito trabalho do meu pai. Eu tento seguir a forma de atuar dele”, avalia. O filho mais velho conta que ele e seus irmãos sempre trabalharam ao lado do pai. “Quando a gente voltava da escola já tinha tarefa definida para gente na roça. Às vezes a gente chamava os colegas para terminarmos logo o serviço e então sairmos para brincar. Naquela época meu pai trabalhava com mandioca e café”, lembra. Conta que o seu pai nunca foi um agricultor de delegar as funções na propriedade. “Meu pai sempre teve o jeito dele”, diz. Kauê destaca que no seu caso as coisas foram mais fáceis. “Até terminar a escola eu não mexia com lavoura. Estudava e fazia meus afazeres. Mas depois do colegial eu comecei a trabalhar com eles para valer”, diz. maio | junho 2017 o campo 7

[close]

p. 8

Alexandre Andrade acompanha de perto todos os processos de produção da Fazenda Santa Bárbara. } “Se meu filho for assumir a gestão desta propriedade no futuro, darei todo o respaldo a ele” “Ser agricultor está no sangue. Não se torna agricultor. Se nasce assim”, afirma o agricultor Alexandre Andrade da Silva, produtor rural de Palmital, de 36 anos. Ele conta que desde muito pequeno esteve envolvido com o trabalho na lavoura. “Vou para roça desde quando aprendi a andar”, brinca. “Sou apaixonado pela agricultura. Não consigo me ver em outra profissão, mas adoro desafios e não descarto nenhuma possibilidade que surja na minha vida”, acrescenta. A Fazenda Santa Bárbara, localizada na Água do Pavão, também conhecida como região da “Espanholada”, é gerenciada pela família de Alexandre há cinco gerações. Alexandre é filho de Antônio Leandro da Silva e Célia Aparecida de Andrade Silva. O início da gerência da propriedade por parte de Alexandre culminou quando chegou ao fim o contrato de arrendamento para a cultura da cana nas terras de sua mãe. Ao invés de renovar por outros 10 anos, convenceu o avô materno, José Sebastião de Andrade, a permitir que se envolvesse mais intensamente nas decisões da propriedade. As terras eram de propriedade do seu avô materno, enquanto que as máquinas eram de seu pai e tios, que se mantinham como sócios do empreendimen- O produtor tem a assistência técnica constante de agrônomos da Coopermota e das empresas responsáveis pelos materiais que utiliza. 8 o campo maio | junho 2017

[close]

p. 9

O produtor conta que sempre busca atualizar seus maquinários. Trator comprado em 2015. to rural. Alexandre já trabalhava ao lado de seus parentes e aprendia a “lida” desde muito jovem. A figura de seus dois avós, no entanto, foi muito importante no envolvimento do jovem agricultor para que ele se posicionasse à frente das decisões da fazenda, inclusive nas atividades bancárias. Neste caso, a iniciativa tinha ligação direta com o seu avô materno. Embora o trabalho que desempenhava ao lado de seu avô paterno, Sebastião Leandro da Silva, fosse ligado à criação de gado de corte, com viagens de trabalho e cotidiano em pastos e piquetes, ao assumir o plantio da propriedade da sua mãe, foi este avô quem lhe doou as sementes e os adubos para o primeiro cultivo sob sua gestão. Alexandre conta que teve algumas dificuldades no início desta atividade de gerência da fazenda, principalmente no que se refere ao sistema financeiro e bancário. “Aprendi isso com erros e acertos, não tive muita instrução nesta área”, afirma. Naquele período tinha 19 anos e cursava Agronomia, mas abandonou a faculdade para se voltar exclusivamente à gestão dos negócios da família. “Eu tomei a iniciativa. Tive uma certa dificuldade para trabalhar com banco, linhas de crédito. Foi um aprendizado diário para mexer com créditos, além das questões de cuidados com solo, clima e outros assuntos da gestão propriamente dita”, conta. Avalia que teve que se tornar maduro muito cedo e abrir mão de muita coisa, mas demons- A família de Alexandre Andrade posa para a foto, ao lado do primeiro trator adquirido por eles. maio | junho 2017 o campo 9

[close]

p. 10

A sucessão da gestão familiar nas propriedades é complexa. Sem uma preparação, a transferência de responsabilidade pode não ser rentável. tra se sentir fortalecido com isso. “Delego, mas acompanho todos os processos da fazenda pessoalmente. Sou um administrador que leva um pouco o lado conservador do meu pai, de não dar o passo maior do que a perna, mas busco sempre a inovação e a inserção de tecnologias no meu negócio”, afirma. Alexandre diz sempre buscar aliar a tecnologia à sua rotina para buscar melhores resultados no campo. “No meu gosto, alcancei 70% destas tecnologias para serem aplicadas na fazenda. Todo ano tem uma novidade e é muito difícil acompanhar. A gente tem um prazo curto para fazer trocas de maquinários e investimentos diante do custo destes equipamentos o o prazo que temos para quitá-los. Precisaria. Precisaria de no mínimo seis anos para novos investimentos. Os créditos disponíveis possuem taxas altas”, diz. Depois de já atuar na gerência da propriedade da família, em 2008 voltou a estudar, desta vez em curso de Administração. “Foquei na gerência. Avaliei que precisava ampliar este conhecimento, faltava a questão da gestão. Depois da faculdade mudou muito a minha forma de ver a propriedade, desde as questões de estoque, cronograma de vendas e compras até o gerenciamento dos funcionários”, afirma. A questão da sucessão na gerência da fazenda é avaliada por Alexandre como algo que vem ocorrendo com sucesso, pelo menos no meio onde está inserido. Avalia que pelo menos 80% dos amigos também assumiram a propriedade do pai. Comenta que Palmital é essencialmente agrícola e é composta por dezenas de agricultores jovens. “Por mais que a agricultura seja um negócio com uma situação instável, a adesão de jovens agricultores está voltando. Os agricultores de hoje são empresários do campo. Diante das informações, tecnologia, produtos, mate- riais desenvolvidos, o campo se tornou uma empresa que trabalha com produtos de primeiro mundo. Este setor possui tecnologia que outros setores ainda não têm. Temos maquinários com piloto automático, em que o operador só acompanha o processo. Não é qualquer segmento que tem a tecnologia tão avançada”, diz. Alexandre tem um filho com 13 anos. Segundo ele, Phelipe Deleo Andrade Silva vem afirmando que tem vontade de se tornar um engenheiro mecânico. “As tecnologias das máquinas o atraem muito. Não dá para saber ainda se se envolvimento no futuro será com as máquinas do setor agrícola, mas é fato que as altas tecnologias as altas tecnologia exercem fascínio sobre ele”, afirma. Contudo, enfatiza que se o filho for assumir os negócios da família pretende dar mais respaldo a ele. “Sofri por falta de conhecimento. Meu pai era muito conservador, embora sempre tive uma boa relação com ele. Em cinco anos, meu pai e meu avô passaram toda a responsabilidade da fazenda para mim. Eu gostava muito do desafio. Sempre tive vontade de resolver os problemas. Tinha uma visão de que meu pai já tinha trabalhado muito tempo na roça, então queria dar tranquilidade a ele”, diz. O pai, Antônio Leandro da Silva, trabalhou na roça desde os sete anos, em um período que a agricultura era baseada na força braçal e trabalho pesado. “Ele trabalhava arando a terra com o burro aos oito anos e quando aquilo enroscava tinha que chamar o avô para arrumar porque ainda não tinha força suficiente para isso. Eu vivi uma experiência diferente da dele. Eu sou de um período em que as coisas são mais burocráticas”, compara. Já o filho, Phelipe, esteve sempre envolto às questões administrativas da fazenda. “Ele será o que tiver vontade de ser”, conclui. 10 o campo maio | junho 2017

[close]

p. 11

“Muitos pais ou avós se deparam com o questionamento sobre como será cuidada a propriedade caso os progenitores se distanciem da gerência.” } quem vai suceder? Dúvida ainda presente entre muitos Embora haja muitos casos de sucesso na sucessão familiar, a decisão sobre a transferência de responsabilidade de gestão de uma propriedade rural nem sempre é fácil. As áreas conduzidas por famílias durante várias gerações costumam sofrer impactos desta complexa iniciativa que é a sucessão familiar. Muitas vezes esta transferência de gestão ocorre como uma herança, em que não há o preparo de um sucessor para tal medida. Contudo, há casos de sucesso neste processo, ainda que seus envolvidos passem por dificuldades inerentes à esta situação. “Fazer sucessores e não simplesmente herdeiros”. Muitos pais ou avós se deparam com este questionamento mantendo a dúvida sobre como será cuidada a propriedade caso os progenitores se distanciem da gerência. Entretanto, um processo sucessório realizado com diálogo constante costuma trazer melhores resultados à propriedade e seus envolvidos. O ditado “Pai rico, filho nobre, neto pobre”, evidencia as dificuldades envolvidas no tema. Contudo, é recorrente a afirmação dos pais em se sentirem felizes quando percebem que seus filhos estão mais preparados do que ele para continuar na gestão da propriedade. O assunto já foi abordado em muitos estudos de pesquisas acadêmicas, principalmente na região Sul do país e no estado do Mato Grosso. Entre os motivos recorrentes em diversas análises, a complexidade desta sucessão familiar estaria repleta de questões que envolvem conflitos de geração, na maioria das vezes centralizados na figura do pai que se porta como o chefe da família e costuma não delegar as decisões sobre a propriedade e, neste mesmo sentido, na dificuldade dos pais em aceitar as inovações propostas pelos filhos, ou ainda na falta de autonomia financeira dos filhos, entre outros. Fatores sociais e culturais também estariam envolvidos neste tema. Sem esta perspectiva de manter a gestão da propriedade sob o controle da própria família, muitas vezes ocorre a venda do lote para o vizinho, diante do não envolvimento dos filhos, após a morte do progenitor. Com esta realidade, as áreas em cultivo tendem a se tornarem cada vez maiores. A posse de áreas em cultivo dificilmente é proveniente de profissionais de outros setores e permanecem como legados passados de pais para filhos. Na avaliação do consultor da Safras & Cifras, Cilotér Borges Iribarrem, o fato de considerar a posse da terra a partir da herança leva à divisão das áreas entre aqueles que são de direito, sem haver uma situação preparatória de sucessão. Ele avalia que com este fracionamento desregrado, o negócio passa a ser não lucrativo, levando muitos a não sobreviver desta iniciativa, o que suscitaria a venda para terceiros. maio | junho 2017 o campo 11

[close]

p. 12

Médio Paranapanema MEXILHÃO EM PISCICULTURAS Custo de produção ampliado O controle da infestação do mexilhão envolve gastos com mão-de-obra, energia e combustível, infraestrutura e equipamentos, além da depreciação dos tanques-rede. E les se fixam em tanques e estruturas, o que leva ao aumento, aumento o peso do tanque, ampliam o trabalho de limpeza e provocam lesões nos peixes, entre outros problemas. Os mexilhões são recorrentes em instalações de pisciculturas e interferem na produção dos peixes. Uma pesquisa desenvolvida pela agrônoma Daercy Maria Monteiro de Rezende Ayroza, vinculada ao Polo Regional Médio Paranapanema - Apta Regional, Instituto de Pesca da Secretaria de Agricultura e Abastecimento, avaliou os impactos do mexilhão dourado nas pisciculturas instaladas na região do Vale Paranapanema. De acordo com a pesquisa, a presença do molusco em instalações de piscicultura aumenta os custos de produção da atividade em até 15%, variando conforme a infestação verificada. O percentual de ampliação dos gastos devido a presença do mexilhão se deve à depreciação dos tanques e o custo para a manutenção e lavagem destas instalações devido a necessidade de aquisi- ção de equipamentos destinados a estas medidas, aumento da mão-de-obra empregada, aumento de consumo de energia elétrica, redução da vida útil dos tanques, além da construção de estruturas que permitam a limpeza dos moluscos fora dos rios. A pesquisa foi desenvolvida entre novembro de 2014 e outubro de 2016, com atenção aos impactos causados pelo mexilhão e as possibilidades de controle para a redução de danos que possam ser causados pelo molusco. Na região do Vale Paranapanema, o estudo realizou coletas no reservatório de Canoas II e Xavantes, no rio Paranapanema, tendo também atuações em Ilha Solteira. Diante dos dados apresentados, Ayroza explica que os tanques-rede oferecem condições de fixação do mexilhão nas redes dos tanques submersos, além dos fatores externos que facilitam a difusão por parte da disseminação de larvas. Os moluscos possuem grande capacidade de multiplicação e resistência a situações de baixa disponibilidade de oxigênio e à 12 o campo maio | junho 2017

[close]

p. 13

Jesaias Ismael da Costa avaliou especificamente o impacto econômico do mexilhão ao setor. poluição. A capacidade de reprodução dos moluscos foi comprovada na pesquisa, a partir da submersão de armadilhas com indivíduos com menos de 05 milímetros de comprimento de concha para a avaliação de seu crescimento. A constatação da análise é de que o aumento das conchas é menor no inverno devido às menores temperaturas. Contudo, fatores como velocidade de correntes fluviais e a influência das usinas na produção de larvas também devem ser considerados na avaliação de infestação do molusco. Em parceria com Daercy Ayroza, Jesaias Ismael da Costa, avaliou especificamente o impacto econômico do mexilhão nas pisciculturas junto a oito empreendimentos do setor, instalados em rios do Médio do Médio Paranapanema. O pesquisador enfatiza a importância de se buscar a redução dos gastos com o controle do mexilhão, tendo em vista que o custo de produção de uma maneira geral das pisciculturas estaria situado na segunda colocação do ranking de avaliação sobre os fatores que dificultam a expansão das pisciculturas no Brasil, segundo resultado do questionário on line respondido por produtores em site da empresa Aqua Imagem. Conforme avalia, os empreendimentos de menor porte sofrem maior impacto no controle desse molusco em relação às grandes pisciculturas. Tal fato se deve ao valor despendido entre mão-de-obra, energia e combustível, infraestrutura e equipamentos e com a depreciação dos tanques-rede. Daercy Maria Monteiro de Rezende Ayroza conduziu a pesquisa sobre o mexilhão entre 2014 e 2016. maio | junho 2017 o campo 13

[close]

p. 14

A pesquisa avaliou pisciculturas em rios do Médio Parapanema e em Ilha Solteira. } o mexilhão O molusco foi encontrado em águas brasileiras na década de 90, tendo sido trazido em navios cargueiros vindos da Bacia do Prata. Sua disseminação foi bastante rápida e continua se alastrando nos rios do território nacional, impactando negativamente o meio aquático onde é encontrado em grande quantidade. A ausência de predadores e parasitas que controlem sua população faz com que se alastre pelas bacias hidrográficas brasileiras de forma bastante abrangente. O aumento do custo de produção é considerável quando há a infestação do mexilhão nas pisciculturas. 14 o campo maio | junho 2017

[close]

p. 15

Os mexilhões aumentam o peso das redes ao se fixarem em suas tramas. } Força tarefa Diante dos impactos negativos do mexilhão nas pisciculturas, em 2003 o então Ministério do Meio Ambiente implantou uma força-tarefa para um plano de ação voltado a redução de alastramento do mexilhão nas aguas brasileiras. A iniciativa envolveu várias instituições e sua atuação foi voltada à proteção das bacias dos rios Amazonas e Tocantins, em São Fran- cisco, os quais ainda não possuem grande abrangência da interferência deste molusco. Uma campanha com o tema “Não dê carona a esse bicho”, buscou conscientizar os produtores sobre os cuidados que são necessários serem adotados para evitar a disseminação do mexilhão. Piscicultores precisam investir em estruturas específicas para a limpeza dos tanques-rede. maio | junho 2017 o campo 15

[close]

Comments

no comments yet