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Grips Editora – Ano 16 – Nº 110 – março de 2015         A influência da alta do dólar na indústria nacional

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3 ÍNDICE brasil A Revista de Negócios do Aço Foto: Nelson Kon Foto: Freeimages.com 16 ARQUITETURA E CONSTRUÇÃO Uma visão do mercado brasileiro da construção em aço identificado e dimensionado pelo Centro Brasileiro da Construção em Aço (CBCA), em parceria com a Associação Brasileira da Construção Metálica (Abcem). Como funcionou o uso de estruturas metálicas na estação Vila Prudente do metrô de São Paulo. 4 EDITORIAL Transferência de responsabilidade 5 VISÃO O ajuste das contas e a CPMF 6 TENDÊNCIAS E CENÁRIOS 24 EMPRESAS 27 ENTIDADES 32 EVENTOS 34 ESTATÍSTICAS 40 EMPRESAS & NEGÓCIOS 42 ANUNCIANTES MARÇO/2015 12 VARIAÇÃO CAMBIAL Face à conjuntura atual, que mistura num cenário típico de “tempestade perfeita”, dificuldades econômicas e políticas, quais são as perspectivas para a indústria brasileira em 2015? SIDERURGIA BRASIL NO 110 3

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EDITORIAL HENRIQUE ISLIKER PÁTRIA EDITOR RESPONSÁVEL esta edição, uma das matérias que mais chama Simultaneamente, além da situação econômica para lá de a atenção traz como foco a influência da alta do incerta, há uma total crise política e institucional instalada, e, dólar em relação ao real na indústria nacional. novamente, o governo quer transferir toda a responsabilidade Há uma pergunta feita a toda hora por vá- para a economia privada. Todos os descalabros que foram pra- rios de nossos clientes:“O que fazer para passar ticados e que agora estão sendo corrigidos de forma abrupta pelo atual momento e manter a empresa com – como reajustes nas contas de energia e nos combustíveis –, saúde suficiente e alcançar o outro lado do oceano, onde a além da disparada da inflação, estão sendo cobrados unica- tormenta já passou?” mente das empresas e da população. Não se tem, também, Não é algo fácil de ser noticia de qualquer estudo responder, porque, se de um Transferêncialado a alta do dólar vem re- para diminuição do número de ministérios, ou dos con- solver um problema – pois ficará mais barato para os consumidores reativar os for- de tratados sem concurso. Isso para não falarmos da corrupção endêmica que assola necedores nacionais do que comprar peças importadas responsabilidade nossopaís. Além dessa matéria, en- –, do outro lado as usinas veredamos pelos caminhos produtoras de aço, que vêm de um escritório de arquite- sofrendo com maus resultados desde 2008, deverão au- tura, responsável pelo planejamento de uma das estações de mentar suas exportações, buscando maior rentabilidade, o metrô da capital paulista, e ficamos sabendo muito de como que, fatalmente, diminuirá a oferta no mercado interno, com o uso do aço facilitou as coisas. consequente ameaça de alta nos preços, até mesmo para Quem também nos recebeu foi o novo presidente da AB- equipará-los aos praticados em dólar. CEM, para colocar suas ideias acerca da instituição que dirige. Por outro lado, há empresas que ainda não se livraram E o CBCA nos mostrou o que nos espera neste ano dentro da dos financiamentos feitos na moeda estrangeira, uma vez construção industrializada. que parte de seus investimentos – e mesmo das suas neces- Concluímos com uma ampla cobertura daquilo que de sidades de Caixa – foram feitas com aportes externos, cujos mais importante aconteceu no setor. juros não se comparam àqueles praticados no Brasil. Boa leitura! EXPEDIENTE Edição 110 - ano 16 - Março 2015 Siderurgia Brasil é uma publicação de propriedade da Grips Marketing e Negócios Ltda. com registro definitivo arquivado junto ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial sob nº 823755339. Coordenador Geral: Henrique Isliker Pátria/Diretora Executiva: Maria da Glória Bernardo Isliker/ TI: Vicente Bernardo/Administrativo: Supervisora: Maria Rosangela de Carvalho/Editor e Jornalista Responsável: Henrique Isliker Pátria - MTb-SP 37.567/Entrevistas e Reportagens: Marcus Frediani - MTb:13.953 e Ricardo Torrico/ Comercial: Supervisor: Márcio Machado Projeto Editorial: Grips Editora/ Edição de Arte / DTP: Ana Carolina Ermel de Araujo Capa: Criação: André Siqueira Fotos: Shutterstock e André Siqueira Impressão: Ipsis Gráfica e Editora DISTRIBUIÇÃO DIRIGIDA A EMPRESAS DO SETOR E ASSINATURAS A opinião expressada em artigos técnicos ou pelos entrevistados são de sua total responsabilidade e não refletem necessariamente a opinião dos editores. TODOS OS DIREITOS RESERVADOS Rua Cardeal Arcoverde 1745 – conj. 111 – São Paulo-SP – CEP 05407002 – Tel.: +55 11 3811-8822 grips@grips.com.br www.siderurgiabrasil.com.br Proibida a reprodução total ou parcial de qualquer forma ou qualquer meio, sem prévia autorização. 4 SIDERURGIA BRASIL NO 110 MARÇO/2015

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VISÃO www.siderurgiabrasil.com.br O ajuste das contas e a CPMF A criticada CPMF poderá ser um dos pilares da nova política fiscal, quando deveria ser a base para a tão esperada reforma tributária. Marcos Cintra* nova equipe econômica da presidente Dilma Rousseff vem adotando uma série de medidas visando a restabelecer a credibilidade das finanças públicas e recuperar a capacidade de geração de saldos orçamentários primários. Desde 2008, quando uma lei passou a permitir o abatimento de gastos do PAC na apuração do resultado primário, as contas do governo central vêm sendo fragilizadas e caíram em descrédito após uma sucessão de manobras contábeis. Reverter esse quadro implicará ajustes severos. No âmbito da redução de despesas, as medidas indicam que o ponto principal se limitará à revisão de algumas regras de concessão de benefícios na área da seguridade social. É improvável que o governo trilhe o caminho desejável da diminuição de gastos via extinção de ministérios ou de cargos políticos, por exemplo. A maior parte do ajuste das contas públicas virá pela elevação da carga tributária, através de aumento de impostos e da possível volta da CPMF, fruto de um movimento que vem sendo articulado desde 2013 no congresso, como uma contribuição para o financiamento da saúde pública. Ela teria uma alíquota de 0,15% sobre a movimentação financeira, o que garantiria uma receita em torno de R$ 30 bilhões. Desde sua criação, a CPMF, inicialmente denominada IPMF, foi tema de debates acirrados entre os defensores e os críticos da tributação sobre a movimentação financeira. Teve origem na proposta do Imposto Único na década de 1990. Surgiu como um tributo a mais, desvirtuando a ideia inicial de unificação de vários impostos de natureza declaratória sobre uma base de arrecadação automática e ampla, como as transações nas contas correntes bancárias. Cumpre dizer que, mesmo sendo criada como mais um tributo, a CPMF foi uma importante experiência para a economia brasileira e deitou por terra uma série de previsões que diziam que ela provocaria desintermediação bancária e inflação. Nada disso ocorreu e o “imposto do cheque” acabou contribuindo para promover um ajuste fiscal nos anos 90, abasteceu o Fundo de Combate à Pobreza e serviu como mecanismo de detecção de sonegadores. De um modo geral, revelou-se um bom imposto. A CPMF teve méritos, mas deixou de ser cobrada a partir de 2008 por razões políticas. Atualmente seu retorno tem o apoio de parlamentares, governadores e até do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que Foto: Divulgação em 2007 se manifestou favorável ao tributo. O processo de ajuste das contas públicas se dará através de medidas que vão elevar ainda mais a já sufocante carga de tributos brasileira. A criticada CPMF poderá ser um dos pilares da nova política fiscal, quando deveria ser a base para a tão esperada reforma tributária. Ela poderia ser instituída tal como foi idealizada, ou seja, como base para substituir outros tributos visando a simplificar o sistema fiscal, combater a sonegação e reduzir o ônus para o contribuinte. Infelizmente, tudo indica que ela irá compor o elevado preço que o país terá que pagar pela má gestão das contas públicas nos últimos anos. *Marcos Cintra é doutor em Economia pela Universidade Harvard (EUA) e professor titular de Economia na FGV (Fundação Getulio Vargas). Foi deputado federal (1999-2003) e autor do projeto do Imposto Único. www.facebook.com/marcoscintraalbuquerque MARÇO/2015 SIDERURGIA BRASIL NO 110 5

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TENDÊNCIAS E CENÁRIOS Sem motivos para otimismo Em entrevista à revista Siderurgia Brasil, Felipe Beraldi, o analista do setor de siderurgia da Tendências Consultoria Integrada, analisa a situação e perspectivas da indústria siderúrgica nacional, destacando que “não se vislumbra nenhum alento positivo em termos setoriais, que se reflita na demanda por produtos siderúrgicos no Brasil”. Ricardo Torrico iderurgia Brasil – O governo prevê uma situação que beira a estagnação, mas alguns analistas independentes acham que deve ocorrer inclusive uma recessão. Com qual dessas perspectivas a Tendências está trabalhando neste momento? Felipe Beraldi –Nossa projeção do PIB já era ligeiramente negativa e deve ser revisada novamente. O cenário atual é de um enfraquecimento adicional da atividade econômica em 2015. Desde o começo do ano, além do processo da Lava-Jato, que impactou negativamente os investimentos, observa-se também a possibilidade de um racionamento de água e de energia, o que deve tornar este ano realmente bem complicado. E todos esses fatores acabam tendo um impacto direto no mercado siderúrgico. SB – Existe algum número definido pela Tendências para a redução do PIB? Beraldi – Esse número encontra-se em fase de revisão pela área macro da Tendências, mas ainda não foi fechado. Mas, sem dúvida, ele deve ser revisado para baixo. SB – Assim que foi indicado, o novo ministro da Fazenda anunciou algumas medidas um tanto duras para a economia. Qual deve PREÇOS DOMÉSTICOS DAS BOBINAS LAMINADAS A QUENTE (R$/t) 2.400 2.200 2.000 1.800 1.600 1.400 1.200 1.000 800 Fonte: Empresas do setor (elaboração Tendências) – último dado: 3T14 ser o impacto dessas medidas? Beraldi – São medidas de ajuste, que eram necessárias, porque já estávamos com um cenário fraco e, com a piora adicional desse cenário, acho que vão ser cada vez mais necessárias. SB – Dentro desse contexto, a indústria siderúrgica nacional tem condições de se recuperar ou, pelo menos, não se retrair mais ainda? Beraldi – No que se refere ao setor siderúrgica, nós esperamos que a produção de aço bruto se mantenha relativamente estável, principalmente em função da continuidade da recuperação dos semi-acabados. Mas quando olhamos o mercado de laminados, principalmente longos e planos, a piora do cenário especificamente da construção civil e da indústria automotiva deve pesar negativamente. SB – Qual deve ser o impacto da retração que deve ocorrer na indústria automotiva na siderurgia nacional? Beraldi – O que se espera hoje é uma redução do consumo aparente de aços planos, que é um indicador da queda na demanda interna, mas também pode ocorrer um cenário de ligeiro crescimento ou, pelo menos, estabilidade na 6 SIDERURGIA BRASIL NO 110 MARÇO/2015 www.freeimages.com 1 T 2005 3 T 2005 1 T 2006 3 T 2006 1 T 2007 3 T 2007 1 T 2008 3 T 2008 1 T 2009 3 T 2009 1 T 2010 3 T 2010 1 T 2011 3 T 2011 1 T 2012 3 T 2012 1 T 2013 3 T 2013 1 T 2014 3 T 2014

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7 www.siderurgiabrasil.com.br produção, mas mais diretamente vinculado às exportações. Então, o cenário da demanda doméstica deve ser muito ruim em 2015. Vale lembrar que isso se deve ao fraco resultado do setor automotivo em 2014 e às perspectivas de uma nova queda em 2015. SB – Existe algum segmento que tenha tendência contrária à geral, ou seja, de recuperação, em 2015, e que isso se reflita na siderurgia? Beraldi – Infelizmente, isso não está contemplado em nenhum dos nossos cenários. Nos três setores que têm uma demanda intensiva de aço – indústria automotiva, construção civil e bens de capital – as perspectivas são negativas. Não se vislumbra nenhum alento positivo em termos setoriais, que se reflita na demanda por produtos siderúrgicos no Brasil. O resultado mais fraco da produção siderúrgica como um todo está mais relacionado à questão da balança de pagamentos, isto é, ao aumento das exportações em virtude do câmbio depreciado. Ou seja, o aumento da produção, se vier, deve ocor- rer por conta das exportações. No caso dos aços planos, especificamente, já tem sido observado um ritmo mais intenso de exportações, sendo que há dois fatores que contribuem para isso: o câmbio depreciado e a recuperação da indústria automobilística nos Estados Unidos. Mas, no cenário nacional, não existe nenhum aspecto positivo a ser considerado. Pelo contrário, parece que as notícias só pioram. SB – O que estaria faltando em termo de reforma tributária que poderia afetar positivamente a indústria siderúrgica nacional? Beraldi – Em termos de custos operacionais, as siderúrgicas são muito pressionadas, principalmente pelo custo da mão de obra. Portanto, medidas nesse sentido seriam bem-vindas. Em segundo lugar, o aumento do custo da energia elétrica também afeta, embora algumas siderúrgicas sejam autossuficientes. Diversas medidas deveriam ser adotadas no sentido de dar um alívio à indústria siderúrgica nacional, mas um ponto importante a se destacar é que os preços e as Foto: Divulgação margens praticados pelas empresas do setor se situam acima do que se observa no mercado internacional. SB – Existe alguma explicação para isso? Beraldi – Essas margens são mais elevadas por uma questão de concentração do mercado. Mas isso vem mudando gradualmente e o mercado tem ficado mais competitivo, principalmente com a entrada da Gerdau no mercado de planos e a CSN no mercado de longos. Isso deve mudar a configuração do mercado. Mas isso é também um sinal de que, fora do Brasil, as siderúrgicas devem estar passando por um momento pior ainda. Essas empresas tiveram um 2014 fraco e vão ter outro ano bem complicado pela frente. www.tendencias.com.br

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TENDÊNCIAS E CENÁRIOS Atentos ao movimento O cenário de ajustes em múltiplas instâncias proposto por 2015 deixa mornas as expectativas de crescimento para o setor de construção metálica no país. Marcus Frediani mbora o nível técnico dos fornecedores e da engenharia brasileira no campo das construções metálicas não deixe nada a dever àqueles de padrão internacional, o setor ainda enfrenta grandes dificuldades para evoluir no Brasil. Em 2014 e neste início de 2015, essa dinâmica encontrava-se – e encontra-se – perversamente alinhada ao período de instabilidade econômica atravessada pelo país. Consequentemente, as expectativas são preocupantes, num cenário em que nem mesmo a alta do dólar pode ser considerada ainda um prenúncio ou fator consistente de mudança no cenário. “O câmbio é um fator fundamental para viabilizar importações. Porém a competitividade das importações está relacionada a outros fatores como a variação dos preços internos, que tem se mantido relativamente estável, bem como à inflação, que assim como a variação cambial, pode ser uma ameaça”, pondera César Bilibio, novo presidente da Associação Brasileira Construção Metálica (Abcem), nesta entrevista exclusiva concedida à revista Siderurgia Brasil. Mas, é claro, esse é apenas um dos vértices de preocupação sobre o qual o setor se debruça agora. Confira. Siderurgia Brasil: Qual o balanço da evolução da construção industrializada no Brasil nestes últimos anos? César Bilibio: Não há um estudo oficial sobre o comportamento da construção industrializada ao longo dos últimos anos. No entanto, analisando o comportamento do mercado e os resultados atingidos, temos a convicção de que houve um substancial crescimento, principalmente pelos tipos de obras que predominaram nesse período, destacando-se aí as de infraestrutura para a Copa do Mundo e os investimentos no setor industrial. Os últimos presidentes da Abcem vinham preparando a associação para enfrentar as dificuldades inerentes à industria desde o fim do ano de 2008, que foi o último dos grandes anos de desenvolvimento para a indústria. Você tomou posse no fim de 2014, que já foi um ano bastante complicado para toda a siderurgia, um cenário que parece se agravar ainda mais no inicio de 2015. Como avalia a atual situação e os desafios que o setor tem pela frente? O ano de 2014, mais especificamente a partir de segundo semestre, foi de resultados abaixo do esperado para a siderurgia. Para a construção metálica, não foi diferente. Já 2015 começou com perspectivas negativas, devido a instabilidade econômica que o país atravessa. Estamos atentos a todos esses movimentos, estreitando ainda mais o relacionamento com outras entidades e tomando todas as ações necessárias para proteção e o crescimento do nosso segmento. A questão dos projetos em que se dê a prioridade a construção industrializada está re- www.freeimages.com 8 SIDERURGIA BRASIL NO 110 MARÇO/2015

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solvida? Já existem projetos com qualidade suficiente e em numero adequado para garantir uma arrancada do setor? A construção industrializada vem crescendo exponencialmente no Brasil. E é uma tendência irreversível. Quando nos referimos à industrialização, além da construção metálica, incluímos nesse discurso todos os sistemas construtivos que vêm adotando novas tecnologias e práticas capazes de otimizar processos, bem como de reduzir custos e o desperdício de material e prazos. Os projetos acompanham essa tendência. A engenharia no Brasil é extremamente qualificada, capaz de desenvolver projetos estruturais de qualquer natureza. Mas ainda é necessário investir mais na divulgação dessas novas tecnologias, 9 www.siderurgiabrasil.com.br a fim de que o setor possa se desenvolver e alcançar os índices de países que já têm a cultura da construção industrializada. E o fornecimento de matériaprima. O Brasil já se posiciona como um grande fornecedor de estruturas metálicas ou ainda fica devendo ao material que vem de fora? O Brasil possui praticamente todos os materiais utilizados na construção metálica. Em termos de qualidade e de material, estamos equiparados aos principais fornecedores externos. A entrada de concorrentes estrangeiros está relacionada às condições comerciais, com as quais não podemos concorrer, por serem predatórias na maioria dos casos. A carga tributária e a falta de uma política que regule as importações, colocando-as com condições de isonomia com a indústria brasileira, são os principais fatores que reduzem a nossa competitividade frente aos concorrentes estrangeiros. Sem considerar as construções metálicas que foram nacionalizadas, quanto do material nelas utilizado é efetivamente produzido no Brasil? O Instituto Aço Brasil (IABr) nos fornece os dados referentes à importação dos diferentes tipos de aço. No entanto, não temos como determinar em porcentagem o quanto desse volume é efetivamente destinado à construção metálica. A dificuldade

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TENDÊNCIAS E CENÁRIOS para mensurar não se refere ao material para processamento e, sim, nas estruturas que acabam entrando como parte dos equipamentos importados (aço contido), que representa uma perda substancial de mercado pela indústria brasileira. Mas, com a alta do dólar como estamos assistindo nesses últimos tempos, esse cenário não tende a se alterar? Acredito que qualquer previsão relacionada aos efeitos da variação cambial ainda é muito prematura. O câmbio é um fator fundamental para viabilizar importações,. Porém a competitividade das importações está relacionada a outros fatores como a variação dos preços internos, que tem se mantido relativamente estável, bem como à inflação, que assim como a variação cambial, pode ser uma ameaça. Então, essas variáveis precisam ser analisadas antes de fazermos qualquer afirmação sobre a competitividade do material importado. Atualmente, qual é o estágio de qualidade e produtividade alcançado pelos filiados à Abcem no comparativo com os outros países? A indústria da construção metálica brasileira tem investido fortemente na atualização de seu parque industrial, realizando importantes investimentos que não se limitam a equipamentos, mas também à melhoria da mão de obra e o desenvolvimento de novas tecnologias e de melhores práticas. Por tudo isso, posso garantir que nossa indústria se equipara às principais referências mundiais, em condições de aten- der a quaisquer tipos de projeto e demanda. Nossos associados operam com base nos mais elevados padrões de qualidade, com o mesmo grau de certificação que os concorrentes estrangeiros. E uma das nossas metas, inclusive, é elevar cada vez mais esse padrão, estimulando os fabricantes de menor porte a se engajarem em programas de qualidade. Também lançamos durante a Construmetal de 2014 o Selo de Excelência Abcem, que tem como objetivo promover diferencial competitivo aos nossos associados. De que forma a realização da Olimpíada Rio 2016 está impactando o desenvolvimento do setor? As Olimpíadas, assim como a Copa do Mundo, realizada no ano passado, certamente representam uma oportunidade de novos projetos em que o nosso setor pode e, efetivamente, já está envolvido. No entanto, não podemos classificar esse evento como um gatilho de construção maciça no nosso segmento, uma vez que boa parte da infraestrutura já existe e será aproveitada. Falando da Abcem, quais são os planos mais emergenciais que sua gestão pretende desenvolver? Como já disse, estamos atentos ao movimento do mercado, principalmente no que tange ao nosso segmento de atuação. No Brasil, a construção metálica tem como foco principal o mercado industrial, no qual se apresenta como solução predominante. Nesse cenário, é preocupante a desaceleração do mercado de 10 SIDERURGIA BRASIL NO 110 Foto: Divulgação óleo e gás, provocada também pela drástica redução do preço do petróleo no mercado internacional, uma vez que o setor vinha investindo para atender às projeções de crescimento que envolviam indústrias de offshore naval. Outros setores como a siderurgia e mineração, afetados pela queda de demanda em 2014 e com as baixas perspectivas para 2015, estão revisando seus programas de investimentos. Contudo, é prematuro estimar o que essa conjunção de fatores pode representar. Só o que sabemos é que o efeito será bastante negativo. Estamos mantendo todos os programas que foram implantados ao longo do tempo para defesa comercial do setor e o desenvolvimento da mão de obra. A adequação virá à medida que nossa intervenção se torne necessária para manter a competitividade do segmento e dos nossos associados. Também estamos desenvolvendo novos projetos como o já mencionado Selo de Excelência Abcem, lançado em 2014. O objetivo é certificar que todas as normas técnicas, de segurança e qualidade estão sendo cumpridas pelas empresas avaliadas e, dessa maneira garantir aos clientes a satisfação esperada, além, é claro, de melhorar cada vez mais o nível técnico e de qualidade do setor no Brasil. MARÇO/2015

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11 www.siderurgiabrasil.com.br O que vem pela frente? No decorrer de 2014, face ao andar da carruagem, não era nenhuma novidade que teríamos um ano de 2015 bastante complicado, com forte ajuste fiscal e retração econômica. Carlos Buch Pastoriza* ois bem! O ano nem bem começou e algumas medidas nessa direção já foram anunciadas. A sociedade brasileira foi brindada com um pacote de aumento de impostos: elevação de IOF nos financiamentos e dos juros para financiamento da casa própria, volta da Cide nos combustíveis, a não correção plena da tabela do imposto de renda, entre outros. Para a indústria, mais especificamente a de máquinas e equipamentos, sobrou, por enquanto, a redução de aporte de recursos, a elevação de juros e diminuição da parcela financiada no PSI-Finame e nas demais linhas do BNDES, esta que vinha sendo a principal e, talvez, a única ferramenta capaz de minimizar a perda de competitividade sistêmica da indústria nacional de máquinas e equipamentos. Sem fazer juízo de valor em relação às medidas anunciadas até o momento, é fato que, em função dos sucessivos equívocos cometidos pelo governo nos últimos anos, fortes ajustes seriam necessários. Entretanto, somente o aumento de impostos não será remédio suficiente para recolocar a economia brasileira nos trilhos. Acrescente-se a isso as constantes elevações da taxa Selic – com o argumento de combate à inflação –, que produz efeitos nefastos à economia, uma vez que inibe os investimentos, pois se torna mais atrativo investir no mercado financeiro e ainda atrai capital especulativo, provocando a valorização artificial do real frente ao dólar, o que torna a indústria nacional ainda menos competitiva. Isso sem falar no aumento de gastos com juros para o governo, o que vai totalmente na contramão do tão perseguido ajuste fiscal. Cada ponto percentual de aumento da Selic representa um gasto anual da ordem de R$ 10 bilhões para os cofres públicos. Em um ano, o governo gasta cerca de R$ 250 bilhões só com o pagamento de juros. O governo precisa sinalizar, com a mesma velocidade com que anunciou o aumento de impostos, a implementação de medidas capazes de promover a retomada da competitividade brasileira. Do contrário, somente a elevação de impostos, somada à crise vivenciada pela Petrobras e pelos setores de etanol, siderurgia e mineração – maiores adquirentes de máquinas e equipamentos – vão levar toda a cadeia da indústria de transformação para uma crise sem precedentes, muito mais séria do que a que já estamos vivenciando atualmente. Esperamos que, com a máxima brevidade, venham a ser anunciadas medidas para a diminuição do Custo Brasil, simplificação do sistema tributário, redução dos spreads e juros escorchantes que são cobrados das empresas e a melhoria da infraestrutura brasileira, com o destravamen- Foto: Divulgação to das concessões públicas, além, é claro, de um câmbio minimamente favorável ao setor produtivo. Seria futurologia prever quão fortemente o ano de 2015 está comprometido, mas é fato que passaremos por um período de significativa retração econômica. Nós, da Abimaq, vamos continuar motivados e envidando todos os esforços, dando a nossa contribuição, apresentando propostas e cobrando do governo as ações que possam recolocar o país rumo à retomada do crescimento. Sabemos que as questões estruturais não se resolvem de imediato, contudo, o governo precisa dar sinalizações claras, com urgência, de que irá começar a implementá-las, ainda em 2015, para que 2016, com a “casa arrumada”, venha a ser um ano de retomada do crescimento da economia brasileira. *Carlos Buch Pastoriza é presidente do conselho de administração da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) e Sindicato Brasileiro da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Sindimaq). MARÇO/2015 SIDERURGIA BRASIL NO 110 11

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VARIAÇÃO CAMBIAL Dupla do barulho Juros e dólar em alta. Será que essa fórmula radical e já bastante manjada representa a solução para os problemas vivenciados atualmente pela combalida economia brasileira? Marcus Frediani ão deu outra. Na quinta-feira, 5 de março, o dólar finalmente engatou Mach 5 e ultrapassou a barreira hipersônica dos R$ 3, criando impactos para todos os brasileiros, de investidores, empresários e viajantes ao pipoqueiro da esquina e ao consumidor comum, cada vez mais assustado com os preços das coisas no supermercado. E todos, invariavelmente, ficaram sem entender muito se encaram a mudança de maneira positiva ou negativa. Assim como saber se, vista do espaço, a Terra gira da esquerda para a direita ou em direção contrária, a verdade é que interpretar benefícios e malefícios desse salto depende do referencial. Ou seja, onde exatamente a gente se encontra na cadeia econômica. “Sempre defendi que o dólar é o melhor escudo para a indústria brasileira. Ela não tinha nem produtividade, nem competitividade para ficar numa taxa de dólar do jeito que estava. Acredito que isso já ajuda bastante a indústria brasileira. Por outro lado,precisamos também avaliar o que acontece com os produtores de matérias-primas básicas, as commodities como o aço, têm preços flutuantes e estão baixando ao redor do mundo, até por conta da queda do preço do minério. Se nós não tivermos alteração expressiva no preço do aço, os produtos que nossos associados fabricam ficarão muito rapidamente mais baratos do que os importados, porque deixamos de trazer de fora uma parte expressiva dos componentes que, até o final do ano passado, vinham de lá”, contextualiza Daniele Pestelli, presidente do Sin- Foto: Divulgação dicato Nacional da Indústria de Trefilação e Laminação de Metais Ferrosos (Sicetel). Daniele se diz ciente das dificuldades atuais enfrenta- das pela indústria siderúrgica. Mas, afirma acreditar que o bom senso deve e vai preva- lecer:“Vejo que, hoje, as usinas Daniele Pestelli, Sicetel estão vivendo um momento de aumento da ocupação e não de aumento de preços, e isso, acredito, vai ser benéfico. Mas é muito im- portante sensibilizá-las no sentido de que não aumentem seus preços, porque isso afugentaria os clientes na cadeia produtiva”, dá o recado, antevendo que, se houver esse con- trole, a indústria deverá apresentar um crescimento moderado no últi- mo trimestre de 2015. Volatilidade perigosa Ainda avaliando os impactos da recente elevação do dólar, Levi Ceregato, presidente nacional da Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf ) pontua, por sua vez, que estes, sem dúvida, serão bem maiores para as empresas que têm um endividamento substancial em dólar, ou seja, que compraram equipamentos ou que eventualmente alavancaram recursos para aumentar seus negócios, para aumentar seu capital. “Aí, como você paga em dólar e fatura em real, vai precisar de mais reais para pagar 12 SIDERURGIA BRASIL NO 110 MARÇO/2015 Fotos: www.freeimages.com

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13 www.siderurgiabrasil.com.br os mesmos dólares, gerando influência direta no caixa das empresas”, pondera. Da mesma forma, dando continuidade a esse simples exercício de lógica, Levi afirma que, devido à circunstância de que muitas das matériasprimas e insumos utilizados pela indústria gráfica ainda serem importados, não há Levi Ceregato, Abigraf mistério sobre o fato de que o custo de produção também vai se elevar. E ele soma outra dicotomia de benefício versus perversidade a essa constatação: “Acreditamos que, como fator benéfico, o aumento do dólar acaba inibindo as importações e estimulando as exportações. Fechamos o ano de 2014 com US$ 290 milhões de exportações e US$ 490 milhões de importações, um déficit de US$ 200 milhões em produtos gráficos. Nessas contas entram embalagens, livros, produtos gráficos impressos, alguma coisa de promocional, majoritariamente para a América Latina e alguma coisa para os Estados Unidos. Só que, em paralelo, importamos no ano passado quase US$ 1 bilhão de máquinas e equipamentos para atualizar o nosso parque industrial. E essa conta certamente pode e vai ficar mais cara a partir de agora”, registra. Segundo ele, um componente preocupante nessa história é, ainda, o clima de instabilidade política atualmente vivenciado pelo país, que vai continuar turbinando flutuações da moeda estrangeira. “Quando a coisa toda se acalmar, o câmbio deve se estabilizar em torno de R$ 2,90 ou algo parecido. Agora, antes disso, com essa volatilidade, ele pode chegar a R$ 4,00. E aí, já viu, né?!”, conclui, antevendo capítulos nem um pouco tranquilos num futuro próximo. MARÇO/2015 Foto: Divulgação “Os reflexos do aumento do dólar são positivos para quem está conseguindo exportar os seus produtos, porque a valorização do real estava criando para a indústria brasileira que exporta a perspectiva de perda de competitividade no mercado externo. Agora, quem depende de insumos importados, vai ter que repassar isso para o mercado interno, o que pode fazer com que a empresa perca mais competitividade ainda, porque pode haver um fornecedor estrangeiro que ofereça o produto já acabado aqui dentro por um melhor preço do que é oferecido pelos fornecedores brasileiros”, simplifica, a seu turno, Reginaldo Gonçalves, coordenador do curso de graduação de Ciências Contábeis da Faculdade Santa Marcelina (Fasm) e articulista de assuntos econômicos e tributários, deixando, contudo, esse importante alerta para o mercado. Samba de uma nota só Simultaneamente à elevação do câmbio, o Banco Central elevou pela quarta vez consecutiva a taxa Selic, que passou de 12,25% para 12,75%. Para os defensores da ideia, entre os quais se alinha a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), ele representa um sinal de que o BC mantém uma postura mais agressiva no combate à inflação, principalmente no momento em que o realinhamento de muitos preços (luz, transportes, combustíveis, IPTU, matrículas etc.) continua a colocar a inflação mensal (de janeiro e fevereiro) acima de 1%. Em comunicado distribuído à imprensa, a entidade afirma que mesmo com essa elevada taxa, os juros reais no início deste ano estão negativos, pois a inflação do primeiro bimestre, anualizada, atinge quase 20%. Na avaliação da FecomercioSP, esse é um número elevado em qualquer circunstância, sendo, contudo, mais preocupante na atual conjuntura de desaquecimento econômico. E, é claro, ela diz ainda acreditar que esta não será a última elevação da Selic neste ano. “A taxa deverá encerrar 2015 ao redor de 13% (ou mais), patamar que pode ser atingido ainda no primeiro semestre. (...) Com a solidez do equilíbrio macro, o IPCA virá para baixo, com o menor custo social possível. Isso é bom para o Brasil no longo prazo, mesmo sendo bastante penoso no momento”, diz o documento. Esse remédio amargo para a “estagflação” – nome que combina o perverso momento econômico atual com a perspectiva de descontrole inflacionário –, contudo, está longe de ser uma unanimidade. Sem dúvida alguma, o aumento da taxa Selic é a ferramenta mais conhecida e utilizada pelo governo para conter a inflação. A estratégia apresenta, de fato, muitas vantagens, mas ela não é a única ferramenta de combate ao aumento dos preços, nem deveria ser a única medida adotada pelo Banco Central. É preciso lembrar que elevar os juros ajuda a conter o crescimento inflacionário, mas tem um efeito colateral: o custo das dívidas também aumenta e quem sofre são as pessoas mais humildes que estão em débito. “O governo utiliza esse instrumento quase como um ‘samba de uma nota só’. Qualquer alteração na economia é motivo para aumento dos juros. Só que na medida que você aumenta os juros, as empresas brasileiras que estão alavancadas terão que pagar esse aluguel de dinheiro, agregando-o aos custos dos produtos. Não dá SIDERURGIA BRASIL NO 110 13

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VARIAÇÃO CAMBIAL para ser diferente. Ato contínuo, você tem que jogar isso no preço. E quando você vende um produto sem agregar tecnologia ou valor por um preço mais elevado, isso é inflação - ou seja, mais moeda para dar liquidez ao mesmo produto”, explica Levi Ceregato, presidente da Abigraf. Foto: Divulgação Reginaldo Gonçalves, Fasm Problema estrutural Tão preocupante quanto isso, ainda segundo ele, é que a elevação da Selic provoca uma transferência muito grande de riqueza do setor produtivo para um setor não produtivo, que são os bancos. “Além disso, outra coisa bastante perigosa é que como o governo tem uma dívida interna muito grande, cada vez que você aumenta 0,25 ou meio ponto percentual na Selic, você precisa arrecadar mais impostos para pagar os juros, o que faz com que a dívida cresça ainda mais, lhes roube a competitividade e inibe o seu potencial de investimento, levando à estagnação das empresas”, acrescenta. O aumento da taxa de juros é especialmente nocivo para as empresas brasileiras que precisam de crédito para fazer investimentos. Em outras palavras, qualquer aumento da taxa de juros quando o financiamento se faz necessário, acaba por encarecer a atualização do parque industrial e também impacta os custos das empresas, na medida que influencia o preço final dos produtos. “E essa medida também é prejudicial para o governo, porque a dívida interna também acaba sendo maior. E isso provoca um impacto, que é a falta de recursos, que poderia ser direcionado 14 SIDERURGIA BRASIL NO 110 para as empresas melhorarem os seus parques industriais, a fim de deixá-los mais produtivos e competitivos”, enfatiza Reginaldo Gonçalves, da Fasm. Devido a constatações como essas, torna-se mais do que evidente que o governo não está fazendo a lição de casa, no sentido de controlar a situação. Em outras palavras, ele também tem que dar o seu quinhão de participação nesse esforço e reduzir custos. Só que o que se percebe é que o governo não quer abrir mão dos gastos públicos: ele quer aumentar a arrecadação tributária para poder equilibrar o gasto que ele fez. E tristemente evidente, também, que a indústria não está mais suportando esse aumento da carga tributária, porque ela implica em perda de competitividade, criando influências que acabam beneficiando os produtos importados, na medida que se criam condições para que eles possam ser adquiridos por um preço menor pelo mercado. “Por tudo isso, sou frontalmente contrário à elevação de juros que estamos vivendo hoje. É algo muito exagerado. Quando os outros países do mundo - principalmente os emergentes -, estão praticando juros próximos de zero, nós estamos trabalhando com juro básico da ordem de 13%, o que é um absurdo”, assevera Daniele Pestelli, do Sicetel, sem entrar no mérito se macroeconomicamente isso deve ser feito ou não. “Acredito que os ajustes não deveriam ser feitos no nível dos trabalhadores ou da indústria, mas dentro do governo, com diminuição de ministérios, redução do número de cargos de confiança, isso, por si só, proporcionaria uma economia de milhões de reais. É aí que os ajustes deveriam ser feitos”, certifica. Para Daniel Schnaider, economista, consultor de negócios e sócio do SCAI Group, um dos fatores que mais influencia a inflação é relativo à relação entre quem procura (demanda) e aqueles que fornecem os produtos e serviços. Se há muita demanda, os fornecedores percebem e aumentam os preços; por outro lado, se há pouca procura, o preço diminui para aumentar o interesse pelo produto. “É importante entender, no entanto, que, no tocante aos juros, o relacionamento do Banco Central é com outros bancos. Não é da mesma forma que acontece com empresas e pessoas físicas. Se os juros aumentam ou diminuem, o banco pode fazer a opção de repassar ou não os índices para os clientes”, pontua. Assim, ainda de acordo com o especialista do SCAI Group, os juros representam, na verdade, o preço do dinheiro, ou seja, uma compensação paga por quem quer manter o dinheiro para si. Com as altas taxas, os bancos incentivam os clientes a manterem o dinheiro na conta, em vez de gastá-lo ou aplicá-lo em outros investimentos. “Então, se há juros mais baixos, há menos incentivos para deixar o dinheiro no banco, tornando-se mais interessante utilizá-lo em outro lugar. Com maior circulação de dinheiro, há uma demanda maior de produtos no mercado e, como já vimos muitas vezes, os fornecedores aumentam os preços como resposta. A estratégia adotada pelo governo então é manter os juros altos, para que as pessoas deixem de gastar, retraindo a demanda e contendo a inflação. MARÇO/2015

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Acontece que, muitas vezes, o problema da inflação é estrutural; ele está no fornecedor e não no consumidor. Diversos setores no Brasil são comandados por um grupo pequeno de empresas que fornecem determinados serviços. Transportes, telecomunicações, bancos, combustíveis e energia são só exemplos de algumas áreas em que os fornecedores têm muito poder de barganha e aumentam com facilidade os preços, contribuindo para as altas taxas inflacionárias. Essas empresas, quando se deparam com um concorrente que aumentou os preços, em vez de oferecer um preço mais atrativo e assim fazer frente à concorrência, agem de maneira contrária, aumentando também o preço, pois sabem que 15 www.siderurgiabrasil.com.br o consumidor não terá outras opções e se verá forçado a comprar o produto com o preço inflacionado. Trata-se de um modelo de sincronia de preços em que, mesmo pressionando o consumidor com altas taxas de juros, não vai fazer com que ele gaste menos. Então, segundo explica Daniel Schnaider, a solução está em facilitar a regulamentação e atrair investimento de fora e de dentro para que se tenha mais fornecedores para esses serviços. “E é possível fazer os preços caírem pela concorrência e eficiência do mercado, sem usar a taxa de juros. Afinal, juros altos não apenas reprimem a inflação; eles também afastam o investimento para o mercado de capitais”, diz, sem deixar de considerar que entre a opção de executar um projeto para a construção de uma usina hidrelétrica, com todos os riscos inerentes (regulamentação, autorizações, burocracia, fenômenos naturais) e a aplicação desse dinheiro em uma instituição financeira, recebendo juros por isso, com todas as garantias, a segunda opção é muito mais atrativa. “Mas se o governo tomasse atitudes para facilitar a concorrência em diferentes mercados, faria com que as tarifas e os produtos se diversificassem, tornando o mercado mais competitivo. Então, conseguiríamos o crescimento da economia, com diminuição de preços, sem ter que elevar a taxa de juros”, dá sua pista para a fórmula da tão necessária reversão desse quadro.

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