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Grips Editora – Ano 16 – Nº 113/114 – junho/julho de 2015         O reequilíbrio macroeconômico do Brasil O aço com alto conteúdo tecnológico para a indústria naval As novas apostas do estado do Espírito Santo

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A Revista de Negócios do Aço 3 ÍNDICE brasil 6 CONGRESSO DO AÇO As principais autoridades relacionadas à siderurgia mundial discutirão, em São Paulo, se existem caminhos e quais são para que o setor volte a ter a importância que o colocou como um dos pilares do mundo moderno. Foto: Divulgação ArcelorMittal 4 EDITORIAL A lanterna de Diógenes 18 ECONOMIA Recuperação do reequilíbrio macroeconômico Confiança na berlinda 24 COMPETITIVIDADE Acreditar é preciso 42 EMPRESAS Cemaço 46 LUBRIFICAÇÃO Eficiência energética através de lubrificantes especiais JUNHO  JULHO/2015 28 ESPECIAL ESPÍRITO SANTO Os desafios e as oportunidades que o estado do Espírito Santo oferece aos empreendedores. Com um índice de crescimento bem acima da média brasileira, é um novo desafio para os investidores. 48 INDÚSTRIA NAVAL Aços com alto conteúdo tecnológico 50 EVENTOS 52 ENTIDADES 54 ESTATÍSTICAS 57 EMPRESAS & NEGÓCIOS 58 ANUNCIANTES Foto: Acervo Setur / Tadeu Bianconi SIDERURGIA BRASIL NO 113/114 3

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EDITORIAL HENRIQUE ISLIKER PÁTRIA EDITOR RESPONSÁVEL egundo a lenda, Diógenes, que viveu entre Biscuola, economista sênior da RC Consultores,uma das consul- 413-323 a.C. e foi um dos fundadores da Escola torias mais ativas, respeitadas e requisitadas do Brasil. Em todas Cínica, vivia com sua lanterna acesa em busca essas entrevistas, é possível conferir que só vamos pensar em de um homem que vivesse segundo a sua es- sair desta situação – se isso acontecer – lá por 2017, quando sência, superando as adversidades e reduzin- se espera que o PIB brasileiro volte a crescer perto de 2% e a do ao mínimo necessário as suas exigências indústria mundial do aço, que hoje está com um estoque glo- para a vida. Tinha por proteção um manto e sua moradia era bal de mais de 700 mil toneladas, acabe com o seu excedente um barril. Desta fábula surgiu a máxima de que, quando al- de produção. Até lá, aqui no Brasil, vamos vivendo dos ajustes guém procura algo insistentemente, está “com a lanterna de fiscais de uma perna só, ou seja, aplicados apenas ao setor Diógenes na mão”. privado, enquanto a “máquina governamental” continua com Pelas matérias apresentadas quase 40 ministérios e não dá sinais nesta edição, vamos perceber A lanterna deque a indústria siderúrgica mun- de cortar nada de sua estrutura e, no âmbito mundial, e enquanto a dial e, particularmente, a brasileira – além do próprio Brasil –, não só estão com a “lanterna na Diógenes China não reduzir a sua capacidade de produção, que hoje supera 50% da capacidade mundial. mão”, como com o pires, a sacola Nesta edição também apresen- e tudo que possa significar uma tábua de salvação. Na verda- tamos um caderno especial sobre o estado do Espírito Santo, de, creio que ainda faz parte desta romaria grande parte da que vai sediar mais uma edição da sua tradicional feira metal população brasileira, que vive provavelmente um dos piores mecânica. Autoridades locais destacam que, com a inauguração momentos econômicos da era republicana, com a agravante de novas instalações no segundo semestre do ano passado, o de que não há caminhos novos a serem percorridos. Os índi- resultado de crescimento do estado foi surpreendente em rela- ces e números estão aí! ção ao Brasil e apresentou um índice de mais de 20%, contra os No objeto fim de nossa publicação, que é a siderurgia números negativos que todos nós estamos presenciando. brasileira, ouvimos Benjamim Mario Baptista Filho, presidente Há ainda uma importante matéria acerca do uso de aços do Conselho Diretor do IABr, Marco Polo de Mello Alves, pre- especiais fabricados pela Usiminas para a indústria naval, ampla sidente Executivo do IABr, e Carlos Jorge Loureiro, presidente cobertura das estatísticas que envolvem o setor, eventos que fo- do Inda/Sindisider, e acrescentamos ainda entrevistas com ram e serão realizados e o destaque para as empresas com seus Octávio Manoel Rodrigues de Barros economista chefe do produtos, lançamentos e ocorrências. Bradesco, o maior banco privado nacional, e Thiago Custodio Vamos manter acessa nossa lanterna e boa leitura! EXPEDIENTE Edição 113/114 - ano 16 - Junho/ Julho 2015 Siderurgia Brasil é uma publicação de propriedade da Grips Marketing e Negócios Ltda. com registro definitivo arquivado junto ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial sob nº 823755339. Coordenador Geral: Henrique Isliker Pátria/Diretora Executiva: Maria da Glória Bernardo Isliker/TI: Vicente Bernardo/ Administrativo: Supervisora: Maria Rosangela de Carvalho/ Editor e Jornalista Responsável: Henrique Isliker Pátria MTb-SP 37.567/Entrevistas e Reportagens: Marcus Frediani - MTb:13.953 e Ricardo Torrico/ Projeto Editorial: Grips Editora/ Edição de Arte / DTP: Ana Carolina Ermel de Araujo Capa: Criação: André Siqueira Fotos: Montagem feita com fotos da Shutterstock Impressão: Ipsis Gráfica e Editora DISTRIBUIÇÃO DIRIGIDA A EMPRESAS DO SETOR E ASSINATURAS A opinião expressada em artigos técnicos ou pelos entrevistados são de sua total responsabilidade e não refletem necessariamente a opinião dos editores. TODOS OS DIREITOS RESERVADOS Rua Cardeal Arcoverde 1745 – conj. 111 – São Paulo-SP – CEP 05407002 – Tel.: +55 11 3811-8822 grips@grips.com.br www.siderurgiabrasil.com.br Proibida a reprodução total ou parcial de qualquer forma ou qualquer meio, sem prévia autorização. 4 SIDERURGIA BRASIL Nº 113/114 JUNHO  JULHO/2015

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CONGRESSO DO AÇO Foto: Divulgação ArcelorMittal 6 SIDERURGIA BRASIL Nº 113/114 JUNHO  JULHO/2015

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www.siderurgiabrasil.com.br Um encontro para ficar na história Vem aí mais uma edição do mais importante evento da cadeia do aço no Brasil: o 26º Congresso Brasileiro do Aço & ExpoAço 2015. Marcus Frediani e um certo ponto de vista, não há o que reclamar. O cenário que temos à frente na economia brasileira em 2015 é de poucas incógnitas e de muitas certezas. Certeza, principalmente, de que vai ser um ano difícil, por conta da continuidade das ineficiências de natureza estrutural e conjuntural que pairam sobre nós. E certeza, também, de que será ano de remédio amargo, via medidas de ajuste fiscal orquestradas por Brasília, sobre as quais, entretanto, existe certo consenso de que são absolutamente necessárias para a gente arrumar a casa. Agora, se serão suficientes, pertinentes e eficientes no médio e no longo prazos, só o futuro dirá. Mas, o mais interessante nessa história toda é que, embora pareçam (e, eventualmente, estejam) distantes, luzes no fim do túnel da economia de nosso país efetivamente existem. E o potencial de elas evoluírem de pequenos pontos no horizonte para grandes holofotes iluminadores também. Para isso, é claro, será preciso tempo, muito trabalho de convencimento e altas doses de bom senso na gestão de nossos negócios, a fim de corrigir erros, acertar rotas e definir destinos, para, em síntese, recolocar o país nos trilhos do desenvolvimento. Voltando à cena atual, a indústria brasileira do aço, assim como a indústria de transformação como um todo, passa por extremas dificuldades, reflexo da deterioração do cenário político-econômico nacional e da contínua perda de competitividade sistêmica. Adicionalmente a esse quadro crítico o setor do aço se defronta com uma conjuntura externa adversa com excedentes de capacidade da ordem de 700 milhões/ton. Diante desse panorama, e com o objetivo de fomentar o debate e de acelerar a promoção de mudanças urgentes e mais do que necessárias para gerar o crescimento do mercado interno de forma sustentável, bem como a correção estrutural das assimetrias competitivas e, ainda, lançar as bases de uma defesa comercial eficiente e da utilização efetiva do instrumento do conteúdo nacional, vem aí mais uma edição do mais importante evento da cadeia do aço no Brasil: o 26º Congresso Brasileiro do Aço & ExpoAço 2015. Organizado pelo Instituto Aço Brasil, o evento será realizado entre os dias 12 e 14 de julho, no Transamérica Expo Center, em São Paulo. Depois de duas edições no formato institucional, o Aço Brasil volta ao modelo de Congresso e Exposição. Assim como aconteceu em suas edições anteriores, o Congresso terá novamente a presença de renomados palestrantes nacionais e internacionais, com o objetivo de promover a análise e o debate de temas de grande relevância para a indústria do aço no Brasil e no mundo. Em paralelo, a ExpoAço 2015 contará com a participação de empresas produtoras de aço, mineradoras, fornecedoras de equipamentos, serviços e inovações tecnológicas para a cadeia produtiva do aço, em uma área de cerca de 3.700 metros quadrados. O evento ainda contará com o Espaço Aço Sustentável, que vai demonstrar o aço não apenas como produto, mas em todas as suas formas e variações, através de conteúdo informativo e interativo. Com tudo isso, a expectativa é de que o 26º Congresso Brasileiro do Aço & ExpoAço 2015 supere os números da última edição do evento nesse porte, realizada em 2012, quando contou com mais de 3.500 pessoas circulando pelos estandes, além de grande destaque na mídia, proporcionados pela cobertura de mais de 120 jornalistas, representando 50 veículos do Brasil e do mundo. A gente se encontra por lá! JUNHO  JULHO/2015 SIDERURGIA BRASIL Nº 113/114 7

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CONGRESSO DO AÇO Em busca da competitividade perdida Saída de emergência: o retorno da nossa atividade econômica tem que passar, primeiro, por um aumento das exportações. Marcus Frediani indústria brasileira do aço, assim como a indústria de transformação como um todo, passa por extremas dificuldades, reflexo da deterioração do cenário político-econômico nacional e da contínua perda de competitividade sistêmica. Adicionalmente, o setor do aço se defronta com uma conjuntura externa adversa, com excedentes de capacidade da ordem de 700 milhões de toneladas, mais da metade dela originária da China. Num cenário em que as soluções de curto e médio prazo parecem evidentemente impossíveis de se materializar, algumas vozes, como a do presidente do Conselho Diretor do Instituto Aço Brasil (IABr) e da ArcelorMittal Benjamin Mário Baptista Filho, se levantam para fazer um chamado ao bom senso – não só seus pares da indústria nacional como um todo, bem como o governo brasileiro –, acerca da inequívoca necessidade de se realizarem mudanças urgentíssimas, a fim de que o país recupere sua competitividade perdida e volte a trilhar a vereda do desenvolvimento. Nesta entrevista exclusiva à revista Siderurgia Brasil, ele encontra câmara sonora ideal para reverberar essa conclamação, que, sim, precisa (e muito) ser ouvida e implementada. Siderurgia Brasil: Existe uma solução e/ou uma saída política plausível para a questão do excesso de produção de aço no mundo? O que tem sido feito a respeito? Benjamin Mario Baptista Filho: Esse é, como se sabe, um problema muito complexo. Como resposta às críticas e a uma demanda internacional sobre o problema de excesso de capacidade e das práticas desleais de comércio, o governo chinês resolveu fazer uma reformulação da política industrial de seu 8 SIDERURGIA BRASIL Nº 113/114 setor siderúrgico e publicou uma nova política na qual aborda essas questões que estão incomodando o resto do mundo. Nesse documento, a China reconhece que tem um excesso de capacidade da ordem de 400 milhões de toneladas – ou seja, mais da metade do excesso de capacidade global, que é de 700 milhões de toneladas –, e define um programa de ajustes na área do aço. Esse assunto tem sido debatido em vários fóruns internacionais, sem que nenhum deles, entretanto, se diga em condições de endereçar JUNHO  JULHO/2015 Fotos: Divulgação ArcelorMittal

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www.siderurgiabrasil.com.br o assunto com propriedade, porque quem tem o poder decisório ou de influenciar diretamente esse controle são os diversos governos mundiais. E onde esse tema vem sendo discutido mais intensamente? Sem dúvida, no Fórum da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que tem uma Comissão do Aço entre seus capítulos. Recentemente, na segunda semana de maio, foi realizada uma reunião dele em Paris, contando com a participação de seus vários países membros, além de várias entidades mundiais que representam os setores produtores de aço, entre as quais a World Steel Association, a American Steel, a Eurofer, a Alacero e nós aqui do Instituto Aço Brasil. Nesse encontro foram apresentados diversos assuntos de grande relevância, começando pela previsão de baixo crescimento dos mercados globais de aço e dos riscos que permeiam esse cenário. E embora a situação de pico, de limite máximo, já tenha sido atingida, ficou claro que o problema do excesso de produção chinesa ainda vai perdurar por um bom tempo, complicando a questão do comércio internacional. Isso, naturalmente, vai proporcionar o crescimento dos conflitos internacionais da área do aço, o que transforma em prioridade o endereçamento de soluções urgentes por parte dos governos mundiais, no sentido de pressionar o governo chinês a tomar providências mais efetivas para o controle de sua produção, bem como de não financiar novas capacidades em seus próprios países, porque não há mercado para tanto aço no mundo. O que não deixa de ser uma obviedade e, até, uma questão de bom senso, não é mesmo? Pois é. Mas a questão é que, embora a situação internacional se mostre absolutamente insustentável, existem diversos países que, para gerar emprego e atividade econômica, ainda insistem em subsidiar a atividade produtiva de aço. E, como esses países não têm mercado doméstico para absorver essa produção, acabam jogando essa capacidade adicional para a exportação, agravando ainda mais a situação de excesso de capacidade mundial. E isso não mais pode acontecer. E quais foram, objetivamente, os dados e as previsões apresentadas no que tange ao consumo aparente de aço para este ano no mundo? A World Steel Association mostrou previsões para este ano e para o ano que vem. Segundo elas, em 2015 teremos um crescimento do consumo aparente mundial de aço da ordem de 0,5% no mundo, em relação a 2014, em função das quedas substanciais de consumo nos países da antiga União Soviética, nos países do Nafta e na América do Sul, orquestradas principalmente pelo Brasil. Já em 2016, a previsão é que haja um crescimento de 1,4%. Já a China tem previsão de redução de crescimento de consumo aparente de 0,5% este ano e mais 0,5% no ano que vem. O crescimento do consumo doméstico na China no passado foi o principal fator que incentivou os investimentos no aumento da capacidade de produção deles. Mas lá também as siderúrgicas trabalham agora com capacidade ociosa, daí a previsão dessas quedas. Já o pessoal da Alacero levou uma apresenta- JUNHO  JULHO/2015 ção prevendo que o PIB da América Latina deverá crescer em torno de 0,9% em 2015 e 2% em 2016, considerando, principalmente, as quedas do PIB brasileiro. Também em função disso, a expectativa é de que o consumo aparente de aço na América Latina caia 1,4% em 2015, num cômputo que considera uma queda de 7,8% de consumo no Brasil, um ponto percentual a mais em relação à queda registrada em 2014, que foi de 6,8%. Teremos queda também no Chile e na Argentina, mas o Brasil, infelizmente, continua liderando esse movimento. Quais as principais razões dessa dinâmica? Existe algum componente novo que a ela veio se agregar? Basicamente, o que temos aqui é uma continuidade dos problemas vivenciados pelos clientes da siderurgia, relacionados à queda da atividade industrial brasileira. A indústria de automóveis caiu 15,2% em 2014 no Brasil, e previsão da Anfavea é de que ela seja de 17,8% em 2015, o que traria a produção de veículos brasileiros para o patamar de 2,6 milhões de unidades este ano – ou seja, fazendo o país regredir mais ou menos aos índices da produção automotiva de 2006. E se levarmos em consideração que a indústria automotiva representa aí na faixa de 30% do consumo aparente de aço no Brasil, dá para entender o tamanho do impacto negativo disso sobre a gente. Já a situação da construção civil este ano é, na verdade, muito pior do que se viu no ano passado, que, aliás, já tinha sido bastante ruim. Isso vem acontecendo, principalmente, em função dos desdobramentos da operação “Lava Jato”, com gran- SIDERURGIA BRASIL Nº 113/114 9

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CONGRESSO DO AÇO de parte das maiores empresas de construção do Brasil envolvidas no escândalo. Paralelamente, em função do “Petrolão”, a Petrobras parou grande parte das obras que estavam na mão dela, assim como aconteceu com outras empresas do setor de Óleo & Gás. Com isso, o Pré-sal sofreu um atraso brutal na construção de navios, de sondas e de plataformas, que, como se sabe, consomem bastante aço. Depois, temos um outro segmento importante, que é o de máquinas e equipamentos, que vem sofrendo uma competição fortíssima das importações, que, em 2014, abocanharam cerca de 60% de todos os negócios realizados no Brasil. E quando você olha de onde estão vindo essas máquinas importadas, vê que elas vêm da China, que está fazendo dumping no segmento em todo mundo, porque o consumo delas também caiu naquele país. Isso sem falar da questão do aço importado de lá também, não é mesmo? É verdade. Em 2014, 52% de toda a importação de aço aqui no Brasil veio da China, quando, cinco anos atrás era zero. E nem estou falando aqui de aço incorporado, situação em que 70% do aço das máquinas e equipamentos importados é chinês. Então, se os nossos clientes não estão conseguindo produzir porque existe uma competição deslavada da importação, é obvio que também eles param de comprar da gente e o consumo do aço nacional diminui. Só que nesse aspecto, nós estamos sofrendo também os efeitos do esgotamento da política de incentivo ao consumo familiar brasileiro, que teve um peso muito grande na linha de eletrodomésticos e na indústria automotiva, com as reduções do IPI. Isso, sem falar, do aumento das taxas de juros, que também prejudicou o consumo das famílias, criando reflexos imediatos sobre a atividade das indústrias que produzem bens de consumo que integram aço. Ou seja, para resolver isso, só com o apoio direto do governo. Na verdade, a indústria do aço não precisa de apoio direto do governo. O que precisamos, no que se refere ao mercado doméstico, é que os nossos clientes tenham atividade. E o problema é que não temos 10 SIDERURGIA BRASIL Nº 113/114 um cenário econômico propício para que eles possam desenvolver, de maneira ideal, suas atividades industriais e de venda. Assim, para ajudar a indústria de aço, o que o governo precisa fazer é recuperar o crescimento econômico do Brasil. Precisamos voltar a crescer, porque o crescimento vai gerar mais renda para as famílias e, assim, permitir que elas consumam mais. Precisamos dar condições para que o nosso mercado possa funcionar de forma mais eficiente, com políticas mais bem estruturadas. Quais são as principais deficiências que impedem o maior crescimento do consumo do aço no Brasil? Bem, na verdade, elas são todas bem conhecidas, a começar pela infraestrutura. O país está extrema e principalmente carente de infraestrutura logística. O Brasil precisa de investimento para crescer e gerar mais emprego, que é fundamental para que as famílias tenham tranquilidade para consumir eletrodomésticos, automóveis, apartamentos, essas coisas. Esse ajuste fiscal que o governo está fazendo teve um efeito dramático na área de construção, principalmente de moradias. Temos notícias de várias obras do programa Minha Casa, Minha Vida que pararam por falta de dinheiro, porque a Caixa Econômica não está soltando as verbas no ritmo previsto. Mas também acreditamos que assim que o governo conseguir arrumar as suas contas e ter um pouco mais de previsibilidade, as coisas podem melhorar. Mas nada no curto prazo. É muito difícil isso acontecer, mas, há clima para atração de JUNHO  JULHO/2015

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www.siderurgiabrasil.com.br investimentos internacionais para a siderurgia brasileira no momento? Nada no curto prazo deve acontecer aí também. A situação do mercado de aço no Brasil está sofrendo quedas substanciais, e ainda não temos condições ideais para resgatar a nossa competitividade internacional. Além disso, nossa capacidade instalada de produção é bem maior do que, efetivamente, estamos produzindo. Temos notícias de várias plantas produzindo bem abaixo de sua capacidade, de empresas fechando autofornos e reduzindo turnos para adequar o nível de produção à realidade do mercado brasileiro. Então, com esse cenário, é difícil acreditar que a gente vá encontrar algum tipo de solução externa para os proble- mas relacionados com a nossa atividade econômica aqui. Por isso, repito, não tenho nenhuma previsão de curto prazo de entrada de capitais estrangeiros na siderurgia brasileira. Face a tudo isso, existiria alguma forma de a siderurgia brasileira, bem como a indústria nacional como um todo, retomar seu padrão de competitividade? Creio que uma das formas de a siderurgia brasileira voltar aos seus níveis de produção ideais, ou, pelo menos, produzir muito mais próximo de sua capacidade instalada, seria fazendo o resgate da nossa competitividade interna, que passa por várias coisas que dependem do governo, principalmente na área cambial. Em outras palavras, precisamos ter uma taxa de câmbio competitiva, vis-à-vis com as outras moedas internacionais. Temos que ver que no mercado internacional de aço, grande parte dos países que nele tem uma participação intensa – como Coreia do Sul, Japão, Rússia, Ucrânia e Turquia, além da China, onde é tudo subsidiado –, também desvalorizou suas moedas em relação ao dólar. E muitos desses países desvalorizaram suas moedas muito mais do que se fez com o real. Em 2013, a Rússia desvalorizou o rublo em quase 100%; o Japão desvalorizou quase 80% nos últimos dois anos... Então, quando eu falo de a gente ter uma competitividade cambial, não é só desvalorizar o real frente ao dólar, não: o real precisa adquirir competitividade em relação à cesta de moedas que estão participando

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CONGRESSO DO AÇO do mercado internacional. Essa é a consciência que a gente tem que ter para ter maior competitividade visà-vis aos outros players do mercado internacional de aço. Em outras palavras, a desvalorização do real ainda não alcançou o ponto certo. Não, ainda não. Ainda há espaço para se fazer uma desvalorização maior. E é simples explicar porque: porque o retorno da nossa atividade econômica tem que passar, primeiro, por um aumento das exportações, o que é fundamental para nós, coletivamente no setor industrial, resgatarmos nossos níveis de capacidade e utilização. Hoje, a indústria está com uma capacidade utilizada muito baixa. Então, é claro, quanto menos você produz, mais aumenta os seus custos, porque você tem um custo fixo na sua operação que não consegue baixar só reduzindo a produção. Assim, para melhorar nossa capacidade de utilização e aumentar o nível da produção, de emprego e de renda da população, é preciso que a gente utilize a capacidade industrial em níveis superiores daqueles que a gente tem hoje. E, repito, isso passa, necessariamente, pelo aumento das exportações. Mas, então, se a desvalorização do real não pode ser considerada um problema, o mesmo não acontece com os juros, que estão na estratosfera, não é mesmo? Ou isso não interfere? Mas é claro que interfere. E muito negativamente. Precisamos de taxas de juros que sejam equivalentes às taxas internacionais, porque, com a Selic a 13,75%, ninguém vai botar dinheiro na produção – todo mundo que tem dinheiro vai colocá-lo no 12 SIDERURGIA BRASIL Nº 113/114 mercado financeiro. Então, o governo precisa entender que a saída para o Brasil recuperar sua competitividade é incentivar as exportações, por meio dos mecanismos de financiamento internacionais, mais taxas de juros que também sejam normais nos mercados internacionais. Com isso, ele vai proporcionar o retorno da produção que está ociosa no setor industrial e retomar o nível de empregabilidade e renda, para que, pouco a pouco, o Brasil volte a crescer de novo. Isso sem falar nos impostos, não é? Principalmente neste momento em que, como você falou, o caminho da recuperação da nossa economia passa, necessariamente, pelo aumento das exportações, como a indústria nacional está “digerindo” a drástica redução da recomposição do Reintegra, abarcada no pacote do ajuste fiscal? Esse também, é claro, é um ponto crucial em que a gente depende do governo para melhorar nossa posição competitiva, seja no mercado interno, seja no externo: precisamos, de alguma forma, eliminar a cumulatividade dos impostos. Hoje, vários setores industriais já mediram quais são os impostos que eles, no final, acabam agregando à sua operação, e que aparecem lá como um custo, porque você não consegue repassar esses impostos para as etapas à sua frente. Assim, já existe uma certa visão de que você tem impostos acumulados não aproveitáveis, por exemplo, no setor automotivo. Esse cálculo já foi feito pela Anfavea, e é da ordem de 10%. E é por isso, também, que o setor industrial vem se esforçando tanto em pedir ao governo que ele retorne com o Reintegra ao nível de recomposição que se tinha no ano passado, que era de 3% – dentro desse ajuste fiscal, o governo reduziu para 1%. E isso vai contra as exportações, porque muita gente acha que o Reintegra estaria sendo resolvido com a maior desvalorização do dólar, o que não é verdade. Como eu já disse, a desvalorização do dólar tem que ser feita para acompanhar a cesta de medas que competem com a gente lá fora, e que também estão em processo de desvalorização, mais até do que o real. Já o Reintegra, que é um mecanismo para, de certa forma, devolver parte dos impostos pagos pela indústria, que estão no custo da produção de itens que são exportados. Isso beira o absurdo: afinal, quem exporta imposto? Os preços internacionais, por principio, são considerados isentos de impostos. Como temos impostos acumulados nos produtos industriais que são exportados do Brasil, o Reintegra existe exatamente para reduzir essa carga adicional que a gente tem. E exemplos internacionais de que isso funciona são inúmeros. Na China, por exemplo, alguns produtos siderúrgicos têm um “reintegra” da ordem de 17%. Ou seja, o governo chinês devolve17% do valor do imposto para o exportador 17%, enquanto que o governo brasileiro vai devolver 1% este ano, 1% no ano que vem, para, em 2017, passar a devolver 2%, e, em 2018, voltar a devolver os 3% que tínhamos em 2014. Aí, não dá para ser competitivo, não é mesmo?! E, no seu entendimento, como anda a disposição do governo para reverter esse quadro? Há várias associações de produtores industriais trabalhando nisso JUNHO  JULHO/2015

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www.siderurgiabrasil.com.br junto com a Associação dos Exportadores Brasileiros (AEB), no sentido de sensibilizar o governo brasileiro de que reduzir o Reintegra é dar um tiro no pé, mas, infelizmente, por enquanto ele continua insensível a todos esses apelos. Por conta de tudo isso, a realização do Congresso Internacional do Aço, a ser promovido pelo Instituto Aço Brasil em São Paulo, agora em julho, reveste-se de uma importância fundamental, não é mesmo? Quais são as expectativas de vocês em relação a ele? Sim, todos os temas sobre os quais falamos nesta entrevista vão ser abordados com mais profundidade no nosso Congresso. E o que a gente espera é que essa discus- são tenha reverberação pública e na mídia. Contaremos com a participação de vários políticos no evento, e nossa expectativa é que, por meio desse debate e dessa discussão, a gente possa sensibilizar as autoridades e o governo, nos seus diversos níveis, porque, hoje, no Brasil, nada se resolve se não tiver algum tipo de consenso político. E vale ressaltar que a intenção principal do Congresso é ajudar a resolver o problema brasileiro da indústria como um todo, e não apenas a questão específica da indústria do aço. Estaremos discutindo o futuro da indústria brasileira, da indústria de transformação no Brasil. Isso porque o problema que a indústria do aço vive hoje é o mesmo do vivenciado pela cadeia Foto: Divulgação/ArcelorMittal Brasil química, pela da construção civil e por aí vai. Na verdade, todo o setor industrial brasileiro está no mesmo barco. Então, o que a gente precisa fazer é unir forças no sentido de sensibilizar o governo, as autoridades e os políticos sobre as medidas corretas que devem ser tomadas, a fim de que possamos recuperar rapidamente a nossa capacidade de investimento e de crescimento do Brasil.

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CONGRESSO DO AÇO O ajuste precisa de ajuste Quando se olha para a situação atual da indústria de transformação no Brasil, na qual tanto estruturalmente quanto conjunturalmente você tem problemas, salta aos olhos que a maneira correta de se corrigir tudo isso seria corrigir as assimetrias. Mas nem todos parecem dispostos a fazê-lo. Infelizmente. Marcus Frediani ntre o empresariado brasileiro é cada vez mais nítida a sensação de que as medidas encenadas pelo governo para resolver os problemas da economia brasileira estão longe daquilo que se poderia colocar no “olimpo” das soluções definitivas. Quando muito, representam um começo um tanto quanto mal ajambrado, que pode ser interpretado, com alguma boa vontade, como relativamente acertado. Relativamente, não mais do que isso. Tal conclusão vem da constatação de que no ninho onde tais propostas estão sendo gestadas, a preocupação com paliativos “de impacto” parece estar sendo lançada para desviar os olhares das verdadeiras questões-chave que ajudariam a indústria a pôr ordem na casa e, de maneira efetivamente organizada, atacar – com o remédio e doses exatas –, as doenças e os problemas como a falta de uma defesa comercial efetiva, que ainda deixam o país de joelhos frente ao assédio do aço e dos produtos chineses. Nesse âmbito, por exemplo, não deu para entender também aonde o governo quer chegar com os desvarios im- postos ao Reintegra, considerados por muitos a mola-mestra de um retrocesso intempestivo e absolutamente ininteligível. Nesta entrevista exclusiva concedida à revista Siderurgia Brasil, Marco Polo de Mello Lopes, presidente do Instituto Aço Brasil (IABr), destrincha alguns temas dessa natureza e, ainda, propõe algumas soluções e possibilidades tangíveis para a indústria de transformação no Brasil virar essa tediosa página em que se encontra atualmente. Siderurgia Brasil: Como você avalia o atual estágio vivenciado pela indústria de transformação no Brasil? Marco Polo de Mello Lopes: A indústria brasileira de transformação talvez tenha sido o segmento da economia brasileira mais penalizado pela atual conjuntura do país. Ela vem perdendo significativamente participação no PIB ao longo dos anos. Essa participação, que já chegou a ser de 35%, hoje está abaixo de 12%. Em economia, o diagnóstico disso tem um nome: perda da competitividade sistêmica, caracterizada pela ocorrência de fatores que impactam diretamente os resultados das empresas, mas que fogem ao controle delas. Nessa “cesta” de fatores adversos podemos colocar, no caso do Brasil, a energia mais cara do mundo, o gás natural mais caro do mundo, os juros estratosféricos, uma carga tributaria descomunal, a cumulatividade dos impostos e a defasagem cambial. Esse, de forma resumida, seria o elenco dos fatores que vem retirando a competitividade da indústria brasileira de transformação e, por tabela, da indústria brasileira do aço, na qual ela está inserida. E na hora em que eu perco a competitividade sistêmica, passo a ter também uma dificuldade muito grande em competir tanto com os produtos importados, quanto na exportação. E, dando continuidade a esse ciclo nada virtuoso, ao perder essa capacidade de competição, passo a utilizar um grau menor da minha capacidade instalada, o que faz com que isso impacte diretamente os resultados do setor. O setor aço, especificamente, pelas peculiaridades dos seus equipamentos e por ser uma atividade intensiva em capital, deveria estar operando acima 80% da sua capacidade instalada. Mas, o que vimos observando ao longo dos últimos meses, é que ele vem operando com 69% da capacidade, ou seja, muito abaixo do que poderia realizar. www.freeimages.com 14 SIDERURGIA BRASIL Nº 113/114 JUNHO  JULHO/2015

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www.siderurgiabrasil.com.br Como você interpreta as categorias de dificuldades apresentadas por tal conjuntura? Veja bem, olhando especificamente para a indústria do aço, eu dividiria a questão em duas categorias de problema: os de natureza estrutural, e os de natureza conjuntural. O que acabei de falar em relação às assimetrias competitivas, classifico como um problema estrutural. Em outras palavras, para resolvermos essa questão, teríamos que resolver as questões estruturais ligadas a cada um desses itens. Já do lado conjuntural, também aí no setor de aço, temos algumas peculiaridades, porque além da economia brasileira, que cresceu muito pouco em 2014, certamente teremos um decréscimo na atividade em 2015 e, diante de nós, um ponto de interrogação em relação a 2016. Considerando os nossos segmentos de consumo, o setor automotivo, por exemplo, acaba de revisar suas previsões para o ano de 2015, projetando uma queda de negócios algo em torno de 18%. Paralelamente, o setor da construção civil também vem com quedas muito significativas – acabaram os recursos governamentais, as obras do PAC estão sofrendo cortes e mais cortes, e, além disso tudo, você tem ainda o problema envolvendo as grandes empreiteiras. E o outro segmento que atendemos, o de máquinas e equipamentos, também vem apresentando quedas gigantescas. Aí, se você somar esses três segmentos, basicamente você estará falando em mais de 80% do consumo aparente de aço no Brasil. Então, essa questão conjuntural tem um viés interno – ou seja, o mercado interno despencou, essa é a palavra –, com o agravante de que nós estamos sendo bombardeados com importações maciças da China. Como elas vêm evoluindo? Bem, um indicador importante que temos disso aponta que, em 2000, a China participava com 1,3% das importações brasileiras de aço. Mas, no ano passado, esse número fechou acima de 52%, isso sem falar no aço contido que está entrando cada vez mais em veículos, máquinas e equipamentos, o que também nos preocupa. Assim, se pegarmos a importação direta e a indireta de aço, estaremos falando aí sobre algo em torno de 8 milhões, quase 9 milhões de toneladas, o que é mais do que a maior empresa brasileira, a Usiminas, comercializa. Mas isso não é um problema exclusivamente brasileiro, não é mesmo? Claro que não. A importação do aço chinês é uma preocupação monumental no mundo inteiro, e que tende a se agravar. Isso porque na China há o fenômeno das empresas estatais, que é conhecido como SOE (State Owned Enterprises), por meio do qual as indústrias chinesas de aço não competem contra outras empresas mundiais, mas, sim, contra outras economias estatais, ou seja, contra países ou blocos econômicos inteiros. Estamos falando de uma indústria altamente subsidiada, que ainda tem a seu favor um câmbio desvalorizado artificialmente, o que permite práticas predatórias, consideradas unfair e não ortodoxas no mercado internacional. Com isso tudo, para JUNHO  JULHO/2015 a maciça maioria dos países – o Brasil, inclusive – é absolutamente impossível competir contra o aço da China. E a prova disso é essa inundação de produtos chineses aqui no Brasil. Some-se a tudo isso o excedente de capacidade internacional de aço, da ordem de 700 milhões de toneladas, e você tem a fórmula da “tempestade perfeita”. Embora sem atender ou contemplar pontualmente essas questões, as medidas do ajuste fiscal que está sendo proposto e implantado pelo governo podem, na sua opinião, contribuir para a melhoria desse panorama? O pior cenário seria termos entrado em 2015 sem mudar nada daquilo que ocorreu em 2014. Alguma coisa precisava ser feita e, no nosso entendimento, o ajuste fiscal é importante e precisa efetivamente ser feito. Mas temos dúvidas em relação à maneira como ele está sendo feito. Por exemplo, a indústria brasileira do aço não usufruiu de nenhum benefício, desoneração da folha e não tivemos redução de IPI, como aconteceu em outros segmentos da cadeia. Mas se imaginarmos que o Reintegra, que era um instrumento que poderia alavancar as exportações nacionais e abrir as portas para o Brasil realizar uma retomada de seu crescimento – e eu não estou aqui falando do aço especificamente, mas de toda a indústria – foi aviltado pelo pacote de medidas do ajuste fiscal, aí não dá para concordar. Com a redução de 3% para 1% da recomposição dos impostos pagos, tivemos um confisco – e essa é a palavra correta, “confisco” mesmo – de 2%, o que no setor SIDERURGIA BRASIL Nº 113/114 15

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