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revista ANO V - Nº 19 - 23 DE JUNHO DE 2017 ISSN 2238-1414 A natureza em três momentos

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Editorial Nesta edição de junho de 2017, a Revista Barbante apresenta algumas imagens que visam lembrar que o dia 5 do mês de junho é dedicado ao meio ambiente e à conscientização das pessoas acerca da importância de cuidarmos do maior de nossos bens aqui no planeta: a exuberante natureza que possuímos! Também para ilustrar essa questão, Christina Ramalho reflete sobre a visão que a poeta romântica Narcisa Amália de Campos (1852-1924) tinha da natureza brasileira. Vivendo em um momento de transição estética, é curioso observar como a escritora fez uso das novidades mais realistas em sua poesia. Compõem este número cinco artigos de mestrandos/as do Mestrado Profissional em Letras da Universidade Federal de Sergipe, campus Itabaiana, que propõem sequências didáticas a serem trabalhadas por professores do Ensino Básico que desejem valorizar a presença da Literatura nas salas de aula. Outro, artigo, desta vez de Isadora Pelosi, analisa a presença da figura dos cangaceiros e, em especial, de Lampião, no filme Baile perfumado (1996), de Lírio Ferreira e Paulo Caldas. Complementando esta seção o artigo de Sírlia Lima e Ana Cristina que tem como título “As janelas traumáticas acionando gatilhos das emoções na infância”. Ensaio da professora Rita Samuel Bezerra intitulado “Reflexão no entorno de uma liberdade de pensamento”. Cordéis de Sírlia Lima que fala sobre o sociólogo Zygmunt Bauman e Rosa Regis que trata a questão do meio ambiente. Poemas de Gilvânia Machado, Rosângela Trajano, Carla Sofia, Ailezz, Ilda Rezende, Alzenir Araujo, Clécia Santos, Cleide Paiva, Eliete Marry, Fátima Alves, Fátima Gonçalves, Fatuca Silva, Flávia Arruda e José de Castro dão o toque lírico à edição, enquanto o conto de Ellen Oliveira e a crônica de Ítalo de Melo Ramalho completam a expressão literária inserida neste número. Desejamos boa leitura a todos! Christina Ramalho Rosângela Trajano Editoras REVISTA BARBANTE - 2

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Artigos REVISTA BARBANTE - 3

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Leitura de poemas como prática significativa para o aluno INTRODUÇÃO Alexandra Oliveira Monteiro Walneyde de Santana Lima Ler traduz-se numa experiência única exigindo o estabelecimento de uma relação de prazer, implicando treino, esforço e também interesse. Lendo poemas, nosso jovem aluno vai recriando o mundo por meio da imaginação e esse contato é essencial para boa formação, pois ajuda no desenvolvimento da sensibilidade, da personalidade, evoca sentimentos, faz refletir. Na verdade, a leitura de textos poéticos é capaz de despertar leitores de qualquer faixa-etária. Muitos professores trabalham com esse gênero em sala porque é muito atrativo, já que apresenta ritmo e musicalidade. O texto literário constitui uma forma peculiar de representação e estilo em que predominam a força criativa da imaginação e intenção estética. Não é mera fantasia que nada tem a ver com o que se entende por realidade, nem é puro exercício lúdico sobre as formas e sentidos da linguagem e da língua (PCNs,1998, p.26) A poesia encanta, inspira, tem a capacidade de despertar emoções. Muitas vezes, os alunos já chegam à escola com conhecimentos da linguagem poética: cantigas de roda, acalentos, trava-línguas, parlendas, adivinhas etc. E a maneira como a escola fará uso dessa abordagem será determinante no processo de formação do leitor e de sua experiência com o texto poético. O professor não tem que apenas estimular a ler, é preciso que seja um ato e exercício crítico. Apresentamos aqui uma sequência didática que pode ajudar muitos professores a se engajarem nesta atividade tão importante, pois a literatura também cumpre o papel de educar. Tomamos como referencial teórico para a elaboração da sequencia o autor Cosson. Também nos fundamentamos nas teorias de Antunes, Bagno e Lajolo. Tivemos como foco o poema “Samba em Prelúdio”, de Vinícius de Moraes e Baden Powell. Com a leitura deste poema, o aluno será incentivado a ler outras obras de Vinícius, pois seus temas aproximam-se de qualquer faixa etária, como o amor, por exemplo. Foi um poeta que marcou a literatura e a música e até hoje é relembrado. Enfatizamos, no presente artigo, a necessidade de se criar o hábito da leitura de textos poéticos, fazendo uma análise linguística e também de seu conteúdo, sua essência. Importante salientar que o objetivo não é transformar os alunos em grandes poetas, até porque não se fazem poetas. Queremos apenas estimular a ler e escrever poemas para que sejam aptos a interpretar e compreender o que o poeta quis transmitir através dos versos. O presente estudo está organizado em partes. Na primeira, encontra-se a fundamentação teórica trazendo os estudos em que nos baseamos para compor este trabalho. A seguir, apresentamos uma sequência didática composta por sete aulas como sugestão de atividades que acreditamos enriquecer o cotidiano das aulas de Língua Portuguesa. Familiarizar os alunos com esse gênero deve ser feito com planejamento a longo prazo para evitar que eles continuem afirmando que ler poemas e retirar a poesia deles é difícil. A leitura de textos poéticos tem algumas peculiaridades, portanto, requer mais cuidado. Ela deve ser compartilhada, não só na escola, mas REVISTA BARBANTE - 4

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também em casa, no trabalho, para nossos momentos de lazer. ... devemos compreender que o letramento literário é uma prática social e, como tal, responsabilidade da escola. A questão a ser enfrentada não é se a escola deve ou não escolarizar a literatura, como bem nos alerta Magda Soares, mas sim como fazer essa escolarização sem descaracterizá-la, sem transformá-la em um simulacro de si mesma que mais nega do que confirma seu poder de humanização. ( COSSON, 2014, p. 23) FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Muitos são os debates com relação à importância da leitura no ambiente escolar. Nós, professores, sabemos que ao incentivarmos o hábito de ler em sala de aula, estamos transformando pouco a pouco a realidade dos nossos alunos, pois entendemos a leitura como libertação e autonomia do pensamento. Segundo Antunes “Em primeiro lugar, a leitura deve preencher os objetivos prioritários da escola porque nos permite o acesso ao imerso acervo cultural constituído ao longo da história dos povos e possibilita, assim, a ampliação de nossos repertórios de informação.” (ANTUNES, 2009, p. 193) Porém, um dos grandes entraves no processo de ensino – aprendizagem é justamente despertar no aluno o hábito de ler. Sabemos qual tamanha é a importância da leitura, pois com ela teremos conquistas relevantes na área da educação. Então, vários projetos, no ambiente escolar, devem voltar-se para este fim. Para Bordini e Aguiar, Se os métodos de ensino como ficaram comprovados, encerram pouca margem para a imaginação e a criatividade e não acolhem práticas familiares ou desafiadoras aos alunos, é possível deduzir-se que o problema reside mais nesses métodos do que na bagagem cultural prévia daqueles que frequentam a escola (BORDINI e AGUIAR, 1988, p.33). Ler é um ato que ampliará nosso desenvolvimento pessoal e profissional e que por isso deve realmente ter na escola espaço privilegiado, seja em projetos, seja no cotidiano das aulas ministradas por todos os professores. Entretanto, a propagação do prazer da leitura não deve ser responsabilidade somente do professor de língua portuguesa e sim, de todos aqueles que fazem a área da educação. A leitura amplia o poder de argumentação e o vocabulário de nossos alunos e aprimora a escrita. Preocupar-se com a leitura é querer formar cidadãos críticos e transformadores da própria realidade. É inegável o papel do educador na formação de leitores críticos. O aluno que não tem na família seu ponto de partida para o despertar do hábito de ler precisa do professor para que essa vontade seja ativada. O docente precisa, antes de tudo, passar para a sua sala o seu gosto pela leitura, seu prazer com os livros e seu encantamento com as histórias. Cabe ao educador preparar aulas em que priorize a leitura e que esta faça parte de atividades dinâmicas e variadas com diferentes gêneros. Extrapolar a decodificação é fundamental, por isso a importância de se trabalhar diferentes gêneros. Além do mais, o estudante precisa ver sentido no que ler, e, portanto, a leitura de obras atuais também é primordial, pois elas terão um maior significado para o aluno, já que tratam de algo de seu tempo com uma linguagem também mais acessível. A atualidade das obras gerará no discente um interesse maior. Mas vale lembrar que trabalhar o letramento literário na escola é trabalhar sempre com o atual, seja ele contemporâneo ou não. REVISTA BARBANTE - 5

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Cosson sugere ao professor três critérios seguir para que seu planejamento contribua para o estímulo da leitura: Em síntese, o que se propõe aqui é combinar três critérios de seleção de textos, fazendo-os agir de forma simultânea no letramento literário. Ao selecionar um texto, o professor não deve desprezar o cânone, pois é nele que encontrará a herança cultural de sua comunidade. Também não pode se apoiar apenas na contemporaneidade dos textos, mas sim em sua atualidade. Do mesmo modo, precisa aplicar o princípio da diversidade entendido, para além da simples diferença entre os textos, como a busca da discrepância entre o conhecido e o desconhecido, o simples e o complexo, em um processo de leitura que se faz por meio da verticalização de textos e procedimentos. É assim que tem lugar na escola o novo e o velho, o trivial e o estético, o simples e o complexo e toda a miríade de textos que faz da leitura literária uma atividade de prazer e conhecimento singulares. (COSSON,2014, p.36). Assim, a importante função da leitura que é promover a comunicação entre o indivíduo e sua comunidade, por possibilitar a construção do seu conhecimento sobre a cultura e sociedade em que vive, deve ser efetivamente trabalhada na escola. Lá há um espaço de troca e compartilhamento de leituras. Aliteratura com seus infinitos e fascinantes personagens pode ser o ponto de partida para a transformação de nossas aulas. Várias são as indagações trazidas pelo mundo literário e o aluno. O estudante pode, através da leitura de textos literários, desenvolver uma atitude crítica sobre tudo que o cerca. Para tanto, devemos incutir em nossos alunos a fascinação pela literatura. Eles precisam saber que pode ser algo prazeroso, de fácil acesso e útil. De acordo com Antunes, Ler textos literários possibilita-nos o contato com a arte da palavra, com o prazer estético da criação artística, com a beleza gratuita da ficção, da fantasia e do sonho, expressos por um jeito de falar tão singular, tão carregado de originalidade e beleza. Leitura que deve acontecer simplesmente pelo prazer de fazê-lo. Pelo prazer da apreciação, e mais nada. Para entrar no mistério, na transcendência, em mundos de ficção, em cenários de outras imagens, criadas pela polivalência de sentido das palavras. (ANTUNES, 2009, p. 200) Entretanto, o que conhecemos das aulas de literatura é o cansaço. São aulas, muitas vezes, limitadas a características das escolas literárias, nomes de autores e trechos de obras que aparecem no livro didático. Das quatro ou cinco aulas dedicadas à língua portuguesa só uma é separada para literatura, pois a sua importância é desconsiderada por muitos. A ênfase fica para as aulas de língua portuguesa que são entendidas como ensino das regras gramaticais. Precisamos aprender e repassar o real sentido das aulas de literatura pois a construção social que fazemos com ela traz ganhos para sociedade como um todo. De acordo com as ideias de Bordini e Aguiar, Todos os livros favorecem a descoberta de sentidos, mas são os literários que o fazem de modo mais abrangente. Enquanto os textos informativos atêm-se aos fatos particulares, a literatura da conta da totalidade do real, pois, representando o particular, logra atingir uma significação mais ampla. (BORDINI e AGUIAR, 1988, p.13). Se a importância ainda está na correção de erros gramaticais, a leitura que é peça chave para a escrita é também tolhida. O aluno lê, desenvolve a escrita e encontra barreiras que o fazem não gostar de ler, não gostar de escrever, pois o texto é devolvido ao estudante cheio de marcas de correção que se limitam à ortografia, concordância, ou seja, à correção da língua portuguesa como se só a variedade padrão fosse a única correta. Estimular o aluno a aprender a língua portuguesa padrão é muito importante, pois ele usará em muitas situações, porém, ela não é a melhor nem a mais correta. Assim, o professor não deve esquecer a sua REVISTA BARBANTE - 6

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sensibilidade literária na hora da correção das produções de seus alunos. Uma produção não pode deixar de ser perfeita porque contém erros referentes a regras gramaticais. Segundo Marcos Bagno, Um dos significados do verbo errar é “perambular, ir de lado para o outro, vagar sem destino”- exatamente o oposto do que tradicionalmente se entende por “erro”! Os falantes que aparentemente “desrespeitam” as regras da gramática normativa não usam a língua de modo “vago” “impreciso”, “sem destino”: muito pelo contrário, eles obedecem sempre às regras de sua gramática, de modo mais rigoroso até do que os falantes escolarizados... Quando se fala em “erro”, a impressão que fica é a de que a pessoa “erra” por preguiça ou por falta de inteligência, como se ela escolhesse errar, como se ela soubesse o “certo”, mas, por teimosia ou ignorância, insistisse em falar “errado”. Não é nada disso! Essa é uma visão extremamente preconceituosa e desinformada dos fenômenos da linguagem. (BAGNO, 2006, p.27) Então, a correção do texto deve ir muito além das simples regras gramaticais. O aluno deve ter prazer em ler e escrever. Deve ver sentido no que faz, por isso a presença da literatura na escola é tão importante. Uma boa literatura dará sustentabilidade aos nossos alunos, já que através dela, irão criticar, ampliar e transformar as ideias que já possuem da realidade, da sociedade. Ressalta-se, então, mais uma vez, a tamanha importância do professor, pois infelizmente nossas escolas estão cheias de docentes que não possuem o hábito de ler e tentam transmitir o estímulo à leitura. O professor deve ser leitor, deve ter a literatura como uma possibilidade de transformação social, deve ter certeza de que por meio dela ajudará seus alunos a serem responsáveis e atuantes na sociedade. [...] É justamente para ir além da simples leitura que o letramento literário é fundamental no processo educativo. Na escola, a leitura literária tem a função de nos ajudar a ler melhor, não apenas porque possibilita a criação do hábito de leitura ou porque seja prazerosa, mas sim, e, sobretudo, porque nos fornece, como nenhum outro tipo de leitura faz, os instrumentos necessários para conhecer e articular com proficiência o mundo feito linguagem. (COSSON, 2014, p.30) Entrar em mundos possíveis que a literatura nos oferece é fundamental no mundo escolar e também fora dele. Começar a ler poemas na escola é importante para que o aluno comece a se familiarizar com esse gênero e se sinta motivado a continuar lendo em quaisquer ambientes em que esteja inserido, já que é um gênero que brinca com as palavras e seus sentidos. Temos, muitas vezes, alunos com talentos para produção poética e não são descobertos ao longo de sua vida escolar. Segundo Lajolo, Na medida em que os elementos de que se constitui a especificidade do poema estão na linguagem e na medida em que a linguagem é uma construção da cultura, para que ocorra a interação entre o leitor e o texto, e para que essa interação constitua o que se costuma considerar uma experiência poética, é preciso que o leitor tenha possibilidade de percepção e reconhecimento – mesmo que inconscientes – dos elementos de linguagem que o texto manipula. (LAJOLO,1993,p.45) O papel do professor, nesse sentido, sobressai mais uma vez, pois ele pode influenciar positivamente ou não. Para que se obtenha êxito em sua tarefa em estimular a leitura literária, o docente tem que ser antes de tudo um entusiasta da leitura poética, já que é contraditório solicitar aquilo que não se pratica. Talvez, por isso, alguns professores apresentem resistência em trabalhar a leitura de poemas em sala de aula SEQUÊNCIA DIDÁTICA Para a produção deste material, usamos como referência a sequência didática de Cosson exposta no Livro “Letramento literário: teoria e prática. (2014) REVISTA BARBANTE - 7

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O poema escolhido para a elaboração da atividade é “Samba em Prelúdio” de Vinícius de Moraes, em parceria com Baden Powell, para uma turma de 8º ano do ensino fundamental. Esse poema foi escolhido por tratar de uma temática que se refere ao amor já que é um sentimento universal e deve ser compartilhado. Ponto chave para iniciar um debate sobre a anulação a que muitas pessoas se submetem por estarem amando, o poema traz, em muitos versos, esse sentimento de só estar bem na presença do ser amado. Versos como “Eu sem você / Não tenho porquê ( 1º e 2º versos) demonstram a negação da própria existência em detrimento da amada. É um debate rico, pois é na pré-adolescência que o primeiro amor costuma acontecer, e usar do diálogo para falar sobre esse tema é uma maneira de nós, adultos, estarmos mais próximos de nossos jovens, já que estamos tratando de um assunto constante no meio deles. Segundo Cosson, a primeira etapa deve ser a motivação, pois é com ela que preparamos o aluno para entrar no texto. Uma boa motivação garantirá o sucesso inicial do encontro do leitor com a obra. Referindo-se ao poema trabalhado, sugerimos que, na primeira aula, seja executada a música “Anjo” de Saulo Fernandes. Esse cantor e compositor é muito conhecido por essa geração pré-adolescente. Com o vídeo dessa música, deve-se chamar atenção para a declamação que o cantor inicialmente faz antes de cantar a música propriamente dita. Também pode ser usado como início de um debate sobre o que é o amor, suas várias manifestações, como podemos demonstrá-lo e se é melhor demonstrado em gestos ou palavras. É importante ressaltar que não se deve despender tanto tempo para essa atividade de motivação, por isso não foi trabalhada uma produção escrita, ficando todo o debate na explanação oral. A introdução é a segunda etapa da sequência que para Cosson refere-se à apresentação do autor e da obra. Ao término da aula dedicada à motivação, sugerimos solicitar que os alunos pesquisem sobre a vida e obra de Vinícius de Moraes. O início desta segunda aula poderá ser com o debate sobre as pesquisas feitas. Sugerimos perguntar se os alunos já conhecem Vinícius de Moraes e se têm conhecimento de que a famosa obra “A Casa” é de autoria desse ilustríssimo poeta. Outras músicas também conhecidas devem ser colocadas: “Eu sei que vou te amar” e “Garota de Ipanema. Em seguida, pode-se questionar o porquê de Vinícius ser chamado de “o Poetinha.” Não se deve esquecer a justificativa para a classe da escolha desse poeta e dessa obra. Pode ser explicado que o objetivo é tratar de questões universais do homem e o amor enfatizado por Vinícius de Moraes em vários de seus poemas é um tema universal. Pode ser contada também a divertida história da composição de “Samba em Prelúdio.” Organizando a introdução dessa maneira, evita-se uma longa exposição sobre a vida do escritor. Segundo Cosson, é suficiente que na introdução se forneçam informações básicas sobre o autor e se possível ligadas ao texto trabalhado. É de grande importância lembrar das palavras de Cosson com relação à introdução: Por fim, é preciso que o professor tenha sempre em mente que a introdução não pode se estender muito, uma vez que sua função é apenas permitir que o aluno receba a obra de uma maneira positiva. Desse modo, a seleção criteriosa dos elementos que serão explorados, a ênfase em determinados aspectos dos paratextos e a necessidade de deixar que o aluno faça por si próprio, até como uma possível demanda da leitura , outras incursões na materialidade da obra, são as características de uma boa introdução. (COSSON,2014,p.61). A terceira etapa é a leitura do texto. De acordo com Cosson, o aluno não deve ser vigiado para que o professor saiba se ele está lendo ou não o texto. Esse processo de leitura é um acompanhamento que tem como objetivo auxiliar o docente em suas dificuldades, inclusive aquelas relativas ao ritmo da leitura. Como o gênero poema é um texto curto, toda leitura pode ser realizada em sala de aula. Na terceira aula, REVISTA BARBANTE - 8

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a primeira leitura deve ser a silenciosa e em seguida a oral. Com esta, podem ser trabalhadas características individuais do poema como a sua estrutura, pausas, ritmo, rima, entonação, entre outras. Nessa etapa, além do poema ser declamado pelo professor, sugerimos apresentar à turma o poema musicado. O vídeo com a apresentação do poema cantado na voz de Toquinho é uma ótima sugestão. A atividade de interpretação do texto é a quarta etapa da atividade. Para Cosson, dois momentos devem ser considerados nessa parte: um interior e outro exterior. No trabalho com o poema “Samba em Prelúdio”, a interpretação íntima pode partir dos versos “Sou chama sem luz/ jardim sem luar/luar sem amor/ amor sem se dar” para que os alunos sejam motivados à construção de sentidos. Esta maneira de trabalhar o poema pode ser a quarta aula. O momento externo consiste na concretização, materialização da interpretação como um ato de construção de sentido em uma determinada comunidade. É nessa parte que a leitura literária feita fora da escola se distingue do letramento literário organizado dentro dela. Sugerimos nessa etapa a música “Velha infância” de composição de Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown, Davi Moraes e Marisa Monte, pois trata da temática do poema, abrangendo o sentimento para além dos amantes, já que a música foi composta em homenagem ao filho de Marisa Monte, na época gestante. A proposta, dentro da atividade de interpretação externa, é a produção de poemas que enfatizem o amor numa dimensão que englobe as várias manifestações desse sentimento. Essa etapa de produção refere-se à quinta aula. Como forma de incentivar ainda mais a leitura e produção de poemas, sugerimos que os poemas produzidos sejam expostos por toda a escola. Em uma atividade extraclasse, sugerimos que os poemas sejam declamados pelos seus respectivos autores. Sugerimos, na sexta aula, a apresentação do poema “Amor é um fogo que arde sem se ver” de Luís Vaz de Camões. A intenção é mostrar o tema “amor” em um poema canônico, já que a importância do cânone como herança cultural também precisa ser trabalhada em sala. Para enriquecer o momento, pode-se falar do quanto Camões foi importante para a humanidade como também trabalhar toda a interpretação do poema sugerido. A música “Monte Castelo” de Legião Urbana é uma boa pedida para a ocasião. A sétima aula poderá ser o momento em que sejam feitas as leituras dos poemas construídos pelos alunos. Muitos podem declamar suas obras e em seguida poderá haver comentários a respeito dos poemas A exposição para a comunidade escolar poderá ocorrer em um momento acordado com a direção da escola, pois precisa-se de mais tempo e da visita de outras turmas. Sugerimos expor as pesquisas sobre vida e obra de Vinícius de Moraes como também os poemas produzidos pelos alunos. A música sugerida para este momento é “Fico Assim Sem Você” de Cacá Moraes e Abdullah. Temos essa canção na voz de Claudinho e Buchecha como também de Adriana Calcanhoto. É uma música que trata justamente do tema abordado em sala. Aproveitamos a oportunidade para fazermos o momento de autógrafo Ao pensarmos essa sugestão de sequência didática, queremos incentivar o hábito de ler textos poéticos como um início para entrada ao mundo da literatura, conscientizando-se da sua função de educar, como também observando a ampla possibilidade de interpretações em textos literários. REVISTA BARBANTE - 9

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CONSIDERAÇÕES FINAIS. É relevante que a escola propicie ao aluno momentos de contato com os textos poéticos, pois eles sensibilizam os discentes e os tornam leitores reflexivos ante um mundo conturbado em que vivemos. A função da escola não é formar poetas e sim tornar os alunos sensíveis à recepção de poemas. Cabe, então, aos professores traçar metas e objetivos a serem alcançados no ensino. Didáticas criativas se fazem necessárias para que o aluno se sinta motivado a participar intensamente do ato da leitura em qualquer gênero. Apresentamos aqui uma sequência didática em que se privilegiou um estudo mais voltado ao conteúdo do poema, deixando para segundo plano a sua estrutura, levando o aluno a refletir mais sobre questões com as quais eles convivem e talvez até procurem respostas para as mesmas. Muitas vezes, quando se aplica o estudo de poemas em sala de aula, há uma abordagem exaustiva com ênfase em elementos gramaticas (morfologia, sintaxe...) ainda usada por tradicionais professores. Mas é importante deixar claro que não se trata de uma crítica em que se deve deixar de lado tais aspectos, o problema é trabalhar somente com questões de gramática. Há uma necessidade dos professores passarem a olhar o trabalho com textos poéticos de outra forma e perceberem a importância do mesmo. É evidente o desenvolvimento da capacidade linguística do discente, pois as poesias trazem uma linguagem que abre possibilidades de interpretação, linguagem conotativa, tornando o educando mais sensível quanto à compreensão do mundo e de si próprio. O discente precisa ter uma visão ampla de que ler e compreender poemas não se limita apenas a rimas e versos. É preciso que se perceba o poder que tais textos têm em formar e transformar a sociedade e o papel do professor, nesse sentido, é importantíssimo, pois temos visto que, de um modo geral, o estudo com o gênero poema não tem tido destaque nas aulas de Língua portuguesa. Em um cenário cheio de outros atrativos tecnológicos como o de hoje, não basta apenas oferecer livros aos discentes em quantidade, ou determinar quais leituras eles farão. Eles precisam perceber que ler é fundamental para a vida. Neste artigo, sugerimos possibilidades metodológicas para o professor em seu efetivo exercício docente. O educador pode utilizar essa sequência na íntegra ou associá-la a outras propostas, tudo dependerá de sua criatividade e interesse da turma. REFERÊNCIAS ANTUNES, Irandé. Língua, texto e ensino: outra escola possível. São Paulo: Parábola, 2009. BAGNO, Marcos. A Língua de Eulália: novela sociolinguística. São Paulo: Contexto, 2006. BRASIL, Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental: Língua portuguesa. Brasília, 1998 COSSON, Rildo. Letramento literário: teoria e prática. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2014. LAJOLO, Marisa. Do mundo da leitura para a leitura do mundo. São Paulo: Ática, 1993. REVISTA BARBANTE - 10

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ESTRATÉGIAS DE LEITURA À LUZ DA SEQUÊNCIA BÁSICA DE LETRAMENTO LITERÁRIO Carla Magda da C. Sousa Josivânia da Silva S. Costa1 1. INTRODUÇÃO A fluência na leitura se dá no momento em que o letramento é relevante no processo de aquisição da linguagem, que não apenas decifra o código escrito, como também constrói o pensamento crítico próprio que se estabelece na prática social. A leitura também deve ser uma fonte de prazer, nunca uma atividade de contrariedade permeada de coações e castigos, apreciada como uma imposição do mundo adulto. Para se ler é necessário deleite, interesse motivado pela curiosidade e avidez pelo aprendizado. A leitura é uma prática presente em quase todos os momentos de nossas vidas, embora, muitas vezes, não nos apercebemos desta realidade. Menos ainda percebemos que os diversos aspectos e estratégias concernentes a essa prática social nos permite decifrar a diferença entre a realidade e o ficcional e interpretar o sentido das coisas que nos rodeiam. Em função disso, ela pode ser considerada tanto uma atividade cognitiva muito complexa, que requer a ação de muitas habilidades interdependentes para que seja efetivada com sucesso, quanto uma prática interativa bastante útil e indispensável para o convívio em sociedade. Em outros termos, ao praticarmos a leitura, com suas estratégias diversificadas, além de adquirirmos mais conhecimentos e cultura, podemos dispor de um fantástico instrumento propulsor para a convivência do homem através de ações interativas bastante complexas. Concebida desta maneira, a atividade de leitura não corresponde apenas a uma mera decodificação de signos/símbolos, mas significa uma rica atividade de interpretação/compreensão do que se lê, permitindo aos seres humanos a capacidade de interagir com o outro por meio de palavras, as quais estão sempre inseridas em um determinado contexto. Portanto, para atingirmos o protótipo desse leitor, é preciso formar esse sujeito de modo proficiente, autônomo, com capacidade para entender com precisão, criticismo e objetividade as escritas que lê. Destarte, quando inferimos a questão da leitura literária, esta se torna a porta principal que desperta o conhecimento, o raciocínio e a interpretação. É através dos textos literários que adentramos na quimera do romantismo ou na concretude do realismo. É na literatura que despertamos a imaginação, adentramos em mundos inóspitos de personagens verossímeis, outrora desconhecidos pelos homens. É através da leitura desses textos que ativamos o lúdico adormecido, as imagens não imaginadas e o retrato emoldurado da criação divina. A língua e a linguagem na literatura são dicotomias extremamente relevantes no processo 1 Mestrandas do Programa de Pós-Graduação em Letras Profissional em Rede (PROFLETRAS) - Unidade Itabaiana/SE. REVISTA BARBANTE - 11

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de compreensão da capacidade leitura do discente. Nesse âmbito, a linguagem como forma ou processo de interação é a concepção mais aceita na modernidade. Homologa-se que o falante ao usar uma linguagem literária, não apenas exterioriza pensamentos ou transmite informações a outro falante, mas sim realiza ações, age, atua sobre o interlocutor (ouvinte/leitor). Sendo assim, essa linguagem, inerentemente artística é, pois, um lugar de interação humana, de interação comunicativa. Ela produz efeitos de sentido entre os interlocutores, numa dada situação de comunicação e num contexto sócio-histórico, seja ele lúdico ou pragmático. Ainda referente à leitura, há inúmeros discursos que explanam as práticas efetivas desta e do modo de como a percebemos no mundo. Isso quer dizer que as representações da leitura não são apenas descrições, retratos ou tipologias neutras, com sua dupla conotação psicológica e teatral. A leitura literária desperta o inimaginável através de sua magia peculiar. A leitura imputa ao leitor, seu aroma envolvente, que através da osmose da melodia de suas palavras, avassala sua presa, que é tão somente o ínfimo leitor despojado das vestes do preconceito e da ignorância. A leitura projeta no leitor as mais incríveis interpretações e julgamentos das antíteses da vida, como o feio e o belo. Não podemos deixar de nos vislumbrar com sua diegese, com a riqueza de recursos pictóricos, das metáforas que conotam sua beleza misteriosa, suas parábolas que alegorizam os sentidos e a sinestesia que inebria a razão. É através da leitura e, em particular, da leitura de textos literários, que nos é dada a possibilidade de, por meio do mundo transfigurado em arte, que é a obra literária, compreender melhor o mundo em que vivemos, o outro e a nós mesmos. A atividade do leitor de literatura se exprime pela reconstrução a partir da linguagem, de todo o universo simbólico que as palavras encerram e pela concretização desse universo com base nas vivências pessoais do sujeito. Nesse sentido, leitor é aquele que diante da plurissignificação de um texto, adentra na tarefa do deciframento dos sentidos organizados, por meio de um delimitado corpo esquemático oferecido pela obra. 2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Os romances, as crônicas, a literatura, no geral, é suscetível de comprovar a forma melíflua da leitura em todo seu aspecto físico, emocional e psicológico. Conquanto é que seria relevante fomentar a leitura literária, pois somente com um olhar sensível sobre a representação é que poderemos desvendar a compreensão de muitas leituras. Muitos passíveis leitores possuem inúmeros livros e textos em casa, mas não se aventuram no descobrimento dos textos literários e de inúmeros gêneros, pelo simples fato de não terem o costume de praticar o prazeroso ato da leitura, porém, também há os leitores que apreciam tanto a leitura que criam REVISTA BARBANTE - 12

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uma representação do imaginário, como um retrato da fantasia. As crônicas e romances comentados sempre engrandecem o livro, conferindo-lhe demarcada relevância e transformando-o em fetiche. Mencionado fato percebemos com a personagem do conto “Felicidade clandestina”, de Clarice Lispector, quando descobre que sua colega de classe possui o livro Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato: “Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o” (LISPECTOR, 1998, p.16). Para a personagem, ter acesso a esse livro era algo tão inimaginável e incrível que ela adiava o momento de ler; mais do que isso: finge não ter o livro em casa só para reproduzir o prazer de encontrá-lo e deliciar-se com sua presença. Aqui, ler é menos importante do que possuir o livro, poder tocá-lo, senti-lo: “Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito” (ibidem, p. 18). Nesse contexto, Soares (2001) assevera acerca da questão da escolarização da leitura literária, apresentando duas possibilidades de abordagem: a primeira consiste na apropriação da literatura infantil pela escola, na medida em que a utiliza para atingir seus objetivos, escolarizando-a; a segunda relaciona-se à literatura infantil como produção destinada à escola, numa tentativa de dar à escolarização um cunho literário. Como a leitura do texto literário, não só infantil, constitui-se num processo desenvolvido na escola, não há como evitar que esse conhecimento se escolarize. A discussão pertinente é a modalidade como as ações referentes a esse ensino possam se processar de maneira adequada e eficiente. Hoje, as pessoas vivenciam a forma célere com que é concebida a tecnologia, nesse âmbito, a velocidade da tecnologia fomentada pela rapidez do imagético resplandece e demarca as discussões do real lugar da literatura nessa conjuntura. Destarte, a leitura do texto literário incita ao ócio – prática mais comum estimulada e vivenciada no contexto dos antigos gregos – que se torna mais escasso e impossível numa sociedade demasiadamente capitalista. Ainda nesse contexto, com a tecnologia cotidianamente mais crescente em nossa sociedade, percebemos uma dicotomia maniqueísta (livros com seus textos literários versus tablets ou smartphones com seus conteúdos suprimidos e tendenciosos) em que a leitura ficou célere num ambiente inconstante de imagens, vídeos e áudios “econômicos”. Somando-se a isso, a racionalidade e o conhecimento alcançam sua plenitude como nunca outrora se esperou atingir, conquanto tal fato é paradoxalmente contraditório ao constatarmos a depreciação moral e o nível de barbaridade ao qual vivem as sociedades. Nessa mesma ideia discorre Cândido (2011), Todos sabemos que nossa época é profundamente bárbara, embora se trate de uma barbárie ligada ao máximo de civilização. Penso que o movimento pelos direitos humanos se entronca aí, pois a primeira era da história em que teoricamente é possível entrever uma solução para as grandes desarmonias que REVISTA BARBANTE - 13

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geram a injustiça contra a qual lutam os homens de boa vontade à busca, não mais do estado ideal sonhado pelos utopistas racionais que nos antecederam, mas do máximo viável de igualdade e justiça, em correlação a cada momento da história. (p. 172) A sensibilidade de um texto literário foi usurpada por um suporte físico que complementa quase todas as necessidades humanas. Mediante o exposto, a sociedade atual foi capaz de alcançar o nível mais profundo de conhecimento e de racionalidade já conquistado pelo ser humano, o que muitas vezes nem pode ser algo perceptível, como enaltece Antônio Candido, ao postular que “a irracionalidade do comportamento é também máxima, servida frequentemente pelos mesmos meios que deveriam realizar os desígnios da racionalidade” (CANDIDO, 2004, p.169). Nesse âmbito, o ser humano para resgatar sua totalidade deve fomentar a educação e principalmente a arte como pressupostos essenciais para sua formação humana. Inserido nesse fato é que os textos literários encontram abrigo. Isso se explica porque as manifestações artísticas, dentre elas a literatura, reorganizam o emaranhado caótico que é o interior do ser humano, como defende Candido (2004), ao afirmar que o texto literário atua em grande parte no inconsciente e no subconsciente. Daí defendemos a relevância da literatura na busca do equilíbrio humano, haja vista “assim como não é possível haver equilíbrio psíquico sem o sonho durante o sono, talvez não haja equilíbrio social sem a literatura” (CANDIDO, 2004, p. 176). Com efeito, para discorrermos a força humanizadora que a literatura possui, devemos enaltecer o que compreendemos por humanização. Nesse sentido, partilhamos as ideias postuladas de Antônio Candido, que a conceitua, como o processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. (CANDIDO, 2004, p.180) Mediante o contexto do universo da literatura, e fazendo inferência com o letramento, os Novos Estudos do Letramento, dos quais participam Street (1984) e Janks (2010), sustentam a leitura e a escrita como práticas sociais permeadas por relações de poder e ideologias. Street (2014, p. 83), a partir de seu REVISTA BARBANTE - 14

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