Ugarit 6 - Lenda do Keret ou Kirta

 

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Mitos de Ugarit 6

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UGARIT Lenda do Rei Keret ou Kirta J. Franclim Pacheco

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Lenda do Rei Keret ou Kirta 3 Como o poema de Aqhat, a lenda de Keret pertence ao género épico. Trata-se dum mito heroico, comparável em algum sentido aos poemas homéricos. História do rei Kheret: O rei Keret perdeu toda a sua família, mulher e filhos e não tem mais herdeiros. O deus El, que é seu pai, assim como Yahweh é o pai do rei de Israel, aparece-lhe em sonhos e ordena-lhe que ele parta com o exército para o país de Udum, onde reina Pabil, cuja filha ele desposará, Hurila, encantadora como Anat, amável como Astarte. Keret obedece à ordem divina. Chegando ao reino de Pabil, recusa todos os presentes, pedindo somente a mão da filha do rei em casamento. Na assembleia dos deuses, Baal intercede para que El abençoe Keret. A bênção é concedida: Keret terá sete, oito filhos, dos quais um será amamentado pelas deusas Anat e Astarte. O reino de Queret prospera; ele oferece banquetes aos nobres do pais. Há uma lacuna no texto. Este recomeça mostrando Keret enfermo, cercado dos filhos. «Pai, morrerás como os homens? Os deuses morrem?» pergunta um dos filhos. Entretanto, todo o reino de Keret já o chora. Depois dum conselho dos deuses, El pergunta se poderá curar Queret; este é realmente curado e amaldiçoa o filho que quis aproveitar-se da sua fraqueza para reinar. No que toca a paralelos bíblicos possíveis, cf. Job 1,13-19 (infortúnio); Gn 28,10-17 (sonho de Jacob); 1Rs 3,4-15 (sonho de Salomão); 2Sm 15,1-6 (revolta de Absalão).

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4 A narração começa com uma série de catástrofes que privaram Keret de sua mulher e de seus filhos: O infortúnio de Kirta A família [de Kirta] ficou destruída, a casa do rei pereceu, do que tinha sete irmãos, oito filhos duma (mesma) mãe. Kirta na sua estirpe ficou arruinado Kirta ficou minado em seu solar. Esposa legítima é certo que adquiriu, uma consorte legal, mulher desposou, mas foi-se (lhe). Parentela materna teve, (mas) um terço morreu na juventude, um quarto de enfermidade, um quinto colheu-o Paspu um sexto as vagas de Yam;1 e o seu sétimo, verás, por Salhu foi abatida. Kirta contemplou que na sua estirpe, contemplou que na sua estirpe ficou arruinado, completamente minado na sua mansão. Na sua totalidade a família pereceu e na sua integridade a sucessão. O sonho sagrado Entrou na sua câmara a chorar, repetindo as sua queixas, (e) derramou lágrimas. Corriam as suas lágrimas como siclos para o chão como pesos de cinco sobre o leito. 1 Yam ou Yammû é descrito como a personificação divina do mar. De Yam diz-se que ele é o «filho» e «amado» de El e conta com o seu favor para erguer-se contra Baal no relato mítico, juntamente com Mot e Attaru.

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No seu pranto ficou adormecido, no seu choro teve um desvanecimento; o sono venceu-o e deitou-se, o desvanecimento, e aconchegou-se. Teofania e diálogo E no seu sonho Ilu2 desceu, na sua visão o Pai do homem. E aproximou-se perguntando a Kirta: «Que (tem) Kirta, que chora, que geme o elegante servidor de Ilu? Será que deseja a realeza do Touro, seu pai, ou um poder como o do Pai do homem? ... [Agarra prata e ouro amarelo], [uma parte do seu solo com servos em perpetuidade], [aurigas de carro] [da reserva de escravos»]. [E respondeu Kirta, o Magnífico, o elegante, servidor de Ilu] [«Para que quero eu prata e ouro amarelo] [uma parte do seu solo [com servos] em perpetuidade, aurigas de carros da reserva de escravos? [Concede-me] que consiga procriar filhos, [dá-me] que possa multiplicar [a parentela». 5 2 Ilu: Rei do panteão, Pai dos Anos, conhecido como compassivo e benevolente. Ele nunca está irritado e não pune os seus filhos imortais e/ou mortais. Considerado como estando sempre longe, ele é muitas vezes alcançável através de sua esposa Athiratu. Ilu vive no Monte Kasu e é o deus do vinho, dos sonhos proféticos, da sabedoria e é sempre representado como O Grande Touro.

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6 O oráculo - plano de acção Ilu dá instruções a Kirta: deverá cumprir uma série de ritos religiosos, atender ao seu aprovisionamento e preparar um poderoso exército, com o qual alcançará a cidade de Udumu após sete dias de marcha; deverá intimidar o rei Pabilu e rejeitar deste todo o dom de ouro e prata para assim obter por esposa a sua filha, da qual terá a tão desejada descendência. Kirta leva a cabo a empresa segundo as instruções recebidas. Chegam os emissários de Pabilu, oferecendo-lhe presentes preciosos. «Mensagem [do rei Pabilu]: Agarra prata e ouro [amarelo], [uma parte do seu solo] com servos em perpetuidade, [aurigas de carros] da reserva [de escravos]. Toma, Kirta, vítimas pacíficas em abundância; não [assedies] Udumu, a Grande, [Udumu], a Poderosa, pois Udumu é um dom de Ilu, um presente do Pai do homem. Afasta-te, ó Rei, de minha casa vai, Kirta, da minha mansão». Respondeu Kirta, o Magnífico: «Para que quero eu prata e ouro amarelo, uma parte do seu solo com servos em perpetuidade, aurigas de carros da reserva de escravos? Antes, o que há em minha casa me darás: dá-me a jovem Hurrayu, a mais graciosa da estirpe do teu primogénito, cuja graça é como a de `Anatu,3 como a beleza de `Attartu4 a sua beleza; cuja meninas dos olhos são gemas de lápis-lazúli, as suas pupilas panteras de alabastro; aquela que em meu sonho Ilu me outorgou, em minha visão o Pai do homem; e gere ela progénie a Kirta, um príncipe ao servo de Ilu». 3 Anatu, Anat: A deusa Guerreira Adolescente, leal e amorosa, mas com um pavio curto. Apoiante da Ba'lu. É a deusa virgem e sanguinária, guerreira e liberta. 4 Aṯartu, Athtartu, Athtart: Originalmente uma deusa da justiça, do equilíbrio, dos tratados, e talvez até mesmo da caça. Possivelmente também uma deusa das estrelas. É uma deusa bem próxima de Ba'lu.

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7 Os mensageiros partiram sem se deterem, dirigiram então o rosto até ao rei Pabilu. Ergueram a sua voz e gritaram: «Mensagem de Kirta, o Magnífico, palavra do elegante, servidor de Ilu. Hurray é-lhe entregue como esposa e, com a bênção dos deuses, a profecia cumprese: dá à luz os seus filhos. Mas, possivelmente em consequência do incumprimento de um voto anterior por parte de Keret ou de Hurray, o rei cai gravemente enfermo; a seca reina e os agricultores suspiram pela chuva. «Derramando óleo (de paz) nos sulcos (?), percorrei [com a vista (?)] a terra e os céus! Voltai-vos para os extremos da terra, até aos confins das pradarias olhai! (Venha) à terra a chuva de Ba`lu,5 e ao campo a chuva do Altíssimo! Uma delícia é para a terra a chuva de Ba`lu, e para o campo a chuva do Altíssimo! Uma delícia é para o gorjeio no sulco, na terra arada (é) como um perfume, sobre o montículo como um diadema (?)! Ergueram as suas cabeças os labregos, para cima os que cuidam do trigo, (pois) o grão tinha acabado nos seus depósitos, tinha acabado o vinho em seus odres, tinha acabado o azeite em suas tinas. Os deuses não são capazes de curar Kirta e Ilu decide intervir dando poderes para isso à deusa Sa`tiqatu «Môtu,6 sejas derrotado; tu, Sa`tiqatu, vem, vence!». E foi Sa`tiqatu, em casa de Kirta fez o seu ingresso. 5 Ba'lu, Baal, Ba'lu Haddi, Baal Hadad: O Trovão, o deus das tempestades, combate as forças de Môtu (Morte) e Yammu (Mar). 6 Mot, Môtu: Deus da Morte, Morte Por Calor e da Esterilidade. A sua boca é a boca que devora na sepultura. Os cananeus não faziam oferendas à Motu.

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8 chorando dirigiu-se e entrou, soluçando penetrou dentro. Da cidade espantou Môtu (?), da vila afugentou o Inimigo; Com uma vara golpeou abrindo brecha, e exterminando desapareceu a enfermidade de sua cabeça; e repetidamente lavou-o do suor, abriu-lhe o apetite de comer a vontade de se alimentar. Môtu, assim, foi derrotado, Sa`tiqatu, pois, venceu. E ordenou Kirta o Magnífico, ergueu a sua voz e exclamou: «Escuta, ó jovem Hurrayu, sacrifica um cordeiro, que vou comer, uma rês sacrificial que vou alimentar-me». Escutou a jovem Hurrayu, sacrificou um cordeiro e comeu, uma rês sacrificial e alimentou-se. Passou um dia e outro, sentou-se Kirta em seu trono, sentou-se em seu trono real, no divã, o sólio de seu poder. O poema acaba com a ressurreição de Yassibu, filho de Kirta, que tenta destronar seu pai, e com a maldição deste por Kirta. Respondeu Kirta, o Magnífico: «Que quebre Hôranu, ó filho, que quebre Hôranu a tua cabeça; `Attartu, Nome de Ba`lu, o teu crânio! Oxalá corras veloz para o término dos teus anos, pela tua cobiça, sim, sejas humilhado! O escriba foi Ilimilku, Inspector.

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