Embed or link this publication

Popular Pages


p. 1



[close]

p. 2

A VACA MALHADA 11 PRIMAVERA 2017 Coordenação: Carlos Alberto Pinto Rodrigues Luís Filipe Paulo e Ladeira ISSN 2183-5470 Endereço: avacamalhada1@gmail.com Colaboram também neste número: Albert Camus, jornalista, romancista, filósofo. Anselmo Pinto, professor de filosofia, aposentado. Diogo Pires Aurélio, professor de Filosofia Política na Faculdade de Ciências S e H da Universidade Nova de Lisboa Eurico de Carvalho, professor de Filosofia na E S D. Afonso Sanches, Vila do Conde. (http:/euricodecarvalho67.blogspot.pt/) Flávia Ferreira, ilustradora José Manuel Heleno, professor de filosofia na Escola Secundária Dr. Solano de Abreu, em Abrantes. Ludovico de Clive, tradutor, estudioso de língua esperanto. Nikolao Gudskov, universitário, professor de Filosofia em Moscovo. Patrícia Fernandes, doutoranda da Universidade do Minho e membro do CEPS; patriciafernandes@protonmail.com no de Fátima na sequela das recém assinaladas comemorações do centenário das, até há bem pouco, proclamadas aparições que se vão transformando, por vias para-oficiais, em visões. E Anselmo Pinto volta com reflexões cinefilofilosóficas sobre o filme O Círculo. Assinale-se ainda uma nova colaboração, a de Diogo Pires Aurélio que nos faz a apresentação de uma, recentemente publicada, seleção de citações filosóficas da responsabilidade de Victor Correia, intitulada Quem tem medo dos filósofos?. Por fim, registe-se a continuação de Ensaios sobre a filosofia helénica da autoria de Nikolao Gudskov, com a primeira parte da abordagem do filósofo Pitágoras. O futuro que, no nosso caso, para existir tem de ser perspetivado, arranca já neste número com as evocáveis efemérides de George Bataille (nos 55 anos da sua morte: 9/7/1962), Walter Benjamim (nos 125 anos do seu nascimento: 15/7/1892) e Augusto Comte (nos 160 anos da sua morte: 5/9/1857). Isto para o número do próximo verão, o nº 12, que para o 13, o do outono, e assinalando os 50 anos da publicação de A Sociedade Samuel Webb, doutorando da Université Paris-Sorbonne (Paris IV); http://www.philomag.com/samuel-webb do Espetáculo de Guy Debord, gostaríamos de fazer um número semitemático, à imagem daquele que assinalou Victor Gonçalves, professor de filosofia no Agrupamento de Escolas Damião de Goes, Alenquer. http://decliniodaescola.blogspot.pt/ Victorgoncalves2@gmail.com ———————————————————— NOTA DE ABERTURA os 500 anos da Utopia de Tomás Morus. Daí que lancemos desde já o repto a solicitar a colaboração dos leitores. Boas leituras! A Coordenação Adenda: todas as imagens usadas para ilustrar este número da revista, com exceção da imagem da capa, foram recolhidas em Comecemos por assinalar uma nova capa origi- «Google imagens»: www.google.com/imghp?hl=pt-PT nal, desta vez da autoria da artista Flávia Ferreira que ÍNDICE assim respondeu ao nosso apelo. Apelo sempre renovado pois que gostaríamos de ter sempre capas originais. Este número de A Vaca Malhada faz-se, em boa medida, sob o signo de efemérides, seja a dos 75 anos da publicação de O Mito de Sísifo, de Albert Camus, aqui recordado por meio da reprodução deste texto fundamental sobre o absurdo e de um artigo de Samuel Webb, numa colaboração da revista Sciences Humaines, seja na evocação de Richard Rorty, na passagem do décimo aniversário da sua morte, em textos de Patrícia Nota de abertura Coordenação 2 0 Mito de Sísifo Albert Camus 3 A. Camus - Viver o absurdo Samuel Webb 5 Revisitar Rorty Patrícia Fernandes 7 Rorty e a Obra Aberta Victor Gonçalves 11 Filosofia e cinema: O Círculo Anselmo Pinto 12 Recensão: Quem tem medo … Diogo P Aurélio 15 Três perguntas ao autor Coordenação 16 Vária: Liberdade e Ressentimento José M Heleno 17 Fernandes, uma estreia a assinalar, e de Victor Gonçal- Vária: Trump e os Filósofos Eurico de Carvalho 20 ves, um colaborador de sempre. De sempre e assíduos Vária: … Os Mistérios de Fátima Joaquim C Araújo 22 são também José Manuel Heleno, hoje com uma análi- Pitágoras Nikolao Gudskov 27 se sobre liberdade e ressentimento em Strawson, Eurico de Carvalho que confronta Trump com filósofos de peso e Joaquim Carlos Araújo que analisa o fenóme- O FILÓSOFO, TAL COMO A VACA, É UM ANIMAL RUMINANTE A Vaca Malhada 2

[close]

p. 3

AUTOR CONVIDADO – Nos setenta e cinco anos do aparecimento da obra O Mito de Sísifo, o nosso convidado é Albert Camus (1913-1960) que a publicou no ano de 1942. Damos-lhe a palavra, nesse texto de referência que dá o título à obra., em excerto da edição de Livros do Brasil. Segue-se-lhe, da autoria de Samuel Webb, com a devida vénia ao autor e à revista Sciences Humaines, www.scienceshumaines.com, a exposição dessa arte camusiana de viver com o absurdo e ser feliz. O Mito de Sísifo* sar à sombra infernal. Os chamamentos, as cóleras e os por Albert Camus avisos de nada serviram. Ainda viveu muitos anos diante da curva do golfo, do mar resplandecente e dos sorrisos Os deuses tinham condenado Sísifo a empurrar, da terra. Foi necessário uma ordem dos deuses. Mercú- sem descanso, um rochedo até ao cume de uma monta- rio veio pegar no audacioso pela gola e, roubando-o às nha, de onde a pedra caía de novo, em consequência do alegrias, levou-o à força para os infernos, onde o seu seu peso. Tinham pensado, com alguma razão, que não rochedo já estava pronto. há castigo mais terrível do que o trabalho inútil e sem Já todos compreenderam que Sísifo é o herói esperança. absurdo. É-o tanto pelas suas paixões como pelo seu A acreditar em Homero, tormento. O seu desprezo pelos deuses, o seu ódio à Sísifo era o mais ajuizado morte e a sua paixão pela vida valeram-lhe esse suplício e o mais prudente dos indizível em que o seu ser se emprega em nada termi- mortais. No entanto, se- nar. O preço que é necessário pagar pelas paixões desta gundo outra tradição, ti- terra. Não nos dizem nada sobre Sísifo nos infernos. Os nha tendências para a mitos são feitos para que a imaginação os anime. Neste, profissão de bandido. Não vê-se simplesmente todo o esforço de um corpo tenso, vejo nisto a menor contra- que se esforça por erguer a enorme pedra, rolá-la e aju- dição. As opiniões diferem dá-la a levar a cabo uma subida cem vezes recomeçada; sobre os motivos que lhe vê-se o rosto crispado, a face colada à pedra, o socorro valeram ser o trabalhador de um ombro que recebe o choque dessa massa coberta inútil dos infernos. Censu- de barro, de um pé que a escora, os braços que de novo ra-se-lhe, de início, certa leviandade para com os deu- empurram, a segurança bem humana de duas mãos ses. Revelou os segredos deles. Egina, filha de Asopo, foi cheias de terra. No termo desse longo esforço, medido raptada por Júpiter. O pai espantou-se com esse desapa- pelo espaço sem céu e pelo tempo sem profundidade, a recimento e queixou-se dele a Sísifo. Este, que estava ao finalidade está atingida. Sísifo vê então a pedra resvalar corrente do rapto, propôs a Asopo contar-lhe o que sa- em poucos instantes para esse mundo inferior de onde bia, com a condição de ele dar água à cidadela de Corin- será preciso trazê-la de novo para os cimos. E desce ou- to. Aos raios celestes, preferiu a bênção da água. Por tal tra vez à planície. foi castigado nos infernos. Homero conta-nos também É durante este regresso, esta pausa, que Sísifo que Sísifo havia acorrentado a Morte. Plutão não pôde me interessa. Um rosto que sofre tão perto das pedras suportar o espectáculo do seu império deserto e silenci- já é, ele próprio, pedra! Vejo esse homem descer outra oso. Enviou o deus da guerra que soltou a Morte das vez, com um andar pesado mas igual, para o tormento mãos do seu vencedor. cujo fim nunca conhecerá. Essa hora que é como uma Diz-se ainda que, estando Sísifo quase a morrer, respiração e que regressa com tanta certeza como a sua quis, imprudentemente, pôr à prova o amor de sua mu- desgraça, essa hora é a da consciência. Em cada um des- lher e ordenou-lhe que lançasse o seu corpo, sem sepul- ses instantes em que ele abandona os cumes e se enter- tura, para o meio da praça pública. Sísifo encontrou-se ra a pouco e pouco nos covis dos deuses, Sísifo é superi- nos infernos. E aí, irritado com uma obediência tão con- or ao seu destino. É mais forte do que o seu rochedo. trária ao amor humano, obteve de Plutão licença para Se este mito é trágico, é porque o seu herói é voltar à terra e castigar a mulher. Mas, quando viu de consciente. Onde estaria, com efeito, a sua tortura se a novo o rosto deste mundo, sentiu inebriadamente a cada passo a esperança de conseguir o ajudasse? O ope- água e o sol, as pedras quentes e o mar, não quis regres- rário de hoje trabalha todos os dias da sua vida nas mes- 3

[close]

p. 4

mas tarefas, e esse destino não é menos absurdo. Mas frase é sagrada. Ressoa no universo altivo e limitado do só é trágico nos raros momentos em que ele se torna homem. Ensina que nem tudo está, que nem tudo foi consciente. Sísifo, proletário dos deuses, impotente e esgotado. Expulsa deste mundo um deus que nele entra- revoltado, conhece toda a extensão da sua miserável ra com a insatisfação e o gosto das dores inúteis. Faz do condição: é nela que ele pensa durante a sua descida. A destino uma questão do homem, que deve ser tratado clarividência que devia fazer o seu tormento consome ao entre homens. Toda a alegria silenciosa de Sísifo aqui mesmo tempo a sua vitória Não há destino que não se reside. O seu destino pertence-lhe. O seu rochedo é a transcenda pelo desprezo. sua coisa. Da mesma maneira, quando homem absurdo Se a descida se faz assim, em certos dias, na dor, contempla o seu tormento, faz calar todos os ídolos. No pode também fazer-se na alegria. Esta palavra não é de universo subitamente entregue ao seu silêncio, erguem- mais. Ainda imagino Sísifo voltando se as mil vozinhas maravilhadas da ter- para o seu rochedo, e a dor estava no ra. Chamamentos inconscientes e secre- começo. Quando as imagens da terra se apegam de mais à lembrança, tos, convites de todos os rostos, são o reverso necessário e o preço da vitória. quando o chamamento da felicidade Não há sol sem sombra e é preciso co- se torna demasiado premente, acon- nhecer a noite. O homem absurdo diz tece que a tristeza se ergue no cora- sim e o seu esforço nunca mais cessará. ção do homem: é a vitória do rochedo, Se há um destino pessoal, não há desti- é o próprio rochedo. O imenso infor- no superior ou pelo menos, só há um túnio é pesado de mais para se poder que ele julga fatal e desprezível. Quanto carregar. São as nossas noites de ao resto, ele sabe-se senhor dos seus Gethsemani. Mas as verdades esma- dias. Nesse instante subtil em que o ho- gadoras morrem quando são reconhe- mem se volta para a sua vida, Sísifo, re- cidas. Assim, Édipo obedece de início gressando ao seu rochedo, contempla ao destino, sem o saber. A partir do momento em que essa sequência de acções sem elo que se torna, o seu sabe, a sua tragédia começa. Mas no mesmo instante, destino, criado por ele, unido sob o olhar da sua memó- cego e desesperado, ele reconhece que o único elo que o ria, e selado em breve pela sua morte. Assim, persuadido prende ao mundo é a mão fresca de uma jovem. Uma da origem bem humana de tudo o que é humano, cego frase desmedida ressoa então: «Apesar de tantas prova- que deseja ver e que sabe que a noite não tem fim, está ções, a minha idade avançada e a grandeza da minha sempre em marcha. O rochedo ainda rola. alma fazem-me achar que tudo está bem.» O Édipo de Deixo Sísifo no sopé da montanha! Encontramos Sófocles, como o Kirilov de Dostojevsky, dá assim a fór- sempre o nosso fardo. Mas Sísifo ensina a fidelidade su- mula da vitória absurda. A sabedoria antiga identifica-se perior que nega os deuses e levanta os rochedos. Ele com o heroísmo moderno. também julga que tudo está bem. Esse universo enfim Não descobrimos o absurdo sem nos sentirmos sem dono não lhe parece estéril nem fútil. Cada grão tentados a escrever um manual qualquer da felicidade. dessa pedra, cada estilhaço mineral dessa montanha «O quê, por caminhos tão estreitos?» Mas só há um cheia de noite, forma por si só um mundo. A própria luta mundo. A felicidade e o absurdo são dois filhos da mes- para atingir os píncaros basta para encher um coração ma terra. São inseparáveis. O erro seria dizer que a felici- de homem. É preciso imaginar Sísifo feliz. dade nasce forçosamente da descoberta absurda. Acon- * Camus, A. - O Mito de Sísifo. Lisboa: Editora Livros do tece também que o sentimento do absurdo nasça da Brasil, pág. 147-152 felicidade. "Acho que tudo está bem», diz Édipo e essa A FILOSOFIA NAS BOCAS DO MUNDO “Sagan também questiona o argumento moral de Kant, um filósofo crente. Essencialmente, Kant diz que somos seres com moral, logo Deus existe. Como é que saberíamos usar a moral se Deus não existisse? pergunta”. Bárbara Reis, Público, Ir à missa é bom para o ateísmo, pag.51, 12/5/17

[close]

p. 5

Albert Camus – viver o absurdo por Samuel Webb É inútil procurar dar um sentido à vida. Não há. Devemos viver com o absurdo. O que, no entanto, não compromete a possibilidade de felicidade. Para Albert Camus a questão fundamental da filosofia não diz respeito à verdade, ao bem e ao belo, nem ao eu, ao mundo ou a Deus. Não, trata-se de uma questão de vida e de morte. Ou melhor, de suicídio. Aprender a viver sem sentido Como assim, o suicídio? No início do seu ensaio O Mito de Sísifo, o filósofo explica-se. A ideia é que nenhuma questão teórica da filosofia terá qualquer importância se a vida não valer a pena ser vivida. «É preciso antes de mais responder». Deve a filosofia buscar o sentido da vida? Um fim último, uma razão de ser, um princípio de inteligibilidade para a existência? Ah, mas isso seria demasiado bonito! Esse tipo de investigação só pode conduzir ao absurdo. Ultrapassando a vertigem do quotidiano, todos nós tivemos esta experiência, conhecemos este sentimento de estranheza em relação ao mundo e à nossa própria vida, em que nada parece ter importância, em que não podemos dizer por que esta- ar à religião e às grandes narrativas que permitem fundar os nossos projetos ou viver na negação ilusória da morte. À sua maneira, as personagens de Camus, nomeadamente o Dom Juan, o ator, o conquistador e o criador, relevam este desafio. Elas vivem apaixonada e integralmente o momento presente, sem conferir à sua atividade um valor transcendental. Uma tal atitude é o fruto do que Camus chama o «ascetismo absurdo». Ela exige uma consciência lúcida dos nossos limites e uma constante revolta contra eles. Não é um ascetismo, uma negação do prazer, mas uma disciplina, um exercício espiritual que nos enforma. «Ela exige um esforço quotidiano, um autocontrolo, uma avaliação precisa dos limites do verdadeiro, moderação e força.» O artista que cria sem se preocupar com as suas obras ou a sua posteridade, que se esgota no ato, encarna bem esta «sabedoria difícil» do absurdo. «Tudo isto "para nada", para repetir e espezinhar. Mas talvez a grande obra de arte tenha menos importância em si mesma do que na prova que ela exige a um homem e na oportunidade que ela lhe dá para superar os seus fantasmas e se aproximar um pouco mais da sua realidade nua». É aprender a aceitar a sua vida, sem ilusões e sem mos aqui, neste vasto universo silencioso. Que fazer, face a esta impressão de que a exis- tência não rima com nada? Será preciso renunciar à exis- tência, dar-se à morte? A resposta de Camus é um desa- fio paradoxal – é preciso aceitar que a questão do senti- do da vida não tem resposta – mas essa não é, no entan- to, uma razão para morrer. É um absurdo até maior que pretender julgar a vida pela bitola da morte, «a absurdez mais óbvia» contra qual é necessário rebelar-se. Em vez de procurar dar um sentido à vida, é preciso aprender a viver sem sentido. Mas isso não é óbvio. A nossa tendên- cia natural, quando o hábito de viver nos faz esquecer o recursos. Os Cadernos, que Camus manteve do final dos absurdo de todos os dias, é ter esperança (ou desespe- anos 1930 até sua morte, testemunham um tal esforço. rar). A esperança de ter uma vida melhor depois da mor- Perseverança insubmissa te que é preciso "merecer", ou a adesão a uma grande A filosofia de Camus cristaliza-se não num argu- ideia que ultrapassa a vida (por exemplo a revolução, o mento, mas numa imagem. Sísifo, condenado pelos deu- amor, a arte). Mas a esperança, tal como o suicídio, é ses a uma eternidade de trabalho «inútil e sem esperan- uma "fuga" que "trai a vida". ça» é o «herói do absurdo». Desprezando os deuses, re- Eis o problema. Como viver sem trair a vida? A jeitando a morte, obstina-se em viver apesar de tudo. Foi solução é prática: em vez de uma teoria sobre o valor da -lhe imposto empurrar um rochedo até ao cimo duma vida, projeto impossível por causa dos limites da razão montanha e vê-lo tornar a cair sistematicamente, uma humana, Camus «desenha» «estilos de vida». Viver as- vez atingido o topo. Sísifo volta a descer sabendo que as sim «sem recurso», é manter a tensão difícil, mas essen- suas penas nunca conduzirão a nada. É só este lado trá- cial, entre os "álibis" da morte e da esperança. É renunci- gico, a consciência plena, que separa Sísifo da maior par- 5

[close]

p. 6

te de nós. Nós efetuamos também tarefas absurdas, mas da, no regresso de férias a Paris, tem apenas 46 anos. Foi sem pensar, apostando sempre no futuro. Este preciso uma morte súbita e absurda para arrancar o filó- «proletário dos deuses» compreende a sua situação, sofo a este mundo. Camus conheceu-a cedo porque nun- mas em vez de se apoquentar, rejubila. Mas como é pos- ca conheceu o pai, morto na guerra de 1914. E ele mes- sível? «Eu deixo Sísifo na base da montanha! (…) A luta mo quase sucumbiu a uma tuberculose que o atingiu na pelos cumes, em si mesma, basta para encher um cora- juventude. No entanto, o jovem professor em formação ção de homem. É preciso imaginar Sísifo feliz.» Esta feli- despede a morte e a agregação e orienta-se para uma cidade de condenado pode parecer bastante estranha. carreira sobre a qual qualquer esforço de enquadramen- Terá Sísifo perdido a razão? Estará ele narcotizado? Na to se mostra vão. Escritor, jornalista, dramaturgo, mili- realidade, esta felicidade é o resultado de um exercício tante e filósofo que desconfia dos grandes sistemas, Ca- espiritual que permite a Sísifo dar-se totalmente à sua mus bate-se, sob todos os planos e de todas as formas tarefa. Ele apropria-se dela e ri-se do resto. Ele diz sim à pelo valor intrínseco da vida humana, pelo qual lhe foi sua existência e, aceitando plenamente a sua absurdez atribuído o prémio Nobel da literatura em 1957. Do seu trágica, ele descobre como vivê-la. A sua felicidade nasce jornal político Combat (1941), nascido durante a Resis- duma perseverança insubmissa. tência, e seus primeiros artigos contra a opressão coloni- Este mito não é para ser considerado de modo al (1938), à prosa cuidadosamente seca e impessoal de O teórico. Se Camus defende este modo absurdo de viver, Estrangeiro (1942), ao lirismo da existência sob o sol me- não procura fundá-lo na razão. Pelo meio, Camus diz-nos diterrâneo em Núpcias (1936-37) à polémica de O Ho- que «o que precede define apenas um modo de pensar. mem revoltado (1951) que lhe valeu a famosa rutura Agora, trata-se de viver.» com Sartre, Camus não cessa de assumir a riqueza con- Uma vida plena traditória da vida neste mundo. Albert Camus nasceu em 1913 na Argélia coloni- zada. Quando um acidente de automóvel lhe colhe a vi- Tradução /Revisão: L. de Clive/ Benvinda Marques Consulte os primeiros números de A Vaca Malhada em: Nº 1 http://www.youblisher.com/p/1034672-A-Vaca-Malhada/ Nº 2 http://www.youblisher.com/p/1092971-A-VACA-MALHADA-2/ Nº 3 http://www.youblisher.com/p/1147814-/ Nº 4 http://www.youblisher.com/p/1223310-/ Nº 5 http://www.youblisher.com/p/1313080-A-Vaca-Malhada-5/ Conferência — Revisitar Richard Rorty O Centro de Ética, Política & Sociedade da Universidade do Minho está a organizar uma conferência motivada pelos dez anos decorridos sobre a morte de Richard Rorty, intitulada Revisitar Richard Rorty. Terá lugar nos dias 25 e 26 de setembro, em Braga. http://plataforma9.com/congressos/call-for-papers-revisitar-richard-rorty 6

[close]

p. 7

EFEMÉRIDE — Patrícia Fernandes e Victor Gonçalves evocam Richard Rorty, nos dez anos da sua morte. Para o próximo número, George Bataille (nos 55 anos da sua morte: 9/7/1962), Walter Benjamim (nos 125 anos do seu nascimento: 15/7/1892) e Augusto Comte (nos 160 anos da sua morte: 5/9/1857) são os autores evocáveis. Revisitar Richard Rorty: dez anos volvidos sobre a sua morte por Patrícia Fernandes “Infelizmente, fui afetado pela mesma doença contra a injustiça: “Sentia-me inquietamente consci- que matou Derrida.” Foi com estas palavras que Ri- ente de que havia algo um pouco dúbio com este chard Rorty comunicou ao amigo Jürgen Habermas esoterismo” e “tinha medo que Trotsky não aprovas- aquela que viria a ser a causa da sua morte um ano se o meu interesse.” É este impasse pessoal que dá mais tarde. Com humor e para atenuar o choque do título ao ensaio e motiva a sua decisão de estudar amigo, acrescentou a hipótese sugerida pela filha filosofia: “Estava muito confuso mas relativamente Patricia, de que “este tipo de cancro resulta de ler confiante de que em Chicago descobriria o modo demasiado Heidegger.” como os adultos resolviam o dilema que tinha em Rorty viria a falecer a 8 de mente.” junho de 2007, suscitando Rorty ingressa então no Hutchins College da reações por todo o mundo Universidade de Chicago com 15 anos, completando académico, sobretudo nas depois os seus estudos em Filosofia a partir de uma áreas da filosofia e da litera- formação historicista e platonista. No entanto, quan- tura, onde o seu trabalho do se move para a Universidade de Yale para reali- mais despertou interesse. zar os estudos de doutoramento, confronta-se já com Volvidos dez anos sobre essa o sentimento de desencanto face às promessas in- data, o nosso texto propõe-se cumpridas da filosofia. Tendo constatado que não revisitar o pensamento ror- existem pressuposionless starting points e que a fi- tyano e fazer um balanço so- losofia foi sempre uma questão de redescrever os bre a sua herança filosófica, considerando duas fases termos da nossa posição, Rorty conclui que a tarefa distintas no seu percurso. filosófica de encontrar uma Verdade para lá de todas as hipóteses não poderá nunca ser cumprida. 1. De Chicago a Virgínia Yale constituía na altura um reduto de resis- A primeira fase compreende o período que vai tência face à predominância analítica na academia desde a sua formação como filósofo até à sua estabi- norte-americana. E, por isso, em New Haven, a sua lização na academia norte-americana com a obten- formação foi essencialmente pluralista, com amplo ção de tenure na Universidade de Princeton. Rorty conhecimento do pragmatismo, que será fundamen- escreveu sobre as motivações que o levaram a in- tal para o seu pensamento posterior. Por essa razão, gressar na filosofia no seu famoso ensaio autobio- quando em 1961 chega à Universidade de Princeton gráfico, «Trotsky and the Wild Orchids», identifi- para lecionar Filosofia Antiga, percebe que está cando o seu contexto familiar como composto por completamente desfasado daquilo que os seus cole- pais dissidentes do partido comunista e trotskistas. É gas nessa universidade faziam. Tentando acompanhá desse ambiente familiar que resulta a sua constante -los, inicia uma incursão na filosofia analítica, espe- preocupação política: “aos 12 anos, eu sabia que o cialmente na filosofia da mente e da linguagem, que objetivo de ser humano passava por dedicar a vida à o levará a ganhar nome na área. Mas dada a sua for- luta contra a injustiça social.” Contudo, a par desta mação anterior, o olhar novo que traz para a filoso- consciência política precoce, Rorty “tinha também fia analítica abre janelas inesperadas. Com efeito, interesses privados, estranhos, snobes e incomunicá- quando em 1979 publica o seu primeiro livro origi- veis” que, no início da adolescência, incidiam sobre nal, Philosophy and the Mirror of Nature (PMN), as orquídeas selvagens que floresciam em New Jer- defende que os mais recentes desenvolvimentos na sey. O interesse e prazer que obtinha com estas filosofia analítica, pela mão do segundo Wittgens- “flores socialmente inúteis” apresentava-se-lhe co- tein, W. O. Quine, Wilfrid Sellars e Donald David- mo contraditório com aquilo que deveriam ser os son, estavam a conduzir ao fim da própria filosofia objetivos de uma vida boa, designadamente a luta analítica. 7

[close]

p. 8

Esta posição resulta essencialmente do posici- se não haverá algo de mais útil para fazer com o onamento de Rorty em relação à linguagem. Embora pensamento filosófico… o filósofo norte-americano, em Consequences of Ora, PMN provoca, com este argumento, uma Pragmatism (1982), a faça recuar a Hegel, na verda- reação profunda por parte da comunidade analítica: de podemos ver a sua posição linguística como he- os seus colegas consideram o livro como constituin- rança do trabalho desenvolvido por aquilo que Char- do um ato de traição e Rorty foi atacado por quase les Taylor designa por “tradição H-H-H”, que com- todos os quadrantes do mundo analítico. Esta reação preende os contributos de Hamann, Herder e Hum- surpreendeu o próprio filósofo, na medida em que boldt. Esta tradição assenta na ideia de que existe ele considerava estar apenas a retirar as conclusões uma relação inextricável entre pensamento e lingua- decorrentes dos pressupostos analíticos. Mas o ponto gem e que, nessa medida, esta condiciona necessari- de viragem já estava consumado: em 1982, Rorty amente aquele. Rorty cita a esse propósito Sellars, muda-se para a Universidade de Virginia como pro- “toda a consciência é um assunto linguístico”: nesse fessor de humanidades, assumindo-se como pragma- sentido, não podemos aspirar a um acesso imediato tista com a publicação de Consequences of Pragma- ao mundo que nos permita confirmar a objetividade tism e o seu herói filosófico passará a ser, até ao últi- do nosso conhecimento e com isso atingir uma Ver- mo dos seus escritos, John Dewey. dade para lá de todas as hipóteses. Os ataques de Sellars à doação e de Quine e Davidson à necessida- 2. Do anti-representacionismo à reflexão política de, desconstruindo o pressuposto analítico de que Começa aqui a segunda fase na vida de Rorty, existe um pensamento pré-linguístico que deveria ser marcada pelo desenvolvimento do seu pensamento representado pela linguagem, conduziriam ao fim filosófico mais maduro a partir daquelas intuições dos esforços analíticos e, ultimamente, ao fim do iniciais, sobretudo no que diz respeito à dimensão próprio paradigma que deu origem à filosofia analíti- política. Como referi, a política ocupou sempre um ca. lugar central nas preocupações intelectuais de Rorty E é quando entramos na caracterização desse e, nessa medida, apesar de os seus escritos se terem paradigma que chegamos ao núcleo central da filo- debruçado também sobre crítica literária e epistemo- sofia epistemológica de Rorty. Reconhecendo o mé- logia, as próximas linhas destacarão essa dimensão rito das reflexões desenvolvidas por Martin Heideg- política. E o que Rorty faz é desenvolver o seu pen- ger, o filósofo norte-americano desenvolve o seu tra- samento político a partir do argumento anti- balho crítico em torno do tipo de filosofia que, desde epistemológico que tracei na secção anterior, e que Platão, se centra na noção de representação. Rorty funciona, dessa forma, como uma espécie de argu- destaca, em especial, o centramento epistemológico mento pré-político. Mas antes de avançarmos para o sofrido pela filosofia com a modernidade: foi com os argumento político propriamente dito, recordemos os contributos de Locke, Descartes e Kant que o paradi- elementos principais que lhe darão forma: gma representacionista assumiu toda a sua amplitu- Importa começar por considerar a contingência de. Ele assenta na ideia de que conhecimento é re- da linguagem que usamos: o nosso acesso ao mundo presentação – há conhecimento quando se representa é sempre mediado pela linguagem e não temos for- acuradamente a realidade – e, por isso, a filosofia ma de sair da nossa linguagem para ver se ela repre- ocuparia um lugar privilegiado no conjunto das áreas senta acuradamente a realidade. Como Rorty diz, “o do saber: estudando o conhecimento, é capaz de de- mundo não fala; só nós é que falamos”. Nesse senti- terminar quais as áreas que melhor representam a do, a nossa linguagem não é uma qualquer lingua- realidade, como a ciência, e aquelas que não a repre- gem natural ou uma linguagem do mundo, mas re- sentam de todo, como a poesia. A filosofia analítica sulta de condições históricas e contingentes. Esta- seria fruto deste paradigma – mas afinal o seu último mos, desta forma, presos à linguagem que usamos – fruto, uma vez que os seus últimos desenvolvimen- não podemos reclamar nunca um ponto de Arquime- tos só podem levar à conclusão de que a filosofia se des ou um ponto-de-vista-de-deus que nos permita revela incapaz de atingir o objetivo a que se propôs afirmar um acesso privilegiado à verdade. E é na de- desde o início. De acordo com Rorty, mais de dois corrência deste aspeto que Rorty defende a impossi- mil anos de falhanço devem-nos fazer refletir sobre bilidade de nos referirmos ao conhecimento como representação. A sua opção pragmatista é a de pensar 8

[close]

p. 9

em conhecimento como o que nos permite conseguir fundacionismo racionalista, Rorty afirma que a me- aquilo que comunitariamente queremos e a verdade lhor forma de alargar a cultura de direitos humanos é resultará do acordo solidário entre os membros dessa optarmos por uma educação sentimental em detri- comunidade. Como diz Gianni Vattimo, “não esta- mento de argumentos fundados em verdades objeti- mos de acordo porque encontrámos a essência da vas. No segundo, o filósofo norte-americano empre- realidade, mas dizemos ter encontrado a essência da ende o esforço de convencer o movimento feminista realidade quando concordamos.” E a proposta de a traduzir as suas reivindicações a partir de um para- Rorty é então a de que ficaríamos mais bem servidos digma pragmatista. com um paradigma não-representacionista, pragma- tista ou não-fundacionista, posicionando-se sempre 3. Do pós-modernismo a Achieving our country próximo da ideia de pensamento débil do filósofo Promovendo um reposicionamento filosófico italiano. em relação à Verdade, Rorty foi, como referimos, Embora estas intuições tivessem aproximado tomado como parte do movimento pós-moderno que Rorty do pós-modernismo (ele mesmo usou o termo pululava no domínio literário e onde o trabalho de no ensaio «Postmodernism bourgeois liberalism», de Rorty foi particularmente bem recebido. Essa aprox- 1983), rapidamente se afasta desse movimento filo- imação aos estudos literários tem uma tradução sófico devido ao seu teor demasiado radical: afinal, profissional: Rorty não voltará a ser Professor de Rorty vê-se como herdeiro das Luzes, herdeiro do Filosofia (em Virginia ensina Humanidades e termi- projeto liberal – apenas verifica que o liberalismo nará a sua carreira como professor de literatura com- não está a conseguir atingir os seus objetivos dentro parada na Universidade de Stanford). de um paradigma representacionista e que deverá, No entanto, apesar desta aproximação inicial, por isso, abdicar desse paradigma. Rorty publica, em 1995, um pequeno manifesto ex- São estas ideias que Rorty expressa no seu li- pondo as consequências decorrentes da adoção pela vro mais popular, Contingency, Irony, and Solidarity academia norte-americana, naquele mesmo espaço (1989, CIS), e que se apresenta como absolutamente literário e das ciências sociais, de um posicionamen- diferente de PMN. Se este é redigido a partir da tra- to de cariz foucaultiano e marxista. A análise aí dição analítica, CIS faz uma aproximação à teoria descrita tem sido recuperada nos últimos meses a literária e às suas fronteiras com a reflexão política. propósito da eleição de Donald Trump, na medida Nele, Rorty demarca-se do pensamento pós- em que, nesse livro, Rorty alerta para a possibilidade moderno, afirmando claramente a herança das luzes: de, nas próximas décadas, surgir um líder forte apoi- se o projeto das Luzes foi construído a partir do vo- ado por grande parte da população. cabulário que os revolucionários tinham à sua dispo- Tratando-se de uma análise especialmente in- sição – o vocabulário religioso: a Razão substituiu cisiva e que demonstra particularmente bem de que Deus, os cientistas substituíram os padres e as leis modo as suas reflexões políticas decorrem da sua científicas substituíram as leis divinas –, importa dimensão epistemológica, apresentarei nas próximas agora que o projeto liberal dê um passo mais e assu- linhas o argumento de Achieving Our Country ma uma configuração mais de acordo com o seu es- (1998, AOC). pírito: uma forma anti-representacionista. Só esta Rorty começa por fazer uma breve incursão configuração permitirá conseguir de modo mais efi- histórica que lhe permite falar de uma primeira es- caz o seu objetivo: uma sociedade mais liberal, mais querda que se caracteriza por ser intervencionista e justa e mais solidária. marcada pelo espírito deweyano de promover a O argumento anti-epistemológico é colocado, melhoraria das condições de vida dos mais desfa- assim, ao serviço de objetivos políticos e os textos vorecidos. Rorty designa-a como esquerda re- seguintes de Rorty, ensaios recolhidos nos seus Phi- formista ou, para permitir uma oposição temporal, losophical Papers, tentam servir o propósito de nos Old Left, a que se opõe uma New Left, que surge ao convencer a aderir à sua proposta anti- longo dos anos 60 em resposta à guerra no Vietname representacionista ou pragmatista. É o que faz, por e que se vai consolidando na academia ao longo das exemplo, em «Human Rights, Rationality, and Sentimentality» (1993) e em «Feminism and Pragmatism» (1990). No primeiro desses textos e contra o décadas seguintes. Rorty designa esta nova esquerda como esquerda foucaultiana, marxista ou espectatorial – denunciando, com esta última designação, a principal diferença face à esquerda reformista: ao 9

[close]

p. 10

contrário da primeira, esta nova esquerda recusa-se a procurar formas alternativas de pensamento e para- tomar parte no processo de decisão política, recusa o digmas mais úteis. reformismo por considerar que isso é já pactuar com Por outro lado, essa consciência de contingên- o sistema, limitando-se, com isso, a uma atitude de cia promove uma profunda reflexão no que à questão espectadora. da Verdade diz respeito. Em primeiro lugar, leva a Ora as consequências do predomínio desta no- um reposicionamento das áreas do saber que se va esquerda foram, na opinião de Rorty, extrema- traduz num processo de democratização: não há, em mente gravosas para as classes mais desfavorecidas, sentido rortyano, ciências fortes ou fracas, mais ou que foram perdendo rendimento e vantagens sociais menos exatas, mais perto ou mais longe da verdade. ao longo das últimas décadas. Embora reconheça As diferentes áreas do saber constituem apenas que a nova esquerda chamou a atenção para a hu- diferentes perspetivas sobre o mundo que nos rodeia milhação existente em outras dimensões que não a (consubstanciando vocabulários específicos e contin- económica (conseguindo uma diminuição do sofri- gentes) e devem assumir-se como apenas isso: como mento de alguns grupos minoritários), a verdade é mais um vocabulário capaz de lidar com o mundo e que o balanço económico é catastrófico. E seria em produzir os resultados desejados. Ora, isto parece- resultado desta degradação das condições de vida da me particularmente relevante no domínio da argu- maioria dos norte-americanos que estariam criadas mentação científica, que reclama sempre um acesso as condições para o surgimento de um líder popu- privilegiado à verdade e, por isso, como sendo in- lista. questionável; mas vale igualmente, e nos momentos Mas o que tem isto a ver com a dimensão epis- atuais, para a economia: não há uma teoria económi- temológica do seu pensamento? A crítica de Rorty ca certa e sem alternativa, mas várias perspetivas ao marxismo é a de que este, raciocinando a partir sobre os fenómenos políticos e económicos que re- do paradigma representacionista, reclama um acesso sultam de pontos de partida específicos. privilegiado à verdade, ao modo como as coisas real- Em segundo lugar, este posicionamento em mente são ou funcionam – e detendo esse conheci- relação à verdade permite-nos ser mais capazes de mento privilegiado, recusa-se a participar no proces- interpretar e lidar com um momento atual marcado so de decisão. Fazendo-o, deixou todo o espaço livre pelo questionamento do valor da verdade. Vivemos, para a direita determinar a vida política norte- é afirmado, numa época de pós-verdade – mas de um americana durante décadas. Contra a reivindicação ponto de vista rortyano, este momento de falência do de acesso privilegiado à verdade, Rorty apela à paradigma representacionista deve ser encarado co- eficácia e ao reformismo: saber como as coisas real- mo chamando a nossa atenção para a importância de mente funcionam vale de pouco se isso não fizer sabermos construir consensos em detrimento da im- uma diferença na prática. E isto deve valer tanto para posição de verdades. Neste sentido, o momento de a política como para a filosofia, que se deve orientar crise atual pode ser aproveitado para repensarmos a politicamente para o tipo de sociedade que pretende- nossa identidade política e reconstruirmos uma uto- mos. (Notemos como a atual situação governativa pia coletiva em que os seus membros não tenham de em Portugal é particularmente interessante quando recorrer à autoridade de qualquer entidade exterior lida à luz das considerações rortyanas em AOC.) (como deus ou a ciência), mas apenas à ideia de co- munidade e de co-responsabilidade. 4. Revisitar Richard Rorty Por fim, há com Rorty uma revalorização do Dez anos após a sua morte, que motivos nos ativismo político para a construção de uma socie- podem fazer regressar à obra de Richard Rorty e re- dade mais democrática: a melhor forma de revigorar visitar os seus contributos filosóficos? Penso que há e promover a democracia é envolver os cidadãos no várias razões que o justificam e que se prendem, es- seu desenvolvimento e Rorty, apelando para a di- sencialmente, com o facto de o seu esforço de apelo mensão coletiva da construção do saber, promove à contingência permitir reflexões incisivas no que uma sociedade mais livre e democrática. Acima de respeito à liberdade e à democracia. tudo, a filosofia e os filósofos devem orientar-se, não Por um lado, o reconhecimento de que o para- pela busca da verdade, mas pela ampliação das con- digma atual é meramente opcional e resultado de dições da liberdade: de acordo com o estribilho rort- circunstâncias históricas permite-nos um amplo es- yano, “tomemos conta da liberdade, que a verdade paço de liberdade: não estamos obrigados a pensar tomará conta de si mesma”. da forma que pensamos e somos, por isso, livres de 10

[close]

p. 11

Richard Rorty e a Obra Aberta podia e queria. Talvez percebendo o embaraço desta por Victor Gonçalves tese para o mundo da filosofia, Rorty sugere um critério para distinguir as boas das más leituras (úteis das Celebram-se, passe a expres- inúteis): saber antecipadamente o que se quer obter de são, os dez anos da morte de um texto (vale também para pessoas e objectos) e Richard Rorty, eminente pensa- acreditar que ele transformará a perspectiva originária e dor e filósofo norte-americano ajudará a superar preconceitos, mudando com isso a (devemos-lhe uma das partes vida do intérprete (“and thus to change your life”3). mais cintilantes do projecto Sinto-me bastante cúmplice de Rorty na defesa pragmatista) que propôs alter- de uma hermenêutica não essencialista, onde o leitor nativas interessantes, e impor- partilha a responsabilidade da construção do sentido do tantes, às vias hermenêuticas texto, esperando ao mesmo tempo que o texto mude a que confiam na possibilidade sua visão do mundo. Articulando isto com a crítica ao de se recuperarem ou a inten- modelo representativo do conhecimento4 pode-se trazê ção do autor ou, no mínimo, a -lo para o campo do pós-modernismo francês, prova da intenção do texto, propondo assim hermenêuticas da sua abrangência filosófica; a tese da incomensurabi- Verdade, por oposição às perspectivistas. Escrevo a cur- lidade filosófica deixou também um bom rasto, a recu- ta nota que se segue em homenagem a alguém que me sa, mais justificada do que pretende Jürgen Habermas, ensinou a ler filosofia de forma mais fértil. de uma universalidade filosófica que subsumisse a dis- Para Richard Rorty, bastante crítico do valor que persão teórica num supra-discurso consensual com- Umberto Eco atribui à intentio operis (intenção da bateu a tendência dos mandarins decretarem o que se obra), o pragmatismo abandona a ideia de um “texto- pode ou não pensar; contribuindo ainda para debater o em-si”, do que ele “realmente é”; em vez disso, deve-se poder das teorias ironistas (Contingency, irony and soli- averiguar se “pode ser usado [used] para esses propósi- darity) em ultrapassar a autoridade sem reclamar tos.” A visão essencialista do texto não passa de outras autoridades (revoluções sem contra-revoluções, “ocultismo”1. Contra a dialéctica do círculo hermenêuti- libertações sem novas servidões5); admiro, finalmente, co, Rorty é taxativo: “um texto tem apenas a coerência a ousadia e o apreço que tem por Derrida e o seu desvio que por acaso adquiriu durante a última volta da roda das epistemologias da Verdade, tornando cada texto hermenêutica, assim como um monte de barro tem um projecto inacabado que inspira em vez de apenas a coerência que por acaso obteve durante a últi- constranger. ma volta do torno do oleiro.”2 Ele não acredita numa Em bom pragmatista, centra-se na ideia de uti- “natureza” dos textos, as “interpretações correctas” lidade, condição da sua filosofia da contingência, revelam sempre um défice crítico. Insiste, pois, na im- construída em torno do desenvolvimento pessoal possibilidade de se descobrir a realidade última dos tex- (compatível com a tradição da ascese filosófica que vai tos, preferindo vê-los como úteis ou inúteis. Neste sen- dos gregos a Foucault, passado por Nietzsche) e do bem tido, roubando a expressão, e a fama, a Umberto Eco, comum (equilíbrio entre as necessidades de “paz, rique- Richard Rorty é um genuíno defensor da obra aberta. za e liberdade” e “as oportunidades de autocriação”; Parece assim emergir uma via inteiramente rel- reprimindo-se a humilhação do indivíduo enquanto su- ativista, cada leitor procederia de acordo com os seus jeito moral). (Conclui na pág 14) interesses e capacidades, retirando dos escritos o que 1- Cf. Stefan Collini (ed.), textos de Umberto Eco, Richard Rorty, Jonathan Culler e Christine Brooke-Rose, Interpretation and overinterpretation, Cambridge University Press, 1992, p. 102-103. 2- Idem, p. 97. 3- Cf. idem, p. 106. Do ponto de vista do escritor que ambiciona a revolução: “Se queremos que os nossos livros sejam lidos e não respeitosamente encadernados em couro gravado, devemos tentar produzir arrepios e não a verdade. Aquilo a que chamamos senso comum – o conjunto das verdades amplamente aceites – é, tal como Heidegger e Nabokov pensaram, uma colecção de metáforas mortas. As verdades são os esqueletos que sobram depois de a capacidade para despertar os sentidos – para causar arrepios – ter sido apagada pela familiaridade e por um uso longo.” (Contingência, Ironia e Solidariedade, Trad. N F da Fonseca, Lisboa: Editorial Presença, 1994, p. 192). 4- Philosophy and the Mirror of Nature, Princeton: Princeton University Press, 1979. 5- Podemos resumi-lo na imagem de um círculo hermenêutico que não deseja finalizar-se, nomeadamente quando em Contingência, Ironia e Solidariedade refere que o “vocabulário final” (as palavras que usamos para justificar acções e crenças) é inultrapassável, “no sentido em que, se se lançar dúvidas sobre o valor dessas palavras, o seu utilizador não tem qualquer recurso argumentativo não circular.” (Lisboa: Editorial Presença, 1994, p. 103). 11

[close]

p. 12

FILOSOFIA E CINEMA—Anselmo Pinto traz-nos uma análise de «O Círculo» de J. Ponsoldt, debatendo o papel das redes sociais e o problema do esboroamento da fronteira entre os espaços público e privado e consequente emulação. Filme «O círculo» ural», ultrapassado, ao «mundo real», actual, em que por Anselmo Pinto ela vive, ridicularizando-o. Por último, do pai e da Ficha técnica: O Círculo; De: James Ponsoldt; Género: Drama, Thriller, Ficção Científica; Classificacão: M/12; Outros dados: 2017, Cores, 110 mn. mãe dela, destaca-se o pai que tem um problema físico, parecendo ter sido afectado por algum AVC, ainda que lúcido e activo. Os directores/donos da empresa são personagens insignificantes, excepto na sua perfídia. O personagem de Tom Hanks faz três ou quatro "aparições" a dizer quase o mesmo, en- quanto director da empresa, ao mesmo tempo que parece descarnado da personagem sem caráter. O emprego é, para ela, uma ocupação, sem que a sua vida pessoal esteja envolvida. Após algum tempo, uma equipa de analistas traça o seu percurso e mostra-lhe que ela não aproveita nada do que a empresa lhe proporciona, seja para ocupar os seus tempos livres, seja para conviver, como se, ao suba- proveitar as condições de trabalho que possui, ela The Circle é uma das empresas mais prestigiadas estivesse desligada do contexto e funcionasse como na área da tecnologia. O seu principal foco são os e- um membro à parte. No entanto, Mae desconfia que mails e as redes sociais, com o objectivo de avaliar a há algo que não bate certo, ela parece interrogar-se forma como os utilizadores gerem as suas actividades sobre a validade de todo aquele controlo e transmite diárias, os seus hábitos de consumo e as suas motivações pessoais. Quando a jovem e ambiciosa Mae é contratada para fazer parte da equipa, não cabe em si de contentamento. Porém, ao aperceber-se de que forma as informações são obtidas e das verdadeiras implicações do con- ao espectador a desconfiança sobre a perversidade do sistema em que trabalha, portanto, de que faz parte, também. Parece que, de facto, como diz a apresentação oficial do filme, Mae se debate com o hecimento detalhado da vida privada dos indivíduos, problema moral da devassa pública da vida privada. começa a questionar-se até que ponto tudo aquilo pode Depois, Mae descobre que outro funcionário, Ty, ser moralmente aceitável… que foi quem criou o programa principal da empre- sa, sabe muito mais do que é público, acerca do que Com realização e argumento de James Ponsoldt ("The End of the Tour"), um filme dramático que se debruça sobre a evolução tecnológica e as questões éticas a ela associadas. É Protagonizada por Emma Watson, Tom Hanks e John Boyega. se passa na firma, e que acaba por lhe mostrar os espaços subterrâneos onde estão guardados os computadores, portanto, onde tudo está guardado. Pelo seu empenho, ela acaba por ser convidada para uma reunião da direcção, numa sequência em que, O filme conta a história de uma jovem, Mae, depois de ter sido criada a expectativa de eventual que conquista, através de uma entrevista em que fala denúncia do que tinha observado, há uma mudança do seu «potencial», um emprego numa rede social, de registo inexplicável e o que acontece é que Mae, tipo FaceBook, que quer saber tudo acerca de cada apesar de tudo, faz duas coisas: a) diz que é preciso cidadão conectado. A disponibilidade de Mae é to- mais do mesmo, contrariando a ideia de que todo tal, transmitindo a ideia de que aquele é o seu em- aquele controlo da vida individual seria demasiado, prego de sonho. Ela tem um candidato a namorado ela ainda pede mais, não apenas a transparência inque detesta por ser uma espécie de «bimbo", dado dividual durante algumas horas, mas a todas as que ele gosta da natureza e não admite estar con- horas, e, se for possível, a inclusão dos eleitores dos stantemente ligado ao telemóvel. Esta personagem, EUA na base de dados da empresa; b) em contraanódina, pretende ser o contraponto do «mundo nat- partida, aceita a proposta de ser ela a experimentar e 12

[close]

p. 13

a expor-se à nova câmara, 24 sobre 24 horas sucessi- «vingança», relativamente ao que aconteceu aos seu vas. candidato a namorado, acaba por ser uma expecta- O seu êxito, neste empreendimento, é com- tiva gorada, ou passa a ser uma falsa expectativa, pleto. Mae mostra tudo, dela e de tudo à sua volta, e porque caber-lhe-ia, enquanto «heroína», destruir a como distribuiu outras câmaras, nomeadamente aos máquina do fim da privacidade, que violentava as pais, alargou as possibilidades de ir mostrando aqui- pessoas (o sexo dos pais), que matava (o lo que eles fazem, de acordo com a sua escolha. Nes- «namorado»), ou que permitia discriminar a privaci- ta nova aposta do seu «potencial», sucedem três dade total, ou parcial, conforme os interesses (os coisas: a primeira é que, como tudo é para mostrar, papéis confidenciais da empresa e do CEO). O que ela, inadvertidamente, liga a câmara dos pais, sucede é que a «heroína» decide alimentar ainda quando eles estão a ter relações sexuais; a segunda, é mais essa máquina, como se o aumento do fim da a cena em que o seu candidato a namorado, aparece privacidade pudesse ser a solução para todos os na empresa para falar-lhe, e afirma a sua males, particularmente, os da má governação da indisponibilidade para ser filmado da maneira como empresa, ou dos delitos pessoais dos directores da ela está a fazer, e alude ao facto de ela estar empresa. Esta solução, sabemos hoje, por vários exe- constantemente ao telemóvel, ao mesmo tempo que - mplos, nomeadamente aqueles que são protagoniza- porque este «bimbo» faz candeeiros a partir de dos por Julian Assanje (exilado na embaixada do hastes de veado -, as pessoas que passam filmam-no Equador) e por Edward Snowden, a divulgação dos e fotografam-no, com exclamações de reprovação da massacres de guerra que passam impunes e são sua actividade, como a de «Assassino de veados!»; escondidos, ou a divulgação dos documentos que em terceiro lugar, a nova experiência, em termos provam como qualquer cidadão do mundo está empresariais, consiste em mostrar, ao vivo, como a automaticamente na alçada da vigilância (através do câmara pode ajudar a encontrar qualquer pessoa. A mais simples e cândido dos telemóveis) da NSA nor- exibição das novas «potencialidades» faz-se através te-americana, dos EUA, sabemos, nestes casos que de uma experiência, ao vivo, de localização de uma são um afrontamento ao segredo do Estado e ao fugitiva à polícia; depois deste êxito, passam para o totalitarismo da vigilância com que os cidadãos de encontro de outra pessoa e a escolhida, pelo director qualquer país podem ser controlados, que estas da empresa, acaba por ser o candidato a namorado acções têm um cunho de subversão e de libertação. de Mae. Ora, ele pôs-se em fuga, enquanto é perse- Ora, a acção da protagonista de ‘O Círculo’ é, pelo guido «ferozmente» por drones, gente a pé, gente de contrário, a de aumentar ainda mais, ao nível das carro e gente de moto, até que a tragédia sucede: o relações entre os cidadãos e entre estes e as cúpulas carro, descontrolado, cai do viaduto em que seguia e das instituições, por exemplo, a transparência, como estatela-se no solo. O "bimbo", o contraponto de se, sendo tudo uma questão de transparência, aque- Mae, está morto. las relações fossem, ou passassem a ser «saudáveis» Amargurada com este acontecimento, Mae e o mundo melhor. Ou ainda, a solução de ‘O círcu- prepara a vingança. Numa nova conferência, em que lo’ é aquela que permitiria ainda ir mais longe do estão presentes os directores da empresa, ela diz que que a sociedade descrita no livro Big-Brother, de tem algo para mostrar de novo e que isso consiste George Orwell, com todos os cidadãos a possuirem a em divulgar, para todos, os documentos que, até então, eram confidenciais sobre a empresa e sobre os donos da empresa, o CEO e o subdirector, que se sentem «tramados» (é o desabafo do CEO). É esta a apoteose do filme que, em crescendo, foi aumentan- do o grau da falta de privacidade, sempre como res- posta à necessidade do movimento nesse sentido, que, iniciado, se torna imparável. O que implica, por consequência, que a expectativa, que a dado momen- to foi gerada no espectador, quando Mae e Ty visi- tam, às escondidas, as salas subterrâneas, quer quan- sua câmara miniatura pregada ao peito e a filmar o to ao que lá se escondia, quer quanto à sua hipotética que quer que seja, em todo o lado e a qualquer hora. 13

[close]

p. 14

Talvez não estejamos assim tão longe deste totalitarismo da transparência e do fim de toda e qualquer privacidade. As câmaras minúsculas já existem, mas têm-se confinado aos telemóveis, e, outras, ao desporto, ainda que, pouco a pouco, mais cidadãos adiram à moda de filmar tudo, por exemplo, a partir do interior dos carros, ou quando andam de bicicleta. Afinal, cada um de nós pode substituir o panóptico por uma câmara de filmar e transformá-la no ponto a partir do qual cada um vê tudo e é visto por todos. Neste sentido, ninguém mais precisará de realizar a sua confissão escrevendo um livro para contar, com toda a transparência, tudo o que respeita à sua vida, como fez Rousseau. Ele, que queria abrir o seu coração para que nada ficasse de fora da sua confissão. A transparência luminiscente, a verdade desocultada, a essência descoberta, e a política na ponta do dedo digital. Que mais pode querer um ser humano transparente senão mais círculos iguais ao de ‘O círculo’? Dito isto, o filme não é tão inocente como parece. Se é verdade que o modo como foi elaborado torna-o insípido, e o drama, ou a sua ausência deixa-o sem alma, não é menos verdade que o que enuncia, o que deixa suspenso, ou mesmo o que esconde, é uma opção. A solução que adopta para resolver o dilema de mais ou menos privacidade, é tenebrosa, ainda que saibamos que, por exemplo, mais de um bilião de pessoas exponham a sua vida no Facebook. É esta opção do realizador que é desarmante, pela demência. A tensão dramática parece escoar-se pelos esgotos da transparência. «Uma consequência adicional do dispositivo da transparência é uma conformidade total. Reprimir os desvios é um traço constitutivo da economia da transparência. A rede e a comunicação totais têm já enquanto tais um efeito nivelador. Geram um efeito de conformidade, como se cada um vigiasse o outro, e isso anteriormente a qualquer vigilância e controle por serviços secretos. Hoje, também a vigilância tem lugar sem vigilância. Como que por ação de moderadores invisíveis, a comunicação é nivelada e reduzida ao acordo geral. Esta vigilância primária, intrínseca, é muito mais problemática do que a secundária, da qual se encarregam serviços secretos.» (Byung-Chul Han, Psicopolítica, Relógio D’Água, pág. 19) PARTICIPE NO PRÓXIMO NÚMERO DE A VACA MALHADA Remeta o seu original para avacamalhada1@gmail.com até 31 de agosto próximo. (Conclusão, da pág 11, do artigo Richard Rorty e a Obra Aberta de Victor Gonçalves) Este critério do” bem comum”, a par da crença nos benefícios do liberalismo político, acrescenta uma tonalidade quase política à hermenêutica rortyana, retomando uma máxima nietzschiana: a verdade incarna mais na moral do que na epistemologia. Em resumo, lê-se um texto também, talvez sobretudo, para que o mundo e nós mesmos sejamos melhores, mais livres e generosos. E desta forma aquilo que foi escrito ganha estatuto de residência, ainda que mediado, na realidade vivida, no “espírito de hoje” de que falava outro pragmatista, Henry James. EFEMÉRIDES PARA O NÚMERO DE VERÃO DE AVM12 Augusto Comte George Bataille Walter Benjamim (1798 - 1857) (1897- 1962) (1892-1940) A Vaca Malhada prepara-se para assinalar, no seu número 13, o de outono, os 50 anos do lançamento da obra de Guy Debord A Sociedade do Espectáculo . Fica aqui lançado o convite aos nossos leitores e colaboradores habituais. Capa da primeira edição portuguesa de A Sociedade do Espectáculo da editora Afrodite 14

[close]

p. 15

RECENSÃO — Diogo Pires Aurélio apresenta o livro de Victor Correia Quem tem medo dos filósofos?, subtitulado Citações filosóficas polémicas, recentemente editado pela Verso da Kapa. Com a adenda «Três perguntas ao autor» do livro, pretende-se ajudar a esclarecer alguns problemas que a obra coloca. O INESPERADO EM FILOSOFIA dia ainda acirram o politicamente correto, tiveram por por Diogo Pires Aurélio largos séculos assento na cabeça de muitos homens, a quem nos habituámos a venerar como sábios. É caso Por uma daquelas singularidades em que a nossa cultu- para dizer: no melhor pano... ra é pródiga, só agora veio a público, em Portugal, um livro todo ele feito de citações filosóficas. A demora Os profissionais hão-de dizer, e com razão, que se de- não constitui, certamente, motivo para grande frustra- veria ter em conta a história das mentalidades, para já ção, até pela importância relativa do assunto. Ainda não falar no contexto de onde estas pérolas foram ex- assim, é sintomático olhar à nossa volta e ver a prolife- traídas. Essa é, ração, já antiga, de obras deste género, um pouco por de facto, uma toda a parte, quando entre nós elas eram sempre olha- limitação que das com indiferença. Uma simples busca no Google, em se pode assa- qualquer uma das chamadas línguas de cultura, desco- car a este gé- brirá dúzias de volumes com citations de philosophes, nero de publi- philosophische Zitate, citas de filósofos ou citazione di cações. Mas só filosofi. E nem sequer se pode alegar que todos eles até certo pon- são insignificantes, como se estivéssemos perante uma to. Na verdade, espécie de Borda d’Água dos ricos, ou dos pedantes. sendo embora Basta lembrar, por exemplo, A Dictionnary of Philo- importante o sophical Quotations, uma obra publicada há um quarto contexto histó- de século mas sempre atual, cujo editor principal foi rico, quem um académico da craveira e com o prestígio de A. J. acreditar que Ayer. tudo se justifica por ele jamais A recolha de citações organizada por Victor Correia, sob compreenderá, o título Quem tem medo dos filósofos? Citações filosófi- por exemplo, como é que Bartolomé de las Casas, no cas polémicas, vem colmatar essa lacuna na bibliografia século XVII, se pôde insurgir contra a escravidão dos filosófica portuguesa, acrescentando ao modelo tradici- ameríndios, quando toda a gente os tinha por sub- onal o picante de usar citações, na sua maioria, contro- humanos. versas e, para muitos, certamente inesperadas em au- tores a quem a tradição reserva um pedestal de serie- Verdadeiramente questionável, neste tipo de obras, é a dade e correção. A partir de agora, quem quiser ilus- sua escassa fiabilidade na atribuição das citações aos trar, com erudição, o que algumas dessas mentes privi- autores. Com frequência, fica-se na dúvida se estamos legiadas pensaram sobre as mulheres, os negros, os realmente perante citações do original, de interpreta- judeus, a mentira ou os animais, por exemplo, tem à ções, ou apenas de simples ideias que há muito andam sua disposição, para cada um dos casos, um ramalhete por aí, atribuídas vá-se lá saber por quem a autores de pequenas frases, mais ou menos polémicas, mas que, porventura, nunca tiveram oportunidade de as invariavelmente assinadas por gente célebre. ouvir, quanto mais de as escrever. Felizmente, para aqueles que, levados pela curiosidade, quiserem ir um Despretensioso e culto, este livro cumpre com denodo pouco mais além e esclarecer questões como essa, há a função que se espera do género editorial a que per- muito aonde recorrer. Sem medo dos filósofos, por tence. Mais do que a um raciocínio elaborado, ou a um mais esquisitos que estes, às vezes, pareçam! debate complexo, as citações aqui reunidas apelam à simples curiosidade do leitor, o qual não deixará de se espantar ao descobrir que certos dislates, que hoje em PARTICIPE NO PRÓXIMO NÚMERO DE A VACA MALHADA Remeta o seu original para avacamalhada1@gmail.com até 31 de agosto próximo. 15

[close]

Comments

no comments yet