Ugarit 4 - O mito da Luta de Ba'lu e Môtu

 

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Mitos de Ugarit 4

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UGARIT O mito da luta entre Ba`lu e Môtu J. Franclim Pacheco

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O mito da luta entre Ba`lu e Môtu 3 Dentro da rica mitologia dada a conhecer pelas tabuinhas de Ugarit, o poema mais importante é o de Baal e Môtu (Môt), a versão mais completa do drama da fertilidade motivado pelo desaparecimento de um deus (Dummuzi-Tammuz-Adónis, Osíris, Telepinu). A história da «morte» de Baal e da sua libertação pela irmã Anat aparece como a transposição mítica de um fenómeno natural: o desaparecimento das chuvas na estação seca, relacionada com Môt, deus dos infernos - e o seu regresso nos começos da estação invernal. O poema começa com um diálogo entre Môt e Baal, que atende ao chamamento do primeiro e desce aos seus domínios no mundo inferior, o que leva ao desaparecimento do deus. Depois de algumas lacunas, continua a narração. Ilu inteira-se do desaparecimento de Baal.

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4 Transmissão da mensagem [Assim, voltaram a face] [para Ilu (que mora) na fonte dos dois rios], [o seio da origem dos dois oceanos]. [Dirigiram-se à gruta de Ilu e entraram [na morada do Rei, Pai] dos anos. [Ergueram a sua voz e exclamaram]: «Demos voltas [até às extremidades da terra], até aos limites das pradarias (?). Chegámos à delícia (de) a terra de «Peste», à formosura (de) os campos de «Praia-Mortandade», chegámos até Ba`lu,1 caído por terra. Morto está Ba`lu, o Vitorioso, pereceu o Príncipe, Senhor da terra!». Reacção de Ilu Então o Benigno, Ilu,2 o Bondoso, desceu do trono, sentou-se no escabelo, e deixando o escabelo sentou-se na terra; espalhou cinza de aflição sobre a sua cabeça, pó de humilhação sobre o seu crânio, como veste cobriu-se com uma túnica ritual; a pele com (uma faca de) pedra rasgou, as duas tranças com uma navalha (de barbear), lacerou as (suas) bochechas e o queixo; 1 Ba'lu, Baal, Ba'lu Haddi, Baal Hadad: O Trovão, o deus das tempestades, combate as forças de Motu (Morte) e Yammu (Mar). O Épico de Ba'lu é o mais extenso pedaço de literatura que nos resta dos cananeus. Muitas vezes ele é simplesmente chamado de «Ba'lu» ou «Baal», mas seu nome completo é «Ba'lu Haddi». «Ba'lu» ou «Baal» são simplesmente títulos que significam «senhor» e são aplicados aos deuses masculinos mais do que apenas a este deus da tempestade. 2 Ilu: Rei do panteão, Pai dos Anos, conhecido como compassivo e benevolente. Ele nunca está irritado e não pune os seus filhos imortais e/ou mortais. Considerado como estando sempre longe, ele é muitas vezes alcançável através de sua esposa Athiratu. Ilu vive no Monte Kasu e é o deus do vinho, dos sonhos proféticos, da sabedoria e é sempre representado como O Grande Touro.

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5 lavrou a cana do seu braço, arou como um horto o seu peito, como um vale lavrou o seu dorso. Ergueu a sua voz e exclamou: «Ba`lu está morto! Que vai ser do povo? O filho de Daganu!3 Que será da multidão? Atrás de Ba`lu vou descer à terra». Partida e reacção de `Anatu Também `Anatu4 percorreu e sondou todos os montes até às entranhas da terra, todas as alturas até ao seio dos campos. Chegou à delicia da terra de «Peste», à formosura dos campos de «Praia-Mortandade», chegou até Ba`lu, caído por terra. Como veste cobriu-se com uma túnica ritual; De Ba`lu a pele com (uma faca de) pedra rasgou, as duas tranças com uma navalha (de barbear), lacerou as (suas) bochechas e o queixo; [Lavrou] a cana do seu braço, arou como um horto o seu peito, como um vale lavrou o seu dorso. Ba`lu está morto! Que vai ser do povo? O filho de Daganu! Que será da multidão? Atrás de Ba`lu temos de descer à terra». Com ela desceu a Lâmpada dos deuses, Shapsu5. 3 Daganu ou Dagan: deus da fertilidade das culturas e do grão, pai de Baal Hadad. 4 'Anatu, Anat: A deusa Guerreira Adolescente, leal e amorosa, mas com um pavio curto. Apoiante da Ba'lu. É a deusa virgem e sanguinária, guerreira e liberta. 5 Shapash , Shapsh , Shapshu ou às vezes Shemesh era a deusa cananeia do sol, filha de El e Asherah. Ela é conhecida como «lâmpada dos deuses» e é considerada uma divindade importante no panteão cananeu e entre os fenícios.

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6 Resgate de Ba`lu Quando se saciou de chorar, de beber como vinho lágrimas, em voz alta gritou à Lâmpada dos deuses, Shapsu: «Carrega-me, por favor, Ba`lu, o Vitorioso». Escutou a Lâmpada dos deuses, Shapsu, levantou Ba`lu, o Vitorioso, aos ombros de `Anatu, sim, o pôs. Ele subiu os cumes de Sapanu, chorou-o e sepultou-o, pô-lo na caverna dos deuses da terra. Cena de sacrifício Degolou setenta touros selvajens como oferenda fúnebre de Ba`lu, o Vitorioso; Degolou setenta bois como oferenda fúnebre de Ba`lu, o Vitorioso; Degolou setenta reses ovinas como oferenda fúnebre de Ba`lu, o Vitorioso; Degolou setenta cervos como oferenda fúnebre de Ba`lu, o Vitorioso; Degolou setenta cabras monteses como oferenda fúnebre de Ba`lu, o Vitorioso; Degolou setenta asnos como oferenda fúnebre de Ba`lu, o Vitorioso; O seu [festim sacrificial] dispôs na eira `Anatu, e a sua [ração], a do cunhado dos deuses a Pretendida dos povos. Partida de `Anatu Assim, pôs então a face para Ilu (que mora) na fonte dos rios, no seio da origem dos dois oceanos. Dirigiu-se à gruta de Ilu, entrou na morada do Rei, Pai dos anos, aos pés de Ilu inclinou-se e caiu, prostrou-se e rendeu-lhe honras.

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Ergueu a sua voz e exclamou: «Que se alegrem agora Atiratu6 e seus filhos, a deusa (mãe) e o clã dos seus parentes, pois está morto Ba`lu, o Vitorioso, pois pereceu o Príncipe, Senhor da terra!. Diálogo entre Ilu e Atiratu Em voz alta gritou Ilu à Grande Dama, Atiratu do Mar: «Escuta, ó Grande Dama, Atiratu do Mar! Dá(me) um dos teus filhos para fazê-lo rei». Respondeu a Grande Dama, Atiratu do Mar: «Vamos, façamos rei a um inteligente e perspicaz!». E respondeu o Benigno, Ilu, o Bondoso: «Um fraco de forças não poderá competir, com Ba`lu não poderá medir (a) lança, com o filho de Daganu, porque desfalecerá». E respondeu a Grande Dama, Atiratu do Mar: «Façamos, então, rei a `Attaru,7 o Terrível! Que reine `Attaru, o Terrível!». Fracasso de `Attaru Acto seguido `Attaru, o Terrível, subiu aos cumes de Sapanu, sentou-se no trono de Ba`lu, o Vitorioso. Os seus pés não chegavam ao escabelo, a sua cabeça não alcançava o seu remate. E respondeu `Attaru, o Terrível: «Não posso reinar nos cumes de Sapanu». Desceu do trono de Ba`lu, o Vitorioso, e reinou na terra (que) de (um) deus é toda ela. 7 6 'Aṯhiratu, Athirat, Asherah: Rainha Mãe do Panteão, Co-criadora do universo. Conhecida como sábia e carinhosa, mas não deve ser menosprezada. Também é chamada de Aquela Que Intercede Por Seus Filhos. Também é a deusa do mar, criadora e amamentadora de todos os seres. 7 Attaru ou Athtar - deus do céu, depois que Ishtar. Aṯtar é identificado com o planeta Vénus, a estrela da manhã e da tarde, em algumas manifestações da mitologia semita.

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8 Diálogo entre `Anatu e Môtu ... Um dia e mais passaram e `Anatu, a Donzela, procurou-o. Como o coração da vaca pelo seu vitelo, como o coração da ovelha pelo seu cordeiro, assim (batia) o coração de `Anatu por Ba`lu. Agarrou Môtu pela borda da veste, agarrou-o pelo extremo do manto, ergue a sua voz e exclamou: «Vem, Môtu, dá-me o meu irmão!». Respondeu o divino Môtu: «Que desejas de mim, ó Virgem `Anatu? Eu mesmo percorri e sondei todos os montes até às entranhas da terra, todas as alturas até ao seio dos campos. O vigor faltou aos homens, o alento às multidões da terra. Cheguei à delícia da terra de «Peste», à formosura dos campos de «Praia-Mortandade». Encontrei Ba`lu, o Vitorioso, eu mesmo o pus (como) cordeiro na minha boca, como cria na abertura do meu esófago ficou triturado; (pois) a Lâmpada dos deuses, Shapsu, abrasando está o vigor dos céus nas mãos do divino Môtu». Morte de Môtu Um dia e mais passaram, os dias (fizeram-se) meses; `Anatu, a Donzela, procurou-o. Como o coração da vaca pelo seu vitelo, como o coração da ovelha pelo seu cordeiro, assim (batia) o coração de `Anatu por Ba`lu. Agarrou o divino Môtu, com uma faca o repartiu, com um arado o arou, no fogo o queimou, com pedras de moinho o triturou, no campo o disseminou.

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A sua carne comeram-na os pássaros, os seus pedaços devoraram-nos as aves; a carne à carne foi convidada. Cena de augúrio Morto está Ba`lu, o Vitorioso, pereceu o Príncipe, Senhor da terra! Mas sim, está vivo Ba`lu, o Vitorioso, e sim está em seu ser o Príncipe, Senhor da terra, num sonho do Benigno, de Ilu, o Bondoso, numa visão do Criador das criaturas, os céus azeite chovam, as torrentes fluam com mel, para que eu saiba que está vivo Ba`lu, o Vitorioso, que está em seu ser o Príncipe, Senhor da terra». Num sonho do Benigno, de Ilu, o Bondoso, numa visão do Criador das criaturas, os céus azeite choveram, as torrentes fluíram com mel. Reacção de Ilu Alegrou-se o Benigno, Ilu, o Bondoso, seus pés no escabelo apoiou e desfranziu o cenho e pôs-se a rir. Ergueu a sua voz e exclamou: Eu me sentarei e repousarei, e repousará em meu peito a minha alma porque está vivo Ba`lu, o Vitorioso, porque está em seu ser o Príncipe, Senhor da terra». Mensageiro de Ilu Em voz alta gritou Ilu à Virgem `Anatu: «Escuta, ó Virgem `Anatu, diz à Lâmpada dos deuses Shapsu: Secos estão os sulcos dos campos, ó Shapsu, secos os sulcos dos campos, ó deus; fizeram-te senhor dos sulcos da terra lavrada? Onde está Ba`lu, o Vitorioso, onde o Príncipe, Senhor da terra?». 9

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10 Transmissão da mensagem Partiu a virgem `Anatu; assim, pôs então a face para a Lâmpada dos deuses, Shapsu. Ergueu a sua voz e exclamou: «Mensagem do Touro, Ilu, teu pai, palavra do Benigno, teu progenitor: secos estão os sulcos dos campos, ó Shapsu, secos os surcos dos campos, ó deus; fizeram-te Senhor dos sulcos da lavoura? Onde está Ba`lu, o Vitorioso, onde o Príncipe, Senhor da terra?». Diálogo entre `Anatu e Shapsu E respondeu a Lâmpada dos deuses Shapsu: «Verte vinho espumante das tinas que tragas a comitiva dos teu(s) congénere(s), que eu procurarei Ba`lu, 0 Vitorioso». E respondeu a Virgem `Anatu: Onde quer que (vás), ó Shapsu, onde que que (vás), (ó) deus, que te proteja...» Cena de combate Ba`lu agarrou os filhos de Atiratu; os grandes golpeou com o garrote, os que (eram) como Yammu8 golpeou com a maça, os pequenos arrastou por terra. E [subiu] Ba`lu ao seu trono real, [ao divã], o sólio do seu poder. 8 Yammu, Yam: Deus do Mar, dos Rio e dos padrões climáticos, por vezes caóticos. Ba'lu, usando armas mágicas de Kathir, luta contra Yammu pela sua posição no panteão.

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Lamento de Môtu Os dias fizeram-se meses, os meses fizeram-se anos; até que aos sete anos [dirigiu-se] o divino Môtu a Ba`lu, o Vitorioso. Ergueu a sua voz e exclamou: «Por tua causa, Ba`lu, eu vi a prostração, por tua causa vi o joeirar, por tua causa vi o trinchar com faca, por tua causa vi a combustão por fogo, por tua causa vi a moagem de pedra, por tua causa vi o peneirar com crivo, por tua causa vi o abandono no campo, por tua causa vi a disseminação no mar. Dá(-me) um dos teus irmãos para que eu o devore e me acalme, visto que sou inexorável (?). Se um dos teus irmãos [saciar a minha sede], então o aceitarei, será aceite [como substituto (?)]. (até) agora o meu alimento são os homens, a minha comida, as multidões da terra». [...] [Então consumiu] o divino Môtu, [devorou] sete dos seus mancebos. Cena de combate E respondeu o divino Môtu: «E [eis] que aos meus irmãos fez Ba`lu meu alimento, aos filhos de minha mãe, meu consumo». Voltou-se para Ba`lu (que mora) nos cumes de Sapanu, ergueu a sua voz e exclamou: «Aos meus irmãos fizeste, Ba`lu, meu alimento, aos filhos de minha mãe, meu consumo». Atacaram como bestas predadoras (?): Môtu era forte, Ba`lu era forte; cornearam-se como touros selvagens; Môtu era forte, Ba`lu era forte; morderam-se como serpentes: 11

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12 Môtu era forte, Ba`lu era forte; arrastaram-se como alazões (?): Môtu caiu, Ba`lu caiu sobre ele. Conselho de Shapsu Shapsu gritou a Môtu: «Escuta, por favor, ó divino Môtu, como podes pelejar com Ba`lu, o Vitorioso? como queres que te escute o Touro Ilu, teu pai? De certeza arrancará o suporte da tua sede, virará, sim, o teu trono real, sem dúvida quebrará o teu ceptro de comando». Desenlace do combate Atemorizou-se o divino Môtu, teve medo o Amado de Ilu, o Líder; agitou-se Môtu na sua prostração, humilhou-se (?) [perante (?)] Ba`lu, que foi instalado em seu [trono] real, [no divã, o sólio] do seu poder. Hino a Ba`lu «Desce, pois, [a tomar] pão tenro (?), a comer, sim, pão de oferenda, a beber, vem, vinho de libação. Shapsu aos Rapauma9 (te) submeterá, Shapsu (te) submeterá aos divinais; à volta de ti estão os deuses, também os homens, à volta de ti Kotaru teu companheiro, e Hasisu teu conhecido. Contra Yammu, Arsu e Tunnanu Kotaru-Hasisu10 uma mão (te) lançará, Kotaru-Hasisu». 9 Os Rapauma são heróis lendários que depois serão divinizados. Portanto, podem denominar-se deuses, embora actuem como homens. 10 Kaṯiru-wa-Ḫasisu, Kotaru-wa-Ḫasīsu, Kothar-wa-Hasis, Kathir-wa-Khasis: Hábil e inteligente. Conhecido como o deus artesão e mago.

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Cólofon11 O escriba foi Ilimilku, subbaní, discípulo de Attanu-Pulianni, Sumo Sacerdote, Pastor Máximo, Inspector de Niqmaddu, Rei de Ugarit, Senhor Formidável, Provisor do nosso sustento. Noticia foi dada a Yatipan: «A nossa contratista entrou em tuas grutas, Anat, a Donzela, veio às tuas tendas. Respondeu Yatipan, o guerreiro devastador: «Toma e bebe vinho, toma a taça da minha mão, o cálix da minha direita». Tomou-a Pughat e bebeu-a, tomou a taça de sua mão, o cálix da sua direita. O desenlace E respondeu Yatipan, o guerreiro devastador: «Pelo vinho que bebe o nosso El, o deus do céu, o deus que criou as grutas, a mão que feriu o Magnata Aqhat fira mil inimigos devastadores. Lançou ela feitiços nas tendas, e retorceu o seu ânimo como um corno de carneiro, o seu coração como uma serpente. Duas vezes o encheu de vinho, deu-lhe a beber vinho misturado, ela deu-lhe a beber. Margem. E isto repete-se ao fazer o relato. 13 11 O cólofon designa a nota final dum texto, O termo deriva do latim colophon, que por sua vez deriva do grego κολοφων («cume», «topo» ou «final»).

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