VetScience Magazine - Número 16 | 2017

 

Embed or link this publication

Description

www.vetsciencemagazine.com.br

Popular Pages


p. 1

ISSN 2358-1018 um benefício para o cliente TECSA MAGAZINE Número 16 REPRODUÇÃO E FERTILIDADE DIAGNÓSTICO E MONITORIA LABORATORIAL www.vetsciencemagazine.com.br 1

[close]

p. 2

TESTES RÁPIDOS COM A QUALIDADE PREMIUM TECSA LABORATÓRIOS ENTRE EM CONTATO CONOSCO E FAÇA O SEU PEDIDO: CONSULTE A DISPONIBILIDADE E LIBERAÇÃO DOS NOVOS KITS:

[close]

p. 3

EDITORIAL Na crise - crie! Para momentos de CRISE a melhor saída é a criatividade. Para que nossos clientes continuem a buscar em nossas empresas a parceria que esperam obter, mesmo em momento de falta de emprego e de dinheiro circulante, é necessário cortar custos e priorizar o cliente. Encontrar formas criativas e inteligentes de fazer a conexão com os nossos contatos, oferecer produtos e serviços de alta qualidade e com custo-benefício adequado é de extrema importância. Em um planeta que se virtualizou pelas redes sociais, nenhuma empresa pode ficar de fora deste canal de contato humano. Seja um empresário ou um profissional, todos devem estabelecer seu espaço nas redes sociais e ganhar, assim, ”intimidade“ com seus possíveis clientes. Levar conhecimento e informações gratuitas, gerar espaço de troca de ideias e de oportunidade nesses contatos faz com que enxerguem melhor o seu negócio e sua atuação profissional. As redes sociais podem divulgar seu trabalho com uma velocidade e em uma dimensão que pode lhe surpreender. Vale a pena estudar sobre mídia digital e, se possível, contratar uma consultoria para lhe acompanhar neste processo. Cuidados pré-analíticos essenciais Afonso Perez Como discutido em edições anteriores, os erros laboratoriais inerentes à etapa pré-analítica, ou seja, que antecedem a análise propriamente dita, podem chegar a 70%. Esta etapa está diretamente relacionada ao cuidado em manusear as amostras, desde o momento da colheita, até a chegada ao laboratório de apoio. Precisamos ressaltar que o cuidado com a identificação e transporte das amostras deverá seguir rigorosamente o procedimento descrito no Manual de Coleta que se encontra disponível em nosso site (www.tecsa.com.br). A identificação, tanto do tubo quanto do pedido, deverá ser legível e única. Deve-se lembrar da importância de inserir o nome do animal, nome do Tutor e número da clínica requisitante, também no tubo. Estas informações são essenciais pelo fato de termos diversos animais com o mesmo nome (Ex.: MEL, NINA, BOB, NICK) sendo a diferença é identificada pelo nome do Tutor e da clínica. Observar sempre a grafia também é importante, pois, não é difícil encontrar o nome do animal escrito de uma forma no tubo e de outra no pedido (Ex.: Sacha e Saxa). Para facilitar a compreensão e evitarmos a ocorrência de atrasos fiquem atentos ao preenchimento correto da ficha de solicitação. Usar como padrão letra de forma é uma boa idéia!!! Inserir a informação da raça e idade, em alguns casos, são fundamentais para o auxílio na interpretação e avaliação dos resultados, pois, dependendo do analito dosado poderão ocorrer variações. Vale lembrar que a assinatura do médico veterinário requisitante, quando solicitados por meio de formulário impresso, é essencial. Destacamos que, caso ocorra alguma dúvida com relação à identificação do pedido/amostra, entraremos em contato para confirmação, porém, isto poderá acarretar em atrasos na liberação do resultado, pois, até que a informação seja confirmada, a amostra ficará aguardando para iniciar o processo analítico. Luiz Eduardo Ristow

[close]

p. 4



[close]

p. 5

ÍNDICE 06. REPRODUÇÃO 06. ABORDAGEM DIAGNÓSTICA DA INFERTILIDADE EM CADELAS 10. COMPLEXO HIPERPLASIA CÍSTICA ENDOMETRIAL/ PIOMETRA EM CADELAS: O QUE HÁ DE NOVO? 16. TERAPÊUTICA HORMONAL APLICADA À REPRODUÇÃO DE CADELAS 21. USO INDEVIDO DE PROGESTÁGENOS (ACETATO DE MEDROXIPROGESTERNA) EM UMA CADELA (CANIS LUPUS FAMILIRIS) 24. BRUCELOSE CANINA: UMA PERIGOSA ZOONOSE NEGLIGENCIADA 27. PSEUDOCIESE EM CADELAS 30. EFEITO DA SAZONALIDADE SOBRE A FUNÇÃO TESTICULAR DE CÃES 32. USO DE AGONISTAS DO GNRH COMO CONTRACEPTIVO REVERSÍVEL EM GATOS DOMÉSTICOS 35. ALTERAÇÕES METABÓLICAS NA GESTAÇÃO 38. HEMATOLOGIA 38. FISIOLOGIA DA HEMOSTASIA: NOVOS CONCEITOS Colaboraram neste número: Dr. Thiago Luis Santos Gonçalves, Dr. Guilherme Stancioli, Dra. Isabela de Oliveira Avelar, Dra. Janete Madalena da Silva, Dr. João Paulo Fernandez Ferreira, Dr. João Paulo Franco, Dr. Luiz Eduardo Ristow, Dra. Luiza França Melo, Dra. Marcela Ribeiro Gasparini, Dr. Otávio Valério de Carvalho. Todos membros da Equipe de Médicos Veterinários do TECSA Laboratórios. Além do Médico Patologista Dr. Afonso Alvarez Perez Jr. Contribuíram também para este número os renomados Colegas: Dra. Anne Kemmer Souza, Dra. Camila Louise Ackermann, Dr. Jamile Haddad Neta, Dr. Luiz Guilherme Corsi Trautwein, Dr. Marcelo Rezende Luz, Dr. Marco Antônio Machado, Dra. Maria Denise Lopes, Dra. Maria Isabel Mello Martins, Dra. Marília Martins Melo, Dra. Paula Postali Ananias, Dr. Warley Gomes dos Santos. Obs.: os artigos assinados são de inteira responsabilidade dos autores e não representam necessariamente, a visão e opinião do TECSA Laboratórios. EXPEDIENTE Editores/Publishers: Dr. Luiz Eduardo Ristow . CRMV-SP 5560S . CRMV-MG 3708 . ristow@tecsa.com.br Dr. Afonso Alvarez Perez Jr. . afonsoperez@tecsa.com.br Equipe de Médicos Veterinários TECSA . tecsa@tecsa.com.br Diagramação: Sê Comunicação . se@secomunicacao.com.br Contatos e Publicidade: comunicacao@tecsa.com.br Av. do Contorno , nº 6226 , B. Funcionários, Belo Horizonte - MG – CEP 30.110-042 PABX-(31) 3281-0500 Tiragem: 5000 revistas . Publicação Bimestral Na Internet: www.vetsciencemagazine.com.br ISSN: 2358-1018 CIRCULAÇÃO DIRIGIDA A revista VetScience® Magazine é uma publicação do Grupo TECSA dirigida somente aos médicos veterinários, como parte do Projeto JORNADA DO CONHECIMENTO, criado pelo mesmo. Este projeto visa a universalização do conhecimento em Medicina Laboratorial Veterinária. A periodicidade é Bimestral, com artigos originais de pesquisa clínica e experimental, artigos de revisão sistemática de literatura, metanálise, artigos de opinião, comunicações, imagens e cartas ao editor. Não é permitida a reprodução total ou parcial do conteúdo desta revista sem a prévia autorização do TECSA. Os editores não podem se responsabilizar pelo abuso ou má aplicação do conteúdo da revista VetScience magazine. Grupo TECSA – Referência de precisão, tecnologia e inovação desde 1994!

[close]

p. 6

REPRODUÇÃO ABORDAGEM DIAGNÓSTICA DA INFERTILIDADE EM CADELAS Maria Denise Lopes (Departamento de Reprodução Animal e Radiologia Veterinária, FMVZ, UNESP, Botucatu. E-mail: denise@fmvz.unesp.br) Resumo A infertilidade nas fêmeas caninas pode ser congênita ou adquirida e,dentro das infertilidades de causas adquiridas, pode ser aparente ou verdadeira. A infertilidade não é um diagnóstico, mas sim um sintoma, portanto, deve ser corretamente diagnosticada e, em alguns casos, convenientemente tratada. A infertilidade pode ter múltiplas causas e o profissional deve seguir um roteiro clínico para auxiliá-lo na determinação de sua causa. O objetivo dessa revisão é discutir as principais causas da infertilidade nas cadelas, seguindo um roteiro clínico completo que inclui as principais causas da infertilidade. Introdução A maioria dos problemas de infertilidade pode ser convenientemente tratada, desde que corretamente diagnosticada. Em todos os casos de infertilidade, um histórico reprodutivo completo deve ser realizado e algumas questões específicas devem ser necessariamente respondidas. Um exame físico completo e detalhado deve ser realizado e uma “lista de problemas” deve ser considerada. As causas da infertilidade são muitas e podem comprometer vários órgãos e sistemas. O profissional deve seguir um roteiro específico ou um plano diagnóstico para chegar à causa primária da infertilidade. Histórico reprodutivo completo Além de dados gerais referentes à idade, raça, alimentação, vacinações, doenças anteriores, medicações etc., questões sobre o ciclo estral devem ser discutidas, como intervalo interestro: duração, fases do ciclo estral e administração de hormônios; coberturas prévias: esquema de coberturas, comportamento durante a cobertura, cobertura natural ou inseminação artificial; gestações prévias: gestações anteriores, problemas durante o parto, número de filhotes, histórico de abortos; fator macho: antes de se iniciar toda e qualquer investigação sobre infertilidade em fêmeas, o macho deve ser avaliado. A razão para que os machos sejam avaliados antes é a facilidade de examiná-los; os machos são continuadamente férteis, ao contrário das fêmeas, que são férteis somente 2 a 3 semanas/ano. A maneira mais fácil e rápida de se conhecer a fertilidade do macho é saber a respeito de seu histórico reprodutivo anterior: se esse macho acasalou e emprenhou uma fêmea que pariu filhotes vivos e saudáveis, num prazo de até 4 meses, podemos considerar esse macho fértil. Entretanto, esse histórico não descarta a realização de um exame andrológico completo. Uma avaliação seminal normal comprova a fertilidade de um macho, mas uma avaliação alterada ou dificuldade para obtenção de uma amostra de sêmen torna o macho suspeito. São necessárias duas ou três análises de sêmen anormais para comprovar a infertilidade masculina. Todo macho ativo deve ser testado a cada seis meses para brucelose; cães menos ativos podem ser checados anualmente ou imediatamente antes da cobertura. No homem, a infertilidade masculina responde por 40% das falhas de concepção. Até o momento, não existem estatísticas específicas nos cães, mas uma situação semelhante deve existir. Exame físico detalhado Todos os sistemas devem ser examinados e o aparelho reprodutor deve ser avaliado detalhadamente: a 6

[close]

p. 7

REPRODUÇÃO vulva deve ser inspecionada para checar o tamanho, conformação e presença de secreção; vulva muito pequena ou recoberta por uma dobra de pele, em cadelas obesas, pode impedir ou dificultar a cobertura natural; vagina: a palpação digital da vagina deve ser sempre realizada, um dedo enluvado deve ser introduzido no canal vaginal permitindo avaliar o lúmen, a abertura da uretra, presença de massas, estenoses vaginais; vaginoscopia: o uso de um rinoscópio limita bastante a avaliação do lúmen vaginal, no entanto, o uso de um protoscópio pediátrico ou de um endoscópio rígido corresponde ao equipamento ideal para reconhecer as modificações da aparência da mucosa vaginal, associadas às fases de ciclo estral nas cadelas; citologia vaginal: deve fazer parte de toda a avaliação reprodutiva, são fáceis de se fazer, rápidas e informativas; palpação abdominal: com exceção da gestação e da piometra, o útero dificilmente é avaliado com segurança; glândulas mamárias: devem ser sempre inspecionadas e palpadas com cuidado para identificar nódulos e secreção láctea. LISTA DE PROBLEMAS Fêmeas receptivas com Intervalo Interestro Normal – IIN: Nesse grupo estão inclusos manejo inadequado de cobertura, alterações metabólicas, brucelose, herpesvírus, hiperplasia cística do endométrio/Piometra, Insuficiência Lútea. Fêmeas não receptivas com Intervalo Interestro Normal – IIN: Alterações de comportamento e anormalidades físicas. Intervalo Interestro prolongado Intervalo Interestro curto Estro persistente 1) Manejo inadequado de cobertura é a causa mais comum de infertilidade aparente nas cadelas. Essa condição ocorre devido ao uso de critérios errados utilizados para o estabelecimento de protocolos de coberturas. Os erros mais frequentes são: apenas uma cobertura/ciclo, coberturas em dias predeterminados, coberturas após o término de secreção sanguinolenta ou quando o proprietário/ criador espera o macho na determinação da cobertura. Nesse caso, a fêmea é acasalada em momento inadequado do ciclo estral. Devemos considerar que o conhecimento da fisiologia reprodutiva das fêmeas caninas é imprescindível para o estabelecimento de esquemas de cobertura ou de IA (inseminação artificial). Assim, várias coberturas/ciclo eliminam a chance de erros em relação ao momento de maior fertilidade do ciclo estral das cadelas – do 4º ao 7º dia após onda pré-ovulatória de LH (hormônio luteinizante). Não é raro que algumas cadelas apresentem proestro e estro mais longos ou mais curtos do que a duração normal (média de 9 dias para o proestro e 7 dias para o estro). Sendo assim, coberturas ou IA em datas preestabelecidas perdem completamente o valor. Algumas cadelas sangram durante todo o proestro e estro, inclusive nos primeiros dias do diestro; outras, ao contrário, não sangram nunca ou sangram muito pouco. Portanto, esperar para liberar a cobertura após o término de sangramento é desaconselhável. Manejo de coberturas devem seguir critérios ou parâmetros reconhecidos, como observação do comportamento das fêmeas próxima ao macho. Quando receptiva, a fêmea deve ser acasalada a cada 2 ou 3 dias até refutar o macho. Algumas cadelas se recusam a ser cobertas por um macho em particular ou até mesmo por todos os machos, a despeito do reconhecimento correto do estro. Nesse caso, comportamento de dominância e submissão deve ser considerado, sendo indicado a IA. Outro critério que deve ser usado no estabelecimento de esquemas de coberturas ou IA é a citologia vaginal diária ou a cada 48 horas; essa técnica é rápida, pouco onerosa e reflete indiretamente as concentrações de estrógenos na circulação.A progesterona plasmática também é um critério relevante na determinação do momento ideal de cobertura ou IA, devendo ser sempre utilizada quando da utilização de sêmen resfriado ou descongelado. Uma concentração próxima de 5 ng/mL corresponde ao momento das ovulações. É interessante que se associem critérios seguros para estabelecer protocolos de coberturas ou IA, ou seja, utilizar a observação do comportamento, citologia vaginal e progesterona plasmática. Assim, as chances desse protocolo resultar em gestação são muito grandes. 2) Doenças metabólicas – Hipotireoidismo: a avaliação da tiroide deve ser sempre considerada relevante, em casos de infertilidade. O hipotireoidismo é descrito como uma doença frequente nos cães, embora seja subdiagnosticada por muitos profissionais. 3) Brucelose – A B. canis causa aborto no final da gestação, reabsorção embrionária e infertilidade em cães. Em situação de canil comercial, todas as fêmeas devem ser avaliadas com o teste de aglutinação rápida (TAR); nesse teste, a porcentagem de falsos positivos é grande e, nesse caso, as fêmeas devem ser isoladas e retestadas 30 dias após, com o teste de aglutinação lenta, em tubos ou cultura sanguínea ou PCR (reação em cadeia da polimerase). 4) Herpesvírus Canino (HVC) – essa virose causa aborto no final da gestação.A avaliação dos títulos de HVC antes das coberturas pode identificar uma maior ou menor susceptibilidade à infecção. 5) Hiperplasia Endometrial Cística (HEC) e Piometra – A HEC é uma modificação do endométrio, decorrente de uma estimulação crônica e recorrente de progesterona, o que ocorre normalmente durante o ciclo estral das fêmeas caninas. Cadelas adultas e idosas frequentemente apresentam um endométrio comprometido pela HEC. 7

[close]

p. 8

REPRODUÇÃO Soma-se a essa condição (doença de base) uma infecção bacteriana causada principalmente pela E. coli. A condição HEC mais piometra é uma causa comum de infertilidade nas cadelas. A HEC não é diagnosticada facilmente, a menos que a fêmea seja submetida a exames ultrassonográficos, com equipamentos sofisticados. A HEC é classificada, histologicamente, em quatro graus, de acordo com a gravidade. HEC de grau I e II são compatíveis com implantação, já os graus III e IV são incompatíveis com implantação e, portanto, responsáveis por quadros de infertilidade. 6) Insuficiência Lútea ou Hipoluteodismo – é uma condição rara em cadelas e significa uma produção diminuída de progesterona, pelos corpos lúteos, dificultando a manutenção da gestação. Existe uma dificuldade muito grande no diagnóstico de insuficiência lútea primária ou secundária. No quadro primário, os corpos lúteos produzem pouca progesterona ou por um tempo menor do que aquele considerado normal. Já no quadro secundário, alterações uterinas podem produzir prostaglandinas F2α e, indiretamente, causar lise dos corpos lúteos e diminuir a produção de progesterona. A insuficiência lútea pode causar reabsorção embrionária ou abortos, na dependência do período da gestação em que ela ocorra. O diagnóstico é realizado com dosagens seriadas de progesterona, durante todo o período da gestação. Fêmeas NÃO receptivas com Intervalo Interestro Normal – IIN 1) Alterações de comportamento – O comportamento é um fator importante na performance reprodutiva dos animais, em geral. Algumas fêmeas escolhem os machos; quando um casal de cães convive junto, geralmente a fêmea é dominante e às vezes não aceita o macho mesmo no período de receptividade máxima. Outras cadelas refutam todos os machos e, nesse caso, a IA é recomentada. 2) Anormalidades físicas – as principais causas de infertilidade relacionadas a anormalidades físicas nas cadelas são as estenoses vaginais e a hiperplasia vaginal. As estenoses vaginais são alterações de origem congênita e comuns nas cadelas. As estenoses vaginais são de vários tipos: vagina dupla; anel anular; septo vaginal; hipoplasia vaginal; hipoplasia vulvar, e são diagnosticadas durante o exame clínico com a inspeção cuidadosa da vulva e vagina, e pela palpação digital da vagina. Durante a cobertura, a cadela sente dor e o macho tem dificuldade durante a penetração do pênis, o que resulta numa incapacidade de cobertura natural. Nesse caso, o diagnóstico deve ser realizado com segurança – palpação digital da vagina, vaginoscopia e vaginograma. A IA é indicada. 3) Hiperplasia vaginal – Ocorre na fase folicular do ciclo estral (proestro e estro) e está relacionada a uma resposta exagerada da mucosa vaginal, frente às concentrações de estrógenos. A hiperplasia vaginal é classificada em quatro graus, de acordo com a maior ou menor exposição da mucosa vaginal, através dos lábios vulvares. As cadelas tendem a repetir essa condição em todos os ciclos e a indicação é de retirada dessa fêmea da reprodução. Intervalo Interestro Prolongado O intervalo interestro nas cadelas é, em média, de 7 meses, com exceção de algumas raças que ciclam sempre uma vez por ano. Cadelas idosas apresentam IIE mais longos. 1) Cios Silenciosos – Algumas fêmeas apresentam poucas manifestações de cio: pouca secreção sanguinolenta durante o proestro; edema de vulva imperceptível. Se a cadela permanece confinada, sem contato com outros cães que, eventualmente, poderiam identificar o proestro e estro, essa fase folicular do ciclo estral pode permanecer desapercebida pelos proprietários. Essa fêmea, a despeito de apresentar cios silenciosos ou não identificados, apresenta uma fertilidade normal. Esse animal deveria ser monitorado com dosagens mensais de progesterona sérica ou com citologias vaginais semanais, manejo social e inspeção detalhada da vulva. 2) Hipotireoidismo – pode causar IIE prolongado e falhas ovulatórias. Os sinais mais comuns de casos de hipotireoidismo são: depressão; anorexia; alopecia; anemia não regenerativa; hipercolesterolemia. Após correção hormonal adequada, a fêmea apresenta regularidade cíclica. 3) Cistos/Neoplasia ovarianas – cistos luteais se caracterizam pela não ocorrência das ovulações; produzem progesterona de forma independente, sem controle do eixo hipotálamo/ hipófise/ovário. A produção independente de progesterona resulta em IIE prolongado e estimula o aparecimento da hiperplasia endometrial cística. Na maioria das vezes, as fêmeas portadoras de cistos luteais são diagnosticadas com HEC/ Piometra. Os tumores das células da granulosa, mais frequentes em cadelas adultas e idosas, também produzem progesterona de forma independente do eixo hipotálamo/hipófise/gônada, resultando no mesmo quadro hormonal dos cistos luteais. O diagnóstico dessas alterações hormonais é feito com base no exame clínico, radiográfico, ultrassonográfico e na laparotomia exploratória. Intervalo Interestro Curto O intervalo interestro compreende a fase do diestro e do anestro do ciclo estral de cadelas. Esse intervalo dura, em média, 7 meses, podendo variar de 4,5 a 10 meses. A fase do diestro corresponde a fase lútea do ciclo, com produção de progesterona pelos corpos lúteos, e dura aproximadamente 60 dias nas cadelas gestantes e de 70 a 80 dias nas cadelas não gestantes. Já a fase do anestro dura em média de 4 a 5 meses e, 8

[close]

p. 9

REPRODUÇÃO nesse período, o útero se recupera da estimulação progestacional e apresenta condições de uma nova implantação e manutenção da gestação. Um intervalo interestro curto (IIC), inferior a 4 meses, geralmente está associado a um quadro de infertilidade. 1) Falha nas ovulações - algumas fêmeas podem apresentar falha nas ovulações. Nesse caso, não ocorre a formação dos corpos lúteos, as cadelas não apresentam o diestro e encurtam em 60 dias o intervalo interestro. 2) Anestro curto – nesse caso o anestro é 30 a 60 dias mais curto que o normal, o útero não se recupera completamente, o que dificulta o processo de implantação. Nessas duas situações (falha das ovulações e anestro mais curto), a despeito das cadelas apresentarem estro normal, embora sejam acasaladas por machos férteis, não emprenham. 3) Split Cio – acomete cadelas jovens e, geralmente, desaparece com a maturidade sexual. É uma condição na qual as cadelas apresentam comportamento característico de proestro por um período de 5 a 7 dias, com edema de vulva, secreção sanguinolenta e atração dos machos. Depois desse tempo, a cadela deixa de apresentar esses sinais. De 4 a 8 semanas mais tarde, as cadelas apresentam novamente sinais de proestro e, nesse momento, a fase folicular é completa, com duração de 15 a 20 dias; caso a fêmea seja acasalada, tem grande possibilidade de emprenhar e parir normalmente. 4) Cisto Folicular – são mais frequentes em fêmeas jovens. Cadelas com cisto folicular podem apresentar IIC e, algumas vezes, estro persistente. O diagnóstico de cisto folicular é realizado por ultrassonografia. O tratamento pode ser realizado com hormônio liberador de gonadotrofina (GnRH), hormônio luteinizante (LH) e, em alguns casos, ovariohisterectomia (OSH). 5) Neoplasia Ovariana – diferentemente dos cistos foliculares, as neoplasias ovarianas acometem as fêmeas idosas. O tumor das células da granulosa são funcionais e podem produzir estrógenos, sinalizando estros frequentes ou persistentes. ovariohisterectomia (OSH). EXAMES REALIZADOS PELO TECSA LABORATÓRIOS CÓD - EXAME PRAZO/DIAS 69 - PROGESTERONA 1 70 - ESTRADIOL 1 635 - ESTRADIOL - RADIOIMUNOENSAIO 1 154 - TESTOSTERONA VETERINÁRIA 1 293 - LH - HORMÔNIO LUTEINIZANTE 2 275 - FSH - HORMÔNIO FOLÍCULO ESTIMULANTE 2 352 - CITOLOGIA VAGINAL (CICLO ESTRAL) 2 350 - PERFIL REPRODUTIVO (CICLO ESTRAL) 3 682 - PERFIL REPRODUTIVO (CICLO ESTRAL II) 3 76 - BRUCELOSE CANINA (B.CANIS) 3 302 - NEOSPORA CANINUM 5 9

[close]

p. 10

REPRODUÇÃO COMPLEXO HIPERPLASIA CÍSTICA ENDOMETRIAL/ PIOMETRA EM CADELAS: O QUE HÁ DE NOVO? Dra. Marilu Martins Gioso (Universidade de São Paulo, Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, Departamento de Cirurgia, Setor de Anatomia dos Animais Domésticos e Silvestres. Email: mmgioso@yahoo.com.br) Resumo A piometra canina é uma doença reprodutiva, infecciosa e inflamatória, que afeta o útero de cadelas, sendo registradas mais frequentemente na fase diestro. Na rotina da clínica de animais de companhia, frequentemente os médicos veterinários se deparam com animais que apresentam este quadro e necessitam decidir, de maneira rápida e objetiva, sobre a melhor forma de tratamento, já que se trata de uma situação de risco e pode ser potencialmente fatal. Pela importância desta patologia, propôs-se, nesta revisão de literatura, expor os conceitos atuais da etiopatogenia do complexo hiperplasia endometrial cística/ piometra abordando os sinais clínicos, laboratoriais e os atuais tratamentos (conservativos ou não). Introdução: Os casos de Complexo Hiperplasia Endometrial Cística/Piometra (HCE/ PIO) em cadelas vêm aumentando consideravelmente. Atualmente, esta patologia não é só diagnosticada em cadelas nulíparas e de idade avançada como antes estabelecido, mas também em animais de qualquer idade, principalmente em casos de administrações de medicamentos que previnem o aparecimento do sangramento vulvar ou que impedem a fertilização após o coito. Estas últimas ações são realizadas rotineiramente pelos proprietários, leigos e até por profissionais desavisados das consequências destes procedimentos. Outros fatores predisponentes incluem ciclos estrais irregulares e pseudociese. Estudos recentes indicaram que cerca de 19% das fêmeas nulíparas de até 10 anos de idade apresentam esta enfermidade. Já outros dados revelaram que, após os 9 anos, a prevalência da infecção pode chegar a mais de 60% e, antes dos 6 anos, o aparecimento está relacionado com a administração de progesterona ou estrógeno exógenos. Em relação à mortalidade, uma revisão recente sobre o tema citou que a mortalidade total oriunda da piometra é reportada, aproximadamente, em 10%, quando a eutanásia também é incluída na avaliação. Em relação às raças, as maiores incidências foram apontadas em Golden Retriever, Schnauzer, Terrier Irlandês, Saint Bernard, Airedale Terrier, Cavalier King Charles Spaniel, Rouggh Collie, Rottweiler, Bernese e Cocker Spaniel. Outro trabalho mais atual corrobora com estes estudos ao relatar que o fator “raça” pode influenciar fortemente no risco de desenvolver a piometra, o que indica que fatores genéticos podem contribuir para um aumento ou diminuição da suscetibilidade. Por conceito, o HCE/PIO é definido como uma afecção uterina que se desenvolve no período de diestro do ciclo estral. Isto é, um distúrbio hormonalmente mediado que acomete a maioria das cadelas durante a fase progesterônica do ciclo e está relacionado com hiperplasia das glândulas endometriais associada à contaminação bacteriana. Sua patogenia ainda não está completamente explicada, mas sabe-se que é decorrente da combinação dos hormônios estrógeno e progesterona adicionada à presença de bactérias, o que torna o conhecimento da fisiologia do ciclo estral desta espécie um pré-requisito para o entendimento da etiopatogenia da afecção. Objetivou-se, com esta revisão de literatura, a exposição dos conceitos 10

[close]

p. 11

REPRODUÇÃO atuais da etiopatogenia do complexo hiperplasia endometrial cística/piometra em cadelas. Também foram abordados os aspectos clínicos, laboratoriais e os tratamentos utilizados. Conceitos atuais sobre a etiopatogenia do complexo Hiperplasia Cística Endometrial/ Piometra Para cadelas no diestro, em condições fisiológicas, os elevados níveis de progesterona induzem ao desenvolvimento das glândulas endometriais e ao aumento na secreção das mesmas. Além disso, sua ação sobre o fechamento da cérvix e a inibição da atividade contrátil do miométrio impede a drenagem de fluido intrauterino, com inibição da resposta leucocitária, o que favorece ainda mais as modificações estruturais do útero e, assim, esta condição se torna um fator contribuinte para o desenvolvimento da HCE/PIO. Desta maneira, o papel dos hormônios no desenvolvimento da doença tem sido debatido, porque, na maioria das vezes, estas concentrações de progesterona são comparáveis às de cadelas saudáveis, em estágios semelhantes do ciclo estral. Contudo, pesquisas atuais referem que o efeito e aparecimento da doença pode variar, dependendo da expressão diferente dos receptores hormonais presentes no útero. As novidades sobre a etiopatogenia da enfermidade tendem a seguir para o estudo biomolecular dos eventos locais geradores da HCE/PIO. Alguns autores destacaram novas pesquisas que demonstram a maior sensibilidade e síntese de receptores da progesterona nas células endometriais; outros sobre a diminuição de respostas imunológicas por ações secundárias, tem-se ainda alguns autores que comentaram sobre a síntese de receptores que podem aumentar a adesão de bactérias no endométrio e, ainda, expressões aumentadas de enzimas da rota esteroidogênica, que proporcionam síntese de progesterona local. Portanto, vários pesquisadores estudam, hoje em dia, as condições de formação da enfermidade, na tentativa de gerar informações de como prevenir e como utilizar/prescrever os melhores tratamentos. Sobre as bactérias presentes em animais sabidamente diagnosticados com HCE/PIO, é importante salientar a capacidade que algumas bactérias, como a E. coli, apresentam em aderir ao endométrio uterino quando sob a influência da progesterona. Há alguns fatores que levam à expressão de receptores endometriais, aumentando a adesão bacteriana no endométrio de animais com piometra. Ainda sobre os hormônios, um efeito negativo da progesterona sobre a maturação das células dendríticas apresentadoras de antígenos foi descrito como um fator que também poderia contribuir para uma diminuição da defesa imunológica. O aumento da expressão da 3β-hidroxiesteroide desidrogenase no tecido uterino do endométrio foi recentemente demonstrado em cadelas com complexo HCE/PIO. Surpreendentemente, estas descobertas indicaram a possibilidade de haver uma síntese de progesterona local que poderia estar envolvida na patogênese e promover o desenvolvimento de piometra, ainda que os níveis de progesterona circulantes estejam dentro do normal. A respeito do estradiol, esse esteroide possui várias ações sobre o útero, algumas das quais são fisiologicamente antagonistas à ação da progesterona. Ele é responsável pelo aumento da vascularização, edema e crescimento do endométrio, útero e cérvix. Promove, ainda, o relaxamento e dilatação da cérvix, aumento da intensidade de contração do miométrio, o que promove a drenagem do conteúdo uterino. Possui um efeito bactericida sobre o útero, uma vez que aumenta a taxa de migração de neutrófilos para dentro do lúmen uterino. Desta forma, os estrógenos liberados durante o estro provocam uma hiperplasia do endométrio com o estrógeno favorece a formação de receptores endometriais de progesterona, hormônio responsável pela, além das funções supracitadas, atividade das glândulas uterinas, de modo a permitir a nutrição dos embriões até sua implantação. Como consequência desta ação conjunta dos dois hormônios, a parede do endométrio aumenta em até cinco vezes. Em suma, a interação da progesterona com o estrógeno é responsável pelo desenvolvimento, progressão e severidade da piometra, sendo complicada com a migração secundária de bactérias via ascendente. Por estas razões, tanto a administração de progestágenos, quanto estrógenos exógenos para controle da fertilidade são fatores que podem levar ao surgimento do HCE/PIO. Suscita-se que a administração de progestágenos exógenos, como alguns contraceptivos disponíveis no mercado, também favoreceria estas alterações. No caso do estrógeno, o mesmo aumenta o número de receptores de progesterona no útero, o que explica o aumento de incidência de piometra em animais que recebem estrógenos exógenos durante o diestro inicial para impedir a gestação. Como já mencionado, a Escherichia coli se destaca como o agente mais comumente isolado em 90% das piometras. Estudos ultraestruturais têm demonstrado que este microrganismo possui grande afinidade pelo endométrio e miométrio, fixando-se de forma estável na parede uterina e dificultando sua eliminação, pelo sistema de defesa local. Porém, deve-se informar que outras bactérias também podem ser isoladas em úteros com piometra: Staphylococcus aureus e S. intermedius, Streptococcus spp., Streptococcus canis, Pseudomonas spp., Klebisiella sp., Corynebacterium sp., Enterococcus sp., Pasteurella sp., Serratia sp., Haemophilus sp. Bacillus sp. e Proteus spp. Estes microrganismos estão presentes em todo o trato genital de fêmeas normais, o que indica que fazem parte da população de bactérias autóctones e que participam apenas como oportunistas no evento. 11

[close]

p. 12

REPRODUÇÃO Achados clínicos Pela anamnese, relatam-se a presença de polidipsia,poliúria,secreções vaginais mucopurulentas, registros do último cio há 3-8 semanas,apatia e,mais raramente, distensão abdominal. A ocorrência da afecção em animais mais jovens não é comum, mas pode ser evidente naqueles tratados com estrógenos (por exemplo, cipionato de estradiol) ou progestágenos (por exemplo, acetato de megestrol), para supressão ou indução do estro, contracepção ou indução do aborto. Em relação ao grau de severidade dos quadros de HCE/PIO, quando a cérvix está totalmente ou parcialmente fechada, há acúmulo mais acentuado de secreção no lúmen uterino, conduzindo ao quadro clínico geralmente mais grave, com depressão e toxemia. Outra evolução importante, que também contribui para a alta mortalidade, é a sepse, possibilidade sempre presente, especialmente em piometra fechada. Além disso, pode haver a taquicardia, preenchimento capilar prolongado e pulso femoral fraco. Outras sintomatologias são: descarga vaginal (80%), apatia (79%), anorexia (79%), polidipsia (63%), febre (43%), útero palpável (40%), poliúria (38%), vômitos (33%), diarreia (26%) e desidratação (15%), achados estes mais frequentemente relatados em uma pesquisa de Wheaton et al. (1989). Já os sinais menos frequentes observados incluem distensão abdominal, edema e aumento da vulva. O volume da secreção vaginal é variável e dependente do grau de abertura da cérvix, podendo ser intensa, moderada ou ausente (Figura 1), a coloração também é distinta, variando desde amarelo-acinzentada até amarronzada, com odor fétido. A duração dos sinais clínicos também não obedece a um padrão. Achados complementares e laboratoriais Podem-se destacar como exames complementares e laboratoriais: hemograma, bioquímico (principalmente das enzimas hepáticas e urinárias), urinálise, radiográfico e ultrassonográfico. O hemograma pode estar normal em animais com HEC/PIO, caso estes pacientes não apresentam sepse, mas a leucometria de cadelas com piometra é quase sempre característica de inflamação supurativa ou purulenta, isto é, presença de leucocitose, neutrofilia com desvio à esquerda com formas imaturas e monocitose substancial. Além disso, o aumento da contagem de leucócitos e a diminuição da contagem de linfócitos são diretamente proporcionais à gravidade da doença. Porém, quanto à peritonite, observada em aproximadamente 10% dos casos, um estudo recente encontrou relação entre a leucopenia e a temperatura retal anormal (aumentada ou diminuída) com o estado de depressão moderada a grave da condição geral do animal, com maior risco de hospitalização pósoperatória. Sobre a piometra crônica, não é difícil encontrar uma discreta anemia normocítica normocrômica não regenerativa (VG 28 a 35%), sendo que essa anemia se dá pela perda de eritrócitos, por diapedese, para o lúmen uterino pela depressão tóxica da eritropoiese. Na avaliação hepática, observamse níveis elevados de fosfatase alcalina (FA), geralmente, com mais frequência em animais anoréxicos ou obesos, devido à hipercolesterolemia, por sua vez, atribuída ao catabolismo e à septicemia. Podem-se detectar hiperproteinemia e hiperglobulinemia por desidratação e/ ou estimulação antigênica crônica do sistema imune. Uma piometra, principalmente quando causada por E. coli, pode evoluir para insuficiência renal, consequência da glomerulonefrite de origem imunológica, que é agravada pela azotemia pré-renal, devido à desidratação associada ao choque séptico. Em relação à atividade das enzimas renais, se houver aumento de creatinina, é indicativo de comprometimento renal. A uréia, embora também evidencie alteração renal, pode estar aumentada em outras alterações não renais, ou seja, não é específica. Este fato remete a considerá-la como um marcador da quantidade de agentes nitrogenados, os quais podem estar aumentados por razões não renais, como na ingestão de dietas com altos índices de proteína. Sendo assim, na vigência de um caso em que o proprietário não dispõe de recursos para a realização de todos os exames, a escolha da creatinina é a atitude mais sensata para se avaliar o grau de comprometimento renal. As principais alterações observadas na urinálise, em estudos de cadelas com piometra, foram: diminuição da densidade (< 1030) e proteinúria. As frequências das principais alterações relacionadas a esta afecção estão sumarizadas na Tabela 1. Figura 1. Cadela com corrimento hematopurulento, diagnosticada com complexo HCE/PIO. 12

[close]

p. 13

REPRODUÇÃO Tabela 1. Frequência relativa (%) das principais alterações encontradas nos exames laboratoriais de cadelas com piometra em diferentes estudos. ACHADOS E PARÂMETROS LABORATORIAIS Leucocitose Leucocitose com desvio à esquerda Anemia normocítica normocrômica Hematócrito Hipergamaglobulinemia Hipoalbuminemia Aumento fosfatase alcalina Aumento uréia Aumento creatinina Diminuição da densidade urinária FREQUÊNCIA RELATIVA (%) 51a 70-80b,c 25-25,7c,d 21-48e 27e 23e 43f 35,3g 11,8g 20,4g Referências Bibliográficas a Prestes et al., 1991.b Ewald, B.H, 1961; c Wheaton et. al., 1989. d Hardy e Osborne, 1974.e Stone et al., 1988. f Sevelius et. al., 1990. g Barros et. al., 2005. Ainda sobre exames complementares, a ultrassonografia tem sido cada vez mais utilizada como método auxiliar de diagnóstico. Esse tipo de exame tem utilidade na determinação das dimensões do útero (aumento uterino), diversos graus de espessamento de parede ou paredes finas com ou sem cistos endometriais, presença de líquido e estruturas fetais no interior do órgão. No caso do HCE/PIO (Figura 2), observam-se o útero dilatado, presença de uma imagem ultrassonográfica de uma estrutura tubular bem definida, com o conteúdo luminal uterino menos ecogênico que a parede, e cintilações ecogênicas bem evidentes. Mais recentemente, com a utilização do Doppler, pôde-se detectar o fluxo sanguíneo uterino e, assim, auxiliar na diferenciação da piometra versus hiperplasia cística endometrial versus útero normal. A velocidade do fluxo da artéria uterina em cadelas que apresentam a piometra é superior àquelas que apresentam somente a hiperplasia cística endometrial. Adicionalmente, estes animais que apresentam a hiperplasia acompanhada ou não por conteúdo, obtiveram a velocidade de fluxo superior ao útero normal. Isto é, animais com piometra apresentam maiores fluxos sanguíneos da artéria uterina em relação ao útero apenas com hiperplasia, e esse fluxo é superior quando comparado ao útero normal. Estes padrões hemodinâmicos são úteis marcadores para diferenciar as duas condições patológicas (piometra versus hiperplasia). Adicionalmente, a citologia vaginal (Figura 3) descamativa constitui um adjuvante útil para o histórico e o exame clínico na determinação do estágio do ciclo estral em cadelas. Como a piometra ocorre predominantemente no diestro, o uso da citologia vaginal é ideal para a identificação sobre qual fase do ciclo a cadela está no momento. Também, pode-se almejar a identificação do microrganismo com a cultura vaginal e posterior isolamento e antibiograma. Sobre as atualidades para diagnóstico da HCE/PIO, novas tecnologias “ômicas” e métodos de sequenciamento rápido foram desenvolvidos, o que levou a possibilidades de novos estudos. Um estudo de ativação de genes identificou 29 genes que são “suprarregulados” (upregulated) durante a doença. É importante salientar que os produtos dos genes “upregulated” seriam indicadores de diagnósticos possíveis para utilização na prática clínica se, para isso, fossem desenvolvidos testes de diagnóstico rápidos e econômicos. Novos testes de diagnóstico podem ser valiosos, especialmente em casos desafiadores, nos quais os sinais clínicos são obscuros e a aparência uterina é de difícil interpretação. Deve-se salientar que a expressão destes genes, acima citados, variam, dependendo se o colo do útero está fechado ou aberto e de casos em que houve administração de progesterona exógena. Desta maneira, ainda não se sabe se essas diferenças podem influenciar ou não na resposta aos resultados das análises, porém, é altamente valioso desenvolver testes de diagnóstico de caráter molecular, se os mesmos forem de alto custo-benefício, pois, seriam clinicamente úteis para diagnósticos precoces de piometra. Figura 2. Ultrassom abdominal de cadela com piometra. Figura 3. Citologia vaginal em cadela com suspeita de piometra. Presença das células parabasais e intermediárias, e citoplasma com vacúolos. Note a presença de neutrófilos acima de 30% por campo. Tratamentos A escolha do melhor tratamento (clínico ou cirúrgico) deverá ser conduzida de acordo com as condições de saúde do animal e sua utilidade (serviço). Sendo que algumas condições são consideradas obrigatórias para a instituição do tratamento conservativo, como: animais em idade reprodutiva e utilizados para tal fim, sinais clínicos e laboratoriais brandos, evidência de endotoxemia e a condição de cérvix 13

[close]

p. 14

REPRODUÇÃO aberta (com presença de secreção vaginal). Caso estes critérios não sejam observados, deve-se optar pelo tratamento cirúrgico. Em resumo, a piometra pode ser tratada por terapia cirúrgica ou por terapia médica, mas a escolha do tratamento (Quadro 1) depende da gravidade do quadro clínico do animal e de outros fatores descritos abaixo. TERAPIA CIRÚRGICA TERAPIA MÉDICA Idade Idosas Jovens Destino Não vai para a Vai para a reprodução reprodução Presença Estado clínico de doença sistêmica Animal em bom estado geral Cérvix Fechada Aberta Predisposição a efeitos Não tem colaterais predisposição após a OSH Cistos glandulares do endométrio Presença de cistos no US Idosas Ausência de cistos no US Independentemente da escolha do tratamento, em todas as ocorrências, deve-se realizar a antibioticoterapia,com o uso de um antibiótico bactericida de amplo espectro e eficaz, principalmente para E. coli. As cefalosporinas (cefazolina), as penicilinas (ampicilina, amoxicilina com ácido clavulânico) e quinolonas (enrofloxacina) são os antibióticos utilizados com maior frequência. Outros autores trabalharam com metronidazol e ceftriaxona conjuntamente, e obtiveram sucesso. Além disso, a fluidoterapia intravenosa deve ser administrada para correção dos déficits hidroeletrolíticos existentes, além de manter a perfusão tecidual adequada e para melhorar a função renal. Sobre o tratamento conservativo, este deve atender aos seguintes objetivos: recuperar a capacidade reprodutiva de animais com alto valor genético, drenagem e limpeza uterina, eliminação da infecção bacteriana secundária do útero e eliminar a fonte produtora de progesterona que desencadeia toda a síndrome. Vários protocolos têm sido testados para o tratamento clínico do complexo HCE/PIO, incluindo a administração de estrógenos, testosterona, ocitocina e alcaloides derivados do ergot. A utilização isolada de antibióticos sistêmicos não leva à cura e pode resultar no prolongamento da doença. O estrógeno e a testosterona não são ultimamente utilizados, por provocarem efeitos adversos e, em algumas situações, pela possibilidade de, inclusive, piorarem o quadro. Já os derivados de ergot foram muito usados nas terapêuticas para o HCE/PIO e as drogas antiprolactinicas também foram empregadas, pois, induzem a luteólise durante a segunda metade do diestro. Porém, com o advento da prostaglandina F2 alpha (PGF2α), os ergots e os antiprolactínicos não constituem mais a primeira opção de terapia. Assim, por volta do ano de 2001, a PGF2α foi considerada como um tratamento de preferência, pois, promove lise do corpo lúteo, aumenta a contratilidade do miométrio, contribui para a liberação do conteúdo séptico uterino e, ainda, pode aumentar o relaxamento cervical. Deve-se lembrar que, para atribuir um tratamento à base de PGF2α, a cérvix precisa estar aberta, com saída de conteúdo, para que não aconteça um possível rompimento uterino. Salienta-se, ainda, que este tratamento necessita de terapias de suporte à base de antibióticos, para que auxiliem na limpeza do conteúdo uterino com a eliminação dos agentes causadores de infecção. Algumas orientações devem ser conhecidas antes de escolher o tratamento com PGF2α: • Não é aprovada para uso em cães e gatos; • Não deverá ser utilizada em animais com mais de oito anos de idade; • Não deverá ser utilizada em animais que estejam criticamente enfermos; • Não deverá ser utilizada em pacientes com doenças concorrentes ou patologias uterinas pré-existentes; • O paciente deverá ser hospitalizado durante o tratamento, pois, poderão ocorrer ruptura uterina ou explosão retrógrada do conteúdo uterino na cavidade abdominal; • O único produto recomendado é Lutalyse (dinoprost trometamina), na dose de 0,1 a 0,25 mg/kg, subcutâneo, SID, durante 5 a 7 dias; • Devem-se administrar, simultaneamente, antibióticos bactericidas de largo espectro, lembrando que a piometra poderá recidivar depois do tratamento. Atualmente, o antiprogestágeno aglepristone tem sido considerado a grande inovação no tratamento de diversas condições na teriogenologia de pequenos animais. Esta classe de medicamento compete pelos receptores da progesterona ligando-se a eles, tendo como consequência a diminuição das concentrações deste hormônio, a promoção da contratilidade miometrial e o relaxamento cervical. Além dessas características, não há relatos de efeitos adversos associados a sua administração, e o estro subsequente ao tratamento pode ser fértil. O protocolo clássico do uso deste agente consiste na aplicação do aglepristone (10mg/kg) em três administrações: nos dias 1 (dia do diagnóstico), 2 e 7 ou 2 e 8, com eficácia variável (92,3 e 60%, respectivamente). Em comparação com o aglepristone aplicado isoladamente, a associação do aglepristone-cloprostenol aumentou a taxa de recuperação no dia 90 pós-tratamento, de 60 para 84%. Lembrando que sempre se deve administrar antibiótico juntamente ao antiprogestágeno. 14

[close]

p. 15

REPRODUÇÃO O uso do aglepristone já foi descrito, associado ao dinoprost trometamina. Neste protocolo, preconiza-se a administração de aglepristone 10mg/ kg, SC, nos dias 1, 2, 8, 15 e 30 (se necessitar); e PGF2α 1mg/kg, SC, nos dias 3 a 7. Deve-se realizar a avaliação ultrassonográfica a partir do dia 8 e, se assim o clínico responsável decidir, pode-se suprimir a administração do aglepristone no dia 30. Como principais causas de falha de tratamento médico das piometras podem-se citar: cisto e tumores ovarianos, pólipos e tumores na luz uterina. Em um dos últimos trabalhos citados na literatura, para o tratamento da piometra, as cadelas foram distribuídas aleatoriamente em dois protocolos de tratamento: um grupo de tratamento clássico (CTG; 26 cadelas), no qual foi realizada uma injecção subcutânea de 10 mg/kg de aglepristone nos dias 0, 1 e 6, e um outro grupo de tratamento modificado (MTG; 47 cadelas), no qual a mesma dosagem foi administrada nos dias 0, 2, 5 e 8 após o diagnóstico. Em ambos os grupos, a terapêutica de suporte foi realizada por administração de 20 mg/kg/dia de amoxicilina-ácido clavulânico, entre os dias 0 a 5, e foi fornecido suporte de perfusão por solução intravenosa de Ringer lactato (4 -10 ml/kg/h), nos dias 0 a 2-3. Os resultados encontrados neste estudo foram: o protocolo de tratamento com o antiprogestágeno permitiu a recuperação da doença em 88,5% (23/26) das cadelas do grupo CTG e em 100% (47/47) das cadelas do grupo MTG, com diferença significativa entre os grupos (p ≤ 0,05). Das 26 cadelas do tratamento CTG, três delas não se recuperaram após a administração dos medicamentos. Esses animais receberam uma dose de aglepristone no dia 14, sendo que houve sucesso em apenas uma cadela, e as outras duas foram submetidas a ovariohisterectomia. No caso da escolha do tratamento cirúrgico, a ovariosalpingohisterectomia (OSH; Figura 4) é o mais preconizado. A OSH corresponde a um método definitivo e satisfatório e é o tratamento mais frequente.Durante o procedimento, o útero sempre deve ser manuseado com cuidado, pois, dependendo do grau de distensão uterina, esse órgão pode estar friável e se romper com grande facilidade. A remoção cirúrgica do útero infectado deve ser feita dentro de 6 a 12 horas ou até mais cedo, caso o útero esteja sob risco de ruptura. A terapia de suporte deve ser iniciada imediatamente, quando for diagnosticada a piometra e deve ser mantida após a cirurgia, por até 7 a 10 dias. Em relação ao prognóstico desta afecção, dependerá do comprometimento do estado geral do animal, principalmente da função renal. Em cadelas sem evidência de insuficiência renal e/ou endotoxemia, o prognóstico pode ser de reservado a bom. Diferentemente, o prognóstico é considerado desfavorável naquelas com acentuada disfunção renal, peritonites, presença de leucócitos degenerados e/ ou outras afecções concomitantes. Conclusão Pela grande incidência e casuística do complexo HCE/PIO nas clínicas veterinárias, a comunidade científica vem a procura de estudos mais completos sobre esta enfermidade, na tentativa de conseguir elucidar algumas incógnitas, principalmente sobre a etiopatogenia, a fim de predizer melhores condutas em relação aos tratamentos. Portanto, esta revisão trouxe os conhecimentos mais atuais, tão necessários e de fundamental importância para a escolha do melhor auxílio a ser instituído em cada caso acompanhado. EXAMES REALIZADOS PELO TECSA LABORATÓRIOS CÓD - EXAME PRAZO/DIAS 69 - PROGESTERONA 1 70 - ESTRADIOL 1 635 - ESTRADIOL - RADIOIMUNOENSAIO 1 154 - TESTOSTERONA VETERINÁRIA 293 - LH - HORMÔNIO LUTEINIZANTE 275 - FSH - HORMÔNIO FOLÍCULO ESTIMULANTE 1 2 2 352 - CITOLOGIA VAGINAL (CICLO ESTRAL) 2 350 - PERFIL REPRODUTIVO (CICLO ESTRAL) 3 682 - PERFIL REPRODUTIVO (CICLO ESTRAL II) 3 Figura 4. Ovariosalpingohisterectomia em cadela diagnosticada com piometra. 76 - BRUCELOSE CANINA (B.CANIS) 302 - NEOSPORA CANINUM 3 5 15

[close]

Comments

no comments yet