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A nova tecnologia para melhorar o desempenho de colhedoras agrícolas Ribeirão Preto SP • Abril 2017 • Ano 18 • nº 218 A VOZ DO AGRONEGÓCIO PLANO ÚNICO O empresário e presidente de honra da Agrishow, Maurílio Biagi Filho, afirma que o setor sucroenergético precisa de liderança e de um planejamento em conjunto com o governo caso queira uma retomada definitiva. E vê semelhanças entre a Operação Carne Fraca e o episódio que resultou na falta de álcool em 1989 Tecnologia A integração lavoura-pecuária-floresta Eventos Cotrijal supera meta e atinge R$ 2,1 bi Hortaliças Proteína pode deter mosca-branca 1 CanaMix Começou a safra da cana 2017/18

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EXPEDIENTE A VOZ DO AGRONEGÓCIO DIRETOR Plínio César (16) 98242-1177 plinio@canamix.com.br DIRETOR DE MARKETING Marcelo Dias (16) 99111-0291 marcelo@canamix.com.br EDITOR CHEFE Igor Savenhago MTB 40.618/SP (16) 99177-1961 igor@canamix.com.br REDAÇÃO Marcela Falsarella MTB 71067/SP (16) 99454 5840 redacao@canamix.com.br Parceria de Sucesso CONSULTORIA Luiz Zanon (16) 3620 0555 CONTATO COMERCIAL E PUBLICIDADE Plínio César e Marcelo Dias CIRCULAÇÃO E ASSINATURAS plinio@canamix.com.br redacao@canamix.com.br EVENTOS redacao@canamix.com.br PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO Claudia de Oliveira (16) 99606-5371 claudiasilene@hotmail.com OUTRAS PUBLICAÇÕES: Guia de Compras SA PARCEIROS DE MÍDIA 433 AG - larissa@433.ag (41) 3016 0433 ARTÉRIA - mídia@arteria.ag (11) 5185 4587 CALIA - bruna@calia.com.br (11) 2122 8600 DOMÍNIO - marcus.lula@dpbr.com.br (31) 3360 0000 E21 - taila.loureiro@e21.com.br (51) 3092 7400 FILADÉLFIA - pedro@filadelfiacom.com.br (31) 3516 0159 GUERREIRO - glaucia@guerreiro.agr.br (44) 3026 4457 LABCOM - labcom.rp@labcomtotal.com.br (16) 3512 9735 MCGARRY BOWEN - juliana.berro@mcgarrybowen.com.br (11) 2173 0354 OXI henrique.miura@oxicomunicacao.com.br (19) 3305 9040 PUBLICIS cristina.maria@salleschemistri.com.br (11) 4560 9000 TUGARE simone.rosa@tugare.com.br (11) 3594 3124 Para assinar, esclarescer dúvidas sobre sua assinatura ou adquirir números atrasados (SAC 16 3620 0555 e 3234 6210) 2º a 6º feira, das 9h às 12h e das 13h30 às 18h. Artigos assinados e mensagens publicitárias refletem ponto de vista dos autores e não expressam a opnião da revista. É permitida a reprodução total ou parcial dos textos, desde que citada a fonte. Envie seus comentários sobre esta edição para redacao@canamix.com.br. Grupo AgroBrasil R. Genoveva Onofre Barban, 495 - 14056-340 Planalto Verde - Ribeirão Preto - SP 16 3620 0555 / 3234 6210 www.canamix.com.br 4

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• Toneladas de Cana por HeCTare • açúCar ToTal reCuperável A Sulphurtec Fertilizantes, empresa líder no segmento agrícola, possui uma linha de produtos específica para o cultivo da Cana-de-açúcar. Nosso programa nutricional abrange desde o tratamento das mudas até a colheita. Os produtos são potencializados quando aplicados em conjunto e sua utilização garante o aumento da produtividade, estimula enraizamento, proporciona maior ATR e impulsiona o crescimento vegetativo. (16) 2132.2000 www.sulphurtec.com.br 5

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EDITORIAL Plínio César Diretor do Grupo AgroBrasil 6 Agronegócio forte Estamos a pouco menos de um mês do início da maior feira de tecnologia agrícola da América Latina – a Agrishow, em Ribeirão Preto. Mais uma vez, um espetáculo de máquinas vai levar à Fazenda Experimental do Instituto Agronômico (IAC) mais de 150 mil pessoas. Estrangeiros de vários países devem desembarcar em terras tupiniquins para conferir as novidades. Uma demonstração da força do setor agrícola brasileiro. Força apesar dos contratempos. No dia 17 de março, a Polícia Federal deflagrou a Operação Carne Fraca, notícia que, no exterior, causou um efeito inverso daquilo que estamos acostumados a ver: o mundo crescendo os olhos, de forma positiva, para a pujança do nosso agro. Coincidência ou não, a Agrishow deste ano começa no Dia do Trabalho, o que sinaliza que vem muito trabalho pela frente para manter, não só lá fora, mas também no mercado interno, uma imagem construída com muito esforço. Para Maurílio Biagi Filho, convidado para seção Entrevista desta edição, o episódio da carne, que provoca um baque nas exportações, é extremamente danoso ao País e deve refletir na Agrishow. Apesar disso, ele, como presidente de honra da feira, enxerga a 24ª edição do evento com otimismo: após dois anos de quedas significativas na movimentação financeira, espera mais vendas agora em 2017. Mais um exemplo da força demonstrada para reverter adversidades. Para Biagi, a Operação Carne Fraca será esclarecida e o agronegócio brasileiro tem tudo para responder, afirmativamente, às necessidades mundiais por alimentos e energia. Ele relaciona a operação com o Programa Nacional do Álcool (Pró-Álcool), que, em 1989, também sofreu uma queda. A falta do combustível nos postos, na época, frustrou uma grande leva de consumidores que apostaram no produto e compraram carros a álcool, comprometendo a imagem dos donos de usinas. Na entrevista, Biagi Filho fala bastante sobre o setor sucroenergético, avaliando ser necessário um diálogo maior entre os envolvidos, com a criação de um plano único e o estabelecimento de uma liderança forte, para que haja uma retomada efetiva. Que esta Agrishow traga bons fluidos e reafirme a posição de que, contra a Carne Fraca, temos um agronegócio forte, capaz de reagir a questões desfavoráveis com determinação, como historicamente vem mostrando. Que a cada desafio enfrentado e superado, a agropecuária nacional se agigante para manter a posição de referência em todo o planeta. Boa leitura!

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SUMÁRIO 08 CAPA Entrevista: Maurílio Biagi Filho 24 TECNOLOGIA Lavoura-pecuária-floresta 52 EXPODIRETO 2017 Fartura em negócios 22 CARNES Prejuízo nas exportações 70 PRAGAS Parecem dóceis... Só parecem! 62 INFORME PUBLICITÁRIO Moura Lacerda 74 GIRO DA TERRA As principais notícias do Portal CanaMix 64 HORTALIÇAS Na mosca! 68 INFORME PUBLICITÁRIO Fronius 82 MARKETING A muralha colaborativa Marcelo Dias SAFRA DA CANA Começou! GIRO PELO AGRO Bons sinais para o agro brasileiro SUSTENTABILIDADE Areia e carvão de bagaço OPINIÃO E as inovações tecnológicas no setor sucroenergético? FITOTÉCNICO Plantio com qualidade INFORMES PUBLICITÁRIOS DMB GIFC Mosaic 32 40 42 44 47 48 49 50 7 CADERNO CANAMIX

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E N T R E V I S TA FOTOS: RAFAEL BARRETO “O setor só vai realmente se consolidar quando houver um plano único, em conjunto com o governo” Em entrevista exclusiva, o empresário Maurílio Biagi Filho diz acreditar na retomada do setor sucroenergético, mas lamenta a falta de diálogo entre os envolvidos, cobra uma liderança e diz que um boom só vai ocorrer quando o pensamento for em conjunto 8

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Igor Savenhago Marcelo Dias Plínio César E N T R E V I S TA Ao final de um corredor com obras do fotógrafo franco-brasileiro Pierre Verger, a porta de uma sala se abre no 14º andar de um edifício empresarial de Ribeirão Preto e lá está Maurílio Biagi Filho, com disposição e a postos para a entrevista. No prédio, localizado na avenida que leva o nome do pai dele, está a Maubisa, holding familiar que presta consultoria em agronegócio, gestão imobiliária, gestão de investimentos e novos negócios. Mas o Grupo Maubisa não é sua única dedicação. Além de outros empreendimentos, ele, que é da família que protagonizou uma revolução no setor sucroenergético, ajudando a transformar Sertãozinho em sinônimo de desenvolvimento nas usinas e na indústria de base, é, também, presidente de honra da maior feira de tecnologia agrícola da América Latina e uma três maiores do mundo – a Agrishow. De opinião forte – “falo o que penso” –, Biagi Filho acredita que o episódio envolvendo as principais empresas do setor de carnes do País, na segunda quinzena de março, guarda muita semelhança com um movimento ocorrido em 1989, por ocasião do Programa Nacional do Álcool (Pró-Álcool), e que fez, segundo o empresário, faltar combustível nos postos. A entrevista para a Terra&Cia/CanaMix foi concedida em 18 de março, dia seguinte à Operação Carne Fraca, da Polícia Federal. Quando fala especificamente sobre o setor sucroenergético, tece críticas à falta de uma liderança que seja respeitada por todos os envolvidos e diz que a retomada definitiva passa por um planejamento comum, que reúna iniciativa privada e esfera pública. Confira os principais trechos. Terra&Cia: Qual panorama é possível traçar para o setor sucroenergético? Maurílio Biagi: Vou pegar um exemplo que identifica muito o setor: a questão do etanol. Nós estamos patinando. Faz um cinco anos que estamos no mesmo patamar da produção de cana, 600 e poucos, 700 milhões de toneladas se considerarmos o Brasil inteiro. Faz cinco anos que o setor vem falando que precisa produzir mais. E precisa. Mas como é que você vai produzir mais? O que te indica que você tenha fundamentos econômicos para isso? Estamos em plena entressafra, com quase 40% de queda no preço do etanol. E estamos agora brigando. Peguei ontem essa fotografia desse pessoal reunido [mostra uma reportagem em que um grupo de entidades se reuniu com o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, para pedir o retorno da tarifa de 20% sobre a importação de etanol], para reclamar que os Estados Unidos estão inundando o Brasil de etanol. Os Estados Unidos não estão fazendo nada. Eles estão apenas vendendo etanol para quem quer comprar. Normal. Estão na posição deles. Lá atrás, o próprio setor foi pedir para tirar a tarifa de importação. Agora, vai lá para voltar a tarifa. O que acontece? 9

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E N T R E V I S TA Quem é que importa etanol? As grandes multinacio- isso. Na Austrália, tem uma organização com peso, nais, que têm domínio do segmento. Se você per- que tem mando. Na Guatemala, nos Estados Unidos, ceber, esses personagens que estão aqui [mostra a também. Temos que ter uma organização forte, com foto novamente], que não comando e liderança, para quero personalizar, quando interessa aos caciques, eles representam. Quando não interessa, não representam. Então, vai esse “ Então, você me pergunta: qual a solução? Não tem solução, na minha visão. Isso que pelo menos o básico seja resolvido em conjunto. Aqui [mostrando a reportagem novamente], por exemplo, não tem Unica, pessoal aqui conversar com o ministro, porque eles têm que dar resultados para suas matrizes. vai continuar assim porque os players envolvidos no se- tor não se entenderam. que não aderiu ao movimento. E tem sido assim. De repente, a Unica adere a um outro determinado Mas eu pergunto: por que todo mundo importou etanol? Porque era mais barato. O preço aqui es- [...] Temos que ter uma organização forte, com comando e liderança, para que movimento e esses outros não aderem, porque não coincide com o ponto de vista do Nordeste. Politica- “ tava alto. Importou para pelo menos o básico seja mente, o Nordeste ainda ganhar dinheiro. Ninguém importou para fazer boni- resolvido em conjunto. é muito forte. Nessa reunião, por exemplo [nova to. Podemos até dizer que referência à reportagem], importaram porque tem o Nordeste desceu com uma resolução da ANP [Agência Nacional do Petró- todo mundo. Então, continua acontecendo a mesma leo], que estabelece 38% de estoques, mas são as coisa. Não há um entendimento de que, no momento pequenas unidades que recorrem a isso. As gran- em que precisamos produzir mais açúcar, se produ- des vendem tudo. Venderam 40% acima do preço za mais açúcar. Ou etanol. Sempre digo que é me- e agora, com toda essa importação, vão perder di- lhor vender 20% menos com preço rentável do que nheiro. Mas ganharam dinheiro lá atrás. Acho, então, vender 20% mais com preço menor. Isso aumenta o que esse fato exemplifica um pouco como é o setor. seu prejuízo. Por isso, precisamos de uma estraté- O setor teve uma oportunidade agora de dosar as gia. O Brasil é o único país do mundo que tem essa suas produções de açúcar e de etanol. Os preços possibilidade de jogar com o etanol e o açúcar. E não de açúcar no mercado interno, em plena entressafra, conseguimos fazer porque não existe uma liderança caíram muito, mais de 20%. Os preços internacionais que seja respeitada, obedecida, seguida. E agora, também caíram. Estão em patamares razoáveis, mas com todas essas grandes multinacionais envolvidas, bem abaixo do que era esperado. Porque todo mun- é muito difícil, porque cada uma tem um interesse, do anuncia que vai produzir só açúcar, açúcar, e fica e todas têm seus executivos, que são pessoas que falando, falando... Então, você me pergunta: qual a têm que estar alinhadas com a matriz, mostrar servi- solução? Não tem solução, na minha visão. Isso vai ço. Eles têm luz própria e não se submetem a nenhu- continuar assim porque os players envolvidos no se- ma outra organização. Poderiam, pelo menos entre tor não se entenderam. No mundo inteiro, nos países eles, fazer uma associação e, provavelmente, seriam de sucesso, você tem organizações que controlam seguidos pelos outros. Mas não conseguem porque 10

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E N T R E V I S TA não se identificaram. Já houve tentativas. Na época de maior sucesso no Brasil, quando fizemos o Programa Nacional do Álcool [Pró-Álcool], havia claramente uma liderança, competente e seguida. Errava? Claro que errava. Mas havia uma divisão de ônus e bônus. Hoje, é muito desigual. Terra&Cia: Essa falta de entendimento é a maior dificuldade para a criação de uma liderança única? Biagi: Sim, temos diversas lideranças no setor, fora as vaidades existentes. Lideranças que não aceitam outras lideranças. Terra&Cia: E não há mesmo uma solução? Biagi: Eu não vejo, pelo menos no curto prazo. A falta de prevenção custou ao setor 100 unidades “ A falta de prevenção custou ao setor 100 unidades industriais. Está certo que algumas não tinham como continuar, mas outras tinham e fecharam, por falta de enxergar antes. O líder é aquele que enxerga antes e toma medidas. industriais. Está certo que algumas não tinham como continuar, mas outras tinham e fecharam, por falta de enxergar antes. O líder é aquele que enxerga antes e toma medidas. Para entender, é preciso voltar lá atrás, na grande crise, que estava desenhada. Quando estávamos numa expansão enorme, que foi quando eu saí, estava claro que viria uma crise. Era insustentável. In-sus-ten-tá-vel! Não tínhamos a rentabilidade para manter aquilo. E outra coisa é que nunca fizemos uma grande composição. Tínhamos que ter feito uma composição com a Petrobras. O pessoal dizia: “Ah, não, Petrobras?”. Se a Petrobras fosse contra, o Pró-Álcool não teria nascido. É claro que a Petrobras vende o produto dela, mas, em determinado momento, fez um planejamento em que previa que 80% do abastecimento a gasolina seriam feitos com etanol. Isso está no planejamento que foi executado. Então, nós fomos perdendo, nesses quase 40 anos, a oportunidade de compor. Lá atrás, falamos diversas vezes, e a Cosan fez, virou Raízen, que poderíamos ter uma grande distribuidora. Teve uma “ 12

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E N T R E V I S TA época em que éramos mais fortes que a Petrobras. a gasolina transformado. O Brasil tinha que ter, há E quando você não percebe que é forte, mas que, muito tempo, motores realmente para etanol. E com na verdade, aquilo é insustentável, é preciso se dar rendimento melhor que o motor a gasolina. Isso foi conta se esse empoderamento é sólido ou não. E faz desenvolvido no Brasil na década de 70, no Centro tempo que venho dizendo que não consigo enxergar Tecnológico da Aeronáutica, em São José dos Cam- essa solidez. Tanto que outros já se convenceram pos, e, de repente, isso foi colocado para fora. Isso disso e mudaram de foco. Como, num determinado foi tratado num momento em que não tínhamos um momento, éramos multidiversificados, enxergávamos motor correto, mas que a população brasileira op- isso com clareza. Faltaram tou pelo álcool: 97% dos simplesmente algumas atitudes nesse caminho que tornassem tudo mais fácil. Porque temos um produto “ O único programa que os Estados Unidos vieram carros produzidos eram a álcool. Ainda não tinha o motor flex. Foi quando houve um movimento excelente, que gera uma série de vantagens econômicas, sociais e ambientais. Temos m produto aqui e copiaram, literalmente igual, foi o Programa Nacional do Álcool brasileiro. que nós nunca denunciamos, o momento em que faltou etanol. Tinha álcool estocado. Só aqui nessa com o qual nenhum outro país do mundo pode concorrer, concorrer pra valer. Nossa condição é excep- Todas as autoridades americanas vieram aqui na década de 70 abobalhadas com o região, está nos anais da ANP, havia 297 milhões de litros de álcool estocados. E aqui em Ribeirão Pre- “ cional. Por isso, acho que, nessa parceria que tínhamos que ter feito com a Petrobras, ela seria a úni- que estava acontecendo. Imagina que audácia você desafiar o petróleo. to, no terminal de etanol, faltou. Tem uma história longa sobre isso. Tenho um dossiê. Fui lá, recla- ca petroleira do mundo a mei, saiu na primeira pági- ter uma gasolina verde, na da Folha [Jornal Folha ecológica, com um pouco mais de etanol misturado. de S. Paulo]. Foi um movimento em que o pessoal Falo isso e existe uma aversão, mas não temos outra do setor ficou com medo de se manifestar, diferente solução. O mundo está caminhando pra isso. Outra do que aconteceu ontem com as empresas denun- coisa é que temos que transformar a cana em um tipo ciadas [na Operação Carne Fraca]. Tudo isso ficou só de etanol. Temos que escolher. Vamos produzir o claro quando a Petrobras lançou o MEG, a mistura melhor ou o pior? Como dizem que a carne é fraca, etanol/metanol. E que foi recusada, por sorte nossa. talvez escolhêssemos produzir o pior, mas teríamos Os frentistas tinham que trabalhar de máscara. Teve que produzir o melhor, que é o que não tem água. gente que passou mal quando foi abastecer o carro. Ou que tem uma quantidade de água muito peque- Aí, vai lá o Acordo de Paris e indica os caminhos para na. Esse é o melhor. Tanto para misturar na gasolina um clima sustentável. Tem toda essa indicação no quanto para o motor do carro. Se motor a combus- mundo inteiro. E temos a tecnologia. O único progra- tão gostasse de água, tava tudo resolvido. Ao mes- ma que os Estados Unidos vieram aqui e copiaram, mo tempo, se poderia fazer um grande trabalho para literalmente igual, foi o Programa Nacional do Álcool acabar com essa farsa do motor flex, que é um motor brasileiro. Todas as autoridades americanas vieram 13

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E N T R E V I S TA aqui na década de 70 abobalhadas com o que estava acontecendo. Imagina que audácia você desafiar o petróleo. No fundo, nós desafiamos o petróleo, que é a coisa mais poderosa do mundo. E foi possível porque o governo militar apoiou, a Petrobras apoiou, todo mundo apoiou. Senão não teria acontecido. E foi uma coisa maravilhosa. O Brasil não se dá conta do que aconteceu. Uma independência brasileira. Se isso vem bem arranjado, bem conduzido, juntando a petroleira, que era a única de um país em desenvolvimento, podia ter dado uma guinada extraordinária. Tinha tudo para acontecer. Agora, faltou humildade na época para reconhecer isso. Pelo menos para tentar. Alguém poderá dizer: “Puxa, por que você não me falou, não corrigiu?”. Aí eu costumo brincar com as pessoas: “Porque você me tirou a chance. Você fez antes”. ou fechava ou crescia. E, para crescer, você precisa de tecnologia, de desenvolvimento. Era impossível fazer o desenvolvimento aqui naquele momento. Então, a empresa foi pelo mundo. Tem uma pessoa, que se chama Luiz Biagi [irmão], que foi o grande mentor. Eu estava ali. A Usina Santa Elisa era o grande campo de provas. Então, começamos os experimentos, Terra&Cia: A crise no setor sucroenergético obrigou as empresas de Sertãozinho a migrar parte da sua produção para atender o setor de petróleo. Mas quando elas se começaram a se credenciar para atender a Petrobras, estouraram os escândalos de corrupção. A Petrobras cancelou contratos com um monte de gente. Podemos esperar realmente uma retomada do setor da cana para que Sertãozinho volte a ser a capital da indústria de base e a respirar emprego? Biagi: Antes de responder a essa pergunta, temos que fazer um pano de fundo. Como é que Sertãozinho construiu seu parque industrial? Por quê? Porque teve investimento em inteligência. O que foi isso? Teve um determinado momento em Sertãozinho em que se fez 40 joint ventures. Tinha uma empresa, que se chamava Zanini Equipamentos Pesados, que fez joint ventures com empresa holandesa, americana, canadense, a Foster Williams, entre outras. E por quê? A Zanini tinha um share de mercado pequeno. Começou em 1950 e, no mesmo ano, já tinha 100% do mercado. Chegou num ponto em que a tropicalizar a tecnologia. Foi um trabalho maravilhoso, que a gente nem sabia que estava fazendo. Fazia porque tinha um chamado comercial. Não fazia pensando no desenvolvimento que isso representaria. Então, de repente, a Zanini se associa à Foster Williams. E fizemos a empresa que foi a mais importante de engenharia na época, com sede em Jacarepaguá. Pegávamos o aviãozinho aqui, descíamos lá aos sábados, para reuniões de conselho. Muito bem. Como é que são as forças do poder? Porque a partir do momento em que se começou a produzir energia, energia é poder. E, no poder, você leva porrada, 14

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E N T R E V I S TA safanão, do nada. E nem percebe. Era uma empresinha de Sertãozinho e, de repente, tinha um poder extraordinário. Sabe aquele momento em que você leva um empurrão e não sabe de onde veio? Só para dar uma dimensão, o Brasil havia feito a refinaria de Paulínia e a de Duque de Caxias. Você sabe que defendo a Petrobras, mas vou contar um fato. De uma “Vai ter uma retomada, até porque o setor sucroenergético deixou de investir muito nesses últimos tempos. Só de manutenção, reposição, atualização, tem bastante coisa para fazer. As usinas, no ano passado, já tiveram resultado. Mas, na minha visão, ainda é uma recuperação tímida, sem grandes investimentos. hora para outra, começamos a ser questionados pelo governo na época, que era preciso mudar. A indústria automobilística não poderia continuar produzindo o volume de carros a álcool que produzia, porque começou a haver um desequilíbrio na matriz brasileira. As refinarias produziam muita gasolina. Tanto que a maioria dos caminhões era a gasolina. Tinha pouco diesel. Numa reunião de conselho na Zanini, cujo presidente da Foster Williams participava, comentou-se o assunto e ele falou: “Não, espera, acho que não é bem assim. Preciso verificar com o pessoal da engenharia da Foster porque tenho a impressão que se “ pode mudar o craqueamento [processo químico para transformação de cadeias de carbono] das refinarias, ou seja, produzir mais diesel que gasolina”. Ele conversou com a técnica, demoraram uns quinze dias. Aí, ele veio aqui e mostrou. “É possível. O craqueamento pode mudar. Pode diminuir muito a produção de gasolina e aumentar a de diesel”. O Palácio do Planalto nos convocou então para uma reunião, com a Petrobras. Na discussão, provamos que podia mudar. O governo, então, imediatamente, mandou mudar. Coincidência ou não, a Zanini Foster Williams era a principal fornecedora da Petrobras. Depois desse episódio, demoramos dois anos para perceber que havia começado um boicote. Eles falavam: “Olha, aqui nessa concorrência, entre a porca e o parafuso, está prevista uma ruela de teflon e vocês colocaram uma de aço. É por isso que vocês perderam”. Descobrimos, então, que não era para a Petrobras continuar comprando da Foster Williams. Com isso, a Foster foi embora do país. Largou tudo. Muitos anos depois, nos anos 2000, passando pela rua João Penteado, em Ribeirão Preto, vejo uma placa: Foster Williams. Ela voltou para o Brasil com gente ex-Zanini. Portanto, essa plataforma em Sertãozinho foi construída com sangue e suor. Tanto que fiquei desesperado quando percebi que o setor ia entrar em declínio. Fui duas, três vezes a Sertãozinho, chamei todo mundo: “Gente, vamos diversificar. Mas não fazer do jeito que está sendo feito, pegar subempreitada". Grandes companhias pegavam a obra da Petrobras e subempreitavam aqui. Sobrava muito pouco. Era preciso se habilitar na Petrobras, mas não conseguimos. Então, o que aconteceu em Sertãozinho foi que houve um desenvolvimento extraordinário para um setor que não conseguiu se sustentar. Agora, finalmente, respondendo à pergunta. Fiz toda essa reflexão para chegar aqui. Teve toda uma história. Não aconteceu da noite para o dia. E não foi só por causa da indústria, mas pela competência das pessoas, que depois não tiveram competência de mudar rapidamente. Acho, sim, que vai ter uma retomada, até porque o setor su- 15

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