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CARTA DO EDITOR Opaís caminha a passos dados para as eleições. Os membros do Conselho da República acordaram por unanimidade que a votação deverá acontecer a 23 de Agosto, a disputa política é cada vez mais acirrada e os partidos começam a intensificar o tom da pré-campanha. A “máquina está oleada” e do ponto de vista organizativo todos os passos estão a ser dados, a questão do pleito eleitoral merece destaque em diferentes matérias que apresentamos na presente edição. Para além de eleições no nosso país também se fala muito da penalização ou não do aborto, assunto que levantou grande celeuma entre nós com cada um dos polos a defender vivamente a sua posição. Para abordar esta questão entrevistamos duas vozes que se fizeram ouvir sobre o assunto, Frei Mário Rui e Paula Godinho que abordam, de forma frontal, embora ressaltem que a questão central não é saber que ponto de vista vai sair vencedor mas discutir abertamente a questão. A valorizção da produção interna também é abordada na presente edição em que se chama a atenção para sectores que podem galvanizar a economia nacional como a agricultura. A aposta nesse sector pode ser decisiva para o país. No plano internacional muitos foram os acontecimentos. Em África a preocupação é cada vez mais crescente com a República Democrática do Congo onde Kabila teima em não avançar para a realização de eleições este ano com as negociações a arrastarem-se sem fim a vista. Destaque para a tensão na península coreana onde o líder da Coreia do Norte continua a desafiar a maior potência mundial, os Estados Unidos da América, embora já tenha sido seriamente advertido por Donald Trump que diz estar disposto a “resolver o problema”. Em França os ânimos estão agitados com o aumento da popularidade de Marie Le Pen e da sua extrema direita apesar da vitória de Macron na primeira volta, já o Reino Unido continua com o processo que o vai levar a saída da Uniao Europeia, assuntos que também abordamos na presente edição. Boa leitura! Figuras&Negócios - Nº 184 - ABRIL 2017 5

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3. CARTA DO EDITOR 21. MUNDO REAL 28. LEITORES 30. PAÍS DOS ANJOS OPÕE-SE À POLÍTICA TRIBUTÁRIA 33. (PRÉ)TEXTOS 34. FIGURAS DE CÁ 40. CULTURA 43. NA ESPUMA DOS DIAS 44. CONJUNTURA DEMOCRATIZAÇÃO DE ÁFRICA QUE MODELOS A ADAPTAR! 50. REPORTAGEM 58. ECONOMIA & NEGÓCIOS FILDA EM CRISE: FIL E FUNCIONÁRIOS ABANDALHADOS 6 08. PÁGINA ABERTA FREI DOMINICANO MÁRIO RUI "O RESPEITO PELA VIDA DEVE SER ABSOLUTO" 74. MUNDO 82. DESPORTO 85. FIGURAS DE JOGO 22. POLÍTICA IDA ÀS URNAS A 23 DE AGOSTO JÁ CHEIRA A ELEIÇÕES! Figuras&Negócios - Nº 184 - ABRIL 2017

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66. ÁFRICA GUINÉ-BISSAU SITUAÇÃO DEGRADA-SE 88. MODA & BELEZA 92. SAÚDE & BEM-ESTAR 96. VIDA SOCIAL 100. FIGURAS DE LÁ Figuras&Negócios - Nº 184 - ABRIL 2017 Publicação mensal de economia, negócios e sociedade Ano 18- n. º 184, Abril – 2017 N. º de registo 13/B/97 Director Geral: Victor Aleixo Redacção: Carlos Miranda, Júlia Mbumba, Sebastião Félix, Suzana Mendes e Venceslau Mateus Fotografia: George Nsimba e Adão Tenda Colaboradores: Édio Martins, Domingos Fragoso, Juliana Evangelista, João Marcos, João Barbosa (Portugal), Manuel Muanza, Rita Simões, Ana Kavungu, D.Dondo, Wallace Nunes (Brasil), Alírio Pina e Olavo Correia (Cabo-Verde), Óscar Medeiros (S.Tomé), Crisa Santos (Moda) e Conceição Cachimbombo (Tradutora). Design e Paginação: Humberto Zage e Sebastião Miguel Capa: Bruno Senna Publicidade: Paulo Medina (chefe) Assinaturas (geral): Katila Garcia Revisão: Baptista Neto Tel: (+244) 937 465 000 Brasil: Wallace Nunes Móvel: (55 11) 9522-1373 e-mail: nunewallace@gmail.com Inglaterra (Londres): Diogo Júnior 12 - Ashburton Road Royal Docks - London E16 1PD U.K Portugal: Rita Simões Rua Rosas do Pombal Nº15 2dto 2805-239 Cova da Piedade Almada Telefone: (00351) 934265454 Produção Gráfica: Imprimarte (Angola) Cor Acabada, Lda (Portugal) Tiragem: 10.000 exemplares Direcção e Redacção: Edifício Mutamba-Luanda 2º andar - Porta S. Tel: 222 397 185/ 222 335 866 Fax: 222 393 020 Caixa Postal - 6375 E-mails: figurasnegocios@hotmail.com artimagem@snet.co.ao Site: www. figurasenegocios.co.ao Facebook: Revista Figuras&Negócios Angola 7

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Largo 4 de Fevereiro, Palácio de Vidro, 5º andar; Cx. Postal 2223; Telefone +(244) 923047979, email: cnc@cnc-angola.gv.ao Luanda, Angola O Conselho Nacional de Carregadores, abreviadamente designado «CNC», é um Instituto Público do Sector Económico, dotado de personalidade jurídica, autonomia administrativa, financeira e patrimonial, criado para exercer as funções de controlo das operações de comércio e transporte marítimo internacionais, bem como a actualização, uniformização e simplificação dos métodos e normas para a sua execução. ATRIBUIÇÕES DO CNC a) Apoiar tecnicamente o Ministério dos Transporte na concepção, elaboração, adopção, implementação e controlo de políticas e metodologias de execução das operações de comércio, transporte marítimo e logística, através do acompanhamento, estudos, análises e apresentação de propostas pertinentes. b) Contribuir, participar e investir na promoção de projectos de desenvolvimento de Marinha Mercante, Portos, Hidrografia, Corrente de Transportes e do Sector dos Transportes em geral. c) Acompanhar, velar e assegurar a execução correcta das políticas de comércio e transportes marítimos internacionais traçadas pelo Executivo, em coordenação com os órgãos e instituições competentes; d) Promover a defesa e a harmonização dos interesses fundamentais do Estado com os vários intervenientes nas operações de comércio e transportes marítimos internacionais, tendo como objectivo principal a racionalização e optimização dessas operações; e) Estudar, analisar, apresentar e controlar as medidas que contribuam para a estabilidade dos fretes e taxas das mercadorias em defesa da economia nacional e do consumidor final; f) Acompanhar e analisar o processo de importação e exportação de mercadorias, centralizando a recolha, tratamento, interpretação e difusão da informação e estatísticas relativas às operações de comércio e transportes marítimos internacionais; g) Recolher, analisar e dar tratamento adequado às informações e dados sobre a situação do mercado interno e internacional relativo ao comércio e transporte, com vista ao acompanhamento permanente da sua evolução e dos seus efeitos sobre a economia nacional; h) Promover o aproveitamento racional dos recursos materiais e humanos disponíveis na cadeia do comércio e transporte marítimo internacionais; i) Cobrar e receber as comissões legalmente devidas pelos armadores e carregadores que participam na transportação de mercadorias de e para Angola, para investimento directo no sector dos Transportes; j) Emitir, a partir da origem, o certificado de embarque em que os amadores ou operadores marítimos inscritos no Conselho Nacional de Carregadores, que detenham carga de ou para Angola, estão obrigados, nos termos da lei, a exigir dos exportadores; k) Supervisionar e gerir o sistema da Rede Nacional da Plataforma Logística (RNPL); l) Desenvolver estudos e identificar estratégias que potenciem a actividade logística e a integração dos diversos modos de transportes; m) Garantir a adopção de sistema de informação integrados na Rede Nacional de Plataforma Logística e destas com o sistema portuários, ferroviários, rodoviários e com a rede nacional de produção de comércio interno e externo; n) Participar nas reuniões com os organismos internacionais congéneres e armadores, visando a regularização de questões inseridas no âmbito da sua competência, designadamente as convenções internacionais e bilaterais, e as taxas do frete máxima a praticar no transporte marítimo internacional; o) Exercer as demais atribuições estabelecidas por lei ou determinadas superiormente. OS ESFORÇOS DO CONSELHO NACIONAL DE CARREGADORES VISANDO APOIAR O GOVERNO NO DESENVOLVIMENTO DO PAÍS, REFLECTEM-SE, ENTRE OUTRAS, NAS SEGUNTES ACÇÕES: Implementação da Bolsa Nacional do Frete; Reabilitação da sinalização de toda costa marítima; Reabilitação de faróis e farolins costeiros; Reabilitação da Rádio Costeira (Luanda Rádio); Acção de formação e actualização de marítimos angolanos; Contribuição para a criação do Instituto Hidrográfico de Angola; Construção do Porto Seco de Viana; Construção da Nova Ponte Cais do Porto de Cabinda; Contribuição no estudo de construção do novo Porto de águas profundas em Cabinda; Participação na construção e implementação dos Terminais Marítimos de Passageiros em Luanda. Supervisionar e gerir a Rede Nacional de Plataformas Logísticas (RNPL): Plataforma Logística Intermodal Regional do Lombe 332ha; Plataforma Logística Intermodal Regional do Soyo 25 hectares; Plataforma Logística Intermodal Regional do Menongue 100 hectares; Plataforma Logística Intermodal Transfronteiriça do Luau – Moxico 100 hectares; Plataforma Logística do Luvu - Zaire 100 hectares; Plataforma Logística Transfronteiriça do Yema – Cabinda 100 hectares; Plataforma Logística Transfronteiriça de Massabi – Cabinda 100 hectares; Plataforma Logística Intermodal Regional do Kuito - Bié 100 hectares; Plataforma Logística Intermodal Regional da Arimba - Huíla 81 hectares; Plataforma Logística Intermodal Regional da Matala - Huíla 100 hectares; Plataforma Logística Transfronteiriça de Santa Clara - Cunene 100 Hectares; Plataforma Logística Intermodal Transfronteiriça de Kimbata – Uíge 100 hectares. Figuras&Negócios - Nº 184 - ABRIL 2017 9

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PÁGINA ABERTA “O RESPEITOFREI DOMINICANO MÁRIO RUI PELA VIDA DEVE SER ABSOLUTO” 10 Figuras&Negócios - Nº 184 - ABRIL 2017

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PÁGINA ABERTA Na defesa da proibição do aborto o Frei Dominicano Mário Rui foi uma das vozes que se fez ouvir por defender o direito à vida em todas as suas etapas. Nas linhas que se seguem o mesmo ressalta que o que se está a tentar proteger “é o valor fundamental da dignidade” e que tal deve ser feito de forma firme e absoluta embora reconheça que é necessário a igreja rever a forma como trata as mães solteiras Texto: Suzana Mendes Fotos: George Nsimba Figuras&Negócios: Em primeiro lugar, como é que olha para esta discussão em torno da despenalização do aborto? Frei Mário Rui (F.M.R.)- Creio que a discussão começa mal orientada, o que se está a discutir é qual a penalização a dar às pessoas que eliminam uma vida humana nas primeiras etapas da vida e eu acho que a discussão deveria estar focada em como é que uma sociedade como a nossa pode ajudar para que as pessoas que foram concebidas possam nascer, possam crescer, possam ter asseguradas condições de vida digna, portanto, se calhar deveríamos estar a discutir uma lei de assistência à maternidade, à aplicação da lei de prestação de alimentos, leis sobre a adopção para o caso das pessoas que não têm possibilidades económicas para sustentar a criança mas isso não é razão para esta criança não viver, para que não se se possa desenvolver e ver respeitada a sua dignidade e a sua vida. F&N - Qual é a sua posição enquanto Frei, que creio que é alinhada com a posição da igreja Católica? F.M.R. - É alinhada mas eu creio que há também aqui um vício da discussão, se está a criar a ideia de que as pessoas que defendem a vida e não estão a favor de que haja exceções que despenalizem a interrupção voluntária da gravidez o fazem por motivos religiosos, não é preciso ser religioso para se defender o valor da vida, o valor da vida nas primeiras etapas como em todas as outras etapas, quer dizer que o que temos nesta situação é uma concordância entre o que é a minha reflexão, independentemente da minha fé me diz, e aquilo também que o reconhecer que a vida é um dom de Deus me diz, não temos uma espécie de submissão da inteligência a fé, se quisermos, mas temos uma conjugação entre aquilo que se pensa e o que se crê, por isso muitas vezes, do ponto de vista público, para aqueles que não têm fé partilho aquilo que são as minhas convicções, não a partir da fé mas a partir da reflexão. Numa sociedade o respeito pela vida deve ser absoluto, em qualquer etapa de desenvolvimento, antes da questão ser jurídica creio que é ética, ao fim e ao cabo a questão é esta: há circunstâncias em que eliminar a vida de alguém não tem importância? Pergunto também se há circunstâncias em que outra pessoa possa decidir se alguém tem o direito de viver? Também sou contra a pena de morte e nem sequer considero que um Estado ou o Tribunal se possa arrogar o direito de decidir se outra pessoa tem ou não o direito de viver, antes de mais a questão ética é de protecção da vida em todas as etapas do desenvolvimento e não dizer: “se a vida está na fase inicial, se não sente, então não tem importância”, têm importância porque é a vida de alguém que está em desenvolvimento e quando temos laços com essas pessoas entendemos que são importantes, têm tanto direito de viver quanto nós. Do ponto de vista jurídico entendo que a lei antes de mais deve mostrar o que está certo, o que está certo neste caso é proteger a vida em todas as circunstâncias, é esse o compromisso do Estado, é esse o compromisso da Declaração Universal dos Direitos Humanos (embora depois em certas sociedades haja um entendimento restritivo deste artigo) mas do ponto de vista filosófico, do ponto de vista antropológico, não há excepções a vida, a vida é vida! Um segundo aspecto que nem toda a gente sublinha mas que para mim é importante é que quando há conflito de interesses a lei deve proteger o mais fraco mas muita gente que partilha essa convicção chega a questão do aborto e muda um pouco porque na nossa sociedade o que não se vê, o que não se sente, tende a ter menos direitos do que os outros, não porque tenha menos direitos mas porque esses direitos não são suficientemente considerados quando se fazem as leis, quando Figuras&Negócios - Nº 184 - ABRIL 2017 11

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PÁGINA ABERTA se elaboram as políticas, como o feto não se vê, não fala, não se manifesta, os seus direitos praticamente não têm expressão. Há um dominicano do século XIX que gosto muito, Henri Dominique Lacordaire, que era um liberal (é importante sublinhar este aspecto) que dizia uma coisa que me parece importante: “entre o forte e o fraco a liberdade oprime e a lei liberta”, portanto, uma lei que seja boa para a sociedade deve proteger o mais fraco porque deixar o campo a liberdade do que cada um quiser o mais forte tende a oprimir o mais fraco. O terceiro aspecto é que não pode ser igual numa sociedade cumprir a lei ou não, quem não cumpre a lei tem de ser sancionado, não estou com isso a dizer que para o caso de uma mulher que faz aborto que a cadeia seja a pena mais adequada, acho que deveria haver uma reflexão sobre as formas de sanção, poderíamos enquadrar sanções como prestar serviço comunitário que até tem um aspeto mais reparador. F&N - Chegados a este ponto temos a proposta de Código Penal que levantou toda esta discussão que neste ponto relacionado ao aborto é criticada por ser recuo em relação ao Código de 1886. F.M.R. - Não sou jurista, não quero entrar no detalhe jurídico porque corro o risco de cometer erros e também não é aí, antes de mais, que do meu ponto de vista se situa a discussão, mesmo que a lei tenha que traduzir em geral estes princípios que enunciei, as leis têm de estar ao serviço dos valores da sociedade, não é a sociedade que tem que andar ao reboque da lei mas é a lei que tem de proteger e regular o funcionamento da sociedade, insisto que antes da discussão ser jurídica tem que ser ética, filosófica e sociológica. F&N - Mas também é jurídica. F.M.R. - Também é mas do meu ponto de vista a discussão jurídica, técnica, típica dos juristas não pode ignorar e não pode deixar de estar ao serviço do que queremos proteger como valores na sociedade, infelizmente, na história temos casos leis como a lei da escravatura, do apartheid, em que a lei defendia coisas que hoje do ponto de vista antropológico não nos parecem aceitáveis mas que na altura pareceram aceitáveis, pelo menos para uma parte da população, isso sublinha outro aspecto que não é por ser legal que passa a ser ético. A lei que estamos a discutir deve legislar da melhor ma- neira possível subordinando-se aos valores da sociedade que queremos construir. F&N - O Frei admite as excepções que estão a ser reivindicadas pelos grupos pró aborto? F.M.R. - Temos que separar algumas questões que às vezes vejo misturadas e que não gosto de ver misturadas, há situações e talvez a situação mais comum é a que se chama de gravidez ectópica, em que se o feto se está a desenvolver nas trompas, o que vai acontecer é que o feto se está a desenvolver nas trompas nem o feto se vai desenvolver e pode até levar a morte da mãe se as trompas rebentarem, neste caso uma intervenção médica às vezes é chamada de interrupção voluntária da gravidez, comparando à situação em que o feto se está a desenvolver no útero, neste caso trata-se de salvar a vida que podemos salvar, o que creio que deve ser o princípio orientador é proteger a vida e quando não podemos proteger as duas, a vida da mãe e a vida do feto então que se proteja a vida que é possível proteger. Quanto as situações difíceis, como o caso de má formação, em que o feto é viável, costumo perguntar: se tivermos um acidente e ficarmos muito limitados deixamos de ter o direito de viver? F&N - Neste ponto discute-se também o direito a eutanásia. F.M.R. - Voltamos à mesma coisa, a minha vida é algo que devo respeitar ou é algo que disponho como um caderno, um automóvel? Podemos ir ultrapassando barreira em barreira e chegamos a um ponto em que é muito difícil fundamentar a dignidade, Kant dizia uma coisa que talvez nos ajude a refletir sobre esta questão, dizia que a pessoa não tem preço, tem valor, tem dignidade porque o que tem preço é cambiável, eu posso trocar uma coisa por outra, posso ir trocando de coisas conforme as minhas preferências mas cada pessoa é única, não posso dizer elimina-se esta pessoa e arranja-se outra. É este valor fundamental da dignidade que estamos a tentar proteger porque 12 Figuras&Negócios - Nº 184 - ABRIL 2017

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PÁGINA ABERTA se não protegermos de forma firme e absoluta vamos sempre encontrar uma barreira a partir da qual a pes- soa se pode trocar, deixa de ser digna e passa a ser trocável, há uma dificuldade grande de fundamentarmos a dignidade da pessoa se dissermos que só é digna a partir de x semanas, se tiver certas condições, se tem o cérebro bem formado, por exemplo, entretanto, percebo o drama que isto representa para as pessoas, para as famílias pois quando estas situações surgem como é que nós, como sociedade, criamos condições para que isso não seja um fardo insuportável para meia dúzia de pessoas e como é que organizamos uma sociedade com apoios para que estas pessoas possam ver respeitada a sua dignida- de, um dos aspectos que vale a pena referir é o conjunto de testemunhos de pessoas que cuidam de doentes mentais e o que estas pessoas vão aprendendo em termos de humani- dade, da sua própria humanidade. F&N - Uma das reivindicações dos grupos que defendem o aborto é que as pessoas devem ter o direito de escolher se vão ter esse filho porque terão que se dedicar a ele a vida toda, principalmente a mãe. F.M.R. - Não nego em absoluto esse direito, por isso falo de respon- sabilidade social e não apenas de responsabilidade familiar, a escolha não é se a criança deve viver ou não, a escolha é se eu não tiver capacida- de a sociedade tem que criar mais estruturas, quando digo a sociedade refiro-me ao Estado que tem uma responsabilidade inalienável mas não só, outras instituições da socie- dade, igrejas, associações, devem ter iniciativas que ajudem a acolher e a respeitar essas pessoas. F&N - E quanto ao trauma de uma pessoa que vai gerar um filho e depois vai ter de o entregar a uma instituição? F.M.R. - Se eu tiver um acidente, se passar por uma situação muito difícil, é um trauma mas tenho de aprender a lidar com ele e temos de ajudar a pessoa a superar o trauma, mas mesmo o trauma não sendo uma coisa positiva não é razão suficiente para eliminar a vida de uma pessoa, depois, é preciso ver que mesmo eliminar a vida de uma pessoa, mesmo nestas condições constitui um trauma para muitas pessoas, para muitas mulheres e às vezes só se dão conta depois, penso que ninguém se pode arrogar no direito de decidir se outra pessoa tem ou não o direito de viver. “ Mesmo o trauma não sendo uma coisa positiva não é razão suficiente para eliminar a vida de uma pessoa, depois, é preciso ver que mesmo eliminar a vida de uma pessoa, mesmo nestas condições constitui um trauma para muitas pessoas, para muitas mulheres e às vezes só se dão conta depois, penso que ninguém se pode arrogar no direito de decidir se outra pessoa tem ou não o direito de viver F&N - A “razão suficiente” para o Frei é apenas a gravidez ectópica ou o risco de vida para a mãe também? F.M.R. - Insisto: não penso que neste caso estejamos perante o que a lei considera de interrupção voluntária da gravidez, estamos a querer salvaguardar a qualidade de vida e a vida que podemos salvar, se nada for feito a mãe e a criança vão morrer. F&N - Mas o que está a dizer não vai um pouco contra o que a igreja defende uma vez que não deveria ser Deus a decidir quem vai viver? “ F.M.R. - Temos que ver algumas coisas porque às vezes invocamos o nome de Deus em vão, primeiro, a questão é que pelo que sabemos Deus respeita a lógica das leis da natureza, na tradição da igreja e São Tomás de Aquino quando fala da lei natural, na soma teológica, diz que o que é natural ao ser humano é ser providência para si e para os outros e nesse sentido a lei natural participa da lei divina e não é preciso ter fé para isso, quer dizer é uma concessão do ser humano, é uma concessão da retidão ética em que o que é natural no ser humano, da maneira como foi criado, se não se deixar desfigurar pelo mal, é colaborar com Deus sendo providente, neste caso a providência é salvar o que podemos salvar através da medicina, Deus deu-nos inteligência, meios técnicos para sabermos o que devemos fazer. F&N - A percepção que se tem é que a formulação da proposta de Código Penal apresentada pela Assembleia Nacional tem muito a ver com a pressão exercida pelas igrejas cristãs. F.M.R. - As pessoas que são cristãs não deixam de ser cidadãs e acho legítimo que defendam os seus pontos de vista como acho legítimo que os outros tenham os seus pontos de vista, o que não me parece legítimo é pensar que por serem cristãos deveriam se remeter à sua condição estritamente religiosa sem a acção cívica, sem a acção social, sempre que as deixaram, as igrejas têm uma acção social na educação, na saúde, na defesa da vida, então, não podemos elogia-la para umas coisas e depois dizer “aqui já não nos dá jeito, não se metam neste assunto”, os cristãos são cidadãos e têm direito como os outros de manifestar os seus pontos de vista, de os defender e a decisão política pode ter isso em conta ou não, a igreja, durante muitos anos, apelou para o diálogo para a paz mas durante muitos anos não foi ouvida, não podemos dizer que é assim porque a igreja disse porque senão por- 14 Figuras&Negócios - Nº 184 - ABRIL 2017

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PÁGINA ABERTA quê que até agora a Rádio Ecclésia não é ouvida em todo o país? Porque há pesos e decisões políticas que con- sideram umas coisas e outras não. F&N - Volto à minha questão sobre as milhares de mulheres que morrem devido a abortos clandestinos, que o Frei não focou. F.M.R. - Lamento que isso aconteça, entendo que a responsabilidade moral e legal não deveria ser equiva- lente para quem ganha a vida explo- rando o sofrimento, para quem usa a morte de crianças nas primeiras etapas de vida, muitas vezes a morte das mães como meio de vida, acho que isso não se deve tolerar, lamento profundamente que mesmo assim as mulheres o façam e a solução não seria dizer que então passem a fazer em outro lado porque para mim a vida destas mulheres vale tanto como a vida das crianças que não chegam a nascer, não posso dizer que uma vida vale mais do que a outra, nunca chegamos a saber que pessoas seriam aqueles fetos que são abortados, o que representariam na nossa sociedade, é isso que não posso aceitar. F&N - Sendo Padre e vivendo no ambiente da sua congregação religiosa, apesar do trabalho que faz com o instituto Mosaiko, essa sua visão é realística tendo em conta o nosso contexto social? F.M.R. - Eu creio que a questão é ajudar as pessoas a tomar boas decisões, a minha questão é como é que eu posso trabalhar, com outros, a ajudar a criar gerações que percebam que a vida não é trocável, é algo absoluto. F&N - Em vários países a igreja envolveu-se nessa “batalha” e acabou por perder, inclusive em sociedades maioritariamente católicas. Como é que vislumbra o fim dessa discussão? F.M.R. - Não considero que a lei, seja uma ou outra, seja uma derrota para um ou outro sector, não sei se mesmo nos países onde se prevê excepções à penalização do aborto a igreja está derrotada e há países em que há imposições legais de aborto e ninguém fala disso, como a China, quer dizer que se é trocável o Estado também pode dizer que você só pode ter tantos filhos e acima disso é proibido. Não há uma derrota quando se continua a trabalhar a favor da vida, quando se continua a trabalhar para que pessoas que protegem a vida porque entendem que a dignidade de uma pessoa não depende de outros factores mas do direito que ela tem a viver, mesmo pessoas que não sejam religiosas. A igreja não vai mudar de convicções, quer a lei seja uma ou outra vai continuar a fazer o seu trabalho de defesa da vida, as vezes a discussão parece ir para quase foi penalti ou não e entre adeptos de futebol mas não vejo isso como uma vitória ou derrota mas como um processo que nos deve ajudar a pensar e criar condições para termos uma sociedade mais respeitadora da vida e nisto não estamos derrotados, não há vitória e nem derrota em nenhum dos lados. Figuras&Negócios - Nº 184 - ABRIL 2017 15

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