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Figuras&Negócios - Nº 183 - MARÇO 2017 3

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CARTA DO EDITOR Oprocesso de Registo Eleitoral terminou no final de Março e atingiu mais de nove milhões de cidadãos. Deste número, 6,5 milhões são antigos eleitores e 2,5 milhões são novos eleitores. Os da- dos foram revelados por Adão do Nascimento, Secretário de Estado da Administração do Território que, para ele, o processo atingiu o essencial do que era esperado, entrando-se agora para outras fases de forma que em Agosto os angolanos possam votar sem problemas. O final do Registo Eleitoral aconteceu em Março, o mês dedicado à mulher, ao pai e à felicidade numa altura em que no País já se respira o ambiente propício às eleições, de muita agitação e algumas farpas entre os diferentes contendores do espectro político. Mas isso não "roubou" o protagonismo que neste Março se dedica às Mulheres, elas que, com todos os meios legais ao seu alcance, lutam pela igualdade de direitos e pelo fim da violência doméstica que, infelizmente, em algumas partes do mundo ainda con- tinua a registar números alarman- tes, por isso mesmo preocupantes. Em homenagem às mulheres angolanas que não estão dissociadas dessa luta global, porque em Angola nem tudo é verdade cristalina quando se trata de igualdade do género e de combate cerrado à violência, trazemos como capa uma jovem angolana, Amilna Estêvão, modelo que nas grandes passarelles da moda In- ternacional "vende", com o seu gin- gar e charme, a imagem de Angola. Amilna é uma flôr de um Jardim, a moda angolana, que desabrocha e vai dando frutos no mundo, haja vista outras modelos que também se destacam em grandes passarel- les internacionais e são escolhidas para editoriais de moda ou para promoção de grandes marcas. É, afinal de contas, o nome de Angola que se posiciona cada vez mais, pelo que se exige de todos os angolanos um maior engajamento para que muitos dos problemas que hoje se vive sejam superados, que haja um maior espírito de entre-ajuda, de maior orgulho nacional para que possamos fazer, mais cedo quanto o tempo permitir, um País bom para se viver. Figuras&Negócios - Nº 183 - MARÇO 2017 5

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3. CARTA DO EDITOR 7. PONTO DE ORDEM MUDANÇAS E REALISMO 17. MUNDO REAL 18. PAÍS BANCO POSTAL ABRE PORTAS 21. (PRÉ)TEXTOS 22. LEITORES 24. FIGURAS DE CÁ 30. POLÍTICA 36. PENA LIVRE 38. CULTURA 43. NA ESPUMA DOS DIAS 44. REPORTAGEM COOPERATIVISMO E CRÉDITO 6 10. PÁGINA ABERTA MARGARIDA PAREDES "A MULHER FOI DECISIVA NA LIBERTAÇÃO DE ANGOLA" 50. CONJUNTURA UMA CHANCE DE RENOVAÇÃO 78. MUNDO 85. FIGURAS DE JOGO 56. ECONOMIA & NEGÓCIOS BENGUELA: SAL COM SELO MILIONÁRIO À CAMINHO DA EXPORTAÇÃO Figuras&Negócios - Nº 183 - MARÇO 2017

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74. ÁFRICA RDCONGO ELEIÇÕES: NEM DINHEIRO, NEM AVIÕES E FALSO ALARME DJIHADISTA 82. DESPORTO 92. VIDA SOCIAL 94. MODA & BELEZA 100. FIGURAS DE LÁ Figuras&Negócios - Nº 183 - MARÇO 2017 Publicação mensal de economia, negócios e sociedade Ano 18- n. º 183, Março – 2017 N. º de registo 13/B/97 Director Geral: Victor Aleixo Redacção: Carlos Miranda, Júlia Mbumba, Sebastião Félix, Suzana Mendes e Venceslau Mateus Fotografia: George Nsimba e Adão Tenda Colaboradores: Édio Martins, Domingos Fragoso, Juliana Evangelista, João Marcos, João Barbosa (Portugal), Manuel Muanza, Rita Simões, Ana Kavungu, D.Dondo, Wallace Nunes (Brasil), Alírio Pina e Olavo Correia (Cabo-Verde), Óscar Medeiros (S.Tomé), Crisa Santos (Moda) e Conceição Cachimbombo (Tradutora). Design e Paginação: Humberto Zage e Sebastião Miguel Capa: Bruno Senna Publicidade: Paulo Medina (chefe) Assinaturas (geral): Katila Garcia Revisão: Baptista Neto Tel: (+244) 937 465 000 Brasil: Wallace Nunes Móvel: (55 11) 9522-1373 e-mail: nunewallace@gmail.com Inglaterra (Londres): Diogo Júnior 12 - Ashburton Road Royal Docks - London E16 1PD U.K Portugal: Rita Simões Rua Rosas do Pombal Nº15 2dto 2805-239 Cova da Piedade Almada Telefone: (00351) 934265454 Produção Gráfica: Imprimarte (Angola) Cor Acabada, Lda (Portugal) Tiragem: 10.000 exemplares Direcção e Redacção: Edifício Mutamba-Luanda 2º andar - Porta S. Tel: 222 397 185/ 222 335 866 Fax: 222 393 020 Caixa Postal - 6375 E-mails: figurasnegocios@hotmail.com artimagem@snet.co.ao Site: www. figurasenegocios.co.ao Facebook: Revista Figuras&Negócios Angola 7

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PONTO DE ORDEM Victor Aleixo victoraleixo12@gmail.com MUDANÇAS E REALISMO OPaís vai ter eleições gerais este ano e quando assim acontece há uma perspectiva grande que se cria porque novos actores políticos entrarão em cena, neste caso agora desde Presidente da República a deputados e posteriormente novos rostos no governo. É a lei da vida política da mudança sagrada e da rotatividade de pessoas e instituições como mandam as boas regras da democracia que em Angola começamos a cumprir, embora com alguns zigzagues. É claro que os rostos da nossa política não têm mudado significativamente tanto como o momento e a eficiência assim o exigiam mas há um dado adquirido que acontece este ano que é justo realçar. Desde logo, depois de cerca de 40 anos a dirigir os destinos do País, José Eduardo dos Santos decidiu colocar ponto final à sua vida política activa, e, nessa linha, não será o candidato do seu Partido, o MPLA-que há quarenta anos também governa o País, primeiro fruto do monopartidarismo e depois por vencer as eleições. João Lourenço será o candidato dos Camaradas e disputará a liderança do País com líderes de outras cores políticas, sendo os mais salientes Isaías Samakuva da Unita e Abel Chivukuvuku, da CASA CE. Facto curioso na escolha do futuro Presidente da República de Angola é que dos candidatos existentes agora, a certeza é de que, seja quem for o vencedor, o poder ficará na mão de um originário umbundu, eliminando-se sem atritos o complexo que existia de que Angola só poderia ser governada hegemonicamente por políticos kimbundo, mas o mais importante de tudo isso é que esse facto não se reflicta na constituição de governos fortemente tribais ou regionais que possam perigar o avanço da construção de uma verdadeira nação que, mesmo assim, já se faz de forma muito titubeante, ignorando-se quantas vezes a importância do saber e da competência profissional de cada cidadão. Sou dos que defende que para a consolidação da democracia no nosso País e o consequente caminho para melhor governação da Coisa Pública, não deveria haver maiorias absolutas que, regra geral, asfixiam outros pensamentos, por mais positivos que sejam eles. Sou dos que defende parlamentos mais equilibrados de forma que as leis que venham a conformar a governação do País sejam mais discutidas, nunca impostas e que haja mais preocupação no pensamento nacional. Bom, esse é o meu pensamento mas o que conta são os resultados que se conseguem nas eleições. Estamos num País que durante quarenta e dois anos foi governado por um Partido que, primeiro, defendia o sistema monopartidário, depois engendrou a mudança para o multipartidarismo e pelas muitas boas e mais razões do percurso percorrido, não se pode ignorar as estruturas criadas e que se tornaram fundamentais para cimentar a unidade do País, que apadrinhou a formação de muitos quadros nos mais variados domínios, que cimentou o orgulho de sermos donos do nosso próprio destino, como angolanos independentes. Criaram-se raízes de competências reconhecíveis mas é certo que também se apadrinhou o compadrio e outros esquemas contrários à governação transparente, emoldurou-se uma sociedade com muitas vontades, que, na altura em que se desenha o nascimento de uma nova República, essas mais valias, muitas delas não rotuladas com cores políticas mas sim com vontade de contribuir com todo o seu saber e discernimento, não devem ser esquecidas ou ignoradas nem tampouco atrapalhadas no bingo das origens de nascença ou cor da pele. Quanto mais se apruma a organização do País, mais se encetam iniciativas para pensamentos plurais, mais se justifica governações participativas que facilitam, inclusive, o papel das lideraças escolhidas no voto. Para a realidade angolana, mais se justifica o princípio de quem ganha tudo tem de saber olhar para o lado do seu opositor e quem perde no voto não deve pensar que eternamente perdeu a esperança de vida. É hora de se reflectir! Se é verdade que o momento reclama por mudanças por uma governação mais actuante, mais patriótica, mais mergulhada nas preocupações da maioria não é menos verdade que essa mesma mudança não pode ser feita de forma atabalhoada, fazendo vingar o espírito de revanche, vingança ou perseguição. Vamos fazer um país melhor para todos viverem, ganhe quem ganhar porque a preocupação primeira tem de ser Angola. Figuras&Negócios - Nº 183 - MARÇO 2017 9

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Largo 4 de Fevereiro, Palácio de Vidro, 5º andar; Cx. Postal 2223; Telefone +(244) 923047979, email: cnc@cnc-angola.gv.ao Luanda, Angola O Conselho Nacional de Carregadores, abreviadamente designado «CNC», é um Instituto Público do Sector Económico, dotado de personalidade jurídica, autonomia administrativa, financeira e patrimonial, criado para exercer as funções de controlo das operações de comércio e transporte marítimo internacionais, bem como a actualização, uniformização e simplificação dos métodos e normas para a sua execução. ATRIBUIÇÕES DO CNC a) Apoiar tecnicamente o Ministério dos Transporte na concepção, elaboração, adopção, implementação e controlo de políticas e metodologias de execução das operações de comércio, transporte marítimo e logística, através do acompanhamento, estudos, análises e apresentação de propostas pertinentes. b) Contribuir, participar e investir na promoção de projectos de desenvolvimento de Marinha Mercante, Portos, Hidrografia, Corrente de Transportes e do Sector dos Transportes em geral. c) Acompanhar, velar e assegurar a execução correcta das políticas de comércio e transportes marítimos internacionais traçadas pelo Executivo, em coordenação com os órgãos e instituições competentes; d) Promover a defesa e a harmonização dos interesses fundamentais do Estado com os vários intervenientes nas operações de comércio e transportes marítimos internacionais, tendo como objectivo principal a racionalização e optimização dessas operações; e) Estudar, analisar, apresentar e controlar as medidas que contribuam para a estabilidade dos fretes e taxas das mercadorias em defesa da economia nacional e do consumidor final; f) Acompanhar e analisar o processo de importação e exportação de mercadorias, centralizando a recolha, tratamento, interpretação e difusão da informação e estatísticas relativas às operações de comércio e transportes marítimos internacionais; g) Recolher, analisar e dar tratamento adequado às informações e dados sobre a situação do mercado interno e internacional relativo ao comércio e transporte, com vista ao acompanhamento permanente da sua evolução e dos seus efeitos sobre a economia nacional; h) Promover o aproveitamento racional dos recursos materiais e humanos disponíveis na cadeia do comércio e transporte marítimo internacionais; i) Cobrar e receber as comissões legalmente devidas pelos armadores e carregadores que participam na transportação de mercadorias de e para Angola, para investimento directo no sector dos Transportes; j) Emitir, a partir da origem, o certificado de embarque em que os amadores ou operadores marítimos inscritos no Conselho Nacional de Carregadores, que detenham carga de ou para Angola, estão obrigados, nos termos da lei, a exigir dos exportadores; k) Supervisionar e gerir o sistema da Rede Nacional da Plataforma Logística (RNPL); l) Desenvolver estudos e identificar estratégias que potenciem a actividade logística e a integração dos diversos modos de transportes; m) Garantir a adopção de sistema de informação integrados na Rede Nacional de Plataforma Logística e destas com o sistema portuários, ferroviários, rodoviários e com a rede nacional de produção de comércio interno e externo; n) Participar nas reuniões com os organismos internacionais congéneres e armadores, visando a regularização de questões inseridas no âmbito da sua competência, designadamente as convenções internacionais e bilaterais, e as taxas do frete máxima a praticar no transporte marítimo internacional; o) Exercer as demais atribuições estabelecidas por lei ou determinadas superiormente. OS ESFORÇOS DO CONSELHO NACIONAL DE CARREGADORES VISANDO APOIAR O GOVERNO NO DESENVOLVIMENTO DO PAÍS, REFLECTEM-SE, ENTRE OUTRAS, NAS SEGUNTES ACÇÕES: Implementação da Bolsa Nacional do Frete; Reabilitação da sinalização de toda costa marítima; Reabilitação de faróis e farolins costeiros; Reabilitação da Rádio Costeira (Luanda Rádio); Acção de formação e actualização de marítimos angolanos; Contribuição para a criação do Instituto Hidrográfico de Angola; Construção do Porto Seco de Viana; Construção da Nova Ponte Cais do Porto de Cabinda; Contribuição no estudo de construção do novo Porto de águas profundas em Cabinda; Participação na construção e implementação dos Terminais Marítimos de Passageiros em Luanda. Supervisionar e gerir a Rede Nacional de Plataformas Logísticas (RNPL): Plataforma Logística Intermodal Regional do Lombe 332ha; Plataforma Logística Intermodal Regional do Soyo 25 hectares; Plataforma Logística Intermodal Regional do Menongue 100 hectares; Plataforma Logística Intermodal Transfronteiriça do Luau – Moxico 100 hectares; Plataforma Logística do Luvu - Zaire 100 hectares; Plataforma Logística Transfronteiriça do Yema – Cabinda 100 hectares; Plataforma Logística Transfronteiriça de Massabi – Cabinda 100 hectares; Plataforma Logística Intermodal Regional do Kuito - Bié 100 hectares; Plataforma Logística Intermodal Regional da Arimba - Huíla 81 hectares; Plataforma Logística Intermodal Regional da Matala - Huíla 100 hectares; Plataforma Logística Transfronteiriça de Santa Clara - Cunene 100 Hectares; Plataforma Logística Intermodal Transfronteiriça de Kimbata – Uíge 100 hectares. Figuras&Negócios - Nº 183 - MARÇO 2017 11

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PÁGINA ABERTA A “noite colonial” estava no auge quando Margarida Paredes teve a “insolência” de realizar em 1971, nas arcadas do actual Banco Nacional de Angola (BNA), em Luanda, uma “exposição de rua” que lhe valeu uma detenção por parte da sinistra Polícia Internacional e Defesa do Estado (PIDE) por ter deduzido que tal amostra constituía uma afronta ao então regime de Lisboa. Naquela altura, Margarida Paredes vivia a «primavera» da sua vida (entenda-se juventude). Contemporânea da Guerra Colonial tomou consciência das injustiças praticadas pelo regime colonial contra os angolanos, o que a levou a aderir ao Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) em 1973, como guerrilheira. Contava, então, com 19 anos. Ela e outras angolanas deram o «corpo ao manifesto» em prol da causa do MPLA de forma abnegada e denodada. Consentiu, a par das suas camaradas de armas, inúmeros sacrifícios para que os propósitos do MPLA vingassem. Até à altura em que se deu o «divórcio político-ideológico». Corria então o ano de 1977. Foi testemunha ocular da tragédia do «27 de Maio». Viu muitas companheiras serem seviciadas e outras levadas ao «paredon». Este é, de resto, o mote de um estudo da ex-guerrilheira e actual Cientista Social Margarida Paredes, transformado num livro que se afigura de transcendental importância para o conhecimento de uma versão da recente História política de Angola no feminino. Intitulado «Combater Duas Vezes: Mulheres Na Luta Armada em Angola», o livro de Margarida Paredes confunde-se com a sua trajectória de vida Texto: Jorge Eurico Fotos: Arquivo da entrevistada em Salvador da Baía, Brasil Figuras&Negócios (F&N) – O seu livro “Combater Duas Vezes, as Mulheres na Luta Armada em Angola”, resultado da sua tese de Doutoramento em Antropologia, versa sobre o papel das mulheres nas Lutas de Libertação e na Guerra Civil. Qual foi, de fac- to, o grau de engajamento da mulher angolana para que se conseguisse ganhar uma bandeira, um hino e um território no dia 11 de Novembro de 1975? Margarida Paredes (M.P). - As mulheres angolanas estiveram em todas as frentes, na luta política e na luta armada. Na luta armada foram muito sacrificadas e correram muitos riscos como provedoras da guerrilha, transportavam armas, plantavam lavras, cuidavam dos guerrilheiros, a logística estava a cargo destas mulheres, a maior parte delas camponesas que depois da independência não foram reconhecidas como guerrilheiras porque não tinham arma e por isso ficaram abandonadas à sua sorte. As mulheres de origem urbana mais escolarizadas também participaram na Luta de Libertação sobretudo na mobilização para a guerrilha, na Educação, na Saúde e algumas como guerrilheiras. No meu livro apresento o testemunho de muitas ex-combatentes que lutaram de armas na mão. Sem a participação das mulheres, a Luta de Libertação anticolonial não teria triunfado e Angola não seria independente. F&N - A Igualdade de género e a emanci- pação feminina em Angola reflecte o que foi a participação da mulher na Luta de Libertação? M.P. – É impossível entender o lugar que as mulheres angolanas ocupam na sociedade hoje em dia, sem entender o que fizeram na Luta de Libertação. A luta pela emancipação feminina em Angola começou quando as mulheres angolanas vestiram um camuflado, pegaram em armas e exigiram participar na Luta de Libertação como guerrilheiras junto com os homens. Esse gesto simbólico e fundador da luta pela igualdade entre homens e “A MULHER FOI DEMARGARIDA PAREDES, CIENTISTA SOCIAL E ANTIGA GUERRILHEIRA DO MPLA: NA LIBERTAÇÃO DE 12 Figuras&Negócios - Nº 183 - MARÇO 2017

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PÁGINA ABERTA ECISIVA E ANGOLA” Figuras&Negócios - Nº 183 - MARÇO 2017 mulheres no MPLA começou com o treino militar de Deolinda Rodrigues e das outras guerrilheiras da coluna “Camy” em Dolisie, no Congo Brazzaville, se não estou em erro em 1966. Considero Deolinda (Rodrigues) uma feminista “avant la lettre”, uma mulher intelectual e emancipada que reflectiu sobre um “Feminismo Negro” antes de este ter sido formulado ou teorizado no continente. A morte de Deolinda (Rodrigues) foi uma perda enorme para a OMA que teria sido muito mais combativa dos Direitos das Mulheres do que tem sido. Fomos testemunhas há dias, na Assembleia Constituinte, das deputadas do MPLA terem defendido a criminalização da Interrupção Voluntária da Gravidez sem se levantar nenhuma voz discordante na bancada. A OMA com esta posição não percebeu que a Interrupção Voluntária da Gravidez não é uma questão moral ou religiosa, é uma questão de Saúde Pública e que a criminalização do aborto condena as mulheres mais pobres a correr risco de vida com abortos clandestinos e a serem julgadas e presas por isso. As deputadas da OMA que defendem a criminalização do aborto, estão contra as mulheres. Veja bem, em Moçambique o aborto foi despenalizado e legalizado, Angola com esta posição junta-se às vozes mais conservadoras e retrógradas do Continente. F&N - Quais são as dificuldades e frustrações das ex-guerrilheiras, hoje, na situação pós-colonial em relação à falta de reconhecimento pelos seus feitos no passado? M.P. - Como se sabe, nenhuma nação no mundo reconhece às mulheres os mesmos direitos que aos homens, mesmo que a Constituição dos seus países garanta que são todos iguais, em Angola não tem sido diferente, os homens foram reconhecidos como os heróis fundadores da nação e as mulheres ainda andam a lutar para verem a sua participação na Luta de Libertação e na construção da nação reconhecida. Há uma grande desigualdade entre homens e mulheres na aplicação da 13

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PÁGINA ABERTA “Lei do Antigo Combatente de Guerra” e no Direito à Protecção Social das ex-combatentes. As mulheres da elite do MPLA têm conseguido reivindicar esse re- conhecimento, algumas foram patenteadas como general, coronel, brigadeiro, major, mas as mulheres das margens sociais dificilmente vêem os seus processos despachados ao que não é alheio à liderança masculina do Ministério dos Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria e do Ministério da Defesa. Mas as principais vítimas desta situação têm sido as guerrilheiras da UNITA que foram afastadas das negociações do Processo de Paz e dos benefícios da desmobilização e da desmilitarização dos exércitos e vivem em situação de grande precariedade sem Direito à Protecção Social. As mulheres da UNITA são as grandes vítimas da guerra, os homens da UNITA, de uma maneira ou outra, viram os seus interesses acautelados. Tenho vários depoimentos de ex-combatentes da UNITA no meu livro que são testemunho do quanto estas mulheres têm sido sacrificadas e da superação pessoal e social que são capazes. F&N - A direcção da UNITA, neste aspecto, deixou as suas guerrilheiras entregues à sua própria sorte, enquanto o Estado vai dando, não a devida, mas alguma atenção? M.P.– As mulheres da UNITA ficaram entregues à própria sorte porque ficaram fora do processo de paz, como já referi. O processo de desmobilização e desmilitarização dos exércitos foi da responsabilidade do Estado angolano sob supervisão da ONU e um dos argumentos adotado para excluir as mulheres da UNITA foi não lhes reconhecer o estatuto de combatente e, assim, relegá-las para o lugar de esposas ou viúvas de combatentes, o que as afastou dos benefícios outorgados aos combatentes. No regresso às cidades muitas nem “ “ (...) Muitos dos res- ponsáveis desta tragédia continuam nas estruturas do Poder e o regime não permite memórias acusatórias que os ponham em questão. Devia ter sido criada uma «Comissão de Verdade e Reconciliação» que abordasse e esclarecesse todos os vazios desta tragédia. As famílias e as novas gerações merecem a verdade conseguiram ter os seus diplomas de professoras ou enfermeiras reconhecidos e há mulheres que ainda não têm os filhos nas escolas porque não têm Bilhete de Identidade. F&N – E as guerrilheiras da FNLA? M.P. – Pelo menos uma das mulheres da FNLA que entrevistei, Ana Maria Conceição Fernandes, tam- bém tinha submetido o seu processo de ex-combatente ao Ministério dos Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria e esperava há vários anos que fosse despachado. A pesquisa que fiz para o meu doutoramento é de 2011, espero que nestes últimos anos a situação se tenha alterado. F&N - Qual foi o papel das mulheres ligadas ao MPLA no processo conhe- cido como «27 de Maio de 1977»? M. P. - Apesar da operação de esquecimento e invisibilidade que existe sobre o papel das mulheres no 27 de Maio de 1977, elas tiveram um papel de liderança na revolta. É sobejamente conhecido o papel da dirigente política, Sita Valles, o próprio Bureau Político do MPLA considerava-a e cito, “a ponta de lança dos novos fraccionistas, na sua estratégia de controlo de todo o movimento”. Na liderança da revolta militar encontramos o Destacamento Feminino das FAPLA comandado por Elvira Maria da Conceição, Virinha, e Fernanda Digrinha Delfino (Nandi), Destacamento que se encontrava integrado na 9.ª Brigada Motorizada. Foram estas oficiais das FAPLA que comandaram os tanques que atacaram a prisão de S. Paulo e a Rádio Nacional na madrugada do dia 27. Nandi estava grávida de 8 meses e isso não a impediu de vestir o camuflado, pegar na arma e subir num tanque de guerra. Na posterior repressão à revolta do 27 de Maio comandada por Agostinho Neto, ambas foram fuziladas, Nandi foi levada pela DISA à maternidade “Lucrécia Paím” para ter o filho, abandonaram a criança na maternidade e depois fuzilaram-na. O filho não tem nome de mãe nem de pai na Certidão de Nascimento ou no Bilhete de Identidade e em criança chamavam- lhe o “Filho da Fraccionista”. A repressão pós-27 de Maio abateu-se 14 Figuras&Negócios - Nº 183 - MARÇO 2017

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ENTREVISTA I PÁGINA ABERTA Figuras&Negócios - Nº 183 - MARÇO 2017 15

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