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ano 9 2011 janeiro · fevereiro · março · abril distribuiÇão gratuita
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f aceaface olhar f diva fotografada por chico canhão na década de 80.
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eminino por mário ivo cavalcanti ada fotografada por ney douglas em 2010.
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reunir diva cunha e ada lima em uma mesma conversa é coincidir duas trajetórias poéticas e profissionais que a distância geracional só aproxima enquanto ada aos 25 parte para seu segundo livro diva já publicou seu quinto de poesia que vem se juntar a outros quatro na área de crítica e pesquisa literária enquanto diva se dizia da pá virada a da vida torta em sua estréia tardia ada à época com dois anos se definiria depois e igualmente estreante como uma menina gauche não à toa ambas recorrem à loucura para descrever seus inícios acadêmicos ada apenas entrando no mestrado diva aposentada da ufrn e ainda mergulhada em leituras pesquisas estudos e de volta às salas de aula em um eterno e saudável recomeço diva como não sou disciplinada enchi o meu dia de aulas estou assim pareço uma estudante não saio do cefet ada eu saí do jornal justamente pra poder me preparar para a seleção do mestrado diva mas você é formada em letras ou jornalismo ada eu me formei em jornalismo em 2004 letras em 2010 e ingressei agora no programa de pós-graduação em estudos da linguagem da ufrn na área de linguística aplicada diva eu tinha 23 anos quando comecei a ensinar e de cara me deram quatro turmas o curso de letras tinha sido federalizado era um dos grandes empregos da época todo mundo querendo ser melhor e eu fiquei louca só vivia pra estudar larguei jornalismo e fui ensinar literatura portuguesa hoje quando faço uma retrospectiva reconheço que aprendi literatura com a literatura portuguesa que por sua vez aprendi ensinando eu não tinha sido uma boa aluna foi a época das greves 68 eu vivia fazendo discurso em cima das mesas estudar que era bom ada eu já era o contrário nunca me envolvi com o movimento estudantil diva sim mas você viveu outros tempos as coisas estão frias ada a última greve que eu peguei foi quando eu fazia jornalismo 2000 2001 uma greve que durou três meses diva meu curso de letras pegou o auge da confusão além das grandes bandeiras nacionais aqui tinha também o problema específico da faculdade de filosofia letras e artes que era estadual e queria ser federalizada e eu da esquerda festiva perdia meu tempo fazendo barulho fui estudar quando passei no concurso e me vi diante de quatro turmas pra ensinar foi duro mas foi bom no início dos anos 70 quando o mestrado chegou ao brasil eu desesperada decidi sair houve um seminário na academia norterriograndense de letras sobre literatura brasileira e trouxeram gilberto mendonça teles que me encaminhou para um mestrado na puc no rio de janeiro foi importantíssimo na minha vida foi quando eu conheci os professores que estavam na onda silviano santiago cleonice berardinelli pra quem vive aqui é preciso sair ada você terminou o mestrado e voltou logo pra natal diva É tirei licença de três anos defendi a tese e voltei pra cá nesse ínterim minha vida mudou no terceiro ano eu estava grávida e fiquei viúva esse período também foi muito importante porque foi no rio que eu conheci minha parceira intelectual constância lima duarte o professor waldson pinheiro era o chefe de departamento e como a ufrn estava crescendo me pediu para que eu indicasse alguns colegas para o cargo de professor visitante mas ninguém quis porque natal era uma vi formatura em letras 2010 ada arquivo pessoal
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lazinha em 78 isso aqui era uma beira de praia era uma delícia mas ninguém queria ficar num lugar que não era um centro de irradiação ada não tinha tradição nenhuma em pesquisa diva nada eu falei com silviano e ele disse e os seus amigos meus amigos eram constância e eduardo duarte e eu disse mas eles também não querem mas como eles precisam ao menos conhecer aí eles vieram e foi muito importante porque fizemos uma parceria eu e constância primeiro em literatura portuguesa e depois passamos para a literatura do rio grande do norte preÁ quando começou esse interesse pela literatura potiguar diva interesse eu sempre tive mas não tinha livro não tinha nada alguém fazia uma conferência você corria para assistir tarcísio gurgel na apresentação da informação da literatura potiguar conta como eu participando de uma de suas palestras pedi tarcísio pelo amor de deus escreva escreva o que você sabe foi um interesse que foi crescendo eu convivia muito com vicente serejo e ele já naquela época tinha aquela preocupação de colecionador e me passava algumas coisas constância por outro lado resolveu que o tema do seu doutorado seria nísia floresta e começou a procurar material para ver se justificava então nós fomos descobrindo procurando mas foi uma dessas coisas que acontecem a onda preÁ uma onda que vocês criaram diva sim mas esse vocês não somos só eu e constância tem mais gente hoje a gente vê pessoas como ana laudelina lançando um livro sobre auta de souza em são paulo ada eu não vou mentir eu conheço muito pouco da literatura daqui tenho até vergonha de falar diva mas não tenha não você é novinha ada quando eu entrei no curso de letras meu interesse maior era literatura especialmente fernando pessoa que é minha grande paixão fui me apai xonando pela área de linguística e não larguei mais atualmente estou com um projeto sobre quadrinhos a construção de sentido no gênero diva esses interesses a gente vai despertando aos poucos eu sempre gostei de literatura sempre fui apaixonada desde menina que vivia agarrada com os livros e quando entrei para a vida acadêmica fui levada para a literatura portuguesa quando eu comecei a en trar na literatura do rn eu senti um prazer uma alegria tão grande tanto assim que a proposta inicial da minha tese de doutorado eu fiz os créditos e a qualificação na espanha era inspirada em câmara cascudo no estudo dos temas espanhóis na cultura brasileira que ele propõe no prefácio de uma edição do dom quixote cheguei a conversar com manoel onofre jr com marcos silva mas quando apresentei ao orientador ele começou a cortar cortar corfoto arquivo pessoal formatura em letras 1969 diva e djair dantas.
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tar à maneira do europeu que diz que não pode ser amplo assim ada tem que ter um foco diva corta isso corta isso corta isso terminou só a festa de são joão resultado perdi o interesse achei que tinha ficado muito limitado foi quando optei por estudar uma revista de cultura brasileira que a embaixada publica na espanha preÁ você fez o estudo também da via-láctea [revista feminina/literária de palmyra e carolina wanderley publicada no rn entre 1914 e 1915 diva mas nós fizemos apenas a introdução à edição fac-similar não é um estudo aprofundado a via-láctea dá dissertação e tese preÁ a propósito existe uma literatura feminina ada literatura ponto não gosto da divisão feminina potiguar literatura boa é universal você escreve e em qualquer canto do mundo alguém se toca alguém se arrepia diva mas isso é o bonito de se dizer na verdade a gente sabe que não funciona aqui na prática na prática ada na academia principalmente diva você sabe disso eu também acho que literatura boa é universal mas se a gente não estudar o autor potiguar quem vai estudar quem se o melhor que a gente tem que foi jorge fernandes melhor no sentido do contexto da época não chegou lá fora cada estado vai valorizar o seu ele até valoriza o outro mas primeiro ele valoriza o dele agora nós precisamos da crítica já tivemos não temos mais mas dizem que no brasil não existe crítica ada eu ia dizer isso diva os jornais fazem apenas resenha ada se brincar sem nem ter lido o livro preÁ e ada que começou a escrever na época da internet sente que a sua poesia é mais facilmente lida lá fora ada cara ninguém lê o que eu escrevo [risos eu sou ruim demais de divulgação e não tenho disciplina para alimentar o blog [www.meninagauche.blogger.com br o meu tem uns dois meses sem no diva aos 17 carnaval em recife foto arquivo pessoal
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literatura boa é universal você escreve e em qualquer canto do mundo alguém se toca alguém se arrepia eu também acho que literatura boa é universal mas se a gente não estudar o autor potiguar quem vai estudar quem vidade até porque eu não tenho parado para escrever começou essa seleção do mestrado eu comecei a enlouquecer ficou blog ficou livro tudo lá de lado o livro estava praticamente pronto ainda bem diva como é o nome do seu novo livro ada Águas preÁ vocês duas são da área acadêmica e são poetas como é conciliar esses dois labores diva eu penso que foi o fato de ter sido professora de literatura que me ajudou muito a poesia portuguesa é de um rigor muito grande e só me apurou burilou e me mostrou que eu não era nada excepcional não ada o bom da academia é que você acaba encontrando muita gente interessada em literatura em leitura em geral você troca idéias às vezes você escreve uma coisa passa pra outra pessoa e ali dentro você recebe um comentário um incentivo e isso só ajuda diva fora você não sabe de nada infelizmente a coisa está assim você publica um livro sai uma matéria seu retrato no jornal alguns segundos na televisão depois aquilo ali ada morre eu acho que lá dentro você tem mais facilidade pra divulgar pra trocar uma idéia preÁ mas por ser a vida profissional mais urgente mais necessária do que a vida de digamos poeta o ato de escrever não termina ficando em segundo plano ada escrever é trabalhoso não é acordar e ter uma idéia a ser desenvolvida por uma entidade fernando pessoa diz que escreveu de uma vez mais de 30 poemas de pé sobre uma cômoda beleza ele era genial gente comum como eu não faz isso eu preciso de um pouquinho de ócio pra sentar escrever e trabalhar um poema diva mas às vezes não significa que você vai saber usar o muito tempo que você tem disponível eu estou num momento da vida diferente da sua e posso dizer que tenho todo o tempo pra mim sou eu quem ocupo meu tempo mas sou eu que me matriculei em não sei quantas aulas e estou agora correndo de um lado pra outro já me perguntei eu transformei minha vida num entra-esai estou fugindo de quem de mim de mim mesma de sentar e estudar estudar que eu digo é ler porque eu acho que a gente só escreve ada se você ler claro diva Às vezes eu digo aos livros na estante não falem comigo pelo amor de deus porque se eu começar a ler não paro mais e realmente é muito bom mas é muito forte mexe muito eu não sei como você se sente ada mas eu não concordo com aquela regra de 5 de inspiração e 95 de transpiração ada eu concordo diva eu não concordo não senão todo mundo estava escrevendo existe alguma outra coisa existem mais coisas existe aquele desejo de colocar aquilo no papel de ser lido de expressar agora que pede sim muita leitura muito trabalho muita dedicação preÁ e existe antes de tudo uma forma diferente de ver o mundo e a poesia de vocês tem muito disso ada já falou que não acredita em poesia feminina mas existe uma forma diferente diva eu acredito ada não é que eu não acredito eu não gosto da maneira que as pessoas querem separar botar as coisas em gavetas diva inclusive às vezes para desvalorizar ada isso diva existe porque eu sou mulher porque eu fui criada de um modo vou começar pela minha história eu era a mais velha de cinco irmãos todos os quatro homens mamãe tinha uma lei pra mim e outra pra eles como é que eu vou ser igual a eles eu até queria só queria brincar com eles de caubói e como eu não morria nunca eles me expulsavam mas era um mundo pras mulheres e um mundo pros homens pode ser até que agora para as meninas das gerações mais novas seja diferente mas eu fui
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criada de outra maneira e esses anos foram fundamentais na minha vida o mundo das mulheres era outro mundo os meninos podiam ficar na rua soltos eu não podia começa por aí agora eu acho que a experiência feminina é algo muito forte ada talvez o olhar da gente seja um olhar diferenciado diva eu não acho que somos iguais aos homens eu quero os mesmos direitos mas somos diferentes deles a mulher menstrua a mulher engravida mas queremos as mesmas chances de emprego e as mesmas condições de salário hoje eu ouvi duas mulheres conversando sobre um cara que matou a mulher e a amante quantos casos você ouve de uma mulher matar o homem a mulher ainda é vista como objeto como posse a cultura é machista e nós estamos inseridas nela então nós vamos escrever de uma maneira diferente eu tenho lido com cuidado as autoras potiguares e é como se a gente estivesse escrevendo o mesmo texto são muitas mãos escrevendo o mesmo texto o mesmo olhar a mesma maneira de encarar a vida preÁ você lançou seu primeiro livro tarde diva com mais de 38 anos e lá vai fumaça quando eu fiz vestibular eu já tinha minhas obras completas você imagine um cadernão com uns 300 poemas aos 18 anos ada os meus eu dei fim a eles aos 13 anos de idade eu joguei tudo fora diva e esse cadernão já era o resultado de milhões de caderninhos de papeizinhos milhões de coisas que mamãe mostrava para a rua to-di-nha o pior era isso ada os meus eu escondia ninguém nem chegou a ver diva eu desenhava ilustrava escrevia as historinhas quando eu estava no colégio era muito amiga de uma prima de lêda mulher de luís carlos guimarães e ainda estudante eu frequentava a casa deles conversava muito com ele quando entrei na faculdade mostrei o caderno a luís carlos que passou para eulício [farias de lacerda escritor paraibano que viveu em natal esse caderno rodou na fundação josé augusto e disseram que iam publicar mas não publicaram e me devolveram e eu deixei na casa de mamãe e se perdeu hoje eu me arrependo profundamente preÁ eram as obras completas diva eram eu queria um verso se salvasse um verso já valia a pena me dói muito porque ali deve ter tido algum verso ora no auge da juventude dava pra salvar alguma coisa hoje eu sei cortar hoje pra escapar da minha tesoura outro motivo para eu ter demorado a publicar foi quando eu comecei a estudar literatura portuguesa e a achar que o que eu escrevia não prestava pra nada continuei escrevendo porque era uma pulsão muito forte mas escondido quem primeiro publicou meus poemas foi a revista grande ponto de socorro trindad eu lembro que ia passando no centro de convivência da ufrn quando zila [mamede me chamou diva você está escondendo o leite mas eu tinha uma vergonha tanto que no primeiro livro canto de página [1986 eu venho protegida por serejo e luís carlos na apresentação e eduardo assis [duarte no posfácio ada no meu caso o que ajudou foi a internet eu comecei a escrever para não perder mais o que escrevia no papel e criei um blog que só eu sabia o endereço mostrei para um amigo que mostrou para outro que também tinha um blog que foi lido por um colega que deu uma notinha no jornal aí o meu pai [o poeta adriano de sousa que não sabia que eu escrevia descobriu meu blog assim e como na época ele estava criando a editora flor do sal um dos três primeiros livros publicados foi o meu agora quando eu pego esse primeiro livro às vezes eu tenho vergonha de umas coisas meu deus eu não teria escrito isso assim isso não está legal diva mas vai ser assim a vida toda se você soubesse o corte que eu dei em resina hoje eu me arrependo paulo de tarso [correia de melo disse não faça isso marize que editou eu você não fazia quando eu descobri o tal do enxugar o texto agora eu quero enxugar quero enxugar ah meu deus a palavra como dá trabalho como dói às vezes fazer um poema às vezes eu digo aos livros na estante não falem comigo pelo amor de deus
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diva josé bezerra gomes quando luís carlos organizava a sua antologia todo dia ia na fundação josé augusto e cortava um verso [ver artigo e poemas a partir da página 86 vira mania quando vilma arêas veio passar um verão aqui na redinha ela me aconselhou muito a cortar foi fundamental para meu primeiro livro eu não sabia cortar e ela mesma meteu a tesoura mas a gente não pode cortar demais senão os poemas perdem o nexo ada no meu caso eu me arrependo quando vejo os excessos de alguns poemas preÁ essa é mais uma coincidência na poesia de vocês poemas curtos quanto ao tema percebe-se em diva um certo ar doméstico a casa é ada muito presente diva mas a casa pode ser uma metáfora é só uma metáfora ada mas a figura da casa está sempre lá preÁ vocês também coincidem na reflexão do fazer poético há uma autoreferência da poeta da poesia no próprio poema ada É uma angústia permanente isso diva a poesia brasileira como um todo tem essa consciência desde o final do século 19 desde o simbolismo a própria auta de souza eu sou apaixonada por auta tem um poema onde diz que procurava nos seus olhos apenas motivo para escrever versos essa consciência é muito forte e se a gente não tivesse agora um século depois ada tem que ter diva saber que é um trabalho com a palavra ada existe também um quê muito forte de autocrítica de nunca ficar satisfeito É um traço meu do meu comportamento da minha personalidade que acaba se refletindo na minha atividade como poeta você escreve acha que não está legal vem aquela angústia ah meu deus a palavra como dá trabalho como dói às vezes fazer um poema Às vezes você evoca coisas que estão lá ada aos 27 em natal foto giovanna hackradt ada eu tenho mania de enxugar desde sempre os poemas têm dois versos três quatro é só retalhando
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dentro que você não lembrava mais e aquilo vai fluindo diva mas é um fenômeno muito forte né lá estou eu tomando a palavra ada pode falar fique à vontade diva tenha cuidado comigo eu sou sagitariana qual é o seu signo ada canceriana diva [risos eu gosto dessas coisas viu ada canceriana com ascendente em Áries diva mas é um fenômeno incrível um dia eu estava trabalhando na tese de castigo no birô e sem mais nem menos me chega como se eu estivesse vendo uma figura que eu conheci quando eu era menina ada nossa de vez em quando acontece diva foi um negócio tão forte que eu comecei a ver aquela mulher que deve ter morrido há uns 40 anos ada e aí você precisa escrever pelo menos é o que acontece comigo diva uma pessoa que eu nunca pensei que eu pensasse nessa pessoa como na época eu estava numa discussão com joão cabral de melo neto estudando sua obra escrevi o poema arremedando joão cabral [recita o poema d maria cândida que termina com os versos de que vivia velha senhora que volta a viver fora de hora ada eu lembro desse poema eu li o resina há uns quatro meses diva eu devo ter feito umas correções cortado alguma coisa mas saiu quase do jeito que eu escrevi no momento eu queria ser pintora pra pintar aquela imagem maravilhosa que me surgiu aí escrevi já esse outro mãe ninha eu levei uns cinco anos escrevendo por isso que se não se quer usar o nome inspiração porque todo mundo condena por ser usado facilmente mude-se o nome não é inspiração é um desejo uma paixão ada um impulso uma vontade uma lembrança diva é uma paixão fortíssima mais forte que você tudo na sua vida embora você fuja dela como o diabo da cruz ada ela persegue você diva porque ela lhe trucida porque você não tem hora não tem dia não tem nada eu tenho consciência que eu fujo muito de escrever e agora eu estou numa entressafra o refluxo da maré ada a minha já dura meses diva eu também esse livro [resina levou muito de mim ada É engraçado isso quando nasce um livro você precisa de um tempo pra se recuperar diva É como se fosse ainda a época de amamentar o filhote [risos eu também queria escrever outras coisas foto arquivo pessoal diva estreando em sala de aula 1971 primeiro lugar no concurso da ufrn.
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eu preciso de um pouquinho de ócio pra sentar escrever e trabalhar um poema ada eu durante um tempo escrevi artigos mas tenho mais dificuldade em escrever em prosa diva mas são tão boas aquelas crônicas do novo jornal quantas você publicou ada acho que umas dez diva por que não vai sair nesse novo livro já está pronto ada já são só poemas diva mas no próximo coloque também as crônicas os textos são bons acho que você tem jeito eu tenho uma ambição pela prosa uma vontade que não seja apenas teorizar sobre mulher e literatura literatura do rn preÁ quais poetas vocês lêem ada manoel de barros é o primeiro nome que me vem adoro tenho lido também josé paulo paes ana cristina cesar eliot borges eu não conhecia borges até entrar no curso de letras e sou eternamente grata ao professor francisco ivan que me apresentou mas quando me perguntam de um poeta o nome é manoel de barros aquela coisa de ver nas coisas simples do dia-a-dia uma beleza preÁ e sua poesia tem muito pouco a ver com a dele diva É isso que eu ia dizer ada não tem nada a ver mas eu adoro preÁ a sua tem muito a ver com a de diva e vice-versa por exemplo a presença do homem ada não como gênero preÁ como gênero masculino sim ada ah é verdade tem uma coisa ou outra a pessoa escreve um livro e não lembra mais o que fez é uma vergonha [risos preÁ esse por exemplo lembra muito diva ele me levou tudo das palavras escondidas às roupas no varal ada sutil como um serial killer eu nem lembrava mais desse diva É aquilo que eu disse como as mulheres conseguiram escrever e publicar apenas recentemente isso é uma vitória da metade do século passado para cá estamos indo na mesma direção embora ada seja muito mais nova do que eu ada você não falou dos seus poetas diva manuel bandeira quando você falou em manoel eu pensei será que é o meu não não era o meu manuel bandeira foi uma paixão de infância cecília meireles minha filha se chama cecília a poesia brasileira como um todo li demais os românticos ada nossa os românticos minha primeira experiência com poesia foi justamente através de uma coleção de autores românticos as três gerações uma encadernação linda dourada minha avó guardava lá no alto da estante casimiro de abreu castro alves é uma paixão fortíssima mais forte que você embora você fuja dela como o diabo da cruz ada a gente já teoriza tanto na universidade tem que ter um escapezinho diva se fala muito que aqui só tem poeta não tem prosador mas não acho que seja uma vocação só do rn quem são os prosadores de hoje por exemplo do ceará que você conhece deve ter ada mas está escondido preÁ fica tudo muito regionalizado e o centro continua sendo são paulo e rio ou autores que migraram pra lá diva como migraram todos os pernambucanos manuel bandeira joão cabral de melo neto ada também porque as grandes editoras estão lá diva e os jornais ada parte da crítica a mídia mais forte está lá preÁ entre os poetas potiguares talvez quem tenha tido mais destaque foi zila mamede diva sim e veja que zila publicava muito nos jornais do recife onde fez muitas amizades preÁ o próprio joão cabral ada sim mas joão cabral foi mais tarde na década de 50 era mais o pessoal do recife mesmo ela escreve pra manuel bandeira vai ao rio onde conhece bandeira que interfere na obtenção de uma bolsa de estudos para cursar biblioteconomia era uma mulher muito articulada menina gauche a estréia de ada foto fábio farias
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diva comigo também poesia brasileira e também nessas edições antigas eu lia tanto era muito marcada a contagem das sílabas né que eu acordava fazendo versos e contando sílabas ada nos seus primeiros poemas tinha uma influência do que você lia porque com 12 13 anos eu lia os parnasianos e tudo que eu escrevia tinha de ter quartetos tercetos rimas senão eu não ficava satisfeita diva tinha É um exercício importante mas meus mestres até porque eu não lia em inglês e só um pouquinho em francês eram todos da poesia brasileira e depois já ensinando na universidade os portugueses ada e fernando pessoa pelo amor de deus tinha esquecido diva a literatura portuguesa como um todo é uma literatura de qualidade o que eles têm de pequeninho uma tirinha de terra no final do continente enquanto os autores brasileiros foram lidos quando eu era jovem por deleite por prazer a leitura dos portugueses veio acompanhada dessa exigência de aprender para ensinar até hoje sou impressionada com fiama hasse pais brandão uma portuguesa sophia de mello breyner mas tem que ler mais traduzir quanto mais estudar melhor e sem esperar muita coisa fazer simplesmente nosso ofício preÁ você está falando de reconhecimento incomoda não ter o reconhecimento diva incomoda Às vezes a gente vê resenhas muito boas nos jornais nacionais e quando vai ler o livro meu deus aqui no estado não só eu estamos fazendo coisa talvez melhor aí eu digo tudo bem escrevo porque é o que me toca ada talvez por eu ser muito na minha por ser muito bicho-do-mato eu não ligo muito que não me leiam que não saibam quem eu sou talvez daqui a alguns anos isso mude se eu continuar escrevendo diva espero que sim ada É bom você saber que de alguma forma tocou alguém que alguém leu seu poema e se arrepiou mas não fico esperando louros da crítica fico mais feliz quando alguém mais próximo é sincero e diz se gostou ou não gostou preÁ mas enquanto acadêmicas vocês esperam de no futuro ter a obra estudada reconhecida ada acho tão distante isso diva [risos acho que a minha já está sendo estudada já aconteceram alguns seminários e eu não vivo pra isso meu sonho maior é reescrever palmyra wanderley preÁ o roseira brava como seria essa reescritura diva pegar os poemas antropofagicamente devorar e devolver ela escreve sobre natal quando era uma coisinha uma cidadezinha nas dunas quando me dá um desespero olhar para essa cidade cimentada amuralhada eu corro pra ler palmyra ela não teve uma crítica a orientá-la a sugerir cortes arrumar melhor acho desarrumada a sua poesia preÁ e ada algum sonho alguma vontade apenas deságüe em mim e faça surgir um coração em meu ventre ada lima
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ada [demora a responder escrever melhor do que eu escrevo hoje eu nunca estou plenamente satisfeita esse segundo livro é mais maduro coeso do que o outro e tenho certeza de que daqui a um ano dois eu vou querer fazer um melhor preÁ diva está na fase de olhar pra trás de rever o que foi escrito diva quando eu fui homenageada juntamente com uma poeta portuguesa em um seminário realizado aqui em natal e disse que não tinha nada novo me sugeriram uma antologia mas eu saí catando e descobri uns 80 novos poemas além dos três primeiros livros esgotados o resultado está em resina preÁ e ser filha de poeta ada interfere na sua produção ada não eu admiro muito a poesia dele é uma referência pra mim mas tenho consciência de que a minha produção é muito diferente Às vezes acontece uma comparação ah porque ela é filha de adriano ah mas a poesia dela é diferente diva primeiro por que ele é homem ada [risos É isso já é uma característica bem diferente eu até fiquei lisonjeada quando descobri que ele lia o que eu escrevia e gostava preÁ quem escreve sempre passa por um momento em que descobre alguém que acha tão bom que se sente até intimidado em continuar escrevendo ada comigo nunca aconteceu diva quando eu fui trabalhar com a literatura portuguesa quando conhecei fiama hasse eu passei por isso já com cecília meireles foi diferente ela me levou a escrever ler um bom poema tanto pode levar a procurar escrever tão bem quanto também a se retrair nunca vou chegar a ele preÁ pra concluir diva termino por onde comecei falando da literatura do rn desse grupo de mulheres É muito interessante quando você olha pra trás e vê que há cem anos as mulheres não escreviam não publicavam ou quando escreviam não conseguiam publicar lygia fagundes telles conta uma história interessante no século 19 as mulheres escreviam escondido e quando morriam pediam pra botar o caderninho de versos dentro do caixão uma coisa tão delas tão íntima que não podiam mostrar a ninguém isso me comove muito de repente as mulheres estão aí escrevendo até muitas coisas fortes abrindo o coração me sinto irmanada com todas a boa poesia como um todo como ada disse é universal mas neste momento específico estou pensando nessa movimentação das mulheres em busca de uma voz de um lugar na sociedade ada e eu preciso lê-las diva pode ter certeza porque você vai se encontrar e se superar pra concluir só dizer que a poesia está viva viva a poesia ada amém mário ivo cavalcanti é jornalista e editor da preá homem bicho frouxo passa pelo mundo sem tilar sujou as mãos corre pra lavar imagina o homem quatro dias e aquele sangue aquele cheiro impregnado nas paredes da casa imagina o mundo crescendo redondo na barriga de um macho desses nem nascia o novo nem se fundava a história diva cunha
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