Revista Prea n° 07

 

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Revista Prea n° 07

Popular Pages


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natal rn n° 7 julho 2004 entrevista onofre lopes júnior ensaio fotográfico piÃo sítio novo a arte que brota entre as serras são miguel celeiro de raras tradições culturais

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por david clemente o s jardins do teatro alberto maranhão tam fizeram as vezes de palco na noite de 29 de abril artistas produtores musicais jornalistas e convidados se reuniram para assistir ao anúncio dos indicados ao 6o prêmio hangar de música o evento que já se consolidou como o mais importante prêmio da música potiguar será realizado em julho serão entregues 34 troféus clave do sol confeccionados pelo artista plástico guaracy gabriel sendo quatro deles a homenageados os demais prêmios estão divididos nas categorias local especial nordeste e nacional a exemplo do ano anterior em 2004 a divulgação dos vencedores também deve ser feita no palco do tam as cinco edições do prêmio hangar já confirmam sua importância para o cenário cultural do estado para o cantor potiguar joão batista projetado pelo programa fama da rede globo e vencedor do hangar como revelação de 2002 pelo júri popular o prêmio valoriza a cultura da terra além de servir de vitrine para o que o restante do país conheça a produção cultural local ele também parabeniza o banco do brasil pela iniciativa de apoiar o evento É difícil encontrar uma instituição que valorize efetivamente a cultura e os artistas É preciso seguir esse exemplo diz o vj da mtv max fivelinha que foi um dos apresentadores da 5ª edição do prêmio hangar e também esteve presente na divulgação dos indicados deste ano já se prontificou a comparecer mais uma vez ao evento conhecido do público pelo seu gosto por alfinetar o apresentador é só elogios quando perguntado sobre o prêmio quanto à participação do banco do brasil ele é enfático É o máximo exclama enquanto os vencedores não são conhecidos artista e público aguardam ansiosos se tem talento pode ser você.

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o jornalista e escritor osório almeida conta porque quer ser vereador a palavra da casa expediente/cartas ele é um só palácio do salineiro 5 6 12 13 viagem ao universo de marcelus bob 8 um stalinista sonha com o parlamento 14 o fotógrafo teotônio roque em ensaio resgata uma antiga brincadeira o jogo de pião tombada casa do homem que encantou mário de andrade chico antônio cem anos depois ensaio fotográfico pião por acaso o horóscopo 20 21 23 29 30 32 34 36 38 42 45 49 65 75 83 84 abandonos conto de nádia maria silveira tem a cidade de santa cruz como cenário abandonos algumas considerações sobre o dia de bloom leontino filho a saga e o segredo de urdir os restos do lirismo amoroso o poeta e teórico de quadrinhos moacy cirne critica comemoração de o dia de bloom em natal o tempo como um espaço para a solidão pablo neruda escritura potiguar mário gerson são miguel celeiro de raras tradições culturais entrevista onofre lopes júnior oficinas constroem identidade e cidadania 40 oficinas de fotografia e identidade da zoon movimentam o interior do estado 4 julho 2004 sítio novo a arte que brota entre as serras 13 por 1 ps

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a palavra da casa o cego aderaldo definia as cores pelas sensações uma espécie de conceituação shopenhauneana o vermelho era a cor da inquietação o azul lhe parecia sossego não estou tratando da simbologia plástica e acadêmica das cores isso é assunto de intelectuais e eu não sou intelectual aliás nem tenho paciência com intelectuais o certo é que o cego aderaldo que não deveria ser chamado de cego mas de o cantador aderaldo tinha sua própria convicção das sensações pictóricas e deliciava o pe alexandrino suassuna em cujo sítio se hospedava quando fazia cantorias pelo sertão potiguar com seus conceitos nada ortodoxos definia o caçuá pela sensação do grosseiro e não pelos contornos do couro cru explicava que os cambitos postos na cangalha para transportar lenha lhe transmitiam a impressão do amparo o verde lhe dava a fotografia do amanhecer mas você também não vê o amanhecer retrucava o pe alexandrino ninguém vê o amanhecer ele se derrama antes do olhar dizia aderaldo que reafirmava ser verde o amanhecer o roxo tem a cor do choro e o amarelo é tão instável quanto o vôo do beija-flor a ser verdade ou o que é verdade da pergunta de pilatos é pouco provável que aderaldo fosse ingênuo ele via mesmo cada cor no seu jeito e na sua capacidade de sublimar a visão daí se concluir que ninguém vê o verde ou da lição de ortega y gasset quem está no bosque não vê o bosque vê árvores do bosque ou ainda quem mora próximo à cascata não escuta o seu estrondo este texto da abertura da preá número sete é uma homenagem a dois homens especiais especiais e diferentes o cantador aderaldo e seu amigo e hospedeiro o pe alexandrino suassuna de alencar aderaldo e sua viola imbatível seus versos e rimas que sacudiam os alpendres alexandrino e sua fé duvidosa o afastamento da vida sacerdotal a leitura dos gregos e latinos a dúvida sobre os dogmas e a ironia fina contra a liturgia além da coragem pessoal que não escolhia adversário fosse um bispo reacionário ou um cangaceiro que cercasse a fazenda cajuais alexandrino morreu em 1955 aderaldo ainda viveu doze anos porém nunca mais andou praquelas bandas aderaldo ferreira de araújo fazia da viola os seus olhos de debulhar o escuro e transformar em luz o código da música popular a noite era pequena e fugaz na fumaça dos cigarros e no bule de café que acompanhavam a conversa daqueles dois homens encharcados de dúvidas e solidão taí a preá número sete pintando o sete julho 2004 5

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fundaÇÃo josÉ augusto rua jundiaí 641 tirol cep 59020-120 fone/fax 84 232.5327/232.5304 governadora wilma maria de faria presidente françois silvestre de alencar diretor josé antônio pinheiro da câmara filho preÁ revista de cultura do rio grande do norte issn 1679-4176 ano ii nº 7 julho/2004 distribuiÇÃo gratuita periodicidade trimestral editor tÁcito costa tacito@fiern.org.br editor assistente gustavo porpino gporpino@hotmail.com estagiÁrio david clemente projeto grÁfico e diagramaÇÃo lucio masaaki infinitaimagem@bol.com.br assistente de diagramaÇÃo virginia helena lins maia revisor josÉ albano da silveira capa marcelus bob julho 2004 c a r ta s sr editor este final de semana tive o prazer de desfrutar de ótimas leituras dentre as quais os artigos da revista preÁ 6 quero parabenizá-lo pela apresentação fotografia linguagem simples acessível e de muito conteúdo que encontrei em cada página da revista conhecer pessoas poetas poemas escritores casos causos lugares é realmente algo muito prazeroso adorei a capa como é linda a flor da mangabeira não tinha ainda prestado atenção a entrevista com nei leandro de castro foi dez enfim gostei demais um grande abraço apre á e s t á nainternet w w w f j a r n g o v b r waldenice m cardoso funcionária do senai natal-rn sr editor parabéns pelo nº 6 da preá uma revista de nível nacional gostei de todas as matérias mas tenho reparos a fazer na minha entrevista em primeiro lugar acho que falei muito parece até que tomei chá de fidel castro e presidente lula como quem fala muito está sujeito a cometer mais erros eu cometi um lapso terrível não incluí na lista dos velhos e queridos amigos os nomes de luiz antônio porpino maria emília wanderley e leda guimarães a omissão é imperdoável mas almas generosas esse amigo e essas amigas haverão de me perdoar nei leandro de castro escritor rio de janeiro-rj sr editor conheci a preá por intermédio de amigos e hoje é um instrumento importante nas minhas aulas de artes cultura e economia do rn o seu conteúdo expressa o que é de mais importante no cenário cultural do nosso estado a fundação josé augusto está de parabéns flávio josé professor florânia-rn 6

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r evistaprea r n g o v b r sr editor chegou-me às mãos um exemplar da preá nº 5 bela revista composição primorosa conteúdo de primeira qualidade não só para estudiosos e pesquisadores mas para todos que vivem as diferentes manifestações culturais do nosso imenso país parabéns pela iniciativa e realização sou pesquisadora de folclore e professora gostaria de receber a assinatura da preá É mesmo gratuita no aguardo agradeço a atenção sr editor É com muita satisfação que recebo a preá aqui em atibaia são paulo entrar em contato com o que se faz pelo brasil afora para se preservar nossos valores culturais muito me alegra mais ainda com textos do leontino bartolomeu campos os poemas sempre a surpreender e a reportagem sobre cascudo na década de 80 um pouco por acaso encontrei seus livros em uma biblioteca aqui na região escrevi inclusive alguns contos inspirados em suas idéias cujo teor precisaria rever continuem a me enviar a revista tudo que é regional e tem esse caráter universalizante é de meu interesse abraços thelma regina siqueira linhares pesquisadora recife/pe sr editor gostaria de expressar minha satisfação em ler pela primeira vez esta bela revista que mostra a arte e a cultura do rio grande do norte também queria saber como passar a recebê-la pois lendo o exemplar de uma amiga me interessei pela mesma gostaria de saber se posso também conseguir os exemplares anteriores um grande abraço carlos alberto pessoa rosa médico-escritor atibaia-sp sr editor sou estudante do ensino médio adoro leitura e gostaria de passar a receber a revista preá gosto de aprofundar-me nos assuntos que a revista aborda porque elas servem para o nosso futuro para a vida de cada um servindo também para trabalhos em grupo na escola e com meus amigos do grupo de teatro de que faço parte felicitações a todos alcimar almeida da silva representante de eventos Água nova-rn sr editor de posse da preá 2 enquanto escritora/poetisa e professora de artes em ipueira gostaria de parabenizar os enfoques dados à poesia e ao resgate da cultura aproveito para solicitar informações sobre como receber exemplares dessa revista tão benéfica para o setor educacional será uma honra trabalhar em sala de aula com artigos diversificados sobre a cultura artística numa visão ampla do fazer arte a partir da preá assim espero um retorno carinhosamente franklin josé miranda estudante florânia-rn sr editor adorei a revista já posso dizer que descobri uma das coisas desta vida pela qual como dizia o poeta eu já sentia saudade antes mesmo de conhecer tudo está caprichado sinto qualidade em todos os detalhes você está de parabéns juntamente com todo o grupo nós também por contarmos com sua competência um forte abraço naide lopes de morais ipueira -rn rosa cavalcante engenheira natal-rn julho 2004 7

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viagem ao universo de marcelus bob por moura neto fotos anchieta xavier e acervo do entrevistado m ãe luíza ainda não era um bairro urbanizado mas do alto do morro descortinava-se uma das mais belas visões panorâmicas da cidade numa noite enluarada odete do carmo saiu do seu barraco chamou o filho mais velho marcelino na época com uns sete anos de idade e lhe disse sempre que tiver a oportunidade de ver uma paisagem dessa pegue papel e lápis e registre faz bem à alma o recado foi dado enquanto ela apontava para o cenário deslumbrante que se espraiava diante daquela gente humilde mas honesta que habitava então uma das áreas mais carentes da capital ­ a lua cheia despontando por trás das dunas e iluminando a vastidão do mar o menino que já gostava de rabiscar o que vinha na imaginação se sentiu ainda mais estimulado com aquelas palavras quase 40 anos depois ao recordar esta história algumas lágrimas umedecem o rosto de marcelino william de farias o filho de dona odete que adotou o nome artístico de marcelus bob tem agora 46 anos 25 dos quais dedicado à carreira de artista plástico o pseudônimo foi adquirido no tempo em que estudava na escola técnica federal do rio grande do norte atual 8 julho 2004

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cefet onde concluiu o curso de mineração zé aruanã estrela do atletismo da escola brincou com o colega que gostava de correr nas provas de 3 mil metros mas que bem sabia tocava violão para a turma nos intervalos de aula se tem bob dylan se tem bob marley tem também bob william foi assim que ele ficou conhecido como bob mais tarde porém outros dois amigos fernando mineiro deputado estadual e roberto hugo professor de matemática passaram a lhe chamar pelo nome com o qual viria assinar seus quadros e ser reconhecido como um dos mais ativos e talentosos artistas da cidade foi ainda na etfrn que recebeu quase por acaso um valoroso incentivo o professor de inglês thomé filgueira surpreendeu o aluno desenhando a caricatura de mick jagger o famoso astro do rock ao invés da censura o elogio muito bom exaltou o professor hoje considerado uma das grandes expressões da pintura impressionista potiguar apareça amanhã no ateliê recomendou ele foi sim e acabou pertencendo a uma geração que fez jus ao ateliê da escola entre os anos de 1976/78 por lá também estiveram carlos sérgio borges júlio césar revoredo e joão natal os caminhos trilhados ainda com certa timidez o levaram a encontrar confiança para os passos que daria em seguida em março de 1980 aos 22 anos tomou a decisão que deixou toda família apreensiva pediu demissão do ibdf atual ibama onde entrou por concurso público tendo se classificado em primeiro lugar para militar exclusivamente no meio artístico ele até que gostava do que fazia no serviço público federal onde por mais de dois anos exerceu a função de auxiliar agropecuário na prática reproduzia mudas nos viveiros do instituto mas achava que os chefes tinham mentalidade retrógrada era demais para ele estou honrado em conseguir esta façanha neste elefante sem memória que é o rio grande do norte afirma marcelus bob referindo-se ao fato de viver para a arte e da arte durante duas décadas e meia antes de explicar melhor o que quis dizer acima um parênteses a expressão elefante branco sem memória segundo marcelus bob foi cunhada pelo poeta carlos gurgel numa das muitas tertúlias que compartilharam a façanha que deixa o artista honrado contudo é a de não ter tido outro ganha-pão durante todos estes anos senão aquele que conquista dia após dia com a criatividade com que manuseia pincel óleo esmalte sintético acrílico e tudo o mais que pode servir de tinta e deixar marcas na tela como café e remédio produtos com os quais já fez trabalhos experimentais nunca mais minha carteira foi assinada nem sei por onde ela anda arte irreverente e perigosa marcelus bob é um legítimo exemplar remanescente da contracultura coisa cada vez mais rara hoje em dia gosta de chocar com o comportamento irreverente e o estilo agressivo com que se apresenta até nos salões oficiais além das aparências contudo temos a impressão de estar diante de uma pessoa sensível e gentil com seu semelhante nosso primeiro encontro foi na pinacoteca do estado abrigada no antigo palácio do governo na praça dos três poderes centro da cidade conversamos por quase duas horas à sombra das árvores frondosas do pátio externo do prédio o artista usava camiseta sem mangas pintada por ele mesmo calça preta justa e desbotada bolsa de pano a tiracolo um par de chinelos japonês brancos e um colar de sementes nativas no pescoço os cabelos longos e ondulados estavam espalhafatosamente voando sobre o rosto no qual repousava um óculos escuro sobre os olhos que estampavam o rescaldo das estripulias da noite anterior julho 2004 9

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viagem ao universo de marcelus bob a cabeça de artista é algo muito perigoso ­ disse ele tirando os óculos do rosto e fitando o tempo que se arrastava preguiçosamente naquela manhã por quê ­ questionei procurando entender o que residia no íntimo daquela tirada filosófica a arte é imprevisível a arte é deus se é deus pode tudo pode tudo sim ela é absolutamente livre o diálogo reproduz a dimensão da essência do que marcelus bob é enquanto artista um transgressor numa das salas daquela mesma pinacoteca há um quadro seu a cena retratada em óleo sobre tela é algo só concebível na imaginação livre do artista uma freira joga baralho no boteco seu parceiro é um homem vestido de paletó com gravata e chapéu na parede do estabelecimento o relógio marca 2h35 da madrugada em cima da mesa além das cartas copos e garrafa de pinga ao fundo o dono do bar um humanóide encapuzado como o artista batizou estas figuras que aparecem em muitos de seus trabalhos e se tornaram como ele mesmo frisa sua marca registrada assim como a de vatenor são os cajus e a de assis marinho os pescadores como você classifica seu estilo possibilista ­ respondeu com objetividade e quais as influências que você recebeu de todos os pintores que pude conhecer mas quem exerceu maior influência sobre sua pintura nunca tinha pensando nisso ­ disse depois de uma pausa nova pausa e acrescentou acho que van gogh pelo desprendimento soltura genialidade e extravagância da sua arte em matéria de extravagância há o surrealismo de salvador dali com o qual você deve se identificar muito bem não é É salvador dali entendia de perspectivas antônio marques marchand e idealizador de uma feira de antigüidades me disse uma vez que tecnicamente falando me considerava um grande artista porque eu também entendia de perspectivas 10 julho 2004 possibilidades e perspectivas estas parecem ser as ferramentas que marcelus bob explora para construir sua arte sem fronteiras cem por cento autodidata ele cresceu num ambiente familiar propício à carreira que escolheu a avó gostava de ouvir música clássica a mãe era vocalista de um coral da igreja o pai fazia esculturas em madeiras depois de ter sido repentista no vale do açu josé pedro de farias filho acabou sendo homenageado ainda em vida emprestando seu nome para uma rua do conjunto nova natal na zona norte onde mora rua artesão farias nascido em natal marcelus bob cresceu no paço da pátria debaixo da pedra do rosário às margens do rio potengi dali mudouse ainda criança para mãe luíza recebeu uma educação rígida reconhece mas sempre encontrou apoio na família para seguir seu destino profissional uma das causas do atrito com o pai crente da assembléia de deus foi a cabeleira que desde muito tempo cobre os ombros mas as discussões só aconteceram na juventude esclarece pois hoje já é aceito com o manequim que gosta de exibir.

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inspiração no morro de mãe luíza o segundo encontro com o artista foi no seu ateliê em mãe luíza situado na rua largo do farol nas proximidades do monumento que identifica o bairro no mesmo endereço em que mora com a esposa nilza a sogra e o filho lenon li nome dado em homenagem ao ex-beatle john naquela casa simples despojada de luxo ele às vezes trabalha freneticamente às vezes se entrega ao ócio das entressafras certamente é ali naquele bairro que marcelus bob encontra inspiração na fauna humana para compor os personagens que permeiam sua obra nas vizinhanças todos o conhecem todos sabem quem ele é parece ser tão popular quanto era um outro ilustre morador daquele morro já falecido o poeta dândi blecaute já ocorreu de levar seus quadros para a bodega do deda onde entre um gole e outro fica colhendo as impressões do povo a respeito da sua arte nestas ocasiões os humanóides encapuzados costumam provocar polêmica as figuras são interpretadas de muitas maneiras diferentes uns acham que elas são coisas de deus outros do diabo uma mulher negra disse que os tipos sombrios que apareciam naquela tela eram semelhantes aos da ku klus klan organização criminosa e racista dos eua segundo marcelus bob as pessoas simples do morro têm uma sensibilidade aguçada pela arte de viver a serena rebeldia de marcelus bob o levou a buscar outro canal de expressão para fazer ecoar seu uivo iconoclasta foi assim que fundou há 12 anos e ainda hoje lidera o grupo escolar uma banda de rock pesado aliás pesadíssimo como ele mesmo frisa no qual toca guitarra e atua como compositor e vocalista pelo grupo passou gente da qualidade de tadeu litoral paulinho procópio também fundadores cleudo freire geraldinho carvalho e ilo sérgio hoje ao lado de marcelus bob figuram glauco baterista e leão baixista numa das letras composta em parceria com paulo procópio na música intitulada a bomba está escrito o singelo alerta bomba vamos explodir essa bomba/bomba vamos trocar bombons por bomba o artista que tempos atrás teve problemas com a polícia por sair nas madrugadas frias borrando os muros da cidade com grafites agora se debruça sobre um projeto para comemorar os 25 anos de vida artística além de promover uma exposição em data a ser definida quer publicar um livro pelo sebo vermelho com fotos das séries de quadros que pintou humanóides repentistas rendeiras pescarias instrumentos musicais paisagens litorâneas etc os textos vão ficar sob a tutela de dácio galvão jota medeiros e joão da rua só para citar alguns sua produção neste período é grande calcula uns cinco mil quadros de todos os tamanhos e formatos incluindo os minúsculos talvez seja exagero talvez não atualmente participa do m8m movimento 8 de março ­ dia do artista plástico que busca movimentar as artes plásticas no estado É certo contudo que marcelus bob continuará produzindo e expondo ele que já perdeu a noção de quantas exposições participou contabiliza seis prêmios na sua carreira dois deles conferidos pela fundação josé augusto e outros dois em circuitos artísticos do nordeste É quase certeza também que toda vez que vê uma paisagem deslumbrante como uma lua cheia despontando por trás das dunas e iluminando a vastidão do mar o filho de dona odete pega lápis e papel e registra faz bem à alma julho 2004 11

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rubens lemos filho jornalista q uero viver o suficiente para ser avô ter um neto é um sonho distante embora o frasista diga que longe é um lugar que não existe ama-se o neto em dobro derretem-se alguns avós.meus dois filhos um com 11 e outra com 4 anos ainda estão no melhor momento da vida que é o de vivê-la sem que lhes sejam apresentadas faturas o meu primeiro neto se for homem já tem o primeiro presente guardado não é um brinquedo é um símbolo de uma das tardes mais felizes do meu tempo no último dia 25 de junho a convite do jornalista ailton medeiros pude ser um dos poucos bem aventurados a assistir pasmos o que nossos pais nunca esqueceram o meu neto primeiro ganhará o bilhete do moviecom 1 cinema no qual eu mergulhei no inacreditável ao ver pelé eterno o bilhete amassadinho ornamentará o berço do futuro abecedista e vascaíno o que eu vi transcende a lógica a metafísica a matemática a geografia a aritmética a democracia a anarquia a ditadura a bossa nova o tropicalismo a jovem guarda e o samba de protesto o que eu não consigo esquecer transpõe o rio nilo o amazonas o tejo e o mar morto as cenas não podem ser descritas porque formam algo muito além da capacidade humana de discernimento se existe o paraíso seu chão foi construído pelas pisadas de pelé a arquitetura dos seus dribles lançamentos gols feitos gols perdidos porradas nos adversários tem a régua e o compasso do inexplicável bob kennedy henry kissinger a rainha elizabeth guerreiros tribais africanos multidões enlouquecidas depoimentos emocionados como o do goleiro mão de onça do juventus que se viu de mãos abanando naquele lance considerado pelo próprio monarca o mais perfeito de sua perfeição até o edson arantes é perdoado numa nesga de ranço dos homens comuns exclui o segundo gol de gerson na final dos 4x1 contra a itália em 70 porque gerson tão parceiro de pelé esbravejou ao se ver excluído da lista de edson dos 120 melhores do século edson é corpo matéria pelé é alma e eternidade foram duas horas que valeram uma vida eu vi o que eu não vivi e o meu neto verá também abençoado seja ele amante de uma musa chamada bola prisioneira lasciva de um só rei 12 julho 2004

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acau ganhou em maio a sua casa de cultura popular o palácio do salineiro foi instalado num antigo casarão de arquitetura colonial tombado pelo patrimônio histórico e cultural localizado no centro da cidade até o momento o investimento total para a criação das casas de cultura foi de r 1 milhão e 165 mil outras quatro casas já começaram a ser construídas nos municípios de parelhas campo grande currais novos e umarizal estamos trabalhando para fortalecer a identidade cultural e resgatar a história do povo do rio grande do norte afirmou a governadora wilma de faria na solenidade de inauguração da casa de cultura de macau a sexta construída pelo governo as outras foram em nova cruz caicó assu martins e santa cruz a solenidade contou com a presença de familiares do antigo proprietário do imóvel o ex-prefeito albino mello e com apresentação de artistas da fundação josé augusto e do município o presidente da fundação josé augusto françois silvestre destacou a determinação do governo em expandir para o interior o movimento de revitalização da cultura popular para atender a essa determinação da governadora wilma de faria afirmou as casas de cultura cumprem um papel fundamental nelas serão realizadas oficinas palestras seminários exposições e projeções de filmes que possibilitarão o surgimento de novos talentos a obra de reforma e adaptação do palácio dos salineiros segundo françois silvestre foi realizada em apenas duas semanas graça ao empenho dos técnicos da fja o investimento foi de 280 mil assim divididos r 160 mil destinados à aquisição do imóvel r 30 mil para a compra do mobiliário e r 90 mil empregados na restauração com uma área construída de 550 metros quadrados a nova casa de cultura popular conta com 16 compartimentos que abrigarão biblioteca museu pinacoteca administração auditório para 80 pessoas duas salas para oficinas cozinha/café e espaço cultural para eventos com cem metros quadrados de área coberta m fotos jaime paulino palácio do salineiro julho 2004 13

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um stalinista sonha com o parlamento 14 por tácito costa fotos anchieta xavier rua antônio pegado no centro de natal espremida entre a padre pinto e a pitimbu tem apenas dez casas cinco de cada lado e uma numeração esquizofrênica uma das casas está fechada em ruínas na de número 28 pintada com um azul forte mora o jornalista e escritor osório almeida de oliveira o último stalinista do rio grande do norte que este ano pela terceira vez tentará chegar ao parlamento burguês É candidato a vereador quem o procurar na pequenina rua deve ter cuidado para não bater na porta errada e pensar que está sendo vítima de alucinação É que devido à numeração errática das casas o número 28 deveria estar fixado à residência onde funciona a casa franciscana ­ santa maria dos anjos da ordem franciscana secular uma terrível ironia osório é comunista e ateu empedernido sem camisa de calça ­ passa das 9 horas e o calor já incomoda ­ calçando chinelas havaianas e com a indefectível boina verde É assim à vontade e sem frescura que o jornalista recebe os amigos e conhecidos a casa é apertada um vão só dividido em área sala quarto cozinha e banheiro na frente duas portas e uma janela não tem área de serviço e nem é estucada menos de 50 metros quadrados de área construída por isso não paga iptu para compensar o espaço ocupado pelos livros e discos de vinil os demais objetos têm de ser pequenos como o fogão de duas bocas o frigobar e a tv de 14 polegadas grande só o antigo som 3 em 1 que toca os `bolachões e que fica em julho 2004 a

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cima de uma mesa nas paredes da sala fotos desbotadas de ho chi minh karl marx lenin zapata e engels algumas em melhores condições de heloisa helena babá e uma foto maior com qualidade publicitária da modelo potiguar fernanda tavares osório mora com a mãe dona helena germano de almeida 82 anos irmã do conhecido padre zé luiz já falecido ele dorme na sala ela ocupa o único quarto da casa onde passa boa parte do dia numa espriguiçadeira com os pés em cima de uma almofada de frente para uma televisão quando está ligada a tv oferece uma boa imagem que chega a dona germana embotada ela tem catarata mas não quer fazer cirurgia por medo apesar de lúcida dona helena tem uma certa dificuldade para se locomover e osório é quem cuida de tudo na casa levando-a também de táxi aos médicos e ministrando os muitos remédios que ela tem de tomar durante o dia católica fervorosa quando está mais disposta vai às missas na igreja do galo há poucos metros de onde mora o zelo e carinho com que é tratada pelo filho contudo não impediram que um malvado o denunciasse de manter a mãe em cárcere privado esse ano quando menos se esperava chegaram umas pessoas numa kombi se dizendo do ministério público afirmando que ele tinha sido acusado de manter a mãe presa e queriam constatar se isso era verdade entraram conversaram com a velha senhora e viram que as denúncias não tinham veracidade meu irmão {moacir oliveira ex-diagramador da tribuna do norte e do diário de natal chegou nessa hora e soltou os cachorros em cima deles conta osório que atribui o episódio à perseguição movida pelo partido dos trabalhadores pt com a saúde precária a mãe precisa de cuidados extras e passou a ser o centro da vida do jornalista a prioridade é tomar conta da minha mãe fazer as compras cuidar da casa mas uma casa por menor que seja é trabalhosa reconhece osório numa folga e outra faz o jornal alternativo de esquerda quadrinhos sai para vendêlo e cuidar da vida para diminuir o trabalho compra a comida em restaurantes do centro É o único luxo a que os dois se permitem dos r 1.600,00 que recebe como aposentada dona helena ainda ajuda o filho moacir que está sem trabalho fixo já há algum tempo jornalista e escritor alternativos os cerca de 300 livros e 1.600 discos vinis alguns raros mais jornais e revistas abarrotam duas estantes uma na sala e outra na área todo esse acervo foi amealhado em sebos e reúnem obras de todos os estilos e épocas na estante da sala estão os livros que o jornalista qualifica como melhores e que ele vai tirando e mostrando o manifesto comunista a arte da guerra o príncipe o jardim das delícias a interpretação dos sonhos manual dos inquisidores o tao estado e revolução mostra o que está lendo atualmente geração em transe ­ memórias do tempo do tropicalismo de luís carlos maciel um presente do também jornalista e escritor franklin jorge e pergunta ­ você sabia que conheci luís carlos maciel estive no apartamento dele no rio de janeiro era casado com maria cláudia atriz da tv globo belíssima em música prefere rock janis joplin bob dylan beatles pink floyd raul seixas e sentencia categórico ­ o último conjunto de rock foi o dire straits de lá pra cá é só lixo em cinema ama os faroestes embora esteja cada vez mais afastado das salas entre os filmes preferidos cita shine no tempo das diligências paixão dos fortes cidadão kane casablanca os filmes de jacques tati ­ mas o melhor de todos é doutor jivago ­ revela julho 2004 15

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