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A VACA MALHADA 10 investigador Florian Cova para nos falar do livre arbítrio INVERNO 2016/17 Coordenação: num contexto de filosofia experimental, e adicionámos-lhe um texto de Luís Ladeira sobre a referida filosofia experimental. Evocamos Miguel de Unamuno no octogésimo ani- Luís Filipe Paulo e Ladeira Carlos Alberto Pinto Rodrigues versário da sua morte, com uma página de Do sentimento trágico da vida, uma recensão crítica desta sua obra, a partir da tradução portuguesa, e uma breve nota biobibliográfica. Anselmo Pinto reaparece para nos trazer uma análise do ISSN 2183-5470 filme Silêncio, recentemente projetado nas pantalhas dos cinemas portugueses. Nikolau Gudskov continua a apresen- Endereço: avacamalhada1@gmail.com tar-nos os seus Ensaios sobre a filosofia helénica; e, como habitualmente, contamos com a reflexão sobre a educação Colaboram também neste número: de Eurico de Carvalho, em Sete paradoxos e a de José Heleno acerca do papel do ideal ascético na configuração da Anselmo Pinto, professor de filosofia, aposentado. realidade, em Nietzsche e os ideais ascéticos. Por fim, e destacando a facilidade com que fomos atendidos, quer Eurico de Carvalho, professor de Filosofia na E S D. Afonso pelo autor quer pelo editor, refira-se o texto de Peter Sanches, Vila do Conde. (http:/euricodecarvalho67.blogspot.pt/) Adamson sobre a Metafísica, publicado pela revista Philo- Florian Cova, investigador na Universidade de Genebra sophie Now. João Álvaro, autodidata José Manuel Heleno, professor de filosofia na Escola Secundária Dr. Solano de Abreu, em Abrantes. Ludovico de Clive, tradutor, estudioso de língua esperanto. Miguel de Unamuno (1864-1936), professor e reitor da universidade de Salamanca No próximo número, o da primavera de 2017, contamos evocar os cento e quarenta e cinco anos do nascimento de Bertrand Russell (18/5/1872), e/ou os sessenta e cinco anos da morte de John Dewey (1/6/1952), e/ou os dez anos da morte de Richard Rorty (8/6/2007). O leitor tem a palavra. Tanto neste e noutros assuntos. Boas leituras Nikolao Gudskov, universitário, professor de Filosofia em A Coordenação Moscovo. Adenda: todas as imagens usadas para ilustrar este número da Peter Adamson, professor de Filosofia Antiga e Medieval do revista, com exceção da imagem da capa, foram recolhidas em King´s College. peter.adamson@lrz.uni-muenchen.de «Google imagens»: www.google.com/imghp?hl=pt-PT Victor Gonçalves, professor de filosofia no Agrupamento de ÍNDICE Escolas Damião de Goes, Alenquer. http://decliniodaescola.blogspot.pt/ Victorgoncalves2@gmail.com Nota de abertura Coordenação 2 NOTA DE ABERTURA Sob o signo da novidade e oportunidade aparece o número 10 de A Vaca Malhada. Inovação e atualidade são marcas recorrentes desta revista, hoje, porém, temos o gra- O livre arbítrio…. Acerca da fil. experimental Unamuno: biobiliografia O homem de carne e osso Fabien Cova Luís Ladeira Coordenação Miguel de Unamuno 3 6 8 9 to prazer de anunciar que a capa da revista não se limita, pela primeira vez, a reproduzir figuras pescadas da internete. Duarte, o artista convidado, reagiu favoravelmente ao repto que lhe lançámos para que ilustrasse a capa deste número de inverno. O resultado está aí. Esperemos que do agrado do leitor e que seja instigador de novas propostas Recensão: “O sentimento...” Filosofia e cinema: Silêncio Vária: Pós-verdade Vária: Variações … eutanásia Vária: Metafísica Luís Ladeira Anselmo Pinto Victor Gonçalves João Álvaro Peter Adamson 10 13 17 19 21 para as capas dos próximos números. No campo da oportunidade, destacam-se dois assuntos que, internacional e nacionalmente, estão na ordem do dia do debate político: Victor Gonçalves questiona-se sobre o lugar da «pós-verdade» Vária: Sete paradoxos… Vária: Nietzsche e os ideais… Ensaios sobre a Fil helénica Eurico de Carvalho José M Heleno Nikolau Gudskov 23 24 27 na «pós-modernidade» e João Álvaro sobre os meandros O FILÓSOFO, TAL COMO A VACA, É UM ANIMAL RUMINANTE ideológicos da eutanásia. Para além disto, convidámos o A Vaca Malhada 2

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AUTOR CONVIDADO – É nosso convidado Florian Cova, investigador em filosofia experimental da universidade de Genebra e autor de Qu’en pensez-vous? Introduction à la philosophie expérimentale, Germina, 2011, que nos traz, via Magazine de Philosophie, de outubro de 2015, uma reflexão sobre o livre arbítrio no quadro desta nova corrente (?) filosófica. A propósito desta variante filosófica, segue-se o texto Acerca da chamada filosofia experimental de Luís Ladeira. O livre arbítrio, uma ilusão necessária por Florian Cova in Magazine de Philosophye 12/10/2015 Tradução “semiautomática” de L. de Clive, com revisão de Benvinda Marques. Muitas e belas experiências pretendem mostrar Dada a importância desta questão, não é de que o livre arbítrio não passa de uma ilusão. estranhar que ela reapareça regularmente no debate Mas o nosso senso comum não o encara dessa público. Assim, em 2012, o livro do escritor norte- americano Sam Harris intitulado Free Will (ou, Li- vre Arbítrio) vendeu muitos exemplares e gerou muita discussão na imprensa. No entanto, S. Harris não fez por agradar aos seus leitores. Quando o cérebro decide antes de mim Pelo contrário, toda a sua obra tenta mos- trar, face aos dados científicos atuais, o quanto se- ria absurdo continuar a crer na existência do livre árbitro. O propósito de S. Harris não tem, com efei- to, nada de muito original. Inscreve-se numa tradi- ção filosófica que se pode remontar a Baruch Spi- maneira e tem boas razões para isso. noza e Julien Offray de la Mettrie, para os quais a Tendemos naturalmente a pensar em nós abordagem científica do comportamento humano mesmos como agentes, isto é, indivíduos livres e, se opunha já à ilusão da liberdade. Mas novos da- portanto, moralmente responsáveis pelas nossas dos científicos estão à disposição dos filósofos de ações. Esta crença está tão arraigada que abalá-la hoje, em particular as famosas “experiências de poderia ter resultados catastróficos: um número Libet”. crescente de estudos em psicologia social mostra Benjamin Libet (1916-2007) era um investi- que diminuir a crença das pessoas na sua própria gador especializado em neurofisiologia do movi- liberdade acarreta consequências tão nefastas como mento corporal voluntário. Durante as suas investi- uma perda do autocontrolo, um aumento da agres- gações, observou que os movimentos corporais vo- sividade, ou uma diminuição na frequência de luntários (como mover um dedo) eram sempre pre- comportamentos altruístas. Numa dessas experiên- cedidos, no tempo, por flutuações elétricas no cére- cias, os participantes recebiam dinheiro de acordo bro, mensuráveis a nível do couro cabeludo, que com a sua pontuação num teste de raciocínio mate- designou de “potenciais de preparação” (PP). Em mático. Mas uma falha intencional no sistema per- média, os potenciais de preparação podem ser re- mitia-lhes fazer batota e aumentar artificialmente gistados, através de elétrodos, 550 milésimos de as suas pontuações. Os participantes cuja crença no segundo antes que o movimento se produza. Por livre arbítrio tinha sido reduzida de antemão esta- outros termos, quando movemos voluntariamente vam mais propensos a trapacear, explorando esta um dedo, esta ação muscular é precedida, em cerca vulnerabilidade. Outros estudos sugerem que dei- de um segundo, por uma atividade elétrica perfeita- xar de acreditar no livre arbítrio, seja o nosso ou o mente inconsciente no nosso cérebro. dos outros, está associado a uma menor sensibilida- Perante estes resultados, B. Libet interrogou de para emoções tão essenciais como a culpa, a -se sobre qual seria o lugar da intenção consciente gratidão e talvez até... o amor. nesta sequência. Por isso, convidou os seus partici- pantes para uma simples tarefa adicional: pressio- 3

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nar um botão com o dedo no momento em que tives- te humana e, portanto, a vontade consciente não de- sem vontade de executar a tarefa. Simultaneamente, sempenharia se não um papel negativo. Enquanto o os participantes deviam fixar o olhar num relógio e cérebro programaria sozinho e por si mesmo as nos- registar quando, segundo eles, tomaram consciência sas ações, a vontade consciente deslizaria temporari- do primeiro momento da sua intenção de premir o amente entre esta programação e a ação motriz para botão. Juntas, estas medidas demonstram a ordem exercer um veto, e assim opor-se, quando necessário, em que se dão as três ocorrências seguintes: a ação aos impulsos do cérebro. motriz (pressionar o botão), o "potencial de prepara- ção" antes da ação e a intenção consciente de reali- A ilusão da vontade consciente zar a ação. Os resultados mostraram que a cronolo- A maioria dos sucessores de B. Libet reto- gia é a seguinte: o PP pôde ser medido aproximada- mou os seus resultados sem ter em conta a sua teoria mente 300 ms antes do aparecimento (relatado) da da vontade: consideram-na a prova indubitável de intenção consciente. Por outras palavras, a intenção que a liberdade humana é apenas uma ilusão. O raci- consciente não pode causar o PP, uma vez que vem ocínio, bastante simples, é o seguinte: se a ação mo- depois (quadro abaixo). triz é completamente programada pelos aconteci- De acordo com B. Libet, estes resultados sig- mentos cerebrais preparatórios e se a consciência nificam que a intenção consciente não desempenhou ocorre após essas ocorrências cerebrais, então a in- qualquer papel na produção do movimento do dedo. tenção consciente não desempenha nenhum papel na Este último seria inteiramente produzido pelos po- produção dos nossos movimentos. Se identificarmos tenciais preparatórios, ou seja, pelos acontecimentos esse sentimento de agir conscientemente com a von- neuronais inconscientes que ocorrem antes do surgi- tade, então somos, naturalmente, levados a concluir mento da consciência de intenção. que a vontade humana é, por natureza, ineficaz, ou No entanto, B. Libet não concluiu que a in- nada é se não um epifenómeno que nos dá a impres- tenção, bem como o que comumente designamos de são enganadora de sermos os autores das nossas vontade não desempenham nenhum papel nas nossas ações. É, pelo menos, a conclusão a que chegou o ações. Seguro das suas convicções dualistas, segun- psicólogo Daniel Wegner num livro que marcou o do as quais o cérebro e a mente devem ser tratados debate, The Illusion of Conscious Will (ou, A Ilusão como entidades distintas, B. Libet limitou-se a pro- da Vontade Consciente). por uma nova conceção do papel da vontade: a men- Duas etapas antes de pressionar um botão Sinal------------------» Consciência-----------------» Ação 0,35 seg. 0,2 seg. As experiências de Libet sugerem que a realização de uma ação (pressionar um botão) está ligada a uma atividade cerebral inconsciente que intervém antes que o agente decida agir. Em (1): um sinal cerebral é detetado Em (2): 0,35 segundos depois, o agente decide conscientemente agir Em (3): pressiona o botão Quem decidiu, o seu cérebro ou ele? 4

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Como foi dito acima, a convicção de sermos modestos e admitem que a liberdade é nada mais do agentes livres e responsáveis pelas nossas ações é que o poder de agir conforme razões, e de acordo uma parte importante da imagem que temos de nós com o que consideramos o mais importante. Estas mesmos. Não é pois de admirar que as experiências conceções são muitas vezes designadas de de B. Libet tenham despertado tantas reações céticas "compatibilistas" porque consideram que o determi- ou críticas, nomeadamente por parte de alguns filó- nismo em geral e o facto de as nossas decisões serem sofos, mas também de cientistas. Foi possível atacar produto de influências externas são compatíveis com as experiências de Libet nos seus métodos de obser- a ideia de liberdade. Alguns filósofos, como Daniel vação. Mas não foi preciso esperar muito tempo para Dennett, têm, por isso, criticado os cientistas oposi- que estas mesmas experiências, realizadas por B. tores do livre arbítrio por estes atacarem moinhos de Libet em eletroencefalografia (EEG), fossem repro- vento, tendo por alvo uma visão excessivamente res- duzidas com outros meios, tais como a ressonância tritiva da liberdade, quando já existem versões mais magnética funcional (RMf). Numa dessas replica- razoáveis. Isso não fez silenciar os seus adversários, ções, conduzidas por Chun Siong Soon e os seus co- para quem o "compatibilismo" não vale nada: consi- legas, os participantes tinham de escolher entre dois deram-no uma invenção filosófica ad hoc e um tru- botões. Como nas experiências de Libet, os partici- que de ilusionismo destinado a salvar o conceito de pantes declararam tomar consciência da sua intenção livre arbítrio. em média 200 ms antes da ação. A sua ação, no en- Mas o que pensam as pessoas comuns como tanto, poderia ser prevista com uma probabilidade vós e eu? Foi precisamente a pergunta que se fize- superior ao acaso (50%) mais de 10 segundos antes ram alguns filósofos "experimentalistas", como da sua execução, o que sugere que a atividade cere- Eddy Nahmias. Tentando compreender o que se en- bral que precede a intenção consciente desempenha tende por "liberdade" e "livre arbítrio", estes filóso- claramente um papel na produção de ação. fos inquiriram um público vasto. Descobriram assim que a maioria das pessoas tem, de facto, uma conce- As conceções «compatibilistas» ção perfeitamente compatibilista de liberdade. Elas Por isso parece difícil contestar os resultados estão dispostas a considerar como livres os agentes destas experiências, mas é claro que é possível criti- cujas decisões e ações são completamente determi- car as suas interpretações e denunciar a confusão nadas pelo seu ambiente e, por este facto, totalmente conceptual que possam conter. É o que faz, regular- previsíveis… Num estudo recente, eles mostraram mente, o filósofo Alfred Mele. Os adversários do que a maioria das pessoas achava que era possível livre arbítrio sustentam que a intenção consciente um agente atuar "livremente" embora as suas ações não desempenha qualquer papel na produção da ação pudessem ser previstas a partir da sua atividade cere- e que apenas as ocorrências cerebrais produzem esta bral. Por outras palavras, para vós e para mim, não mesma ação. A. Mele sugere, entretanto, que se po- há contradição entre os resultados das experiências deria igualmente dizer que as ocorrências produzem de Libet e a nossa conceção vulgar de livre árbitro. a ação porque elas causam a intenção consciente que O que pode muito bem dar que fazer aos adversários por sua vez faz com que a ação ocorra. Reconciliar- declarados do livre árbitro cujas demonstrações se se-iam assim os resultados de B. Libet com a sensa- revelam filosoficamente impotentes para refutar o ção de que somos de algum modo livres e conscien- senso comum. tes das nossas ações. Textos e autores referenciados Mas alguns críticos rejeitam esta solução: Qu’en pensez-vous? Une introduction à la philosophie expéri- segundo eles, admitir que as nossas intenções conscientes são o produto de influências inconscientes mentale, F Cova, Germina, 2011. Free : Why Science Hasn’t Disproved Free Will, Alfred R. Mele, Oxford University Press, 2014. que nós não controlamos contradiz a própria ideia de «It’s OK if “my brain made me do it”. People’s intuitions about livre arbítrio. É uma conceção, no mínimo, exigente free will and neuroscientific prediction cognition», Eddy da liberdade humana: ser livre consistiria, segundo Nahmias, Jason Shepard et Shane Reuter, Cognition, eles, em ser a fonte consciente e sobretudo última de todas as nossas ações: "última" significa que as nos- vol. CXXXIII, n° 2, novembre 2014. «Unconscious determinants of free decisions in the human brain», Chun Siong Soon et al., Nature Neuroscience, vol. XI, sas decisões e intenções não teriam nem determinan- n° 5, 2008. tes nem fontes anteriores. Mas há os que são mais The Illusion of Conscious Will, Daniel M. Wegner, MIT Press, 2002. 5

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Acerca da chamada filosofia experimental sofia analítica e para a necessidade de justificar intui- ções. Deste modo: “Tipicamente, o filósofo apresenta por Luís Ladeira uma situação hipotética, e depois faz uma afirmação Espinosa, na carta 58, escreve: “É esta a tal li- do tipo: “Neste caso, seguramente diríamos…” Esta berdade humana que todos se afirmação sobre as intuições das pes- envaidecem de ter e que consiste soas forma então parte de um argu- apenas em que os homens são mento para uma teoria mais geral conscientes dos seus apetites, acerca da natureza dos nossos concei- mas ignorantes das causas que os tos ou do nosso uso da linguagem”. E determinam”. E assim nega o li- prossegue: “Um aspecto intrigante vre arbítrio, ou liberdade de es- desta prática é que raramente se faz colha, pois que tal liberdade tem uso de métodos empíricos comuns. por base a ignorância das causas Apesar de os filósofos frequentemen- que levam a desejar a ação; por te fazerem afirmações sobre “o que outras palavras, o «agente» é as pessoas normalmente diriam”, eles determinado a agir por causas externas, mas porque as raramente confirmam essas afirma- ignora e porque tem consciência do desejo, pensa que ções perguntando efectivamente às pessoas, e procu- se determinou a si próprio para a ação. rando padrões nas suas respostas. Em anos recentes, As experiências de Libet e sucedâneos, que o nosso autor convidado refere no seu texto, parecem vir de encontro ao que escreveu Espinosa (se bem que não seja claro se pelas mesmas razões). Mas se para alguns isso é uma evidência, para outros nem por isso, como bem o reconhece Florian Cova, o autor convida- contudo, um certo número de filósofos tentou colocar essas intuições à prova, usando métodos experimentais para descobrir o que as pessoas realmente pensam acerca de casos hipotéticos particulares. Em alguns casos, os resultados têm sido extremamente surpreendentes.” do, neste seu texto: da crítica ao próprio processo ex- Eis pois a chamada Filosofia experimental. In- perimental, às várias interpretações dos seus resulta- quirir a opinião pública sobre intuições que estarão na dos, os defensores do livre arbítrio têm encontrado base da inquirição dos filósofos. maneira de não abandonarem o seu ponto de vista. Na Wikipédia, sobre o mesmo tema, pode ler- O mais curioso neste artigo não é porém a dis- se que a “Filosofia experimental é um movimento filo- cussão científica sobre o livre arbítrio, mas o quadro teórico que justifica os estudos referidos na conclusão sófico emergente que busca combinar a investigação filosófica tradicional com a investigação empírica sistemática. Usando os métodos da ciên- e na introdução do texto, os quais concluem que opini- cia cognitiva, os filósofos experimentais realizam estu- ão pública tende a responsabilizar os «agentes» mes- dos experimentais que visam compreender como as mo tendo em conta os condicionalismos que os pessoas normalmente pensam sobre algumas das «empurram» para a ação, e que essa postura generali- questões fundamentais da filosofia. Os filósofos experi- zada do comum das pessoas favorece a vida social, pois mentais têm argumentado que os dados empíricos po- que uma postura diferente (em que o «agente» está dem ter um efeito indirecto sobre questões filosóficas, convicto da sua “irrelevância” na determinação da permitindo uma melhor compreensão dos processos ação) tende neste a promover comportamentos antis- psicológicos subjacentes que levam às intuições filosósociais. A esse quadro teórico que orienta esses estu- ficas3”. dos é dado o nome de filosofia experimental, quadro Rodrigo Cid, no portal em português da Filoso- com que o autor, aliás, se identifica. fia Experimental4, partindo da afirmação de Knobe e E o que é isso a que chamam filosofia experi- Nichols no Manifesto de que “O que realmente quere- mental? mos saber é o porquê das pessoas terem as intuições que têm” comenta: “Isso parece uma pergunta que só Joshua Knobe – que com Shaun Nichols assina poderá ser respondida pela psicologia. Pois é uma per- um «manifesto da filosofia experimental1» – em «O gunta sobre os processos causais que formam as intui- que é a filosofia experimental2» remete-nos para a filo- ções.” 6

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Não perdendo de vista esta objeção, proponho dade de pontos de vista sobre as chamadas questões que voltemos ao texto de Florian Cova. Enquanto des- filosóficas, que não será ultrapassado por uma tabela creve as experiências de Libet e outros que exploram os estatística, por mais científica que seja. mecanismos da ação e detetam um fator não consciente O que é que o estudo experimental acrescenta à que precede a decisão do «agente», remete para a neu- questão do livre arbítrio? No caso da neurofisiologia rofisiologia. Quando passa à análise da inquirição pública abre campo para suportar quer quem o ataca quer quem que busca saber se o comum das pessoas considera que o defende, mas enriquecendo o debate que… continua esse mecanismo retira ou não capacidade à autonomia em aberto, como bem o manifesta o autor do texto “O da decisão, bem como quando analisa a inquirição sobre livre arbítrio, uma ilusão necessária”. No caso dos estu- as consequências de negar essa autonomia, dá-nos con- dos sociológicos, haverá a assinalar um efeito social be- ta de comportamentos sociais. A questão é: a psicologia néfico (e maléfico no seu oposto) que a convicção do das intuições e a sociologia dos comportamentos, para já livre arbítrio acarreta, mas não é claro o contributo para não falar da neurofisiologia, são filosofia? E o tratamento o debate do tema do «livre arbítrio». Em todo o caso, destas questões pelo método experimental transforma- chamar «filosofia experimental» a estes exercícios pare- as em filosofia experimental? ce um exercício hiperbólico. E ainda que o objeto da indagação seja o de sa- 1-Manifesto da filosofia experimental, J Knobe, S Nichols, ber como é que o comum das pessoas compreende as https://filosofiaexperimental.wordpress.com/textos-basicosquestões filosóficas, isso apenas dirá do grau de assimila- traduzidos/um-manifesto-da-filosofia-experimental/ ção das ideias filosóficas na opinião pública, isto é, ape- nas permitirá um tratamento estatístico do assunto. Pois 2-O que é a filosofia experimental, J Knobe, https:// que não é o resultado da inquirição que ditará quem tem filosofiaexperimental.wordpress.com/textos-basicos- razão no assunto em questão. Assim, não é o facto de – traduzidos/o-que-e-a-filosofia-experimental-j-knobe/ voltando ao artigo do nosso convidado – a maioria considerar que há livre arbítrio, ou, de acordo com F Cova, de 3-A filosofia experimental, Wikipédia, https:// a maioria considerar conciliável o determinismo e a res- pt.wikipedia.org/wiki/Filosofia_experimental ponsabilização do agente, que tornará verdadeira a cor- 4-Portal de A Filosofia Experimental https:// rente defensora do livre arbítrio e condenará a que o filosofiaexperimental.wordpress.com/ nega. Pois se traço persistente há na filosofia é a diversi- A Filosofia nas bocas do mundo “Agora, também não subscrevo a ideologia liberal que defende que cada um vá ao mercado e se governe, porque o papel do Estado é defender o património. Essa não é a minha filosofia.” L F Castro Mendes, Expresso 25/2/2017 Participe no número da primavera de A VACA MALHADA O número 11, previsto para sair nos começos de junho 2017, aguarda a sua colaboração. Desde as Efemérides, à Filosofia no secundário, passando pela Filosofia e cinema e pelos diversos assuntos do seu interesse, as possibilidades de colaboração são várias. Agora também pela arte do desenho na ilustração da revista. Até 31 de maio, pelo endereço: avacamalhada1@gmail.com . 7

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EFEMÉRIDE – Assinalamos aqui o octogésimo aniversário da morte do basco espanhol Miguel de Unamuno (1864-1936) com uma breve nota biobibliográfica, um excerto da sua obra Do sentimento trágico da vida e uma recensão crítica desta mesma obra na tradução portuguesa, editada pela Relógio D’Água. Para o próximo número, destacam-se os 145 anos do nascimento de Bertrand Russell (18/5/1872), os 65 anos da morte de John Dewey (1/6/1952) e os 10 anos da morte de Richard Rorty (8/6/2007). À consideração dos leitores… Miguel de Unamuno y Jugo As contradições pessoais e os paradoxos que afloravam o seu pensamento atuaram impedindo o Nasceu em Bilbau em desenvolvimento de um sistema coerente, de modo 1864 e morreu em Sala- que teve de recorrer à literatura, como expressão de manca em 1936. Perse- intimidade, para resolver alguns aspetos da realida- guido político – pelo seu de do seu eu. Essa angústia pessoal e a sua ideia posicionamento antimo- básica de entender o homem como "ente de carne e nárquico e contra a dita- osso", e a vida como um fim em si mesmo projetam dura de Primo de Rivera – -se em obras como En torno al casticismo foi professor e, por três (1895), Mi religión y otros ensayos vezes, reitor da Universi- (1910), Soliloquios y conversaciones (1911) ou Del dade de Salamanca. Foi deputado, na 2ª República sentimiento trágico de la vida) (1913) (que, anos de Espanha, mas desiludido com a política governa- mais tarde, foi colocado no índice das obras proibi- mental saudou a sublevação franquista da qual se das do Santo Ofício). Poesia, teatro, novela fazem veio a demarcar depois. O episódio de outubro de também parte do seu extenso currículo literário. 1936, na abertura solene do ano letivo a que presi- Conselheiro da Companhia das Docas do dia, na universidade de Salamanca, no qual execrou Porto e dos Caminhos de Ferro Peninsulares, via- o grito falangista de Viva la Muerte, levou à sua jou, neste contexto, mais de vinte vezes a Portugal, demissão compulsiva e marca o fim do seu terceiro em trabalho e em férias. Dessa vivência deu teste- ciclo de reitor. munho em Portugal povo de suicidas, uma antolo- gia de textos sobre a cultura portuguesa, e Por terEntre 1880 e 1884 estudou filosofia e letras ras de Portugal e Espanha, aonde vai refletindo na universidade de Madrid. Doutorou-se com a te- sobre a paisagem física e mental dos dois países, se Crítica del problema sobre el origen y prehisto- bem como sobre a obra dos seus grandes escritores ria de la raza vasca, e pouco depois ascendeu à cá- e poetas, entre eles Eugénio de Castro, Teixeira de tedra de língua e literatura grega na universidade de Pascoaes, Camilo, Eça, Antero, Guerra Junqueiro e Salamanca, da qual, desde 1901, foi reitor e cate- Herculano, os grandes autores "deste melancólico e drático de história da língua castelhana. Inicialmen- saudoso Portugal". te as suas preocupações intelectuais centraram-se em questões de ética e de fé. Desde o princípio, tra- Fontes: tou de articular o seu pensamento com base na dialética hegeliana e, mais tarde, acabou buscando nas díspares intuições filosóficas de Spencer, Sören Kierkegaard, W. James e H. Bergson, entre outros, vias de saída da sua crise religiosa. Biografias y Vidas http://www.biografiasyvidas.com/ biografia/u/unamuno.htm ABC http://www.abc.es/internacional/20140316/abciunamuno-viajero-iberico-201403142115.html González Martín http://revistas.usal.es/index.php/0210-749X/ article/download/9878/10247 8

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O HOMEM DE CARNE E OSSO* Miguel de Unamuno consistência e menos vida que aqueles que representavam o anseio integral do espírito do seu autor. Pois que as ciências, sendo tão importantes e Homo sum: nihil humani a me alienum puto, diz indispensáveis para a nossa vida e o nosso pensamento, o cómico latino. E eu diria melhor, nullum hominem a são-nos, em certo sentido, mais estranhas do que a filo- me alienum puto; sou homem e nenhum outro homem sofia. Tendem para um fim mais objetivo, isto é, mais considero estranho. Porque o adjetivo humanus é para exterior a nós. São, no fundo, coisa de economia. Uma mim tão suspeito como o seu substantivo abstrato hu- nova descoberta científica, das que denominamos teó- manitas, a humanidade. Nem o humano nem a humani- ricas, é como uma descoberta mecânica; a máquina a dade, nem o adjetivo simples, nem o substantivado, só vapor, o telefone, o fonógrafo, o aeroplano, são coisas o substantivo concreto: o homem. O homem de carne e que servem para algo. Assim, o telefone pode servir- osso, o que nasce, sofre e morre – sobretudo morre –, nos para comunicarmos à distância com a mulher ama- o que come e bebe e joga e dorme e pensa e quer, o da. Mas esta, para que nos serve? Alguém toma o com- homem que se vê e a quem se ouve, o irmão, o verda- boio elétrico para ir a ouvir una ópera; e pregunta-se: deiro irmão. qual é, neste caso, mais útil, o comboio ou a ópera? Porque há outra coisa, a que também chamam A filosofia responde à necessidade de formar- homem, e é pretexto para não poucas divagações, mais mos uma conceção unitária e total do mundo e da vida, ou menos científicas. É o bípede implume da lenda, o e, como consequência dessa conceção, um sentimento animal político de Aristóteles, o contratante social de que engendre uma atitude íntima e mesmo uma ação. Rousseau, o homem económico dos manchesterianos, Mas acontece que esse sentimento, em vez de ser con- o homo sapiens de Lineu, e, se se quiser, o mamífero sequência daquela conceção, é antes causa dela. A nos- vertical. Um homem que não é daqui ou dali, nem des- sa filosofia, isto é, o nosso modo de compreender ou de ta ou de outra época, que não tem nem sexo nem pá- não compreender o mundo e a vida, brota de nosso tria, uma mera ideia, em suma. Quer dizer, um não ho- sentimento a respeito da própria vida. E esta, como mem. tudo o que é afetivo, tem raízes subconscientes, talvez O nosso é outro, o de carne e osso; eu, tu, leitor mesmo inconscientes. meu; e aquele outro mais além, todos quantos na Terra Não é habitual serem as nossas ideias a nos fa- pensamos. zerem otimistas ou pessimistas, mas o nosso otimismo E este homem concreto, de carne e osso, é o ou o nosso pessimismo, de origem filosófica ou quiçá sujeito e o supremo objeto de toda a filosofia, queiram- patológica, que fazem as nossas ideias. no ou não certos filósofos instalados. O homem, dizem, é um animal racional. Não sei Em todas as histórias da filosofia que conheço por que não se diz que é um animal afetivo ou senti- apresentam-nos os sistemas como originando-se uns mental. Pois talvez o que o diferencie dos restantes dos outros, e os seus autores, os filósofos, apenas apa- animais seja mais o sentimento do que a razão. Vi mais recem como meros pretextos. A biografia íntima dos vezes um gato raciocinar do que rir ou chorar. Talvez filósofos, dos homens que filosofaram, ocupa um lugar que chore ou ria por dentro, mas, por dentro, talvez secundário. E, no entanto, é ela, essa íntima biografia, a também o caranguejo resolva equações de segundo que nos explica mais coisas. grau. Antes de mais cumpre-nos dizer, que a filosofia E assim sendo, o que num filósofo mais nos de- tem mais a ver com a poesia do que com a ciência. ve interessar é o homem. Quantos sistemas filosóficos, construídos como supre- ma coroação dos últimos resultados das ciências parti- *Excerto do 1º capítulo da obra Del Sentimiento Trágico de la culares, num período qualquer, tiveram muito menos Vida. Tradução Ludovico de Clive. "Leia não para contradizer nem para acreditar, mas para ponderar e considerar. Alguns livros são para serem degustados, outros para serem engolidos, e alguns poucos para serem mastigados e digeridos. A leitura torna o homem completo, as prelecções dão-lhe prontidão, e a escrita torna-o exacto." Francis Bacon (1597) 9

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Recensão Do Sentimento Trágico da Vida, Miguel de Unamuno, tradução de Cruz Malpique, editora Relógio d´Água, 2007 por Luís Ladeira radigma do vitalista cuja fé se baseia na incerteza, e Autor prolífero, quer em quantidade de obra Sancho Pança o do racionalista que duvida da sua ra- quer em variedade de géneros literários (escreveu en- zão» (pg. 97). saio, poesia, romance e teatro), Miguel de Unamuno Esta é uma obra em que a incerteza vence a dúvi- espelha em Do Sentimento Trágico da Vida a luta dico- da, pois que, por mais incerta que seja a imortalidade, o tómica que travou ao longo da sua vida. Uma dicotomia desejo dela persiste, e por mais racional (verdadeira) que se apresenta por diferentes dualidades: Vontade/ que seja a mor- Razão, Alma/Corpo, Religião/Filosofia (Ciência). E se é talidade, a im- muitas vezes tentado a conciliar estas dimensões “O possibilidade de nosso homem é o homem de carne e osso” (pg. 11), não apagar racional- é menos evidente que essa carne não passa de mero mente esse de- adereço. Interroga-se Unamuno: “Há, porventura, algo sejo abre cami- de estranho em que o sentimento religioso mais profun- nho para duvi- do tenha condenado o amor carnal, e exaltado a virgin- dar dessa ver- dade?” (pg. 107). Para logo concluir: “ É possível que dade. exista quem, para melhor perpetuar-se, conserve a sua E depois virgindade. É para perpetuar algo de mais humano do há a religião, que a carne” (pg. 107). pois que do E é nesta luta pela perpetuação (correspondente sentimento de ao desejo de imortalidade) – desejo que a Vontade im- imortalidade põe e a Razão faz por ignorar, segundo ele – que Una- advém a fé na muno se embrenha ao longo dos doze capítulos deste imortalidade livro. Num diálogo constante com proeminentes vultos que a figura do da história da filosofia – com destaque para Espinosa e Cristo ressusci- Nietzsche, o “divino” Platão e o “irmão” Kierkegaard, tado ressalta e justifica. Eis Unamuno conciliado com o Tomás de Aquino e Aristóteles, Descartes e Kant, Hegel cristianismo, o mais primitivo, o do apóstolo Paulo que e Krause – é um Unamuno, por vezes angustiado, que dispensa as elucubrações aquinianas de racionalização. força a Razão a revelar que os seus limites estão na sua Estamos pois perante uma obra que não sendo impossibilidade de tratar (racionalmente) o desejo de de matriz essencialmente teológica não deixa de sê-lo vida eterna que nos acompanha. E essa dimensão também, dado que o divino é ponto de chegada e justi- “vitalista” ganha uma expressão maior e remete a Ra- ficação última do próprio desejo de imortalidade. zão para um papel auxiliar que esta não parece capaz A tradução desta obra, de original castelhano e de desempenhar. Assim: “a trágica história do pensa- datada de 1913, a cargo de Cruz Malpique, não é de mento humano não passa, no fundo, da luta entre a todo satisfatória. Alguns erros e falhas, facilmente dete- razão e a vida: aquela empenhada em racionalizar esta, táveis, fazem suspeitar da existência de outros, que só e em a resignar ao inevitável, à mortalidade; e esta, a um cotejamento minucioso (que não fizemos) entre o vida, esforçando-se por vitalizar a razão e por a obrigar original e a tradução poderá eventualmente esvaziar. a servir de apoio às suas aspirações vitais” (pg. 93). Assim, na pg. 93, o excerto acerca da tragédia do pen- Mas se a razão mata a imortalidade e não o dese- samento humano, acima transcrito – que nessa transcri- jo dela, não deixa, a tensão daí resultante de gerar o ção está em conformidade com o original – aparece na sentimento trágico da vida, o qual Unamuno espelha no tradução que a edição portuguesa apresenta com um retrato de Quixote e Pança que não é mais que o seu erro dificilmente aceitável como mero erro gráfico, da- próprio autorretrato: «Nosso senhor D. Quixote é o pa- do o contexto. Onde, em castelhano, se lê: “Y la trágica historia del pensamiento humano no es sino de una lu- 10

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cha entre la razón y la vida, aquella empeñada en racio- quer nota de rodapé), se o facto do ousado tradutor não nalizar a esta haciéndola que se resigne a lo inevitable, a se aperceber que, afinal, está a dar a mesma extensão e la mortalidad; y esta, la vida, empeñada en vitalizar a la compreensão aos termos «ente» e «universo», ou se, razón obligándola a que sirva de apoyo a sus anhelos ainda, pelo facto de confundir extensão lógica de um vitales. ” – pode ler-se, na tradução portuguesa em apre- termo com extensão espacial! Uma nota de rodapé, se ço: “E a trágica história do pensamento humano não bem que não evitasse o erro lógico evitaria o erro ético. passa, no fundo, da luta entre a razão e a vida; aquela Assim, estamos perante um procedimento que é lógica e empenhada em racionalizar esta, e em a resignar ao ine- eticamente reprovável! vitável, à mortalidade; está esforçando-se por vitalizar a Nota de rodapé teria lugar, a meu ver, a pg. 122, razão e por obrigar a servir de apoio às suas aspirações quando o próprio autor, Miguel de Unamuno, parece vitais# (sublinhados nossos)! A elisão, na tradução, de equivocar-se ao trocar «panteísta» por «politeísta», na «la vida» após «esta» impede que a alteração de «esta» linha 7, do 3º parágrafo da tradução que, neste caso, para «está» seja interpretada como um mero erro gráfi- segue o original. Dado o antecedente – “Tem-se afirma- co. do, e parece que com toda a razão, que o paganismo Erro gráfico é, porventura, o que ocorre no 2º pa- helénico é, mais do que politeísta, panteísta” – parece- rágrafo da pg. 96, quando o tradutor usa «imortalidade» me que o excerto “sin gran violencia cabe decir que el em vez de «mortalidade» e que não corresponde ao ori- paganismo era politeísta” e que foi corretamente tradu- ginal: “Acaso haya racionalista que nunca haya vacilado zido por “não é forçar muito a palavra dizendo que o pa- en su convicción de la mortalidad del alma, y vitalista ganismo era politeísta” deverá, a meu ver, ser referenci- que no haya vacilado en su fe en la inmortalidad;” que ado, em nota de rodapé, com a observação de que o au- aparece como “Talvez exista algum racionalista que nun- tor quereria, muito provavelmente, dizer «panteísta» e ca tenha vacilado na sua convicção de imortalidade da não «politeísta». alma e…”! (sublinhados nossos) Finalmente, na mesma página e parágrafo, a tra- Se aqui é aceitável que o erro seja de natureza dução do seguinte passo: “Los dioses, no sólo se mezcla- gráfica, o mesmo já não é sustentável para o que ocorre ban entre los hombres, sino que se mezclaban con ellos; na pg. 130, quando o tradutor, acerca da extensão e engendraban los dioses en mujeres mortales, y los hom- compreensão de conceitos, confunde tudo e ousa corri- bres mortales engendraban en las diosas a semidioses”, gir o autor no próprio corpo do texto (sem qualquer nota deveria ser, a meu ver, “Os deuses não só se movimenta- de rodapé). Assim, onde no original aparecem, correta- vam entre os homens como se misturavam com eles;” mente identificadas, em termos lógicos, a compreensão pois que, o que se segue: “os deuses geravam nas mu- e extensão dos termos «ente» e «universo»: “Conocida lheres mortais e os homens mortais geravam semideuses es la doctrina lógica de la contraposición entre la exten- nas deusas” assim o parece impor; e não como aparece sión y la comprensión de un concepto, y cómo a medida traduzido: ”Os deuses não só se misturavam entre os que la una crece, la otra mengua. El concepto más exten- homens como também se misturavam entre si; engen- so y a la par menos comprensivo, es el de ente o cosa que dravam deuses nas mulheres mortais, e os homens mor- abarca todo lo existente y no tiene más nota que la de tais engendravam semideuses nas deusas” que, clara- ser, y el concepto más comprensivo y el menos extenso mente não corresponde nem à letra nem ao espírito do es el del Universo, que sólo a sí mismo se aplica y com- texto. prende todas las notas existentes.” – o tradutor acha por bem traduzir(?) por “(…) O conceito de maior extensão e Enfim, imprecisões e incorreções que atrapa- de menor compreensão é o de ente ou de coisa que lham a leitura e desvirtuam uma obra que não deixa de abrange tudo o que existe, e não implica outra qualidade ser cativadora, pelo menos na primeira parte (seis pri- que não seja a de ser; e o conceito de menor compreen- meiros capítulos) enquanto o autor clarifica o seu vitalis- são e de mais extensão é o de Universo, que só a si pró- mo, dialogando com os clássicos. Como o que diz sobre prio se aplica e compreende todas as qualidades existen- Kant: “O homem Kant não se resignava a morrer de todo. tes,” (sublinhados nossos)! Aqui não se sabe de que mais E porque não se resignava a morrer de todo, deu aquele pasmar: se da ousadia de corrigir o original (sem qual- salto, o salto imortal, de uma a outra crítica. Quem quer 11

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que leia, com atenção e sem antolhos, a Crítica da Razão Depois, no que se segue, isto é, nos restantes Prática, verá que, a rigor, se traduz nela a existência de seis capítulos, entra numa espiral de crente fidelizado, se Deus, deduzida da imortalidade da alma, e não esta da- bem que não ortodoxo, que o faz justificar o cristianis- quela. O imperativo categórico leva-nos a um postulado mo/catolicismo na sua deriva histórica (mesmo que isso moral que exige, por sua vez, na ordem teleológica ou, não tenha sido suficiente para que o Santo Ofício o não antes, escatológica, a imortalidade da alma, e, para sus- viesse a colocar no índice dos livros proibidos). O que o tentar esta imortalidade, aparece Deus. Tudo o mais é leva até a glorificar a figura do inquisidor (pg. 204), por- escamoteio de profissional de filosofia.” (pg. 13). Ou so- que, di-lo, o inquisidor não é indiferente ao drama hu- bre Hegel: “Hegel tornou célebre o seu aforismo de que mano da nossa aspiração à eternidade. Nestas palavras: todo o racional é real e todo o real racional; todavia, ”O meu primeiro movimento é protestar contra o inquisi- muitos são os que, não convencidos por Hegel, continu- dor, e de lhe preferir o comerciante (…); se, porém reco- am a crer que o real, o realmente real, é irracional; que a lhido a mim mesmo, penso melhor, verei que o inquisi- razão edifica sobre irracionalidades. Hegel, grande defi- dor, quando a sua intenção é boa, me trata como ho- nidor, pretendeu reconstruir o universo com definições, mem, como fim em si; porque se ele me atormenta, é como aquele sargento de artilharia que dizia: constroem- pelo caritativo desejo de salvar a minha alma, ao passo se os canhões, tomando um furo, e pondo-lhe ferro em que o outro apenas me considera como cliente, como volta.” (pg. 14). Ou ainda sobre Espinosa: “O mais lógico meio, e, no fundo, a sua tolerância e indulgência não são e consequente dos ateus, isto é, dos que negam a persis- mais do que absoluta indiferença a respeito do meu destência, por um tempo futuro infinito, da consciência indi- tino. Há muito mais humanidade no inquisidor”1! O que vidual, e, ao mesmo tempo, o mais piedoso de entre eles, Unamuno, porém, aqui não faz é questionar-se sobre Espinosa, dedicou a quinta e última parte da sua Ética a que Razão inquire. E essa não é uma Razão que duvida dilucidar a via que conduz à liberdade e a fixar o conceito de si mesma, pois que é uma Razão submetida a uma de felicidade. O conceito! O conceito e não o sentimen- “verdade” que lhe é exterior e ante a qual se verga, per- to!” (pg. 80). Etc., etc… num registo de diálogo e esclare- dendo toda a autonomia! cimento com que pretende ultrapassar o sentimento 1- O negrito, que corresponde a acrescento meu, assinatrágico da vida, isto é, essa angústia que ressalta da opo- la mais uma pequena imprecisão da tradução. sição entre a vontade e a racionalidade. Próxima(s) efeméride(s) Bertrand Russell (18/5/1872), John Dewey (1/6/1952) Richard Rorty (8/6/2007). 12

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FILOSOFIA E CINEMA – Pela mão de Anselmo Pinto recordamos o muito recentemente visionado Silêncio, de M Scorsese, numa análise da saga jesuítica no Japão, veículo que foi do confronto de culturas ocidental e oriental. Em adenda, o autor opõe 'As sete blasfémias' ao comentário sobre o mesmo filme, da autoria de P. Gonçalo Portocarrero de Almada, entretanto publicado no jornal Observador. Silêncio por Anselmo Pinto 'Silêncio', é, de algum modo, uma recapitulação (cuja síntese faz parte da "ficha técnica", acima): os padres jesuítas foram "dar a conhecer" o Deus cris- Ficha técnica (http://cinecartaz.publico.pt/ tão aos japoneses e, apesar da boa intenção, acaba- Filme/367099_silencio): ram martirizados. É preciso terminar a recapitula- Título original: Silence; De: Martin Scorsese ção anunciando a maldade dos governantes japoneses que martirizavam os crentes e os padres que Com: Andrew Garfield, Liam Neeson, Adam Driver, pretendiam levar a religião de Cristo aos povos in- Tadanobu Asano, Ciarán Hinds, Nana Komatsu, Ryo Kase , cultos e ateus do oriente longínquo. Mas, ao se co- Yoshi Oida Yosuke Kubozuka, Shinya Tsukamoto, Issei meçar a falar na evangelização cristã, caímos, ine- Ogata vitavelmente, no problema da própria evangeliza- Género: Drama, Histórico; Classificação: M/14; Outros ção, dado que, apesar de o filme expor o sofrimento de evangelizadores e de evangelizados, não é me- dados: MEX/EUA/TAI, 2016, Cores, 161 min. nos pertinente pensar sobre a colonização espiritual Portugal, 1633. Quando a Companhia de Jesus recebe a que o cristianismo assumiu como um dever univer- notícia de que o missionário Cristóvão Ferreira teria sal: espalhar a fé cristã pelos quatro cantos do mun- renunciado publicamente à Fé Cristã, Sebastião Rodrigues e do, acompanhando a colonização das terras, das Francisco Garrpe, dois dos seus discípulos mais fiéis, riquezas e dos povos autóctones. Selvagens, ou ig- decidem partir para o Japão para o confirmar. Depois de norantes, estes povos eram vistos como almas seuma longa viagem, os dois sacerdotes deparam-se com um dentas da verdadeira fé do verdadeiro Deus, não país empobrecido e com uma população subjugada ao importando, como no caso do povo japonês, a fé regime Tokugawa, que proibiu o Cristianismo ou quaisquer que já possuía. Aliás, o que torna Scorsese digno influências europeias no Japão. Ali, eles vão assistir a perseguições e todo o tipo de crueldade em relação aos cristãos, impedidos de qualquer demonstração de fé em Jesus Cristo… Este drama histórico foi realizado por Martin Scorsese (“Taxi Driver”, “O Touro Enraivecido”, “Tudo Bons Rapazes”, “Kundun” ou, mais recentemente, “O Lobo de Wall Street”), alguém que estudou para ser padre num seminário e acabou por se virar para o mundo do cinema. O de crédito, por não encobrir esse facto, é o filme Cristianismo sempre esteve presente na sua obra, sendo o mostrar, também, desde o encontro do padre Sebas- expoente máximo disso “A Última Tentação de Cristo”, o tião com o padre Ferreira (o que renegou a sua fé polémico filme de 1988. "Silêncio" baseia-se no “best- cristã), que havia um culto oficial de uma religião seller” homónimo escrito, em 1966, pelo japonês Shusaku apresentada como "humana" e que dispensava o Endo (que, com esta obra, recebeu o prestigiado Prémio Deus dos cristãos. Assim, enquanto espectadores Tanizaki). O elenco conta com Andrew Garfield, Adam críticos, somos levados a interrogar o que faziam Driver, Liam Neeson, Tadanobu Asano, Issei Ogata, Shinya Tsukamoto, Yoshi Oida Yosuke Kubozuka, Ryo Kase e ali os jesuítas, com que direito tentavam colonizar religiosamente outros povos para impor o seu Deus, em detrimento das manifestações religiosas que estes praticavam, como a mais comum e básica de Como falar de 'Silêncio', se o silêncio não fala, todas, o animismo, ou mesmo a de uma religião tão se não emite qualquer som? O comentário do filme, elaborada em princípios de como viver a vida, a do 13

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budismo. É este lado que se omite quando se preten- dismo nada apresenta de uma religião em que a aspide realçar, apenas, o martírio dos padres, como se ração ao perfeito contenta os seus praticantes: a pereste martírio não fosse o preço que pagaram pelo seu feição é o caso geral. No cristianismo, os instintos proselitismo e, diga-se, com todas as palavras, pela dos servos, dos oprimidos, passam a primeiro plano: sua soberba ao pretenderem converter quem pensava são as camadas mais baixas que nele procuram a sua ou orava de modo diferente, porque estavam convic- salvação. Nele, como ocupação, remédio contra o tos da sua "verdadeira" fé. Não deixa de ser interes- aborrecimento, pratica-se a casuística do pecado, a sante notar que há quem veja nestes padres jesuítas, auto-crítica a inquisição da consciência; nele, o afecque desembarcaram no Japão, uma verdadeira to para com um poderoso chamado «Deus» é cons"brigada de elite" (Inês Teotónio Pereira) que, en- tantemente sustentado (pela oração); nele, o que quanto tal, enquanto poder espiritual (em vez de existe de mais elevado passa por inacessível, por “poder de fogo”), dissemina a crença e arrebata os oferta, por graça». Nele se nota igualmente a falta do corações a ponto de tornarem os crentes devotos que é público; o esconderijo, o lugar sombrio, eis o noutros tantos candidatos ao martírio, pois que ficam que é cristão. Nele o corpo é votado ao desprezo, "preparados para sacrificarem a sua vida por recusa-se a higiene como sendo sensualidade; a IgreDeus" (Domingos Faria) que tem uma expressão ja repudia até a limpeza (- a primeira medida tomada curiosa sobre os ateus, como se estes se subdividis- pelos cristãos assim que escorraçaram os Mouros foi sem em subconjuntos, sem indicação de qual o seu fechar os banhos públicos só em Córdova havia limite: "o problema da ocultação divina para não- 270). O que é cristão, é um certo sentido da crueldacrentes que não sejam resistentes já é enigmático"). de para consigo e para com os outros, o ódio contra No entanto, a conversão das consciências parece coi- aqueles que pensam de maneira diversa. A vontade sa de somenos e, portanto, desprezível, a violentação de perseguir." (Pela contundência, preferiu-se a tra- dução de Carlos Grifo, Presença, à de Paulo Osório de Castro, Círculo dos Leitores.) No filme, Sebastião, o jesuíta poupado à morte, desespera por nada ouvir do seu Deus. Imaginemos outra situação, a hipótese contrária, a de que Sebastião conseguia ouvir a voz de Deus, que lhe diria, se tivesse misericórdia: "Que fazes? Como podes torturar-te desse modo? Como podes levar outros a terem de sofrer as consequências da tua pregação?" Ou, dito de outro modo, e se Deus não aprovasse a propagação da fé à custa da conversão das almas e do martírio exemplar? O problema fundamental de das consciências pouco interesse parece ter, visto qualquer religião é o da petição de princípio em que que o mais importante é o exercício do poder espiri- labora, que, por sua vez, conduz à contradição entre tual e qualquer "conversão" é entendida como uma o que é objecto de crença e a inexistência de sinais vitória da fé cristã. E, contudo, ficaríamos admirados empíricos dessa crença: Deus existe, mas não se vê, se víssemos o outro lado, o de quem desconsidera a não se ouve. No princípio era o Verbo, o logos, mas prática cristã, que os pregadores jesuítas tanto queri- ele não fala, não diz nada, é um logos terrivelmente am levar ao crédulos. Friedrich Nietzshe comparou, contraditório, que se violenta a si próprio, que é disno seu Anti-Cristo (secções 20 e 21), as duas religi- curso, linguagem, mas que, enquanto ideia de Deus, ões, o budismo e o cristianismo e as suas palavras esmorece... no silêncio. Chamar a esta situação parasão de estarrecer: "O budismo pressupõe um clima doxal o problema da ausência divina é alimentá-la à extremamente doce, muita amenidade e liberalidade custa dos silogismos que servem para tecer o assunto nos costumes, ausência de militarismo; é que o mo- e entreter os académicos, logicamente. Há quem vimento budista tem o seu lugar no seio das classes pense e sinta o paradoxo e pergunte, com emoção superiores e inclusivamente sábias. Pretende-se a intensa: "Como se explica o martírio como a mais serenidade, a quietude, a ausência de desejo por um gloriosa morte"? (Bagão Félix) E há quem procure fim supremo, e está assim atingido o seu fim. O bu- responder através de uma exigência moral: " "E se, 14

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por absurdo, Deus não existisse? Hipótese -se, simplesmente, de visitar o link acima, para ter a aterradora": que drama absurdo seriam as existências certeza de não se tratar de uma brincadeira, mas que de quem sofreu os horrores da vida, da morte, do se trata mesmo de fanatismo, do mais puro e duro. martírio. Exige-se moralmente que Deus Na segunda, o sr. padre concebe que uma "acção exista.» (Anselmo Borges) O mesmo é dizer que intrinsecamente má, não deixa de o ser, mesmo se Deus, enquanto petição de princípio, motiva ao for um meio para alcançar um bem maior", o que martírio e, depois, o martírio só pode ser justificado significa que, assim, a «má acção», a apostasia, não pela existência de Deus. A circularidade é aceitável: entre renegar a fé para salvar cinco cam- argumentativa é óbvia, o que torna despiciendo poneses e não renegar a fé e, por consequência, não rebatê-lo. Aliás, se há quem reconheça, neste campo salvar os camponeses, a opção radical, do sr. padre, dos mistérios divinos a impossibilidade da prova, seria a segunda escolha. Os camponeses teriam de num e noutro sentido, a favor ou contra, percebe morrer porque a fé do sr. padre é inquebrantável. facilmente que este caminho foi evitado pelo Em termos civis, qualquer juiz decidiria que o sr. realizador que procurou fazer sobressair os padre era cúmplice moral de um assassinato colecti- problemas mais do que fazer a apologia da fé, ao vo. Mas ele, naturalmente, está acima destas ques- mesmo tempo que sublinha a generosidade do poder tões mundanas, porque o que lhe interessa não são político japonês que decidiu que, em vez de essas vidas (dos "pobres camponeses", como são re- martirizar quem ambicionava ser martirizado, feridas pelo Inquisidor japonês), mas o "absoluto" sacrificava o povo para obrigar os jesuítas a dos princípios. apostasiarem. E, depois, davam-lhes livros e bibliotecas e família para viverem e amarem e deixarem de ser candidatos a mártires. O próprio Inquisidor japonês reconhece que tinham aprendido a lição. Devemos a Scorcese contar esta história em imagens. Devemos, sobretudo, a abordagem serena, apesar de, contraditoriamente, os conteúdos explícitos de violência sobre os crentes lembrarem que, em qualquer circunstância, os vencedores devem ser magnânimos. Esta ideia de Scorcese de, no seu pedestal, nos apresentar o panorama geral do processo da evangelização cristã no Japão, convida à tomada de posição e, ao mesmo tempo, porque Na terceira blasfémia, o sr. padre esconjura a interpela, sugere temas como o da fé radical e o da "suposta independência entre os actos de um sujeito morte e as suas exigências. e a sua fé", porque, citará, "a fé sem obras está mor- ta". Esta condenação eliminaria a possibilidade de o ADENDA: As sete blasfémias de 'Silêncio' padre Sebastião poder ficar em paz com a crença de Depois, de redigido o comentário acima, tomei Deus, pois, ao apostasiar, o acto contraria a fé. O sr. conhecimento deste outro (http://observador.pt/ padre está convencido que tal como a função define opiniao/um-silencio-ensurdecedor/), da autoria do sr. a essência, também o que é feito num momento, ain- padre Gonçalo Portocarrero de Almada, que con- da que irrepetível, constitui o padrão do comporta- vém, também, conhecer, já que expressa o ponto de mento condenável à fogueira. Quer dizer, uma bruxa vista do fundamentalismo cristão. caça-se com a acusação de outra bruxa. Basta a bon- Na primeira blasfémia, o sr. padre considera que dade da fé e o poder do inquisidor... o "martírio cristão" é um "acto supremo de caridade Quarta blasfémia: o filme é um absurdo. Então, cristã", como disse São Paulo, para quem entregar o se Deus fala "pela Sagrada Escritura", pela corpo para ser queimado, se não tiver amor, de nada" "tradição", pelo "magistério da sua Igreja", pela se "aproveita". Para o sr. padre "o martírio nunca é "oração", pela "obediência do religioso ao seu supe- um acto egoísta", mas a "sementeira de novos cris- rior", pela "voz da recta consciência", se Deus "fala" tãos", e se houver qualquer dúvida sobre se isto é por estes "meios de comunicação", se Deus fala tan- linguagem, pensamento e obras do século XXI, trata to, desta maneira, então, o problema está no seu 15

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