ABOPE Digital Edição 3

 

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Autismo em Pauta

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VERÃO 2017 + EDIÇÃO 3 ABOPE
 D I G I TA L TRILHANDO O TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA NA ODONTOLOGIA ENTREVISTA COM JULIANA BRITO DESAFIOS DO TEA NA ODONTOLOGIA MOTIVAÇÃO PODE SER A RESPOSTA +aeumtismpoautaDDIAGONÓTSETIACO: É PRECISO CONHECER AGENDA + DICA + ENTREVISTA + MUITO MAIS

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+EDITORIAL Por José Reynaldo Figueiredo O terceiro informativo da ABOPE, o ABOPE Digital, traz um tema pungente em nosso cotidiano profissional: o Transtorno do Espectro Autista (TEA) ou Autismo. A presença do paciente autista nos consultórios odontológicos tem aumentado significantemente e as dificuldades de seu tratamento são desafiadoras para o profissional que encara a Odontologia para Pacientes com Necessidades Especiais. Três austríacos são as referências na história do autismo. Eugene Bleuler, psicólogo, usou o termo autismo pela primeira vez, em 1911, para descrever um sintoma, que definiu como sendo “uma perda do contato com a realidade, o termo refere-se às crianças que viviam num mundo próprio, dentro de si mesmas, daí a raiz “auto” (voltado para si próprio)”. Leo Kanner descreveu o autismo, em 1943, em seu artigo: “Autistic disturbance of affective contact”, na revista Nervous Child. E Hans Asperger, também em 1943, descreveu, em sua tese de doutorado, a psicopatia autista da infância. Asperger só veio a se tornar conhecido quando nos anos 1970 a médica Lorna Wing traduziu seu trabalho para o inglês. De lá pra cá muita coisa aconteceu, o autismo vem aumentando drasticamente desde a década de 1980, devido a mudanças nos diagnósticos e incentivos governamentais para a pesquisa. E as pesquisas mostram que paciente com TEA tem adquirido um status diferente. Na síndrome de Asperger conhecida como autismo de alto desempenho, os autistas são confundidos com gênios, porque são imbatíveis nas áreas do conhecimento em que se especializam. Recentemente em uma palestra, no 3º Congresso Internacional Sabará de Saúde Infantil, o Dr Ami Klin, um pesquisador brasileiro radicado nos Estados Unidos, trouxe uma informação muito interessante: a SAP, a gigante alemã, criadora de softwares de gestão de empresas, líder global de mercado em soluções de negócios colaborativos e com 260 mil colaboradores espalhados pelo mundo, decidiu que 1% de seus funcionários seria autista. A intenção era buscar pessoas que pensavam de uma maneira diferente. E é esse paciente que vai aparecer na sua cadeira odontológica cada vez mais. Mas nem só de temas científicos vive o ABOPE Digital. Com um projeto gráfico de muito bom gosto, essa terceira edição conta ainda sobre o sucesso do 1º Encontro ABOPE de Docentes e Gestores em OPNE, ABOPE Social e a Agenda para o ano de 2017 que terá seu ponto alto em setembro, com a realização do 5º ALOPE, Congresso Latino Americano de Odontologia para Pacientes Especiais, em Natal, RN. Venha conosco, participe, associe-se. A ABOPE é a legítima representante da especialidade mais desafiante da Odontologia.

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 AGENDA +ACONTECEU III Encontro Carioca de Odontologia para Pacientes Especiais 19 de Julho de 2017 - Rio de Janeiro XV Congresso Mineiro de Medicina Intensiva 25 a 27 de Maio de 2017 - Belo Horizonte II Congresso CBROHI 27 e 28 de Maio de 2017 - Curitiba 5º ALOPE 14 a 16 de Setembro de 2017 - Natal 7º Congresso Internacional de Odontologia do PiauÍ 18 a 21 de Maio de 2017 - Teresina Reunião ABOPE no 35º CIOSP +NOVIDADE rrpACeeahBccreeetOigbbciaPeeprrrEaaavr!mmaiam.AcoSol1egrdrºeuevlionootssece.êvdemnneãteocomasrrtbeeAcriBreoinObshePauEqs, udirjeaáá QPDIUANOERFRTNOIOCRISMPSAAORTIVOC?OESNGCTMRAAETOVILA..ACPBOAOMRPAE@

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ESSENCIAL + Os Desafios na Atenção 
 Odontológica do Paciente Autista A literatura atual define o autismo como uma condição de corpo inteiro, com muitas comorbidades que podem envolver aspectos genéticos, epigenéticos, fatores imunológicos, metabólicos e também anomalias gastrointestinais. O transtorno do espectro autista (TEA) tem como características principais, prejuízos na comunicação e na interação social e é caracterizada por manifestações de padrões repetitivos de comportamento e de interesses, além de atividades restritas (MACFABE, 2012; DSM V, 2013). No entanto, (talvez) tão importante quanto definir esta condição, seja atentarse para o fato de que estas pessoas podem apresentar diferentes combinações de sinais e sintomas, além da distinção da gravidade destas características. Cada pessoa com diagnóstico de autismo apresenta-se com um conjunto único de características em seu comportamento. Também são fatores individuais o seu convívio familiar, sua condição social, a situação em que vive, os irmãos que possa ter, a mãe que pode ser a principal cuidadora ou pode ser que ela sequer exista. Quando converso com profissionais da odontologia e falo um pouco sobre meu trabalho com pacientes autistas, costumo ouvir exclamações e interrogações como: “é difícil, né?”, “eles não olham nos olhos!”, “você não tem medo?”, “que trabalho lindo, o seu!”, “autista não gosta que toque nele!”. Desde que comecei a me interessar pela promoção de saúde bucal destas pessoas, em 2008 (e isso seria tema para um outro artigo como este), posso lhes assegurar que nunca conheci uma pessoa com TEA que apresentasse as mesmas características que outra. Felizmente tenho a oportunidade de conhecer muitas.

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ESSENCIAL Bem, me pediram para falar sobre os desafios da odontologia para pessoas com autismo e aqui estou eu! Sim! Pode ser difícil! Sim! Alguns podem não olhar nos seus olhos de imediato! Exato! Alguns podem ser muito sensíveis ao toque... e também a ruídos... e também a indiferença. E embora eu tenha muito orgulho e um grande amor pelo que eu faço, não considero um trabalho lindo. Considero um trabalho que respeita e acolhe as pessoas exatamente como cirurgião dentista desperte dentro de si a vontade de acolher uma pessoa com TEA em sua rotina de trabalho. Se considerarmos o trabalho (que em grande parte é tecnicista) realizado por nossos colegas cirurgiões dentistas e somarmos a isso as particularidades que alguns (não todos!) pacientes autistas podem necessitar, podemos chegar a óbvia conclusão que todos nós, desde que atuantes em uma odontologia ética, de qualidade, responsável, atualizada e "Considero um trabalho que respeita e acolhe as pessoas…" elas são, exatamente como o SUS preconiza: com universalidade, integralidade e equidade. Atender às necessidades bucais de uma pessoa com autismo exige de nós, cirurgiões dentistas, um tempo maior durante as consultas, um cuidado minucioso com a anamnese, algumas adaptações que estarão relacionadas a personalidade (como eu disse, individual) de cada um desses possíveis pacientes. Pode exigir de nós, um pouco mais de paciência, de tolerância. Mas o maior desafio mesmo está, não somente na capacitação, mas no processo de motivação para que um baseada em evidências científicas, estamos aptos a atendermos pessoas com autismo. E aqui vai uma observação importante, destinada àqueles que irão se motivar com esta leitura: um dos aspectos mais importantes e que nos exige muito cuidado, é estarmos familiarizados com os fármacos utilizados por cada paciente e o risco de interações medicamentosas. Todo o resto é baseado no conhecimento que você já tem e no conhecimento, nas experiências e sensações que você se permitirá ter.

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ESSENCIAL Não vou mentir! O paciente autista pode deixar seu consultório de cabeça pra baixo, deixar você exausto porque não parou de falar um minuto, não passou nem perto da sua cadeira e ainda por cima abriu todas as suas torneiras? Sim! Mas ele também pode ser colaborador, esperto, ter coisas incríveis para te ensinar, demonstrar afeto, confiar em você e... receber e retribuir a gestos de carinho. O desafio não está exclusivamente em atender o paciente autista, mas essencialmente em despertar nos cirurgiões dentistas a vontade de fazê-lo. E claro, pode ser que um colega realmente não se sinta apto e este é um direito assegurado pelo nosso código de ética. No entanto, acolher, buscar ajuda e encaminhar para outro profissional, uma pessoa com autismo que apresente um problema bucal, é uma questão de responsabilidade social. 
 Lais David Amaral Professora do Curso de Odontologia da Universidade Católica de Brasília - UCB Mestre em Ciências da Saúde - UnB Especialista em Odontologia para Pacientes com Necessidades Especiais (UNIP) e em Odontologia em Saúde Coletiva (UnB) Diretora de Comunicação ABOPE +DICAABOPE Uma recente revisão sistemática foi publicada na International Journal of Pediatric Dentistry sobre a condição oral de crianças e jovens adultos com TEA, conduzido pelo grupo da Universidade Ibirapuera e colaboradores. O estudo comprovou a alta prevalência de cárie dentária (60%) e de doença periodontal (69%) em crianças e adultos jovens com TEA, apontando para a necessidade de políticas de saúde oral focadas nesses indivíduos. Os autores ainda relatam que os achados, além de serem decorrentes de uma higiene precária e procura tardia de atendimento, apontam para uma possível aversão oral ou hipersensibilidade sensitiva ao redor da boca, que também pode afetar a qualidade da higiene oral e comprometer a saúde bucal. Esta aí, uma excelente dica de leitura com fortes evidências!

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+ DIAGNÓDSOTTICEOA O diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista (TEA) é basicamente clínico, feito através da observação direta do comportamento e de uma entrevista detalhada com os pais/ cuidadores para interpretar como está o desenvolvimento e comportamento do paciente, pois não existe nenhum marcador biológico específico para o autismo. Os sintomas aparecem até os 3 anos de idade, porem é possível diagnosticar por volta dos 18 meses de vida. A nova edição do DSM (DSM-V) trouxe uma nova estrutura de sintomas, onde três domínios se tornam dois: um domínio relativo a déficit de comunicação social e outro relativo a comportamento/ interesses restritos e repetitivos. O critério de atraso ou ausência total de linguagem expressiva foi eliminado do DSM-V, uma vez que as pesquisas mostraram que esta característica não é universal, nem especifica de indivíduos com TEA. Exigir que ambos os critérios sejam completamente preenchidos, melhora a especificidade do diagnóstico do autismo, sem prejudicar sua sensibilidade. Muitos critérios sociais e de comunicação foram unidos e simplificados para esclarecer o requerimento do diagnóstico de autismo.

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INFORMAÇÃO Os critérios de diagnóstico TEA segundo DSM-5 são: 1. Déficit persistente na comunicação social e nas interações, clinicamente manifestados por comunicação não verbal, falta de reciprocidade social, incapacidade de desenvolver e manter relacionamento com seus pares 2. Pa d rõ e s re s t r i t o s e re p e t i t i v o s d e comportamento, interesses e atividades manifestados por: estereotipias ou comportamentos verbais estereotipados, aderência excessiva às rotinas e padrões de comportamento ritualizados 3. Os sintomas devem estar presentes na primeira infância, mas podem não se manifestar plenamente 4. Os sintomas causam limitação e prejuízo no funcionamento diário. Visando aumentar a especificidade do diagnostico de TEA, o DSM-5 identifica tanto os +
 DSM-5 O TEA é divido de acordo com sua gravidade: • Nível 1 ¬ Comunicação - sem apoio déficits na comunicação causam prejuízos notáveis, pouco interesse social ¬ Comportamento - inflexibilidade no comportamento causa interferência • Nivel 2 ¬ Comunicação - prejuízos sociais aparentes (com apoio), déficits graves na comunicação ¬ Comportamento- inflexibilidade no comportamento, dificuldade de lidar com mudança, comportamentos restritos/ repetitivos aparecem com freqüência, sofrimento/ dificuldade para mudar o foco. • Nivel 3 ¬ Comunicação - déficits graves de comunicação social e não verbal, prejuízos graves de funcionamento, limitação em iniciar interações sociais e resposta mínima a aberturas sociais que partem de outros. ¬ Comportamento - inflexibilidade comportamento, dificuldade com mudanças ou outros comportamento restritivos/repetitivos. Grande dificuldade para mudar o foco ou ações. sintomas diagnósticos principais como características não especificas do TEA que variam dentro desta população. O DSM-5 também reconhece que indivíduos afetados variam com relação a sintomas não específicos do TEA, tais como habilidade cognitiva, habilidade de linguagem expressiva, padrões de inicio, e comorbidades psicopatológicas. Estas distinções podem proporcionar meios alternativos para identificação de subtipos dentro do TEA. O DSM-5 também sugere o registro de especificadores: com ou sem deficiência intelectual, com ou sem comprometimento de linguagem concomitante à alguma condição médica, associado a outro transtorno de desenvolvimento, mental ou comportamental, com catatonia. Como há uma grande variabilidade em termos de comportamento (Gravidade dos sintomas), cognição e mecanismos biológicos, construindo-se a idéia de que o TEA é um grupo heterogêneo, com etiologias distintas, eles se beneficiam de avaliação individualizada papa propor a melhor composição de acompanhamento para o caso. Audrey Soledá Fuentes Especialista em Odontologia para Pacientes com Necessidades Especiais- FOUSP Habilitada em Odontologia Hospitalar - HCFMUSP Cirurgiã-dentista no CEO São Paulo Proprietária da Soleda Odontologia

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AÇÃO ABOPE +
EODNPISSNCINEUOTINEMDO O Por Fernanda Urbini A ABOPE nos dias 02 e 03 de Dezembro de 2016, realizou em parceria com a Faculdade de Odontologia e Medicina São Leopoldo Mandic , o I Encontro ABOPE de Docentes e Gestores em Odontologia para Pacientes Especiais e o I Encontro de Alunos e ExAlunos de OPNE SLMandic , na sede da instituição, em Campinas. Foram mais de 100 participantes nos dois dias de atividades, que além das palestras de alto nível relacionadas a Odontologia Especial, puderam apresentar seus trabalhos científicos, participar de discussões na área da docência, gestão, rede de serviços e visitar os estandes de alguns patrocinadores e apoiadores como INPHLORAL, CURAPROX, MANDALA-MATRX, ISO RADIOLOGIA, GLOBAL SUPLEMENTOS, PHARMAKIN, DONA FILÓ, COLTENE e UNIODONTO. O objetivo da ABOPE foi reunir pesquisadores, educadores, gestores e profissionais que atuam na área e promover um fórum amplo para debates e projetos. Contribuindo dessa forma para a consolidação e transferência de saberes, crescimento profissional e o fortalecimento da especialidade. O evento contou com participações enriquecedoras como do Dr José Ranali, Dr Marcello Boccia, Dr Luiz Vicente Rizzo, Dr Túlio Humberto Spini, Dra Maria Paula Siqueira de Melo Peres, Dra Sofia Takeda Uemura, Dra Karem Ortega, Dra Áquila Dantas e Dr Efrain Rojas. A abertura do encontro foi realizada pelo Prof Dr José Reynaldo Figueiredo e pela Presidente do Encontro, Dra Tatiane Marega que agradeceram a presença dos participantes e palestrantes, ressaltaram a importância do evento e a relevância da especialidade. Aproveitamos para agradecer os nossos palestrantes Dr Guilherme de Menezes Succi, Dr Alcides Ricardo Gonçalves, Dra Juliana Cama Ramacciato, Dr Paulo de Camargo Moraes e Dra Tatiane Marega, pela disponibilidade e brilhantismo. O sucesso do evento só foi possível graças a dedicação de todos os envolvidos e a participação de todos os presentes. O reconhecido êxito do encontro, que superou as expectativas, estimulou a comissão científica a traçar novos projetos para 2017. Aguardem! Fotos do I Encontro ABOPE de Docentes e Gestores em OPNE

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+aeumtpiasutma o Por Rafael Celestino

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ENTREVISTA "cuVomêm-slooer ímpar " 
 O nome dela é Juliana de Brito Ramos, dentista e mãe de Lalá, uma linda autista. A escolha não poderia ser melhor para essa entrevista. Juliana se prontificou imediatamente e não titubeou nas respostas. Ela sabia o que responder. Isso não só porque é graduada em Odontologia e pós graduada em Periodontia e Pacientes Especiais, mas principalmente pois vive a maternidade de uma filha com TEA. Quando o assunto é atendimento de um paciente com diagnóstico de TEA, muitos profissionais de saúde já se intimidam. Para você, como foi seu primeiro atendimento de um paciente autista? Eu havia acabado de me formar e estava em uma UBS do interior do Piauí. Havia terminado os atendimentos do dia e uma mãe veio tímida me pedindo para atender o filho de 7 anos que tinha “problemas mentais” e muito medo de dentista. Ele não olhava nos olhos, não falava e fazia movimento pendular enquanto eu conversava com sua mãe. Na época não tinha qualquer informação sobre autismo. Eu só sabia que ele era diferente das condições com as quais já havia me defrontado e que precisava de uma atenção maior. Agendei para o dia seguinte, no meu horário de almoço, para que dispusesse de um tempo maior e um ambiente mais calmo. Ele veio, entrou no consultório todo desconfiado. No primeiro momento não sentou na cadeira. Foi para o mocho. Coloquei a touca, a máscara, pedi que ele sentasse na cadeira e ele sentou. Mostrei a ele o espelhinho, a pinça e o algodão. Fui mostrando as coisas e ele foi aceitando, todo calmo. Achei que seria tudo muito tranquilo e até comecei a achar a mãe exagerada ,mas quando comecei a apresentar os equipamentos e acionei a alta rotação ele saiu subitamente de onde estava com as mãos nos ouvidos tentando sair do consultório desesperadamente. Um pânico que nunca havia presenciado. O atendimento parou por ali, mas não desisti. Agendei outras consultas e com o tempo consegui atendê-lo de forma adequada. Anos depois minha filha recebeu o diagnóstico de autismo e quando comecei a ler sobre o transtorno, lembrei muito daquele garotinho. Não tinha dúvida de que ele havia sido meu primeiro paciente com autismo. Os autistas devem frequentar clínicas e consultórios odontológicos comuns? Sim. Os autistas devem frequentar todos os ambientes, sejam eles destinados a lazer, educação, cultura e de saúde. Os profissionais das clínicas e consultórios odontológicos comuns devem ter essa consciência e responsabilidade social de se prepararem, mesmo que minimamente, para receber a grande clientela de pessoas com deficiência. Eles certamente não terão sucesso em todos os atendimentos e precisarão fazer encaminhamentos para um serviço especializado, mas eles podem e devem, no mínimo, receber e orientar adequadamente as famílias e as pessoas com TEA. Quais são os principais desafios no atendimento odontológico de pacientes com este diagnóstico? Nosso atendimento sempre é desafiador, porque intervimos diretamente em face e cavidade oral.

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ENTREVISTA Nós causamos estímulos aversivos nas mais variadas proporções em todos os indivíduos, sejam eles neurotípicos ou não. Eles ficam minutos de boca aberta (com ou sem auxílio de um abridor bucal) numa posição que para ele pode não ser tão confortável. Colocamos, na cavidade oral, algodão, gaze, escovas e instrumentos metálicos que vibram, furam ou que arranham o dente. Molhamos a cavidade oral, usamos sugador e jatos de ar. A luz do nosso foco é bastante forte e fica voltada para o rosto do indivíduo. Nossos equipamentos são em sua maioria barulhentos. Calçamos luvas, usamos gorro ou touca, máscara, óculos. Nossa atendente é um estímulo a mais. Os pacientes que estão na sala de espera, a televisão, o trânsito, o mundo exterior somam-se a isso de forma mais ou menos intensa a depender do indivíduo. Tudo isso faz parte da nossa rotina de atendimento. O indivíduo neurotípico demonstra ou fala o que o incomoda e vamos nos adaptando da melhor forma. Fazemos concessões ou nos impomos – negociamos. Cedemos, deixando de usar algum ítem que não comprometa o sucesso do procedimento e impomos outros, contando com seu discernimento e sua colaboração. O paciente com TEA nem sempre consegue demonstrar com clareza o que o incomoda, o que lhe provoca medo. Ele pode ter uma crise com algo muito peculiar como a posição de um objeto na bancada, um quadro, uma cor e até um vento que sopre mais forte do aparelho de ar. Eu acredito que driblar os estímulos mais aversivos e estabelecer uma relação de confiança sejam os principais desafios no atendimento do paciente com autismo. O que é fundamental um dentista saber para ajudar o autista a superar estes obstáculos? Enxergar o indivíduo com TEA em primeiro plano. Vê-lo como um ser ímpar, que tem um entendimento e percepção do mundo peculiares e, sobretudo, respeitá-lo! Os pacientes com TEA e demais condições não são CIDs. É fundamental que não se coloque a doença acima do indivíduo. O indivíduo é conhecido através do diálogo com ele próprio, com a família e com a equipe envolvida (de psicologia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, psicopedagia, psicomotricidade, neurologia etc). É imprescindível essa comunicação porque é a partir daí que se conhece os estímulos aversivos, os reforçadores, a rotina (inclusive a de higiene oral) e como cada um (dentista, família e equipe) pode contribuir para um atendimento efetivo e a instituição de hábitos que promovam a saúde bucal destes indivíduos. Existe alguma estratégia que facilite ou possibilite o tratamento odontológico destes pacientes? Sempre que possível faço uma primeira consulta com o responsável e colho o máximo de informações: do que o paciente gosta, do que não gosta, o que provoca pânico, o que precipita uma crise, como são as crises, se usa medicação, se faz acompanhamento terapêutico e com quem faz, quais os contatos destes profissionais, como foi a experiência odontológica e médica anterior, se consegue expressar dor, se está sentindo dor no momento, permite a higiene, como é a higiene, se há alergias ou outras condições associadas etc. Peço para o responsável observar o consultório e dizer se há alguma coisa que possa causar aversão à primeira vista. Peço sugestões. Explico sobre o processo de dessensibilização e adaptação para o atendimento odontológico. Dependendo da anamnese, posso também falar sobre técnicas de sedação e estabilização. Só com uma boa anamnese é possível traçar uma estratégia de atendimento. Na consulta seguinte, recebo o paciente sem paramentação e utilizo vídeos ou fotos que demonstrem a sequência de colocação dos EPIs ( gorro, máscara, luva), de atendimento (chegar no consultório, sentar na cadeira, deitar na cadeira, abrir a boca etc), materiais, instrumentos e equipamentos básicos.

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ENTREVISTA Tudo muito resumido. Falar-mostrar-fazer sem excessos, sempre procurando atrair o foco do indivíduo para mim e para o que estou fazendo. Evito surpresas e dou recompensas a cada etapa conseguida. Também utilizo quadros de rotina, economia de fichas e procuro ir individualizando o material de acordo com o que foi colhido junto com a família e a equipe. É visível o progresso dessas crianças quando tratadas adequadamente? Eu posso falar como profissional e como mãe de uma criança com TEA. É dignificante! Quando essas crianças são tratadas adequadamente, há muito progresso sem dúvida alguma. Elas apresentam um ganho maior do que imaginamos. Já tive pacientes, muitos que foram encaminhados com indicação para anestesia geral e que com poucos atendimentos permitiram procedimentos restauradores e até endodônticos. Sabemos que esta condição modifica toda a dinâmica familiar, de diferentes formas, para cada paciente. Qual a estratégia para orientar pais e cuidadores de pessoas com autismo?   As pessoas que possuem um ente com deficiência, em especial com autismo, têm a vida transformada, sobretudo se o autismo se apresentar de forma mais severa. Não é raro os cuidados com saúde bucal ficarem em segundo plano diante das outras demandas mais imediatas que ele apresente e cabe a nós, enquanto profissionais, fazer com que a família inclua, no rol de prioridades, esses cuidados. Eu procuro conhecer a rotina, o dia a dia do paciente e da família. Se possível, vou à sua residência e participo um pouco dessa dinâmica. Vejo como é feita a higiene e oriento da forma mais simplificada possível. Faço quadros de rotina, forneço fichas com a sequência da escovação e vamos nos ajustando. 
 Sua experiência clínica no acompanhamento desses pacientes mostra que os pais começam a perceber a necessidade de tratamento odontológico quando o filho tem que idade? Quando começam a esfoliar os decíduos ou quando há dor. A sua atuação se dá em consultório particular e também no sistema público de saúde. Este atendimento é realizado com as mesmas condições? É possível um atendimento integral e adaptado para crianças com TEA no campo público? Na rede pública há uma maior dificuldade em relação aos recursos materiais e equipamentos. A cobrança por uma alta produtividade em detrimento do tempo de atendimento que o autismo requer e a falta de uma rede odontológica dinâmica, envolvendo diversos níveis de complexidade, também fazem com que o atendimento integral fique mais difícil de ser alcançado. A despeito de todas essas adversidades, acredito que para o atendimento de rotina do paciente com autismo o fator mais importante seja o recurso humano. O profissional da atenção básica deve ter consciência de que deve estar preparado para receber esta demanda cada vez maior de pessoas com deficiência, especialmente de pacientes com TEA. Que tenham a responsabilidade e a iniciativa de se informar cada vez mais. Os municípios, em contrapartidas, devem incentivar e viabilizar, na medida do possível, que estes profissionais da atenção básica se qualifiquem para oferecer um tratamento digno e humanizado. Os CEOs devem ter em seu quadro especialistas no atendimento à pessoa com deficiência para os casos de maior complexidade. Juliana de Brito Ramos Especialista em Periodontia, Saúde da Família e em Odontologia para Pacientes com Necessidades Especiais. Membro da ABOPE

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+REUNIÃOCIOSP No último dia 03 de Fevereiro aconteceu a tradicional Reunião da ABOPE no Congresso Internacional de Odontologia de São Paulo. Durante 2 horas, em uma sala no prédio da APCD, membros e interessados puderam encontrar com a diretoria para se atualizarem sobre as ações da ABOPE em 2016, incluindo número de sócios e participações em eventos. Também foi apresentado o plano de ações para 2017. O encontro foi tão produtivo, que novos projetos foram sugeridos pelos membros e aceitos pela direção atual. Em breve no site, disponibilizaremos a Ata da Reunião, para que os membros possam acessar. Mas é claro que nós vamos dar um aperitivo por aqui! Plano de ação ABOPE 2017: - ABOPE Itinerante (Regiões Nordeste e Sul) - Webinar ABOPE - Aulas Online gratuitas para sócios - Informativo ABOPE - 4 edições por ano - Parceria com Associações - Participação e Apoio em eventos e ações sociais - Maior interação com as CTs de OPNE – CRO - ALOPE 2017

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