Revista ARP109 Setembro-Dezembro 2016

 

Embed or link this publication

Description

ACTA RADIOLÓGICA PORTUGUESA Setembro-Dezembro 2016 nº 109 Volume XXVIII

Popular Pages


p. 1

ISSN 2183-1351 ACTA RADIOLÓGICA PORTUGUESA Setembro 2016 D e z e m b r o n º 1 0 9 Volume XXVIII

[close]

p. 2



[close]

p. 3



[close]

p. 4



[close]

p. 5

ACTA RADIOLÓGICA PORTUGUESA Setembro 2016 Dezembro nº 109 . Volume XXVIII Ficha Técnica Director / Editor Filipe Caseiro Alves Editores Adjuntos Editors Assistants Paulo Donato Tiago Bilhim Secretariado Secretariat Luísa Costa Cláudio Publicação Quadrimestral Quadrimestral Publication Edição e Propriedade Pusblisher Sociedade Portuguesa de Radiologia e Medicina Nuclear Redacção e Administração Editorial Office SPRMN Av. Elias Garcia, 123 - 7ºDto. 1050-098 Lisboa - Portugal Tel.: 217 970 530 / Fax: 217 955 012 E-mail: sprmn@sapo.pt Site: www.sprmn.pt Segundo declaração da Entidade Reguladora para a Comunicação Social, nos termos da al. a), nº 1 do artigo 12º do Decreto Regulamentar nº 8/99, de 09/06, verifica-se que se trata de uma publicação que não se encontra ao dispôr do público em geral, destinando-se essencialmente a médicos radiologistas, com o título "Acta Radiológica Portuguesa", cuja edição está excluída de registo, não obstante a sua livre circulação nos moldes actuais. ISSN 2183-1351 Secções Editoriais e Conselho Científico Editorial / Editorial Sections and Scientific Editorial Board Radiologia Abdominal e Gastrointestinal Luís Curvo Semedo Jorge de Brito José Traila Campos Luís Guimarães Miguel Ramalho Radiologia da Cabeça e Pescoço Alexandra Borges Ana Germano Fernando Torrinha João Lopes Dias Leonor Fernandes Luis Silva Mariana Horta Pedro Alves Conceição Guerra Eugénia Soares Fonseca Santos Luísa Lobo Maria José Noruegas Paulo Coelho Rita Cabrita Carneiro Rui Catarino Senologia José Carlos Marques Ana Paula Vasconcelos Francisco Aleixo Jorge Ferreira Manuela Gonçalo Monica Coutinho Teresa Aguiar Radiologia Cardíaca e Vascular Carla Saraiva António Ferreira António J. Madureira Bruno Graça Hugo Marques Nuno Ribeiro da Costa Paulo Donato Radiologia Génito-Urinária Teresa Margarida Cunha Cláudia Campos Dulce Antunes Inês Leite João Lopes Dias José Durães Mariana Horta Rita Lucas Sandra Costa Sousa Tiago Bilhim Tiago Saldanha Radiologia de Intervenção Paulo Almeida Belarmino Gonçalves Tiago Bilhim Radiologia Musculoesquelética e Densitometria Óssea Alberto Vieira Carlos Abel Ribeiro Catarina Ruivo José Carlos Vasconcelos Miguel Oliveira e Castro Ricardo Sampaio Vasco Mascarenhas Radiologia Torácica Paula Campos Amélia Estevão Isabel Duarte José Miguel Jesus Luísa Teixeira Rui Cunha Física Médica, Radiobiologia, Radioprotecção e Informática Médico-Radiológica Sónia Gonçalves Medicina Nuclear* João Pedroso Lima Ana Isabel Santos Antero Abrunhosa Carla Capelo Durval C. Costa Gracinda Costa Hugo Duarte Jorge G. Pereira Jorge Isidoro Lucilia Salgado Teresa Faria Teresa Martins Lúcio Maria Teresa Rézio Paleorradiologia e Análise não Destrutiva por Radiações Carlos Prates Jorge Justo Pereira Sandra Costa Sousa Radiologia Forense Carlos Prates Neurorradiologia David Coutinho Rosa Cruz Radiologia Pediátrica Conceição Sanches Anabela Braga Oncologia José Venâncio Isabel Duarte Jorge Ferreira * Com a colaboração da Sociedade Portuguesa de Medicina Nuclear(SPMN) Sócios Honorários / Honorary Members António Martins Armando Lacerda Carlo Martinoli Carlos Ribas de Freitas Celso Matos Cláudio Cunha David Coutinho Donald Resnick Francisco Abecasis Graça Correia Henrique Vilaça Ramos Isabel Ramos José Venâncio Luis Martí-Bonmatí Nicholas Gourtsoyiannis Telo de Morais

[close]

p. 6



[close]

p. 7

ACTA RADIOLÓGICA PORTUGUESA Setembro-Dezembro 2016 nº 109 Volume XXVIII 5 SUMÁRIO - SUMMARY 7 Editorial 9 Artigo de Opinão / Opinion Article Radioembolização na Terapêutica do Carcinoma Hepatocelular - qual o estado da arte? Paulo Vilares Morgado 11 A Escola da Sociedade Portuguesa de Radiologia e Medicina Nuclear (ESPRMN) Teresa Margarida Cunha 13 Notícias SPRMN/ SPRMN NEWS Módulo da ESPRMN - Radiologia Abdominal Filipe Caseiro Alves 15 In Memoriam - Dário Bettencourt de Oliveira Cruz (1933-2016) José Carlos Marques 17 Radiologia Portuguesa ......... Lá Fora! 19 Artigo Original / Original Article Contributo da PET/CT com Fluorocolina-F18 na Radioterapia Externa do Carcinoma da Próstata Paula Lapa, Miguel Jacobetty, Margarida Marques, Gracinda Costa, Margarida Borrego, João Pedroso de Lima 27 Artigo de Revisão / Review Article Rare Malignant Tumors of the Neck in Children Inês Santiago Martins, Maria José Noruegas, Paulo Coelho, Rui Catarino, Fátima Heitor, Maria Conceição Sanches 35 Artigo de Revisão / Review Article Tomossíntese Mamária: o que o radiologista deve saber Filipa Vilaverde, Ana Rocha, Marta Reis de Sousa, Romeu Mesquita, Alcinda Reis 43 Espaço Institucional / Institutional Space Colégio de Radiologia Nuno Miguel Henriques 45 A Voz das Secções da SPRMN/The Voice of the SPRMN Sections Radiologia - um raio invisível entre a medicina e a arte Carlos Prates 47 Caso Clínico ARP Nº9/ARP Case Report Nº9 Qual o seu diagnóstico e qual dos doentes corresponde a cada um dos casos? Hugo Marques 49 Caso Clínico ARP Nº 8/ ARP Case Report Nº 8 Tuberculose peritoneal Henrique Rodrigues 51 Caso Clínico/Radiological Case Report African Histoplasmosis Cátia Esteves, Francisco Rego Costa, Carlos Macedo, David Paiva, Raquel Portugal, António J. Madureira, Daniela Pinto, Maria Conceição Guerra 55 Caso Clínico/Radiological Case Report Será maligno ou será tumor desmóide da mama? Maria Ana Serrado, Manuela Gonçalo, Graça Fernandes, Guida Castanha, Filipe Caseiro-Alves 59 Caso Clínico/Radiological Case Report Sinal do Geiser - Um Sinal Incomum de Rotura da Coifa dos Rotadores Márcio Luís Duarte, André de Queiroz Pereira da Silva, José Luiz Masson de Almeida Prado, Marcelo de Queiroz Pereira da Silva 63 Normas e Instruções aos Autores/Authors Rules and Instructions 5

[close]

p. 8



[close]

p. 9

ACTA RADIOLÓGICA PORTUGUESA Setembro-Dezembro 2016 nº 109 Volume XXVIII 7-8 EDITORIAL Filipe Caseiro Alves O exercício profissional da Radiologia: guia de sobrevivência em tempo de paz Desde sempre me habituei a ouvir dizer que, na vida, uma atitude proactiva é mais votada ao sucesso do que um mero comportamento reactivo. Julgo que este conceito, simples de interiorizar, se aplica como nunca à evolução actual da prática médica e, muito particularmente, ao campo da Radiologia. A segmentação dos cuidados de saúde resultante de um conhecimento cientifico exponencial (base da chamada medicina cientifica) levou à criação de dezenas de especialidades e hiper-especialidades as quais são hoje vistas por muitos como arsenais tecnológicos, tornando a prática médica cada vez mais centrada na tecnologia e menos nos pacientes. É hoje frequente a evocação de episódios de consulta onde o Médico, cada vez mais absorvido pela avalanche de fontes de informação, mal tem tempo (se é que tem tempo) de desviar o olhar cibernético e experimentar apenas ouvir o seu doente. Muitas destas práticas actuais têm levado a incessantes debates sobre o exercício da Medicina e, sobretudo, à requalificação do conceito da Medicina centrada no paciente. Mais, o exercício da Medicina, hoje altamente dispendioso, regulado e auditado por critérios gestionários e económicos, vive um momento de grande transformação em que a frase “criar valor” passou a entrar no léxico comum. É desta simbiose, de uma medicina de base tecnológica, altamente dispendiosa e consumidora de todo o tipo de recursos e da necessidade de maior humanização de cuidados médicos, que surge o conceito de medicina baseada no valor acrescentado (value-based medicine) focada não na prestação do gesto médico individual mas antes na demonstração do seu real valor para a cadeia diagnóstica e terapêutica subsequentes ( “outcomes”). Dois artigos de Michael Porter publicados em 2009 e 2010 no prestigiado New England Journal of Medicine dão conta desta transformação do paradigma do “fee for service” para outro, potencialmente mais relevante para o paciente (e para os pagadores de serviços de saúde) que se pode genericamente designar por “outcome-based” medicine. Vem isto a propósito das recentes tentativas mundiais na área da Radiologia de tentar acompanhar, proativamente, esta mudança. Quantos de nós não se têm sentado em grandes fóruns internacionais onde o tema principal se centra no futuro da Imagem Médica e na necessidade de uma progressiva humanização de cuidados. Quantos de nós não têm acompanhado as iniciativas de sociedades cientificas para criar novos paradigmas de prestação dos Serviços Radiológicos. Sendo a nossa especialidade, de base tão tecnológica, precisamente uma das que mais pode contribuir para a desumanização da prática médica, compete-nos, proativamente, impedir que tal suceda tal como hoje se perfila: ser uma especialidade constituída massivamente The professional practice of radiology: a guide to peacetime survival I have always been accustomed to hearing that in life a proactive attitude is more likely to lead to success than a reactive behavior. I think that this concept, simple to assimilate, applies as never before to the current evolution of medical practice and, in particular, to the field of Radiology. The segmentation of health care resulting from an exponential scientific knowledge (the basis of the socalled scientific medicine) led to the creation of dozens of specialties and hyper-specialties which are now seen by many as technological arsenals, making medical practice increasingly focused on technology and less on patients. Nowadays, it is frequent to evoke episodes of consultation where the Physician, increasingly absorbed by the avalanche of information sources, hardly has time (if he has the time) to divert the cybernetic eye and try only to listen to his or her patient. Many of these current practices have led to incessant debates about the practice of Medicine and, above all, the re-qualification of the concept of patient-centered Medicine. Moreover, the medicine practice, highly expensive nowadays, regulated and audited by managerial and economic criteria, is experiencing a moment of great transformation in which the phrase “to create value” began to enter into the common lexicon. It is from this symbiosis, of a technology-based, highly expensive and consumer of all kinds of resources medicine and the need for greater humanization of medical care, that the concept of value-added based medicine (valuebased medicine) arises, focused not on the individual medical gesture but rather in demonstrating its real value for the subsequent diagnostic and therapeutic chain (“outcomes”). Two articles by Michael Porter published in 2009 and 2010 in the prestigious New England Journal of Medicine account for this transformation of the “fee for service” paradigm into another, potentially more relevant to the patient (and to the healthcare payers) which can generally be called “outcomebased” medicine. This comes up in connection with the recent worldwide attempts in the field of Radiology to try to proactively follow this change. How many of us have not been sitting in large international forums where the main theme focuses the future of the Medical Image and the need for a progressive humanization of healthcare. How many of us have not followed the initiatives of scientific societies to create new paradigms for the provision of Radiological Services. Since our specialty, so much of technological basis, is precisely one of those that can mostly contribute to the dehumanization of medical practice, it is up to us to proactively prevent that from happening as it is today: to be a specialty massively formed by highly trained professionals in decoding the morphological subtleties, captured by more or less intrusive techniques. It will not be enough! Radiology 7

[close]

p. 10

por profissionais altamente treinados na descodificação das subtilezas morfológicas, captadas por técnicas mais ou menos intrusivas. Não vai chegar! A Radiologia precisa proativamente, de encontrar o seu caminho para a criação de valor, para uma maior humanização dos cuidados médicos e de ser um contribuinte líquido para os resultados clínicos, seja através da integração multidisciplinar seja através da sua inquestionável vocação terapêutica. Vale a pena pensar nisto. needs to proactively find its way to create value, to a greater humanization of medical care and to be a net contributor to clinical outcomes, either through multidisciplinary integration or through its unquestionable therapeutic vocation. This is worth to think about.

[close]

p. 11

ACTA RADIOLÓGICA PORTUGUESA Setembro-Dezembro 2016 nº 109 Volume XXVIII 9-10 Artigo de Opinão / Opinion Article RADIOEMBOLIZAÇÃO NA TERAPÊUTICA DO CARCINOMA HEPATOCELULAR- QUAL O ESTADO DA ARTE? RADIOEMBOLIZAÇÃO IN THE TREATMENT OF HEPATOCELLULAR CARCINOMA-WHAT IS THE STATE OF THE ART?” Paulo Vilares Morgado Coordenador da Unidade de Radiologia de Intervenção do Centro Hospitalar de São João, Porto Assistente Convidado da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto Fellow do European Board of Interventional Radiology A radioembolização hepática (RH), também designada como braquiterapia endoluminal seletiva (SIRT), é um procedimento terapêutico que consiste na administração endovascular de partículas carregadas com um emissor de radiação beta, o ytrium 90, com o objetivo de alcançar uma elevada dose de radioterapia seletiva na área tumoral. Embora atualmente a sua aplicação seja exclusiva para tumores hepáticos primitivos e metastáticos, estão em investigação aplicações em outros órgãos. É conhecido desde há vários anos que a radioterapia é eficaz no tratamento dos tumores hepáticos. Não obstante, a dose de radiação necessária (70Gy) ultrapassa o limite a partir do qual pode gerar-se dano irreversível para o tecido hepático são (30Gy). Por este motivo, a possibilidade de instilar de forma seletiva partículas com radiação beta reveste-se de particular interesse, dado que é possível obter doses intratumorais até 500 Gy e quanto maior for a vascularização relativa do tumor hepático em relação ao fígado não tumoral maior a eficácia terapêutica e menor a dose de radiação para o fígado não tumoral. Ainda que haja referência na literatura a utilização na prática clínica de diferentes isótopos, como o rénio e o iodo, o agente mais utilizado é o ytrium 90 (Y90). O Y90 é um emissor beta puro que tem uma semivida de 64,2 horas e uma capacidade de penetração tecidual média de 2,5 mm (máxima de 11 mm). O Y90 está carregado em partículas esféricas de 20-30 micra no caso das esferas de vidro (TheraSphere) e de 20-60 micra no caso das esferas de resina (Sir-Spheres). Estas esferas têm um tamanho sensivelmente inferior ao tamanho utilizado na quimioembolização com esferas carregadas com citostático (TACE-DEB), em que se utilizam esferas de 100 a 500 micra, sendo que o objetivo primordial não é ocluir vasos tumorais mas sim veicular o agente terapêutico, neste caso o Y90 para o interior do tumor hepático. Inclusive deve evitar-se a isquémia e a hipoxia dado que a eficácia da radioterapia depende de uma boa oxigenação tissular. A atividade das partículas de vidro (TheraSphere, da Nordion), nas quais o ytrium é um constituinte das esferas é de 2500Bq por partícula, enquanto as partículas de resina (Sir-Spheres, comercializadas pela Sirtex) em que o ytrium está fixado à superfície, têm uma atividade de 50 Bq por partícula, o que leva a que a quantidade de esferas para uma mesma dose de radiação difira substancialmente utilizando as esferas de vidro ou as esferas de resina. As esferas são por si próprias inertes e não geram qualquer efeito terapêutico, tendo-se demonstrado num trabalho experimental utilizando o porco como modelo animal que as partículas se alojam nos espaços porta, não condicionado qualquer reação inflamatória intravascular ou perivascular e que entre as 4 e as 8 semanas, produz-se repermeabilização do lúmen vascular mediante a exclusão por fagocitose das partículas. Assim o efeito terapêutico e eventuais complicações da radioembolização hepática resultam exclusivamente da radiação e não da isquémia. A avaliação clínico-radiológica consiste numa análise cuidadosa do estadio da doença hepática, incluindo a avaliação da função hepática. A obstrução das vias biliares obriga a uma drenagem prévia, no sentido de normalizar os valores da bilirrubina sérica; valores de bilirrubina sérica total superiores a 2mg/dl são uma contraindicação para a realização da radioembolização, pelo risco significativo de agravamento da deterioração da função hepática. Previamente à administração das esferas com Ytrium é efetuado um mapeamento angiográfico e simulação do tratamento com instilação de macroagregados de albumina marcados com Tecnésio 99m (MAA-Tc99m). Antes de realizar uma angiografia hepática dedicada, é aconselhável a avaliação do estudo imagiológico seccional (TC ou RM trifásico) com o intuito de detetar a presença eventual de vasos anómalos, avaliar a permeabilidade da veia porta e a vascularização das lesões hepáticas e os segmentos do fígado envolvidos. O estudo angiográfico deve responder a três grandes questões: - se a veia porta está permeável, o sentido do fluxo (hepatopetal ou hepatofugal) e excluir eventual macroinvasão tumoral portal. 9

[close]

p. 12

-detetar eventuais ramos hepáticos que possam vascularizar territórios extrahepáticos. Torna-se essencial embolizar estes ramos, para evitar complicações resultantes de passagem de partículas para órgãos não-alvo, como o estômago, tubo digestivo, pâncreas, parede abdominal, com consequências graves, como úlceras, necrose pancreática, necrose da parede abdominal. Estes vasos incluem fundamentalmente a artéria gástrica direita, a artéria falciforme e a artéria gástrica esquerda, sem contar com a artéria gastroduodenal. Menos frequentemente a artéria pancreaticoduodenal posterosuperior e a frénica inferior esquerda. -detetar eventuais vasos que ao nascer de artérias extrahepáticas podem vascularizar o tumor hepático. Além das variantes anatómicas descritas por Michels, considerar como aferências possíveis e comuns a artéria frénica inferior direita, a mamária interna direita, as artérias gastroepiploicas e a artéria frénica esquerda. A sua deteção implica a sua oclusão na tentativa de redistribuição do fluxo no sentido a que se possa efetuar o tratamento de todo o território tumoral a partir dos ramos da artéria hepática própria. Uma vez selecionado o ponto ou pontos do leito vascular hepático a partir do qual se vai proceder à instilação das esferas de ytrium, instilam-se previamente os macroagregados de albumina (40-60 micra) carregados com Tc-99m (MAATc99m) para posterior realização sequencial de uma tomografia computorizada por emissão de fotões (SPECTCT), que permite simular o tratamento e avaliar o grau de captação do tumor, detetar eventuais fugas extra-hepáticas e quantificar o shunt hepatopulmonar, que em regra deve ser inferior a 20 %, com uma dose cumulativa máxima para o pulmão de 20 Gy, em casos de tratamento bilobar sequencial ou retratamento. A dosimetria hepática para cálculo da dose a administrar é efetuada segundo formas distintas em função do tipo de partículas utilizadas, no caso das esferas de vidro tendo em linha de conta a volumetria hepática e a fração de shunt hepatopulmonar e no caso das esferas de vidro o cálculo poderá ser efetuado pelo método da área de superfície corporal, pelo método empírico ou pelo método de partição. O tratamento pode englobar todo o parênquima hepático numa dose única ou fracionada (lobo direito e lobo esquerdo) e pode ainda administrar-se a totalidade numa única sessão ou fracionar o tratamento em duas sessões (tratamento sequencial) separadas em regra de 4 a 6 semanas. No caso de tumor hepático localizado em um único segmento, o tratamento poderá ser efetuado de forma superseletiva, com a finalidade de obter uma elevada dose de radiação exclusiva na área tumoral e produzir a chamada segmentectomia rádica, preservando assim ao máximo o tecido hepático são/ não tumoral. De qualquer forma o tratamento é aplicado desde o ponto ou pontos vasculares anatómicos a partir dos quais foram instilados os macroagregados de albumina com TC99m. Os pacientes com carcinoma hepatocelular, diagnosticado por critérios radiológicos ou nos casos duvidosos com histologia positiva, que não são candidatos a terapêutica com intenção curativa (resseção cirúrgica, ablação percutânea), ou com má resposta ou contraindicação relativa à quimioembolização hepática (multifocais, com trombose porta associada), com função hepática preservada (Child A ou Bilirrubina sérica total inferior a 2 mg/dl), são potenciais candidatos à radioembolização, a qual inclusive pode ser utilizada como técnica de donwstaging e downsizing como ponte para transplante hepático, evitando o drop out nos centros com 10 lista de espera superior a 6 meses, no caso de progressão da doença. As contraindicações major, quer para os tumores primários, quer para os tumores secundários, são a impossibilidade de libertação segura das esferas com Ytrium no fígado, com captação extrahepática dos macroagregados de albumina marcados com Tc99m na avaliação prévia (para o duodeno, estômago, parede abdominal) e que não seja suscetível de modificação por embolização preventiva e redistribuição de fluxo e a presença de um shunt hepatopulmonar elevado (superior a 20%), com risco de pneumonite rádica (dose cumulativa máxima no pulmão deve ser inferior a 20Gy). Com a radioembolização hepática obtém-se um controlo local da doença num elevado número de pacientes, verificandose uma redução nos níveis de alfafetoproteina em 89% dos pacientes. Sangro et al (estudo multicêntrico, ENRY) demonstram num estudo retrospetivo um controlo local avaliado com técnicas radiológicas de 88%, e resposta parcial ou completa em 23% dos pacientes, verificando-se aparecimento de novas lesões em zonas não tratadas em 43% dos doentes. Diferentes séries publicadas demonstram um aumento significativo na sobrevivência dos pacientes com carcinoma hepatocelular tratados com radioembolização, com uma sobrevivência global superior a 12 meses e de 21 a 22 meses para os tumores em estadio Okuda I e de 8 a 11 meses para os tumores em estadio Okuda II. Quando o tratamento se aplica de forma seletiva, exclusivamente nos vasos aferentes do tumor, a dose administrada pode chegar aos 494Gy, obtendo-se o que se denomina por segmentectomia rádica, com excelentes resultados terapêuticos. Os benefícios da radioembolização no tratamento do carcinoma hepatocelular provêm não só do controlo da doença e aumento da sobrevida, mas também a possibilidade de incluir os pacientes em tratamentos com intenção curativa, como a cirurgia de resseção e o transplante hepático. Os doentes com trombose portal segmentar ou lobar apresentam curvas de sobrevivência similares às dos pacientes sem trombose. A radioembolização hepática é hoje uma arma terapêutica bem estabelecida na abordagem locorregional do carcinoma hepatocelular e que pode inclusive ser utilizada de forma concomitante com terapêuticas sistémicas, cumpridos os critérios de seleção dos pacientes elegíveis para esta terapêutica minimamente invasiva. Contribui para o aumento de sobrevida dos pacientes e para a melhoria da qualidade de vida dos mesmos, podendo inclusive ser utilizada como ponte terapêutica para o transplante hepático e nos casos em que ocorre downsizing ou mesmo downstaging da lesão, permite a resseção cirúrgica, em casos selecionados. Os desafios próximos que se nos colocam residem na determinação dos subgrupos de doentes que poderão beneficiar mais com esta terapêutica e na melhoria dos cálculos de dosimetria, incluindo a dosimetria intratumoral que permita otimizar a dose de radiação efetiva no tumor, poupando ao máximo o fígado não tumoral, por forma a maximizar os benefícios desta terapêutica e em última análise, aumentar a sobrevida dos pacientes, sem comprometer a sua qualidade de vida.

[close]

p. 13

ACTA RADIOLÓGICA PORTUGUESA Setembro-Dezembro 2016 nº 109 Volume XXVIII 11 A ESCOLA DA SOCIEDADE PORTUGUESA DE RADIOLOGIA E MEDICINA NUCLEAR (ESPRMN) THE SCHOOL OF THE PORTUGUESE SOCIETY OF RADIOLOGY AND NUCLEAR MEDICINE “A sabedoria não é o produto da Escolaridade, mas das várias tentativas ao longo da vida para a obter.” Albert Einstein A Escola da Sociedade Portuguesa de Radiologia e Medicina Nuclear (ESPRMN) nasceu da necessidade de consolidar e uniformizar o ensino da Radiologia e da Medicina Nuclear em Portugal. Apresenta-se através do seu logotipo sob a forma duma coruja, símbolo incontestável de sabedoria, aceitando o desafio desta analogia, oferendo oportunidades de ensino a quem está atento às suas iniciativas. A ESPRMN abrange temáticas fundamentais num modelo didáctico que se divide em curtas revisões teóricas e discussão de casos. As limitações temporais e os recursos disponíveis fazem com que a ESPRMN seja preferencialmente dirigida a internos do 4º e 5º anos de formação, de forma a beneficiarem da revisão e do teste de conhecimentos que o modelo de ensino da ESPRMN proporciona. Neste último trimestre decorreram mais três módulos com lotação esgotada, na presença dos melhores especialistas nacionais e internacionais nas respectivas áreas como palestrantes, num ambiente de proximidade que estimula o esclarecimento de dúvidas e facilita a aprendizagem. No fim de mais um ano é com enorme satisfação que assistimos novamente a uma grande adesão a este projecto, que continua a merecer comentários muito positivos tanto dos nossos formandos como dos formadores. Desde a sua criação em Abril de 2015, a ESPRMN conta já com 10 módulos completos: 1º Módulo da ESPRMN – Abdómen 18 de Abril de 2015 2º Módulo da ESPRMN – Cabeça e Pescoço 11 de Julho de 2015 3º Módulo da ESPRMN – Génito-Urinário 17 de Outubro de 2015 4º Módulo da ESPRMN – Radiologia Pediátrica 30 de Janeiro 2016 5º Módulo da ESPRMN – Radiologia Torácica 12 de Março 2016 6º Módulo da ESPRMN – Senologia 28 de Maio 2016 7º Módulo da ESPRMN – Radiologia Músculo-esquelética 2 de Julho de 2016 8º Módulo da ESPRMN – Radiologia Abdominal 26 e 27 de Outubro de 2016 9º Módulo da ESPRMN – Radiologia Cabeça e Pescoço 19 de Novembro 2016 10º Módulo da ESPRMN – Radiologia Génito-Urinária 10 de Dezembro 2016 Figura 1 - 6º Módulo da ESPRMN - Senologia Figura 2 - 7º Módulo da ESPRMN - Radiologia Músculo-Esquelética Figura 3 - 8º Módulo da ESPRMN - Radiologia Abdominal Figura 4 - 10º Módulo da ESPRMN - Radiologia GénitoUrinária Para o próximo ano a ESPRMN tem já planeada a segunda parte do Módulo de Radiologia Músculo-esquelética (21 de Janeiro de 2017), bem como novas edições do Módulo de Radiologia Pediátrica (18 de Fevereiro de 2017) e do Módulo de Radiologia Torácica (data ainda a definir), assegurando-se assim a continuidade deste projecto de sucesso. 11

[close]

p. 14



[close]

p. 15

ACTA RADIOLÓGICA PORTUGUESA Setembro-Dezembro 2016 nº 109 Volume XXVIII 13 NOTÍCIAS SPRMN SPRMN NEWS Módulo da ESPRMN - Radiologia Abdominal Decorreu nos dias 26 e 27 do passado mês de Outubro, mais um módulo de Radiologia Abdominal da ESPRMN desta feita, com a presença da Prof Valerie Vilgrain do Hospital Beaujon em Paris. Para além da afluência que encheu por completo o módulo, foi um grato prazer ter recebido pela primeira vez a visita de um Professor visitante especificamente convocado para esta formação da Sociedade. O curso foi particularmente intensivo com cerca de 8 horas diárias contanto com prelecções extremamente didáticas e discussão de casos clinicos. O módulo contou ainda com a apresentação de casos por um Serviço de Radiologia nacional por forma a participar activamente e colher a experiência da Prof Vilgrain na discussão de casos clinicos. Foram sem duvida momentos muito inspiradores e devemos louvar, além do brilho que sempre empresta como notável oradora, o profissionalismo e disponibilidade totais da Prof Vilgrain. A julgar pela avaliação dos participantes pensamos que dificilmente se poderia ter ido mais longe. Foi um grata iniciativa da ESPRMN que nos leva a ponderar outras réplicas num futuro próximo. A participação dos internos de radiologia foi muito positiva e o sistema de televoto funcionou em pleno. Ficou registada a nota de considerar oportuna a integração/convite também a outros serviços para apresentação de casos seleccionados. Finalmente um bem haja pela cedência das instalações a titulo gracioso pela IdealMed em Coimbra, cujo auditório reune magnificas condições para a realização de eventos deste tipo. A SPRMN agradece penhoradamente ao Presidente do seu Conselho de Administração, Dr José Alexandre Cunha. 13

[close]

Comments

no comments yet