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CARTA DO EDITOR Afinal, a CASA-CE não vai participar no próximo pleito eleitoral, previsto para Agosto/ Setembro deste ano, como Partido político. O trabalho de casa foi mal feito, cairam as vigas de sustentação dos alicerces que teriam de dar vida o Partido liderado por Abel Chivukuvuku porque o Tribunal Supremo indeferiu o processo. Não foi manobra de bastidor contra os homens da CASA CE e os argumentos da decisão foram pontualmente esgrimidos pelo Tribunal Supremo, o que levou Lindo Bernardo Tito, vice-Presidente de um partido que afinal ainda não existe, a afirmar que este, o da transformação da coligação em Partido, pode ser um assunto a ser pegado depois das próximas eleições. Fica para trás um Congresso com muita fanfarra que fez as pessoas descurarem alguns pressupostos que na politica têm de ser legalmente seguidos, sobretudo quando se trata de fusões de partidos. Mas deu para se convidar para o conclave politicos estrangeiros que mediram a pulsação quer da CASA CE como da UNITA, outro dos partidos que em Angola luta contra a hegemonia de poder do MPLA. Isso mesmo disse Daviz Simango numa extensa entrevista que publicamos nesta edição e onde aborda com propriedade a situação de Moçambique onde ele é o Presidente do Partido MDM. Ele não acredita na "boa fé do Presidente da República Filipe Nyussi e do líder da Renamo, Afonso Dlakhama para fazerem a Paz porque" não conseguiram despir as suas formações políticas das vestes e pensamentos militaristas. Com pensamento tacanho, militarista e de espirito guerreiro é Yahya Jammeh, o Presidente deposto da Gâmbia que teve de levar um "arranque" da CEDEAO e da UA para abandonar o poder depois de ter perdido as eleições presidenciais no seu País. Declarava-se eterno no poder, manifestava-se disposto em incendiar o Pais que governou durante vinte e dois anos com mãos de ferro, mas, felizmente não conseguiu esses intentos malignos. Não lhe restou outra solução senão procurar refúgio num País africano que o acolheu para ficar quieto e não correr o risco de se sentar um dia, no banco do Tribunal Penal Internacional que, enquanto no poder, tanto abominava. Essas são materias de destaque nesta edição que hoje vos chega às mãos, caros leitores. Boa Leitura Figuras&Negócios - Nº 181 - JANEIRO 2016 5

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3. CARTA DO EDITOR 7. PONTO DE ORDEM CRISE DAS CRISES 17. MUNDO REAL 18. POLÍTICA EMBRULHADAS DA CASA-CE INVIABILIZAM PARTIDO 20. PUBLI-REPORTAGEM 22. LEITORES 24. FIGURAS DE CÁ 28. PAÍS 33. NA ESPUMA DOS DIAS 36. REPORTAGEM OS ADVERSÁRIOS DE UMA CERANGOLA DE CARA LAVADA 40. PENA-LIVRE A GESTÃO DE TRANSIÇÕES 6 10. PÁGINA ABERTA DAVIZ SIMANGO, FALA DA PAZ E DA DEMOCRACIA EM MOÇAMBIQUE 56. SOCIEDADE 64. ECONOMIA & NEGÓCIOS 74. MUNDO CABO-VERDE CONTRADIÇÕES ENTRE GOVERNO E OPOSIÇÃO 42. DOSSIER ORÇAMENTO DE ANGOLA PENSADO DE FORMA GLOBAL Figuras&Negócios - Nº 181 - JANEIRO 2016

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70. ÁFRICA GÂMBIA, FINAL PESADO PARA UM DITADOR IRRIQUIETO 92. MODA & BELEZA 86. DESPORTO 89. FIGURAS DE JOGO 100. FIGURAS DE LÁ 104. RECADO SOCIAL Figuras&Negócios - Nº 181 - JANEIRO 2016 Publicação mensal de economia, negócios e sociedade Ano 18- n. º 181, Janeiro – 2017 N. º de registo 13/B/97 Director Geral: Victor Aleixo Redacção: Carlos Miranda, Júlia Mbumba, Sebastião Félix, Suzana Mendes e Venceslau Mateus Fotografia: George Nsimba e Adão Tenda Colaboradores: Édio Martins, Domingos Fragoso, Juliana Evangelista, João Marcos, João Barbosa (Portugal), Manuel Muanza, Rita Simões, Ana Kavungu, D.Dondo, Wallace Nunes (Brasil), Alírio Pina e Olavo Correia (Cabo-Verde), Óscar Medeiros (S.Tomé), Crisa Santos (Moda) e Conceição Cachimbombo (Tradutora). Design e Paginação: Humberto Zage e Sebastião Miguel Capa: Bruno Senna Publicidade: Paulo Medina (chefe) Assinaturas (geral): Katila Garcia Revisão: Baptista Neto Tel: (+244) 937 465 000 Brasil: Wallace Nunes Móvel: (55 11) 9522-1373 e-mail: nunewallace@gmail.com Inglaterra (Londres): Diogo Júnior 12 - Ashburton Road Royal Docks - London E16 1PD U.K Portugal: Rita Simões Rua Rosas do Pombal Nº15 2dto 2805-239 Cova da Piedade Almada Telefone: (00351) 934265454 Produção Gráfica: Imprimarte (Angola) Cor Acabada, Lda (Portugal) Tiragem: 10.000 exemplares Direcção e Redacção: Edifício Mutamba-Luanda 2º andar - Porta S. Tel: 222 397 185/ 222 335 866 Fax: 222 393 020 Caixa Postal - 6375 E-mails: figurasnegocios@hotmail.com artimagem@snet.co.ao Site: www. figurasenegocios.co.ao Facebook: Revista Figuras&Negócios Angola 7

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PONTO DE ORDEM Victor Aleixo victoraleixo12@gmail.com CRISE DAS CRISES Apalavra crise e os seus efeitos práticos tornaram-se questões correntes da sociedade angolana agora muito por causa da difícil situação que se vive devido ao aperto económico e financeiro internacional com reflexos evidentes em Angola porque durante muito tempo se adormeceu comodamente na multiplicação de dólares que o comércio de petróleo proporcionava. Mas, vendo bem as coisas, o que se vive agora é uma Crise das crises porque, afinal de contas, o País desde há muito vem vivendo momentos apertados porque não se conseguiu desprender da excessiva economia centralizada não obstante varias intenções neste sentido; pouco se fez para uma verdadeira gestão participativa, com o executivo a acreditar que tem a varinha mágica para todas as soluções pelo que dispensa contribuições de outros seres pensantes. Com o cobertor que as receitas do petróleo proporcionava, torrou-se dinheiro em obras faraónicas, fez-se crescer, sem balizas de proteção, a corrupção galopante, faltou comando no momento certo e a administração pública cresceu em quantidade mas minguou em qualidade. É um cenário de crise que foi corroendo a organização do País mas as pessoas, de forma geral, pouco se importavam porque o povo continuava a viver a olhar para os navios que transportavam tudo que servia para a alimentação; foi-se esquecendo que o Pais tem terra fértil para uma agricultura altamente competitiva e lucrativa, herdou um parque industrial que deveria ser modernizado e tornar-se eficiente para não se ficar confinado à importação de tudo e nunca se materializou uma politica coerente de apoio a agricultura familiar para se produzir com fartura o que precisamos para a nossa alimentação; não se delineou políticas para um efectivo arranque do parque produtivo nacional priorizando-se o ramo alimentar, antes pelo contrario apadrinhou-se primeiro a recepção da importação alimentar como de toneladas de roupa usada, deixou-se de produzir um pequeno varão de aço sem se pensar que Angola é um País em reconstrução e foi-se assistindo a fechos de fabricas e aumento de desemprego. Uma crise que apadrinhou o surgimento dos mercados informais, aguçou a mente dos incautos que acreditavam na felicidade do negócio do imediato. Quer dizer, o angolano ganhou o gosto pelo comércio que permite a recepção imediata de dinheiro, desvirtuou-se o valor do salário justo pelo trabalho realizado nos trinta dias úteis de cada mês do ano porque, até nisso, encontrou-se cobertor dos poderes constituídos quando, do alto do seu pedestal, um dirigente governamental teve o desplante de afirmar de que em "Angola ninguém vivia do salário normal". Tudo isso fomos assistindo tendo Luanda como o maior palco de actuação, até porque a excessiva centralização fez as pessoas acreditar que o futuro na vida só seria possível com a concentração de todos na capital do país. Uma crise também que não preocupou muita gente, principalmente os poderes constituídos, porque viu-se Luanda a engordar com o número de habitantes, a criminalidade a crescer exponencialmente e o interior, envergonhadamente a tentar sobreviver. Todas essas crises o País viveu e poucos se preocuparam. Acendeu a lâmpada vermelha porque o petróleo baixou muito, as alternativas para suportar os luxos ficaram limitadíssimas, o Dólar escasseou e todos ficamos preocupados com a crise. Mas essa é a Crise das Crises outras que temos e que se resumem num facto: patriotismo. Precisamos na verdade de gostar muito e mais do nosso País, de sermos patriotas, de deixarmos de pensar só e apenas de forma egoista nos nossos bolsos e bocas, contribuirmos todos para o combate à fome e a pobreza. Assim vence-se definitivamente a crise e não viveremos apenas com vaidade do nosso ego de gente pobre de espírito e ridícula na ostentação. Se calhar, hora determinante para se mudar! Figuras&Negócios - Nº 181 - JANEIRO 2016 9

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Largo 4 de Fevereiro, Palácio de Vidro, 5º andar; Cx. Postal 2223; Telefone +(244) 923047979, email: cnc@cnc-angola.gv.ao Luanda, Angola O Conselho Nacional de Carregadores, abreviadamente designado «CNC», é um Instituto Público do Sector Económico, dotado de personalidade jurídica, autonomia administrativa, financeira e patrimonial, criado para exercer as funções de controlo das operações de comércio e transporte marítimo internacionais, bem como a actualização, uniformização e simplificação dos métodos e normas para a sua execução. ATRIBUIÇÕES DO CNC a) Apoiar tecnicamente o Ministério dos Transporte na concepção, elaboração, adopção, implementação e controlo de políticas e metodologias de execução das operações de comércio, transporte marítimo e logística, através do acompanhamento, estudos análises e apresentação de propostas pertinentes. b) Contribuir, participar e investir na promoção de projectos de desenvolvimento de Marinha Mercante, Portos, Hidrografia, Corrente de Transportes e do Sector dos Transportes em geral. c) Acompanhar, velar e assegurar a execução correcta das políticas de comércio e transportes marítimos internacionais traçadas pelo Executivo, em coordenação com os órgãos e instituições competentes; d) Promover a defesa e a harmonização e interesses fundamentais do Estado com os vários intervenientes nas operações de comércio e transportes marítimos internacionais, tendo como objectivo principal a racionalização e optimização dessas operações; e) Estudar, analisar, apresentar e controlar as medidas que contribuam para a estabilidade dos fretes e taxas das mercadorias em defesa da economia nacional e do consumidor final; f) Acompanhar e analisar o processo de importação e exportação de mercadorias, centralizando a recolha, tratamento, interpretação e difusão da informação e estatísticas relativas as operações de comércio e transportes marítimos internacionais; g) Recolher, analisar e dar tratamento adequado ás informações e dados sobre a situação do mercado interno e internacional relativo ao comércio e transporte, com vista ao acompanhamento permanente da sua evolução e dos seus efeitos sobre a economia nacional; h) Promover o aproveitamento racional dos recursos materiais e humanos disponíveis na cadeia do comércio e transporte marítimo internacionais; i) Cobrar e receber as comissões legalmente devidas pelos armadores e carregadores que participam na transportação de mercadorias de e para Angola, para investimento directo no sector dos Transportes; j) Emitir, a partir da origem, o certificado de embarque em que os armadores ou operadores marítimos inscritos no Conselho Nacional de Carregadores, que detenham carga de ou para Angola, estão obrigados nos termos da lei, a exigir dos exportadores; k) Supervisionar e gerir o sistema da Rede Nacional da Plataforma Logística (RNPL); l) Desenvolver estudos e identificar estratégias que potenciem a actividade logística e a integração dos diversos modos de transportes; m) Garantir a adopção de sistema de informação integrados na Rede Nacional de Plataforma Logística e destas com o sistema portuários, ferroviários, rodoviários e com a rede nacional de produção de comércio interno e externo; n) Participar nas reuniões com os organismos internacionais congéneres e armadores, visando a regularização de questões inseridas no âmbito da sua competência, designadamente, as convenções internacionais e bilaterais, e as taxas do frete máxima a praticar no transporte marítimo internacional; o) Exercer as demais atribuições estabelecidas por lei ou determinadas superiormente. OS ESFORÇOS DO CNC VISANDO APOIAR O GOVERNO NO DESENVOLVIMENTO DO PAÍS, REFLECTEM-SE ENTRE OUTRAS, NAS SEGUINTES ACÇÕES: Implementação da Bolsa Nacional do Frete | Reabilitação da sinalização de toda costa marítima | Reabilitação de faróis e farolins costeiros | Reabilitação da Rádio Costeira (Luanda Rádio) | Acção de formação e actualização de marítimos angolanos | Contribuição para criação do Instituto Hidrográfico de Angola | Construção do Porto Seco de Viana | Construção da Nova Ponte Cais do Porto de Cabinda | Contribuição no estudo de construção do novo Porto de águas profundas em Cabinda | Participação na constituição e construção do ISGEST Instituto Superior de Gestão, Logística e Transporte | Participação na construção e implementação dos Terminais Marítimos de Passageiros em Luanda. Supervisionar e gerir o sistema da rede nacional de plataformas logísticas (RNPL) | Plataforma Logística Intermodal do Soyo- Província do Zaire | Plataforma Logística Regional do Lombe - Província de Malange | Plataforma Logística Intermodal Transfronteiriça do Luau – Província do Moxico | Plataforma Logística Intermodal do Menongue - Província do Cuando Cubango | Plataforma Logística Intermodal do Lubango - Província da Huíla | Plataforma Logística Intermodal Transfronteiriça do Luvo – Província do Zaire | Plataforma Logística Intermodal Transfronteiriça do Yema – Província de Cabinda | Plataforma Logística Intermodal Transfronteiriça do Massabi – Província de Cabinda | Plataforma Logística Intermodal do Bié - Província do Bié | Plataforma Logística Intermodal Transfronteiriça de Santa Clara – Província do Cunene. Figuras&Negócios - Nº 181 - JANEIRO 2016 11

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PÁGINA ABERTA I ENTREVISTA Daviz Simango é Presidente do Movimento Democrático de Moçambique (MDM), a terceira força política parlamentar daquele País do Índico e o primeiro partido da oposição a governar territórios. Com um passado político que o fez se inspirar na Frelimo, onde os seus pais ocuparam postos de destaque na direcção e na Renamo ao ponto de acabar por ser expulso, Daviz Simango criou a sua força política como uma alternativa aos "partidos da guerra", como os considera, e sonha ir mais longe na mira de dar uma melhor vida aos moçambicanos. Quer ser Presidente da República de Moçambique mas, para já pensa na paz que deve ser alcançada no seu País, na mudança da Constituição, torná-la mais inclusiva, e na eliminação de espaços para que a corrupção não seja uma praga que mine a verticalidade dos moçambicanos. Daviz Simango respondeu por e-mail ao questionário enviado por Victor Aleixo Revista Figuras & Negócios (F&N)- O porquê dessa "paz podre" em Moçambique? Onde encontraremos as causas: erro dos políticos na visão global da sociedade, egoísmo exacerbado pelo poder ou cobardia da sociedade? Daviz Simango (D.S.)- Todas nações têm história, narrativa e vivida, e para nós os caminhos para obrigar o colonialismo português a aceitar o direito dos moçambicanos de conquistar o seu espaço no seio das comunidades das nações não foram fáceis. Para além da resistência secular, tivemos que encontrar na luta armada a forma viável para a conquista da Independência Nacional, negadas que foram todas formas de diálogo. O problema do meu país surge primeiro, a partir da altura e pela forma como se realizaram os acordos de Lusaka, em 7 de Setembro 1974, uma data histórica em Moçambique, pois se trata da vitória e da consolidação de mais um processo de exclusão, negada que estava a participação de outros moçambicanos no processo da delineação dos mecanismos que conduziriam o País à independência. Portanto, apesar da euforia popular resultante deste acordo, a exclusão, a negação dos princípios acordados pelos três movimentos que constituíram a frente de libertação que tinham como alicerces a institucionalização da vida democrática, os direitos no plano político, económico social e cultural dos moçambicanos; e a ditadura instalada no Moçambique independente proporcionaram condições propícias e férteis para a resistência. Vários princípios dos acordos de Roma de 4 de Outubro de 1992 simplesmente não foram cumpridos e os suces- sivos processos eleitorais fraudulentos, a arrogância das autoridades governamentais, os extremismos das duas partes, a ausência de programas e políticas de inclusão e de reconciliação nacional, o facto de a Renamo chamar para si a responsabilidade de único interlocutor válido para o seu adversário político e negar a opinião e a existência de uma concorrência na oposição competente e capaz continua a arrastar a Renamo a assinar acordos irrealísticos com a Frelimo. Em suma, não há cobardia da sociedade pois esta continua a manifestar a necessidade de estar incluída em todo o processo que possa e que diz respeito aos moçambicanos. Infelizmente, ambas partes ainda não se mostram abertas e querem continuar a hipotecar o país para uma democracia armada, onde se sentem bem. Não se pode ter uma economia sustentável numa democracia armada, e estas discussões, ora chamadas de diálogo e outras vezes, por outros, denominadas de negociação, tornaram-se num autêntico jogo de "ping-pong", com as delegações encontrando-se mas não encontrando consensos que possam trazer de volta a calma, serenidade, estabilidade e paz. F&N- Hoje, os dois contendores, o governo da Frelimo e a Renamo, declararam tréguas de alguns meses. Será esta uma solução credível? D.S- O que é uma trégua para um povo, pior ainda uma trégua de chamada telefónica, se ao longo dos anos havia diálogo no centro de conferências Joaquim Chissano, e, agora, na sede da comissão mista? São anos e anos, rondas e rondas, sessões e sessões, e apenas uma chamada garante uma trégua, que os mediadores haviam cultivado no documento de sete princípios a seguir para a Assembleia da República até 30 de Novembro de 2016, A PAZ N COM TRÉGU 12 Figuras&Negócios - Nº 181 - JANEIRO 2016

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ENTREVISTA I PÁGINA ABERTA mas que até à data ninguém fala destes princípios e as razões de não depositarem na casa do povo, onde vinha claro a cessão das hostilidades militares depois do depósito? Os mediadores saíram para a quadra festiva desiludidos e frustrados, aguardam novo convite de ambas as partes, no entanto, uma simples chamada resolve e cria a trégua! A questão é: esses anos todos onde estava a chamada, quantas vidas e infraestruturas seriam salvas e protegidas, quantos refugiados e violações de direitos humanos seriam evitados, quantas destruições seriam evitadas, quantas empresas não teriam fechado as portas, quanta fome seria mitigada com a produção agrícola, quantos partos seguros e doentes teríamos salvos, enfim o porquê este tempo todo, para uma chamada que não se sabe o que realmente se tratou? Não há transparência, e os moçambicanos não podem continuar à reboque e teleguiados por dois partidos armados até aos dentes. Estão conhecidos os problemas de Moçambique, são os conflitos políticos e económicos, e uma estratégia de prevenção eficaz exige uma abordagem global, envolvendo todas forças vivas da sociedade, pois prevenir é muito melhor e mais barato do que remediar, daí urge enfrentar os problemas de frente no lugar de menosprezá-los. O que o país precisa, hoje, é a Revisão da Constituição da República onde se reduza os poderes em torno da figura do Presidente da República, a eleição dos governadores provinciais e empoderamento das Assembleias provínciais, a descentralização efectiva em todo o território nacional, a autonomia admi- nistrativa e financeira dos magistrados judiciais, a transformação do Conselho Constitucional em Tribunal Constitucional, a criação do Tribunal de Contas e a reconciliação nacional efectiva. O País precisa de ter uma Comissão Nacional de Eleição com poderes de direcção e administração nos recenseamentos e actos eleitorais integrando o STAE (Secretariado Técnico de Administração Estatal) dentro da estrutura da CNE, com carácter permanente da sua estrutura até o nível provincial de modo a garantir transparência no processo para evitar qualquer ameaça para conflitos pós-eleitorais. F&N- E por que não se verifica o envolvimento de toda sociedade? Acredita que esta situação mais tarde vai fragilizar quer a Frelimo como a Renamo e o MDM vai se assumir como a principal força política moçambicana? NÃO SE CONSEGUEDAVIZ SIMANGO, PRESIDENTE DO MDM (MOÇAMBIQUE) UAS AO TELEFONE Figuras&Negócios - Nº 181 - JANEIRO 2016 13

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PÁGINA ABERTA I ENTREVISTA D.S - Precisamos de alcançar a Paz, e para tal tudo deve ser feito para se educar para a Paz. O espectáculo diário das guerras, das tensões, das divisões, semeia dúvidas e quebram a confiança. Infelizmente, os gestos de Paz das autoridades governamentais são irrisoriamente impotentes para mudar o rumo das coisas, devido a resistência de introduzir reformas necessárias para a convivência democrata. O MDM é pela inclusão de toda sociedade civil, pois a paz, a descentralização e a Revisão da Constituição dizem respeito aos moçambicanos pelo que não se pode admitir que dois partidos políticos que representam uma minoria ditem o que pensam vinte e cinco milhões de moçambicanos. Não é admissível mas o problema continua a ser arrogância e extremismos dos senhores da "democracia armada", que ainda não compreenderam que o dia chegará para o fim desta tentativa de expropriar os interesses colectivos. O cidadão moçambicano quer que os assuntos dos homens sejam tratados com humanidade e não por meio de violência; as tensões, os casos contenciosos e os conflitos devem ser compostos por negociações razoáveis e não com a força; as oposições ideológicas devem confrontar-se num clima de diálogo e discussão livre; os interesses legítimos de determinados grupos devem ter em consideração, também, os interesses legítimos de outros grupos aos quais digam respeito e as exigências do bem comum; o recurso às armas para silenciar seja quem for, ou para procura de protagonismo muscular não deve ser instrumento para solucionar o conflito; temos que salvaguardar os direitos humanos em todas as circunstâncias; não se deve matar e nem tolerar matança para impor solução. O que vale ao MDM aplaudir uma situação que vai fragilizar quer a Frelimo como a Renamo se assumir como a principal força política moçambicana, enquanto o povo é deslocado, as terras aráveis se transformaram em túmulos dos jovens mortos numa guerra injusta, as destruições e os desempregados resultantes duma economia de guerra. Isto não interessa ao MDM. Queremos fazer uma luta política e democrática num país onde se adopta mecanismos apropriados e eficazes para enfrentar os problemas, nomeadamente instituições que assegurem uma boa governação e o Estado de Direito Democrático, instituições democráticas interdependentes e uma imprensa livre das amarras partidárias. F&N - O envolvimento da comunidade internacional como mediador é solução? Não significa isso um "atestado de incompetência" dos de fora para com os moçambicanos que não conseguem sozinhos resolver os seus problemas? D.S - Lembrar de que em qualquer nação civilizada, em primeira instância, a responsabilidade primordial pela prevenção dos conflitos recai ao Governo, pois as medidas preventivas deviam ter sido tomadas no cumprimento dos Acordos de Paz, no ataque das causas estruturais profundas que estão frequentemente subjacentes aos sintomas políticos. “ Infelizmente, am- bas partes ainda não se mostram abertas e querem continuar a hipotecar o país para uma democracia armada, onde se sentem bem Temos experiência de Roma onde tínhamos mediadores,-por sinal alguns voltam a cruzar as suas vidas e histórias de novo com este conflito, pois esses mediadores internacionais ajudaram os acordos de Roma que colocaram ponto final à Guerra Civil-, trazendo aos moçambicanos um alívio e uma esperança para novos desafios de reconstrução nacional e um Estado de Direito. Após a assinatura do Acordo Geral da Paz, em Roma, entrou-se para uma situação de silêncio das armas mas, infelizmente, de continuação de jogos dúbios e manobras que, com o tempo, se constituíram em verdadeiros factores de produção de crises e conflitos em Moçambique. Depois veio a assinatura histórica do fim das hostilidades entre o governo da Frelimo e a Renamo, em Setembro de 2014, sem mediação internacional não se concretizaram os efeitos da paz, sossego, tranquilidade, estabilidade, progresso, desenvolvimento na- “ cional que a maioria sonhou. A crise actual é a consequência do modo como os ex-beligerantes fazem a política, resultantes da má gestão e erros políticos e como não há humildade, a arrogância assume o controlo, atraindo, desta forma, conflitos armados. Vivem-se momentos perigosos que os interlocutores não estão a ter capacidade de assumir que perigam a paz tão arduamente conquistada pelos moçambicanos. Nestas circunstâncias, intermediários e mediadores estão a oferecer o apoio necessário para acelerar discussões frutuosas. Moçambicanos imbuídos de boa vontade embora excluídos, poderiam oferecer subsídios valiosos para um desenlace por este povo que clama por paz, entendimento, estabilidade e desenvolvimento. F&N- Por que o senhor, ambiciona chegar a Presidente da Republica? D.S- Em termos constitucionais, todos moçambicanos têm o direito de concorrer a este cargo público desde que preencham os requisitos para o efeito, e eu, naturalmente, tenho o perfil e experiência de governação que me habilitam a ter essas qualidades. Moçambique precisa de políticos responsáveis e cidadãos que não vivem na ilusão de "yes man" ou dos "lambe botas", perpetuando a discriminação sistemática, desigualdades ou injustiças sócio-económicas, desrespeito pelos direitos humanos e diferendos ligados à participação política. O País precisa de homens e Mulheres não escravos do ‘sim, chefe’, bajuladores e cobardes. O nosso país tem pago um preço muito elevado pela cultura de bajulação e do medo e de ser prisioneiro de esquemas prefabricados. Todas vitórias são travadas em campo de batalha, e as batalhas são feitas por homens com causas de servir o próximo e de ser instrumento dos interesses dum Estado, onde se cultiva valores, ética e o respeito pela cidadania. F&N - Partillha a ideia, muito defendida em Moçambique e no exterior, que os problemas do vosso País só acabarão ou quando Afonso Dlhakama for Presidente ou quando eliminado da vida política? Será Dlhakama um mal necessário para se vincar uma verdadeira democracia em Moçambique? D.S - O país é de todos nós e somos nós que devemos, duma forma transpa- 14 Figuras&Negócios - Nº 181 - JANEIRO 2016

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