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ENCARTE ESPECIAL Veja na internet Informativo do Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação Básica, Profissional e Tecnológica | CEA/CSP-CONLUTAS | Janeiro/2017 | Edição nº 03 Especial sobre Fidel Castroo último dia 25 de novembro, o mundo recebeu a notícia Nda morte de Fidel Castro. Imediatamente, personalidades públicas e líderes de todas as nações se apressaram em fazer pronunciamentos e frases de efeito sobre o ex-líder cubano. Como era de se esperar, as reações foram plurais, houve os que ressaltaram a importância desse homem como personalidade no século XX, houve quem esboçasse ainda no momento da morte suaves críticas ao regime cubano e também houve muitos que ressaltaram o papel do mito inspirador do comandante guerrilheiro que nos anos 60 inspirou toda uma geração de jovens idealistas a tentar assaltar o céu, enfrentando heroicamente, em condições desiguais, tiranas ditaduras militares. Fidel, sem dúvida, nunca será uma figura consensual. Odiado pelas direitas e longe de ser um consenso entre as esquerdas, sua imagem estará perpetuamente envolvida em toda a sorte de paixões, mas certamente jamais pela indiferença, e essa é, sem dúvida, a marca dos grandes homens. Confira o texto completo neste encarte especial do Informativo do SINASEFE nº 3. Boa leitura!

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Especial sobre Fidel Castro 2 | Janeiro/2017 | Especial _ FIDEL CASTRO Fidel Castro: um homem do seu tempo No último dia 25 de novembro, o mundo recebeu a notícia da morte de Fidel Castro. Ime- diatamente, personalidades públicas e líderes de todas as nações se apres- saram em fazer pronunciamentos e frases de efeito sobre o ex-líder cuba- no. Como era de se esperar, as reações foram plurais, houve os que ressalta- ram a importância desse homem como personalidade no século XX, houve quem esboçasse ainda no momento da morte suaves críticas ao regime cubano e também houve muitos que ressaltaram o papel do mito inspirador do comandante guerrilheiro que nos anos 60 inspirou toda uma geração estudantil. Depois de formado, advo- República Dominicana e na Colômbia. de jovens idealistas a tentar assaltar gou inúmeras vezes de forma gratuita Chegou a ser candidato a uma cadeira o céu, enfrentando heroicamente, em para camponeses e trabalhadores em de deputado em 1952, mas o golpe de condições desiguais, tiranas ditaduras geral que não podiam pagar pelos seus Estado que levou Fulgêncio Batista ao militares. Fidel, sem dúvida, nunca serviços. Em 1947, ainda na universi- poder nesse mesmo ano frustrou-lhe será uma figura consensual. Odiado dade, ingressou no Partido Ortodoxo as expectativas institucionais. Nascia a pelas direitas e longe de ser um con- Cubano, cujo principal líder e fundador, ditadura em Cuba, e nascia no mesmo senso entre as esquerdas, sua imagem Eduardo Chibás, lhe exercia grande in- processo o guerrilheiro Fidel. Poucos estará perpetuamente envolvida em fluência. Nem Chibás, nem o Partido meses depois do golpe, em 26 de ju- toda a sorte de paixões, mas certa- Ortodoxo, nem Fidel eram marxistas. lho de 1953, o advogado progressista mente jamais pela indiferença, e essa O partido tinha muito mais uma carac- liderou a primeira tentativa de tomada é, sem dúvida, a marca dos grandes terística populista de esquerda, defen- do poder pelas armas. Mas o assalto ao homens. sor de reformas sociais, com perfil libe- quartel de Moncada foi um desastre. Fidel Alejandro Castro Ruz nasceu na ral progressista e cuja principal marca Preso, Fidel foi condenado a 15 anos província cubana de Birán, em  13 de era o discurso anticorrupção contra os de reclusão. Em sua defesa, que du- agosto de 1926. Filho de um fazendei- governos da ilha, em especial o de Car- rou várias horas (Fidel desde cedo ficou ro abastado, aluno relapso nas ciências los Prío, que governou o país de 1848 conhecido por seus discursos longos, exatas, apaixonado por história, geo- até 1952. alguns de até sete horas), ficou para a grafia e por esportes, desde cedo re- Sem uma definição ideológica cla- história sua frase de maior efeito: “con- velou uma personalidade forte e ativa, ra, embora seu alegado nacionalis- denem-me, a história me absolverá”. o que lhe valeu em sua infância, uma mo, desde muito cedo em sua ativi- Anistiado em maio de 1955, parte para expulsão por indisciplina em um colé- dade política se posicionou também exílio no México dois meses depois e gio católico. Ingressou na universida- no sentido de apoiar os trabalhadores lá organiza o Movimento 26 de Julho. de de Havana, no curso de direito, em em outros países latino-americanos, O Movimento, que além de Fidel con- 1945 e cedo ingressou no movimento lutando contra governos de direita na tava com outras personalidades que se tornariam lendárias, entre elas Che Expediente Esta é uma publicação do Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação Básica, Profissional e Tecnológica – SINASEFE. Jornalistas profissionais: Mário Júnior (MTE-AL 1374) e Monalisa Resende (MTE-DF 8938) Diagramação: Guevara, visava organizar exilados e simpatizantes da causa cubana para derrubar o ditador Fulgêncio Batista. Chegou a mobilizar a comunidade cubana nos Estados Unidos, profe- Fechamento do texto desta edição em 16 de dezembro de 2016. Artigo escrito por Fabiano Faria, representando sua visão e opinião particulares. A gestão 2016-2018 da Direção Nacional do SINASEFE é responsável por este encarte. Confira a nominata em nosso site: Ronaldo Alves (RP 5103/DRT-DF) Charge: Carlos Latuff Fotos: Divulgação Contatos: (61) 2192-4050 | imprensa@sinasefe.org.br rindo discursos em Nova York e em Miami, durante viagem que fez a esse país em 1955. Em novembro de 1956, a bordo do iate Granma, partiu do porto mexicano de Tuxpan com dezenas de guerrilheiros, desembarcando na praia

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Especial sobre Fidel Castro 3 | Janeiro/2017 | Especial _ FIDEL CASTRO Las Coloradas e de lá partindo para a Sierra Maestra. Tinha início ali a Revolução Cubana. Os combates contra o governo de Batista duraram cerca de dois anos e culminou com a vitória da revolução. Fulgêncio Batista fugiu da ilha em 1 de janeiro de 1959 acossado pelos guerrilheiros, mas também por uma poderosa greve geral. As tropas revolucionárias entram em Havana em 8 de janeiro. Fidel, comandante do Exército Rebelde Cubano, foi quase imediatamente nomeado Primeiro Ministro e pouco depois se torno presidente do país, posto no qual permaneceu até 2008. É impossível dissociar a imagem do “Comandante” do processo da Revolução Cubana. A leitura que se têm nas esquerdas do que foi essa Revolução, sua importância, sua evolução e seu significado está no cerne do debate político e das interpretações em torno do homem Fidel. O século XX foi marcado em boa medida pela luta entre capitalismo e comunismo, nesse movimento, muito se discutiu entre os revolucionários os caminhos para a tomada do poder. A Revolução Russa de 1917, prestes a completar um século, é até hoje um paradigma para muitos setores da esquerda revolucionária. E aí está o ponto nevrálgico: Fidel está associado diretamente à quebra desse paradigma, tanto no que tange ao mé- todo e aos sujeitos da revolução, como também à organização revolucionária necessária para dar por fim ao regime capitalista e instaurar um novo. A chegada ao poder em 1917 dos revolucionários bolcheviques estabeleceu para o movimento socialista em toda parte um modelo a ser seguido. Por todo o mundo surgiram partidos comunistas que professavam os métodos de organização bolchevique e se inspiravam diretamente em sua história como roteiro para a insurreição revolucionária. Naquele momento, não existiam no interior de cada país, como temos hoje, um enorme leque de organizações de esquerda. Havia um conceito firmemente estabelecido que havia, de modo geral um – e somente um – partido comunista, “o” partido da classe operária, ligado ao partido comunista da União Soviética e à terceira internacional1. Esse modelo se revelou duradouro durante toda a primeira metade do século XX, a primeira ameaça à sua hegemonia foi feita pelo movimento trotskista, que preconizava a IV Internacional. Não obstante a negação da herança stalinista e mesmo da III Internacional após 1923, também os trotskistas reivindicavam um modelo de organização partidária muito parecido ao de seus rivais stalinistas, ou seja, a concepção de partido bolchevique. O segundo desafio feito à superestrutura partidária soviética, esse de força muito mais considerável, foi pelos comunistas chineses. A Revolução Chinesa de 1949 se fez em desobediência direta à plutocracia soviética; em particular à uma ordem direta de Stalin! Mao Tsé-Tung e seus aliados recusaram a orientação do Secretário Geral do Partido Comunista da União Soviética em conciliar com o Kuomitang (partido contra o qual Mao liderou a chamada Grande Marcha) e pouco tempo depois de consolidar seu poder, passou o Partido Comunista Chinês a se colocar no cenário do movimento comunista internacional como uma alternativa real à liderança soviética como pólo irradiador da revolução. Em linhas gerais, o maoísmo tinha no campesinato e não no operário urbano o sujeito da revolução, e preconizava a luta armada a partir do campo como método privilegiado de assalto ao poder. Todavia, em termos de estrutura partidária, não diferia muito, Mao, então apelidado de “o grande timoneiro” nunca recusou o conceito de partido rigidamente centralizado e assim o manteve sob suas rédeas, até sua morte. Mesmo processos que foram traumáticos às organizações desse tipo, como as denúncias dos crimes de Stalin durante o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, 1  Na verdade, a chamada Terceira Internacional só existiu até 1943 e foi extinta como parte dos acordos entre as forças aliadas na Segunda Guerra Mundial. Depois disso seu papel foi parcialmente preenchido por outra entidade, o COMINFORM, que existiu entre 1947 e 1956, depois deste, os partidos comunistas ligados à tradição da III Internacional ser organizaram a partir das Conferências Internacionais dos Partidos Comunistas.

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4 | Janeiro/2017 | Especial _ FIDEL CASTRO Especial sobre Fidel Castro afetaram de maneira significativa a burocracia chinesa, e a bem da verdade, não afetam até os dias atuais. A Revolução Cubana de Fidel foi, em muitos aspectos, uma variação latina da revolução chinesa, mas num contexto já bastante diferente. Em primeiro lugar, porque a Revolução Cubana ocorreu depois da crise internacional do Stalinismo, que teve como marco o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, ocasião em que seu Secretário Geral, Nikita Khrushchov, denunciou sob o rótulo geral de “culto à personalidade” os crimes de Stalin. Em segundo, porque Fidel não era ligado diretamente ao comunismo soviético, e sua aproximação se deu após o processo da revolução, na medida em que esta se definia política e ideologicamente. Feita a revolução, Fidel e seus aliados não optaram imediatamente pelo socialismo – a revolução e todo o seu movimento tinham como objetivo principal a derrubada da ditadura na ilha. Pressionado por sua base social ansiosa por serviços sociais de um lado e pelos interesses dos Estados Unidos de outro, os revolucionários cubanos não hesitaram muito em fazer suas escolhas. Como medida retaliativa, os americanos, num primeiro momento, reduziram as importações de açúcar cubano. Prontamente os soviéticos se ofereceram para comprar todo o açúcar encalhado da ilha. A aproximação com os soviéticos levou o imperialismo ianque às raias do desespero: o presidente Eisenhower decretou embargo parcial à ilha em 19 de outubro de 1960, e em 3 de janeiro de 1961 veio o embargo total com rompimento das relações diplomáticas. Para um continente acostumado a ver a América Latina e especialmente a América Central como um quintal para a intervenção americana, parecia questão de tempo até que as forças americanas invadissem a ilha e acabassem com a “aventura daqueles jovens inconsequentes”. Efetivamente, em abril de 1961, poucos meses depois do Embargo, um grupo de dissidentes da Revolução, financiados e treinados pela CIA, tentam invadir o país no episódio que ficou conhecido como Invasão da Baía dos Porcos. Mas a tentativa de intervenção foi um desastre, os guerrilheiros cubanos derrotaram os invasores em apenas três dias. Ao final, Fidel fez mais um de seus longuíssimos discursos no qual proclamava para o mundo sua vitória sobre o imperialismo americano e em especial sobre seu recém-empossado presidente John F. Kennedy. A vitória dos revolucionários sobre as forças americanas empolgou jovens revolucionários em todo o mundo, em especial na América Latina. Mas para os cubanos, a situação estava longe de ser confortável, era muito real a possibildiade de uma nova invasão maior e mais organizada e a disparidade militar entre Cuba e Estados Unidos era, sem dúvida, muito grande. Restava a rigor, muito pouco a fazer senão aceitar de bom grado a aliança militar com a União Soviética, a qual resultou na chamada “Crise dos Mísseis” em 1962. O processo deste momento histórico, que quase levou o mundo a uma guerra nuclear entre URSS e EUA, durou treze dias, entre 16 e 28 outubro de 1962, e foi acompanhado minuto a minuto por toda a população mundial. Ao final, Moscou concordou em retirar os mísseis de Cuba e os Estados Unidos se comprometeram a nunca invadir a ilha e nem fazer qualquer provocação direta. Como resultado adicional do impasse, esse foi o início de uma negociação direta entre russos e americanos no sentido da diminuição do aparato nuclear – que de fato aconteceu nos anos seguintes. Em linhas gerais, podemos concluir que a Revolução Cubana nos seus primeiros anos foi uma sucessão de vitórias sobre um inimigo muito maior e poderoso. A partir de 1961, Cuba foi proclamada socialista e a existência objetiva de um primeiro governo nascido de uma revolução habitando nas barbas do Tio Sam, fez o espectro dos jovens guerrilheiros barbudos rondar como um sonho o continente sul-americano. Não houve discussão de “socialismo num só país” em Cuba. Proclamadamente, os guerrilheiros cubanos defendiam a expansão da revolução para o todo o continente americano, assim como para a África e para a Ásia. No Brasil, a Revolução Cubana foi saudada, como não podia deixar de ser, pelo Partido Comunista do Brasil (PCB)2, mas simultaneamente os seus principais dirigentes se apressavam em afirmar a opção organizativa partidária bolchevique e o que era cada vez mais 2  Em 1959, ano da Revolução Cubana, a sigla PCB se lia como Partido Comunista do Brasil. Em 1962, como medida no sentido de conquistar a legalidade, o significado passou a ser Partido Comunista Brasileiro. Nessa ocasião, um grupo de militantes ligados ao Comitê Central anterior à crise do XX Congresso do PCUS protagonizou um rompimento com a direção ligada a Prestes e fundou o PCdoB, proclamando-se o Partido Comunista do Brasil. O PCdoB não se considera até hoje um partido fundado em 1962, defendem que com a mudança de significado da sigla promovida por Prestes e seus aliados, estava-se na verdade fundando um novo partido, e que o PCdoB é na verdade o PCB fundado em 1922 reorganizado. Apesar da mudança de nome, a legalidade para o PCB não foi conquistada em 1962.

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Especial sobre Fidel Castro 5 | Janeiro/2017 | Especial _ FIDEL CASTRO polêmico: o caráter etapista da revolução brasileira. Por etapismo, entendia-se que a revolução no Brasil se daria em dois momentos, em primeiro uma revolução democrático burguesa, com o fim de acabar com os “caracteres feudais” do país, desenvolver o capitalismo e só depois de concluída essa etapa se partiria para a segunda fase da revolução, que seria o socialismo. No momento da Revolução Cubana, o PCB era ainda a principal organização da esquerda marxista no Brasil. Depois da Revolução Cubana e também como consequência da crise do stalinismo e das repercussões do Golpe Empresarial de 1964, esse cenário viria a se alterar de forma brusca em poucos anos. Em 1961, surge a Organização Revolucionária Marxista Política Operária (POLOP) a partir da dissidência de líderes estudantis que divergiam fortemente da tese da revolução democrático-burguesa defendida pelo PCB. Todavia a POLOP jamais teve uma força significativa, seja no movimento sindical, seja no movimento estudantil. Foi especialmente a partir do Golpe de 1964, que se daria a crise final da hegemonia do PCB na esquerda brasileira e o surgimento de uma miríade de organizações voltadas para a derrubada da ditadura e tomada do poder pela via da luta armada, inspirada em Fidel e nos guerrilheiros cubanos. Durante o curto governo de João Goulart, o PCB apostou demasiadamente para alguns setores na aliança com estado e burguesia nacional, tida então como progressista. Mesmo os constantes alertas quanto à possibilidade de um golpe de Estado eram simploriamente ignorados. Apostava-se a invencibilidade do dispositivo militar do presidente e no suposto não interesse da Burguesia nacional num golpe como esse. Do lado da direita a situação era bem diversa. Militares brasileiros estavam absorvendo desde o final da década de 1950 uma doutrina militar importada do exército francês, que ficou conhecida como “Doutrina da Guerra Revolucionária”. Em linhas gerais, esse corpo teórico elaborado pelos generais franceses que apoiaram a ocupação nazista de Vichy, afirmava que o chamado Movimento Comunista Internacional apresentava naquele momento uma estratégia de chegada ao poder e destruição do capitalismo3. Essa nova estratégia comunista se daria pela conquista da periferia do sistema capitalista, construindo uma rede de países comunistas que, aos poucos, sufocaria os países centrais. Ainda segundo esses oficiais, nos países da periferia se daria pela aplicação de cinco etapas: 1. A agitação democrática (quando os comunistas adotariam um discurso de adesão ao sistema e à democracia). 2. A construção de uma rede de organizações comunistas (grêmios estudantis, sindicatos e movimentos sociais variados de perfil humanista). 3. A penetração de comunistas no Estado via eleições e cargos de confiança, os primeiros focos de guerrilha, o enfraquecimento das forças armadas pela indisciplina e assassinatos de lideranças “democráticas” (de acordo com os militares brasileiros, o Brasil estaria nesta etapa). 4. O estabelecimento de zonas livres via luta de guerrilhas e, 5. A consolidação de um exército revolucionário para o assalto ao poder e instalação da “tirania comunista”. Essa “doutrina” permitia aos militares conspiradores afirmar que qualquer ação, mesmo a mais inocente organização estudantil para leitura de textos filosóficos, era uma ação orquestrada 3  Os militares não costumavam utilizar o conceito de capitalismo, ao invés disso, empregavam mais recorrentemente o conceito “democracia”, como se capitalismo e democracia fossem sinônimos na exata medida em que comunismo e tirania também o seriam.

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Especial sobre Fidel Castro 6 | Janeiro/2017 | Especial _ FIDEL CASTRO que em seu objetivo final visava a destruição violenta da “democracia” e das instituições. A Doutrina da Guerra Revolucionária, durante o governo Jango, foi intensivamente divulgada através de inúmeros cursos e conferências, especialmente depois que o general Castelo Branco tornou-se chefe do Estado Maior do Exército. Pois bem, enquanto o PCB apostava na democracia e no caráter progressivo da burguesia nacional, os militares alertavam para a possibilidade de uma guerra civil promovida pela esquerda para destruir o capitalismo. Todos nós sabemos qual foi o final dessa história: os militares depuseram, com apoio da burguesia nacional, o governo constitucional de João Goulart e a repressão se abateu sobre todo o movimento de esquerda. Um grupo de experientes quadros partidários começou, logo após o golpe, a fazer um intenso debate sobre a linha do PCB no momento pré-golpe. E em meio ao debate se falava não só do fiasco da linha do partido, mas fundamentalmente quanto ao caminho a se seguir. E o exemplo cubano, nessa conjuntura, funcionava figurativamente como gasolina jogada aos baldes em uma fogueira. Do seio do PCB surgiram várias organizações que partiram para a luta a armada. Da chamada Corrente Revolucionária, fração partidária que iria apresentar teses para o VI Congresso, saíram duas organizações, a Ação Libertadora Nacional (ALN)4 e o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário. As duas organizações reivindicavam a luta armada, embora tivessem sutis diferenças programáticas e organizativas5. No seio do movimento estudantil, surgiram várias organizações, de início se chamavam dissidências estudantis6, depois começaram a se tornar organizações com perfil mais definido como Movimento Revolucionário 8 de outubro (MR8), por exemplo, e se dissolver em outras organizações então fundadas, tais como a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT), Var-Palmares, Resistência Democrática (REDE) etc. A VPR foi uma dissidência da POLOP. Do PCdoB, surgiu a Ala Vermelha. Mais tarde, mesmo algumas organizações da esquerda armada tiveram suas dissidências: da ALN, por exemplo, surgiu o Movimento de Libertação Popular (MOLIPO), cujo principal dirigente seria o futuro “capa preta” do PT, José Dirceu. A esmagadora maioria dessas organizações surgiram entre 1967 e 1970, ou seja, menos de uma década após o triunfo da Revolução Cubana. Fidel Castro e Che Guevara (o segundo um pouco mais depois de sua morte) eram como deuses nessa terra de jovens barbudos, ateus e comunistas. Fidel Castro tomou iniciativas ousadas em promover a revolução no continente. Em agosto de 1967 foi realizado em Havana o primeiro (e único) Congresso da Organização Latino-Americana de Solidariedade, para onde foram revolucionários de toda a américa latina e também da África e da Ásia. O objetivo proclamado do evento era revolucionar o continente através da guerra de guerrilhas. Cuba instaurou um centro de treinamento guerrilheiro e recebeu militantes de toda a américa latina. Na contramão do movimento, os Estados Unidos criaram a Academia das Américas, para dar treinamento antiguerrilheiro e de técnicas de tortura para os militares do continente. A américa latina foi varrida por dezenas de organizações de luta armada e por vários golpes de estado que colocaram no poder militares anticomunistas, antipopulares e torturadores. Che Guevara tentou iniciar um movimento de guerrilheiros no Congo. Não tendo sucesso, partiu para as selvas da Bolívia e lá encontrou sua morte no dia 9 de outubro de 19687. Regis Debray, um jovem francês que estava entre os guerrilheiros que acompanhavam Che Guevara na Bolívia, escreveu uma brochura que serviu de guia para a formação de várias organizações, cujo título era “Revolução na Revolução?”. Debray fazia uma apologia direta dos métodos da revolução cubana e afirmava peremptoriamente que bastava a instalação 4  Os principais dirigentes da ALN eram Carlos Mariguela e Joaquim Câmara Ferreira e do PCBR eram Jacob Gorender, Mário Alves e Apolônio de Carvalho. 5  O PCBR mantinha a noção de partido organizado em moldes leninistas, já a ALN tinha uma forma nova de organização, baseada na horizontalidade e na chamada “autonomia tática”, ou seja, na noção de que os militantes tinham liberdade de tomar iniciativas revolucionárias. Em relação à leitura conjuntural, o PCBR não rompia completamente com o conceito etapista de revolução do PCB, afirmava simplesmente que a etapa capitalista já estava dada e que era preciso partir para a etapa socialista. A ALN, de outro lado, não tinha o propósito de instaurar o socialismo, mantinha no fundamental a leitura do PCB, de que era necessário derrubar a ditadura, fortalecer o capitalismo no Brasil e só depois pensar em uma revolução socialista. 6  Dissidência Estudantil da Guanabara, Dissidência Estudantil de São Paulo etc. 7  Durante muito tempo, pensou se que a data da morte de Che Guevara era dia 8 de outubro, daí o nome de uma organização da esquerda armada, movimento revolucionário oito de outubro.

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Especial sobre Fidel Castro 7 | Janeiro/2017 | Especial _ FIDEL CASTRO de um foco guerrilheiro para expandir a revolução entre os camponeses e chegar à classe trabalhadora urbana. O texto de Debray exerceu enorme influência e além dele outros foram escritos, tais como “Mini-manual do Guerrilheiro Urbano”, de Carlos Marighella, “Guerra de Guerrilhas”, do próprio Che Guevara, dentre outros. Apesar da proposta do foquismo de Debray ter sido muito relativizada, a noção da preferência da guerrilha no campo e de uma noção algo messiânica do movimento guerrilheiro, estava em todas as versões. Em meio a uma luta desigual e travada sem apoio popular, poucas organizações conseguiram dar início à guerrilha rural, como pretendiam. No Brasil, Lamarca foi capturado e assassinado justamente quando tentou implantar a guerrilha no campo. A ALN chegou a comprar várias fazendas, mas não conseguiu sair da área urbana. Em uma de suas buscas por guerrilheiros da ALN, militares brasileiros encontraram sem querer um poderoso foco de guerrilha rural, a Guerrilha do Araguaia, no sua do Pará. Depois de dois anos de combates, os guerrilheiros foram finalmente derrotados e em sua maioria, mortos. As guerrilhas foram derrotadas em toda a américa latina, à exceção da Nicarágua, onde um governo da chamada Frente Sandinista conseguiu chegar ao poder e rapidamente perdeu suas características revolucionárias, e da Colômbia, onde as Forças Armadas Revolucionárias existem até hoje, embora sem chances reais de chegar ao poder. No Uruguai, o Movimento Tupamaro nunca foi totalmente derrotado, embora também nunca tenha ameaçado seriamente o poder. No Peru, o apelo guerrilheiro permaneceu até a década de 1990. O Sendero Luminoso8 foi finalmente desarticulado com a prisão de seu principal líder, Abimael Guzmán, em 1992. Também no Peru, o Movimento Revolucionário Tupac Amaru ficou mundialmente conhecido por conseguir tomar a embaixada Japonesa em Lima entre dezembro de 1996 e abril de 1997, até o Exército, sob ordens do então presidente Alberto Fugimori, conseguir finalmente atacar os rebeldes, promovendo uma chacina. Carlos Lamarca, Carlos Marighella, Bacuri e tantos outros se tornaram mártires da luta pela democracia, mas objetivamente o exemplo cubano não se repetiu em mais lugar algum. Fidel chegou a enviar experientes guerrilheiros cubanos para lutar em países da américa latina e mesmo na África. Depois de assumir a presidência da África do Sul, Nelson Mandela reconheceu publicamente o apoio de Fidel e antes de viajar a Washington, fez questão de passar antes em Havana. Mas a África do Sul não repetiu nem sob Mandela, nem sob ninguém mais, nada parecido com Cuba. As políticas públicas de Cuba são mundialmente reconhecidas. Ações como “Médico de Família” e sua política de educação e combate ao analfabetismo são copiadas em muitos países, mas a Revolução, não. Depois de triunfadas as ditaduras militares, e perdidas as vidas de milhares de valorosos militantes que deram nada menos que tudo por uma causa, alguns setores da esquerda começaram a fazer um balanço da influência da Revolução Cubana e consequentemente da figura de Fidel. Teria sido irresponsável a tática de guerrilhas, seria Fidel responsável pela morte de tantos guerrilheiros? Teríamos sofrido, como sofremos tantas ditaduras militares, se não fosse o apelo da Revolução Cubana? Teria Fidel responsabilidade nisso também? Seria Fidel um líder ou ditador? Há supressão das liberdades democráticas e desrespeito aos direitos humanos em Cuba? Em primeiro lugar, é importante registrar que o espaço da esquerda é plural, e isso é em si muito positivo. Ninguém está acima de críticas, mas a bem da verdade, algumas colocações tem um pouco do exagero próprio das disputas políticas e marcações de posição. Parece óbvio hoje que não havia correlação de forças possível para o enfrentamento militar contra as ditaduras militares na américa latina. Todavia os exemplos da Nicarágua e da Colômbia servem ao menos para demonstrar que o poder militar da direita também não é infinito. Mesmo a guerrilha do Araguaia no Brasil, é uma incógnita, pois foi descoberta ao acaso e estava em fase de implantação, dizer que sua derrota era certa, assim como o contrário, é uma mera especulação. É certo que muitas organizações disseram à época que a tática da guerrilha era suicida, porém era de consciência de todos que os riscos de morte eram reais. Dizer à época que não funciona- 8  A tradução de Sendero Luminoso é Caminho Iluminado. Embora seja autoproclamadamente uma organização maoísta, as influências da Revolução Cubana são também marcantes.

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Especial sobre Fidel Castro ria a tática das guerrilhas não era muito diferente de dizer hoje que uma greve vai ou não dar certo, só depois de terminado o processo é que realmente se pode fazer um balanço. De todo modo, responsabilizar Fidel pelo movimento só pode ser um grande exagero, a luta armada era uma opção da esquerda em seu tempo, Fidel, Che, Marighella e todos os outros são muito mais frutos desse movimento que seus responsáveis. Procurar projetar num indivíduo toda a teoria política de uma época pode na verdade, revelar muito mais sobre o acusador que do acusado, pois desnuda a tendência à personificação dos processos históricos, e esse precedente é o pior possível para quem se arroga a combater o stalinismo e o culto à personalidade. Correto ou equivocado, Fidel e todos que optaram pela resistência à ditadura, acreditavam no que estavam fazendo e sabiam dos riscos. Antes de ser estadista, Fidel também colocou sua vida em risco, nas selvas da Sierra Maestra. Questionar essa doação e essa coragem só pode ter legitimidade em quem fez em sua vida ao menos isso. Também não nos parece que se deva responsabilizar o líder cubano ou mesmo a tática de guerrilhas pelas dita- duras militares que se instalaram no cone sul. O primeiro golpe de Estado não aconteceu no Brasil de 1964, mas no Irã de 1953 e lá não havia guerra de guerrilhas. Se os militares passaram a utilizar a desculpa do combate aos guerrilheiros no final dos anos de 1960, também tentaram um golpe de Estado em 1954 sem esse ingrediente. As ditaduras militares eram políticas de estado americanas durante a guerra fria, os militares latino-americanos já tinham uma tradição de intervenção e ruptura da ordem institucional muito antes da Revolução Cubana – a própria Cuba foi vítima de um golpe de Estado em 1952, e ninguém pode afirmar com qualquer margem de segurança que não viveríamos esse tormento caso não existisse o apelo cubano. Quanto à ditadura em Cuba, é certo que críticas podem ser feitas. É certo que existem muitos exilados e dissidentes, embora não seja tão consensual que se viva na ilha num estado de opressão. De todo modo são amplamente conhecidas as várias tentativas e de espionagem e até de assassinato. Alguns dos dissidentes são comprovadamente financiados pela CIA e nem tampouco é verdade que todos os que migraram de Cuba comungam da plena rejeição da revolução e sua história. Também há entre os cubanos uma grande simpatia pela revolução e, por que não, por Fidel. Alguns dos mais famosos críticos ao regime de Cuba, tais como Yoani Sánchez, chegam a fazer viagens internacionais, serem recebidas por chefes de estado e depois voltar em segurança para sua residência na ilha. Para qualquer um que viveu a ditadura militar no Brasil, sabe muito bem que nada disso poderia acontecer durante o mandato de qualquer um de seus generais. Fidel foi um homem de seu tempo, mas que sonhou junto com milhares de outros por um novo tempo. Que a esquerda continue a repensar seus caminhos, aprender com seus erros, mas jamais fazer coro com a CIA e com os Bolsonaros da história. Mais que nos perdemos em críticas e personificações que só tendem a nos dividir e enfatizar nossos maniqueísmos, que tenhamos a serenidade e solidariedade com o povo cubano para exigir para já a retirada do embargo econômico da ilha, o fim da base militar americana de Guantánamo e a imediata suspensão de toda a sorte de provocações e espionagens. Que o povo cubano seja o agente e julgador de sua história. Até breve, Comandante! 8 | Janeiro/2017 | Especial _ FIDEL CASTRO

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