A vida para além da Mina – as memórias nas sociedades do século XXI

 

Embed or link this publication

Description

Guilhermina Bento, João Serrão, Lígia Rafael, Manuel Marques e Manuel Palma

Popular Pages


p. 1

Encontro de Primavera do NUOME – Mina de S. Domingos (Mértola) A vida para além da Mina – as memórias nas sociedades do século XXI Guilhermina Bento, João Serrão, Lígia Rafael, Manuel Marques e Manuel Palma No dia 9 de junho de 2016 realizou-se na Mina de S. Domingos (Mértola), o Encontro de Primavera do NUOME, com o tema “A vida para além da Mina – as memórias nas sociedades do século XXI”, organizado pelo MINOM-NUOME, pela Câmara Municipal de Mértola e pela Fundação Serrão Martins, que o acolheu. O objetivo principal centrava-se na abordagem de temáticas diversas relacionadas com a vida na Mina durante o período de laboração balizado pelas datas de 1920 a 1968 e pretendia reunir informação sobre pontos como as memórias de vivência na Mina de S. Domingos neste período, o papel da mulher e as memórias do quotidiano, as atividades lúdicas, recreativas e religiosas, as memórias de crianças e jovens e finalmente, debater a questão da preservação e divulgação das memórias e sua finalidade. O Encontro assumiu-se desde o início como uma conversa informal que proporcionasse o diálogo e a partilha de experiências entre os técnicos das organizações presentes e os membros da comunidade, estes os principais interlocutores uma vez que personificam toda a informação que se pretende preservar. Dividiu-se em duas partes: uma primeira, que se iniciou com a sessão de boas vindas a cargo de Lorena Sancho Querol e João Serrão e a apresentação de todos os participantes, e que teve continuidade com a intervenção de João Serrão sobre o trabalho desenvolvido pela Fundação Serrão Martins, complementado por um texto de Fátima Farrica, responsável pela organização do Centro de Documentação desta Fundação, que apresentou o trabalho realizado e os desafios futuros. Seguiu-se um passeio descontraído ao jardim e coreto da Mina de S. Domingos onde os intervenientes locais partilharam as suas memórias do local e das suas vivências, sempre acompanhadas por “modas alentejanas” que ilustravam as temáticas abordadas como sejam a alimentação, a vida da mulher, as vivências de crianças e jovens, os momentos de lazer e os momentos de dor e desespero das famílias mineiras que viviam, muitas delas, em situações de pobreza extrema. A D. Júlia Carrasco de Santana de Cambas apresentou um texto seu onde expôs as suas memórias relacionadas com a atividade de seu pai, dono de uma mercearia, que abastecia as famílias dos mineiros e contribuiu para um retrato fiel e doloroso da vida da mulher, do pouco dinheiro para alimentar os filhos e do trabalho que faziam para ajudar no sustento da família no entanto, referiu também a força e a esperança em cada uma delas que lhes dava ainda alento para cantar e dançar nos bailaricos que todos os fins de semana se realizavam nas diversas localidades. Numa segunda parte, organizou-se uma mesa redonda onde foi pedido a todos os intervenientes que identificassem a sua ligação à Mina de S. Domingos, tendo posteriormente sido solicitado que associassem uma palavra às memórias que têm da vivência neste local e onde surgem maioritariamente as referências a pobreza, miséria, trabalho, sofrimento mas também alegria, partilha, despedida, emigração, entre muitas outras … Miguel Rego intervém para fazer um apontamento sobre as consequências do abandono da mina e refere que um relatório do Estado Novo reconhece o concelho de Mértola como um dos mais pobres da Europa e reforça a ideia de que o encerramento da mina votou a localidade de Mina de S. Domingos ao abandono e a um alheamento relativamente a tudo que com ela se relacionava, o que teve um impacto desastroso em termos sociais. Por outro lado, referiu um dado muito importante relativamente

[close]

p. 2

aos quadros técnicos da Empresa que, por volta dos anos 30, eram compostos por técnicos locais que, após o seu encerramento foram integrar quadros de outras empresas relacionadas com a extração mineira em Portugal e noutros países como Espanha e Bélgica. Foi também referida a debandada de famílias inteiras que não tendo forma de sustento se deslocavam com os seus parcos haveres para a zona de Lisboa ou para o estrangeiro. Entre os intervenientes, aos quais se pediu para falar das questões de vivência e não do trabalho na mina, é possível perceber, apesar de todas as dificuldades identificadas, um certo saudosismo que parece estar relacionado com as condições de vida criadas pela Empresa na Mina, camaradagem e partilha entre as pessoas, a preocupação com o coletivo em detrimento do individuo e a necessidade de ocupar o tempo fora da Mina com atividades que fizessem esquecer o trabalho árduo e perigoso que desenvolviam. Em 1952, existiam na Mina de S. Domingos, várias coletividades ou recintos de espetáculos: cineteatro, propriedade da Mason & Barry e gerido pela Associação de Auxílio aos Pobres, o campo de jogos “Cross Brown”, o clube recreativo (para os ricos), o Centro Republicano 5 de outubro, aberto à participação de todos, o grupo musical e recreativos (classe média), e o clube de pessoal da empresa, construídos pela Mason & Barry, para os funcionários da mina. Existiam também bandas filarmónicas, grupos musicais (formais e informais), grupo de teatro amador e sessões de cinema, que animavam os centros as festas, os bailes, as romarias e os espetáculos ao ar livre que aconteciam regularmente na Mina de S. Domingos, onde se destacavam ainda as festas de S. João, as de Santa Bárbara e as de São Domingos. Uma das expressões que se destaca relativamente às memórias da vivência na Mina é que apesar do trabalho árduo e da vida difícil “era tudo gente alegre”. O Encontro do NUOME foi um importante ponto de partida para se iniciar um trabalho sistemático de recolha oral e de preservação de registos, como forma de salvaguarda dos testemunhos orais e do património imaterial. Os presentes venceram um primeiro momento de timidez e exteriorizaram as suas memórias, partilhando informação e debatendo ideias. Ficou assente que é importante dar continuidade a este tipo de encontros e proceder à recolha de imagem e som de forma a preservar a informação relacionada com o trabalho nas minas e com a vivência das gentes neste local, abordando as mais diversas áreas, faixas etárias e posições sociais e económicas. Os museus devem funcionar como mediadores no processo de conhecimento das memórias sendo, neste caso, a Fundação Serrão Martins, auxiliada pelo Museu de Mértola, a instituição local que pode servir como intermediária neste processo de construção de um registo de memórias sobre as gentes da Mina de S. Domingos que aqui residiram ou trabalharam no período em análise, criando mecanismos de preservação e divulgação que valorizem e dignifiquem a comunidade e o território. Um dos aspetos também abordado foi a questão da finalidade deste tipo de registos, que deve ter sempre subjacente um objetivo concreto de investigação e divulgação que tenha algum retorno para a comunidade local e que pode, por exemplo, materializar-se numa publicação ou exposição ou até na abertura de um pequeno museu local. Genericamente, cidadania, memória e identidade foram alguns dos conceitos a que o encontro fez referência. Uma nova abordagem museológica, mais participada e mais alargada poderá permitir uma maior recolha de materiais e de testemunhos aumentando, ao mesmo tempo, o grau de implicação da comunidade local nos projetos em prol do conhecimento sobre si próprio e sobre as suas origens. Novas metodologias poderão ser a chave para um projeto museológico mais amplo onde o imaterial complementa o material e onde os indivíduos são parte do processo e não apenas fonte de conhecimento…

[close]

Comments

no comments yet