F&N#180

 

Embed or link this publication

Description

F&N#180

Popular Pages


p. 1



[close]

p. 2



[close]

p. 3

Figuras&Negócios - Nº 180 - DEZEMBRO 2016 3

[close]

p. 4

4 Figuras&Negócios - Nº 180 - DEZEMBRO 2016

[close]

p. 5

Oestado actual do ambiente no mundo, à luz das decisões da cimeira da COP22 que se realizou em Marrakech (Marrocos), é o tema de destaque desta edição onde apresentamos a visão detalhada daquele evento que prestou atenção especial aos problemas de uma África poluída que reclama por uma atenção especial e permanente. Houve uma preocupação consensual em relação ao assunto, sendo de destacar o papel dinâmico e interventivo que Marrocos, como Pais organizador, jogou esperando-se agora que nos próximos tempos as medidas delineadas possam fazer respirar melhor na análise sobre as questões ambientais. África ocupa lugar privilegiado nas nossas abordagens jornalísticas pelo que não poderíamos ficar indiferentes às recentes medidas gisadas pelo Presidente do Ruanda, Paul Kagame, na sua qualidade de presidente em exercício da União Africana e que visam dotar a organização de uma estrutura eficiente e funcional que não fique eternamente dependente das quotas que os países devem pagar e que se embrulham quase sempre em desculpas esfarrapadas que nem dignificam os que não cumprem os seus compromissos como membros de pleno direito mas fundamentalmente o continente que se vê mutilado de uma estrutura que deveria ser o motor condutor das políticas de desenvolvimento sustentável da África, na mira do melhor aproveitamento das potentes riquezas naturais que possui para o beneficio dos milhões dos seus filhos. Aqui em Angola começa-se a viver já um ambiente de eleições a vários níveis e que vai culminar em Agosto do próximo ano, com as eleições gerais que darão ao País novos dirigentes entre os quais se destaca um outro Presidente da República, atendendo que o actual, José Eduardo dos Santos, já manifestou interesse em não voltar a ser o cabeça de lista do seu partido, o MPLA, não obstante a lei ainda o permitir mais um mandato. Os Camaradas preparam-se para esse desafio, vincando que querem continuar a ser a força dirigente da sociedade angolana, colocando como suporte para esse desiderato os seus 60 anos de existência cujo aniversário ocorreu em 10 de Dezembro, com actos de massa em todos os pontos do País. Esses e outros assuntos de carácter economico, social e desportivo pode o caro leitor encontrar nesta edição, a última de 2016. Boa leitura! Figuras&Negócios - Nº 180 - DEZEMBRO 2016 5

[close]

p. 6

3. CARTA DO EDITOR 7. PONTO DE ORDEM COMPROMISSOS DE NAÇÃO 16. LEITORES 22. PAÍS ELEFANTE BILIONÁRIO DÁ À COSTA DE BENGUELA 28. FIGURAS DE CÁ 33. MUNDO REAL 34. PENA LIVRE O AVESSO DA POBREZA 36. POLÍTICA 38. PUBLI-REPORTAGEM 43. NA ESPUMA DOS DIAS 44. SOCIEDADE 50. REPORTAGEM 6 10. PÁGINA ABERTA ABEL DUERÊ: "ANGOLA TEM DE RECONHECER O MEU TRABALHO NO BRASIL 74. MUNDO 82. ECONOMIA & NEGÓCIOS 89. FIGURAS DE JOGO 90. SAÚDE & BEM-ESTAR 56. DOSSIER CLIMA CIMEIRA DO CLIMA A ESPERANÇA QUE VEIO DE MARRAQUEXE Figuras&Negócios - Nº 180 - DEZEMBRO 2016

[close]

p. 7

72. ÁFRICA KAGAME ENSAIA RECEITAS PARA O DESENVOLVIMENTO 86. 92. DESPORTO MODA & BELEZA 96. VIDA SOCIAL 100. FIGURAS DE LÁ 104. RECADO SOCIAL Figuras&Negócios - Nº 180 - DEZEMBRO 2016 Publicação mensal de economia, negócios e sociedade Ano 16 - n. º 180, Dezembro – 2016 N. º de registo 13/B/97 Director Geral: Victor Aleixo Redacção: Carlos Miranda, Júlia Mbumba, Sebastião Félix, Suzana Mendes e Venceslau Mateus Fotografia: George Nsimba e Adão Tenda Colaboradores: Édio Martins, Domingos Fragoso, Juliana Evangelista, João Marcos, João Barbosa (Portugal), Manuel Muanza, Rita Simões, Ana Kavungu, D.Dondo, Wallace Nunes (Brasil), Alírio Pina e Olavo Correia (Cabo-Verde), Óscar Medeiros (S.Tomé), Crisa Santos (Moda) e Conceição Cachimbombo (Tradutora). Design e Paginação: Humberto Zage e Sebastião Miguel Capa: Bruno Senna Publicidade: Paulo Medina (chefe) Assinaturas (geral): Katila Garcia Revisão: Baptista Neto Tel: (+244) 937 465 000 Brasil: Wallace Nunes Móvel: (55 11) 9522-1373 e-mail: nunewallace@gmail.com Inglaterra (Londres): Diogo Júnior 12 - Ashburton Road Royal Docks - London E16 1PD U.K Portugal: Rita Simões Rua Rosas do Pombal Nº15 2dto 2805-239 Cova da Piedade Almada Telefone: (00351) 934265454 Produção Gráfica: Imprimarte (Angola) Cor Acabada, Lda (Portugal) Tiragem: 10.000 exemplares Direcção e Redacção: Edifício Mutamba-Luanda 2º andar - Porta S. Tel: 222 397 185/ 222 335 866 Fax: 222 393 020 Caixa Postal - 6375 E-mails: figurasnegocios@hotmail.com artimagem@snet.co.ao Site: www. figurasenegocios.co.ao Facebook: Revista Figuras&Negócios Angola 7

[close]

p. 8

8 Figuras&Negócios - Nº 180 - DEZEMBRO 2016

[close]

p. 9

Victor Aleixo victoraleixo12@gmail.com COMPROMISSOS DE NAÇÃO OPaís vai entrar em 2017 trabalhando para as eleições gerais que se realizarão em Agosto e que elegerão novos dirigentes. Importantes responsabilidades se colocam aos diferentes partidos políticos numa altura em que se verifica um distanciamento entre eles e a sociedade cansada de promessas e constatado falta de medidas eficazes que possam levar o País a desenvolver-se de forma sustentada eliminando-se as assimetrias gritantes entre as cidades e o interior. Do conjunto de tarefas que urge atacar sem contemplações, na mira da credibilização dos órgãos do poder para maior moralização da sociedade, o combate à corrupção generalizada que grassa pelo País tem de ser prioritário, se queremos ver maior imagem de Angola quer diante das principais instituições internacionais como do mundo, de forma geral. Na verdade, numa altura em que, sobretudo a nível dos países da comunidade de língua portuguesa (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné- Bissau, Guine Equatorial, Moçambique, Portugal, S.Tome e Príncipe e Timor-Leste), se enceta individualmente um combate por gestões governativas eficientes e transparentes, não se pode compreender como no nosso País, onde a corrupção foi definida, um dia já distante, como o segundo mal depois da guerra que entretanto já conheceu o seu final há pouco mais de 14 anos, que nada de efectivo se faça para combater esse flagelo. Se assiste com a maior impunidade a suspeitos casos de aumento individual de riqueza por delapidação de bens públicos, da falta de prestação de contas, de contratos para a realização de obras sem concursos públicos e com preços astronômicos, quantas vezes com as obras eternamente a não se realizarem, enfim um sem número de acções que chocam com a transparência que se pretende. O País reclama cada vez mais por um maior engajamento patriótico do seu povo para que as grandes tarefas do desenvolvimento se efectivem com a participação massiva de todas as forças vivas do mosaico angolano e não é demais repetir que um dos desideratos para isso é criar-se uma confiança entre governantes e governados, fazendo vingar a gestão participativa que se recomenda em países que consolidam ou estabelecem como metas de orientação o sistema de governação democrática, como é o caso de Angola. As resistências que hoje se conhece quanto ao registo eleitoral, o que tem obrigado a insistentes apelos, quer da governação como de outras forças políticas engajadas no processo, é bem a prova evidente do descaso patente quanto aos desafios do País, que tem de ser vencido por todos. E a situação pode-se inverter favoravelmente se os actos da governação forem credibilizados, se se ganhar maior confiança na classe política, não pontualmente mas sempre. O País vai conhecer eleições gerais em Agosto de 2017, nela acredita-se que nem todas as forças políticas que hoje integram o quadro da dirigência actual continuarão mas o mais importante é que do pleito que se avizinha saia, de forma geral, um quadro de dirigentes com ideias renovadas, que se destaquem pelo engajamento e devoção à causa mais nobre da nação, que não vejam na política um caminho seguro para o enriquecimento apenas do seu pecúlio pessoal. Que haja um ambiente de cumplicidade entre governantes e governados para se construir a Angola melhor que todos anguramos. Esses são compromissos de nação. Figuras&Negócios - Nº 180 - DEZEMBRO 2016 9

[close]

p. 10

C M Y CM MY CY CMY K 10 Figuras&Negócios - Nº 180 - DEZEMBRO 2016

[close]

p. 11

Largo 4 de Fevereiro, Palácio de Vidro, 5º andar; Cx. Postal 2223; Telefone +(244) 923047979, email: cnc@cnc-angola.gv.ao Luanda, Angola O Conselho Nacional de Carregadores, abreviadamente designado «CNC», é um Instituto Público do Sector Económico, dotado de personalidade jurídica, autonomia administrativa, financeira e patrimonial, criado para exercer as funções de controlo das operações de comércio e transporte marítimo internacionais, bem como a actualização, uniformização e simplificação dos métodos e normas para a sua execução. ATRIBUIÇÕES DO CNC a) Apoiar tecnicamente o Ministério dos Transporte na concepção, elaboração, adopção, implementação e controlo de políticas e metodologias de execução das operações de comércio, transporte marítimo e logística, através do acompanhamento, estudos análises e apresentação de propostas pertinentes. b) Contribuir, participar e investir na promoção de projectos de desenvolvimento de Marinha Mercante, Portos, Hidrografia, Corrente de Transportes e do Sector dos Transportes em geral. c) Acompanhar, velar e assegurar a execução correcta das políticas de comércio e transportes marítimos internacionais traçadas pelo Executivo, em coordenação com os órgãos e instituições competentes; d) Promover a defesa e a harmonização e interesses fundamentais do Estado com os vários intervenientes nas operações de comércio e transportes marítimos internacionais, tendo como objectivo principal a racionalização e optimização dessas operações; e) Estudar, analisar, apresentar e controlar as medidas que contribuam para a estabilidade dos fretes e taxas das mercadorias em defesa da economia nacional e do consumidor final; f) Acompanhar e analisar o processo de importação e exportação de mercadorias, centralizando a recolha, tratamento, interpretação e difusão da informação e estatísticas relativas as operações de comércio e transportes marítimos internacionais; g) Recolher, analisar e dar tratamento adequado ás informações e dados sobre a situação do mercado interno e internacional relativo ao comércio e transporte, com vista ao acompanhamento permanente da sua evolução e dos seus efeitos sobre a economia nacional; h) Promover o aproveitamento racional dos recursos materiais e humanos disponíveis na cadeia do comércio e transporte marítimo internacionais; i) Cobrar e receber as comissões legalmente devidas pelos armadores e carregadores que participam na transportação de mercadorias de e para Angola, para investimento directo no sector dos Transportes; j) Emitir, a partir da origem, o certificado de embarque em que os armadores ou operadores marítimos inscritos no Conselho Nacional de Carregadores, que detenham carga de ou para Angola, estão obrigados nos termos da lei, a exigir dos exportadores; k) Supervisionar e gerir o sistema da Rede Nacional da Plataforma Logística (RNPL); l) Desenvolver estudos e identificar estratégias que potenciem a actividade logística e a integração dos diversos modos de transportes; m) Garantir a adopção de sistema de informação integrados na Rede Nacional de Plataforma Logística e destas com o sistema portuários, ferroviários, rodoviários e com a rede nacional de produção de comércio interno e externo; n) Participar nas reuniões com os organismos internacionais congéneres e armadores, visando a regularização de questões inseridas no âmbito da sua competência, designadamente, as convenções internacionais e bilaterais, e as taxas do frete máxima a praticar no transporte marítimo internacional; o) Exercer as demais atribuições estabelecidas por lei ou determinadas superiormente. OS ESFORÇOS DO CNC VISANDO APOIAR O GOVERNO NO DESENVOLVIMENTO DO PAÍS, REFLECTEM-SE ENTRE OUTRAS, NAS SEGUINTES ACÇÕES: Implementação da Bolsa Nacional do Frete | Reabilitação da sinalização de toda costa marítima | Reabilitação de faróis e farolins costeiros | Reabilitação da Rádio Costeira (Luanda Rádio) | Acção de formação e actualização de marítimos angolanos | Contribuição para criação do Instituto Hidrográfico de Angola | Construção do Porto Seco de Viana | Construção da Nova Ponte Cais do Porto de Cabinda | Contribuição no estudo de construção do novo Porto de águas profundas em Cabinda | Participação na constituição e construção do ISGEST Instituto Superior de Gestão, Logística e Transporte | Participação na construção e implementação dos Terminais Marítimos de Passageiros em Luanda. Supervisionar e gerir o sistema da rede nacional de plataformas logísticas (RNPL) | Plataforma Logística Intermodal do Soyo- Província do Zaire | Plataforma Logística Regional do Lombe - Província de Malange | Plataforma Logística Intermodal Transfronteiriça do Luau – Província do Moxico | Plataforma Logística Intermodal do Menongue - Província do Cuando Cubango | Plataforma Logística Intermodal do Lubango - Província da Huíla | Plataforma Logística Intermodal Transfronteiriça do Luvo – Província do Zaire | Plataforma Logística Intermodal Transfronteiriça do Yema – Província de Cabinda | Plataforma Logística Intermodal Transfronteiriça do Massabi – Província de Cabinda | Plataforma Logística Intermodal do Bié - Província do Bié | Plataforma Logística Intermodal Transfronteiriça de Santa Clara – Província do Cunene. Figuras&Negócios - Nº 180 - DEZEMBRO 2016 11

[close]

p. 12

PÁGINA ABERTA I ENTREVISTA Conhecido, no Brasil, como Johnny Clegg (cantor sul-africano), o músico angolano Abel Duerê concede a sua primeira entrevista à revista “Figuras&Negócios”. Nas páginas que se seguem, Abel Duerê fala da sua chegada ao Brasil, as peripécias por que passou para se afirmar e dos projectos musicais. Disse que tem memórias da sua juventude, em Benguela, repleta de emoções e que fisicamente está no Brasil mas o espírito, este, continua em Angola, em Benguela para ser mais preciso Texto: Jorge Eurico em Salvador da Bahia (Brasil) Fotos: Arquivo NET O M"AENUGTORLAABT 12 Figuras&Negócios - Nº 180 - DEZEMBRO 2016

[close]

p. 13

ENTREVISTA I PÁGINA ABERTA Fi g u r a s & N e g ó c i o s (F&N) - Está radicado no Brasil há mais de trinta anos. Fale-nos da experiência de ter o corpo no Brasil e o coração em Angola, mais concretamente em Benguela, onde nasceu? Abel Duerê (AD) - A vida proporcionou-me a possibilidade de viver em vários lugares como Angola, Portugal e Brasil, e, neste, em algumas cidades como Rio de Janeiro, Salvador e, agora, em São Paulo. Com isso acabo me sentindo um cidadão do mundo. O que não esqueço são as minhas raízes, o meu DNA. E isso, sem dúvidas, só posso sentir infelizmente de longe, pois as minhas raízes, a minha essencia cultural, a minha alma está e sempre estará ligada a Benguela. Sinto muitas saudades da terra e do povo. Mas, por sorte, faço música africana do fundo da minha alma, o que me permite estar sempre ligado, espiritualmente, à minha terra. F&N - Que Angola tem dentro de si presentemente e o que faz para «exorcizar» a saudade da terra quando esta o assalta? A.D - É muito difícil substituir os valores e sentimentos que me unem a Angola, pois tudo que me faz sentir angolano é incomparável. «Exorcizar» é um termo muito forte para poder praticar essa saudade. A sorte é que vivo num país onde o seu DNA se deve ao povo bantu que para aqui veio e foi responsável pela formação não só da sua História como também da sua cultura. Actualmente faço um trabalho de valorização e autoafirmação dessa História. Tenho feito muitas palestras em escolas dentro de um projeto denominado “Meu Brasil Africano”. Os meus shows em teatros focam muito esse tema, o que me mantém muito ligado aos nossos valores. F&N – Lembra-se do dia e ano em que desembarcou no Brasil e dos episódios que mais o marcaram nesta terra, que é, hoje, a sua segunda pátria? A.D - Lembro-me perfeitamente. Mas antes de vir para cá, em 1978, vivi dois anos em Portugal. Saí de Angola em Outubro de 1975 e também lembro-me perfeitamente por tudo que passei, causado pela guerra horrorosa que assolou a nossa terra. Vim viver no Brasil, pois nunca me adaptei em Portugal. O Brasil tem muito mais a nossa cara do que qualquer outro lugar do mundo. Foi talvez um jeito de amenizar a saudade. Depois, o Brasil é uma terra em que se respira muita liberdade. Eu já não consigo viver num País em que você não tem o direito de se expressar. F&N - Quais foram os episódios que mais o marcaram quando chegou ao Brasil e quantos anos tinha na altura? A.D - Um dos episódios que marcou muito foi o meu encontro com a banda “Afra-Sound Star” que havia acabado de chegar ao Brasil. O nosso encontro foi maravilhoso. Naquela época eu tinha os meus 20 anos. Foi também o início da minha carreira musical. Quando cheguei ao Brasil o que me impressionou foi a grandeza e a beleza da cidade do Rio de Janeiro. A minha primeira ida ao “Cristo Redentor” e poder ver a cidade do Rio de Janeiro de cima foi marcante. Não esqueço tamanha beleza natural. Acabei por morar no Rio de Janeiro durante 38 anos. Há cinco anos mudei-me para Salvador e agora no interior de São Paulo onde moro com a minha família há um ano e meio. Mantenho a minha ida ao Rio de Janeiro de quinze em quinze dias, onde tenho um Projecto Social de percurssão, no “Complexo da Maré”, onde vivem cerca de 600 famílias angolanas. F&N - Saiu de Angola em 1975 fugido da guerra. E os seus pais? Deixou-os em Benguela? A.D - Em 1974, os meus irmãos saíram de Benguela. E eu fiquei com os meus pais até 1975, mas a vida em Benguela ficou muito difícil. Ficamos sítiados e acabamos por fugir num barquinho de pesca que levou cerca de 1000 pessoas e com muita dificuldade conseguimos chegar a Luanda. Depois conseguimos ir para Portugal onde vivi com os meus pais até 1978. Quando vim para o Brasil deixei os meus pais em Portugal e, anos depois, eles vieram morar comigo. O meu pai já partiu, mas a minha mãe, de 92 anos, filha do Huambo, mora comigo. Eu cuido dela. F&N – Hoje, passados estes anos todos, sente-se mais angolano ou mais brasileiro? A.D - Nunca me senti brasileiro! Devo muito ao Brasil e aos brasileiros, que sempre me trataram e nunca BTAEMLHDOE RNEOCOBNRHAESCIELR"ABELDUERÊ, MÚSICO EACTIVISTACULTURALANGOLANO NO BRASIL: Figuras&Negócios - Nº 180 - DEZEMBRO 2016 13

[close]

p. 14

PÁGINA ABERTA I ENTREVISTA me senti estrangeiro nesta terra que me valoriza muito como artista, não só o povo como o próprio Ministério da Cultura do Brasil, que sempre valorizou e apoiou os meus projetos culturais. Mas, apesar de tudo, sempre me senti angolano, não só pelo que sou mas também por tudo que tenho feito pela minha terra, cultura e povo. Tenho uma História muito rica em prol das minhas origens que talvez as pessoas da minha terra não tenham a menor ideia. F&N - Que história é essa? Conte-nos. A.D - Sei que deixei boas recordaçoes na época da guerra, nos anos 80, quando as minhas musicas inspiravam os jovens. Naquela época já fazia musica angolana contemporânea. Fui, talvez, o primeiro artista angolano a fazer música angolana Pop, Reggae (Kimbele) Kilapanga (Mbembua, Ombaka) Semba (Madalena, Galera). Vários artistas que hoje fazem sucesso me dizem: “cota Abel, inspirei-me muito em você.” Tenho histórias, aqui no Brasil, que Angola não conhece, como, por exemplo, os meus projetos culturais e sociais. O projeto com os angolanos da Maré é um deles. Desenvolvo projetos culturais de divulgação da nossa cultura, como o “Meu Semba, Teu Samba”, apoiado pelo Ministério da Cultura do Brasil, que me apoiou não só na produção do CD como também na digressão por várias cidades de São Paulo. O projeto de carnaval “Mwangolê”, em Salvador, o projeto “Ombaka DVD e shows”, o projeto nas escolas “Meu Brasil Africano”, enfim, muitos anos a divulgar as nossas riquezas culturais e o quanto o Brasil tem de Angola na sua História e Cultura. F&N - Em que consiste o projecto da Maré? A.D - A Maré é o maior complexo de favelas do Rio de Janeiro. Lá vive a maior comunidade de angolanos no Brasil. Ali comecei com um projeto de Natal e depois uma escola de percurssão (www.percurssaonamare. com.br) onde cerca de 60 crianças aprendem música com aulas teóricas e práticas. Ali se formam músicos prontos e temos uma orquestra de percurssão. Actualmente temos 12 crianças que, na verdade, são filhos de angolanos, pois o projeto é para jovens de 12 a 18 anos . Os que nasceram em Angola mesmo são o cantor Nzagi e o seu irmão Elmer. O restante, como disse, são filhos de angolanos nascidos aqui no Brasil. O projeto atende angolanos e, também, as pessoas da comunidade. F&N - Ao longo do tempo que trabalha em prol da divugação da música angolana e da comunidade angolana aqui no Brasil, alguma vez teve o reconhecimento da Embaixada de Angola? A.D - Nos anos 80 tive um grande amigo, o Cônsul e embaixador Ismael Dioga da Silva, que foi presidente da Fundação Eduardo dos Santos (FESA). Este deu-me muito apoio e fizemos muitas coisas juntos. Confesso que foi o único que enxergou a minha arte pois todos os outros que se seguiram conseguem ignorar toda a História de um artista que ama e faz tudo pela cultura do seu país. F&N - Se tivesse que fazer um apelo ao Ministério da Cultura angolano o que diria? A.D - Diria que um projeto em conjunto para as escolas seria muito oportuno. A história não nega que o povo bantu foi o grande responsável pela formação da história, cultura e, até, economia do Brasil. Naquela época não era Angola, mas é a grande maioria do povo que hoje compõe Angola. Vieram do reino de Ngola, Cabinda, Benguela e outros que hoje fazem parte dessa grandiosa Nação, que é Angola. O povo brasileiro precisa saber disso, e a escola é o melhor ponto de partida. Tenho tido respostas fantásticas das crianças. Esse Projeto educacional poderia ser feito em parceria com Angola. F&N - As casas de Cultura de Angola no Rio de Janeiro e em Salvador têm contribuído para divulgação da cultura do nosso país no Brasil? A.D - Vivi três anos em Salvador e tinha uma relação fantástica com o Dr. Camilo (Afonso) responsável pela Casa de Cultura de Angola. Fizemos várias tentativas, pois a Casa de Cultura de Salvador tinha verba própria. Mas ele sempre esbarrava na aprovação que tinha que vir da Embaixada. Até conseguimos um ano um pequeno apoio para o trio eletrico “Mwangolê”, mas depois que liguei para Angola e falei com o meu amigo Dr. Ismael Diogo, presidente da FESA. Mas foi tanto desgaste, tanta mendigagem que desisti. No Rio de Janeiro, à Casa de Cultura de Angola já dei conhecimento do meu trabalho ao novo Cônsul, mas nunca fui lembrado nem nas festividades organizadas nos ultimos anos. Jorge (Eurico), há horas que acho que a minha côr não representa a grande maioria da nossa terra. E aí as pessoas acabam não olhando para a minha alma angolana. É como me sinto quando sou posto de lado. Repara que não cabe aqui nenhuma reclamação, pois é até natural na cabeça 14 Figuras&Negócios - Nº 180 - DEZEMBRO 2016

[close]

p. 15

Figuras&Negócios - Nº 180 - DEZEMBRO 2016 15

[close]

Comments

no comments yet