A Vaca Malhada 9

 

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Revista de Filosofia

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A VACA MALHADA N.º 9 Revista de filosofia OUTONO 2016 ISSN 2183-5470

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A VACA MALHADA 9 de Nikolao Gudskov (De poetas e sábios a filósofos). Outono 2016 Coordenação: Carlos Alberto Pinto Rodrigues Luís Filipe Paulo e Ladeira No próximo número, o do inverno 2016/17, contamos poder evocar Miguel de Unamuno e/ou Henri Bergson, nos, respetivamente, 80 e 75 anos de suas mortes. Colaboração, para estes e outros temas das habituais rubricas (Filosofia e Cinema, Recensão, etc.) precisa-se. ISSN 2183-5470 Endereço: avacamalhada1@gmail.com Colaboram também neste número: Eurico de Carvalho, professor de Filosofia na E S D. Afonso Sanches, Vila do Conde. (http://euricodecarvalho67.blogspot.pt/) Joaquim Carlos Araújo, professor do Ensino Secundário, em Loures. joaquimcarlossenos@gmail.com José Manuel Heleno, professor de filosofia na Escola Secundária Dr. Solano de Abreu, em Abrantes. Nikolao Gudskov, universitário, professor de Filosofia em Moscovo. Thomas More, diplomata, escritor, advogado e homem de leis (1478-1535). Boas leituras A Coordenação Adenda: todas as imagens usadas para ilustrar os artigos deste número da revista foram recolhidas em «Google imagens» www.google.com/imghp?hl=pt-PT A VACA MALHADA 9 - OUTONO 2016 ÍNDICE Autor Pág. Utopia T Morus 3 NOTA DE ABERTURA O número 9 de AVM faz-se, em boa medida, sob o signo da utopia. Ocorrendo, neste ano de 2016, o 5º centenário da edição latina da obra maior de Thomas Morus - que só mais de trinta anos depois surge em francês (1550) e em inglês (1551) (com a edição portuguesa só aparecer no século XX) - A VACA MALHADA não quis dissociar-se da efeméride e contando com a colaboração de vários autores, incluindo o autor da Utopia (pela mão de Carlos Alberto), traz a terreiro alguma reflexão sobre o lugar da utopia (José Manuel Heleno) e alguma atualização do sonho de uma sociedade perfeita (Tamera, de Luís Ladeira) que a humanidade persegue, de há muito, «perdido» que foi o paraíso inicial, a mítica idade de ouro da humanidade, enquanto Joaquim Carlos Araújo liga Filosofia e distopia num exercício aberto. Este número completa-se com uma reflexão de Eurico de Carvalho sobre a função de professor num contexto de currículos generalistas (Ser professor em tempos de indigência), e com a continuação da rubrica «Ensaios sobre a filosofia Helénica» em mais um texto Tamera, da ecotopia à utopia L Ladeira 12 O lugar da utopia JM Heleno 18 A filosofia é uma distopia JC Araújo 20 Ser professor em tempos de ... E Carvalho 24 De poetas e sábios a filósofos N Gudskov 26 O filósofo, tal como a vaca, é um animal ruminante. A Vaca Malhada 2

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AUTOR CONVIDADO E EFEMÉRIDE— Dá-se a coincidência, pela primeira vez na vida da revista, de o autor convidado confluir com a efeméride. Como foi anunciado no número anterior, parte deste número nove seria dedicada à evocação da obra Utopia, de Thomas More, cuja primeira edição, em latim, ocorreu há cinco séculos, no ano de 1516. A evocação deste acontecimento é aqui feita através de textos vários um dos quais de excertos da própria obra, selecionados por Carlos Alberto. Mas também através apresentação de uma «utopia» contemporânea (e de certo modo conterrânea) que é o projeto Tamera, em texto de Luís Ladeira, e bem assim de dois outros textos, um de José Manuel Heleno, O Lugar da Utopia, refletindo sobre o tema, e outro, A Filosofia é uma Distopia, de Joaquim Carlos Araújo. UTOPIA de Thomas More — excertos Thomas More ou Thomas Morus (1478 - 1553) Toda a gente conhece a «utopia» (e a «distopia», está muito mais em voga do que aquela), e muitos conhecem a trama que trata da sociedade ideal» - de A Utopia de Thomas More, e poucos se lembram de algumas das particularidades da ilha da Utopia, onde se situa a cidade de Amaurota, e dos princípios que regem esse modelo de organização social, tão perfeito a ponto de se tornar uma esperança para gerações de seres humanos em busca de uma alternativa para o seu modo de vida. Reavivemos, então, o espírito da Utopia, através de alguns excertos (páginas da 11ª edição, Guimarães, mencionadas entre parêntesis). Carlos Alberto LIVRO PRIMEIRO Rafael Hitlodeu navegou «como Ulisses e até mesmo como Platão»: nascido em Portugal, encontrou o «que é mais raro e digno de interesse», uma «sociedade sã e sabiamente organizada» (28). Contrariamen -te a outros homens, ele, «em plena juventude vigorosa», deu «tudo o que possuía a amigos e parentes» e justifica não querer cargos públicos por entender que os «príncipes )…( estabelecem pequena diferença entre «lacaio» e «ministro», tal como entre «servire e inservire vai apenas a diferença de uma sílaba.» (29) Rafael declara: «e mesmo quando fosse cem vezes mais dotado, seria inútil fazer à república o sacrifício da minha tranquilidade» (30). O autor da obra De optimo Reipublicae sta- tu deque nova insula Utopia, publicada em 1516, co- mummente designada de Utopia, nasceu em Londres em 1478, frequentou várias escolas, foi pajem de arce- bispo e estudou em Oxford. Homem de leis, ocupou os mais altos cargos na corte inglesa de Henrique VIII, de quem foi confidente e conselheiro. Foi presidente da Câmara dos Comuns, lorde chanceler e embaixador para negócios estrangeiros. Terá sido o autor do libelo de Henrique VIII con- tra os luteranos, mas, quando, em 1532, Henrique VIII criou a Igreja de Inglaterra, já se afastara do monarca, por fidelidade ao papa. Julgado e condenado à morte por traição, foi executado, em julho de 1535, com 57 anos. Foi canonizado santo da Igreja Católica, quatro séculos mais tarde (1935). Crime e castigo «O mesmo é dizer – repliquei [narrador] então – que é preciso, para garantia da glória e do bom êxito das vossas armas, multiplicar os ladrões. Pois esses ociosos são uma inesgotável cultura deles. De facto, os ladrões não são os piores soldados e os soldados não são os mais tímidos ladrões; há muita analogia entre estes dois ofícios.» (34) Acrescenta, a propósito da punição da ociosidade e dos roubos: «Summum jus, summa injuria. Quanto mais direito, mais injustiça. A vontade do legislador não é de tal modo infalível e absoluta que seja necessário desembainhar o gládio para punir a mínima infracção aos seus decretos.» (40) «Tais são os motivos que me persuadem de que injusto aplicar ao ladrão o mo castigo que ao assassino.» (41) «E minha opinião, o melhor é muito mais fácil de encontrar que o pior. )…( povo [os Roma- 3

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nos] «tão adiantado na ciência de governar. Conde- aguaceiro, gritam à insensata multidão que se meta navam os gra criminosos a escra perpétua e em casa para se abrigar. E se a sua voz não é a trabalhos forçados nas iras ou nas minas. a ouvida, não descem à rua para inutilmente se maneira de re parec a utilidade pública.» (42) conciliar a justiça com molharem como os outros; ficam em casa e vendo que lhes não é possível curar a loucu alheia , «(…( o único castigo que lhes é imposto é a con- contentam-se com abrigar-se a si» (62) tinuidade no trabalho, pois fornec tudo quan- to é neces vida; como trabalham para a socie- Felicidade e propriedade: dade, é esta que os mantém.» (43) «Quando me entrego a tais pensamentos, presto «Tal é a maneira como o roubo é castigado entre inteiramente justiça a Platão e já não me admiro de os Politérios. Fácil ver nela uma grande humanida- que ele se tenha recusado a fazer leis para aqueles de aliada a grande bom senso. Se a lei castiga, é no povos que não aceitam a comunidade dos bens. Esse propósito de matar o crime e conservar o homem. grande génio previra facilmente que a única maneira Trata o condenado com tanta brandura e sensatez, de organizar a felicidade pública era a aplicação do que o obriga a tornar-se honrado, reparando, durante princípio da igualdade. Ora a igualdade é, segundo o resto da vida, todo o mal que à sociedade causa- penso, impossível num Estado onde a posse é solitá- ra.» (44) ria absoluta; pois cada um se arroga diversos títulos Filósofos no governo? e direitos para chamar a si tudo quanto pode; e a Foi Platão quem disse: A humanidade será fe em Ai! Como essa felicidade está longe de nós, se os riqueza nacional, por ior que seja, acaba por cair na mão de um pequeno número de indivíduos que só deixam aos outros indigência e miséria filósofos nem sequer se dignam assistir aos reis nos o que invencivelmente me convence de que a seus conselhos!» única maneira de distribuir os om - Caluniais os filósofos? - replicou-me Rafael - . equanimidade e just tituindo a felicidade do Não são egoístas a ponto de esconderem a verdade ; género humano, é a abolição da propriedade. alguns deles c ram-na em seus escritos; e se Enquanto o direito de propriedade for o fundamento os senhores do mundo estivessem preparados para do edifício social ,a classe mais numerosa e mais receber luz, poderiam ver e compreender. estimável só terá, para partilhar, miséria ,tormentos Infelizmente, uma venda fatal egos ,a e desespero.» (63) venda dos preconceitos e dos falsos princípios, em que os embeberam e com que os infectaram desde a Objecções à abolição da propriedade: infância. Platão não o ignorava; e sabia também que «- Muito longe de compartilhar das vossas nunca os reis seguiriam os conselhos dos filósofos ,a convicções, penso, pelo contrário, que o país em que menos que eles próprios o fossem. Fez a triste se estabelecesse a comunidade dos bens seria o mais experiência disso na corte de Denis ,o tirano de miserável de todos .Como será possível, com efeito, Siracusa.» (50))…( satisfazer aí às necessidades de consumo? Toda a «Rafael respondeu: gente fugirá do trabalho e descansará dos cuidados - Sabeis o que me aconteceria se procedesse as- da própria existência vivendo do alheio. E mesmo sim? Acontecer-me-ia que, ao curar a loucura dos quando a miséria acicatasse os preguiçosos ,como a outros, cairia na demência de que eles próprios so- lei não mantém de maneira inviolável e contra todos frem.» )…( a propriedade de cada um, a revolta rugiria «Não há portanto maneira alguma de ser útil ao constantemente, esfaimada e ameaçadora, e os Estado nestas altas regiões. O ar que aí se respira morticínios ensanguentariam a república. corrompe a própria virtude.» (60-61) Que barreira poderíeis opor à anarquia? Os «Eis por que o divino Platão convida os sábios vossos magistrados só têm autoridade nominal, a afastarem-se da direcção dos negócios públicos; e desde que sejam desnudados e despojados do que apoia o seu conselho com esta bela sugestão : impõe o receio e o respeito. Não concebo sequer um Quando os sábios vêem muita gente espalhada governo possível num tal jogo igualitário que pelas ruas e praças, durante um forte e demorado repudia toda a espécie de superioridade.» (64). 4

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Causa da superioridade de Utopia: «Eis o que lhes dá a superioridade de bem-estar material e social, embora os igualemos em inteligência e riqueza: a actividade do espírito que constantemente aplicam na procura e aperfeiçoamento das «Quem conhece uma cidade conhece-as todas, porque todas são, como já disse, exactamente semelhantes, tanto quanto o permite a natureza e a configuração do solo. Poderia, portanto, descrevervos indiferentemente uma qualquer, mas escolherei coisas úteis.» (66) de preferência a cidade de Amaurota porque é a sede LIVRO SEGUNDO Porquê o nome de «Utopia»? do governo e do senado, o que lhe confere proeminência sobe as outras todas. Além disso é essa a que melhor conheço, visto que habitei nela «A acreditar em velhas tradições, aliás cinco anos seguidos.» (72) plenamente confirmadas pela configuração do «Uma cintura de elevadas muralhas cerca a cida- te nem sempre a Uto oi uma ilha. Chamava-se Abraxa e estava ligada ao continente; Utopos apoderou-se dela e deu-lhe o se nome . Este conquistador génio bastante de, tendo, a distâncias próximas, torres e fortes.» «As ruas e as praças encontram-se conveniente- mente dispostas, quer segundo as necessidades de transporte quer para haver protecção contra o vento.» (73) «Atrás das casas e entre elas existem vastos jar- uma população grosseira e selvagem e dins.» formar dela um povo que hoje m c todos os outros .Logo que pela vitória se neste pro- tornou senhor do país ,mandou cortar um istmo que priedade absoluta casa dez o ligava ao continente, e a terra de Abraxa tornou-se aquela deste modo a ilha da Utopia. Utopos empregou na re da empres gigantesca os s do seu DOS MAGISTRADOS assim com os indígenas, a fim de que estes «Os sifograntes [magistrados], em número de du- não considerassem o trabalho impost pelo vencedor como humilhação e ultraje. Milhares de braços, portanto, se aplicaram e em breve o êxito coroou o empreendimento. Os mesmos povos vizinhos que no zentos, depois de prestarem juramento e de elegerem o cidadão mais virtuoso e mais apto, escolhem em escrutínio secreto, e proclamam príncipe, um dos quatro cidadãos propostos pelo povo» )…( começo tinham considerado obra como vaidade «O principado é vitalício, a menos que se suspeite e loucura, ficaram espantados ao vê-la fundadamente que o príncipe aspira à tirania.» (76) realizada.» (68) «É crime punido de morte uma reunião fora do Senado, ou das assembleias do povo, para deliberar acerca dos negócios públicos.» «(…( é proibido discutir uma proposta [no Senado] no próprio dia em que a apresentam )…( Ninguém, deste modo, ali se encontra na contingência de debitar de ânimo leve as primeiras coisas que lhe vêm à cabeça» (77) DAS ARTES E OFÍCIOS «Existe uma arte comum a todos os utopianos, quer homens quer mulheres, e a que ninguém pode eximir-se: é a agricultura.» 5

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«Além da agricultura )…( inicia-se cada cidadão desregramentos. )…(» (81) num determinado ofício.» «Durante as horas de trabalho, vestem-se de «O vestuário tem a mesma forma para todos os couro ou de pele, vestuário que hega a durar sete habitantes da ilha» anos. Quando saem cobrem-se com uma espécie de « que a ça melhores sobretudo que lhes esconde o trajo grosseiro do ofício.» (83) O trabalho material reduz-se a poucas horas e produz no entanto a abundância e o supérfluo.» (84) para O que é a felicidade: pírito e «O alvo das insti sociais na Utopia em trabalhador!» primeiro lugar, corresponder às necessidades do consumo público e particular, deixando cada «Três horas de trabalho até ao meio-dia, depois cidadão o maior tempo possível para se jantar. De tarde, duas horas de descanso, três de tra- servidão do corpo, cultivar livremente o espírito e balho, ceia.» (79) desenvolver as suas faculdades pelo «Há todas as manhãs cursos públicos que come- estudo das ciências e das artes. Neste çam antes do nascer do sol. Só os indivíduos especi- desenvolvimento completo consiste para eles a almente destinados às letras são obrigados a seguir verdadeira felicidade.» (84) tais cursos.» «Alguns, durante as horas de liberdade, entregam DAS RELAÇÕES ENIRE OS CIDADÃOS -se de preferência a exercitar-se no respectivo ofício. Demografia da família: São aqueles cujo espírito não gosta de elevar-se a «Cada cidade deve compor-se de seis mil especulações abstractas. Ninguém por tal os censu- ias. Cada família só pode conter de dez a ra.» dezasseis jovens na puberdade. O número dos «À noite, terminada a ceia, os utopianos passam impúberes é ilimitado. Quando uma família cresce uma hora em divertimentos» (80) excessivamente, os membros excedentes passam a Resposta à objecção de a jornada de trabalho ser fazer parte das famílias menos numerosas.» (85) apenas de seis horas: «Compreendê-lo-eis facilmente se pensardes nas inúmeras pessoas ociosas que existem noutras na- ções. Em primeiro lugar, quase todas as mulheres, que constituem metade da população, e a maior parte dos homens nos povos em que as mulheres trabalham. A seguir, a multidão enorme de sacerdotes e religiosos que nada produzem. Juntai i todos esses ricos proprietários que vulgarmente se chamam nobres e fidalgos; acrescentai ainda os bandos de criados que são outros tantos larápios de natureza.» (86) libré; e o dilúvio de mendigos robustos e válidos, que cultivam a sua preguiça sob a capa de falsas Abundância e satisfação. Cupidez e orgulho: enfermidades. Descobrireis, em suma, que o número «C de dos que trabalham para ocorrer às necessidades do de que carece si e us. pede género humano é muito menor do que se imagina. Considerai também que a maior parte dos que trabalham se ocupam de coisas desnecessárias. Pois, receio mais neste século [XVI] do dinheiro, em que este é o deus que é e a medida de todas as coisas, uma quantidade de nunc artes frívolas aplica-se apenas a manter o luxo e os 6

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motivo avareza: receio geiras; pois o governo da Utopia prefere expor à larmente, outro morte os estrangeiros a expor os cidadãos.» (94) utopianas Riqueza, dinheiro, ouro e prata: tor «Na Utopia, não se usa moeda nas transações; rese Dos dois lados da sala estão alternadamente valor confere atribui-se-lhes dois jovens e dois indivíduos de mais idade .Esta menos va medida aproxima os iguais e mistura todas as idades; preenche ao mesmo tempo uma finalidade ja constitua moral.» (90) inconveniente «Assim se presta à velhice a homenagem devida. e Foi A nature- Homenagem que redunda em benefício para todos.» za, essa previdente, es s O prazer para os utopianos: coberto vãos, «(…( eles têm por princípio que o prazer que nenhum mal produz é perfeitamente legítimo.» bom e realmente «A fim de obviar a esses inconvenientes, imagi- «Quem por iniciativa própria se permitir atravessar os limites da sua província é tratado como criminoso.» (92) naram os utopianos um emprego do ouro e da prata em completa harmonia com o resto das suas instituições, mas em desacordo com as do nosso continente em que o ouro se adora como a um deus e se busca como ao supremo bem. Os utopianos comem e be- Vedes como pia se tornam a bem em louça de argila ou de vidro, de forma ele- ociosidade e a preguiça. Não se encontram lá nem tabernas nem prostíbulos, nem circunstâncias que gante mas de mínimo valor; o ouro e a prata destinam-nos aos usos mais comezinhos, quer nos hotéis favoreçam libertinagem, nem conluios ocultos, nem assembleias secretas. Está cada um constantemente exposto aos olhares de todos os comuns quer nas casas particulares; chegam até a fazer deles bacios de cama. Com eles forjam também cadeias para os escravos e insígnias para os outros e vê-se na necessidade de trabalhar e de descansar segundo as leis e os costumes do país . condenados que cometeram crimes infames, trazendo estes últimos anéis de ouro nas orelhas e nos de- Desta vida pura e activa resulta em tudo a abundância. O bem-estar difunde-se igual ente por t os membros dessa admirável socieda onde a mendicidade e a miséria são monstros ignorado. )…( Assim a república utopiana forma como que dos, um colar de ouro ao pescoço ou uma espécie de freio de ouro na boca. )…( Tudo deste modo concorre para manter o ouro e a prata em situação de ignomínia. Entre os outros povos, é a perda da fortuna sofrimento tão cruel como o dilacerar das en- uma única e mesma família.» tranhas, mas mesmo que tirassem nação utopiana todas as suas imensas riquezas, ninguém daria sinais Mercenários e dinheiro: de ter perdido um soldo.» (96) «Há uma loucura que os utopianos não menos Quando recebem as somas que lhes são devidas, detestam, e que mal chegam a conceber: é dos que «concentram todas as suas riquezas, para com elas prestam honras quase divinas a um homem pelo fac- conseguirem como que uma muralha de metal contra to de ser rico, sem lhe serem no entanto devedores os perigos imprevistos e urgentes. Destinam-nas a em nada» (99) contratar e a estipendiar copiosamente tropas estran- 7

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Felicidade e prazer: vérsias tem vontade da natureza, e que, obedecer a essa vontade, é ser virtuoso. A natureza, dizem ainda, leva todos os homens a ajudarem-se mutuamente e a compartilharem do alegre festim da vida. Este preceito é razoável e justo. Não há indivíduo, por mais altamente colocado que se considere acima do género humano, que suponha que a Providência deva ocupar-se dele apenas.» (103) O que é o prazer: elemento é, segundo eles, «Chamam prazer a todo aquele estado ou movimento de alma ou corpo em que o homem experimenta um deleite natural.» (104) arem acerca axiomas incompleta e orias falsas. Eis o seu catecismo religioso: “A alma é imortal: deus que é bom criou-a para ser feliz. Depois da morte a virtude tem recompensa, o crime, castigo.” entre s, gozo ausam. ás sofrendo voluntariamente a nada esperando Caça: «Eis por que os nossos insulares proíbem aos homens livre a caça como exercício indigno deles, e só a permitem aos magarefes que são todos escravos.» (106-107) Espécies de prazeres: «Os utopianos distinguem várias espécies de verdadeiros prazeres, referidos uns ao corpo, outros à alma. Consistem os prazeres da alma no desenvolvimento da inteligência e nas puras alegrias que acompanham a contemplação da verdade.)…( Dividem os prazeres do corpo em duas espécies: Compreende a primeira os prazeres que dão aos sentidos uma impressão viva e actual, cuja causa é o restabelecimento dos órgãos esgotados ou saturados.» (107) [Caso das] «secreções intestinais, o coito, e o desaparecimento de um prurido quando esfregamos ou coçamos» (108) assim os utopianos definem a virtude: viver A segunda espécie de volúpia sensual consiste no conforme a natureza. Deus, ao c o homem, não equilíbrio estável e perfeito de todas as partes do lhe deu outro destino. corpo, isto é, numa saúde perfeita. )…( O homem que segue o impulso da natureza que obedece à voz da razão, nos seus ódios como nos seus apetites. Ora a razão inspira em primeiro lugar a todo os mortais o amor e a adoração da majestade divina, à qual devemos o e a Dizem que só com uma saúde perfeita é aceitável a condição do homem; sem saúde, não há prazer possível; sem ela, a própria aus da dor não é um bem, mas a insensibilidade de um cadáver.» (108) m segundo lugar, ensina-nos e excita-nos a viver Prazeres preferidos pelos utopianos: alegremente e sem pesar, obtendo as mesmas «Preferem acima de tudo os prazeres do espírito vantagens para os nossos semelhantes que são os que consideram os primeiros e, entre todos, os essen- nossos irmãos.» (101-102) ciais; consideram como mais puros e mais dignos de «Eis o que leva os utopianos a afirmar que uma serem buscadas a prática da virtude e a de vida deve honestamente ag isto é, que o uma vida sem mácula. Entre as volúpias corporais, prazer é o fim de todas as nossas que tal é 8

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dão preferência à saúde, pois, em sua opinião, de- «Os utopianos tinham certa razão para assim fala- vem ser objecto de cuidados atentos a boa ali- rem, porque nem todos os homens são bastante filó- mentação e os outros gozos da vida animal; e unica- sofos para só apreciarem numa mulher as qualidades mente no propósito de conservar a saúde, visto que de espírito e de coração, e os próprios filósofos não essas coisas não deleitam por si próprias, mas apenas se aborrecem de encontrar a beleza do corpo a par pelo facto de se oporem à invasão secreta da doen- das qualidades da alma.» (119) ça.» (109) O castigo para crimes maiores: «Aliás, em toda a espécie de deleites sensuais, «O castigo ordinário, mesmo para os crimes mai- nunca os utopianos esquecem esta regra prática: Fu- ores, é a escravidão. Crêem os utopianos que a gir ao prazer que impede de gozar um prazer maior escravidão não para os celerados menos t que ou que é se de qualquer dor. Ora a dor é aos olhos deles a inevitável consequência de todo o de- sonesto prazer.» (111) a morte, sendo além disso mais vantajosa para o Estado. Um homem a trabalhar, dizem, é mais útil que um cadáver )…(» (121) DOS ESCRAVOS As leis e os advogados: «São as leis em pequeníssimo número e bastam Quem são os escravos: no entanto para as instituições utopianas.» )…( Em «Os prisioneiros de guerra não são indistintamen- consequência disso, não há advogados na Utote sujeitos à escravatura; apenas o são os indivíduos pia.» (123) apanhados de armas na mão. Tratados: Os filhos dos escravos não são necessariamente «Quanto a tratados, tratados que as outras escravos; e o escravo estrangeiro torna-se livre ao tocar a terra da Utopia. Recai particularmente a servidão sobre os cida- nações tantas vezes estabelecem, para logo em seguida os romperem, nunca a Utopia nenhum.» (125) dãos acusados de grandes crimes e os condenados à Tratados e fronteiras: morte de origem estrageira. )…( o entanto, falando na generalidade, Todos estes escravos são sujeitos a um trabalho incessante e usam cadeias, mas os que se tratam com mais rigor são os indígenas» (116) consideram um mal introduzir-se o hábito dos tratados entre os povos que os não usam, mesmo quando estes religiosamente os cumprissem. Tal hábito leva os homens a considerarem-se Doentes e cuidados: mutuamente inimigos ,a julgare que nasceram para «Já disse os cuidados afectuosos que os utopianos eternamente dest se guerrearem mamente se outros ,quando não há um trata têm pelos doentes; nada poupam do que possa con- de paz; como se já não houvesse sociedade natural tribuir para a sua cura, quer quanto a remédios quer entre duas nações pelo facto de uma colina ou de um quanto a alimentos.» rio os separarem!» (126) Casamentos: A natureza do homem: «As raparigas não podem casar-se antes dos de- «Os utopianos têm por princípio que só deverá zoito anos e os rapazes antes dos vinte e dois. considerar-se inimigo aquele que se tornar respon- Os indivíduos de ambos os sexos que se verifica terem sucumbido ao prazer antes do casamento, são objecto de uma severa censura. )…( sável pela prática da injustiça e da violência. )…( O homem, dize unido ao homem lo coração e pela caridade do que por palavra e protocolos.» (127) Os utopianos não se casam, aliás, às cegas )…( Uma senhora honesta e grave mostra ao futuro mari- DA GUERRA do a sua noiva, solteira ou viúva, no estado de com- pleta nudez; e, reciprocamente, um homem de probi- Os utopianos e a guerra: dade a toda a prova mostra à jovem o seu prometido, «Os utopianos abominam a guerra como coisa nu.» (118) brutal e selvática que o homem contudo pratica Os filósofos e as mulheres: mais frequentemente de que nenhuma outra espécie 9

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de animais ferozes. Contrariamente aos hábitos de Soldados que sabem nadar: quase todas as nações, nada há tão vergonhoso na «As armas dos utopianos são muito efi- Utopia como buscar glória nos campos de batalha. cazes e prestam-se no entanto tão bem a todas as es- )…( Mas os utopianos nunca fazem a guerra sem pécies de movimentos e de gestos, que nem sequer grandes motivos.» (128) embaraçam os soldados quando estes nadam.» (137) «O consiste A guerra preferida é longe da ilha: «(…( logo os utopianos reúnem um formidável exército e mandam atacar o inimigo fora de fronteiras.» (139) razão, com excepção DAS RELIGIÕES DA UTOPIA Religiões diversas, Deus único: «Mal é declarada a guerra, têm o cuidado de mandar afixar, secretamente, no mesmo dia, e nos mais notórios lugares do país inimigo, proclamações «As religiões na Utopia não só varam de uma província para outra, mas ainda dentro das muralhas de cada cidade em particular; estes adoram o Sol, aqueles divinizam a La ou qualquer outro planeta. referendadas pelo selo do Estado. Estas proclama- Alguns veneram como Deus supremo um homem ções prometem magníficas recompensas a quem as- cuja glória e virtude outrora brilharam com grande sassinar o rei inimigo» (131) fulgor. «Este hábito de traficar com os inimigos, pondo- A maior parte dos habitantes, contudo, que é tamlhe a cabeça a prémio, é reprovada em toda a parte bém a mais sensata, rejeita essas idolatrias, e recocomo cruel indignidade própria de almas degrada- nhece o único Deus )…( deus Pai; das. )…(» (132) Todos os utopianos tendem, apesar das diferença Mercenários: de crenças, para admitir um ser supremo, ao mesmo tempo criador e providencial. Designa-se esse ser «Aliás, além da riqueza encerradas na ilha, s )…( de Mitra.» (140) mo julgo ter-vos já de rios Tolerância e liberdade religiosas: estados em imensas quantias. É com parte desse di- nheiro que contratam os soldados de todos os países, e principalmente do país dos zapoletos, que es situ- ado a les da de quinhentos mil «Os habitantes da ilha que não acreditam no cristianismo, não se opõem sua propagação e de nenhum modo maltratam os recém-convertidos» passos «No número das suas instituições mais antigas contam os utopianos aquela que ordena que ninguém seja ultrajado por re que a.» «Esse povo faz a guerra por conta dos utopianos «Mas intolerância e o fanatismo foram c contra toda a gente porque em nenhuma outra parte com o exílio ou a escravidão.» (142) lhe pagam melhor. )…( Destino e recompensa: do Além dos zapoletos, os utopianos empregam «[Utopos] Condenou, entretanto, severamente, em ainda, em tempo de guerra ,as tropas dos Estados nome da moral aquele homem que degrada a digni- cuja defesa assumem, depois as legiões auxiliares dade da sua natureza, a ponto de pensar que a alma dos outros aliados e finalmente seus próprios om o corpo, o mundo caminha ao concidadãos, entre os quais escolhem um homem de acaso, e que não existe providência.» (143) talento e valentia para o pôr à frente do exérci- Materialistas desprezados: to.» (134) «Aos materialistas não prestam homenagem, não O combate e a honra: «Durante o combate marido e mulher são coloca- dos no mesmo posto, tendo em volta filhos, aliados e os elegem para magistratura alguma, nem para qualquer função pública Desprezam-nos como a seres de natureza inerte e impotente.» parentes, a fim de que mutuamente se socorram com «Todos os utopianos, parte fraca minoria, t a a mais ardente energia, o que naturalmente são leva- convicção íntima de que uma felicidade imensa es- dos a fazer. pera o homem para além da morte.» (144) Ao marido que regresse sem a mulher ou ao filho que volte à pátria sem o pai espera-os a desonra e a infâmia.» (135) 10

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Morte e espiritismo: ainda a única que pode atribuir-se verdadeiramente o «Os seus funerais são acompanhados por cantos de alegria. Recomendam eus com fervor a sua alma e incineram-lhe o corpo com respeito, mas sem aflição.» nome de república. Pois em todas as outras partes, os que falam de resse geral só pensam no pró- prio; enquanto ali, onde ninguém possui nada toda a gente se oc a coisa pública, porque o bem particular se confunde realmente com o bem «Porque os mortos, segundo a convicção da mai- comum.» (154) or parte dos utopianos, assistem conversas dos vivos, embora vista curta dos mortais.» Justiça social: «Por conseguinte, segundo as ideias utopianas, os mortos participam da sociedade dos vivos, assistem às suas acções e ouvem as suas palavras.» (145) «Na Utopia, pelo c onde tudo todos, a ninguém pode faltar nada, uma vez tudo os celeiros públicos abundam.» (155) que de Sacerdotes: República sem uso do dinheiro: «Na Utopia, a avareza é impossível visto que ali «Os sacerdotes, tal como os outros magistrados, o dinheiro para nada serve. Que grande soma de são eleitos pelo povo em escrutínio secreto, a fim de pesares isso não impediu! E que enorme porção de evitar a intriga;» crimes não arrancou pela raiz!» (157) «O poder sacerdotal limita-se a proibir que participem dos sagrados mistérios os homens de escandalosa perversidade.» «O que principalmente alterava todas as minhas ideias era o fundamento sobre o qual se edificou aquela estranha república Currículo educativo: «A educação da infância e da juventude nfiada ao sacerdócio que confere os seus primeiros cui- APÊNDICE dados ao ensino da moral e da virtude, de preferên- Utopus eu General de não ilha fiz ilha. cia ao das ias e das letras.» (148) Só eu de todas as terras sem filosofia Imagens divinas e Mitra: Estado filosófico formei para mortais. «Não se vê nos templos nenhuma imagem dos deuses, a fim de que cada um tenha a liberdade de con- De boa vontade concebo a minha parte ceber a divindade sob a forma apropriada sua c De má vontade aceito a melhor parte. VERSOS SOBRE A ILHA DA UTOPIA Pelo poeta laureado Anemolio, filho da irmã de festa última, antes de irem ao templo, de Hitlodeu as mulheres lançam-se aos pé dos maridos e os filhos aos pés dos pais. Assim prosternados, confes- Nenhures era uma vez meu nome, sam os pecados de omissão e negligência no cumprimento dos deveres, pedindo perdão dos seus er- Isto é, uma terra onde ninguém vai. ros.» (151) República de Platão, reclamo agora Música: Para jogar, ou vencer o seu jogo; «Mas o que dá à ica, quer instrumental quer Pois isso era simples mito em prosa, vocal, incontest superioridade, é que imita e exprime com rara perfeição todas as afecções da natu- Mas o que escreveu, Eu tornei-me reza.» (153) Dos homens, riqueza, leis de sólido estado, República, porquê?: Um lugar onde todo o sábio vai: continuou Rafael des ae ura dessa república, que não só julgo a melhor, mas Algures é agora meu nome. “Não sou ateniense nem grego, mas cidadão do mundo” Diógenes de Sinope 11

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Tamera1 – da ecotopia à utopia por Luís Ladeira recuperar estão, em primeiro lugar, os quatro fundamentos da vida: a energia, a água, a alimentação e o amor” – Manifesto Tamera Se tivermos sucesso em estabelecer a paz Se bem que estejamos perante uma formulação no amor, a paz surgirá em todo o mundo; genérica, com conceitos pouco definidos, ressalta daqui, e então toda a evolução dará, com no entanto, que os fundadores do projeto estão mais entusiamo, um novo passo. interessados na relação dos humanos com o meio ambi- Dieter Duhm2 ente e na inter-relação humana no quotidiano do que Tamera, como instituição, situada num espaço e em qualquer movimento político defensor de ideias so- num tempo determinados, não é uma utopia. Enquanto ciais a aplicar futuramente, quando as circunstâncias o projeto universal pode sê-lo. venham a permitir. Trata-se, aqui, de constituir uma comunidade e procurar viver de um modo que permita Enquanto projeto localizado, Tamera autodesig- alcançar o objetivo último da paz para a humanidade. na-se de ecotopia, um lugar ecológico. E ecológico por- Mas, uma comunidade que se quer universal, como res- que se pretende respeitador do ambiente. Mas vamos a salta logo da sua finalidade última, não pode ser algo factos. que se esgote em si mesmo, terá que ser um fermento No ano de 1978, na espuma rarefeita de inter- que possa aplicar-se nos mais diversos lugares do globo venções políticas à esquerda, mais ou menos revolucio- terrestre. A começar por aqueles em que dois desses nárias, Dieter Duhm, psicanalista, e Sabine Lichtenfels, fundamentos da vida são mais periclitantes: aqueles teóloga, iniciam, na Alemanha, um projeto que, desde a aonde a água e o amor escasseiam – zonas de desertifi- primeira hora, se quer um projeto pela paz. Fundam cação e zonas de conflito. uma comunidade que vai posteriormente dar lugar ao projeto Tamera que, em 1995, se vem instalar em Portugal, no monte do Cerro, em Relíquias, no concelho alentejano de Odemira, numa propriedade de cerca de 140 hectares, que tendo sido agrícola se encontrava então em avançado processo de desertificação. Assim, Tamera é considerada pelos seus seguidores não apenas uma ecotopia, mas também um biótipo de cura: pela recuperação do meio ambiente, que fez retroceder a desertificação da propriedade do Cerro aproveitando a água das chuvas, mas também pelo estabelecimento, entre os seus membros, de laços sociais “O mundo dos seres humanos tem de ser novamente e afetivos suscetíveis de desarmar possíveis fontes de submetido às ordens fundamentais da vida universal. A 1- Tamera: Centro de Educação e de Investigação para a ‘Utopia Concreta’ https://www.tamera.org/pt/ 2- Rumo a uma Nova Cultura, Duhm, Dieter, ed. Verlag Meiga, 2011. Versão portuguesa na internete em http://www.verlagmeiga.org/wp-content/uploads/oldfiles/Rumo_free.pdf. As citações desta obra, neste artigo, são identificadas pela sigla «RNC» seguida do nº da página desta edição virtual. 12

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conflito. E é neste contexto que uma questão essencial, Amor livre e ciúme a da sexualidade, se põe em Tamera. “ O drama do mundo é o drama do amor (…). Foi sobre- “Biótipos de cura ou Aldeias da paz são (…) locais de aco- tudo por questões relacionadas com o sexo e o amor que lhimento, centros de estudo e locais de trabalho. É aí rea- tantos grupos políticos e alternativos falharam. Não po- lizado um trabalho prático de investigação para os fun- demos gerar paz no mundo enquanto este assunto per- damentos tecnológicos, ecológicos, sociais, espirituais e manecer irresolúvel”, Dieter Duhm, fundador de Tamera intelectuais de uma sociedade mundial sem violência” – Está dado o mote. Podemos até dizer que é a Manifesto Tamera questão sexual que, em última análise, justifica Tamera, Tamera assume-se assim como um laboratório isto é, que justifica a existência de uma comunidade geo- experimental. Mas não isolado. A abertura desta comu- graficamente localizada e com caráter de laboratório. nidade às comunidades vizinhas (pela troca de Pois que defender uma relação harmoniosa com o meio «saberes») e à sociedade em geral (pela abertura de visi- ambiente pode fazer-se em qualquer meio ambiente: tas guiadas, cursos de formação e estadias pontuais na viver segundo cânones de não desperdício, de não agres- comunidade) são expressão da envolvência ativa desta são aos animais e de vegetarianismo é já possível fazer- comunidade plurinacional que aspira a mudar o mundo. se em muitos lugares comuns. Porém, criar um relacio- Permacultura e veganismo namento sexual aberto, pretendendo conciliar o desejo de parceria com o amor livre, gerindo o processo, exige A subsistência da comunidade assenta na perma- uma espécie de laboratório, que é o que, neste particu- cultura e no veganismo/ vegetarianismo. Aplicando à lar (que não é o único, mas é o mais específico) Tamera terra os princípios da permacultura que se opõem à ex- é. ploração agrícola intensiva e à destruição de excedentes, e orientando a sua ação dentro dos direitos humanos e É por os seus fundadores considerarem que a dos animais – o que conduz a uma alimentação vegetari- pulsão sexual aberta e o desejo de parceria são compo- ana e à rejeição de produtos que não respeitem esses nentes estruturais da vida humana, que se não forem direitos – a comunidade aspira à autossuficiência. Uma conciliadas provocarão dissensões e contendas, que se aspiração, porventura mais do que uma realidade plena, funda a necessidade de uma comunidade que, aceitando pois que a comunidade não deixa de fazer apelos ao os pressupostos, se dispõe a tentar criar as condições da apoio exterior. Mas não deixa de buscar caminhos inter- sua harmonização. É nesta base que assenta o projeto nos, como o desenvolvimento de tecnologias energéticas Tamera. Um projeto pela paz, que considera que a paz que desempenham também um papel fundamental na mundial exige um clima de confiança no outro e que es- busca da autossuficiência. sa confiança começa pelos pequenos núcleos sociais. Mas precisamente essa confiança é o que pretendem Mas a revolução tamerana é tão radical que alcançar primeiramente no relacionamento sexual entre questiona o quadro tradicional do relacionamento entre os humanos. Pois que, nas palavra de Dieter Duhm: “ A as pessoas. E porque não haverá paz para a humanidade organização da sexualidade é uma das questões centrais se não houver paz entre os sexos, Tamera está apostada de qualquer cultura e sociedade” (RNC, 85). em modificar as relações sociais tradicionais entre ho- mens e mulheres. Considerando que as sociedades patri- Humanismo biológico arcais geraram um relacionamento de dominação e sub- É necessária uma nova cultura. Em Rumo a uma missão de géneros, o projeto pretende que esse relacio- nova cultura, Dieter Duhm invoca Nietzsche, Marx, Freud namento se altere na base da confiança entre os huma- e W. Reich, entre outros, para compreender o mundo nos, excluindo qualquer dominação/submissão. Condi- em que estamos e traçar o caminho para um novo mun- ção também de paz. Assim, e porque o ciúme, na relação do, ou seja, criar uma nova cultura. amorosa, aparece como a expressão histórica da posse O pressuposto básico é que este humanismo que (o medo de perder o objeto amado) o combate ao ciúme enforma a sociedade atual é a resultante de um desvio é uma exigência do inter-relacionamento humano no no percurso da humanidade, desvio esse que advém da quotidiano de Tamera. tentativa de separar o humano da natureza a que per- 13

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tence. Assim o denunciou Nietzsche, buscando, em A para uma gloriosa revolução cultural, se ele próprio não Origem da Tragédia, as origens desse desvio no se tivesse imposto um entrave com a covardia da sua «otimismo» socrático que exorcizou o «pessimismo» teoria de cultura e sublimação. Na luta entre sociedade e trágico, desligando o humano do terrestre e fazendo do necessidade, ele acabou por se colocar do lado da socie- ser humano um ser errante (alienado das suas raízes) na dade.” (RNC, 64/65). Terra. Aí se terá cavado o fosso para uma trajetória alie- Há pois uma revolução a fazer. Uma revolução nada feita da busca de salvação na ilusão de um outro que recoloque o ser humano no seu lugar natural. Para mundo. Trajetória que o cristianismo consolidou e ampli- isso, Dieter Duhm – contrariando as movimentações po- ou. E se Marx quis restituir o humano ao seu berço ter- líticas revolucionárias, que integrou nos anos 60 do sécu- restre3, foi Freud quem, pela psicanálise, revelou o lo passado, as quais, do seu ponto de vista, falharam por “impulso fundamental seguinte para a secularização da não compreenderem a necessidade elementar de liber- salvação” (RNC, 64). Freud “notou que as questões de tar os instintos reprimidos – propõe uma base experi- miséria e felicidade eram determinadas no âmbito libidi- mental para uma sociedade humanista biológica. Sendo noso, uma área completamente retirada da consciência que o humanismo biológico é aqui entendido como uma oficial. Trouxe assim a questão da salvação para aspetos sociedade humana irmanada com a natureza, afinal a mais básicos da vida na Terra, nomeadamente para o sua condição natural. âmbito da sexualidade” (RNC, 64). E por quê a necessidade de experimentação? A Para Duhm, não chega colocar a questão da alie- questão é que para Duhm a evidência da libertação sexu- nação humana no campo al na criação da nova cultura se cruza com o da violência da produção e distribui- nos seres vivos. E se ele afirma, na linha de W. Reich, ção de riqueza (Marx). que a “violência é a erupção de energia vitais bloquea- Isso só contribuirá para a das” não deixa, porém, de hesitar entre a “violência co- desalienação humana se mo elemento básico dos seres vivos (Nietzsche) e a vio- a cultura repressiva que a lência como resultado de impulsos reprimidos (W. Reich) enforma for substituída ” (RNC, 93). Acrescentando que estes dois aspetos antapor uma nova cultura que gónicos “precisam de ser vistos com clareza e profundi- assente na libertação do dade antes que se permita que um tenha precedência que é mais elementar no sobre o outro” (RNC, 93). E que propõe Duhm para deshumano, a sua sexualida- trinçar a questão? A resposta é: experimentação! Uma de. Pois que foi a repres- experimentação a partir do pressuposto de que a violênsão dos instintos elemen- cia, no atual momento da evolução da humanidade, é tares (incluindo a sexuali- essencialmente uma erupção do reprimido. dade) que gerou a alienação humana4. “A criação de uma nova cultura, em sintonia com Não obstante, Duhm não deixa de assacar a as leis da vida, requer, antes de mais, a criação de novos Freud um desvio oportunista, ou covarde, como lhe cha- espaços sociais e psíquicos, onde as pessoas possam vol- ma, quando Freud justifica a cultura como produto da tar a viver livremente e aprender a respirar. De tais espasublimação dos instintos, não destrinçando entre a cul- ços surge o amor, enquanto força de cura contra o medo tura repressiva, que nasce dessa sublimação, de uma e o ódio” (RNC, 41). Eis Tamera justificado. Mas também outra cultura necessária para religar o humano às suas se exponencia o seu caráter experimental a partir de raízes: “As descobertas de Freud continham as sementes uma aposta: a nova cultura, pela libertação dos instintos 3- ”A ideia mais marcante do marxismo era anular e render as ideias religiosas de libertação através da prática política (a luta de classes). A salvação não mais seria encontrada no paraíso, mas no ponto mais materialista do mundo físico: na produção material” (RNC, 63). 4- “Essa descoberta – de certa forma oposta à do marxismo – produziu um aspeto novo e fundamental na compreensão da sociedade e da história humana. As questões decisivas não estavam mais nas áreas político-económicas. Mas a outro nível, nas áreas da biologia e da sexualidade” (RNC, 86) 14

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elementares, ultrapassará a violência, criará a paz. Po- cia. Porém, e é essa a esperança subjacente a Tamera, rém, a dúvida: não será a violência um instinto básico? isso é produto de uma evolução ainda refém de uma Ou seja, Tamera tanto pode ser o início de um cultura repressiva. Uma evolução enquadrada com a li- novo rumo, como a constatação do irremediável – de bertação dos instintos demarcar-se-á deste desvio e con- que a paz não é possível, porque a violência é intrínseca tribuirá, neste contexto, para a humanização da humani- aos seres vivos. Duhm aposta na possibilidade da realiza- dade. Se bem que, para Duhm, isto não seja um proces- ção do sonho da paz, mas teme o insucesso. E tem mui- so automático: “Que nos tenhamos tornado mais céticos tas razões para isso. Que não apenas o alerta de Nie- em relação ao efeito de humanização automática da li- tzsche. Em RNC, 36, destaca “Os vikings puderam ser bertação sexual deve-se, em parte, a uma familiaridade relativamente livres da repressão dos instintos… mesmo crescente com ideias que foram formuladas por Nie- assim o homicídio e o extermínio tinham papel central tzsche na «Genealogia da Moral». Essas ideias ajudaram nas suas vidas”. Para além de que ele não ignora a vio- a libertar-nos das hipnóticas e, muitas vezes, simplistas lência que, em muitas espécies, está associada à própria contraimagens de humanismo, carregadas por toda uma sexualidade. geração, desde o movimento estudantil dos anos 60. O ser humano é muito «pior» do que nós pensamos, não só Violência e paz devido à repressão dos seus impulsos e instintos, mas na “É possível que Nietzsche estivesse certo na sua sua essência, isto é, devido à sua história biológi- teoria sobre a crueldade inerente à vida, à qual se viria a ca.” (RNC, 79) acrescentar a crueldade que resulta da repressão dos instintos humanos. Isso motiva-nos ainda mais a desenvolver um sistema de vida social no qual a violência, tanto física quanto emocional e espiritual, possa ser canalizada em energias construtivas sem precisar de ser reprimida. “ (RNC, 94) O que, não obstante, não impede a aspiração da paz universal. Uma aspiração cuja efetivação universal se alcançará, na perspetiva tamerana, pela multiplicação de biótipos de paz, pois que pela ressonância mórfica5 quando biótipos do tipo Tamera se replicarem em número suficiente, o resto da sociedade converter-se-á ao no- Eis pois a proposta. A paz será possível, pela li- vo modelo. Eis a utopia tamerana em dimensão de futubertação dos instintos. Mas o que nos afasta hoje dos ro. O futuro, esse «lugar» de felicidade, pois que é um «vikings» que nos garanta a possibilidade de contornar a futuro de paz. crueldade? Mas que sociedade é esta que se quer replicada? Em Duhm, é a evolução humana, reorientada em Os fundadores de Tamera tanto pretendem regenerar o uma nova cultura, que nos pode libertar dessa violência ambiente físico como o humano. A água e as energias destrutiva, pois que, reintegrado nas suas raízes terres- limpas são fatores decisivos para o sucesso do projeto, tres, o espírito evoluído (sinónimo de universalidade e tanto quanto a confiança nos elementos do grupo e a agora liberto dos bloqueios emocionais que lhe retira- superação do medo. Pois que não haverá paz se o meio ram a dimensão terrestre) encontrará os meios de satis- não permitir a subsistência de todos, mas também não fazer a aspiração universal da paz. haverá paz se o grupo não for capaz de desarmar as fon- Poderá objetar-se, no entanto, que a barbárie não é património exclusivo da antiguidade. Que os campos de extermínio são monstruosidades humanas bem tes emocionais de conflito. E uma das fontes de conflito do inter-relacionamento humano é o ciúme. «O ciúme não pertence ao amor» - Dieter Duhm, funda- contemporâneas, que a evolução do espírito humano, dor de Tamera bem expresso na ciência atual, não foi capaz de evitar e, Porventura filho do medo de perda da posse do em certos casos, a intensificou com recurso a essa ciên- objeto amado – num processo de dominação/submissão 5- Ressonância mórfica: (teoria do biólogo Rupert Sheldrake) Sempre que um indivíduo de uma espécie aprende ou descobre um novo hábito, procedimento, atitude, isso repercute-se no campo ordenador invisível da espécie toda. Se essa atitude for repetida por muito tempo imporá uma ressonância mórfica que influenciará todos os indivíduos da mesma espécie. Quando o centésimo macaco adotou a prática de lavar as raízes antes de as comer, os macacos isolados de uma ilha vizinha começaram a ter a mesma prática. 15

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