a-escola-faz-as-juventudes-reflexoes-em-torno-da-socializacao-juvenil

 

Embed or link this publication

Popular Pages


p. 1

juarez dayrell a escola faz as juventudes reflexÕes em torno da socializaÇÃo juvenil juarez dayrell resumo o texto discute as relações entre juventude e escola problematizando o lugar que a escola ocupa na socialização da juventude contemporânea em especial dos jovens das camadas populares trabalha com a hipótese de que as tensões e os desafios existentes na relação atual da juventude com a escola são expressões de mutações profundas que vêm ocorrendo na sociedade ocidental interferindo na produção social dos indivíduos nos seus tempos e espaços afetando diretamente as instituições e os processos de socialização das novas gerações nesse sentido discute as características dos jovens que chegam às escolas públicas de ensino médio evidenciando a existência de uma nova condição juvenil no brasil contemporâneo localiza os problemas e desafios na relação dos jovens com a escola constatando as transformações existentes na instituição escolar e as tensões e os constrangimentos na difícil tarefa de constituir-se como alunos concluindo que a escola tornou-se menos desigual mas continua sendo injusta palavras-chave juventude socialização escola does school make youth reflections around youth socialization abstract this text discusses the relationships between schooling and youth and the place of schools in the socialization of contemporary youth especially in what regards young people from lower esse texto foi apresentado parcialmente no simpósio internacional ciutat.edu nuevos retos nuevos compromissos realizado em barcelona em outubro de 2006 agradeço ao prof josé machado pais e à profª nilma lino gomes bem como à equipe do observatório de escolas do instituto de ciências sociais da universidade de lisboa pelas contribuições valiosas ao texto agradeço também o apoio do cnpq que tornou possível a realização desse trabalho doutor em educação e professor adjunto da faculdade de educação da universidade federal de minas gerais ufmg e-mail juareztd@uol.com.br educ soc campinas vol 28 n 100 especial p 1105-1128 out 2007 disponível em

[close]

p. 2

a escola faz as juventudes reflexões em torno da socialização juvenil classes it considers the hypothesis that the challenges and tensions between schooling and youth are the results of deep changes that have taken place in western societies and have interfered both in the social production of individuals and in their times and spaces affecting the institutions and the socialization process of the new generations this paper thus discusses the characteristics of young students who study public high schools and provides evidence for the existence of a new youth condition in contemporary brazil it points out the challenges and concerns of schooling and youth emphasizing the transformations within schooling institutions and the tensions and constraints in the difficult task of becoming students the author finally concludes that schools have become less unequal but continue to be unfair key words youth socialization school introdução educação da juventude a sua relação com a escola tem sido alvo de debates que tendem a cair numa visão apocalíptica sobre o fracasso da instituição escolar com professores alunos e suas famílias culpando-se mutuamente para a escola e seus profissionais o problema situa-se na juventude no seu pretenso individualismo de caráter hedonista e irresponsável dentre outros adjetivos que estaria gerando um desinteresse pela educação escolar para os jovens a escola se mostra distante dos seus interesses reduzida a um cotidiano enfadonho com professores que pouco acrescentam à sua formação tornando-se cada vez mais uma obrigação necessária tendo em vista a necessidade dos diplomas parece que assistimos a uma crise da escola na sua relação com a juventude com professores e jovens se perguntando a que ela se propõe ao buscar compreender essa realidade um primeiro passo é constatar que a relação da juventude com a escola não se explica em si mesma o problema não se reduz nem apenas aos jovens nem apenas à escola como as análises lineares tendem a conceber tenho como hipótese que as tensões e os desafios existentes na relação atual da juventude com a escola são expressões de mutações profundas que vêm ocorrendo na sociedade ocidental que afetam diretamente as instituições e os processos de socialização das novas gerações interferindo na produção 1106 educ soc campinas vol 28 n 100 especial p 1105-1128 out 2007 disponível em

[close]

p. 3

juarez dayrell social dos indivíduos nos seus tempos e espaços dessa forma o meu ponto de partida será a problematização da condição juvenil atual sua cultura suas demandas e necessidades próprias trata-se de compreender suas práticas e símbolos como a manifestação de um novo modo de ser jovem expressão das mutações ocorridas nos processos de socialização que coloca em questão o sistema educativo suas ofertas e as posturas pedagógicas que lhes informam propomos assim uma mudança do eixo da reflexão passando das instituições educativas para os sujeitos jovens onde é a escola que tem de ser repensada para responder aos desafios que a juventude nos coloca quando o ser humano passa a se colocar novas interrogações a pedagogia e a escola também têm de se interrogar de forma diferente nesse sentido cabe questionar em que medida a escola faz a juventude privilegiando a reflexão sobre as tensões e ambigüidades vivenciadas pelo jovem ao se constituir como aluno num cotidiano escolar que não leva em conta a sua condição juvenil É necessário salientar que ao refletir sobre os jovens estou considerando uma parcela da juventude brasileira que maioritariamente freqüenta as escolas públicas e é formada por jovens pobres que vivem nas periferias dos grandes centros urbanos1 marcados por um contexto de desigualdade social porém mesmo se tratando de uma realidade específica não significa que as questões e desafios com os quais esses jovens se debatem não espelhem de alguma maneira aqueles vivenciados por jovens de outros grupos sociais não podemos nos esquecer de que no contexto de uma sociedade cada vez mais globalizada muitos dos desafios vivenciados pelos jovens pobres ultrapassam as barreiras de classe podendo assim trazer contribuições para uma compreensão mais ampla da relação da juventude com a escola a condição juvenil no brasil uma primeira constatação é a existência de uma nova condição juvenil no brasil o jovem que chega às escolas públicas na sua diversidade apresenta características práticas sociais e um universo simbólico próprio que o diferenciam e muito das gerações anteriores mas quem é ele quais as dimensões constitutivas dessa condição juvenil para essa reflexão não nos propomos a retomar todo o debate existente em torno da categorização da juventude,2 o que fugiria aos educ soc campinas vol 28 n 100 especial p 1105-1128 out 2007 disponível em

[close]

p. 4

a escola faz as juventudes reflexões em torno da socialização juvenil limites desse texto optamos por trabalhar com a idéia de condição juvenil por considerá-la mais adequada aos objetivos dessa discussão do latim conditio refere-se à maneira de ser à situação de alguém perante a vida perante a sociedade mas também se refere às circunstâncias necessárias para que se verifique essa maneira ou tal situação assim existe uma dupla dimensão presente quando falamos em condição juvenil refere-se ao modo como uma sociedade constitui e atribui significado a esse momento do ciclo da vida no contexto de uma dimensão histórico-geracional mas também à sua situação ou seja o modo como tal condição é vivida a partir dos diversos recortes referidos às diferenças sociais ­ classe género etnia etc na análise permite-se levar em conta tanto a dimensão simbólica quanto os aspectos fáticos materiais históricos e políticos nos quais a produção social da juventude se desenvolve abramo 2005 temos de levar em conta também que essa condição juvenil vem se construindo em um contexto de profundas transformações sócio-culturais ocorridas no mundo ocidental nas últimas décadas fruto da ressignificação do tempo e espaço e da reflexividade dentre outras dimensões o que vem gerando uma nova arquitetura do social giddens 1991 ao mesmo tempo é necessário situar as mutações que vêm ocorrendo no mundo do trabalho que no brasil vem alterando as formas de inserção dos jovens no mercado com uma expansão das taxas de desemprego aberto com o desassalariamento e a geração de postos de trabalho precários que atingem principalmente os jovens das camadas populares delimitando o universo de suas experiências e seu campo de possibilidades nesse contexto mais amplo a condição juvenil no brasil manifesta-se nas mais variadas dimensões na perspectiva aqui tratada vamos privilegiar algumas delas que podem clarear melhor a relação da juventude com a escola as múltiplas dimensões da condição juvenil inicialmente é importante situar o lugar social desses jovens o que vai determinar em parte os limites e as possibilidades com os quais constroem uma determinada condição juvenil podemos constatar que a vivência da juventude nas camadas populares é dura e difícil os jovens enfrentam desafios consideráveis ao lado da sua condição como jovens alia-se a da pobreza numa dupla condição que interfere 1108 educ soc campinas vol 28 n 100 especial p 1105-1128 out 2007 disponível em

[close]

p. 5

juarez dayrell diretamente na trajetória de vida e nas possibilidades e sentidos que assumem a vivência juvenil um grande desafio cotidiano é a garantia da própria sobrevivência numa tensão constante entre a busca de gratificação imediata e um possível projeto de futuro no brasil a juventude não pode ser caracterizada pela moratória em relação ao trabalho como é comum nos países europeus ao contrário para grande parcela de jovens a condição juvenil só é vivenciada porque trabalham garantindo o mínimo de recursos para o lazer o namoro ou o consumo.3 mas isso não significa necessariamente o abandono da escola apesar de influenciar no seu percurso escolar as relações entre o trabalho e o estudo são variadas e complexas e não se esgotam na oposição entre os termos para os jovens a escola e o trabalho são projetos que se superpõem ou poderão sofrer ênfases diversas de acordo com o momento do ciclo de vida e as condições sociais que lhes permitam viver a condição juvenil nesse sentido o mundo do trabalho aparece como uma mediação efetiva e simbólica na experimentação da condição juvenil podendo-se afirmar que o trabalho também faz a juventude mesmo considerando a diversidade existente de situações e posturas por parte dos jovens em relação ao trabalho sposito 2005 as culturas juvenis todavia com todos os limites dados pelo lugar social que ocupam não podemos esquecer o aparente óbvio eles são jovens amam sofrem divertem-se pensam a respeito das suas condições e de suas experiências de vida posicionam-se diante dela possuem desejos e propostas de melhorias de vida na trajetória de vida desses jovens a dimensão simbólica e expressiva tem sido cada vez mais utilizada como forma de comunicação e de um posicionamento diante de si mesmos e da sociedade a música a dança o vídeo o corpo e seu visual dentre outras formas de expressão têm sido os mediadores que articulam jovens que se agregam para trocar idéias para ouvir um som dançar dentre outras diferentes formas de lazer mas também tem se ampliado o número daqueles que se colocam como produtores culturais e não apenas fruidores agrupando-se para produzir músicas vídeos danças ou mesmo programas em rádios comunitárias 1109 educ soc campinas vol 28 n 100 especial p 1105-1128 out 2007 disponível em

[close]

p. 6

a escola faz as juventudes reflexões em torno da socialização juvenil o mundo da cultura aparece como um espaço privilegiado de práticas representações símbolos e rituais no qual os jovens buscam demarcar uma identidade juvenil longe dos olhares dos pais educadores ou patrões mas sempre tendo-os como referência os jovens constituem culturas juvenis que lhes dão uma identidade como jovens estas culturas como expressões simbólicas da sua condição manifestam-se na diversidade em que esta se constitui ganhando visibilidade por meio dos mais diferentes estilos que têm no corpo e seu visual uma das suas marcas distintivas jovens ostentam os seus corpos e neles as roupas as tatuagens os piercings os brincos dizendo da adesão a um determinado estilo demarcando identidades individuais e coletivas além de sinalizar um status social almejado ganha relevância também a ostentação dos aparelhos eletrônicos principalmente o mp3 e o celular cujo impacto no cotidiano juvenil precisa ser mais pesquisado nesse contexto ganha relevância os grupos culturais as pesquisas indicam que a adesão a um dos mais variados estilos existentes no meio popular ganha um papel significativo na vida dos jovens de forma diferenciada lhes abre a possibilidade de práticas relações e símbolos por meio dos quais criam espaços próprios com uma ampliação dos circuitos e redes de trocas o meio privilegiado pelo qual se introduzem na esfera pública para esses jovens destituídos por experiências sociais que lhes impõem uma identidade subalterna o grupo cultural é um dos poucos espaços de construção de uma auto-estima possibilitando-lhes identidades positivas dayrell gomes 2002 2003 ao mesmo tempo é preciso enfatizar que as práticas culturais juvenis não são homogêneas e se orientam conforme os objetivos que as coletividades juvenis são capazes de processar num contexto de múltiplas influências externas e interesses produzidos no interior de cada agrupamento específico em torno do mesmo estilo cultural podem ocorrer práticas de delinqüência intolerância e agressividade assim como outras orientadas para a fruição saudável do tempo livre ou ainda para a mobilização cidadã em torno da realização de ações solidárias a sociabilidade aliada às expressões culturais uma outra dimensão da condição juvenil é a sociabilidade uma série de estudos4 sinaliza a centralidade dessa dimensão que se desenvolve nos grupos de pares preferencialmente nos 1110 educ soc campinas vol 28 n 100 especial p 1105-1128 out 2007 disponível em

[close]

p. 7

juarez dayrell espaços e tempos do lazer e da diversão mas também presente nos espaços institucionais como a escola ou mesmo o trabalho a turma de amigos é uma referência na trajetória da juventude é com quem fazem os programas trocam idéias buscam formas de se afirmar diante do mundo adulto criando um eu e um nós distintivos segundo pais 1993 p 94 os amigos do grupo constituem o espelho de sua própria identidade um meio através do qual fixam similitudes e diferenças em relação aos outros a sociabilidade expressa uma dinâmica de relações com as diferentes gradações que definem aqueles que são os mais próximos os amigos do peito e aqueles mais distantes a colegagem bem como o movimento constante de aproximações e afastamentos numa mobilidade entre diferentes turmas ou galeras o movimento também está presente na própria relação com o tempo e o espaço a sociabilidade tende a ocorrer em um fluxo cotidiano seja no intervalo entre as obrigações o ir-e-vir da escola ou do trabalho seja nos tempos livres e de lazer na deambulação pelo bairro ou pela cidade mas também pode ocorrer no interior das instituições seja no trabalho ou na escola na invenção de espaços e tempos intersticiais recriando um momento próprio de expressão da condição juvenil nos determinismos estruturais enfim podemos afirmar que a sociabilidade para os jovens parece responder às suas necessidades de comunicação de solidariedade de democracia de autonomia de trocas afetivas e principalmente de identidade todavia nessa dimensão temos de considerar também as expressões de conflitos e violência existentes no universo juvenil que apesar de não serem generalizadas costumam ocorrer em torno e a partir dos grupos de amigos sobretudo masculinos as discussões brigas e até mesmo atos de vandalismo e delinqüência presentes entre os jovens não podem ser dissociados da violência mais geral e multifacetada que permeia a sociedade brasileira expressão do descontentamento dos jovens diante de uma ordem social injusta de uma descrença política e de um esgarçamento dos laços de solidariedade entre outros fatores mas há também uma representação da imagem masculina associada à virilidade e à coragem que é muito reforçada na cultura popular constituindo-se um valor que é perseguido por muitos e que aliado à competição cumpre uma função na construção da sociabilidade juvenil educ soc campinas vol 28 n 100 especial p 1105-1128 out 2007 disponível em

[close]

p. 8

a escola faz as juventudes reflexões em torno da socialização juvenil o tempo e o espaço essas diferentes dimensões da condição juvenil são influenciadas pelo espaço onde são construídas que passa a ter sentidos próprios transformando-se em lugar o espaço do fluir da vida do vivido sendo o suporte e a mediação das relações sociais investido de sentidos próprios além de ser a ancoragem da memória tanto individual quanto coletiva os jovens tendem a transformar os espaços físicos em espaços sociais pela produção de estruturas particulares de significados um exemplo claro é o sentido que os jovens atribuem ao lugar onde vivem para eles a periferia não se reduz a um espaço de carência de equipamentos públicos básicos ou mesmo da violência ambos reais muito menos aparece apenas como o espaço funcional de residência mas surge como um lugar de interações afetivas e simbólicas carregado de sentidos pode-se ver isso no sentido que atribuem à rua às praças aos bares da esquina que se tornam como vimos anteriormente o lugar privilegiado da sociabilidade ou mesmo o palco para a expressão da cultura que elaboram numa reinvenção do espaço podemos dizer que a condição juvenil além de ser socialmente construída tem também uma configuração espacial pais 1993 contudo existe também uma ampliação do domínio do espaço urbano para além do bairro principalmente para aqueles jovens integrantes de grupos culturais É comum a realização de eventos como apresentações shows festas ou até mesmo reuniões seja no centro da cidade seja em alguma região mais distante mesmo com a falta de dinheiro e a dificuldade do transporte esses momentos não deixam de significar um desafio lúdico capaz de trazer prazer e alegria podemos dizer que esses jovens produzem territorialidades transitórias afirmando por meio delas o seu lugar numa cidade que os exclui são nesses tempos e espaços que criam o seu cotidiano encontram-se dão shows divertem-se perambulam pela cidade reinventando temporariamente o sentido dos espaços urbanos herschmann 2000 aliada ao espaço a condição juvenil expressa uma forma própria de viver o tempo há predomínio do tempo presente que se torna não apenas a ocasião e o lugar quando e onde se formulam questões às quais se responde interrogando o passado e o futuro mas também a única dimensão do tempo que é vivida sem maiores incômodos e sobre a qual é possível concentrar atenção e mesmo no tempo presente é possível 1112 educ soc campinas vol 28 n 100 especial p 1105-1128 out 2007 disponível em

[close]

p. 9

juarez dayrell perceber formas diferenciadas de vivenciá-lo de acordo com o espaço nas instituições escola trabalho família que assumem uma natureza institucional marcada pelos horários e a pontualidade ou aqueles vivenciados nos espaços intersticiais de natureza sociabilística que enfatizam a aleatoriedade os sentimentos a experimentação esses espaços são vivenciados preferencialmente à noite quando experimentam uma ilusão libertadora longe do tempo rígido da escola ou do trabalho nessas diferentes expressões da condição juvenil podemos constatar a presença de uma lógica baseada na reversibilidade expressa no constante vaivém presente em todas as dimensões da vida desses jovens vão e voltam em diferentes formas de lazer com diferentes turmas de amigos o mesmo acontecendo aos estilos musicais aderem a um grupo cultural hoje e amanhã poderá ser outro sem maiores rupturas na área afetiva predomina a idéia do ficar quando tendem a não criar compromissos com as relações amorosas além de um dia ou de uma semana também no trabalho podemos observar esse movimento com uma mudança constante dos empregos o que é reforçado pela própria precarização do mercado de trabalho que pouco oferece além de bicos ou empregos temporários É a presença dessa lógica que leva pais 2003 a caracterizar esta geração como ioiô numa rica metáfora que traduz bem a idéia da vida inconstante das gerações atuais essa reversibilidade é informada por uma postura baseada na experimentação numa busca de superar a monotonia do cotidiano por meio da procura de aventuras e excitações nesse processo testam suas potencialidades improvisam se defrontam com seus próprios limites e muitas vezes se enveredam por caminhos de ruptura de desvio sendo uma forma possível de autoconhecimento para muitos desses jovens a vida constitui-se no movimento em um trânsito constante entre os espaços e tempos institucionais da obrigação da norma e da prescrição e aqueles intersticiais nos quais predominam a sociabilidade os ritos e símbolos próprios o prazer É nesse percurso marcado pela transitoriedade que vão se delineando as trajetórias para a vida adulta É nesse movimento que se fazem construindo modos próprios de ser jovem nesse contexto é cada vez mais difícil definir modelos na transição para a vida adulta as trajetórias tendem a ser individualizadas conformando os mais diferentes percursos nessa passagem podemos dizer que no brasil o princípio da incerteza domina o cotidiano dos jovens que se deparam com verdadeiras encruzilhadas de vida nas quais 1113 educ soc campinas vol 28 n 100 especial p 1105-1128 out 2007 disponível em

[close]

p. 10

a escola faz as juventudes reflexões em torno da socialização juvenil as transições tendem a ser ziguezagueantes sem rumo fixo ou predeterminado se essa é uma realidade comum à juventude no caso dos jovens pobres os desafios são ainda maiores uma vez que contam com menos recursos e margens de escolhas imersos que estão em constrangimentos estruturais para a grande maioria desses jovens a transição aparece como um labirinto obrigando-os a uma busca constante de articular os princípios de realidade que posso fazer do dever que devo fazer e do querer o que quero fazer colocando-os diante de encruzilhadas onde jogam a vida e o futuro pais 2003 a condição juvenil e as mutações nos processos de socialização a construção da condição juvenil tal como esboçamos expressa mutações mais profundas nos processos de socialização seus espaços e tempos nesse sentido a juventude pode ser vista como uma ponta de iceberg no qual os diferentes modos de ser jovem expressam mutações significativas nas formas como a sociedade produz os indivíduos tais mutações interferem diretamente nas instituições tradicionalmente responsáveis pela socialização das novas gerações como a família ou a escola apontando para a existência de novos processos podemos afirmar que na sociedade contemporânea os atores sociais não são totalmente socializados a partir das orientações das instituições nem a sua identidade é construída apenas nos marcos das categorias do sistema significa dizer que eles estão expostos a universos sociais diferenciados a laços fragmentados a espaços de socialização múltiplos heterogêneos e concorrentes sendo produtos de múltiplos processos de socialização dubet 1994 lahire 2002 2005 nesse sentido podemos constatar que a constituição da condição juvenil parece ser mais complexa com o jovem vivendo experiências variadas e às vezes contraditórias constitui-se como um ator plural produto de experiências de socialização em contextos sociais múltiplos dentre os quais ganham centralidade aqueles que ocorrem nos espaços intersticiais dominados pelas relações de sociabilidade os valores e comportamentos apreendidos no âmbito da família por exemplo são confrontados com outros valores e modos de vida percebidos no âmbito do grupo de pares da escola das mídias etc pertence assim simultaneamente no curso da sua trajetória de socialização a universos sociais variados ampliando os universos sociais de referência lahire 2002 1114 educ soc campinas vol 28 n 100 especial p 1105-1128 out 2007 disponível em

[close]

p. 11

juarez dayrell esse processo aponta para o que dubet 2006 analisa como a desinstitucionalização do social entendida como uma mutação de uma modalidade de ação institucional consagrada pela modernidade resultado de um esgotamento do seu programa institucional assim o autor considera a existência de um processo de mutação que transforma a própria natureza da ação socializadora das instituições fazendo com que parte importante do processo seja considerada tarefa ou ação do próprio sujeito sobre si mesmo no caso específico da escola esse processo de mutação não elimina mas transforma a natureza da dominação no cotidiano da instituição escolar pois obriga os indivíduos a se construírem `livremente nas categorias da experiência social que lhes são impostas a dominação se manifesta assim não cessando de afirmar que os indivíduos são livres e mestres de seus interesses a dominação impõe aos atores as categorias de suas experiências categorias que lhes interditam de se constituir como sujeitos relativamente mestres deles mesmos dubet 2006 p 403 ao comentar sobre esse mesmo processo pais 2003 p 316 afirma que assistimos à desinstitucionalização do social não porque as instituições estejam em declínio ou em vias de extinção mas pelo fato de serem vias de mudança social para ele seria mais apropriado falar em uma re-institucionalização permanente uma vez que as instituições revelam uma propensão para a crise encontrando-se em uma permanente reconstrução segundo esse autor estaríamos assistindo a uma passagem da sociedade disciplinadora para uma sociedade de controle na qual persistem as lógicas disciplinadoras mas agora dispersas por todo o campo social tal processo caracteriza-se pelo desmoronamento dos muros que garantiam uma autonomia das instituições tornando difícil distinguir o dentro e o fora com os contornos cada vez mais tênues É a mídia que penetra e interfere em todos os espaços institucionais é a família que se mostra cada vez mais permeável às influências do consumo e seus apelos ou mesmo um grupo de presidiários que organiza de dentro dos presídios uma série de atentados contra a polícia como aconteceu na cidade de são paulo o ruir dos muros da escola um breve diagnóstico do ensino médio público a escola também assiste a um ruir dos seus muros tornando-se mais permeável ao contexto social e suas influências podemos citar a educ soc campinas vol 28 n 100 especial p 1105-1128 out 2007 disponível em

[close]

p. 12

a escola faz as juventudes reflexões em torno da socialização juvenil concorrência cada vez maior da informação difundida pelos meios eletrônicos a convivência crescente com situações de violência ou mesmo a polêmica em torno da participação dos pais na avaliação dos professores e da escola contudo a evidência mais determinante foi e é o processo de massificação da escola pública que significou a superação das barreiras que antes impediam as camadas populares de frequentarem-na.5 de fato as escolas públicas de ensino médio no brasil até recentemente eram restritas a jovens das camadas altas e médias da sociedade os herdeiros segundo bourdieu com uma certa homogeneidade de habilidades conhecimentos e de projetos de futuro a partir da década de 1990 com a sua expansão passam então a receber um contingente cada vez mais heterogêneo de alunos marcados pelo contexto de uma sociedade desigual com altos índices de pobreza e violência que delimitam os horizontes possíveis de ação dos jovens na sua relação com a escola esses jovens trazem consigo para o interior da escola os conflitos e contradições de uma estrutura social excludente interferindo nas suas trajetórias escolares e colocando novos desafios à escola sposito 2005 ao mesmo tempo ocorreu uma migração significativa dos alunos das camadas altas e médias para a rede particular de ensino que experimentou uma expansão significativa na última década uma nova face da elitização que consolidou o sistema público de ensino no brasil como uma escola para pobres reduzindo e muito o seu poder de pressão e o zelo pela qualidade nesse processo o próprio sentido do ensino médio veio se transformando antes significava o caminho natural para quem pretendia continuar os estudos universitários agora principalmente com a sua incorporação à faixa de obrigatoriedade do ensino tornou-se também a última etapa da escolaridade obrigatória e para a grande maioria dos jovens o final do percurso da escolarização esse contexto vem gerando o debate entre o caráter propedêutico ou profissionalizante a ser tomado por esse nível de ensino durante esse período apesar de várias iniciativas do poder público não houve ainda uma adequação da estrutura escolar a esta nova realidade salvo algumas exceções principalmente no âmbito das redes de ensino municipais de algumas cidades brasileiras a estrutura da escola pública incluindo a própria infra-estrutura oferecida e os projetos político-pedagógicos ainda dominantes em grande parte das escolas não respondem aos desafios que estão postos para a educação dessa 1116 educ soc campinas vol 28 n 100 especial p 1105-1128 out 2007 disponível em

[close]

p. 13

juarez dayrell parcela da juventude se a escola se abriu para receber um novo público ela ainda não se redefiniu internamente não se reestruturou a ponto de criar pontos de diálogo com os sujeitos e sua realidade além do mais predomina uma representação negativa e preconceituosa em relação aos jovens reflexo das representações correntes sobre a idade e os atores juvenis na sociedade É muito comum nas escolas a visão da juventude tomada como um vir a ser projetada para o futuro ou o jovem identificado com um hedonismo individualista ou mesmo com o consumismo quando se trata de jovens pobres ainda mais se forem negros há uma vinculação à ideia do risco e da violência tornando-os uma classe perigosa diante dessas representações e estigmas o jovem tende a ser visto na perspectiva da falta da incompletude da irresponsabilidade da desconfiança o que torna ainda mais difícil para a escola perceber quem ele é de fato o que pensa e é capaz de fazer a escola tende a não reconhecer o jovem existente no aluno muito menos compreender a diversidade seja étnica de gênero ou de orientação sexual entre outras expressões com a qual a condição juvenil se apresenta por seu lado a lógica escolar parece invadir cada vez mais a sociedade atingindo principalmente as crianças e jovens reforçando ainda mais sua identidade como alunos como se essa fosse sua condição natural podemos perceber isso na proliferação de atividades extra-escolares que vão dos cursos de língua estrangeira às atividades culturais e até mesmo o esporte que seria uma atividade mais espontânea cada vez mais praticado em escolinhas as crianças e os jovens passam a ter grande parte do seu tempo cotidiano regulado e estruturado em atividades que traduzem elementos e traços da escola podemos ver aí uma tendência em transformar cada instante em instante de educação cada atividade em uma atividade educativa ou seja como uma atividade cuja finalidade é formá-los formar-lhes o corpo os conhecimentos a moral como se não existisse outra forma de estabelecer relações como se não existisse outra forma de estruturar atividades que não na forma escolar dayrell leão batista 2007 por mais paradoxal que possa parecer esse processo não tem gerado o fortalecimento da instituição escolar ao contrário apesar de ainda manter o monopólio da cultura acadêmica a escola perdeu o monopólio cultural com uma concorrência cada vez maior da cultura de massas e da circulação social de informações dubet 2006 no caso educ soc campinas vol 28 n 100 especial p 1105-1128 out 2007 disponível em

[close]

p. 14

a escola faz as juventudes reflexões em torno da socialização juvenil dos jovens por exemplo eles criam momentos próprios de socialização baseada nas relações de amizade nos espaços intersticiais fora e dentro das instituições inclusive na própria escola onde trocam informações e produzem aprendizagens ao mesmo tempo a escola por si só não consegue responder aos desafios da inserção social dos jovens tendo poder limitado na superação das desigualdades sociais e nos processos de emancipação social parece que a instituição escolar torna-se parte dos problemas que ela se propôs a resolver nesse contexto tanto professores quanto alunos vêm se perguntando pelo papel da escola pela sua função levando-nos a interrogar sobre o lugar que esta ocupa na socialização dos jovens será que a escola faz a juventude É com esse olhar que temos de analisar a relação da juventude com a escola a escola faz as juventudes na freqüência cotidiana à escola o jovem leva consigo o conjunto de experiências sociais vivenciadas nos mais diferentes tempos e espaços que como vimos constituem uma determinada condição juvenil que vai influenciar e muito a sua experiência escolar e os sentidos atribuídos à ela por outro lado a escola que ele freqüenta apresenta especificidades próprias não sendo uma realidade monolítica homogênea podemos afirmar que a unidade escolar apresenta-se como um espaço peculiar que articula diferentes dimensões institucionalmente é ordenada por um conjunto de normas e regras que buscam unificar e delimitar a ação dos seus sujeitos no cotidiano porém convive com uma complexa trama de relações sociais entre os sujeitos envolvidos ­ alunos professores funcionários pais ­ que incluem alianças e conflitos imposição de normas e estratégias individuais ou coletivas de transgressão e de acordos um processo de apropriação constante dos espaços das normas das práticas e dos saberes que dão forma à vida escolar fruto da ação recíproca entre o sujeito e a instituição esse processo como tal é heterogêneo nessa perspectiva a realidade escolar aparece mediada no cotidiano pela apropriação elaboração ou reelaboração expressas pelos sujeitos sociais fazendo da instituição educativa um processo permanente de construção social ezpeleta rockwell 1986 dayrell 1996 abrantes 2003 1118 educ soc campinas vol 28 n 100 especial p 1105-1128 out 2007 disponível em

[close]

p. 15

juarez dayrell tal processo é cada vez mais complexo na medida do desmantelamento das fronteiras da instituição escolar que tem na progressiva massificação uma das suas evidências os jovens pobres estão cada vez mais transpondo os seus muros trazendo suas experiências e novos desafios dentre eles uma questão central passa a ser as transformações que vêm ocorrendo nas formas desses jovens se constituírem como alunos pode causar estranheza tal afirmação uma vez que há uma tendência à naturalização da categoria aluno como se fosse uma realidade dada universal identificada imediatamente com uma condição de menoridade seja da criança ou do jovem marcada por uma relação assimétrica com o mundo adulto ao contrário porém o aluno é uma construção histórica construída no contexto de uma determinada forma escolar em torno da qual veio se formando toda uma ordem social na qual se desempenham determinados papéis e se conforma um modo de vida específico sacristán 2003 assim o jovem se torna aluno em um processo no qual interferem a condição juvenil as relações intergeracionais e as representações daí advindas bem como uma determinada cultura escolar acredito ser aqui na forma como os jovens vêm se constituindo como alunos que reside um dos grandes desafios na relação da juventude com a escola colocando em questão velhos modelos com novas tensões e conflitos na escola ainda domina uma determinada concepção de aluno gestada na sociedade moderna nesse momento havia uma clara separação da escola com a sociedade com a primeira sendo considerada espaço central de socialização das novas gerações responsável pela inculcação de valores universais e normas que deviam conformar o individuo e ao mesmo tempo torná-lo autônomo e livre dubet 1994 quando o jovem adentrava naquele espaço deixava sua realidade nos seus portões convertendo-se em aluno devendo interiorizar uma disciplina escolar e investir em uma aprendizagem de conhecimentos em um modelo ideal muito próximo àquele que regia o mundo do trabalho e o trabalhador esperava-se que o aluno fosse disciplinado obediente pontual e se envolvesse com os estudos com eficiência e eficácia ao mesmo tempo não se considerava os alunos na sua dimensão de jovens numa tendência em representar ambos os conceitos como se fossem de alguma forma equivalentes nessa ótica homogeneizante educ soc campinas vol 28 n 100 especial p 1105-1128 out 2007 disponível em

[close]

Comments

no comments yet