O ROUBO DO MONUMENTO ÀS BANDEIRAS tragédia rupestre - Guto-Lacaz 2016 2ª Edição

 

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O ROUBO DO MONUMENTO ÀS BANDEIRAS tragédia rupestre - Guto-Lacaz 2016 2ª Edição

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Mistério! Neste domingo, São Paulo amanheceu sem seu principal cartão-postal. O maravilhoso Monumento às Bandeiras. Ao ser retirado o tapume que o cercava para as obras de restauro, o monumento havia desaparecido! O que aconteceu? Impressionante! Como foi possível sumir algo gigantesco e pesadíssimo, na calada da noite? Logo pensaram: coisa do Louvre ou do British Museum, que possuem tradição nesse mister. Os sem-terra assumiram a autoria do roubo – o maior da história da arte, até então. Disseram que todos os integrantes da Bandeira, fora os dois a cavalo, haviam se rebelado e se unido ao movimento – do monumento para o movimento. Mais tarde voltaram atrás e desmentiram; era apenas um golpe de mídia. A polícia não sabia por onde começar, tratava-se de uma ocorrência inusitada, sem antecedentes na chefatura. Mesmo assim, o B.O. foi aberto. O maior, até então. Do lado mais obscuro surge uma luz: os espíritas

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ofereceram um caminho par as investigações. Chamado em uma mesa branca, Victor Brecheret baixou e parlou: “Calma, calma, o monumento deslocou-se por seus próprios meios e por sua própria conta”. Trata-se de um monumento com princípios ideológicos radicais e espírito de equipe. Belo, forte, impávido colosso, discutiram em assembleia e decidiram: Deitado eternamente em berço esplêndido, queriam sair dessa, conhecer o mundo, ver de perto seus pares e saber se – espelho, espelho meu: Existe alguém mais belo do que eu? Victor completou que todos se acalmassem, pois, no devido tempo, voltariam ao local de origem, sob formoso céu, risonho e límpido.av

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Sua primeira parada foi no Borba Gato. Moravam na mesma cidade e não conheciam o ilustre colega, muito de ouvir falar, gigante pela própria natureza, queriam suas good vibes. Não poderiam partir sem seu saludo. Borba Gato deu o maiorrr apoio, disse que se divertissem e que seguissem tranquilos, pois continuaria de sentinela guardando a cidade contra seus inimigos, e prometeu manter sigilo. Silêncio monumental. Disse que, se quisessem ser revestidos de pastilhas e cacos, conhecia um fornecedor ótimo. Pediu apenas uma lembrancinha, quando retornassem.

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Tempos depois, beduínos afirmam tê-lo visto petrificado de perplexidade a admirar as pirâmides do Egito. Quarenta séculos o contemplaram. Tutancâmon tremeu na tumba! Cleópatra pegou um índio para um sexo selvagem. Ramsés sentiu coceira nos pés.

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Le jour de gloire est arrivé ! Em manhã ensolarada, os franceses, eufóricos, viram-no solenemente atravessar o Arco do Triunfo. “Liberté, égalité, fraternité, brecheré”, proclamaram! Bandeirinhas e Mirages em formação davam as boas-vindas aos ilustres plebeus. “Viva o colonialismo!”, gritavam, ao admirarem o tecnocontraste: da pedra lascada ao supersônico. Magnifique!

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“Não podemos deixar de passar no Parthenon”, disse o último membro, aquele que há anos empurra sozinho a canoa, para fazer alongamento. Atenas é fundamental. Pitágoras amou, viu na composição, um grande triângulo retângulo, Tales de Mileto considerou o conjunto muito bem proporcionado, e Arquimedes, ao ver a canoa, teve um insight e exclamou: EUREKA!

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Queriam conhecer a resistência do aço à tensão e a frequência de ressonância da centenária Brooklin Bridge. Resistiu, numa boa, à vibração e ao peso pesado da turma toda que a atravessou, deslumbrada, singing New York, New York.

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Circundaram Stonehenge – os cavalos empinaram! Apreciaram deveras a misteriosa mandala megalítica Celta. Mas acharam-na meio mal-acabada e ofereceram seus serviços. Mesmo assim, aproveitaram para fazer um ritual pagão, pedindo o fim da luta de classes, a distribuição da renda e a paz mundial.

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Ao soar solene da Internacional, marcharam friamente na Praça Vermelha. Os críticos do Pravda qualificaram o complexo de realismo socialista tropikal. Os camaradas tentaram doutrinar os membros para que se filiassem ao Partido, mas foi em vão, foi-se o martelo, o muro já havia caído – não cairiam nessa –, viviam a nova era. Não queriam papo cabeça, estavam ali como turistas alienados, de passagem para uma Sputnik.

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Roma não poderia faltar no roteiro. Todos sabiam um latim básico: alea jacta est, in vino veritas, carpe diem, lorem ipsum etc. Verás que um filho teu não foge à luta. Desafia o nosso peito a própria morte! Causaram no Coliseu com seu MMA modernista. Puseram na lona os gladiadores mais montados, arrancando aplausos inflamados da plateia admiradora do exótico, que pedia sangue, suor e sertanejo! MMA MMB – monumento mandou bem.

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O Exército de Terracota veio ver a passagem do monumento pela Praça da Paz Celestial. Aprenderam, de vez, o que é ordem, disciplina e com quantos paus se faz uma canoa. Logo começaram a copiá-lo com materiais mais baratos nas impressoras 3-D, em cores e tamanhos variados. Tornou-se o suvenir da estação. Adquiriram um para o Borba Gato. Turistas compravam-no como sendo o exército do imperador Blê-Chê-Lê, o Glande!

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A notícia espalhou-se por todo o mundo rupestre. Os moais da Ilha de Páscoa também queriam ter um contato imediato de primeiro grau com os famosos viajantes no tempo. Formalizaram o convite. RSVP. Data e hora acertados pelos cerimoniais, lá chegaram pontualmente. Os moais simultaneamente giraram suas cabeças para o interior da ilha, para ver o Monumento passar. Rufaram os tambores! “UA UA, PAPUA PAPUA!”, gritaram. Coitados, arrependeram-se de convidar. Ficaram de queixo caído diante dos esbeltos biótipos em desfile histórico.

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