Caiu na rede mas não é peixe

 

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Caiu na rede mas não é peixe Vulnerabilidades Sociais e Desafios para a Integralidade

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©Marta Conte, 2015 Direção Editorial: Marta Conte (e-mail: martacte@gmail.com) Comissão Editorial: Alda Regina Soyaux Cintia Germany Elisane Coutinho da Silva Jarbas Figueira Osório Marta Conte Patricia Genro Robson Rebeca Litvin Sabrina da Cunha Godoy Sandra Luiza Mondim Simone Meyer Rosa Yara Unis Castan Equipe de Apoio: Divisão de Ensino e Pesquisa do Hospital Sanatório Partenon Capa: Alessandro Dargilan Jacques Trindade, Joaquim Marques Projeto gráfico e diagramação: Imagine Design Revisão: Renato Deitos Impressão: Gráfica e Editora Pallotti C138 “Caiu na rede, mas não é peixe”: vulnerabilidades sociais e desafios para a integralidade / Marta Conte (org.) ; Alda Regina Soyaux ... [et al.]. – Porto Alegre: Pacartes, 2015. 168 p.: il. ISBN 978-85-000000-0-0 1. Grupos sociais. 2. Vulnerabilidade social. I. Conte, Marta. II. Soyaux, Alda Regina. CDU 316.35 Cip – Catalogação na Publicação Vanessa I. de Souza CRB10/1468

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Sumário 5Agradecimentos______________________________________________________ Prefácio 7Tecer redes... _________________________________________________________ Sandra Djambolakdjian Torossian 9Apresentação_________________________________________________________ 1 Pesquisas e Intervenções Institucionais ___________ 11 Diversidade e dilemas nos caminhos da integralidade __________ 13 Rafaela de Quadros Rigoni Acompanhando epidemias e vulnerabilidades: algumas 25experiências sobre a escuta _______________________________________ Rafael Gil Medeiros “Você é de quem?” Integralidade do cuidado em saúde mental ____ 39 Pâmela de Freitas Machado, Daniela Campo Tomazini Internação para tratamento da tuberculose: elementos que contribuem para a construção social da vulnerabilidade 55________ Rosana Maffacciolli, Simone Meyer Rosa, Dora Lúcia de Oliveira Desafios na implantação do Plano Terapêutico Institucional no Hospital Sanatório Partenon: análises da pesquisa PPSUS _______ 69 Marta Conte, Elisane Coutinho da Silva, Rebeca Litvin, Franciane Moreira Moresco, Bibianna de Oliveria Pavim, Luciana Barcellos Teixeira

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Acolhendo as dificuldades de adesão dos pacientes com HIV/Aids ____ 93 Rosa Maria Bittencourt Mayer, Eleoteria Rosane dos Santos, Alane Viñas Nardi, Jaqueline Conz A experiência do Projeto Arpão: Comunicação, Participação e Prevenção entre Detentos do Presídio Central de Porto Alegre ___ 109 Liandro Lindner, Domiciano Siqueira Do cuidar ao cuidado: rastreamento do perfil epidemiológico na atenção a doenças sexualmente transmissíveis numa amostragem da população privada de liberdade ______________ 117 Sabrina Azevedo Wagner Benetti, Ana Paula Bouscheid, Daiane R. Steiernagel 1292 Clínica ampliada ______________________________________________ Entre o real e o ideal, o que é possível? Projeto Terapêutico Singular e Conceito Ampliado de Saúde ________________________ 131 Greice Niara Bizarro, Osvaldo Martins de Carvalho, Franciele da Silva Delevati, Veridiana Farias Machado, Mariana Vanuza Vieceli, Taciana Madruga Schnornberger Redução de danos como ética do cuidado ______________________ 143 Daniel Araújo dos Santos 155Em busca da adesão à vida ______________________________________ Alda Regina Soyaux, Sandra Luiza Mondin, Yara Unis Castan De tartaruga a passarinho: como acompanhar transições? ____ 161 Biana Vasconcellos Lauda

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Agradecimentos Aos autores que disponibilizaram suas experiências cotidianas para compor possibilidades de superação de obstáculos, com ética e cuidado, visando qualificar a atenção integral às populações vulneráveis. Aos gestores, profissionais, pesquisadores, colaboradores e bolsistas de iniciação científica do Hospital Sanatório Partenon (SES/RS) que colaboraram com seu trabalho, trocas, reflexões e ousadia para elaboração desta obra. A todas as pessoas, usuárias da rede pública, que ajudaram com suas trajetórias de vida e itinerários na rede a ampliar a capacidade de análise dos autores através do diálogo, do vínculo e dos afetos. À colega Sandra, coordenadora da Rede Multicêntrica (UFRGS), que não abandona o “barco” e traz histórias no Prefácio que nos acalantam e acompanham na travessia. E ao Ministério da Saúde/ Edital PPSUS n. 002/2013 e à FAPERGS pela aposta neste projeto de pesquisa.

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Prefácio  Tecer redes... Passei alguns verões numa comunidade de pescadores. Ali mergulhada, a cada vez, fui aprendendo novos códigos nos modos de viver. Acostumada com a vida na cidade, permeada por cores, cheiros e sabores de urbanidade, o tempo ali vivido, além do descanso procurado no intervalo das atividades laborais, foi sempre um tempo de contato com outras experiências de vida e outro universo de significações. Tecer redes. É essa uma imagem que ainda me habita. Mãos hábeis e envelhecidas pelo sol transformam as linhas em rede. Enganchadas em postes ou grades decorativas das moradas, vão sendo trançadas e enosadas, pacientemente. Sem o tempo da cidade, que ficou para trás. Nessa comunidade aprendi também alguns códigos da pesca. É malvisto aquele que caminha pela praia e não ajuda a retirar o barco do mar. Se for turista, é desculpado, mas qualquer grau de intimidade com a comunidade traz também a obrigação de colaborar com essa tarefa. Cada um vai ao mar com seu barco, deixa lá a rede e retorna em outro momento do dia para retirá-la. Quando sai, organiza, guarda, vende ou distribui o peixe. “Aqui ninguém passa fome”, afirmam os moradores. “Sempre há um peixe, mesmo para quem não pode comprá-lo.” Em dias de cardume, há arrastão. O melhor peixe é o do remador. Retirado esse, uma parte da pesca é do dono do barco e da rede; o restante é dividido entre todos os envolvidos e entre outros membros da comunidade. É bonito de ver. Uma prática comunitária nunca vista na cidade. Além de peixe, há histórias. Elas também compõem a rede de significados e significações dessa comunidade. Algumas são contadas ao modo “histórias de pescador”, outras, em momentos de lazer e reuniões de diversão. Histórias dos tempos antigos, histórias de amor, alegrias, tristezas e durezas da vida no mar. Histórias também se tecem no dia a dia. Do mesmo modo que a imagem das mãos tecendo rede foi, para mim, paradigmática dessa experiência, outra lembrança se fixou em minha memória. Há um menino que ronda a praia. Passa de casa em casa, de barco em barco, a cada dia. Num dia ensolarado, o menino acompanhava uma das mulheres que limpa o peixe. Curiosa, me detenho na conversa. A cada corte preciso com faca afiada, ela conta algumas histórias sobre o avô do menino. Ele tem pouca idade. Choco-me, num primeiro momento, porque as histórias são, às vezes, cruéis e acompanhadas de forte conteúdo moral. Ele as escuta atentamente e as digere com prazer. Depois de recuperada da perplexidade inicial, vou escutando e pensando na importância dessa atividade narrativa. Dos meus contatos anteriores com essa história sei que o menino é cuidado pela avó, que, já cansada da vida dura, não consegue dar conta dele, a não ser proporcionando-lhe um lugar para morar, às vezes comida e às vezes outros cuidados. É muito cuidadosa essa avó, mas, também, muito cansada. A mãe do menino mora na casa e, quando pode, é boa cuidadora. No entanto, suas atividades e seu relacionamento com algumas drogas a retiram, frequentemente, da cena. Assim, ele circula a cada dia recolhendo cuidado e histórias. Todos cuidam dele, os pescadores, as mulheres, as outras crianças. Oferecem-lhe comida, afeto, brincar. Ele andou morando “Caiu na rede, mas não é peixe” – Vulnerabilidades sociais e desafios para a integralidade 7

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“na cidade”, me contam. “Andava nas ruas, quase perdido. Ainda bem que voltou, senão seria uma criança de rua, desprotegida”, comentam. Caiu na rede, mas não é peixe. É pescado a cada dia, resgatado da solidão em que se encontra, pela vida em comunidade. É pescado para a vida. As histórias que lhe contam, da sua família e da sua comunidade, apesar de virem carregadas de importante julgamento, são a rede narrativa que lhe segura à vida. O estilo de contar e de narrar é semelhante ao utilizado para outras ocasiões. Os moradores da comunidade se cuidam uns aos outros, mas esse cuidado é também, muitas vezes, por eles relatado como invasivo. Um tênue limite. É desse limite que este livro trata. Limite entre a autonomia e a dependência, o acesso e a exclusão, a vida e a morte, entre o cuidado e a invasão, entre o que se pesca para descarte e o que se resgata para a vida. Um livro com histórias da cidade. Vulnerabilidade é o termo escolhido para fazer a costura entre uma e outra das histórias narradas. Um termo que carrega consigo todo o paradoxo que até aqui apontei é ampliado e problematizado. Vulnerabilidade que, ao ser pronunciada como rótulo ou discriminação, poderá transformar-se em processos de maior vulnerabilização, tornando-se adjetivo fixo para a população atendida. O esforço deste livro é justamente o contrário. Busca-se com as narrativas produzir rupturas nessa fixidez. A vulnerabilidade não é estática, mas um modo de reconhecimento de certas condições de vida das populações atendidas para colocá-las em movimento. No tecido desta rede de palavras sustenta-se o trabalho com a população atendida, trata-se de outro tempo em relação ao vivido, no qual é possível elaborar a experiência. Outro tempo que aposta na experiência de acolhimento, acesso, escuta e vínculo. Assim, entre uma e outra história, muitas vezes cruel e impactante, como as que o menino escutava, sustenta-se, entre os autores, uma possibilidade de continuar o trabalho. Por isso, este livro é uma intervenção no campo das vulnerabilidades. Uma intervenção de compartilhamento que produz um desvio em relação à solidão em que cada um poderia ficar no dia a dia de trabalho. E que, em rede, segura, também, as pessoas atendidas. Se nos permitirmos embarcar nesta leitura, por vezes encontraremos um mar calmo que nos permite deslizar o barco. Em alguns momentos o mar estará intranquilo, com ondas que obstaculizam nosso andar, nos inquieta, nos provoca. É ali que precisaremos de mais histórias entrelaçadas, as quais, como os nós da rede, tão habilmente trançados pelos pescadores, nos permitirão continuar nosso trajeto. Em outros momentos, ainda, precisaremos levantar os olhos, interromper a leitura, retirar o barco do mar. E, para isso, precisaremos de muitos para nos auxiliar a carregar o barco em retirada. Isso, como um gesto de intervalo, um suspiro no mergulho das vulnerabilidades que podem também nos cegar. Em outro tempo poderemos, então, voltar ao mar, voltar à pesca. Podemos circular pelos textos como turistas ou com a intimidade de quem vive realidade semelhante. Mas, de todo modo, é importante seguir tecendo redes e puxar o barco. Se vierem tempos de arrastão, os textos nos ajudam a compartilhar a colheita. Boa leitura! Sandra Djambolakdjian Torossian Porto Alegre, 8 de novembro de 2015 8 “Caiu na rede, mas não é peixe” – Vulnerabilidades sociais e desafios para a integralidade

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Apresentação “Quanto maior o obstáculo, maior a glória de vencê-lo.” (Molière) O desamparo e as diferentes vulnerabilidades colocam um desafio para as políticas públicas. Este livro, uma das produções da pesquisa financiada pelo Programa Pesquisa para o SUS: Gestão compartilhada em saúde (PPSUS), foi realizado no Hospital Sanatório Partenon/ Secretaria de Estado da Saúde do Rio Grande do Sul (SES/RS), reúne experiências significativas de atenção às pessoas em vulnerabilidade social para estabelecer intercâmbios de trabalhos desenvolvidos em diferentes contextos da rede (Consultório de Rua, CAPS, hospital, assistência social, presídio, rede intersetorial, entre outros). Com isso, pretende-se construir contornos em situações-limite e experimentar ferramentas conceituais e clínico-políticas do campo da pesquisa e do Plano Terapêutico Institucional, da clínica ampliada, da redução de danos, e da promoção, reabilitação psicossocial e seguridade social, permeadas por diretrizes éticas para um cuidado integral. Qualificar o vínculo, aumentar a adesão aos tratamentos, buscar a humanização tanto de quem atende quanto de quem é atendido e facilitar o acesso às políticas públicas por populações que se encontram no limite são alguns dos objetivos das experiências nesta obra relatadas. Os capítulos estão organizados em duas partes: “Pesquisas e Intervenções Institucionais” e “Clínica Ampliada”. Apostamos nesse entrelaçamento de conceitos e práticas que serve como bússola a orientar e operacionalizar as políticas públicas de cuidado e, também, como modo de colaborar com a integração de áreas para uma escuta sensível, com protagonismo e responsabilidades compartilhadas no campo da interdisciplinaridade, intersetorialidade e de redução de danos. Os desafios encontrados na realidade das equipes multiprofissionais em diferentes pontos da rede se reúnem aqui no esforço empreendido por todos os autores de reafirmar que a escuta na dimensão subjetiva das vulnerabilidades sociais viabiliza que estratégias de promoção, atenção e seguridade social não reproduzam processos de marginalização e de disrupturas sociais. Os organizadores. “Caiu na rede, mas não é peixe” – Vulnerabilidades sociais e desafios para a integralidade 9

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Autor, autor 1 Pesquisas e Intervenções Institucionais “Caiu na rede, mas não é peixe” – Vulnerabilidades sociais e desafios para a integralidade 11

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Diversidade e dilemas nos caminhos da integralidade Rafaela de Quadros Rigoni1 Resumo O presente capítulo discute dilemas e possibilidades na produção da atenção integral a pessoas que usam drogas. O enfoque é nas relações entre trabalhadores da saúde e assistência social e nas formas como seus diversos saberes e experiências se engendram, integram ou entram em campos de disputa. O texto se baseia nos resultados de um estudo comparativo realizado com trabalhadores das cidades de Amsterdã (Holanda) e Porto Alegre/RS (Brasil) no período de 2008 a 2015. Com base nas experiências dos trabalhadores participantes da pesquisa, três principais pontos geradores de tensões entre a diversidade de saberes no campo de atenção ao abuso de drogas sã,o debatidos. Estes dizem respeito à discussão de critérios de entrada e permanência nos serviços; escolha do(s) nível(is) de complexidade na atenção ao usuário; e as definições de papéis dos diferentes setores. A comparação entre as cidades é utilizada para repensar problemas e soluções preestabelecidas no que se refere ao uso e ao abuso de drogas, bem como divisões entre os setores que limitam em vez de contribuir para um atendimento integral. As conclusões oferecem reflexões sobre possibilidades de cuidado que valorizem a diversidade, tanto dos saberes de diferentes trabalhadores quanto de pessoas que fazem uso de drogas. Introdução A colaboração intra e intersetorial é considerada fundamental para o sucesso das políticas públicas sobre drogas. Tanto no Brasil quanto na Holanda (STADSDEEL ZUIDOOST, 2010; BRASIL, 2011; BRASIL, 2006), tais políticas referem-se a redes integradas como um objetivo fundamental a ser alcançado. Da mesma forma, estudos que debatem políticas públicas em Amsterdã e em Porto Alegre/RS (ZAMBENEDETTI, SILVA, 2008; PLOMP, HEK et al., 1996) defendem a promoção de uma abordagem integrada. Uma rede integrada de serviços é entendida como sendo mais orientada para os usuários e suas necessidades, agindo no sentido de garantir a continuidade da atenção ao longo do tempo, e de aumentar o acesso aos serviços. Além disso, o atendimento em rede é uma forma de lutar contra a fragmentação dos serviços e de produzir uma atenção mais equitativa e de baixo custo (MENDES, 2011). Na prática, no entanto, a colaboração intra e intersetorial pode ser difícil. No caso de municípios que fazem parte de países em desenvolvimento, como Porto Alegre, a falta de recursos materiais e serviços faz parte das dificuldades para a construção de redes entre os 1 Psicóloga, mestre em Psicologia Social e Institucional pela UFRGS e PhD em Estudos em Desenvolvimento pela Erasmus University of Rotterdam (EUR). Professora assistente do International Institute of Social Studies, EUR.  “Caiu na rede, mas não é peixe” – Vulnerabilidades sociais e desafios para a integralidade 13

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Diversidade e dilemas nos caminhos da integralidade setores do cuidado (RIGONI, NARDI, 2009). Porém, outros fatores além de recursos influenciam as possibilidades de um trabalho integrado. O campo das políticas sobre drogas carrega uma infinidade de abordagens possíveis. Assim, a construção de redes entre trabalhadores, geralmente, envolve a negociação de diferentes significados e objetivos. Porém, por vezes, tais negociações podem ser consideradas impossíveis de serem feitas, posto que exigiriam flexibilizar conceitos demasiadamente centrais para os profissionais. Nesses momentos, surgem tensões entre os trabalhadores e suas diversas maneiras de conceber problemas e soluções no campo da dependência química. O presente capítulo busca explorar essas tensões por meio de um estudo comparativo sobre as políticas cotidianas sobre drogas nas cidades de Amsterdã (Holanda) e Porto Alegre (Brasil). Uma das cidades, em um país desenvolvido, foi berço da abordagem de redução de danos já na década de 1970 (INCIARDI, HARRISON, 2000). A outra, em um país em desenvolvimento, conta historicamente com uma política sobre drogas rigorosa, mas passa a acolher a redução de danos em âmbito nacional desde 2003 (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2003) . Neste estudo, o foco é nas atividades cotidianas desses trabalhadores da rede pública com pessoas que usam drogas entendidas como pesadas, como o crack e/ou a heroína. A próxima seção descreve brevemente a metodologia da pesquisa. A seguir, o debate foca nos desafios criados a partir dos diferentes formatos de colaboração e integração entre os setores de saúde e assistência social nas duas cidades. O tema comum é a percepção, por parte dos trabalhadores, de relações desiguais durante a negociação de objetivos e significados na formação de redes para a atenção integral. Os desafios e as tensões, no entanto, apresentam variações entre cidades e setores. Três desafios ganham destaque especial: a discussão de critérios de entrada e permanência nos serviços em sua relação com a integralidade, o acesso e a adesão dos usuários; a escolha do(s) nível(is) de complexidade para operar o cuidado e sua relação com a centralidade do tratamento para dependência química; e a definição de papéis dos diferentes setores com foco nas visões limitadoras acerca do papel da assistência social. Metodologia Os dados analisados neste texto provêm de uma pesquisa de doutorado sobre a produção cotidiana da política sobre drogas por trabalhadores das áreas de saúde, assistência social e segurança nas cidades de Amsterdã (Holanda) e Porto Alegre/RS (Brasil) (RIGONO, 2015). A pesquisa foi realizada no período de 2008 a 2015, sendo o trabalho de campo de fevereiro a julho de 2010 em Amsterdã e de agosto de 2010 a março de 2011 em Porto Alegre. Foram realizadas cerca de 800 horas de observação participante e 80 entrevistas em profundidade com trabalhadores de 40 serviços, divididos entre os três setores e as duas cidades. A pesquisadora morou nas respectivas cidades durante esses períodos e, além disso, viveu em Porto Alegre de 1994 a 2008 e mora em Amsterdã desde 2011. A aprovação de comitês de ética foi adquirida quando necessário, e todos os participantes assinaram o termo de consentimento informado. Para compreender a produção das políticas públicas a partir de sua base, o estudo utiliza uma abordagem etnográfica guiada pelos princípios da Teoria Fundamentada (URQUHART, 14 “Caiu na rede, mas não é peixe” – Vulnerabilidades sociais e desafios para a integralidade

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