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o vendedor de sonhos augusto cury coordenação editorial pascoal soto e débora guterman preparação francisco josé m couto revisão fátima couto capa marcílio godói projeto de miolo e diagramação printmark marketing editorial dados internacionais de catalogação na publicação cipcâmara brasileira do livro sp brasil 2008 índices para catálogo 1 ficção literatura brasileira 869.93 2008 todos os direitos desta edição reservados à editora academia de inteligência ltda avenida francisco matarazzo 1500 3o andar conj 32b edifício new york 05001-100-são paulo-spwww.academiadeinteligencia.com.br www.editoraplaneta.com.brvendas@editoraplaneta.com.br sistemático dedico este romance aos queridos leitores de todos os países onde meus livros têm sido publicados em especial aos que de alguma forma vendem sonhos por meio da sua inteligência crítica sensibilidade generosidade amabilidade os vendedores de sonhos são freqüentemente estranhos no ninho social são anormais pois o normal é chafurdar na lama do individualismo do egocentrismo do personalismo o seu legado será inesquecível sumário prefácio,9 o encontro 13 a apresentação,18 o terremoto emocional 26 as perdas 31 o chamado 38 o primeiro passo 44 tirando o gesso da mente 52 chamando os complicados 59 o inusitado sonho de bartolomeu 65 minha casa é o mundo 69 um bando de malucos 76 as pequenas e bravas andorinhas 86 os espaços mais sóbrios do manicômio uma solene homenagem a um milagreiro que amava seu ego 107 um discípulo pra lá de complicado 112
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um obsessivo no ninho 120 colocando de pernas para o ar um asilo 129 o templo da informática 142 descortinando a fábrica de estresse 153 o veneno do assédio social 163 a superioridade das mulheres 174 o templo da moda um sorriso no caos 180 chamando uma modelo e uma revolucionária 189 as borboletas e o casulo 203 a jornada 210 enviando os discípulos 218 o vendedor de sonhos no templo financeiro 232 abalando alguns pilares da teoria marxista 242 a casa do terror 255 psicótico ou sábio 270 se eu pudesse retornar no tempo 285 agradecimentos e homenagens 291 prefácio este é meu quarto livro de ficção e meu vigésimo segundo livro meus romances como o futuro da humanidade e a ditadura da beleza não objetivam criar tramas que apenas entretêm divertem excitam a emoção todos eles envolvem teses psicológicas psiquiátricas sociológicas e filosóficas têm a intenção de provocar o debate viajar no mundo das idéias e ultrapassar as fronteiras do preconceito escrevo continuamente há mais de vinte e cinco anos e publico há pouco mais de oito anos tenho mais de 3 mil páginas ainda inéditas não publicadas muitos não entendem por que meus livros são tão procurados já que não tenho atração por propagandas e dentro do possível possuo uma vida social um tanto reclusa talvez seja por causa das viagens pelo território do insondável mundo da mente humana sinceramente não mereço esse sucesso não sou um autor capaz de produzir textos com agilidade sou sim um escritor determinado costumo brincar que sou um grande teimoso procuro ser um artesão das palavras escrevo e reescrevo continuamente cada parágrafo dia e noite como se fosse um escultor compulsivo você vai ver neste romance diversos pensamentos que foram esculpidos depois de terem sido reescritos forjados em minha psique dez ou vinte vezes há livros que saem do cerne do intelecto outros saem das entranhas da emoção o vendedor de sonhos saiu dos recônditos desses dois espaços há muitos anos o venho elaborando até que chegou o momento de escrevê-lo enquanto o escrevia fui bombardeado com inumeráveis questionamentos sorri muito e ao mesmo tempo repensei nossas loucuras pelo menos as minhas este romance passeia pelos vales do drama e da sátira pela tragédia dos que perderam e pela ingenuidade dos que
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fizeram da existência o picadeiro de um circo o personagem principal é dotado de uma ousadia sem precedente ele esconde muitos segredos nada ninguém consegue controlar seus gestos e palavras a não ser sua própria consciência sai bradando aos quatro ventos que as sociedades modernas se tornaram um grande manicômio global onde o normal é ser ansioso estressado e o anormal é ser saudável tranqüilo sereno ele instiga a mente de todos os que passam por ele seja nas ruas nas empresas nos shoppings nas escolas com o método socrático torpedeia as pessoas com inumeráveis perguntas sonho que este livro possa ser lido não apenas pelos adultos mas também pelos jovens pois penso que muitos deles estão se tornando servos passivos do sistema social não são arrebatados pelos sonhos e pelas aventuras tornaram-se apesar das exceções consumidores de produtos e serviços e não de idéias entretanto consciente ou inconscientemente todos querem uma vida regada a emoções borbulhantes até bebês quando se arriscam a sair do berço mas onde encontrá-las em abundância em que espaço da sociedade tais emoções se encontram alguns pagam muito dinheiro para consegui-las mas vivem angustiados outros se desesperam em busca de fama e reputação mas morrem entediados outros ainda escalam íngremes montanhas para ter algumas doses de aventura mas elas se dissipam no calor do dia seguinte na contramão da massacrante rotina social estão os personagens deste romance eles viverão altas doses de adrenalina diariamente entretanto o negócio de vender sonhos tem um alto preço por isso riscos e vendavais os acompanharão o encontro no mais inspirador dos dias sexta-feira cinco da tarde pessoas apressadas como de costume paravam e se aglomeravam num entroncamento central da grande metrópole olhavam para o alto aflitas no cruzamento da rua américa com a avenida europa o som estridente de um carro de bombeiros invadia os cérebros anunciando perigo uma ambulância procurava furar o trânsito engarrafado para se aproximar do local os bombeiros chegaram com rapidez e isolaram a área impedindo os espectadores de se aproximar do imponente edifício san pablo pertencente ao grupo alfa um dos maiores conglomerados empresariais do mundo os cidadãos se entreolhavam e os transeuntes que chegavam pouco a pouco traziam no semblante uma interrogação o que estaria acontecendo que movimento era aquele as pessoas apontavam para o alto no vigésimo andar num parapeito do belo edifício de vidro
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espelhado debruçava-se um suicida mais um ser humano queria abreviar a já brevíssima existência mais uma pessoa planejava desistir de viver era um tempo saturado de tristeza morriam mais pessoas interrompendo a própria vida do que nas guerras e nos homicídios os números deixavam atônitos os que refletiam sobre eles a experiência do prazer havia se tornado larga como um oceano mas tão rasa quanto um espelho d água muitos privilegiados financeira e intelectualmente viviam vazios entediados ilhados em seu mundo o sistema social assolava não apenas os miseráveis mas também os abastados o suicida do san pablo era um homem de quarenta anos face bem torneada sobrancelhas fortes pele de poucas rugas cabelos grisalhos semilongos e bem-tratados sua erudição esculpida por muitos anos de instrução agora se resumia a pó das cinco línguas que falava nenhuma lhe fora útil para falar consigo mesmo nenhuma lhe dera condições de compreender o idioma de seus fantasmas interiores fora asfixiado por uma crise depressiva vivia sem sentido nada o encantava naquele momento apenas o último instante parecia atraílo esse fenômeno monstruoso que costumam chamar de morte parecia tão aterrador mas era também uma solução mágica para aliviar os transtornos humanos nada parecia demover aquele homem da idéia de acabar com a própria vida ele olhou para cima como se quisesse se redimir do seu último ato olhou para baixo e deu dois passos apressados sem se importar em despencar a multidão sussurrou de pavor pensando que ele saltaria alguns observadores mordiam os dedos em grande tensão outros nem piscavam os olhos para não perder detalhes da cena o ser humano detesta a dor mas tem uma fortíssima atração por ela rejeita os acidentes as mazelas e misérias mas eles seduzem sua retina o desfecho daquele ato traria angústia e insônia aos espectadores mas eles resistiam a abandonar a cena de terror em contraste com a platéia ansiosa os motoristas parados no trânsito estavam impacientes buzinavam sem 14 parar alguns colocavam a cabeça janela afora e vociferavam pula logo e acaba com esse show os bombeiros e o chefe de polícia subiram até o topo do edifício para tentar dissuadir o suicida não tiveram êxito diante do fracasso um renomado psiquiatra foi chamado às pressas para realizar a empreitada o médico tentou conquistar a confiança do homem estimulou-o a pensar nas conseqüências daquele ato mas nada o suicida estava farto de técnicas já havia feito quatro tratamentos psiquiátricos malsucedidos aos berros ameaçava mais um passo e eu pulo tinha uma única certeza a morte o silenciaria pelo menos
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acreditava que sim sua decisão estava tomada com ou sem platéia sua mente se fixava em suas frustrações remoía suas mazelas alimentava a fervura da sua angústia enquanto se desenrolavam esses acontecimentos no alto do edifício apareceu sorrateiramente um homem no meio da multidão pedindo passagem aparentemente era mais um caminhante só que malvestido trajava uma camisa azul de mangas compridas desbotada com algumas manchas pretas e um blazer preto amassado não usava gravata a calça preta também estava amassada parecia que não via água há uma semana cabelos grisalhos ao redor da orelha um pouco compridos e despenteados barba relativamente longa sem cortar há algum tempo pele seca e com rugas sobressaltadas no contorno dos olhos e nos vincos do rosto evidenciando que às vezes dormia ao relento tinha entre trinta e quarenta anos mas aparentava mais idade não expressava ser uma autoridade política nem espiritual e muito menos intelectual sua figura estava mais próxima de um desprivilegiado social do que de um ícone do sistema sua aparência sem magnetismo contrastava com os movimentos delicados dos seus gestos tocava suavemente os ombros 15 das pessoas abria um sorriso e passava por elas as pessoas não sabiam descrever a sensação que tinham ao ser tocadas por ele mas eram estimuladas a abrir-lhe espaço o caminhante aproximou-se do cordão de isolamento dos bombeiros foi impedido de entrar mas desrespeitando o bloqueio fitou os olhos dos que o barravam e expressou categoricamente eu preciso entrar ele está me esperando os bombeiros o olharam de cima a baixo e menearam a cabeça parecia mais alguém que precisava de assistência do que uma pessoa útil numa situação tão tensa qual o seu nome indagaram sem pestanejar não importa neste momento respondeu firmemente o misterioso homem quem o chamou questionaram os bombeiros você saberá e se demorarem me interrogando terão de preparar mais um funeral disse elevando os olhos os bombeiros começaram a suar um tinha síndrome do pânico outro era insone a última frase do misterioso homem os perturbou ousadamente ele passou por eles afinal de contas pensaram talvez seja um psiquiatra excêntrico ou um parente do suicida
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chegando ao topo do edifício foi barrado novamente o chefe de polícia foi grosseiro parado aí você não devia estar aqui disse que ele deveria descer imediatamente mas o enigmático homem fitoulhe os olhos e retrucou como não posso entrar se fui chamado o chefe de polícia olhou para o psiquiatra que olhou para o chefe dos bombeiros faziam sinais um para o outro para saber quem o chamara bastaram alguns segundos de distração para 16 que o misterioso malvestido saísse da zona de segurança e se aproximasse perigosamente do homem que estava próximo de seu último fôlego quando o viram não dava mais tempo para interrompê-lo qualquer advertência que fizessem contra ele poderia desencadear o acidente levando o suicida a executar sua intenção tensos preferiram aguardar o desenrolar dos fatos o homem chegou sem pedir licença e sem se perturbar com a possibilidade de o suicida se atirar do edifício pegou-o de surpresa ficando a três metros dele ao perceber o invasor o outro gritou imediatamente vá embora senão vou me matar o forasteiro ficou indiferente a essa ameaça com a maior naturalidade do mundo sentou-se no parapeito do edifício tirou um sanduíche do bolso do paletó e começou a comê-lo prazerosamente entre uma mordida e outra assoviava uma música feliz da vida o suicida ficou abalado sentiu-se desprestigiado afrontado desrespeitado em seus sentimentos aos berros clamou pare com essa música eu vou me jogar intrépido o estranho homem reagiu você quer fazer o favor de não perturbar meu jantar disse com veemência e deu mais umas boas mordidas mexendo as pernas com prazer em seguida olhou para o suicida e fez um gesto oferecendo-lhe um pedaço.
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ao ver esse gesto o chefe de polícia tremulou os lábios o psiquiatra estatelou os olhos e o chefe dos bombeiros franziu a testa perplexo o suicida ficou sem reação pensou consigo não é possível achei alguém mais maluco do que eu 17 ver alguém comer um sanduíche com eloqüente prazer diante de quem estava para se matar era um cena surreal parecia extraída de um filme o suicida fechou parcialmente os olhos aumentou um pouco a freqüência respiratória e contraiu ainda mais os músculos da face não sabia se se atirava se gritava se bronqueava com o estranho ofegante bradou altissonante se manda eu vou me atirar e ficou a um fio de cair parecia que dessa vez ele realmente se esborracharia no chão a multidão sussurrou apavorada e o chefe de polícia colocou as mãos nos olhos para não ver a desgraça todos esperavam que para evitar o acidente o estranho homem se retirasse imediatamente de cena ele poderia dizer como fizeram o psiquiatra e o policial não faça isso eu vou embora ou dar um conselho do tipo a vida é bela você pode superar seus problemas você tem muitos anos pela frente entretanto num sobressalto colocou-se rapidamente em pé e para assombro de todos e em especial do suicida bradou um poema filosófico em voz alta declamava-o para os céus e apontava as mãos na direção daquele que queria exterminar seu fôlego de vida seja anulado no parêntese do tempo o dia em que este homem nasceu que na manhã desse dia seja dissipado o orvalho que umededa a relva que seja retida a claridade da tarde que trouxe júbilo aos caminhantes que a noite em que este homem foi concebido seja usurpada pela angústia resgate-se dessa noite o brilho das estrelas que pontilhavam o céu!
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recolham-se da sua infância seus sorrisos e seus medos anulem-se da sua meninice suas peripécias e suas aventuras risquem-se da sua maturidade seus sonhos e pesadelos sua lucidez e suas loucuras após ter recitado o poema a plenos pulmões o estranho expressou um ar de tristeza e abaixando o tom de voz disse o número um sem dar qualquer explicação da contagem a multidão atônita perguntava-se se aquilo não era uma peça de teatro a céu aberto tampouco o policial sabia como reagir seria melhor intervir ou continuar acompanhando o desenrolar dos fatos o chefe dos bombeiros olhou para o psiquiatra pedindo explicações confuso ele disse não conheço nada na literatura sobre anular a existência recolher sorrisos não entendo de poesia deve ser mais um maluco o suicida ficou pasmado quase em estado de choque as palavras do forasteiro ecoaram em sua mente sem que ele lhes desse permissão indignado reagiu com violência quem é você para querer assassinar o meu passado que direito tem de destruir minha infância que ousadia é 19 essa após agredir o invasor com essas frases caiu em si e pensou será que não sou eu o autor desse assassinato mas lutava para dissipar qualquer ponderação vendo-o circunspecto o misterioso homem teve o atrevimento de provocá-lo ainda mais cuidado pensar é perigoso principalmente para quem quer morrer se quiser se matar não pense o suicida ficou embaraçado fora fisgado pelo invasor pensou consigo esse sujeito está me encorajando a morrer ou o quê será que estou diante de um sádico será que ele quer ver sangue sacudiu a cabeça como se assim pudesse interromper seus devaneios mas os pensamentos sempre traem os desejos impulsivos percebendo a confusão mental do suicida o estranho homem falou com suavidade mas com não menos contundência não pense porque se você pensar vai perceber que quem se mata comete homicídios múltiplos mata primeiro a si e depois aos poucos os que ficam se pensar entenderá que a culpa os erros as decepções e as
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desgraças são privilégios de uma vida consciente a morte não tem esses privilégios em seguida o forasteiro saiu do estado de segurança e passou para o de angústia disse o número quatro e movimentou indignadamente a cabeça o suicida ficou paralisado queria rejeitar as idéias do forasteiro mas elas pareciam um vírus penetrando nos circuitos de sua mente que palavras eram aquelas perturbado e tentando resistir às reflexões enfrentou o forasteiro quem é você que em vez de me poupar me confronta por que não me trata como um miserável doente mental digno de pena e aumentando o tom de voz decretou cai fora sou um homem completamente acabado 20 em vez de se intimidar o estranho homem perdeu a paciência e censurou seu interlocutor perturbado quem disse que você é uma pessoa frágil ou um pobre deprimido que esgotou o prazer de viver ou um desprivilegiado um frustrado ou um moribundo que não consegue carregai o peso das suas perdas para mim você não é nada disso para mim você é apenas um homem orgulhoso preso na sua gaiola emocional alienado de misérias maiores que a sua o suicida colocou as duas mãos para trás e se afastou assustado da linha de tiro em que se encontrava com raiva e a voz já embargada indagou quem é você para me chamar de orgulhoso um prisioneiro em minha gaiola emocional quem é você para dizer que estou alienado de sofrimentos maiores que os meus ele sentia-se alvejado no peito sem ar o intruso acertara na mosca seus pensamentos penetraram como um raio nos recônditos da sua psique naquele momento o triste homem pensou no pai que lhe esmagara a infância lhe causara muita dor seu pai emocionalmente distante alienado enclausurado em si mesmo mas o suicida não tocava nesse assunto com ninguém era-lhe extremamente difícil lidar com as cicatrizes do passado atingido por essas recordações angustiantes disse em tom mais ameno com lágrimas nos olhos cale-se não fale mais nada deixe-me morrer em paz ao perceber que havia tocado numa ferida profunda o homem que o questionava diminuiu também o tom de voz eu respeito a sua dor e não posso elaborar nenhuma tese
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sobre ela sua dor é única e é a única que você consegue realmente sentir ela te pertence e a mais ninguém essas palavras iluminaram os pensamentos do homem quase em prantos ele entendeu que ninguém pode julgar a 21 dor dos outros compreendeu que a dor de seu pai era única e portanto não poderia ser sentida ou avaliada por mais ninguém a não ser por ele mesmo sempre condenara veementemente seu pai mas começou a vê-lo pela primeira vez com outros olhos nesse instante para sua surpresa o intruso lhe teceu algumas palavras que era difícil dizer se eram elogios ou críticas para mim você é também um ser humano corajoso pois tenciona esmagar seu corpo em troca de uma longa noite de sono no claustro de um túmulo É sem dúvida uma bela ilusão e interrompeu seu discurso para que o suicida se desse conta das conseqüências imprevisíveis do seu ato mais uma vez o homem deprimido interrogou-se sobre aquela estranha figura que havia surgido para atrapalhar seus planos que homem era esse que palavras uma noite de sono eterno no claustro de um túmulo essa idéia lhe causava repugnância porém insistindo em levar seu projeto adiante rebateu não vejo motivo para continuar esta merda de vida resmungou veementemente e franziu a testa atormentado pelas idéias que vinham sem pedir licença o forasteiro calibrou a potente voz e o confrontou energicamente merda de vida mas que ingratidão seu coração nesse instante deve estar querendo rasgar seu tórax e protestar com lágrimas de sangue o extermínio da vida e com rara eloqüência mudou o timbre tentando traduzir a voz do coração do suicida não não tenha compaixão de mim eu bombeei seu sangue incansavelmente milhões de vezes supri suas necessidades fui seu servo sem reclamar e agora você quer me calar sem nem me dar direito de defesa ora eu fui o mais fiel dos escravos e qual é o meu prêmio qual a minha recompensa uma morte estúpida você quer interromper minha pulsação só para estancar seu sofrimento ah mas que 22 tremendo egoísta você é quem me dera eu lhe pudesse bombear coragem enfrente a vida seu egocêntrico e instigando o suicida pediu que ele prestasse atenção no peito para perceber o desespero do seu coração o homem sentiu a camisa vibrar não notara que seu coração estava quase a explodir parecia que de fato estava gritando dentro do peito o
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suicida arrefeceu ficou impressionado com o impacto da fala daquele estranho em seus pensamentos mas quando parecia derrotado mostrou o pouco da determinação que lhe restava já me sentenciei a morte não há esperança o maltrapilho então lhe deu o golpe derradeiro você já se sentenciou você sabia que o suicídio é a condenação mais injusta porque quem se mata executa contra si mesmo uma sentença fatal sem ao menos se dar o direito de defesa por que se autocondena sem se defender por que não se dá o direito de argumentar com seus fantasmas encarar suas perdas e lutar contra suas idéias pessimistas É mais fácil dizer que não vale a pena viver você é realmente injusto consigo mesmo o estranho demonstrava saber com maestria que os que tiram a própria vida ainda que planejem sua morte não têm consciência das dimensões do fim da existência sabia que se vissem o desespero dos íntimos e as conseqüências indecifráveis do suicídio voltariam atrás e se defenderiam sabia que nenhuma carta ou bilhete poderia ser atestado de defesa o homem do topo do edifício san pablo havia deixado uma mensagem para seu único filho tentando explicar o inexplicável ele também já tinha comentado com seus psiquiatras e psicólogos sobre suas idéias de suicídio fora analisado interpretado diagnosticado e ouvira muitas teses sobre suas deficiências metabólicas cerebrais bem como fora encorajado a superar seus 23 conflitos e ver seus problemas sob diversos ângulos mas nada tocava aquele rígido intelectual nenhuma dessas intervenções ou explicações o retirou do seu atoleiro emocional o homem era inacessível mas estava pela primeira vez atordoado por aquela pessoa estranha que o interpelava no topo do edifício a julgar pelas vestes e pela aparência humilde tratavase de um miserável que pedia esmolas contudo as idéias e o discurso deixavam entrever um especialista em abalar mentes impenetráveis suas palavras geravam mais inquietação do que tranqüilidade parece que sabia que sem inquietação não há questionamento e que sem questionamento não se encontram alternativas não se abre o leque de possibilidades a ansiedade do suicida aumentou tato que ele acabou por decidir fazer ao forasteiro uma pergunta resistira muito a fazê-la pois havia presumido pelos primeiros embates que entraria num campo minado e entrou quem é você o suicida ansiava por uma resposta curta e clara mas ela não
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veio em vez disso mais uma rajada de indagações quem sou eu como você ousa perguntar quem eu sou se não sabe quem você é quem é você que procura na morte silenciar sua existência diante de uma platéia assombrada tentando desdenhar do homem que o interpelava o suicida retrucou com certo sarcasmo eu quem eu sou sou um homem que em poucos momentos deixará de existir e já não saberei quem sou e o que fui pois eu sou diferente de você porque você parou de procurar a si mesmo tornou-se um deus enquanto eu diariamente me pergunto quem sou e mostrando astúcia fez outra pergunta e quer saber qual é a resposta que encontrei 24 o suicida constrangido meneou a cabeça dizendo que sim o forasteiro prosseguiu eu lhe respondo se primeiramente me responder de que fonte filosófica religiosa ou científica você bebeu para defender a tese de que a morte é o fim da existência somos átomos vivos que se desintegram para nunca mais resgatar a sua estrutura somos apenas um cérebro organizado ou temos uma psique que coexiste com o cérebro e transcende seus limites que mortal o sabe você sabe que religioso pode defender seu pensamento se não usar o elemento da fé que neurocientista pode defender seus argumentos se não usar o fenômeno da especulação que ateu ou agnóstico pode defender suas idéias sem margem de insegurança e sem distorções o forasteiro parecia ter conhecido e ampliado o método socrático fazia intermináveis indagações o suicida ficou atordoado com essa explosão de perguntas era um ateu mas descobriu que seu ateísmo era uma fonte de especulação como muitos normais dissertava teses sobre esses fenômenos com uma segurança insustentável sem nunca debatê-las isentas de paixões e tendências o homem de roupas rotas e semblante circunspeto dirigia sua máquina de perguntar também a si mesmo e antes de receber qualquer resposta definitiva ou provisória de quem o ouvia deu um ultimato somos dois ignorantes a diferença entre nós é que eu reconheço que sou 25
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emocional enquanto grandes idéias eram debatidas no topo do edifício algumas poucas pessoas da multidão se afastavam sem saber o que estava acontecendo não suportavam esperar o desfecho final da desgraça alheia mas a maioria permanecia firme não queriam perder o desenrolar dos fatos de repente apareceu no meio do povo um homem curtido no uísque e na vodca chamado bartolomeu era mais um ser humano com cicatrizes ocultas embora fosse extremamente bem-humorado e em alguns momentos petulante cabelos pretos desgrenhados relativamente curtos que há semanas não viam pente nem provavelmente água tinha mais de trinta anos pele clara sobrancelhas exaltadas rosto um pouco inchado que escondia as cicatrizes da surrada existência trançava as pernas ao andar de tão bêbado que estava com a voz pastosa e a língua presa esbarrava em algumas pessoas e em vez de agradecer pelo apoio reclamava para uns dizia ei você me atropelou n|o vê que estou na mão esquerda para outros falava dá licença amigo que estou com pressa bartolomeu deu alguns passos a mais e tropeçou na sarjeta para não se espatifar no chão tentou se apoiar onde pôde até que encontrou uma velhinha e caiu por cima dela a coitada quase quebrou a coluna tentando se desvencilhar dele deu-lhe uma bengalada na cabeça e gritou assustada sai de cima seu tarado ele não tinha força para se deslocar vendo a velhinha gritar sem parar para não ficar em maus lençóis gritou mais alto que ela socorro gente me açode esta velhinha está me agarrando as pessoas próximas deslocaram os olhos do céu para a terra fitaram a reação do bêbado percebendo sua astúcia tiraram-no de cima da velhota deram-lhe uns empurrões e disseram sai para lá seu malandro mas ele não querendo sair por baixo falou todo atabalhoado obrigado gente por esse empu empu estava tão embriagado que ensaiou três vezes falar a palavra empurrãozinho em
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seguida tentou sacudir a poeira da calça e quase caiu de novo vocês me salvaram dessa a velhinha estava de prontidão quando ele ameaçou caluniá-la levantou sem titubear a bengala e preparou-se para desferi-la novamente em sua cabeça mas o esperto corrigiu-se a tempo dessa senhora bonitona e deixou o campo de batalha começou a andar enquanto caminhava por entre a aglomeração perguntava-se intrigado 27 por que todo mundo estava compenetrado olhando para cima achou que as pessoas estavam vendo um extraterrestre olhou para o alto do edifício com dificuldade e tumultuando mais uma vez o ambiente começou a gritar estou vendo estou vendo o e.t cuidado gente ele é amarelo e chifrudo e tem uma arma nas mãos na realidade bartolomeu estava alucinando sua mente estava tão perturbada que construía imagens irreais não era um alcoólatra comum era um amotinador além de beber tudo que estivesse à sua frente era um especialista em chamar a atenção social por isso seu apelido era boquinha de mel amava beber e amava mais ainda falar aliás os amigos mais íntimos diziam que tinha a scf a síndrome compulsiva de falar ele agarrava as pessoas próximas estimulando-as a ver o que só ele via elas tentavam se soltar das mãos dele com safanões e xingamentos o bêbedo balbuciava que povo mal-educado só porque vi primeiro o e.t eles morrem de inveja enquanto isso no topo do san pablo o homem que pensara em desistir da vida começou a pensar que na verdade precisava exterminar era seu preconceito pois estava repleto de idéias vazias e conceitos superficiais sobre a vida e a morte exaltava a própria cultura mas agora precisava exaltar a própria ignorância um comportamento improvável e até doloroso para quem sempre se julgara um brilhante intelectual dentro do mundo acadêmico ele parecia ter vastos conhecimentos que ostentava com tanto orgulho mas nunca poucos minutos haviam sido tão longos para fazê-lo enxergar a sua insensatez sentiu que estava tomando uma ducha de serenidade e essa
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ducha não parava de jorrar do homem saturado de incógnitas e 28 sem glamour social como se não bastasse o que havia argüido o forasteiro ampliou o bombardeamento fez um passeio pela história de um grande pensador por que darwin nos instantes finais de sua vida quando sofria de intoleráveis náuseas e vômitos bradava deus meu era ele um fraco ao clamar por deus diante do esgotamento de suas forças era ele um covarde por se perturbar diante da dor e ao se aproximar da morte considerá-la um fenômeno antinatural embora a sua teoria se fundamentasse em processos naturais da seleção das espécies por que ocorreu um grave conflito entre sua existência e sua teoria a morte é o fim ou o começo nela nos perdemos ou nos encontramos será que quando morremos somos regurgitados da história como atores que nunca mais contracenam o suicida reagiu com espanto engoliu saliva nunca havia pensado nessas questões jamais refletira sobre a hipótese de que de forma tão singela quanto um bebê que regurgita o leite que o amamentou ele ao querer morrer estaria regurgitando sua história da história embora fosse partidário da teoria da evolução desconhecia o homem darwin e seus conflitos mas será que darwin havia sido incoerente e frágil não não podia ser darwin não desistiu de viver ele certamente se apaixonou pela vida muito mais do que eu pensou a sensação que tinha era de que o homem das questões inumeráveis lhe tirara a roupa da soberba sem pedir permissão enquanto o coração se acalmava procurou recuperar o fôlego como se pegasse carona no ar que aspirava para percorrer áreas de sua mente jamais percorridas respondeu com franqueza não não sei jamais pensei nessas questões e o forasteiro emendou 29
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