Revista Eletrônica - TJBA em Ação - Nº.6 - Alegria em lutar!

 

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Revista Eletrônica com notícias do Tribunal de Justiça da Bahia.

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Revista Eletrônica N. 6 | OUTUBRO, 2016 Mulher, negra, órfã. Solange era para ter entregue os pontos diante das adversidades num país tão desigual. Os golpes que a vida impõs a tornaram invencível, na luta pelo sonho de um Brasil que jamais vai se render VOLUNTÁRIO Agente de proteção à criança tem 50 anos de histórias pra contar Págs 4 a 8 ADOÇÃO Pai ou mãe por amor: como acolher uma criança para filho Págs 10 a 14 TEXTO LEVE Filosofia e comunicação, uma dupla irresistível e entrosada Págs 20 e 21 ALEGRIA EM LUTAR! No mês em que se comemora o Dia do Servidor, nossa homenagem a todos os que contribuem para fazer vitorioso o amor pela Justiça Págs 26 a 37

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Se a Justiça fosse só o medo de descumpri-la e a força coercitiva para fazer valer as leis, não existiriam as virtudes. Ora, as virtudes existem Cícero, séc. I a. C.

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Sumário 4Eterna juventude .......................................... 10A dinâmica dos afetos .................................. 16Livre expressão .......................................... 20Texto leve .................................................... 22Pôster .......................................................... 24Deu zebra! ................................................. 26Trabalho duro todo dia ................................. 38Na trilha do saber ......................................... 40Justiça cult ................................................... 42Click ............................................................. 46Breves .......................................................... 48Álbum de trabalho ....................................... 52TJ Social ...................................................... Com a palavra... Este é o sexto número da nossa Revista Eletrônica TJBA EM AÇÃO. Nesta edição, como não poderia deixar de acontecer, destacamos a figura do servidor público, aquele que traz na própria designação de sua atividade a função que lhe exige aquilo que só se encontra nos vocacionados. Sem ele a cidadania quedaria esvaziada, pois é por seu intermédio que o Estado chega ao cidadão. Valorizar o servidor público nada mais é que fazer-lhe justiça e, ainda que cerceada por dificuldades inúmeras e graves, me mantenho pessoalmente empenhada na preservação e ampliação dos seus direitos. É certo que há muito o que se fazer e que o caminho por vezes é áspero, sobretudo quando nos opõe distorções sedimentadas que dificultam a justa repartição de benefícios. Todavia, apesar dos percalços e de algumas incompreensões, é fato que conseguimos estabelecer uma relação de diálogo constante, circunstância que já permitiu o resgate de várias demandas há muito tempo represadas. Além do importantíssimo foco na remuneração, temos buscado também proporcionar melhores condições de trabalho e investido em ações de capacitação, qualificação e humanização. Servidor aprimorado, satisfeito e estimulado é garantia de um serviço público efetivo, eficaz, acolhedor e de qualidade. Temos um quadro excelente e espero conseguir ir além daquilo que o cenário atual permite vislumbrar, de forma a trazer mais alguns alentos a esses verdadeiros missionários. Gostaria de destacar a Terceira Semana Literária, que realizaremos de 24 a 27 de outubro na praça de serviços. Haverá diversas atividades ocorrendo em paralelo e estão todos convidados. Venham, vejam e participem. A cada edição de nossa Revista recebemos uma maior contribuição de Magistrados e Servidores, que nos encaminham comentários, sugestões e até material para publicação. Que bom. Significa que estamos alcançando nosso objetivo. Venha também, aqui você tem vez e voz. Boa leitura. Desa. Maria do Socorro Barreto Santiago Presidente Conselho Editorial: Juíza Verônica Ramiro, Carlos Machado, Cícero Moura, Flávio Novaes, Igor Caires e Joana Pinheiro Revista Eletrônica TJBA EM AÇÃO, Nº 6, Ano 1, Outubro de 2016 Assessor de Comunicação: Flávio Novaes (DRT-1724 - Coordenação editorial) | Edição: Paulo Leandro (DRT-1214/BA) Reportagem e textos: Ari Donato (DRT-712/BA) e Danile Rebouças (DRT-2417) | Projeto Gráfico: Adriano Biset Queiroz Repórter Fotográfico: Nei Pinto | Colunista: Adriana Barreto | Estagiárias: Ana Luiza Bélico e Rayane Araújo Secretária: Surânia Franco Lima Sales | Colaboradora: Juliana Spínola (Unicorp) www.tjba.jus.br • e-mail: ascom@tjba.jus.br • Tel.: (71) 3372.5037 / 5038 / 5538 • whatsapp (71) 98118.2361

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PING ETERNA JUVENTUDE Há mais de 50 anos, Edson Rodrigues dedica-se a cuidar das crianças e adolescentes em conflito com a lei Edson Rodrigues Nascimento tem 80 anos e já viu foi coisa neste mundo. Mas, o que a memória deste senhor elegante, de voz pausada e suave, guarda com mais cores são os momentos vividos durante o trabalho de cuidar de crianças e adolescentes em conflito com a lei. Há mais de 50 anos, Edson é voluntário do Poder Judiciário: em um país flagelado pela falsa esperteza, que gera tanta concentração de renda devido à corrupção, este senhor é um exemplo de virtude. Nunca ganhou um só centavo por seu trabalho de generosidade e amor à infância e juventude. Referência entre os colegas, admirado por juízes da Velha Guarda e pela nova magistratura, Edson fez o esforço de lembrar à TJBA em Ação, breves, mas significativos flash-backs de alguns dos momentos mais preciosos, de uma vida dedicada ao serviço de proteção aos desfavorecidos, em bairros periféricos ou no centro antigo, até chegar hoje ao posto da estação rodoviária, onde dá plantão, mesmo com a idade avançada, o que implica em algumas naturais dificuldades na audição. TJBA em Ação - O senhor ainda tem alguma lembrança do dia que foi nomeado comissário de menores? Edson – Sim, a pessoa que tem 80 anos não quer dizer que tenha ficado gagá. (em tom de seriedade, meio zangado) Eu até hoje guardo uma xerox da portaria número 19/66 (veja na página 7). Foi um presen- te para mim. O reveion ficou mais animado porque minha nomeação saiu dia 30 de dezembro, um dia antes da virada do ano para 1967. TJBA em Ação – Não deve ter sido um período muito tranquilo, em razão dos efeitos da política nas mais diversas instâncias da sociedade brasileira. O senhor sentiu o reflexo da alteração da ordem democrática no exercício da função de proteger as crianças e adolescentes? Edson – Nada. Nenhuma interferência. Lembro que dava plantão na Delegacia de Jogos e Costumes e a gente trabalhava de gravata e paletó, entre 19 e 21 horas. Não tenho registro algum de qualquer mudança, assim, tão relevante. Logo, logo, percebi que era vocacionado para o serviço e fui desempenhando minha função, sem ligar para política, mesmo porque eu nunca entendi bem disso. TJBA em Ação – Tem uma história que os senhores comissários chegaram a trabalhar até no porão do Fórum Ruy Barbosa, confirma? Edson – Bem, não posso negar que às vezes tínhamos mesmo de improvisar em busca de um espaço para reunião, guardar nossas coisas, enfim, um cantinho para nós ficarmos, e este espaço, no subsolo do fórum, serviu muito pra gente, durante algum tempo... agora, você me pegou, não consigo me lembrar bem o período. A memória faz a gente esquecer mais do que lembrar (rs rs). TJBA EM AÇÃO | 4

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PING TJBA em Ação – E não teve uma melhorazinha Edson – Basta eu te dizer uma coisa: quando a gen- nesta estrutura? Como é que os senhores podiam te dava plantão na 3ª. Delegacia de Polícia, era dia cuidar da nossa infância, assim, num porão? e noite, todas as noites e todos os dias, porque tinha carência de pessoal. Depois, trabalhamos em Edson – Foi melhorando aos poucos. Tivemos um conjunto também com a 2ª. delegacia. A gente, na posto central, na rua Marujos do Brasil, ali no To- verdade, tinha apoio de todos os delegados, era roró, passamos para uma sede maior no Jardim como se fosse um time só. Baiano. Chegamos a ter mais de mil, se não me engano uns mil e 400 comissários para cuidar da TJBA em Ação – E, hoje, tem muita diferença? infância, fiscalizar buates, casas de show, todo lu- Como é o serviço do comissário, aliás, agente, gar que podia ser arriscado para a criança. E ainda agora? O nome da função ficou bem bonito! hoje é ilegal a presença de crianças e adolescentes em casas noturnas e outros estabelecimentos. Daí, Edson – Pra mim, agora, está mais tranquilo porque a gente notificava o dono do estabelecimento para eu trabalho no posto da Estação Rodoviária e aqui, ele prestar esclarecimen- é tranquilo, expedimos au- tos ao Juizado de Menores, torizações de viagem para num prazo de 10 dias. menores e fazemos rondas TJBA em Ação – E como Hoje, nas plataformas de embarque. Quando tem alguma era o relacionamento com a polícia? Porque, pelo temos que ficar ocorrência, no Carnaval, por exemplo, seguimos es- jeitão de vocês, paletó, muito atentos comgravata, ou colete de cor tritamente o que determina o Estatuto da Criança e escura, com escudão do crianças que viajamPoder Judiciário pendu- do Adolescente e fica tudo certo. Aqui, este tem sido rado, tinha muito a ver com as forças de controle e monitoramento, para inibir comportamentos... pouco recomendados, digamos... Edson – No tempo que eu comecei e até outro dia, pois a lei permite o embarque se mostrar carteira de identidade e tiver no meu primeiro plantão. Teve uma época, tempos atrás, que dava plantão na Rodoviária e na 3ª. Delegacia de Polícia. Hoje, temos que ficar muito atentos com crianças que viajam pois a lei permite o a polícia até pedia nosso apoio, mas agora é o con- mínimo 12 anos embarque se mostrar documentação comprovando trário, porque a garotada no mínimo 12 anos de ida- ficou muito esperta e cheia de. Tem ocorrido situações de direitos, o que não está de crianças chegarem de errado, mas parece haver um certo exagero hoje outras cidades sem ter a quem recorrer ou para em dia. Muito por causa do Estatuto da Criança e onde ir. Nestes casos, entramos em contato com o do Adolescente, que é importante, precisava mes- Conselho Tutelar e providenciamos o retorno a sua mo, mas na prática, há crianças e adolescentes em cidade de origem, mediante o apoio deste órgão. conflito com a lei que ficam tão espertos a ponto de citarem até artigos do estatuto para camuflar seus TJBA em Ação – E o relacionamento com os juí- mal-feitos ou tirar a gente de ‘baratino’, como eles zes e chefias do Poder Judiciário, o que o senhor dizem, no jeito deles lá, os mais espertinhos. pode lembrar? TJBA em Ação – Fale mais um pouquinho deste bom relacionamento com a polícia na tentativa de evitar o mal para as crianças. Edson – Foram tantos juízes interessados em nos apoiar que tenho receio de esquecer algum. Assim, de primeira, posso citar Agnaldo Bahia Monteiro, o 5 | tjba EM AÇÃO

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PING hoje desembargador Mário Augusto Albiani Júnior, Jafet Eustáquio, outro que hoje é desembargador, Salomão... esqueço agora o outro nome dele ... (o desembargador ao qual se refere o agente de proteção é Emílio Salomão Pinto Resedá) e hoje, somos muito gratos ao juiz da 1ª. Vara da Infância e Juventude, Walter Ribeiro da Costa Júnior, que foi quem pediu à presidente, desembargadora Maria do Socorro Barreto Santiago, para reformar nosso posto e ela prontamente atendeu. E, cá estamos nós, como há 50 anos. TJBA em Ação – O senhor sabe que o tribunal e a Corregedoria Geral da Justiça estão trabalhando para valorizar a função de agente de proteção à criança e ao adolescente, que corresponde ao antigo comissário, como eram chamados os voluntários. Como o senhor avalia esta oportunidade de melhorar a capacitação dos agentes? Edson – Que bom isso acontecer porque tava parado mesmo e a gente se sentindo cada vez menos valorizado. Antes, estes cursos aconteciam mais. Ainda hoje eu guardo meus certificados. Tenho este aqui mesmo (mostrando o documento), que foi chama- do de treinamento para comissário, realizado entre 5 e 23 de julho de 1976. Depois, tivemos este (mostra outro certificado), de 23 a 28 de julho de 1979, que teve como base o código de menores da época. Tudo foi feito visando nosso aperfeiçoamento para trabalharmos certo na fiscalização em situações de diversão pública, cinema, teatro e futebol. Nossa apresentação tinha de ser impecável, com gravata e paletó. TJBA em Ação – É, a virtude faz sentido e torna a vida mais digna e tal, mas este trabalho voluntário, sem ganhar dinheiro, não garante a sobrevivência de ninguém. Que serviço o senhor fazia para garantir sua manutenção? Edson – Fui radialista também. Numa época que a gente tinha um coronel do Exército para aprovar ou não as notícias que iam ao ar. Eu trabalhava de redator, mas nunca tive problema com censura. Talvez porque também tinha juízo de não escrever ou dizer nada que fosse de ruim ou fosse mal interpretado. Mas o que gostei mesmo de fazer, durante todo este tempo de minha vida, foi cuidar das nossas crianças e adolescentes em situação de conflito. TJBA EM AÇÃO | 6 Valorização do agente, na nova fase do tribunal, reanima Edson, um vocacionado para a função

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7 | tjba EM AÇÃO O maior tesouro de Edson é um pedaço de papel amassado, rabiscado: uma fotocópia de sua nomeação

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Posto da rodoviária: Maria Lúcia Torres de Souza, Valdinéia Santos de Jesus, Evilásio José dos Santos, Maria Antônia Pedreira de Jesus, Edson Rodrigues e José Edson, na coordenação Dia 7 de outubro, tem curso de capacitação no auditório do TJBA O Tribunal de Justiça da Bahia, junto com as corregedorias Geral da Justiça e das Comarcas do Interior e o apoio da Universidade Corporativa (Unicorp), vai promover um curso de capacitação para agentes de proteção à criança e adolescente, com coordenação científica da juíza corregedora Liz Rezende de Andrade. demais entes federados, disciplinando a sua existência e atribuições, conforme as particularidades. Exercendo suas atribuições de forma vinculada e diretamente subordinada à autoridade judiciária que o nomeia, perante a qual oficia, o agente é fundamental para a plena eficácia do sistema de garantias, idealizado pelo legislador estatutário. Com o Estatuto da Criança e do Adolescente e, mais especificamente, com a criação dos Conselhos Tutelares, passaram a surgir questionamentos acerca da necessidade da figura do ‘comissário de menores’, daí a importância da atualização dos agentes. Depois da entrada em vigência do estatuto, ficou em questão a própria legalidade da existência da figura do antigo ‘comissário de menores’, cuja atuação era disciplinada no caput do art. 7º e parágrafo único da Lei nº 6.697/79, do revogado Código de Menores. Embora não tenha sido banida pela nova legislação, por seu objetivo descentralizador, a figura do ‘agente de proteção’ passou a ser regulamentada para os É através dele que o Juízo da Infância e Juventude se faz presente de forma ampla, para impedir e/ou reprimir ameaças ou violações de direitos de crianças e adolescentes, de acordo com o contexto atual. A capacitação proposta pela Corregedoria Geral da Justiça e Corregedoria das Comarcas do Interior, em parceria com a Unicorp, integra uma estratégia institucional, que objetiva resgatar e valorizar a função do agente, no seu papel de proteção e acolhimento à criança e ao adolescente, disponibilizando conhecimentos e informações que possibilitem atualizá-los e instrumentalizá-los para cumprir com maior eficiência as suas rotinas de trabalho. Uma nova fase para o agente de proteção. TJBA EM AÇÃO | 8

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A DINÂMICA DOS AFETOS Histórias de gente que adotou ou pretende adotar uma criança para amar e cuidar Na vida que convencionamos chamar ‘real’, nem sempre a história se repete: às vezes, há uma mudança no roteiro. Foi o que aconteceu com o empresário Moyses Adriano da Silva, 43 anos. Ele optou por fugir do convencional, diante de uma sociedade patriarcal com forte influência do padrão monogâmico. E decidiu lutar por seu sonho: sua família seria composta por ele e mais duas crianças. A primeira adoção aconteceu quando Moyses se tornou sócio da Organização de Auxilio Fraterno (OAF) e conheceu Paulo, uma criança de 6 anos de idade. “Paulo era muito fechado com as outras pessoas, mas comigo sempre foi receptivo, por isso digo que foi ele quem me escolheu como pai”, conta. O desejo de adotar não se limitou a uma criança, pois dois anos depois, o empresário conheceu Lucas, de 1 e 6 meses, e encantou-se com o garotinho, que tem supostos problemas neurológicos. “Quando levei Lucas pra casa, ele não andava e nem falava, mas após três meses já faz tudo isso”, disse. Moyses minimiza os efeitos do desafio de receber os novos integrantes na família: “tive ajuda dos meus parentes e da própria escola”. Para ele, TJBA EM AÇÃO | 10

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aMOR COM VONTADE é importante que haja algum contato até firmar o relacionamento antes de levar a criança para casa. FORMAR UMA FAMÍLIA Adotar uma criança pode parecer um sonho distante, principalmente para homens e, mais ainda, se forem solteiros. Porém, isso pode mudar, ou melhor, já vem mudando. De acordo com informações do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), atualmente, dos mais de 37 mil pretendentes inscritos no Cadastro Nacional de Adoção, dirigido pela Corregedoria Nacional de Justiça, órgão do CNJ, 5.019 são pessoas solteiras. Sobre homens solteiros, os dados não são específicos, porém magistrados de varas de infância, consultados pelo CNJ, estimam que o número ainda é pequeno. “Culturalmente o homem ainda não se descobriu como capaz de formar uma família sem a necessidade de uma mulher”, afirmou o juiz Élio Braz, titular da 2ª Vara da Infância e Juventude da Comarca de Recife. “Eles tendem a achar que não ‘levam jeito’. Só que para adotar uma criança não precisa ter ‘jeito’, mas ter amor”, completou, ao falar sobre o tema ao site do CNJ. VIDA DE QUALIDADE Para o estudante de jornalismo Tiago Assunção, 24 anos, o homem solteiro enfrenta dificuldades para gerar um vínculo paternal com uma criança adotada. “A mulher é mais sentimental do que o homem, porque ela sabe que a criança poderia ter sido gerada em seu ventre. Já com o homem, não acontece isso”, opinou. Ele mantém um relacionamento homoafetivo há três anos e seis meses, e disse planejar adotar Todos têm capacidade de amar, não importa a opção sexual ou estado civil 11 | tjba EM AÇÃO

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aMOR COM VONTADE um bebê com o seu parceiro, porém isso só acontecerá, segundo ele, se não conseguir através de uma combinação com alguma mulher no sistema que ficou popularmente conhecido por ‘barriga de aluguel’, com a fertilização somente com o objetivo da procriação. Quando questionado sobre os desafios que se enfrenta ao realizar o processo de adoção, principalmente com a fase de adaptação ao novo membro da família, Tiago disse acreditar que não será algo difícil para ele. “Sempre cuidei dos meus irmãos menores, o que facilita as coisas”, frisou. Para a professora do Instituto de Psicologia da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Marilena Ristum, amor não tem receita, é independente do gênero. “Todos têm capacidade de amar, não importa a opção sexual ou estado civil”, ressaltou a psicóloga. O fato é que, mesmo diante do patriarcalismo dominante, e da súbita resistência a novas concepções de família, os indivíduos do sexo masculino que desejam inciar sua própria família sem a presença de uma genitora podem lutar para realizar este sonho. De acordo com Marilene, o adotante precisa ter o mínimo de condição de oferecer uma vida de qualidade e segurança emocional para as crianças. “Não pode ser um indivíduo cheio de conflitos e revoltas”, adverte. QUERO ADOTAR, E AGORA? Os interessados em oferecer um lar a uma criança - vale ressaltar que aqui é tanto para casais quanto homens/mulheres solteiros(as), devem se dirigir à 1º Vara da Infância e Juventude, localizada na rua Agnelo de Brito, nº72, no bairro da Federação, Silvia Brandão: passo a passo rumo a fortes emoções Salvador, uma transversal da Avenida Garibaldi. O candidato deve ser maior de 18 anos e comprovar moradia em Salvador. De acordo com informações da servidora do setor de adoção, Silvia Brandão, após o comparecimento à vara, o requerente receberá uma relação de documentos necessários para entrar na fila de espera por uma criança, além de preencher o formulário exigido. Após esses passos iniciais, acontece um curso preparatório para adoção de crianças. Todos que desejam levar uma criança ou adolescente para casa, precisam obrigatoriamente passar por essas aulas. Quanto ao tempo de espera na fila de adoção, a servidora garantiu ser relativo, “não há um tempo especifico”. O objetivo é esclarecer a parte emocional, o perfil das crianças que estão para serem adotadas e a responsabilidade desse ato TJBA EM AÇÃO | 12

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DESENHO DE UM FUTURO O curso preparatório que os candidatos, obrigatoriamente, precisam frequentar, acontece de forma descontraída, afetuosa e dinâmica. “O objetivo dessa aula é esclarecer a parte emocional, o perfil das crianças que estão para serem adotadas e a responsabilidade desse ato”, explicou a psicóloga da 1º Vara da Infância e Juventude, Maria Alice Soares. Uma das atividades que os futuros pais fazem é desenhar como eles imaginam a criança, além de contarem experiências e o motivo de terem optado pela adoção. “Quando minha filha perguntou porquê ela não nasceu da minha barriga, como seus irmãos, expliquei que ela nasceu do coração”, contou, emocionada, Adriana Siqueira sobre sua primeira experiência com uma filha adotada. Segundo a psicóloga Maria Alice, umas das dúvidas mais frequentes que os candidatos têm é sobre contar ou não ao filho sobre a adoção. “A criança tem que saber pelos pais, pela família, para criar um elo de confiança”, ressaltou. Uma das preocupações em um processo de adoção é informar-se sobre as condições emocionais da família que vai acolher, o foco não é quem pode ajudar mais a criança financeiramente, mas sim, com uma estrutura emocional de qualidade. ESPERA Apesar do tempo na fila para adotar ser relativo, existem algumas pessoas que acabam esperando mais do que outras, como é o caso do professor Roberto Gusmão, 45 anos, que acatou a ideia de seu parceiro para adotarem uma criança. “Estamos há dois anos na fila de espera. O primeiro ano foi devido a demora dos documentos de serem aprovados pelo juizado. Mas me informaram que isso foi um caso isolado, geralmente esse processo acontece bem rápido”, contou. Para ele, a maior dificuldade, ao se decidir pela adoção, é “desmistificar o pensamento de que as crianças serão como idealizamos, e do lado da justiça, o maior desafio é tirar esse pensamento das pessoas”, disse. A servidora Silvia confirmou a opinião do professor. “Quando as pessoas se habilitam para entrar na fila de espera estão esperando uma criança perfeita, inclusive chegam a imaginar que serão parecidas com elas”, ressaltou a servidora. 13 | tjba EM AÇÃO Maria Alice tempera com afetividade o que diz e faz: boa informação para candidatos a adotar

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Sempre quis ser mãe de uma garotinha de pele negra, e senti no coração que essa filha estaria aqui. Acredito que foi Deus que colocou esse propósito em mim Estilista de Santa Catarina, Lucimara Knihs tem o sorriso pleno de quem ama de verdade e sem restrição Outra dificuldade enfrentada por parte da Justiça é fazer as pessoas compreenderem que todas as etapas do processo são necessárias. “Logo na entrevista mostramos que nada é burocrático, mas sim necessário”, frisou a servidora do setor de adoção, Silvia Brandão. Seja homem, mulher, casado ou solteiro, o que vale é a intenção de manter as crianças em segurança e com oportunidade para o desenvolvimento afetivo e a educação. “É imprescindível que, quem desejar adotar, saiba lidar com questões como preconceitos e dificuldades, para que então passe segurança emocional para a criança”, alertou a psicóloga Marilena Ristum. VITÓRIA DE LUCIMARA Se pudéssemos escolher quais sonhos povoariam nossa mente, quando dormimos, escolheríamos as melhores cenas e à nossa maneira. Porém, assim como não temos o controle dos nossos sonhos noturnos, não temos também controle sobre muitos episódios na vida, e isso não significa que será uma cena ruim. Muitos candidatos chegam no curso com a imagem da criança que desejam adotar concebida. Acreditam que vão acolher um ser humano, até mesmo, com os mesmos traços genéticos que eles. “O perfil mais procurado é de 0 a 2 anos, meninas e de pele clara”, frisou a psicóloga da 1º Vara da Infância e Juventude, Maria Alice Soares. Com a estilista catarinense Lucimara Knihs, esse tabu foi quebrado. Ela deixou uma empresa, onde trabalhava há 17 anos, para vir morar na Bahia e poder realizar o sonho de ser mãe de uma menina. “Sempre quis ser mãe de uma garotinha de pele negra, e senti no coração que essa filha estaria aqui. Acredito que foi Deus que colocou esse propósito em mim”, disse a estilista. Mesmo morando em Santa Catarina, Lucimara fazia visitas frequentes à capital baiana, e nessas viagens conheceu Vitória, “a garota dos seus sonhos”. Porém, apesar de ter um vínculo com a menina, tenta não alimentar esperanças para não decepcionar-se. “Acho uma crueldade dar expectativas para a criança, mas existe uma ligação entre mim e Vitória.” Hoje, Lucimara faz trabalhos de massoterapia e está na fila para adoção, o que a fez participar do curso preparatório no mês de setembro. “Essa aula é imprescindível para nos despertar para a realidade das crianças que estão nos abrigos. Ressalta também a importância de sabermos que o biológico e o adotado são iguais no nosso coração, os rótulos sãos os homens que dão”, finalizou a estilista. TJBA EM AÇÃO | 14

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A PARTIR DE 6 DE OUTUBRO Um grandioso acervo de doutrina, legislação, jurisprudência e súmulas. + ÁGIL + INTELIGENTE + DINÂMICA O QUE CONTÉM? Mais de 1.000.000 de relacionamentos entre doutrina, legislação e jurisprudência, com várias ferramentas que facilitam o dia a dia dos estudantes e professores. DOUTRINA Mais de 30.000 textos doutrinários das principais publicações da Editora Revista dos Triunais. LEGISLAÇÃO Cerca de 50.000 documentos com atualização diária. JURISPRUDÊNCIA Padronizada com Título e Ementa elaborados por profissionais do Direito. SÚMULAS Todas as súmulas dos principais Tribunais Superiores do Brasil (STF, STJ e TST), e de agências Reguladores e Órgãos da Administração Pública. 15 | tjba EM AÇÃO

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