Há muita vida além do lixo

 

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Nova edição da Revista EasyCOOP traz uma matéria especial sobre reciclagem

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1 Ano 3 • Edição 25 • Jun-Jul.16

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Easycoop Tiragem 20.000 exemplares Índice Editorial Olá amigos, 04 Cooperativa de catadores de Mauá aponta entraves à expansão da reciclagem 07 Piauí implanta construção sustentável Mais uma edição da revista EasyCoop está nascendo. Estamos orgulhosos, pois mais uma vez podemos mostrar como o cooperativismo é importante para a vida das pessoas. Esta edição me marcou, começando pela história de luta da COOPERCATA MAUÁ, na 08 Pequenos produtores de laranja do Paraná aderem ao “fair trade” e levam suco ao mercado europeu qual os cooperados lutam com afinco amor e carinho para levar sustento a seus familiares. Ver a luta desses trabalhadores para manter o empreendimento funcionando diante de tantas dificuldades, e com coragem para recomeçar depois de vários assal- 10 “Nem todos se movem pela ganância” tos, é algo que não pode ser descrito em palavras. Somente quem os visita e sente o forno que é a cooperativa pode entender a determinação dessas pessoas. Desde que conheci o Armando, da Coopercata, me afeiçoei por ele, por sua inteligência, politização, liderança e humanismo, entre outras qualidades. Ao ler a reportagem da Coopercata descobri que ele é ex- morador de rua e pude ter ainda mais certeza do poder de trans- formação que o cooperativismo tem na vida das pessoas, como ferramenta poderosa de inserção social. É lamentável que o poder público feche os olhos para quem luta para sobreviver daquilo que a sociedade descarta e não lhe dê o devido valor. Quando converso com um parlamentar, digo sempre que esses “heróis do meio am- biente” deveriam ganhar bem pelo trabalho que executam, pois dão um novo destino Deputado português Paulino Ascenção 11 Governo do Acre aposta em cooperatias ao que está acabando com o nosso planeta. Infelizmente, o poder público, além de não ajudar de verdade, ainda burocratiza seu trabalho. Eles pagam tributos como se fossem uma grande empresa com fins lucrativos, tais como ISS, PIS, Cofins, IRRF e INSS. Nessa edição ainda temos o Piauí, que instituiu a Política de Reciclagem de Entulhos 12 Cooperativa inédita lida com a morte da Construção Civil e Demolição no Estado e criou estímulos para cooperativas de reciclagem, o que é muito importante para melhorar o nosso planeta. Ainda temos o 13 “Mulher é capaz de conquistar seu espaço” exemplo da Coacipar, cooperativa que chegou lá e hoje serve de inspiração para quem sonha em crescer. 14 As vantagens do crédito cooperativo em momento de incerteza econômica Aproveitamos também para trazer um pouquinho do exemplo do cooperativismo português, pois é muito bom saber o que acontece em nosso setor mundo afora. Ainda tem a Coopermóveis, no Acre, um modelo a ser copiado, que beneficia 35 famílias 15 Envelhecimento saudável é preocupação de cooperados indiretamente e gera 22 empregos diretos. Normalmente gosto de participar, consumir ou utilizar um pouquinho de cada coope- 16 Pronacoop Social busca inserção e acesso ao crédito para os pequenos 17 Galeria de Fotos rativa que conheço, mas esse com certeza não é o caso. Em evento com o deputado estadual Campos Machado, que é um grande líder e vive preocupado com os menos favorecidos, tive o prazer de conhecer a Cooperativa de Trabalho dos Agentes Funerários de São Paulo, criada há dois anos. Reúne 33 profissionais e tem um trabalho diferenciado para uma hora tão difícil das famílias. É o que encanta no cooperativismo 18 Coopernotas - encontrar cooperativa nos locais em que menos esperamos. Nossa revista está cada vez mais internacional. Ainda temos uma linda matéria de Cabo Verde, mostrando a luta e determinação pela inserção de pessoas desempregadas, com Expediente passagem pela polícia ou estar em situação de risco, mães solteiras, especialmente as vítimas de violência de gênero. É um projeto lindo. Também mostramos nesta edição as vantagens do crédito cooperativo em momento A Revista EASYCOOP é uma publicação do Instituto Nacional de Desenvolvimento e Valorização do Ser Humano de incerteza econômica. E ainda temos um bate-papo com o deputado federal Roberto de Lucena (PV-SP), pessoa com sensibilidade maravilhosa e visão futurista Os exemplares são distribuídos gratuitamente, não podendo ser vendidos sob nenhuma hipótese. As reportagens e artigos não podem ser reproduzidos para nenhum fim sem a autorização prévia dos seus autores. extraordinária. Bom, tenho tanto para falar e tanto para fazer que as vezes penso que nesta vida não darei conta de promover as boas ações e clamar todos os dias a Deus que dê um novo rumo para o nosso mundo, a cada dia mais carente de amor ao Editora Chefe - Sandra Campos Redator Chefe - Daniel Wendell próximo e boas ações. Mas vamos em frente, com a certeza de que vamos mudando um pouquinho de cada vez. Jornalista Responsável - Manoel Paulo - MTB 48.639-SP Redação - Manoel Paulo e Carlos Dias Beijos e até a próxima edição! Fotos - Manoel Paulo Editoração, Projeto Gráfico e Finalização - Carlos André Silva Sandra Campos Editora-chefe Instituto Nacional de Desenvolvimento e Valorização do Ser Humano Alameda dos Jurupis, 1005 - Moema - São Paulo - CEP 04088-033 - Telefone: +55 11 5533-2001 Ano 3 • Edição 25 • Jun-Jul.16 3

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4 Cooperativa de catadores de Mauá aponta entraves à expansão da reciclagem Um bebê nascido nos Estados Uni- ria lendo esta reportagem porque já dos destrói, antes de chegar aos teria passado por uma morte lenta 3 anos de idade, mais recursos da e sofrida. Os recursos naturais já natureza que um moçambicano ou teriam se esgotado faz tempo, o ser angolano vai consumir até o fim de humano teria entrado em extinção seus dias. Se os 7,5 bilhões de pes- e só então a Terra começaria sua soas que se espalham pelos cinco lenta e paciente recuperação sem continentes tivessem o mesmo alto a gente para atrapalhar. O planeta padrão de vida e de consumo dos está sendo depredado pelos seus pouco mais de 1 bilhão de europeus próprios moradores, mas, quem die norte-americanos, você não esta- ria, o lixo pode ser a sua salvação. Coopercata tem 38 cooperados, 25 deles mulheres, e processa cerca de 25 toneladas de resíduos por mês no Município de Mauá A conta é fácil de fazer. Cada garrafa plástica que é reciclada, por exemplo, “ Um dos nossos grandesnão só evita a produção de uma nova ser obrigatória, e não mais uma opção. Mas isso talvez só vá acontecer quando já for tarde, ou quase tarde, demais. – com a destruição irreparável de mais O que falta para que as pessoas se objetivos na Coopercataum pouco do meio ambiente – como conscientizem de que é preciso reci- também evita que ela fique enterrada até que centenas de anos a dissolvam. Vista frequentemente com certo desdém, a reciclagem cedo ou tarde terá de é a educação ambiental ” clar tudo imediatamente? “Educação ambiental”, responde Armando Octaviano Júnior, até 2008 um morador de rua e que hoje preside a Cooperca- REVISTA EASYCOOP

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Tratamento legal dado a cooperativas torna seus custos elevados demais ta (Cooperativa dos Catadores e Catadoras do Município de Mauá), em Mauá, município na região metropolitana de São Paulo. “Um dos dois nossos grandes objetivos na cooperativa é a educação ambiental”, acrescenta Armando, que vê na falta de conscientização tanto da sociedade civil quanto da classe política o primeiro entrave a qualquer iniciativa de tratar o lixo como um problema do planeta Terra. “O outro objetivo é a contratação da coleta seletiva”, diz Armando, referindo-se a, de fato, uma questão crucial da reciclagem no Brasil. De um lado, está o governo - as prefeituras são responsáveis pela coleta de lixo. De outro, estão as cooperativas de catadores, que fazem o seu trabalho de separar o que pode ser reaproveitado e vendem o material para indústrias de reciclagem. A lógica mais simples diz que as cooperativas deveriam trabalhar junto com as prefeituras. Mas não é o que acontece. A legislação impõe vários entraves, e as cooperativas são tratadas como uma empresa qualquer nos deveres, mas são prejudicadas nos direitos, pois não conseguem participar de licitações como as empresas tradicionais de coleta de resíduos. “A limpeza pública é concessão do município e tem que ser remunerada da mesma forma que se remunera o setor privado tradicional”, protesta Armando. Ele diz que o tratamento legal dado às cooperativas torna seus custos elevados demais, o que implica na dificuldade de elevar a renda dos cooperados, que geralmente não passa de um salário mínimo. “A Coopercata paga os mesmos impostos, proporcionalmente, que a Volkswagen do Brasil”, reclama Armando, ressaltando que isso impacta na renda e no próprio crescimento da cooperativa. Apesar disso, a Coopercata é um modelo do que deveria ser regra e é só exceção. Com apenas 38 cooperados – 25 deles mulheres –, ela processa cerca de 25 toneladas de resíduos por mês. Isso é possível porque outros atores do cenário ambiental resolveram fazer a sua parte. Para começar, há a administração municipal de Mauá, que firmou con- Armando Octaviano Júnior, presidente da Coopercata “O movimento cooperativista só vai ser forte no dia que a gente começar a se pautar pelo que nos une, não pelo que nos diverge”. É importante que o setor “privado comece a olhar a ”cooperativa como parceira empresa potencializou a capacidade da cooperativa ao conseguir equipá -la com esteira de separação, prensa hidráulica, balanças, empilhadeiras e outros equipamentos, todos instalados num galpão de 900 metros quadrados, cedido pela prefeitura. vênio com a Coopercata, que se tor- Com a combinação desses dois nou o primeiro grupo de catadores apoios, a cooperativa multiplicou sua em convênio com o serviço público. capacidade de produção, mas isso Em vez de sair à procura de lixo reci- ainda é muito pouco para Armando, clável, os catadores se dirigem a co- que vê uma “dívida histórica” da so- merciantes cadastrados na prefeitura ciedade e do poder público a ser res- da cidade, separando e entregando o gatada. Ele faz questão de frisar que lixo para Coopercata. não é contra a iniciativa privada, mas Outro ator importante nesse caso foi adverte. “É importante que o setor a Braskem, a maior petroquímica da privado comece a olhar as cooperati- América Latina. A empresa detém vas não como coitadinhas, mas como os três maiores complexos do setor parceiras”, adverte. “Isso também é no país, em Camaçari, na Bahia, em educação ambiental.” Triunfo, no Rio Grande do Sul, e em De fato, não há como negar que os Mauá – onde fica a Coopercata. A catadores são pessoas que só se aven- Ano 3 • Edição 25 • Jun-Jul.16 5

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6 MNCR leva propostas a prefeitos O Movimento Nacional dos Catadores(as) de Materiais Recicláveis (MNCR) nasceu em meados de 1999 com o 1º Encontro Nacional de Catadores de Papel. Foi oficialmente fundado em junho de 2001 no 1º Congresso Nacional dos Catadores(as) de Materiais Recicláveis, no qual foi lançada a Carta de Brasília (http://www.mncr. org.br/sobre-o-mncr/principios-e-objetivos/carta-de-brasilia), documento que expressa as necessidades de quem sobrevive da coleta de materiais recicláveis. Ao completar 15 anos, o MNCR comemora avanços, mas com a consciência de que ainda há muita coi- sa por fazer até que o trabalho de coleta e processamento de materiais recicláveis signifique realmente garantir alimentação, moradia e condições mínimas de sobrevivência para uma parcela significativa da população. A categoria é historicamente excluída da sociedade e muitos catadores(as) ainda sobrevivem de forma precária em lixões e nas ruas. Neste ano, aproveitando as eleições municipais, o MNCR encaminhou aos candidatos a prefeito de todo o país uma Plataforma de compromisso (http://www. mncr.org.br/noticias/noticias-regionais/ mncr-lanca-plataforma-de-propostas -para-candidatos-as-ao-pleito-de-2016) com as pautas da categoria. A Plataforma serve de modelo para as cooperativas, associações e grupos associados ao MNCR usarem e adaptarem as reivindicações à situação política local, incluindo ou suprimindo propostas após acordos coletivos. O documento remete à Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei Federal 12.305), aprovada, sancionada e regulamentada em 2010. Esta lei determina a reorganização dos sistemas de gestão e manejo de resíduos nos municípios, tendo como base o reconhecimento do valor econômico e social dos resíduos. Para mais informações, consulte o site http://www.mncr.org.br/ turam em revirar o lixo à procura de se é um trabalho feito por pessoas produtos que possam ser revendidos sem qualificação profissional deve para reciclagem por falta de alterna- ter pouca importância mesmo, pois tiva mais digna. Fariam outra coisa eles não seriam capazes sequer de sa- se tivessem a oportunidade. Afinal, ber o que estão fazendo. são pessoas excluídas da sociedade, o Nada mais longe da verdade. “Existe que faz com que a atividade seja vis- um grande preconceito, uma descon- ta com frequência como quase uma fiança de que os catadores não têm caridade, uma esmola da sociedade capacidade de gestão ambiental”, para quem exerce a décima-quinta lamenta Armando, que não culpa so- atividade mais perigosa do mundo, mente a sociedade em geral pela ig- “aPovrsaenccçaootcaoddnaocrreeeistcoitcrclaoavngateroma ”conforme po ntua Armando. norância sobre a importância da coleta seletiva e reciclagem, mas também os próprios catadores. “O movimento cooperativista só vai ser forte no dia que a gente começar a se pautar pelo que nos une, não pelo que nos diverge”. Salvar o planeta de nós mesmos também depende da política, mas Armando também ressalva: “Não adianta trocar os políticos A questão é que são eles que estão se não mudarmos também as práti- ajudando a salvar o planeta. O pre- cas.” E isso também significa fazer sidente da Coopercata destaca que o as pessoas enxergarem que atrás das preconceito contra os catadores está montanhas de lixo está a vida. A Ter- entre os principais obstáculos ao ra não precisa de nós, mas nós preci- crescimento da reciclagem. Afinal, samos dela. REVISTA EASYCOOP Um exemplo de honestidade Um catador de lixo ganhou novo emprego e recompensa de R$ 10 mil após devolver ao seu dono US$ 1,4 mil encontrados em um lixão no Distrito Federal. O fato foi alvo de reportagem da TV Globo, do Portal G1, do UOL e jornais. João Rodrigues Cerqueira, de 20 anos, que ganhava R$ 600 por mês, soube que o fonoaudiólogo Bruno Temístocles procurava dólares adquiridos em 16 de setembro para uma viagem à Europa e descartados inadvertidamente por uma criança. Ficou muito atento no seu trabalho, encontrou os dólares no dia 20/9 e os devolveu. O gesto sensibilizou o músico Gabriel, o Pensador, que fez uma vaquinha com amigos. Os R$ 10 mil reunidos (o dobro do que valiam os dólares) foram entregues pessoalmente pelo artista. O emprego novo coroou o gesto de honestidade, virtude herdada da mãe.

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Piauí implanta construção sustentável 7 Lei sancionada em 11 de julho passado pelo governador Wellington Dias (PT) institui a Política de Reciclagem de Entulhos da Construção Civil e Demolição no Estado e cria estímulos para cooperativas de reciclagem O Piauí acaba de dar um passo muito importante para evitar que montanhas de entulhos oriundos de demolições se acumulem em lixões em torno das cidades do Estado. Ao mesmo tempo está oferecendo mais emprego e renda para cooperativas de reciclagem. É um bom exemplo a ser imitado. A Lei 6.849 já está em vigor. Foi sancionada em 11 de julho passado pelo governador Wellington Dias. Tem como objetivo maior estimular a utilização de materiais reciclados oriundos da construção civil e de demolições, dando sustentabilidade à construção civil no Estado. De acordo com o GP1, portal de notícias do Piauí, o governo estadual fica responsável por oferecer incentivos para a implantação de centros de armazenagem e de distribuição de materiais recicláveis em todo o Estado, por estimular a criação de cooperativas populares e indústrias de reciclagem e por fomentar o desenvolvimento de projetos de reutilização de produtos. Também caberá ao governo conceder isenção de tributos, a título de incentivo fiscal, ceder áreas públicas para instalação de cooperativas populares, promover um sistema de coleta eficiente, evitando o despejo de resíduos em locais clandestinos, além de celebrar convênios de colaboração com órgãos ou entidades federais, estaduais e municipais que já estejam desenvolvendo ou implementando programas na área ambiental e de reciclagem, buscando a construção sustentável. Essas entidades poderão, inclusive, contribuir com seu conhecimento do setor, ajudando na implantação da nova lei. O projeto que deu origem à Lei 6.849, aprovada na Assembléia Legislativa no final de maio, foi apresentado em 24 de setembro de 2015 pelo deputado Rubem Nunes Martins (PSB). Em sua justificativa, o parlamentar lembra que a Constituição Federal de 1988, por meio do artigo 225, impõe ao Poder Público e à coletividade o dever de defender e preservar o meio ambiente. Para Nunes Martins, a quantidade de entulho gerado nas construções que são realizadas nas cidades brasileiras demonstra um desperdício irracional de material, envolvendo má gestão e planejamento dos custos financeiros, que também se tornam (custos) ambientais e sociais. “Teresina (a capital do Piauí) não foge de tal situação”. Os entulhos não reaproveitados acabam depositados clandestinamente em terrenos baldios, em margens de rios e em ruas das periferias. Sua remoção acaba demandando recursos públicos que poderiam ir para áreas prioritárias. Aos detritos oriundos da construção civil, diz o deputado, somam-se aqueles das demolições. São materiais diversos, como concreto, telhas, metais, madeiras, gesso, aglomerados, pedras e carpetes, entre outros – e muitos deles podem ser reciclados. A nova lei deverá trazer enormes benefícios para Teresina, unindo Poder Público, empresas de construção civil e a própria população. A coleta do entulho e sua destinação ambientalmente adequada resultarão em ganhos financeiros e sociais, gerando emprego e renda para as cooperativas de reciclagem, entre outros setores dessa cadeia, e melhoria da qualidade de vida das pessoas. Londrina, exemplo inspirador Para apresentar seu projeto de lei no Piauí, o deputado Rubem Nunes Martins não se inspirou apenas em exemplos de cidades dos Estados Unidos, Japão, França, Itália, Reino Unido, Alemanha e outros países, onde a reciclagem do entulho da construção é reflexo de uma política de sustentabilidade e responsabilidade ambiental. Ele foi se inspirar em uma experiência genuinamente brasileira executada em Londrina, cidade de 500 mil habitantes, norte do Paraná. Lá foi inaugurada, em 1994, uma Central de Moagem de Entulhos, que iniciou sua produção com mais de 1.000 tijolos/ dia, destinados à produção de casas populares. Além do reaproveitamento, os quase 4 mil pontos de despejo de entulho mapeados no município foram praticamente extintos. Hoje, chegam à Central cerca de 100 caminhões de entulho por dia – 300 toneladas em média (ou 75% das cerca de 400 toneladas produzidas Deputado Rubem Nunes Martins diariamente na cidade). Das 300 toneladas, entre 10% e 15% são processadas e viram brita; o restante é reaproveitado em pavimentações diversas, como praças e logradouros públicos. Aqui em São Paulo, também há bons exemplos de reciclagem de entulhos em Sorocaba, Guarulhos, Limeira, Araras etc. Outras iniciativas podem ser encontradas no site oficial da Associação Brasileira para Reciclagem de Resíduos da Construção Civil e Demolição (Abrecon) - http://www. abrecon.org.br/ Ano 3 • Edição 25 • Jun-Jul.16

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8 Produtores de laranja do Paraná aderem ao ‘fair trade’ e ganham mercado europeu Coacipar exporta 100% de sua produção – 2.400 toneladas por ano – para Holanda, Itália, Suíça, Alemanha, Inglaterra, Áustria e Finlândia O comércio justo, ou fair trade, modalidade de negócios muito apreciada e incentivada na Europa, carrega conceitos inovadores, como valorização da agricultura familiar, transparência no processo de produção e aproximação entre produtor e consumidor. Pois foi a adesão ao fair trade que permitiu a uma pequena cooperativa de citricultores de Paranavaí, na região noroeste do Paraná, conquistar o mercado europeu. O que aconteceu com a Coacipar (Cooperativa de Agricultura Familiar e Solidária do Paraná) é um exemplo de muita luta, superação e um pouco de sorte – uma vitrine para ser admirada e imitada por outras tantas pequenas cooperativas ligadas à agricultura familiar espalhadas pelo país. A diretora Vanusa Toledo, em entrevista exclusiva à EasyCoop, se emociona ao lembrar o início de tudo, em 1995, quando um grupo de produtores de laranja decidiu criar a Associação dos Citricultores do Paraná (Acipar), como forma de unir forças para impulsionar seu negócio. A união levou à primeira conquista quatro anos depois, em 1999, quando a Acipar obteve da Fairtrade Labelling Organizations International (FLO), uma certificadora internacional, o selo de comércio justo (para mais conhecimento sobre fair trade e sobre a FLO, consultar orientação do Sebrae (http://www. sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/ artigos/o-que-e-fair-trade-comerciojusto,82d8d1eb00ad2410VgnVCM100000b272010aRCRD). O selo fair trade abriu as portas do mercado internacional para o suco de laranja concentrado congelado, conhecido pela sigla em inglês FCOJ, 100% natural e produzido com as laranjas selecionadas colhidas pelos produtores membros da associação. O FCOJ é consumido como suco reconstituído e utilizado na composição de néctares e outras bebidas. É um produto concentrado, não fermentado e sem adição de conservantes. Obviamente, seu preço está acima do suco convencional. A conquista trouxe mais renda para os citricultores, mas eles buscaram outras REVISTA EASYCOOP Cooperado Jose Mataruco, exemplo de diálogo da Coacipar com o pequeno produtor formas de expansão. E este é o grande exemplo que deixam para o país. Mesmo satisfeitos com a indústria que processava suas laranjas e comercializava seu suco, eles decidiram, em 2011, criar a Coacipar (oficialmente estabelecida em 23 de fevereiro de 2012) e, por meio da cooperativa, assumir a responsabilidade por todo o processo de esmagamento e comercialização. O empurrão decisivo veio de um trader europeu, que já conhecia a qualidade das frutas e do suco produzido em Paranavaí. No processo de aproximação com o varejo europeu foi importante o Um conselho Vanusa Toledo, diretora da Coacipar, deixa um conselho a cooperativas que pretendem conquistar o mercado externo: “Organizem-se e, principalmente, envolvam seus associados em todas as ações; sejam sempre transparentes com seus associados, clientes e com a comunidade, pois quem trabalha desta forma só tende a ser assertivo; existe mercado para todos; a luta é constante, mas com bom planejamento todos alcançam seus objetivos; é só acreditar e trabalhar”. apoio recebido da Universidade Saint Gallen (veja texto na pág. 9). A Coacipar fechou parceria com a Citri Agroindustrial, empresa lá mesmo de Paranavaí, que passou a receber as frutas da cooperativa, processá-las e levar o suco até o porto de Paranaguá/PR. Daí em diante, a comercialização fica por conta do trader internacional. A cooperativa paga US$ 713 por tonelada processada e vende essa mesma tonelada por US$ 2.300. Além disso, o selo fair trade, auditado e renovado anualmente pela certificadora, garante aos produtores, como prêmio, US$ 200 adicionais por tonelada. Um passo importante nessa caminhada foi o acordo negociado ainda em 2011 com o grupo suíço Migros, dono de uma grande rede varejista, que passou a colocar o suco da Coacipar na prateleira de seus supermercados. Com isso, cresceu a visibilidade da Coacipar e mais produtores pediram para se associar à cooperativa, que apenas exige do novo cooperado que seja um pequeno produtor, mantendo assim a característica da associação fundada em 1995. Para esses pequenos, a cultura da laranja gera praticamente 80% de sua renda.

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Universidade St. Gallen apoia boas iniciativas A aproximação entre a Coacipar e o varejo europeu, que abriu as portas do mercado suíço e de outros países para o suco de Paranavaí, teve o apoio da Universidade Saint Gallen, por meio da então estudante Angélica Rotondaro. Na época, ela estava fazendo sua tese de doutorado. Hoje é diretora executiva do escritório da universidade para a América Latina, com sede em São Paulo, onde opera o Cooperative-Lab. Foi durante a construção de sua tese sobre o comércio justo na cadeia do suco de laranja que Angélica teve contato com a Coacipar. Confira a entrevista concedida à EasyCoop por Angelica Rotondaro e por Luc Wüst, hoje doutorando e coordenador de Pesquisa do escritório da St. Gallen em São Paulo: fluencia na gestão do negócio, e garantia da continuidade da agricultura familiar. Outro tema é a integração de cooperativas, desde uma perspectiva de pequena e média empresa, em cadeias de distribuição para mercados nos centros urbanos. Estamos especialmente interessados no tema de cadeias de distribuição de produtos orgânicos e processos de certificação participativa. No Cooperative-Lab, as empresas devem nos contatar e avaliamos os projetos e alinhamento às nossas áreas de pesquisa. É importante ressaltar que, nos projetos junto com os alunos, a Universidade pede que a organização apoiada contribua com o custo do aluno enquanto esteja no projeto. EasyCoop - Como é o processo de se- EasyCoop - Uma cooperativa com uma boa ideia ou plano de ação pode encaminhar um pedido de apoio ao Cooperative- Lab? Como pode ser feita essa aproximação? Luc Wüst: Os projetos devem estar alinhados com nossos temas de pesquisa que mencionei anteriormente e se requer que a cooperativa apoie com a ajuda de custo do aluno durante o tempo que estiver no projeto. Os interessados devem enviar um email para: luc.wuest@student.unisg.ch EasyCoop - Se puder, cite outros projetos de apoio executados pelos alunos da universidade no Brasil. Angélica: Posso mencionar um que está avançando em um município de Minas EasyCoop - Como o escritório da Universidade Saint Gallen conheceu e se aproximou da Coacipar? O que inicialmente chamou a atenção na cooperativa? Angélica Rotondaro: Conhecemos a Coacipar durante uma série de entrevistas com cooperativas para uma pesquisa de doutorado. Chamou a atenção a forma como a cooperativa estava organizada e como os membros conseguiam se reunir e concordar para desenvolver atividades dentro de conceito de “bem comum”. Outro ponto foi oprofissionalismo. E a percepção de que deveriam se preparar para entrar em mercados internacionais e de venda para clientes que de fato se importassem com o fato de a produção ser original de agricultura familiar. EasyCoop - Quais são os principais objetivos do Cooperative-Lab? Angélica: O Cooperative-Lab é um programa de estágio para alunos da Universidade St.Gallen. Procuramos empresas que estejam buscando estagiários e que tenham projetos similares a nossas áreas de pesquisa. Por exemplo, integração de jovens a cooperativas, e como isso in- Equipe 2016 de estudantes da universidade Saint Gallen em São Paulo leção de uma cooperativa/entidade para receber o apoio da universidade? Luc Wüst: As cooperativas devem ter algum projeto alinhado com nossos temas de pesquisa, que são: integração de cooperativas desde a perspectiva de Pequena e Média Empresa em cadeias de distribuição que incluam o varejo; processos de gestão de produção orgânica; integração de jovens na gestão das cooperativas; cooperativas que estejam vendendo dentro de programas governamentais (PAA e PNAE); e a influência que a participação nesses programas tem no desenvolvimento de grandes clientes. Gerais. Trata-se de análise do impacto do papel de uma cooperativa, da prefeitura e de uma ONG na gestão da água nesse município. EasyCoop - A Universidade Saint Gallen foi fundada em 1898. Quantos estudantes abriga hoje? De quantas nações? Quais cursos oferece? Angélica: A Universidade St.Gallen tem 8.230 alunos de 80 nacionalidades. Os cursos oferecidos são nas áreas de administração, economia, direito, relações internacionais e ciências sociais. O escritório em São Paulo funciona desde 2010. Hoje, as exportações representam 100% do faturamento da Coacipar. Com 57 associados, produz 2.400 toneladas de suco concentrado (FCOJ) por ano, consumido em países como Holanda, Itália, Suíça, Alemanha, Inglaterra, Áustria e Finlândia. O selo fair trade impulsionou o crescimento e permitiu tanto a compra de máquinas pelos cooperados, com redução de custos de produção, como a participação acionária de 7,5% na indústria que processa as laranjas. Outra novidade - o selo foi lançado no Brasil em março de 2015 (Fair Trade Brasil). Com isso, a Coacipar já planeja vender seu suco também no mercado interno, 100% natural e pronto para beber. É um objetivo para 2017. O município O município de Paranavaí, sede da Coacipar, situado a 500 quilômetros de Curitiba, é o maior produtor de laranjas do Paraná. A região noroeste do Estado, onde está Paranavaí, também produz mandioca, algodão, café, bicho-da-seda, abacaxi e soja. Dessas, a produção de mandioca é a mais significativa. Também se destaca no setor da pecuária. De acordo com o IBGE, o município tem hoje 81.590 habitantes. Ano 3 • Edição 25 • Jun-Jul.16 9

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10 “Nem todos se movem pela ganância” Em debate sobre ‘Economia e Empresas’, deputado português defende modelo cooperativo e pede menos burocracia para o seu funcionamento A Europa tem vários dos mais im- pressionantes exemplos do sucesso do cooperativismo em todo o mundo. Mas isso não quer dizer, no entanto, que a vida seja fácil. Afinal de contas, as cooperativas podem ser fabulosas para os cooperados e para a sociedade de um país – mas é péssima para os donos do capital, que querem apenas, por sua própria natureza concentrado- ra, ficar cada vez mais ricos. Esse embate entre cooperativismo e capitalismo ficou evidente em junho passado, em Lisboa, a capital portu- guesa, no debate “Economia e Em- presas”, realizado na Assembleia da República – o parlamento português. O deputado Paulino Ascenção produ- ziu um discurso emblemático sobre essa luta entre a democracia e o lucro, ao se posicionar contra um projeto do governo de inovação e tecnologia, que, segundo ele, “está orientado para Paulino Ascenção diz que é necessário simplificar e desburocratizar o modelo da empresa lucrativa ou capitalista, como se não existissem outros modelos de organização das atividades econômicas”. “Nos seus 60 anos, Mondragón não fez Ele criticou os entraves existentes em Portugal para as cooperativas, que não receberiam os mesmos incentivos do governo que uma empresa tradicional. “Os modelos alternativos para as pessoas organizarem as atividades econômicas e contribuírem para o crescimento devem igualmente ser elegíveis para os programas de incen- res, quer perante os fornecedores de pequena dimensão com quem se relacionam. Ascenção advertiu que os pequenos, como as cooperativas, podem ser facilmente esmagados se não houver uma regulação efetiva. “Os produtores agrícolas, por exemplo, em geral de pequeno porte, sofrem uma chantagem milionários, mas tivo à criação de empresas”, afirmou. permanente das grandes propriedades “É necessário simplificar e desburo- e devem ser protegidos pela lei, para produziu riqueza ”Ele defendeu o modelo associativo cratizar a criação e a vida das associações e das cooperativas e deixar de remetê-las para os setores de atividade restritos, como os conexos com as funções sociais do Estado.” sua sobrevivência”, afirmou. “Nem todas as pessoas se movem pela ganância, pela ambição de serem ricas ou patrões, não será o caso provavelmente para a maioria das pessoas”, ou cooperativo e deu um exemplo: “O maior grupo econômico do País Basco espanhol, a Corporación Mon- “Pequenos, como asdragón, detentora da Fagor [conheci- da marca de eletrodomésticos, como cooperativas, podemlava-roupas e fogões], é um conglo- disse o deputado. “Mas isso não faz delas menos criativas ou menos inovadoras, menos empenhadas numa vida melhor para si próprias e para as suas comunidades”, acrescentou. “O modelo associativo e cooperativo também merado de cooperativas, nascido em 1956, emprega 74.000 trabalhadores e tem volume de negócios acima dos 3 mil milhões de euros”, pontuou o deputado do Bloco de Esquerda, um partido nascido da fusão de outras agre- hseoruveesrmuamgaadroesgusleançããoo”Ele afirmou que a liberalização dos responde à inovação e deve ser incentivado numa estratégia de crescimento. Responde até melhor no longo prazo, pois vários estudos mostram que é um modelo mais resiliente às crises, perene, fortemente ancorado no território, miações nos anos 90. “Nos seus 60 mercados tem conduzido a uma “con- não se deslocaliza, cria empregos du- anos de história, ainda não produziu centração crescente”, fazendo surgir radouros e de maior qualidade que o qualquer milionário, mas produz mui- grandes empresas “com um poder modelo lucrativo ou especulativo de ta riqueza”, emendou o parlamentar. enorme, quer perante os consumido- empresa”, discursou o deputado. REVISTA EASYCOOP

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11 Governo do Acre aposta na força das cooperativas Estado é o terceiro menos populoso do país, mas investe pesado no cooperativismo como meio de desenvolvimento sustentável e ascensão social A um primeiro olhar, qualquer pessoa se surpreende ao saber que, em termos de população, mais de 50 estados como o Acre caberiam dentro do Estado de São Paulo. Mas a surpresa pode ser ainda maior ao saber que esta pequena unidade da Federação faz do estímulo às pequenas cooperativas uma ferramenta de aumento de emprego e renda para milhares de seus cidadãos. Com pouco mais de 800 mil habitantes – ou precisamente 803.513, de acordo com a última estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), divulgada em setembro de 2015, mas com data de referência em 1° de julho de 2014 -, o estado reúne apenas 0,3% da população do país e é um dos três estados com menos população, ao lado de Roraima, com 505,6 mil, e do Amapá, com 766,6 mil. No topo da lista, São Paulo aparece com 44,3 milhões de habitantes. Entre as diversas cooperativas apoiadas pelo governo, está a Cooperativa de Produção de Moveleiros do Acre (Coopermóveis), localizada no Distrito Industrial, em Rio Branco. Existe há cerca de 10 anos e recentemente recebeu investimento público para a compra de equipamentos e construção de galpões, por meio das secretarias de Desenvolvimento, da Indústria, do Comércio e dos Serviços Sustentáveis (Sedens) e de Pequenos Negócios (SEPN). Já foram investidos mais de R$ 600 mil. Com isso, foi possível di- namizar e melhorar a produção para atender à demanda, tornando-se referência na Região Norte. A Coopermóveis beneficia 35 famílias indiretamente e gera 22 empregos diretos. Além desse investimento, a Coopermóveis também utiliza um galpão dentro do Polo Moveleiro, que foi construído pelo Estado, o que permitiu a legalização dos pequenos marceneiros que trabalhavam sem uma estrutura básica. O apoio do governo tem feito a diferença na vida de todos, diz o presidente Coopermóveis, José Melo de Lima. “A gente, que tinha marcenaria em fundo de quintal e não tinha condição para trabalhar, hoje vive outra realidade.” Recentemente, o governador Sebastião Viana (PT) assinou uma ordem de serviço para que as marcenarias trabalhassem na fabricação dos móveis da Secretaria de Extensão Agroflorestal e Produção Familiar (Seaprof). O superintendente das Cooperativas de Marcenarias do Polo Moveleiro destaca que “essa é uma valorização” do trabalho de todos, o que garante emprego para os que trabalham com a construção de móveis. “A gente sabe que o governo, ao longo dos últimos anos, tem investido para que o setor moveleiro viva um novo tempo”. E não é apenas esse setor que recebe a atenção da administração estadual. O mesmo vem ocorrendo com a Central de Cooperativas dos Piscicultores do Acre (Acrepeixes), composta por seis cooperativas de produtores de pescado e sócia da Peixes da Amazônia S/A. Em recente entrega de equipamentos para a Central – um caminhão e três tratores esteiras – Sebastião Viana afirmou: “É essa união dos pequenos, médios e grandes produtores, junto com o governo, que está mudando a realidade da piscicultura no Acre”. Outro exemplo de empreendimento cooperativista que tem o apoio do governo estadual é o da Cooperativa Verde Moda, de Cruzeiro do Sul, cidade com 81,5 habitantes, transformada em polo de confecções de roupas. Em 2015, a cooperativa lançou duas coleções que foram apresentadas na ExpoAcre. No mesmo ano, a Verde Moda entrou no ramo de uniformes escolares. A cooperativa surgiu do trabalho social realizado pela Fundação Betel, que trabalha a favor de mulheres e adolescentes em situações vulneráveis. Também recebeu o apoio da Secretaria de Pequenos Negócios, que doou à entidade 15 máquinas de costura. O Acre mostra para o Brasil bons exemplos de apoio ao cooperativismo, seja com cursos, recursos financeiros ou doações de equipamentos. Há uma clara percepção do quanto é importante o trabalho das cooperativas para o desenvolvimento sustentável do Estado. Elas fazem a economia crescer e geram empregos. Ano 3 • Edição 25 • Jun-Jul.16

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12 Cooperativa inédita lida com a morte Cooperativa de Trabalho dos Agentes Funerários de São Paulo, criada há dois anos, reúne 33 profissionais e a frota já passa dos 30 veículos O brasileiro não gosta de pensar na morte – por mais que ela seja parte inseparável da vida. Não é à toa que muita gente não quer nem ouvir falar em compra de jazigos ou seguro fune- ral. Mas, uma hora ela bate à porta das famílias e é preciso lidar com ela. Isso implica tomar decisões – em meio à dor da perda – que incluem gastos nun- ca pequenos e escolhas sofridas, como a do caixão que vai levar o familiar para sempre. O mínimo que se espera nessa hora é que os profissionais envolvidos no serviço funerário atendam às famílias enlutadas com sensibilidade. Mas não é o que sempre acontece. “O serviço funerário de São Paulo/Capital trata as famílias como lixo”, protesta Na- tanael Fialho da Silva, presidente da Cooperaf (Cooperativa de Trabalho dos Agentes Funerários de São Paulo) – segundo ele, a única cooperativa do gênero no mundo. “Nós queremos nos diferenciar das empresas públicas”, A Cooperaf procura manter profissionais treinados e comportamento diferenciado acrescenta. dir a proliferação de bactérias. Esse mento de famílias”, diz Natanael, que Essa é uma das principais vantagens trabalho requer treinamento e apare- ressalta os preconceitos contra quem do cooperativismo para o cidadão. Enquanto uma empresa comum busca o lucro maior possível para o dono, uma Não é um trabalho fácilcooperativa – que não tem um só pro- “ lidar com o sofrimentoprietário – está mais focada em fazer lhos, com custos altos. lida com a morte e o peso emocional do trabalho em si: “Todos os dias estou de luto”, diz ele. A ideia de criar uma cooperativa de agentes funerários é boa, mas não quer um bom trabalho para o bem de todos. Mas não é uma missão fácil. Segundo Natanael, os agentes funerários são profissionais de baixa escolaridade e quase sempre sem formação ”das famílias; todos os dias estou de luto dizer que seja fácil. A Cooperaf foi criada há dois anos, começou a se desenvolver este ano, mas é resultado de um sonho que começou em 1994, com Natanael e mais quatro agentes, todos específica. Por isso, a cooperativa está Tudo isso são obstáculos para o cres- funcionários de grandes funerárias. se organizando para dar cursos aos co- cimento de uma cooperativa pioneira, Começaram na ilegalidade, usando operados. Entre eles, está o treinamen- não só no Brasil, mas no mundo. “Não nota fiscal de outra funerária, porque to para se relacionar com as famílias de é um trabalho fácil lidar com o sofri- não podiam abrir a própria empresa, luto, no trato geral e na comunicação. limitados pela legislação, que faz da “Queremos treinar os cooperados para funerária uma concessão pública, me- conversar melhor com as pessoas”, diante licitações cheias de exigências diz Natanael. “A questão é melhorar para quem sequer tinha uma empresa a qualidade de tudo, inclusive do ser constituída. humano. É preciso ter um comporta- Hoje, são 33 cooperados e uma frota mento diferenciado”, acrescenta o pre- que já passa de 30 veículos. A coope- sidente da cooperativa. rativa busca convênios com segurado- E não é só isso. O trabalho do agente ras e parcerias com cemitérios, entre funerário vai bem além e exige não outras. “É pouco ainda”, diz Natana- somente preparo técnico como tam- el. Mas os planos são muitos. “Não bém investimentos em equipamen- somos um sindicato, mas os agentes tos. Pouca gente conhece a tanato- funerários, e é importante que se fri- praxia – a preparação do corpo para o se isso, não têm uma entidade que os velório e sepultamento, que consiste defenda”, afirma. “A cooperativa tam- em retardar a decomposição e impe- Natanael Fialho da Silva, o presidente bém veio para isso.” REVISTA EASYCOOP

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‘Mulher é capaz de ganhar seu espaço’ Em Cabo Verde, país de apenas 500 mil habitantes, um grupo de mulheres tenta formalizar cooperativa gerida por motoristas de transportes públicos A maioria dos brasileiros nunca ouviu falar de Cabo Verde – e não sabe que temos muito em comum. Esse pequenino país, um arquipélago de pouco mais de 500 mil habitantes (oficialmente República de Cabo Verde), composto por um punhado de ilhas na costa africana, foi, por assim dizer, também descoberto pelos portugueses mais de meio século antes do Brasil. De lá saíram os primeiros escravos, falase português como aqui, os problemas sociais são muito grandes – e o cooperativismo também se apresenta como uma excelente opção de resgate de cidadania. Um exemplo são as 14 mulheres em situação de vulnerabilidade da cidade de São Domingos de Santiago. Elas estão prestes a começar a primeira cooperativa gerida por motoristas de transportes públicos ou privados país. A iniciativa veio de uma mulher, a subdelegada Maria de Jesus Jorge, umas das primeiras mulheres a integrar as fileiras da Polícia Nacional. A polícia rodoviária local está dando aulas de direção para que elas obtenham a carteira profissional de motorista. A ideia, no entanto, ainda não tem o apoio necessário para deslanchar. Achar parceiros tem sido difícil, tanto que a ideia nasceu em 2014 e só agora começa a ser implementada. O objetivo inicial era atrair, acima de tudo, mulheres, com o objetivo de tirá-las do desemprego e enquadrar outras em situação de risco, mas há mais homens no curso. Ilha de Santiago é a maior das dez que fomam o arquipélago de Cabo Verde Para participar do projeto, os requisitos não são difíceis de atender em Cabo Verde, assim como no Brasil: serem desempregadas, mães solteiras, ter passagem pela polícia ou estar em situação de risco, especialmente as vítimas de violência de gênero. Entre homens e mulheres, 25 jovens começaram a primeira turma em maio. Entre os alunos, estão pessoas dos mais variados níveis de escolaridade, do sexto ano do ensino fundamental cabo-verdiano até uma com diploma universitário de assistente social, formada em 2014, mas que até hoje não conseguiu emprego na área. Ela ajuda a família trabalhando como cozinheira de um jardim da infância. Elisângela Moreira tem 28 anos e vê no projeto uma chance de mudar de vida e ser feliz com o que faz. “Ser motorista a serviço do Estado poderá ser uma opção”, diz ela, que acredita que a cooperativa poderá conseguir contratos com o poder público. “A profissão é mais considerada como masculina, mas a mulher já mostra que é capaz de conquistar o seu espaço nas várias esferas profissionais. Por isso, não vejo qualquer diferença nisso”, acrescenta Elisângela. Esse é o ponto de vista da idealizadora, a policial Maria de Jesus. Ela faz parte do primeiro grupo de 19 mulheres a entrar na Polícia Nacional, em 1989. Aos 53 anos, diz que realizou o sonho de criança de ser policial, “uma profissão que outrora era vista como sendo essencialmente para homens” e quer fazer o mesmo para outras tantas jovens que partilham de um futuro feliz. A comandante conta que a ideia surgiu depois de ter consultado o Censo 2010 no capítulo do desemprego. Em 2012, procurou os superiores na capital do país, Praia. Autorizada, tem se empenhado em fazer o projeto ir adiante. Mas não tem sido fácil, pois vários alunos sequer têm condições de pagar a passagem de ônibus para ir às aulas. Além disso, o governo concedeu apenas o desconto de 50% nas taxas de emissão da carteira de motorista. Não fosse o apoio de uma ONG, que aceitou bancar a outra metade, o projeto não teria começado. “O projeto só foi adiante graças à coragem e boa vontade da nossa parte”, diz ela. “Mas precisamos ainda de mais parceiros, pede a policial. Ano 3 • Edição 25 • Jun-Jul.16 13

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14 As vantagens do crédito cooperativo em momento de incerteza econômica Por *Leo Trombka nos resultados; e, por não terem lucro, são isentas de tributação, que implica em mais vantagem, pois, não havendo tributos, as instituições financeiras cooperativas podem praticar taxas de juros e tarifas menores que as dos bancos. A base de captação dos recursos está nos próprios membros da cooperativa. Os cooperados aportam recursos no sistema a fim de usufruírem dos seus benefícios. É um custo de capital mui- to competitivo, remunerado a taxas de mercado (Selic) mais as sobras apura- das a cada exercício financeiro. “A taxa de inadimplência, apesar do aumento no ”atual cenário, é menor que a média do mercado Além disso, devido a esta caracterís- tica, a taxa de inadimplência, apesar do aumento no atual cenário, é signi- ficativamente menor que a média do Leo Trombka: a cooperativa precisa arcar com seus custos e ainda dividir as sobras Quando o momento econômico está cessão, contribuindo, dessa forma, para turbulento e incerto, toda precaução que as pessoas físicas e jurídicas tenham com as finanças é pouca. Uma opção acesso aos produtos e serviços financei- vantajosa, ante os bancos tradicionais, ros para conseguir passar pela turbulên- é ser cooperado de uma instituição fi- cia econômica que assola o país. nanceira cooperativa, que é uma asso- A lógica das instituições financeiras ciação de pessoas, sem fins lucrativos, cooperativas é distinta da de um ban- com o objetivo de propiciar produtos co comercial. O principal objetivo é o e serviços financeiros exclusivamente benefício ao cooperado por meio da aos seus associados. Uma das princi- expansão do crédito a custos acessí- pais vantagens é ser dono do negócio, veis. Isso só é possível porque o pró- podendo participar das assembleias, prio participante aporta recursos no opinar e votar nas decisões. sistema. Em um quadro de contração “ Principal objetivo é o benefício ao cooperado econômica e escassez de recursos, a alternativa do crédito cooperativo é ainda mais atrativa. Enquanto nas demais instituições financeiras se busca o capital, no coo- por meio de crédito perativismo de crédito o foco é o associado. É evidente que a cooperativa a custos acessíveis precisa obter bons resultados para ” arcar com seus custos e ainda dividir A crise econômica já afeta o bolso das com os cooperados as sobras. E esta famílias brasileiras. Ao contrário dos divisão será proporcional a utilização bancos, que estão restringindo o crédi- que o mesmo faz dos mesmos. Quanto to, as cooperativas ampliam a sua con- mais se utiliza, maior é a participação mercado uma vez que o próprio cooperado é dono do negócio. No caso da Unicred, em particular, a inadimplência das operações de crédito é ainda menor que a de seus pares, pois o associado tem um perfil de renda média elevada e estabilidade financeira. Não podemos deixar de citar outros dois estímulos que contribuem para que as instituições financeiras cooperativas tenham este diferencial. Um deles faz parte do ato cooperativo, mencionado na constituição de 1988, que prevê a não tributação das operações realizadas entre cooperados e Cooperativas, e o outro, que é o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) que incide nas operações de crédito com alíquota menor em cooperativas de crédito. Por isso, o sistema cooperativo, comparado ao sistema financeiro tradicional, vem, desde 2008, crescendo mais. *Leo Trombka é presidente do Conselho de Administração da UNICRED Brasil, vice-presidente do Conselho de Administração do FGCoop REVISTA EASYCOOP

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Envelhecimento saudável é preocupação de cooperados Deputado federal Roberto de Lucena (PV-SP) visita Fetrabras e fala de seu trabalho na Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa (CIDOSO) O Brasil está envelhecendo e de maneira muito mais rápida do que se imagina. Esse fenômeno não deve ser preocupação apenas da Previdência Social, com o aumento explosivo dos custos com saúde e aposentadorias – e os consequentes déficits no sistema -, mas também do cooperativismo. Cada vez mais é preciso preparação para a velhice, tanto em termos de cuidados com a saúde pessoal como de organização familiar e assistência social. Essa preocupação marcou a visita à Fetrabras, em meados de julho, do deputado federal Roberto de Lucena (PV-SP), presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa (CIDOSO) da Câmara dos Deputados. “A reflexão que devemos fazer junto com os cooperados, e que estamos fazendo no Congresso Nacional, deve ter como alvo o envelhecimento saudável. O Brasil é um país que envelhece rapidamente. Em 20 anos teremos um aumento significativo da população idosa e uma das reflexões que devemos fazer é como fortalecer o sistema cooperativo nacional para que os jovens que estão no sistema hoje também tenham amanhã uma velhice saudável”, comentou o deputado. Para ele, o cooperativismo tem papel fundamental nessa realidade de envelhecimento da população. Números atuais e projeções para as próximas décadas corroboram essa preocupação. O Relatório Mundial de Saúde e Envelhecimento, divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em setembro de 2015, aponta que o número de pessoas com mais de 60 anos no país deverá crescer muito mais rápido do que a média internacional. Enquanto a quantidade de idosos vai duplicar no mundo até o ano de 2050, ela quase triplicará no Brasil. O número de pessoas acima de 60 anos já engloba cerca de 14% da população – ou seja, em torno de 29 milhões. Essa porcentagem deve alcançar os 30% até a metade do século. Tudo isso é resultado do aumento da expectativa de vida, reflexo das novas tecnologias adotadas na saúde, seja assistencial ou preventiva, das campanhas de Envelhecimento saudável é alvo do deputado Roberto de Lucena vacinação, da melhoria no saneamento básico, das condições de moradia, educação e socialização. A expectativa de vida já atingiu os 75 anos no Brasil e, para 2020, a projeção é de 76,1 anos, de acordo a OMS. Estima-se que chegará a 81,29 anos na metade do século. Visitas A Federação Nacional dos Trabalhadores Cooperados (FETRABRAS) tem recebido diversas visitas, principalmente de parlamentares preocupados com as demandas do cooperativismo e com suas ações para que mais pessoas estejam trabalhando e tendo renda para elas e suas famílias. “Essas visitas de parlamentares são ótimas. Nas conversas expomos o que os cooperados têm enfrentado e o que ainda precisa ser alterado para que o cooperativismo brasileiro cresça cada vez mais”, disse a presidente da FETRABRAS, Sandra Campos, no encontro com Lucena. Durante sua visita, além de analisar como os cooperados devem se preparar para um envelhecimento saudável e com qualidade de vida, Lucena ouviu as demandas dos cooperados brasileiros neste momento econômico difícil, com altos índices de desemprego. “Eu vim fazer uma visita aqui na Federação, dar um abraço na presidente e na diretoria e me colocar à disposição”, disse o parlamentar. Hoje, o país tem 12 milhões de desempregados e, para Roberto de Lucena, “o cooperativismo pode ser a grande saída” para “tirar as pessoas da informalidade”, gerando renda e trabalho para quem está fora do mercado. Sandra Campos manifestou sua satisfação. “Ficamos muito felizes com a visita do deputado Roberto de Lucena. Ele é um parlamentar que apoia o cooperativismo. Podemos contar com ele no Congresso Nacional.” Sangue nordestino Roberto de Lucena nasceu em Santa Isabel, região metropolitana de São Paulo, em 18 de abril de 1966, filho dos migrantes nordestinos Antônio Vieira e Eunice Alves. Da união com a professora Bernadete Aparecida Ramos nasceram os filhos Melissa e Renan - e a neta Lívia. Atualmente, Roberto de Lucena é deputado federal por São Paulo. Eleito em 2010 pelo Partido Verde, atua como parlamentar na Câmara dos Deputados desde 2011. Em 2014, foi reeleito com mais de 70% dos votos de todo o Estado. Em 2015, foi secretário de Turismo do estado de São Paulo. Na Câmara dos Deputados, Roberto de Lucena ocupa a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa (CIDOSO) e é membro titular da Comissão de Defesa do Consumidor (CDC) e da Comissão de Turismo (CTUR). Ano 3 • Edição 25 • Jun-Jul.16 15

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