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Ano X - Edição 107 - Outubro 2016 Distribuição Gratuita Escola sem partido RECICLE INFORMAÇÃO: Passe este jornal para outro leitor ou indique o site "Escola Sem Partido" que na verdade é a escola de um partido só, é um museu de grandes novidades... PÁGINA: 9 e 16 Música contando histórias Quando a gente assiste a um filme muitas vezes não se dá conta mas grande parte das emoções que sentimos são disparadas pela música que está acompanhando a cena que assistimos. PAG. 4 - Boa música Brasileira - Cultura - Educação - Cidadania - Sustentabilidade Social Agora também no seu www.culturaonlinebr.org Baixe o aplicativo IOS NO SITE Crônica do mês: APIMENTAR A RELAÇÃO Desde que Santo Agostinho falou sobre o assunto em sua obra, os filósofos, teólogos e religiosos discu- tem a respeito de que “o mal não existe, ele é apenas a ausência do bem”. Perdoem-me os referidos pro- fissionais, mas quem não gosta de receber um afago físico ou de coração? PAG.2 Por que desejamos tanto encontrar outros mundos O novo ensino médio 1ª. Parte - Infraestrutura Psicólogos explicam por que pessoas muito habitáveis? Em 22 de setembro de 2016 o inteligentes têm poucos Presidente Michel Temer, o MinisRecentemente, astrônomos tro da Educação Mendonça Filho Amigos. encontraram na estrela Próxima e sua equipe técnica se reuniram É óbvio que ter amigos é algo ne- Centauri, vizinha do nosso Sistema Solar, planeta rochoso como a Terra que tem condições que permitiriam a existência de água em para apresentar Médio. o novo Ensino PAG. 9 cessário, e que a interação com outras pessoas tem muitas vantagens. estado líquido, fator primordial pa- PAG.14 ra o desenvolvimento de vida. PAG. 3 Exercendo a cidadania Capitalismo e O recente interesse do Está na hora de agir novamente. Hora de fazer a diferença através democracia na Europa PARTE X brasileiro por política Durante muito tempo, não víamos tanta gente no Brasil tão interessada assim em política como temos visto de 2013 para cá, quando o Movimento Passe-Livre das nossas escolhas, e isso se dá exercendo a cidadania através do direito que conquistamos que é o de votar. Nessas eleições que ocorrem agora, estaremos elegendo prefeitos, vice-prefeitos e vereadores, que integrarão as Câma- ... A UE não tinha mecanismos institucionais que pudessem prestar socorro a sócios que enfrentassem graves problemas de caixa. PAG. 16 começou a protestar nas ruas. ras Legislativas Municipais. PAG 5 PÁG. 11 Dez anos a serviço da educação, da cidadania e valorização das culturas e tradições brasileiras

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Outubro 2016 Gazeta Valeparaibana Página 2 Editorial APIMENTAR A RELAÇÃO Desde que Santo Agostinho falou sobre o assunto em sua obra, os filósofos, teólogos e religiosos discutem a respeito de que “o mal não existe, ele é apenas a ausência do bem”. Perdoem-me os referidos profissionais, mas quem não gosta de receber um afago físico ou de coração? Essa é o que nós leigos consideramos a personificação, a materialização do bem. E se desgraças recheiam nossa vida, sentimos na carne e na alma a presença do “mal que não existe.” Receber coisas que nos fazem bem é bom! Viver fatos trágicos e dolorosos é ruim demais. Na verdade, cada período de nossas vidas em que bem ou o mal são “ausentes”, nos permite usufruir de estabilidade emocional, conforto e paz. Os jovens talvez não tenham essa percepção, mas a idade nos faz almejar alguma paz, pois somos “brindados” com as instabilidades causadas pelos males que assolam nossas vidas. Há diversas gradações entre o bem e o mal, com as quais se pode ter uma qualidade de vida bastante interessante. E que a filosofia convenientemente esquece. O mundo já viveu momentos intensos de dualidades trágicas, que ainda sobrevivem ou transmutaram-se para diferentes formatos: mocinho e bandido, Cristo e anticristo, nazistas e aliados, ditadura versus democracia, a favor de um tirano ou contra ele, católicos contra protestantes, terroristas do ETA e defensores da Espanha, árabes e judeus, muçulmanos e não muçulmanos xiitas guerreando contra os sunitas. Mortadelas e coxinhas, petistas e não petistas. Na verdade há infinitas nuances relativas a cada um desses pares de extremos. Há deliciosos pratos e temperos que superam o sabor e a qualidade de simples mortadelas (até aquelas com pistache) e das coxinhas (com ou sem catupiry). Mas infelizmente eleitores mal informados pela propaganda enganosa com a qual são bombardeados diariamente imaginam que existem apenas essas duas alternativas de paladares. E discutem entre si, digladiam-se; pais brigam com filhos, esposas tornam-se inimigas dos maridos, irmãos passam a defender antagônicos pontos de vista. Tais discussões não levam a nada além da discórdia, enquanto questões não são resolvidas, e problemas não são enfrentados. Cada “lado” dos debatedores faz-se de herói da causa e simultaneamente de vítima das circunstâncias. A coisa passa a ser apenas e tão somente uma guerra de palavras, de ânimos. Uma guerra verborrágica, colorida com lágrimas de crocodilo e sorrisos de hiena em ambas as frentes de batalha. É o caminho perfeito para a intolerância nascer, crescer e multiplicar-se. É a evolução de fatos e eventos ideal para que soluções sejam substituídas por emoções, e por decorrência para o mal – esse sim efetivo e real – instalar-se na vida de cidadãos de bem, ingênuos e mal informados pelo mar de palavras vazias proferidas pelos estrategistas políticos e disseminadas pela mídia. Como fugir desse círculo vicioso, sair desse turbilhão de inutilidades? Por enquanto – e o momento é propício para tal – o único instrumento pacífico é o voto. Analise a possibilidade de votar em um político “chef de cuisine” que prepare algo mais saudável do que mortadelas ou coxinhas. Não vale pizza! Esqueça adjetivos (sou defensor/a, sou autor/a etc...) e verbos no passado (eu fiz, eu lutei, etc...). Isso denota demagogia. Lembre-se de que se lhe foi servida comida estragada, você não deve nunca mais voltar ao restaurante. Nenhum “chef” merece uma segunda chance. Aproveite as eleições para apimentar a sua relação com quem tem por obrigação ser seu representante. Sem dó nem piedade, capriche na pimenta! Içami Tiba Pais e escola Ninguém ensina os pais a serem pais. A escola tem que preparar os pais a formarem cidadãos. Os pais e a escola são complementares. Na escola estão os parceiros para a escuridão educacional dos pais. Os pais devem dizer que os filhos têm de estudar senão, vão aguentar as consequências. E o aluno precisa participar ativamente da construção do seu conhecimento. Conhecimento é domínio que a pessoa tem e ninguém toma jamais. Tecnologia Todos precisam entender que a internet é uma ferramenta, lida com aspectos de máquina do ser humano. Tecnicamente são máquinas. O problema é que ninguém está preparando a alma dessas pessoas que vão comandar as máquinas. O que está errado Os pais eram exigentes, os filhos obedeciam. Houve uma mudança e esses pais que hoje tem mais irmãos do que filhos, por amor, deram o que não tiveram: liberdade e prazer. Além disso, foram pais e mães capacitados para trabalhar e não para serem pais. Educacionalmente está errado. Se a criança só faz o que quer, ela não faz o dever. Genha Auga – Jornalista MTB:15.320 Os artigos publicados são responsabilidade de seus autores, não refletindo necessariamente a opinião da Gazeta Valeparaibana IMPORTANTE A Gazeta Valeparaibana é um jornal mensal gratuito distribuído mensalmente Todas as matérias, reportagens, fo- para download na web tos e demais conteúdos são de inteira responsabilidade dos colaboradores que assinam as matérias, poden- Editor e Jornalista responsável: Filipe de Sousa - FENAI 1142/09-J do seus conteúdos não corresponde- rem à opinião deste projeto nem Ajude-nos a manter este projeto por apenas R$ 2,00 mensal deste Jornal. Email: assinaturas@gazetavaleparaibana.com Gazeta Valeparaibana e CULTURAonline BRASIL Juntas, a serviço da E- ducação e da divulgação da CULTURA Nacional

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Outubro 2016 Gazeta Valeparaibana O homem e o universo Página 3 Por que desejamos tanto encontrar outros mundos habitáveis? Recentemente, astrônomos encontraram na estrela Próxima Centauri, vizinha do nosso Sistema Solar, planeta rochoso como a Terra que tem condições que permitiriam a existência de água em estado líquido, fator primordial para o desenvolvimento de vida. O planeta descoberto foi nomeado de Próxima b. Outros planetas considerados potencialmente habitáveis já foram descobertos, porém, mais distantes. Exemplos, Gliese 832 c, Kepler -62 e, HD 10700 e tanto na lua Europa de Júpiter quanto na lua Encélado de Saturno há evidências de oceanos de água debaixo dos seus respectivos solos, o que lhes fazem suspeitos de possibilidade de abrigar vida aquática. Em Porto Rico, foi criado um sistema de radiotelescópio, o projeto SETI, que busca sinais de rádio no espaço. Na ficção científica já é explorado o tema da “terraformação” de planetas, e na vida real o processo é considerado como hipotético, processo de modificação da atmosfera, da temperatura, da topografia e da ecologia de outros planetas e de satélites naturais (luas) de outros planetas, tornando-os habitáveis aos seres vivos nativos da Terra, principalmente ao ser humano. Em séries de ficção como Jornada nas Estrelas (Star Trek), Defiance, o filme O Vingador do Futuro cujo protagonista foi interpretado por Arnold Schwarzenegger, o sucesso de sagas de ficção sobre viagens espaciais, extraterrestres, tudo demonstra o fascínio que a humanidade tem pelo espaço cósmico. Por que o espaço sideral deixa o ser humano tão fascinado? Por que o ser humano deseja tanto alcançar outros planetas habitáveis? Será que o ser humano enjoou da Terra, o seu mundo natal? O ser humano deseja recomeçar em outro mundo? Ou o que o ser humano está buscando é formas de vida mais inteligentes? Ou formas de vida cientificamente mais avançadas? Alienígenas tecnologicamente mais avançados para serem mentores dos terráqueos? Para que ajudem a humanidade a se desenvolver sem se destruir? O renomado físico Stephen Hawking é contra a atitude da humanidade de buscar contato com extraterrestres mais evoluídos, porque, segundo ele, tal contato poderá ser desastroso para nós terráqueos. E há teóricos como Erich von Däniken e o falecido Zecharia Sitchin, pessoas que acreditam que, num passado remoto, extraterrestres já visitaram este nosso planeta, eram os “deuses” das civilizações mais antigas, como os sumérios, egípcios, dravidianos de Harappá no Vale do Indo... e que trouxeram o conceito de civilização urbana para este mundo. Será mesmo que foi assim? Ou será que é mito a visita de extraterrestres a Terra no passado? Enfim, por que queremos tanto ir ao espaço sideral? Será que queremos fugir de algo aqui na Terra? Talvez muita gente esteja tão insatisfeita com o sistema como as civilizações deste mundo terrestre funcionam que quer construir outras civilizações novas em outros mundos com um novo sistema melhor? Já que não conseguimos mudar o sistema na Terra? Já que não conseguimos vencer e nos sobrepor aos poderes predominantes na Terra? Ou queremos que alguém de fora da Terra, lá dentre as estrelas, que tenha mais poder tecnológico do que os terráqueos, mais conhecimento, mais sabedoria, mais experiência existencial, venha nos salvar de nós mesmos? Ou, tudo não passa apenas de curiosidade, de desejo de ampliar o conhecimento sobre a existência e a realidade? Desejo de saber cada vez mais? Quem sabe, tentar descobrir sobre as nossas origens como espécie? Conhecimento a mais nunca é demais. O que você que está lendo acha? Por que desejamos tanto encontrar outros mundos habitáveis? João Paulo Barros Calendário Algumas datas comemorativas 01-Dia Internacional da Música 04-Dia dos Animais 04-Dia da Natureza 07-Dia do Compositor Brasileiro 08-Dia do Nordestino 09-Dia do Atletismo 12-Dia das Crianças 12-Nossa Senhora Aparecida 16-Horário de Verão 17-Dia Internacional da Erradicação da Pobreza 17-Dia da Música Popular Brasileira 20-Dia do Poeta 21-Dia Nacional da Alimentação na Escola 23-Dia da Força Aérea Brasileira 25-Dia de São Frei Galvão 29-Dia Nacional do Livro 29-Dia Mundial do AVC 30-Dia da Merendeira Escolar 31-Dia Nacional da Poesia 31-Dia do Saci Rádio web CULTURAonline Brasil NOVOS HORÁRIOS e NOVOS PROGRAMAS Prestigie, divulgue, acesse, junte-se a nós ! A Rádio web CULTURAonline Brasil, prioriza a Educação, a boa Música Nacional e programas de interesse geral sobre sustentabilidade social, cidadania nas temáticas: Educação, Escola, Professor , Família e Sociedade. Uma rádio onde o professor é valorizado e tem voz e, onde a Educação se discute num debate aberto, crítico e livre. Mas com responsabilidade! Acessível no link: www.culturaonlinebrasil.net www.culturaonlinebrasil.net /// CULTURAonline BRASIL /// www.culturaonlinebr.org

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Outubro 2016 Gazeta Valeparaibana 01-Dia Internacional da Música Página 4 Música contando histórias As óperas começaram a se desenvolver e exi- a ser apresentadas em teatros com fosso, pagir espaços mais apropriados para sua execu- ra que a orquestra pudesse contar a história e Quando a gente as- ção. as coreografias serem executadas no palco. siste a um filme mui- Para que os músicos na frente não atrapa- No caso do balé a música assume uma outra tas vezes não se dá lhassem a visão dos expectadores a princípio importância. Como não são ditas palavras a conta mas grande elevou-se o palco e a orquestra ficava no história tem que ser contado pelos gestos e parte das emoções chão , na altura dos expectadores. principalmente pela música. Sempre é um que sentimos são dis- Posteriormente criou-se o chamado fosso de grande desafio. paradas pela música orquestra. Um espaço mais fundo que o nível As óperas e balés se desenvolveram bastante que está acompanhando a cena que assisti- do público, o chamado teatro italiano. O Thea- nos séculos XIX e XX. Mas a música para te- mos. tro Municipal de S. Paulo ou o do Rio possu- atro continuou existindo e muitos composito- Sem ela não levamos sustos, nem choramos, em esse formato e ambos têm uma progra- res fizeram músicas que eram executadas du- nem sorrimos. Ela é essencial para que aquilo mação de ópera bastante intensa que vale a rante a encenação teatral. que assistimos nos emocione. Mas o cinema é recente na história da arte. Apenas no sec XX que foi criado. No início o cinema era mudo e um músico e- pena ser assistida. Outro teatro que possui fosso de orquestra neste molde é o Teatro de Manaus, um teatro especial construído na época da borracha. Um tipo de espetáculo mais leve que o teatro ou a ópera eram as operetas. Eram histórias mais leves e divertidas e a música sempre era muito pra cima. xecutava a música em um piano meio que de improviso. Mas desde cedo via-se a importância da música para isso. Mas claro que isso não começou aí. A história da música de cena vem desde os gregos. Mais precisamente no teatro grego onde se inicia a história do teatro como conhecemos. Na arena onde eram encenados os espetáculos havia músicos que executavam canções e No séc, XIX, um grande compositor de ópera alemão Richard Wagner queria que os expectadores não fossem distraído por nada que não fosse o espetáculo. Ele idealizou um teatro que é famoso por isso. O teatro da cidade de Bayreuth na Alemanha. Ele foi o responsável por vários avanços na tecnologia do espetáculo. Uma ideia que ele teve foi de esconder completamente a orquestra. No século XX tudo se desenvolveu rapidamente, e os formatos foram se diversificando. O cinema apareceu e as operetas começaram a incluir uma maneira mais popular. Apareceram os musicais, ou teatro musical como é normalmente chamado. Apareceu a sonorização eletrônica alterando a estética, a maneira de se cantar principalmente. O cantor não tem mais a necessidade de encher o teatro com outras peças durante a encenação. O local O fosso italiano onde os músicos ainda são sua voz. Porque o microfone faz esse traba- onde esses músicos ou o coro e até mesmo visíveis não interessava a ele. Então ele in- lho. bailarinos ficavam chamava-se orkestra em grego. Daí surgiu a denominação orquestra para um grupo de músicos que executam juntos uma peça musical. ventou um fosso que ficava embaixo do palco e descia inclinado para baixo para que uma orquestra grande pudesse executar a música. E a acústica foi desenhada para que não se E o que existe em comum em todos esses tipos de espetáculo é a música, e, em todos eles ela faz o papel de portadora de emoções. Desde então sabia-se que a música tinha es- perdesse nada do público , ao mesmo tempo Uma cena da Valquíria de Wagner encenada se poder de emocionar e ilustrar uma ação. a orquestra poderia tocar mais forte que não em seu Teatro: Na época não existia um sistema de notação cobriria os cantores. A gente tem que lembrar https://youtu.be/3sB_-rxMtAM que permitisse que nós saibamos o que era que se canta sem microfones que só foram Cenas do Lago dos Cisnes - Balé de Tcahi- tocado. inventados no século XX. Ele também criou kowsky no Teatro alla Scala de Milão A notação musical só apareceu na idade mé- um sistema de iluminação que vinha de cima, https://youtu.be/d4-ow2pejtc dia. Mas sabemos que em praticamente toda como conhecemos hoje. Até então a luz vinha Otello de Verdi no Teatro alla Scala de Milão encenação do teatro grego havia músicos do chão, da frente dos cantores. Ou seja, a- (fosso italiano) lém da música maravilhosa ele era também https://youtu.be/_BdTrzHEnYs Na época do bardo inglês, Shakespeare, já um visionário. Talvez a maior contribuição de Cena do musical My Fair Lady - Loewe e Ler- se compunham canções que os próprios ato- Wagner para o mundo do espetáculo foi a i- ner (B. Shaw) res cantavam e a música já fazia parte inte- deia de que as pessoas quando assistissem o https://youtu.be/ObhXpmWOWp4 grante da montagem teatral. Com o desenvol- espetáculo estariam imersas nas imagens e (direção musical minha e em cartaz atualmen- vimento em geral das artes a música foi evo- nos sons. Sem luzes da orquestra, movimen- te no TEATRO SANTANDER em S. Paulo) luindo junto. tos de músicos, ou mesmo os gestos do ma- Ainda na renascença a comunhão de teatro e música acabou gerando a ópera. Que é um gênero que até hoje comove o público. A ópera se caracteriza por um texto de teatro estro. Podemos dizer que ele antecipou o cinema como é hoje. Escuro, e nada ( a não ser as pessoas que insistem em conversar durante a projeção…) atrapalha o envolvimento com a história. Mto. Luís Gustavo Petri é regente, compositor, arranjador e pianista. Fundador da Orquestra Sinfônica Municipal de Santos. Diretor musical da Cia. de Ópera Curta que é praticamente todo musicado, os perso- criada e dirigida por Cleber Pa- nagens que, no teatro eram representados A música na ópera descreve com muita emo- pa e Rosana Caramaschi. É fre- por atores cantam e interpretam o texto. ção aquilo que se passa dentro dos persona- quente convidado a reger as gens. Mas também há outro tipo de espetácu- mais importantes orquestras brasileiras, e em Toda a interpretação necessária para que as lo onde não se canta, mas sim, se dança. São sua carreira além de concertos importantes, pessoas se emocionem são de certa maneira os espetáculos de balé. Desenvolveram-se participações em shows, peças de teatro e dirigidas pela música. paralelamente à ópera e também começaram musicais. www.culturaonlinebrasil.net /// CULTURAonline BRASIL /// www.culturaonlinebr.org

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Outubro 2016 Gazeta Valeparaibana Página 5 Cidadania Maistre, um francês, “toda nação tem o go- caso do Petrolão, entre outros escândalos. O verno que ela merece”. E, segundo o grego povo brasileiro, por ter visto tantas notícias Platão, “o castigo dos bons que não fazem negativas envolvendo os políticos, recebeu política é ser governados pelos maus”. E, se- um condicionamento psicológico para repro- gundo o alemão Bertolt Brecht, este último var a política e os políticos de forma a gene- demonstrando irritação, impaciência e até ralizar. Esse ódio que tanta gente sente por ofendendo a quem ele se refere, “o pior anal- causa de divergências de opinião política não fabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, é bem um ódio gratuito, foi condicionado pela não fala, nem participa dos acontecimentos repetição na mente das pessoas feita pela políticos. Ele não sabe o custo de vida, os mídia durante anos, “escândalo de corrupção preços do feijão, do peixe, da farinha, do alu- envolvendo políticos”. guel, do sapato e do remédio dependem das O Brasil é um país relativamente novo decisões políticas. O analfabeto político é... no mundo. Surgiu no começo do século 19 que se orgulha e estufa o peito dizendo que como Estado-Nação, diferente da maioria odeia a política. Não sabe... que, da sua ig- das nações da Europa por exemplo. Tam- norância política, nasce a prostituta, o menor bém, diferente dos habitantes de países co- abandonado, e o pior de todos os bandidos, mo os Estados Unidos, o Reino Unido, a que é o político vigarista, pilantra, corrupto e França, a Suíça, a Holanda, a Dinamarca, a O recente interesse do brasileiro lacaio das empresas nacionais e multinacio- Suécia, o povo brasileiro ainda não se famili- por política nais.” (Eu excluí os insultos que ele fez a arizou bem com a democracia e nem enconquem ele se refere). Eu pergunto, será que o trou o sistema político mais adequado para Durante muito tempo, não víamos tanta povo do Brasil merece os políticos que tem? si, ainda. O Brasil teve dois longos períodos gente no Brasil tão interessada assim em po- Será mesmo? de interrupção de sua democracia teórica, lítica como temos visto de 2013 para cá, De 2013 para cá, após o início dos pro- teve o regime getulista e o regime militar. O quando o Movimento Passe-Livre começou a testos desencadeados pelo Movimento Pas- Brasil tem problemas culturais, que remon- protestar nas ruas. Até um passado recente, se Livre, notou-se uma mudança de compor- tam a sua formação histórica e social. O Braa média da população brasileira encarava os tamento na sociedade civil brasileira. Muita sil não foi edificado para ser um país justo políticos como meros nomes de ruas, de ave- gente passou a demonstrar interesse pela com a maioria dos seus habitantes. Diferente nidas, de rodovias, de escolas públicas ou política. A sociedade brasileira se dividiu em dos Estados Unidos, o Brasil não teve propricidades. O brasileiro é um povo de tendência dois grupos opostos e rivais. Até artistas fa- amente um projeto de nação, de pátria. Co- hedonista, amante do lazer e do entreteni- mosos como atores e cantores, passaram a mo o restante da América Latina e o Caribe, mento, que ama o bom humor e a diversão, falar com frequência de política nas redes o Brasil veio a existir com a finalidade de ge- gostar de rir e de levar a vida na esportiva. sociais virtuais. Só que, esse novo fenômeno rar riquezas para fora, para o exterior e, para Contudo, o castigo que esse povo alegre comportamental da sociedade também expõe uma minoria. O Brasil se tornou um Estado e animado recebe, é ter muitos políticos que sentimentos de ódio e de intolerância por soberano mas, não se libertou totalmente da não lhe respeitam. Políticos que usam o di- parte da multidão. Desde que o Regime Mili- sua estrutura socioeconômica original, ainda nheiro de altos impostos para satisfazer os tar acabou nos anos 80, houve uma diversi- funciona como um território de exploração, só seus próprios interesses pessoais, que têm dade de escândalos políticos e de corrupção que adaptado para outra época e outras me- mentalidade patrimonialista e coronelista, no Brasil, exemplos, o escândalo Coroa trópoles, entre as quais, a sua própria elite. que não se dão ao trabalho de respeitar nem Brastel, o caso Jorgina de Freitas, o caso do E isso provoca impacto no comportamento os direitos humanos mais básicos do cidadão PC Farias e impeachment do Collor, os A- da sociedade brasileira, que demonstra ten- comum, como escolas públicas com boa qua- nões do Orçamento, o caso do ministro Ru- dências autoritárias e intolerantes à opiniões lidade de ensino, serviços públicos de saúde bens Ricupero, o senador Antônio Carlos Ma- divergentes, ou seja, não tem temperamento com boa qualidade, serviços de segurança galhães que foi acusado de ter acesso inde- democrático. Apesar de tudo, é preferível que pública com boa qualidade, serviços de vido a uma lista de votação onde constava o as pessoas se interessem por política, mes- transporte público com boa qualidade. O bra- voto de cada um dos senadores que partici- mo sentindo ódio, do que não se interessa- sileiro que não tem lá uma satisfatória quanti- param da sessão que cassou o mandato de rem. Porque, com a participação e com o in- dade de dinheiro não é devidamente ampara- outro senador, o caso dos “Vampiros” da Sa- teresse, as pessoas vão aprender mais rápi- do pelos serviços públicos, é tratado como se úde, o caso do Banco Marka, o caso da Ope- do. fosse gado bovino, não tem a sua dignidade ração Navalha, o da Sudam, o caso respeitada. Segundo o Conde Joseph de “Sanguessuga”, o Mensalão e mais recente o João Paulo E. Barros Porque precisamos fazer a Reforma Política no Brasil? Seus impostos merecem boa administração. Bons políticos não vem do nada. Para que existam bons políticos para administrar o país, toda a sociedade precisa colaborar para que eles possam nascer e terem sucesso. É preciso um sistema eleitoral moderno para melhorar a qualidade da política. Os políticos "tradicionais" tem horror à reforma política, porque ela pode mudar a situação atual onde eles usam e manipulam o eleitor e são pouco cobrados ! www.culturaonlinebrasil.net /// CULTURAonline BRASIL /// www.culturaonlinebr.org

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Outubro 2016 Gazeta Valeparaibana Página 6 29 - Dia Nacional do Livro A importância de se saber interpretar o que se lê Atualmente, debate-se muito sobre a importância da educação escolar, da boa alfabetização. Muitos chegaram à conclusão que o principal obstáculo para o desenvolvimento do Brasil é a má qualidade da educação escolar. Contudo, segundo o ministério da educação brasileiro, o índice de analfabetismo no país tem se reduzido. Saber ler e escrever, a maioria da população sabe. Se eu escrever a palavra “lanche” numa lousa, todos que aprenderam a ler e escrever vão facilmente entender o que está escrito. Na internet, notamos que muita gente escreve cometendo muitos erros ortográficos, mas conseguem expressar opinião. O português é um idioma descendente do latim, é uma língua gramaticalmente complexa, erudita, é um idioma em movimento, muda o seu vocabulário e a sua ortografia com o tempo, muitas palavras caem em desuso, neologismos surgem. A língua portuguesa não tem a simplicidade da língua inglesa, por exemplo. Então, mesmo para o povo brasileiro que a tem como língua materna, a língua portuguesa não é fácil de se ensinar e nem de se aprender. Soma-se a natural dificuldade do idioma, a falta de hábito de leitura. As pessoas gostam de ler revistas de entretenimento mas, muitos não gostam de ler livros, obras eruditas. Não se familiarizam com palavras mais formais, com norma gramatical culta. E como consequência, não conseguem entender o que está escrito em muitos documentos oficiais, não conseguem entender palavras arcaicas, não conseguem interpretar textos escritos em obras que contenham palavras mais formais e mais eruditas. Não conseguem compreender discursos falados em linguagem formal, como exemplo, o discurso de um político em público, de um deputado no Parlamento. E também, têm dificuldade de pensar por conta própria e formar as suas próprias opiniões sobre assuntos importantes. É necessário que as pessoas sejam estimuladas a ler mais de forma que aprendam a interpretar o que leem, pois isso é uma das chaves para o desenvolvimento do Brasil. João Paulo E. Barros O Livro O livro é uma das maiores invenções que o homem tem acesso, por meio do livro são trans- mitidos conhecimentos, culturas de diversos povos e a história do homem não só é preservada como também transmitida de geração para geração. A importância do livro é indiscutível e neste artigo veremos a importância de ler bons livros. Conhecimento Bons livros transmitem conhecimento ou saberes. O conhecimento humano deve muito aos livros que permitiu que uma geração mostrasse a geração futura o que ela aprendeu, seus testes, pesquisas e resultados bem sucedidos de trabalhos feitos por homens de sua época. Quando lemos bons livros estamos nós interagindo e abstraindo o conhecimento de outras pessoas sobre os mais diversos assuntos. Senso crítico Bons livros nos ajuda a desenvolver o nosso senso crítico, isto é, a capacidade de ler e interpretar cenários a nossa volta e ao mesmo tempo nos posicionar de maneira efetiva e contundente quer a favor, quer contra ou ainda com uma postura neutra. Quando criticamos algo precisamos fazer baseado em parâmetros concretos e precisamos demonstrar não só o conhecimento de causa, mas capacidade de discernir entre o simples e o complexo, o trivial e o inovador e assim por diante. Cultura A importância de lermos bons livros é que eles transmitem cultura, pois pessoas que leem pouco tende a ter pouca cultura. Por cultura entenda: estilos de vida, arte, modos de pensar e relacionar-se dentro de uma sociedade ou com outros povos. Através da leitura podemos conhecer detalhes surpreendentes do mundo ao nosso redor. Melhora a escrita Outra grande contribuição que o livro pode dar a uma pessoa é ajudá-lo a desenvolver a escrita ou a redação. Pessoas que leem pouco tendem a escrever mal. Quando escrevemos nós estamos reproduzindo de uma maneira direta ou indireta aquilo que sabemos, como sabemos, e que argumentos usaremos para apresentar este conhecimento. O hábito da leitura de livros poderá nos ajudar a desenvolver nossos argumentos, palavras, uso do idioma, entre outros recursos tão importantes para o desenvolvimento de uma redação aceitável. Prazer Por fim concluímos que a leitura também é prazerosa especialmente quando escolhemos bons livros para ler, o prazer da leitura está no fato de que muitos livros nos leva a viver a história ou local sobre o qual o livro foi escrito. Não é simplesmente uma leitura, mas é um convite a uma viagem junto com o autor. Naturalmente que bons autores fazer isso e levam de fato seus leitores a viver aquilo ou pelo menos parte daquilo que ele mesmo viveu. Carl Jung Nada tem uma influência psicológica mais forte em seu ambiente, e especialmente em seus filhos, do que a vida não vivida de um pai. ***** A vida não vivida é uma doença que pode levar à morte. ***** Sua visão só ficará mais clara quando você olhar para dentro do seu coração. Aquele que olha para fora, sonha. Quem olha para seu interior, desperta. ***** A solidão não chega por você não ter pessoas ao seu redor, e sim por não conseguir comunicar as coisas que são importantes para você, ou por manter certos pontos de vista que os outros consideram inadmissíveis. ***** Me mostre uma pessoa sã e eu a curarei pa- ra você. ***** Temos a tendência de olhar para o passado, para nossos pais; e para a frente, para nossos filhos, para um futuro que nunca iremos ver, mas do qual queremos tomar conta. ***** Aquilo a que você resiste, persiste. ***** A depressão é como uma senhora vestindo preto. Se ela chegar, não a expulse. É melhor convidá-la para a mesa e ouvir o que ela tem a dizer. ***** Às vezes, as mãos resolvem um mistério com o qual o intelecto lutou em vão. ***** www.culturaonlinebrasil.net /// CULTURAonline BRASIL /// www.culturaonlinebr.org

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Outubro 2016 Gazeta Valeparaibana Página 7 20 - Dia do Poeta esse encontro e, Paulo chega com a guitarra. Ai, ai, ai, eles vão cantar e desafinar como sempre. ÚLTIMO SARAU Abraça daqui e abraços dali, lembranças engraçadas de tudo que temos feito. As discussões nos ensaios, o nervosismo antes das apresentações e as comemorações depois dos espetáculos às vezes trágico, dramático e outros bem divertidos. Ufa! Dia quente e me sentindo abafada. Talvez Ah! Vem chegando os mais sensíveis e choran- quando eu chegar ao meu próximo destino, lá do, caramba, vão acabar com esse encontro pi- seja mais ameno, é o que espero porque mais toresco com essas lamúrias. Pedi tanto uma quente que isso só o inferno! postura diferente nesse dia, pois gostaria que Bem! Vou tentar me aquietar e aproveitar esses essa homenagem, esse momento, fosse difemomentos observando meus amigos queridos. rente e sem melancolia. Ih! Lá vem Matilde falando alto que parece uma Eis que chegam os poetas, músicos, escritores, maritaca, sempre foi assim, meus ouvidos até professores e outros amigos queridos. Pronto! O doem, o Pedro sempre com essas gracinhas, sarau ia começar. não faz outra coisa a não ser piadinhas ridícu- Como planejado e a meu pedido, cantaram mi- las. nhas músicas preferidas, encenaram alguns es- Bem, pelo menos o Daniel trouxe flores e desca- quetes divertidos, declamaram algumas poesiradamente vinho pra encher a cara. Querida Mi- as. lena toda providencial, preparou quitutes, Eva Dali me fui, o corpo para o fogo do crematório, enfeitou tudo com flores, mas acho que exage- mas a alma... Só Deus sabe. rou de tão forte o cheiro que estão exalando. Esse foi o último sarau e meu velório! Legal mesmo está o movimento da galera que preparou um musical para animar um pouquinho Genha Auga – Jornalista MTB: 15.320 POESIA EM FOLHAS Genha Auga As folhas das árvores por entre um feixe de luz, Balançam preguiçosamente... Adornam a paisagem, Marcam cada mudança de estação Folhas soltas pelo chão, Reagem a cada movimento do dia Acomodam-se ao anoitecer Modificam o ar. Suas flores estão chegando Para encantar nossos dias, O Dia do Poeta é celebrado anualmente em 20 de outubro. Dançam ao vento, Prenúncio do amor. Esta data celebra o profissional, que pode (e deve) ser reconhecido como um artista escritor, que usa de sua criatividade, imaginação e sensibilidade para escrever, em versos, as poesias que faz. O principal propósito desta data é incentivar a leitura, escrita e publicação de obras poéticas nacionais. Há séculos as pessoas se emocionam, riem e choram com essas belas produção artísticas, consideradas como uma das Sete Artes Tradicionais. Origem do Dia do Poeta O Dia Nacional do Poeta é comemorado a nível extraoficial, ou seja, não há uma lei que oficialize o 20 de outubro como Dia do Poeta no país. Mas, a data foi escolhida por uma razão bastante especial para os poetas brasileiros. No dia 20 de outubro de 1976, em São Paulo, surgia o Movimento Poético Nacional, na casa do jornalista, romancista, advogado e pintor brasileiro Paulo Menotti Del Picchia. A data homenageia e lembra este momento ímpar para os poetas do Brasil. Curiosidades sobre o Dia da Poesia Antigamente, a poesia era cantada e acompanhada pela lira, um instrumento musical típico da Grécia. Por isso, a poesia é classificada como pertencente ao gênero lírico da literatura. Os poetas ainda celebram o 31 de outubro como o Dia Nacional da Poesia, oficializado através da lei 13.131, de 3 de janeiro de 2015. A escolha desta data é uma homenagem ao nascimento do poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade. Antes da criação da lei que oficializa o Dia Nacional da Poesia em 31 de outubro, esta era celebrada em 14 de março, em caráter não-oficial. A escolha desta data era uma homenagem ao poeta brasileiro do romantismo Castro Alves, que nasceu em 14 de março de 1847. Saiba mais sobre o Dia Nacional da Poesia. Ainda existe o Dia Mundial da Poesia, em 21 de março, que celebra a nível internacional este gênero artístico. Esta data foi criada durante a XXX Conferência Geral da UNESCO, em 16 de novembro de 1999. Como o poeta declama versos, O vento leva suas folhas. Cada galho vira um soneto, Cada folha um derradeiro verso. No caminho com Maiakóvski "[...] Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem; pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada. Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada. [...]" www.culturaonlinebrasil.net /// CULTURAonline BRASIL /// www.culturaonlinebr.org

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Outubro 2016 Gazeta Valeparaibana Página 8 Cultura simbólica O Culto dos Impérios do Espírito cristã primitiva. A transposição da profetologia do Paracleto ponderações de Agostinho da Silva, a ideia Santo Por: Loryel Rocha (Fâraqlit) não é sensível ao nível das concepções adoptadas de ser o Brasil o próprio Portugal Império que pelo Islão sunita, sob a sua forma exterior. Porém, ela influencia os teósofos místicos, a metafísica do Sufismo e, particularmente, a teosofia shi'ita, autêntica religião do Consola- tem por missão unir, por meio do mesmo substrato linguístico, os povos que receberam Transcorreu em Portugal em Setembro de dor (Ver Evangelho de Barnabé), da qual a Igreja paulina se influência de Portugal; e de aqui existir e re- 2016 o Congresso Internacional do Espírito afastou, centrando-se nos temas do pecado original e da sistir, persistentemente, o culto do Espírito Santo tendo como palco Coimbra, Lisboa e Alenquer. O tema dos Impérios do Divino Espírito Santo, conjuntamente com o Quinto Império e o Sebastianismo perpassam toda a respectiva redenção pelo sacrifício cruento (Theologia crucis). Cf. Henri Corbin, L'idée du Paraclet en philosophie iranienne, in En Islam Iranien, v. 2, liv. VIII, cap. III. Mahomed († 632) autodenomina-se Mestre da Hora, embora não fixe qualquer data precisa para o evento, proclamando apenas que "a Santo que é oriundo do inconsciente coletivo português, sublinha-se que História e Mito se confundem na nacionalidade portuguesa, mas, de modo algum acham-se assinalados historiografia de Portugal deitando profundas ordem de Deus se manifesta" (Ata amr Allah). na concepção de “Império” do Brasil criada raízes no Brasil, de tal modo que sem esses por José Bonifácio. fundamentos a história de Portugal permane- A propósito da popularidade do Império do ce como que lacrada ao seu verdadeiro en- Divino Espírito Santo no Brasil, na década de Registra Câmara Cascudo, em seu Dicionário tendimento. 1820, convém recordar que José Bonifácio do Folclore Brasileiro, de 1954, que as festas preferiu o título de Imperador ao de Rei, por- e as folias do Divino eram de tal modo disse- “O Paracleto ou Espírito Santo é uma que era “mais amado pelo povo”. Cf. Câmara minadas e cultivadas Brasil afora que a palaentidade etérea e inefável, celebrada Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro, vra “Imperador” tinha personalidade própria e conjuntamente por judeus e por cris- Rio de Janeiro, 1962. Com efeito, a Festa e o fama tal que suplantava a palavra “Rei”, le- tãos, cinquenta dias depois da Pás- Regime político iniciaram juntos um novo tem- vando José Bonifácio a optar pelo título de coa, na festa dos Tabernáculos e do po, as barracas do Império do Divino diante “Imperador” do Brasil para D. Pedro I. Pentecostes, respectivamente, come- do Paço Imperial. morando a descida do Fogo do Con- Cf. Alenquer, in Nova Águia, n. 3 (1o semestre de 2009), p. solador, ou Paracleto, sobre os Discípulos, consoante a narrativa dos Atos dos Apóstolos (II, 1-4).” (Manuel J. Gandra). Incapazes de penetrar a semântica genuina dos Impérios do Divino, a devoção mais autenticamente pneumatológica da cultura lusía- 140-151. Cf. José Diniz da Graça Motta e Moura, Memória Histórica da notavel Villa de Nisa, v. 1, p. 58: “imperfeita imitação das festas e sacrifícios que os romanos anualmente faziam a da, autores houve que os advogavam suscetí- Ceres, filha de Saturno e Cibele, deuses da agricultura [...]”. Entre cristãos esta solenidade tem oitava pri- veis, entre outros, de enraizar-se em cultos Salete da Ponte reata esta opinião no artigo A Simbólica de vilegiada e inaugura um período novo no ano eclesiástico, prolongando-se durante 24 semanas, até ao primeiro Domingo do Advento pagãos em louvor de Ceres , de Júpiter ou Pluvius, ou, simplesmente, de cultos politeístas . Festividades no Ciclo dos Tempos, in Boletim Cultural Da Câmara Municipal de Tomar, n. 21 (Out. 1997), p. 13-26.
 Cf. Luís Ribeiro, Os Festejos do Espírito Santo, in Almanaque dos Açores – 1934, Angra do Heroísmo, 1933, p. 72-76.
 (obrigatoriamente entre 27 de Novembro e 3 Cf. Teófilo Braga, Cantos Populares do Arquipélago Açoria- de Dezembro). O Auto do Império encena de forma simbólica no, v. 2, p. 202. O argumento do culto do Império enquanto o advento da Terceira Idade do Mundo, de sobrevivência do gentilismo foi um dos mais invocados pelas O Pentecostes também é denominado Pás- acordo com uma tese que se pode buscar no autoridades eclesiásticas para proibir e suprimir os festejos. coa Rosada, comemorando a descida do Fo- abade cisterciense Joaquim de Fiore e nos go do Consolador, ou Paracleto, sobre os Dis- meios joaquimitas e segundo a qual a história O fundador do “Império” do Brasil assume o cípulos, consoante a narrativa dos Actos dos da humanidade percorreria três Tempos, des- nome Império para o novo regime, mas, sub- Apóstolos (II, 1-4). Depois da Ascensão aque- de a Criação até ao Fim do Mundo, vividos traído de sua tradição e natureza íntimas. A les regressaram ao Cenáculo e ali esperaram cada um sob a influência de uma das três confusão dos títulos e a possível associação em oração, durante 9 dias, a realização da pessoas da Trindade. Assim, se a lei mosaica entre os dois Imperadores , o religioso e o promessa de Jesus. fora específica da Idade do Pai e a lei evan- temporal, não estabelece uma hierogamia, gélica da do Filho, a futura lei do Evangelho antes inaugura descontinuidade e diferença O culto do Divino Espírito Santo sob a forma Eterno sê-lo-ia da do Espírito Santo. Cada um pois legitima a quebra de símbolos e de pode- de Império é expressão própria e exclusiva do de tais períodos históricos, encarnando perso- res do Divino e da Casa de Bragança. Esta mundo lusíada (nos Açores e no Brasil con- nalidade própria, consubstanciaria diferentes confusão entre os poderes, religioso e tempo- serva ainda a fidelidade às origens) não tendo formas religiosas, sucessivamente manifesta- ral, marcará para sempre o cenário sócio- qualquer similitude com as devoções homóni- das de Oriente para Ocidente. A sede da Igre- cultural brasileiro. mas que existem por todo o restante orbe ca- ja do Pai fora Jerusalém, a do Filho, Roma. A tólico. Terra Santa vindoura onde situá-la? Camões O Brasil, reatualizado no culto do Espírito chamou Nova Roma a Lisboa. De Mafra se Santo representa uma futura-Idade, uma idea- Isso mesmo concluiria Jaime Cortesão, uma diz que pelo menos durante um dia há-de ser ção do novo Reino para os homens no qual vez na posse dos resultados de um inquérito Roma. Seja como for, os iniciados na doutrina se instituiria a fraternidade e a tolerância. Fixa realizado por sua iniciativa em Espanha, onde dos espirituais franciscanos identificavam-na -se nisso o entendimento de Agostinho da Sil- se não acha o mínimo vestígio da devoção do com Alenquer. Segundo eles essa era a povo- va sobre o culto do Espírito Santo cujo evento Império, nem sequer no território aragonês, ação portuguesa que maior similitude tirava comporta sabedoria das gentes de um passa- de onde era natural a Rainha Santa Isabel, de Jerusalém, a qual constitui no círculo judai- do remotíssimo de importância sem igual que sua mais que improvável “inventora”, como co-cristão-islâmico o modelo paradigmático registra o dinamismo da resistência e o espíri- creio ter já demonstrado em outra ocasião. da Cidade Santa, o pólo teofânico, por exce- to ecumênico, invocadores do que hoje pode- ______________________________ lência (i. e., da revelação divina). mos chamar de uma ideologia da libertação ou a anunciação do futuro reparado dos erros Também o Islamismo se preocupa desde os seus primórdios É consabido a marca indubitável que o Culto e mazelas sociais. O Brasil será sempre o pa- com a eminência da Hora (o Fim dos Tempos), isto porque a do Divino Espírito Santo imprimiu à história de ís do Futuro, uma “infância” que é destita por- profetologia islâmica reproduz nos seus traços gerais a Cris- Portugal e, consoante leituras baseadas em que não é a do Menino Imperador. tologia Ebionita, paraclética, herdada da comunidade judaico- CULTURA SIMBÓLICA - Lévi-Strauss, na obra Antropologia Estrutural, definiu os símbolos como os equivalentes significativos do significado. O símbolo supõe uma estrutura dupla, um representante e um representado. É nesta relação que tanto o estruturalismo como a linguística moderna (Saussure) realçam como sendo primordial, embora a linguística destaque a relação entre o significante e o significado no signo. Ora, os símbolos são mais reais do que aquilo que simbolizam, já que o significante precede e determina o significado. Os factos sociais são simbólicos. Desta forma, a cultura é simbólica pois pode ser considerada como um conjunto de sistemas simbólicos, como por exemplo a linguagem, as regras matrimoniais, as relações económicas, a arte, a ciência, a religião, entre outros. Assim, a explicação do símbolo pelo “real” é ilusória, sendo naquela interpretação da cultura que necessitamos instalar-nos, recusando toda e qualquer redução ao naturalismo. www.culturaonlinebrasil.net /// CULTURAonline BRASIL /// www.culturaonlinebr.org

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Outubro 2016 Gazeta Valeparaibana E agora José? Debatendo a educação Página 9 Parte 1 infraestrutura gente. É muita escola. É um país imenso. Faça uma simples busca no google sobre a situação física das escolas brasileiras. Digites exatamente esta frase no google “situação física das escolas brasileiras” e depois conte-me o que encontrou. Só para você ter uma ideia, apenas 0,6% das escolas brasileiras têm infraestrutura básica próxima da ideal para o ensino. Este resultado é fruto de uma pesquisa intitulada “Uma escala para medir a infraestrutura escolar”, e está disponível neste link: https://goo.gl/kRlg6A. Os dados nada animadores sobre as escolas que vão ofertar o Ensino Médio “integral” não param por ai. 56% das escolas no Brasil não possuem água encanada, sanitário, energia elétrica, esgoto e cozinha. Infraestrutura supérflua para o ensino técnico, não? Em 22 de setembro de 2016 o Presidente Michel Temer, o Ministro da Educação Mendonça Filho e sua equipe técnica se reuniram para apresentar o novo Ensino Médio. Através da Medida Provisória (MP) 746, de 22 de setembro de 2016, publicada em 23/09, o Ministério da Educação estabeleceu a mudança estrutural do Ensino Médio no Brasil. Esta MP vem no sentido de acelerar a tramitação do Projeto de Lei 6840/2013 de autoria do economista e Deputado Reginaldo Lopes (PT -MG). O Ensino Médio no Brasil vem sendo alvo de diversas discussões há algum tempo. As notas do ensino médio, sobretudo as do IDEB e do ENEM vem apontando para a necessidade de se rediscutir a estrutura dessa modalidade de ensino no Brasil. Não! A infraestrutura básica para o atendimento mínimo dos nossos alunos não são coisas supérfluas. No ato de assinatura da MP do Ensino Médio foi dito que este modelo de currículo é uma tendência seguida por países de primeiro mundo. Ótimo, depois vamos discutir isso. Mas, se é para compararmos, vamos iniciar pela base? Isto é, vamos iniciar pela estrutura das escolas? (depois me aprofundo sobre o currículo, a participação da comunidade, a formação dos trabalhadores em educação e sobre seus salários). Bem, novamente te sugiro fazer uma busca no google sobre a infraestrutura das escolas em qualquer país dito de primeiro mundo de sua preferência. Você verá uma diferença gritante, não só na arquitetura da escola, mas na sala de aula, disposição das carteiras, materiais que são distribuídos, tomadas pela sala (sim, acredite, eles têm tomadas nas salas de aula!), lousa sem rachaduras, ar condicionado, pare- Este não é o primeiro texto que vou abordar sobre o Ensino Médio, e des limpas e conservadas, enfim... Tudo o que lembra uma escola, e também não será o último sobre este tema. Em 2014 publiquei o texto não uma prisão. intitulado “Dilma propôs retirar sociologia e filosofia do currículo escolar?”. Nesta oportunidade já havia traçado algumas análises em cima das propostas que vinham aflorando sobre a reforma do Ensino Médio. Pois bem, ai está. Em entrevista coletiva pós-ato de assinatura da MP, o Ministro da Educação Mendonça Filho disse: “no caso da mudança da estrutura do modelo de educação de nível médio não tem custo para o Estado, na verdade é uma estrutura muito mais legal, normativa e de forma de Basicamente vou resumir o que a imprensa já noticiou apenas para gestão dela do que propriamente algo que demande mais recursos”. E contextualizar o tema deste artigo. O Ensino Médio brasileiro passara ainda: “especificamente falando em escola de tempo integral, todo re- a ter a duração de 4.200 horas, ante as 2.400 estabelecidas no Art. 24, curso que o governo federal está alocando, ele possibilitará aos Esta- I da Lei 9.394/1996. Dessas horas, as disciplinas do ensino médio se- dos incorporar à sua rede escolas, que hoje funcionam em tempo par- rão distribuídas da seguinte forma. cial, transformando-as em modelo, em tempo integral com esse um 1º ano do Ensino Médio. Disciplinas comuns, de acordo com a Base bilhão e meio que serão alocados para o orçamento de 2017/2018, pa- Nacional Comum Curricular. ra fazer face ao apoio aos Estados. Então, os Estados a rigor entrarão 2º ano do Ensino Médio. Metade do ano igual para todos e a outra me- com muito pouco. A maior parte do recurso serão recursos federais do tade devendo optar por uma das áreas do conhecimento (linguagens; Ministério da Educação”. matemática; ciências da natureza; ciências humanas e formação técni- Lembrando que o Plano Nacional de Educação (meta 5) prevê que 50- ca profissional). % das escolas de Ensino Médio sejam de tempo integral, até 2024, 3º ano. Prevalece a escolha do estudante sobre a área escolhida. Eduardo Deschamps afirma que a implementação deste sistema será Basicamente o grosso deste projeto é isso. Agora vamos para a dis- gradual e de acordo com a disponibilidade financeira de cada Estado. cussão. Bem, tenho várias dúvidas e várias críticas para apresentar e Pois bem, novamente batemos na tecla da infraestrutura. O Ministério propor a discussão. Por isso, vou fazê-lo separadamente. Para cada da Educação não acredita que será necessário mexer na infraestrutura problema, apresentarei um artigo. Pode ser que, o que hoje é uma dú- das escolas. Pergunto: como vamos oferecer ensino médio em tempo vida, amanhã poderá ser uma certeza, ou apenas um equívoco meu. integral e com curso técnico diante da estrutura que temos? Como O que sugiro ao leitor é que realmente pesquise diferentes fontes, já queremos atingir patamares básicos de educação com o prédio e os que a mídia não tem ajudado muito. Posteriormente trarei a discussão materiais que temos disponíveis? em outros textos e vídeos sobre algumas notícias que não consegui Devo relembrar que há sim escolas com estrutura básica neste país ainda confrontar com esta Medida Provisória. (em torno de 44%, segundo a pesquisa apontada), porém, muito me Entendo que a mudança no ensino médio seja necessária. Realmente estranha que a parte física, isto é, estrutural do projeto das escolas em não dá para defender este modelo que está ai. Porém, nós precisamos tempo integral não esteja sendo discutida. Que essa parte não seja, discutir vários pontos que estão sendo deixados para trás, e um des- sequer, apontada pelos “especialistas” que compõem a alta cúpula do ses pontos é a infraestrutura. MEC. Vamos oferecer ensino técnico com base em qual estrutura es- Entendo que a infraestrutura seja a base para o que se quer construir (literalmente). Como podemos pensar educação sem pensar escola? colar? Vamos que temos? oferecer aulas regulares com qual estrutura escola? A Talvez, você, leitor, já tenha notado que a estrutura física das nossas escolas seja formada por carteiras, lousa e só! Basicamente o instrumento de trabalho do professor é o livro didático e o giz (quando tem). Algumas escolas apresentam outros equipamentos, mas cada escola é uma escola. De acordo com a planilha de notas do ENEM (2014), o país tem pelo menos 9.425 escolas que oferecem o Ensino Médio. Em 2014 atendemos uma taxa líquida de matrícula com nada menos que 5.871.191 estudantes espalhados pelo território brasileiro. É muita Ivan Claudio Guedes, 36 Geógrafo e Pedagogo. ivanclaudioguedes@gmail.com www.icguedes.pro.br www.culturaonlinebrasil.net /// CULTURAonline BRASIL /// www.culturaonlinebr.org

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Outubro 2016 Gazeta Valeparaibana Página 10 Tempos de medo A volta do medo cia. Temiam que um dia acontecesse uma revolu- no alto que tivesse como caminho obrigatório a ção e, quando isso acontecesse, o captador de rua em que moravam. Em último caso, algum Medo do futuro? Medo de assombração? Medo de polícia? Medo de ladrões? Medo de bala perdi- grana do jornal seria testemunha dele para não ser tratado como inimigo, “não ir para o paredão”. “corajoso” que topasse lhe sua casa e voltar sozinho. fazer companhia até da? Medo de perder o emprego? Há muitos tipos Recentemente, pensando nisso e no fim do que Sádicos, nós moleques procurávamos passar de medo. Um deles nos parecia extinto, o medo chamavam “perigo vermelho”, com os explorado- mais medo nos dois. Para ir embora, tinham que político, de instalação de uma ditadura, de um re- res crentes de que o capitalismo é o fim da histó- passar pelo largo do Rosário, sem iluminação ne- gime de exceção em que ter certas ideias é peri- ria, eu disse a amigos: “A União Soviética podia nhuma, com uma igreja velha, construída por es- goso. ser uma merda para quem morava lá, mas seu fim cravos e abandonada havia muito tempo. Era uma Há pouco mais de dois anos a gente acreditava que isso era coisa do passado, no Brasil. Pois olha ele aí de novo. Vejo muita gente com medo. Eu, se não tenho medo disso, tenho pelo menos uma cisma, um temor. Parece que temos muito a temer. Mas não vamos tratar só desse tipo de medo. foi uma merda para os trabalhadores do resto do mundo: temos agora o capitalismo de rédea solta, sem medo de revoluções”. Nicola não precisava mais ter medo Tenho um bando de amigos na Zona Leste de São Paulo, uma turma muito bem-humorada. Por exemplo: o Hélio, com diabete, acabou tendo que igreja bonita, com sino em uma das janelas. Mas na escuridão, parecia meio tétrica. Tinha fama de assombrada. Sempre tínhamos “notícia” para dar ao Tonho de uma assombração nova na igreja do Rosário. Contávamos com detalhes o aparecimento de alguma alma penada, quase matando de medo pessoas corajosas… E ele ficava apavorado. Aí sim, não ia embora sozinho. A meu ver, medo, em certas circunstâncias, é uma coisa normal, faz parte do instinto de sobrevivência. Só os malucos não têm medo. É diferente de covardia. Nas tais mídias sociais vemos um monte de covardes se arvorando de corajosos, ofendendo as pessoas que pensam diferente deles. Sentem-se protegidos ali. Cara a cara, se borrariam de medo. A não ser que estejam em bandos, e os “inimigos” sejam em minoria e mais fracos. São assim a coragem e o medo dos covardes. Vi muitos insultos de “corajosos” por aí e prefiro falar do medo. O medo de verdade. Aí vão alguns textos sobre medos de tipos variados e também ditados e frases ditas por pensadores. amputar um dedão do pé. Como sou militante da Sosaci – Sociedade dos Observadores de Saci, ele me mandou um recado brincalhão, sobre a perda do dedão: “Vou virando Saci aos poucos”. Mas não é dele que quero falar sobre o medo. É sobre o Nicola, da mesma turma, que morreu há uns três anos. Com câncer no reto, fez uma cirurgia e ficou sem ânus. As fezes saíam por uma bolsinha amarrada à barriga. Mal saiu do hospital, foi festejado pela turma, incluindo o próprio Hélio. Diziam que a partir dessa cirurgia ele não precisava mais ter medo de nada. Por quê? Bom, tem o ditado “quem tem cu tem medo” e ele não tinha mais. Às vezes, a estratégia era outra: ficávamos escondidos no escuro, no largo do Rosário, e quando eles passavam em frente, tiritando de medo, pegávamos os estilingues e dávamos pedradas no sino. Era uma correria! Uma noite, já na minha adolescência, o feitiço virou contra o feiticeiro. Com uns 14 anos de idade, eu estava na fase de aprendiz de barbeiro, trabalhando com meu pai. Pra me incentivar, ele deixava eu ficar com todo o dinheiro que eu ganhava, sem dar nem uma comissãozinha pra ele. Eu fazia umas quatro barbas e ia lá pro alto da cidade, mais de um quilômetro morro acima, jogar sinuca num bar onde quase O medo mais inédito não iam os meirinhos (oficiais de justiça, na lin- Medo de polícia x medo de revolução A gente passa por situações de medo, e a grande coragem é saber não ser dominado por ele. Durante a ditadura tivemos que ter esse comportamento quase que constantemente. Quando militava na imprensa alternativa, havia um certo medo latente de ser pego pela polícia, torturado, “desaparecido” etc. Mas nem por isso deixávamos de fazer o que achávamos que devia ser feito. Dominávamos o medo, em vez de sermos dominados por ele. Um personagem dos meus tempos de criança era o João Gravatá, um daqueles homens que vagam de uma cidade a outra, vivendo miseravelmente do que lhe davam. Ele tinha elefantíase, suas pernas e seus pés eram inchados demais, e só andava descalço. Diziam que ele não tinha medo de “quase nada”. E vi provarem isso. Algum gozador o ameaçava de todas as formas, inclusive com arma de fogo, e ele nem ligava. Não se abalava. guagem atual), que faziam a ronda tentando impedir menores de permanecerem nesses ambientes. Jogava apostado, com o pessoal da zona rural, e quase sempre ganhava. Num dia de semana de julho muito frio, perto de zero grau, fui jogar sinuca no final da tarde. E comecei a ganhar… ganhar… ganhar… Quando vi, era mais de uma hora da manhã. Olhei os fregueses que estavam ali, nenhum morava no centro da cidade. Joguei a última partida e à uma e meia da manhã desci pela rua escura, mal dando para en- Um dos jornais em que militei foi o Versus. Numa Só tinha medo de duas coisas: assombração e xergar as lâmpadas, muito fracas, que mal eram fase mais agressiva da polícia, a gente chegava maria-mole. Quando achavam que ele estava in- vistas com a neblina intensa. Naquele frio, não para fechar o jornal depois das onze da noite comodando num bar, o dono pegava uma maria- havia ninguém fora de casa. (tínhamos empregos para nos sustentar em outros lugares, não ganhávamos nada no Versus) e na porta havia pelo menos uma perua Chevrolet Veraneio (veículo usado pelos órgãos de repressão política) e vários homens fortões na porta, olhando na cara da gente e dando murros nas mãos enquanto entrávamos na casa. Forçávamos a barra e passávamos sorrindo. Marcos Faerman, o Marcão, era o editor-chefe, e mole e chacoalhava perto dele. Aí se desesperava, saía correndo desajeitadamente. Adultos com medo de assombração? Eu sempre disse que feliz é o lugar onde adultos têm medo de assombração. É lugar não violento, em que não é preciso ter medo dos vivos, de assaltantes. Em certos lugares, quem tem que passar à noite rente a um muro de cemitério, passa rezando. Em São Paulo, não vejo ninguém com Fui assobiando, despreocupado, pelo meio da rua, quase sem enxergar nada. De repente, um gato preto passou correndo e rosnando na minha frente, rente aos meus pés. Dei um pulo e me arrepiei todo. Aí bateu o medo. Pior: uns cem metros abaixo ficava a igreja do Rosário, e comecei a pensar se “por castigo” alguma assombração me cercasse como castigo por eu assombrar o Tonho e o Zé. costumava dizer, brincando: “Nessa questão, a medo dos mortos, de “almas do outro mundo”. O Fui pela calçada do outro lado. Mas lembrei que gente tem que se comportar como o povão quan- medo, para quem passa junto a um cemitério, é no escritório de contabilidade que ficava nessa do acontece alguma desgraça com a gente, dizer: que pule um assaltante de dentro dele. calçada, poucos dias antes havia morrido traba- foi Deus quem quis”. Não deixar de fazer as coisas. Por falar nos jornais alternativos, havia também o medo de gente “do outro lado” (o dos ditadores e seus beneficiários). Apesar de poderosos, muitos tinham medo de acontecer aqui uma revolução que mandasse um monte deles para o paredão. Pois é, quando era criança, na minha cidade alguns adultos tinham medo de ir pra casa sozinhos, depois de certa hora da noite. Vou citar dois, mas trocando os nomes deles. Zé e Tonho, que moravam na parte mais alta da cidade morriam de medo de assombração! As ruas eram escuras, muito mal iluminadas, e lhando nele um rapaz que eu conhecia. Tive medo de ele aparecer pra mim ali. Fui então pelo meio da rua, com as pernas tremendo. Até que não resisti e desembestei rua abaixo, me arriscando a tropeçar em alguma pedra e cair, porque não enxergava nada. Por sorte não me esborrachei no chão, correndo às cegas. Colegas que trabalhavam no jornal Movimento me ninguém andava de carro, era sempre a pé. Eles Mas na semana seguinte já estava de novo as- contaram que alguns empresários contribuíam ficavam no centro da cidade (não juntos, cada um sustando o Tonho e o Zé, que continuavam mor- com ele mas não com anúncios. Se os nomes de- na sua) confiando que quando fossem embora rendo de medo. les ou das suas empresas aparecessem no jornal, alguém iria “subir” junto com eles. Não era inco- ficariam mal com o governo e a repressão. Senti- mum ver um deles lá pelas onze da noite procu- am-se como se estivessem comprando indulgên- rando desesperadamente alguém que morasse lá Mouzar Benedito www.culturaonlinebrasil.net /// CULTURAonline BRASIL /// www.culturaonlinebr.org

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Outubro 2016 Eleições Gazeta Valeparaibana Página 11 Exercendo a cidadania FRASES SOBRE MENTIRAS Está na hora de agir novamente. Hora de fazer a diferença através das nossas escolhas, e isso se dá exercendo a cidadania através do direito que conquistamos que é o de votar. Nessas eleições que ocorrem agora, estaremos elegendo prefeitos, vice-prefeitos e vereadores, que integrarão as Câmaras Legislativas Municipais. As eleições ocorrem de 4 em 4 anos, o primeiro turno em 02 de outubro, se houver necessidade haverá um segundo turno que ocorrerá no dia 30 de outubro. Esse segundo turno acontece somente em municípios com mais de 200 mil eleitores. Acredito que a participação ativa é necessária, somos nós ajudando a fazer uma sociedade mais justa e igualitária, inseridos na nossa história, sem ficar passando a responsabilidade para os outros. Será que dá para dizer que as pessoas estão mais conscientes de que são elas que têm o poder de escolher o rumo que queremos para o nosso país? De que são elas que possuem voz? Que só exercendo a cidadania de maneira plena poderemos fazer a diferença? Ser cidadão é exercermos nossos direitos, cuidar para que os mais desprotegidos e vulneráveis tenham seus direitos garantidos e respeitados, é cumprir com nosso dever. Votar vai muito além de depositarmos nosso voto na urna simplesmente. Começa antes, com a escolha do candidato. Com o voto consciente. É o momento de exercer nossa cidadania, escolhendo aquele que tem propostas e projetos que realmente tragam melhorias a população. Que coincidam com aquilo que esperamos que seja feito no sentido de melhorar e organizar a sociedade. Votando exercemos um direito humano fundamental, o da liberdade de escolher com consciência, de exercer o poder que é dado através do voto. E para fazer isso é necessário conhecer os candidatos, suas propostas, seus argumentos, se coincidem com o que penso e espero, se respeitam a cidadania, os cidadãos, e se possuem propostas de políticas públicas que realmente são necessárias e atendem as nossas necessidades. Somos uma República Federativa onde vigora o Estado Democrático de Direito. Votar faz toda a diferença, mas votar com consciência de que o nosso voto pode fazer acontecer às mudanças que queremos ver. Mudanças políticas e sociais que só irão ocorrer através desse exercício de cidadania. É termos a garantia que nossos direitos de cidadãos serão respeitados. A cidadania se dá a todo o momento. Na nossa vida diária, começa dentro de casa na família, e se estende a todos os grupos dos quais fazemos parte. Isso é democracia. O art 1º da CF em seu parágrafo único diz: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.” A participação política é um dos mais importantes pressupostos da Democracia. A definição de cidadania é: “O exercício dos direitos e deveres civis, políticos e sociais estabelecidos na Constituição de um país. Exercendo o nosso direito de votar, estamos influenciando diretamente o destino da nação. Estamos lutando pelos nossos direitos mais fundamentais, pelas nossas liberdades, estamos lutando contra a opressão e as injustiças. Estamos lutando a favor de mais desenvolvimento social e econômico, lutando contra aqueles que se elegem pensando apenas nos seus interesses particulares, estamos lutando contra a pobreza e contra a desigualdade. Enfim, exercer a cidadania é estar sempre em movimento, buscando descobrir novas formas de garantirmos e exercermos nossos direitos. A cada desafio surgem novas possibilidades de sermos cidadãos conscientes de nossos deveres e principalmente de nossos direitos. Devemos trabalhar e lutar pelo nosso bem e pelo bem comum, afinal não estamos sozinhos, cada um deve fazer a sua parte, agindo com responsabilidade. Vivemos em sociedade e a contribuição de cada um é importante. É preciso ter essa consciência, de agirmos para garantir o bem estar social. Atrevo-me a dizer que a cidadania requer prática, quanto mais utilizarmos nossos direitos de cidadãos, mais veremos as mudanças que queremos para nosso país acontecendo, tanto na esfera das políticas públicas, na melhoria da qualidade de vida de nossa gente, como no crescimento e desenvolvimento da nação. Mariene Hildebrando Email: marihfreitas@hotmail.com “Imaginação: um armazém de fatos gerido em parceria pelo poeta e pelo mentiroso”. Ambrose Bierce *** “Não faça perguntas e não te direi mentiras”. Em Harry Porter e o Cálice de Fogo *** “Há uma razão para a mentira: funciona”. Dr. House *** “O espelho pode mentir, não mostra como você é por dentro”. Demi Lovato *** “Mas o que é real? Você não pode descobrir a verdade, você só escolhe a mentira da qual mais gosta”. Marilyn Manson *** “Meu Senhor, ajude-me a dizer a verdade diante dos fortes e não dizer mentiras para ganhar o aplauso dos fracos”. Mahatma Gandhi *** “A arte é a mais bela das mentiras”. Claude Debussy *** “A arte é a magia libertada da mentira de ser verdadeira”. Theodore Adorno *** “A arte é a mentira que nos permite conhecer a verdade”. Pablo Picasso *** “A mentira só aos mentirosos prejudica”. Guerra Junqueiro *** “A linguagem política, destina-se a fazer com que a mentira soe como verdade e o crime se torne respeitável, bem como a imprimir ao vento uma aparência de solidez”. George Orwell *** “Numa época de mentiras universais, dizer a verdade é um ato revolucionário”. George Orwell, de novo *** Mês que vem tem mais... www.culturaonlinebrasil.net /// CULTURAonline BRASIL /// www.culturaonlinebr.org

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Outubro 2016 Gazeta Valeparaibana Página 12 + Datas comemorativas 01 - Dia Internacional da Música No Brasil, a Confederação Brasileira de Atletismo é quem regula as normas deste esporte, além das provas oficiais e competições. Esta data tem o objetivo de homenagear uma das formas de arte 12 - Nossa Senhora Aparecida mais apreciadas pelas pessoas: a música. A música exerce uma profunda influência nos seres humanos, sendo Esta é a data que homenageia a padroeira do Brasil, a mãe do meni- capaz de emocionar, alegrar, surpreender, aterrorizar e etc. Conse- no Jesus, conhecida também por Santa Maria. gue despertar todos os sentimentos, até os mais profundos. Devido a importância que esta santa possui no país, foi construído A música sempre esteve presente na história da humanidade, desde um santuário dedicado à sua imagem no estado de São Paulo. O Paas tribos mais primitivas de seres humanos, seja como uma produção pa João Paulo II, em visita ao Brasil, consagrou a basílica brasileira de cunho cultural e religiosa ou voltada exclusivamente para o entre- como o maior santuário dedicado à Virgem Maria em todo o mundo. tenimento. O Dia de Nossa Senhora Aparecida também é conhecido como o Dia 04 - Dia dos Animais e da Natureza das Crianças". A data foi criada por um Deputado brasileiro para ho- menagear as crianças, e escolheu o dia 12 de outubro por ser o dia Esta data é dedicada a conscientizar a sociedade a refletir sobre mé- da mãe de Jesus Cristo. todos sustentáveis de utilizar o meio ambiente, sem danificá-lo. 17-Dia Internacional da Erradicação da Pobreza Por natureza, entende-se tudo aquilo que existe no planeta Terra e que não é produzido pelo ser humano, como a terra, a água, as árvo- res, a atmosfera, os animais e etc. A data tem o objetivo de conscientizar a sociedade e os governos de todo o mundo do elevado número de pessoas que ainda estão viven- Para celebrar o Dia da Natureza, escolas e a Secretaria Especial do do na extrema pobreza, expostos à miséria, fome crônica e violência. Meio Ambiente realizam campanhas e lançam projetos que incenti- vem a população a refletirem sobre a importância da natureza para o A pobreza extrema é considerada um crime contra os Direitos Huma- constante desenvolvimento e sobrevivência humana. nos, e todos os governos devem assegurar que seus habitantes vi- vam com qualidade de vida e dignidade. No Dia da Natureza também é celebrado o Dia dos Animais, no Bra- sil. O dia 4 de outubro também é o Dia de São Francisco de Assis, o De acordo com dados da UNESCO (Organização das Nações Unidas padroeiro da ecologia. para a Educação, a Ciência e a Cultura), mais de 840 milhões de pes- soas continuam sofrendo de fome excessiva entre os anos de 2011 e 07 - Dia do Compositor Brasileiro 2013, em todo o planeta. A erradicação da pobreza e da fome é um dos oito objetivos Os compositores são as pessoas que compõem músicas, seja a letra de Desenvolvimento do Milênio, definidos no ano 2000 pelos 193 paíou a sua melodia. Esta data é uma homenagem aos artistas brasilei- ses membros da Organização das Nações Unidas. ros que se imortalizaram como mestres da composição musical. 17 - Dia da Música Popular Brasileira O Dia Mundial do Compositor é comemorado em 15 de janeiro, no entanto, o Brasil é o berço de grandes compositores, merecendo uma data especialmente dedicada a esses nomes. Também conhecido como o Dia Nacional da MPB, esta data celebra e homenageia o nascimento da primeira compositora oficial da Músi- 08 - Dia do Nordestino ca Popular Brasileira: Chiquinha Gonzaga, que nasceu em 17 de outubro de 1847, no Rio de Janeiro. Esta data homenageia toda a diversidade cultural e folclórica típica da O Dia da MPB foi criado a partir do Decreto de Lei nº 12.624, de 9 de região Nordeste do Brasil. maio de 2012, outorgado pela presidente Dilma Rousseff. O Nordeste brasileiro é conhecido pela sua musicalidade, culinária, Chiquinha Gonzaga compôs diversas canções que fazem muito su- danças, superstições, artesanatos, belíssimas paisagens naturais e cesso até os dias de hoje, além de ter servido de inspiração para ou- muito mais. tros grandes nomes da MPB, como Elis Regina, Chico Buarque, Cae- tano Veloso e etc. O povo nordestino é um grande tesouro da cultura nacional, um dos maiores traços da identidade do Brasil. Também ficou imortalizada como a fundadora da Sociedade Brasilei- ra de Autores Teatrais. O Nordeste brasileiro é composto pelos seguintes estados: Mara- nhão, Alagoas, Bahia, Ceará, Piauí, Paraíba, Pernambuco, Rio Gran- de do Norte e Sergipe. 09 - Dia do Atletismo A data homenageia uma das práticas esportivas mais antigas do mundo, conhecida por "esporte-base" por usar os movimentos primários do ser humano: correr, andar, saltar e arremessar. O atletismo surgiu nos primeiros Jogos Olímpicos, por volta do ano 776 a.C, na Grécia. O esporte consiste em uma série de provas que testam a resistência física e habilidades do ser humano. 16 - Horário de Verão www.culturaonlinebrasil.net /// CULTURAonline BRASIL /// www.culturaonlinebr.org

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Outubro 2016 Gazeta Valeparaibana Página 13 Legitimidade democrática Na onda do golpe e do fascismo Além de ser uma forma absoluta de domina- pletamente mau e detentor do monopólio da ção porque ia diretamente à consciência, legi- corrupção, portador de uma natureza humana timava toda sorte de violência, arbitrariedade degenerada. Esse ser irreal, essa abstração e violação de direitos para a exclusão social desprovida de qualquer racionalidade, tornou- do diferente ou sua aniquilação. Para que um se concreto representado na figura do ex- cenário desse tipo se consolide é preciso uma presidente Lula. Ele não é como todos os se- maciça propaganda e doutrinação em que a res humanos, dotado de algumas virtudes e matéria-prima é o ódio social. alguns defeitos. Não é como todos os outros É isto que se vê na sociedade brasileira hoje. A tragédia do fascismo com seu componente necessário de ódio social. Em maio de 2013, políticos, que se pode ver com desconfiança mas tolerar. Lula é diferente. É mostrado como a encarnação absoluta do mal. um seminário realizado pela EMERJ (Escola A racionalidade instrumental do fascismo pre- da Magistratura do Rio de Janeiro) já debatia cisa do irracional da massa. A massa branca o processo de fascistização que despontava e da avenida Paulista votou por décadas em que agora atinge patamares intoleráveis. Na Maluf sabendo que era corrupto, assistiu pas- mesma ordem de conceitos que desenvolvi sivamente a compra de votos para a reeleição Nos regimes fascistas, a violência do Estado acima, transcrevo aqui uma parte de minha de Fernando Henrique e não bate panelas pa- e a violação de direitos tem apoio de massa. intervenção naquela ocasião e remeto o leitor ra Cunha ou para ladrões de merendas. Nun- Rubens Casara lembrou isto neste espaço ao volume 67 da Revista da EMERJ: ca se indignou diante da miséria de parte da com preciso senso de oportunidade. É um traço característico do fascismo. O fascismo não era apenas violência ou terrorismo de Estado, ou, como sustentavam nos anos 30 os soviéticos, uma ditadura terrorista aberta dos elementos mais reacionários do grande capital. Para além disso, buscava também um determinado “consenso”, dominar pela captura da consciência de uma parte do povo para “Sempre que de algum modo o diferente é tratado como inimigo, excluído do povo, desqualificado em sua humanidade, associado a desvalores, mau, falso, injusto por natureza, sujo, sempre que alguém procura uniformizar o meio social como um organismo por tal método, estamos diante de uma atitude fascista. A chave é essa: alguns são “o povo” e devem ser protegidos; outros não são o povo, não população. A corrupção somente movimenta essa massa branca quando contingências permitem associá-la à esquerda; e aí se reproduz o clássico esquema fascista de dominação pela captura da consciência, manipulação e propaganda maciça que permitem legitimar a violência e os mecanismos repressivos. Porque contra o mal tudo é permitido e tudo convém. dirigi-la contra outra parte. Para tanto era pre- tem direitos e podem ser excluídos, seja pela O que isto tudo significa, na verdade, é mais ciso desumanizar o diferente, visando trans- violência, seja pelo Direito, seja pelo Estado”. um capítulo da velha luta de classes. O fascis- formar a sociedade em um organismo, de tal modo que o que estivesse fora de um determinado padrão, fosse social, econômico, político, étnico ou de conduta, deveria ser tratado como uma espécie de “doença” do meio social e portanto aniquilados ou completamente subjugados. Essa domínio de novo tipo era uma reação ao bolchevismo. Pela primeira vez um Estado extinguia a propriedade privada dos meios de produção e conseguia manter essa estrutura, diferentemente da Comuna de Paris, que pou- Para tudo isto é preciso a matéria-prima do ódio. O fascista é antes de mais nada um ser que odeia. Constrói-se um fascista fazendo com que o seu descontentamento econômico, o seu ressentimento social e a sua contrariedade transformem-se em ódio contra tudo que ele pensa ser uma ameaça à sua condição ou ao que o seu imaginário representa para si mesmo. É por isso que o fascismo grassa nas camadas médias, perdidas entre o pavor da proletarização e o anseio de ser burguês de verdade. mo não é um fenômeno cultural ou singelamente político, mesmo que contenha necessariamente tais aspectos. A sua causa reside na luta pela apropriação da riqueza e manutenção de privilégios. O que ora está em jogo é quem perde e quem ganha na apropriação de patrimônio e renda. Se tiver golpe, haverá o assalto definitivo ao pré-sal, a perda da Petrobrás, a destruição da CLT, o aniquilamento de direitos e políticas públicas de interesse das camadas populares porque a crise diminuiu a possibilidade de acumulação. co durou. Os instrumentos clássicos de domínio político pelo uso da força quando a ordem burguesa era ameaçada podiam não ser suficientes. Era preciso mais, era preciso tornar a sociedade um todo “harmonioso”, era preciso dominar desde logo a partir da consciência. Assim, na Alemanha nazista, o regime mais clássico e aperfeiçoado de fascismo, o mal, a “doença social”, eram os comunistas, os ju- Por força do ódio multiplicam-se as manifestações de intolerância contra o excluído que ascende socialmente, contra quem expressa sua sexualidade de forma diferente de certo padrão que se supõe “normal”, contra quem milita em favor de outra estrutura social e é identificado como a esquerda. Multiplicam-se as manifestações de ódio contra tudo que é diferente da ordem social burguesa branca. Nessa perspectiva, o mandato da presidenta importa pela defesa da legalidade democrática e pela sua eficácia estratégica, nunca pelo que modo como ela governa. Quem ganhar acumula força. E o que eles querem é dar o passo decisivo para o domínio político e social completo, para reduzir a esquerda à insignificância, porque é ela o obstáculo efetivo como força social. Vai ter golpe ou não vai ter golpe significa isto: quem vai ser a força social he- deus, os homossexuais, os ciganos, as pes- Mas neste específico momento chega ao ápi- gemônica nas próximas décadas. soas com deficiência, mas também qualquer indivíduo cujas convicções ou modo de ser representassem uma ameaça à ordem burguesa. Na sociedade ideal nazista só haveria ce a intolerância contra a doutrinação genericamente “petismo”. esquerda, que a denomina como Para a parcela lúcida e racional da sociedade é o momento de combater o bom combate, pela justiça, igualdade e solidariedade social. um tipo étnico, uma convicção política, uma Uma mirada nas manifestações de 13 de mar- No mais, lembrando o que disse Unamuno espécie de ser humano “purificado”, uma se- ço permite ver claramente esse processo de aos fascistas, se vencerem, não convencerão. xualidade e somente uma visão de mundo. fascistização: o inimigo, a doença que precisa Porque para convencer é preciso a razão. Se ser exterminada para que o organismo social vencerem, em algum momento resgataremos A forma de dominação fascista consistia, pois, seja saudável tem o nome de petismo. Como a razão. além da violência do Estado, nisto de levar o ódio suspende os juízos racionais, pode-se uma parte da sociedade a odiar a outra e vê- criar no imaginário das camadas médias um la como ameaça a si e ao bem-estar social. ser irreal, capaz de todas as perfídias, com- Márcio Sotelo Felippe FASCISMO definição - O fascismo é um movimento político e social que nasceu em Itália pela mão de Benito Mussolini na sequência da Primeira Guerra Mundial. Trata-se de um movimento totalitário e nacionalista, cuja doutrina (e as similares que se desenvolvem noutros países) recebe o nome de fascista. O fascismo surgiu como terceira via perante as democracias liberais (como a norte-americana) e o socialismo (a URSS). Para além do regime de Mussolini na Itália, são considerados fascistas os da Alemanha de Adolf Hitler e da Espanha de Francisco Franco. www.culturaonlinebrasil.net /// CULTURAonline BRASIL /// www.culturaonlinebr.org

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Outubro 2016 Gazeta Valeparaibana Página 14 Amizades Psicólogos explicam por que pessoas muito A pesquisadora Carol Graham, da Brookings Institution, especialista inteligentes têm poucos amigos na «economia da felicidade», acredita que as pessoas inteligentes usam a maior parte do tempo tentando atingir metas a longo prazo. É óbvio que ter amigos é algo necessário, e que a interação com ou- Os intelectuais se sentem satisfeitos quando fazem aquilo que os leva tras pessoas tem muitas vantagens. Alguns cientistas resolveram res- a conquistar determinados resultados. ponder à pergunta: é realmente preciso ter amigos para ser feliz e es- O pesquisador que trabalha na busca de vacinas contra o câncer ou o tar plenamente satisfeito com a vida? Para isso, foi realizada uma escritor que está criando um romance formidável não precisam intera- pesquisa, da qual participaram 15 mil pessoas com idades entre 18 e gir com outras pessoas. Até porque isso poderia distrai-los de sua 28 anos, moradores de áreas com densidades populacionais distintas meta principal, ou seja, influenciaria de forma negativa na sua felici- e acostumadas a se comunicar frequentemente com os amigos. dade e desequilibraria sua harmonia interna. Uma revista britânica de Psicologia publicou resultados que surpreen- As razões estão no passado distante deram, e que podem ajudar no autoconhecimento de qualquer pessoa. Você já ouviu falar na teoria da savana? Segundo ela, há algo dos nossos ancestrais que carregamos não só nos genes, mas também Três conclusões principais da pesquisa em nossa memória subconsciente. O estilo de vida dos nossos ante- passados, com que a história humana teve início, influencia até hoje Os psicólogos evolutivos Satoshi Kanazawa, da Escola de Economia em nossa vida e em nossa noção de felicidade. e Ciência Política de Londres, e Norman Lee, da Universidade de Ge- renciamento de Singapura (SMU), após a análise dos resultados do Nos sentimos felizes exatamente nas mesmas situações e circunstân- estudo chegaram às seguintes conclusões: cias nas quais as pessoas que viveram há milhares de anos também se sentiam felizes. Em primeiro lugar, as pessoas que moram em locais de alta densida- de populacional, de forma geral, se sentem menos felizes. Para sermos exatos, o círculo social dos antepassados se resumia aos 150 membros que seu grupo tinha, em média. Eles viviam em lu- Em segundo lugar, para se sentir feliz, a maior parte das pessoas gares isolados, com densidade populacional menor que uma pessoa precisa se reunir frequentemente com seus amigos ou com pessoas por quilômetro quadrado. Precisavam estar sempre juntos para sobre- que pensam de forma similar. Quanto mais comunicação próxima, viver num ambiente hostil. maior é o nível de felicidade. Mas hoje vivemos na Era das tecnologias, com muita gente ao nosso Em terceiro lugar, as pessoas com inteligência superior à média da redor. Porém, a maior parte das pessoas continua mostrando traços população representam uma exceção a esta regra. de comportamento dos nossos antepassados, que permaneceram em Quanto mais alto é o QI, menor é a necessidade do ser humano de nossa memória genética. Parece até que nosso corpo vive numa rea- se relacionar constantemente com amigos. lidade, e o cérebro, em outra. O corpo pode estar numa metrópole Geralmente, intelectuais não consideram muito atraente a vida com com milhares de habitantes, enquanto o cérebro permanece na savamuita atividade social. Eles não se interessam em ser a «alma da fes- na praticamente deserta. ta». Isso serve para a maioria das pessoas. Mas não para todas. Pessoas muito inteligentes costumam ter um círculo social reduzido Grande inteligência permite a adaptação às novas condições O cérebro de uma pessoa com habilidades intelectuais elevadas fun- Os intelectuais, diferentemente das pessoas com habilidades mentais ciona de forma diferente. E a sociabilidade está incluída nestas dife- medianas, conseguiram, em alguma etapa da evolução humana, su- renças. perar a memória do passado, já que ela não se encaixa nos dias atu- Sim, ser inteligente pode não ser algo simples. Dentro de cada inte- ais. lectual existe seu próprio universo particular. Tais pessoas podem se adaptar com mais facilidade. Parece até que Para as pessoas com inteligência superior à maioria, a vida social é a natureza deu a eles a tarefa de resolver novos problemas evolutimais um supérfluo do que algo primordial. A maioria dos grandes gê- vos. Por isso, quem é inteligente pode viver facilmente de acordo com nios foram e costumam ser solitários. Na verdade, são poucas as suas próprias leis, sem se apegar muito às nossas origens. pessoas que os entendem e os aceitam. Mas isso não é problema Uma inteligência alta permite que pessoa não fique pendente dos ou- para eles. Pelo contrário, quanto mais precisam socializar, menos feli- tros, e sim mantenha o foco em suas metas individuais. Pessoas inte- zes eles se sentem. ligentes estão em harmonia com elas mesmas, e só de vez em quan- Pessoas inteligentes gostam mais de tratar dos assuntos importantes do precisam interagir mais intimamente com os demais. para elas do que de socializar VIA: The Washington Post Numa sociedade movida à dinheiro e hipocrisia, encontramos pessoas propensas aos mais diversos rumos incluindo-se a devassidão. Cuidado com quem andas, pois tua companhia sumariza quem és. Não tenha medo de lutar pelo que acredita, apenas seja você mesmo nos mais divergentes momentos que possam surgir. Fazendo isto, certamente afetará os que estão à tua volta que não gostam do que veem. Saberão fazer a triagem do joio e do trigo. Só tome cuidado com o lado com que ficará, pois uma escolha errada pode te afetar drasticamente. Pense no seu futuro. Sua escolha hoje, será o seu futuro amanhã. Seja feliz, haja com honestidade sempre. Mas acima de tudo, cuidado com o que te tornarás! Filipe de Sousa www.culturaonlinebrasil.net /// CULTURAonline BRASIL /// www.culturaonlinebr.org

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Outubro 2016 Gazeta Valeparaibana Página 15 EUROPA hoje e ontem (artigo continuado) Por: Michael Löwy “núcleo duro” da UE. A criação da zona do inflação anual superior a 3,6%. Outro limite euro colocara na mesma arena economias estabelecido pelo Tratado, o de manter o Sociólogo, é nascido no Brasil, formado em Ciências Sociais na Universidade de São Paulo, e vive em Paris desde 1969. Diretor emérito de pesquisas do Centre National de la Recherche completamente desiguais. Enquanto existiam moedas diferentes, a taxa de câmbio ajudava os países mais fracos a manter algum grau de déficit público por debaixo de 2%, também foi abandonado. Os líderes europeus reclamaram a imposição de novas regulações Scientifique (CNRS). Homenageado, em 1994, competitividade. Quando se falou em salvar à internacionais – um novo “Acordo de Bretton com a medalha de prata do CNRS em Ciências Grécia, falava-se, na verdade, em salvar os Woods” – ao mesmo tempo em que Sociais, é autor de Walter Benjamin: aviso de bancos franceses e alemães expostos ignoravam completamente suas próprias incêndio (2005), Lucien Goldmann ou a dialética naquele país. regulações internas, europeias. da totalidade (2009), A teoria da revolução no jovem Marx (2012) e organizador de Revoluções (2009) e Capitalismo como religião (2013), de Walter Benjamin Esses bancos continuavam cheios de “ativos O processo estava potencialmente inscrito no tóxicos” (importados ou caseiros), herança da nascedouro da UE. O Tratado de Maastricht, fase precedente da crise mundial. Assim, de 1992, base da UE e do lançamento do depois do estouro econômico (e social) da euro e, depois, da sua expansão até as Capitalismo e democracia na Europa Grécia, um dos bancos expostos nele, o fronteiras da Rússia, viu-se acompanhado por Dexia (da Bélgica), detentor de títulos gregos um auge do crédito e pela realocação de com valor de face de € 4,8 bilhões (e valor de indústrias na Europa central e nos Bálcãs. A PARTE X mercado quase zero), tornou público um introdução do euro deu aos países mais ... A UE não tinha mecanismos institucionais que pudessem prestar socorro a sócios que enfrentassem graves problemas de caixa. Europa continuava sendo o “gigante econômico e pigmeu político”, com seus quase 500 milhões de consumidores (o maior “mercado interno” do planeta), mas incapaz de ter uma política unificada diante de problemas internos ou externos graves. A dívida grega, relativamente pequena se comparada com as da Espanha ou da Itália, representava, no entanto, um percentual muito superior do seu PIB, ou seja, de sua capacidade real ou potencial de pagamento. A grande mídia martelou na a irresponsabilidade fiscal dos “estados periféricos” da EU e suas políticas “populistas”. Mas essa dívida tinha outras raízes, anteriores à crise. Em 2002, Alemanha sofrera um estouro de sua bolha acionária (depois da euforia da reunificação, iniciada em 1990), caindo numa recessão que teve alcance continental, enquanto a “Europa do Sul” se entusiasmava com a adoção do euro, em substituição de suas moedas cronicamente desvalorizadas. O BCE (Banco Central Europeu) adotou uma política de “juros [antirrecessivos] alemães” (ou seja, quase iguais a zero) o que alimentou o endividamento da “periferia europeia”, ainda sofrendo da inflação precedente à adoção do euro. As novas dívidas desses países eram contraídas, portanto, com juros negativos, uma festança que concluiu num endividamento monumental. O BCE emprestou dinheiro a bancos privados a juros baixos, dinheiro com o qual esses bancos compraram títulos públicos com juros altos (6% a 7% anual na Itália e na Espanha); ele emprestou mais de um trilhão de euros a bancos privados, alegadamente para salvar esses bancos e garantir a oferta de crédito para pequenas e médias empresas e para famílias endividadas. Depois do estouro, em maio de 2010, a OCDE constatou que as dívidas públicas dos trinta países industrializados ultrapassavam US$ 43 trilhões (65% do PIB mundial), tendo aumentado quase sete vezes desde 2007. Nesse processo, os déficits em conta corrente atingiram 15% na Grécia, 13% em Portugal, 10% na Espanha. O déficit público, nesses países, nunca se adaptou às normas europeias, e foi financiado com empréstimos bancários privados advindos dos países do passivo de € 420 bilhões (150% do PIB da Bélgica), ou seja, 50 vezes a dívida grega de curto prazo. Quem estava falido, afinal? O problema dermatológico (“periférico”) da Europa revelou-se um problema coronário da UE. Em 2008, o Dexia só se salvou da falência graças a um empréstimo franco-belga -luxemburguês de € 6,8 bilhões (e outro do Tesouro norte-americano, de US$ 37 bilhões). A degringolada da UE foi a manifestação de um problema estrutural da união capitalista da Europa, presente desde o seu início. José Manoel Barroso, presidente da Comissão Europeia, chegou a evocar a “morte da Europa”; o New York Times viu “em frangalhos o sonho de uma Europa cada vez mais unida (com) sua moeda única fadada ao fracasso”. Se isso acontecesse, só sobraria uma instituição com força gravitacional unificadora do continente: a OTAN. A unidade europeia fora concebida como resposta às realidades econômicas de pós-guerra, a concorrência exacerbada entre os grandes monopólios e blocos econômicos no mercado mundial. Quando a crise se agravou, os governos europeus intervieram para evitar o colapso dos principais bancos e companhias: os governos de Bélgica, Holanda e Luxemburgo nacionalizaram o banco Fortis, o maior empregador privado da Bélgica; foi nacionalizada a britânica Bradford & Bingley, que tinha a maior porção do mercado de hipotecas imobiliárias no Reino Unido, o governo alemão resgatou o gigante dos empréstimos comerciais, Hypo Real Estate, e anunciou que garantiria os depósitos de todos os correntistas (mas já havia criticado o governo irlandês por fazer exatamente o mesmo), o governo britânico nacionalizou e recapitalizou os oito maiores bancos do país mediante a compra de ações preferenciais dos mesmos. Através dessas medidas, os Estados da Europa reagiram frente à crise sobre linhas nacionais, não continentais. Fez-se evidente a ausência, na UE, de um órgão equivalente à Reserva Federal norte-americana, capaz de impor um plano em todo o âmbito do bloco ou da Eurozona. A UE não é um “super Estado”: tem uma moeda comum entre 15 de seus 27 membros, mas carece de um sistema de impostos ou de um orçamento único. O BCE tinha a tarefa exclusiva de manter a inflação por debaixo da taxa estipulada pelo Tratado de Maastricht (2%), mas lidava com uma frágeis, como vimos, acesso a empréstimos a juros favoráveis. Isso fez disparar bolhas na especulação e na indústria de construção na Espanha e na Irlanda. Antes da criação do euro, a periferia da Europa se defendia da concorrência comercial dos países mais produtivos (Alemanha e França) desvalorizando suas moedas; isso lhes permitia manter precariamente seu tecido produtivo e o equilíbrio de suas balanças comerciais. Com a moeda única essa possibilidade foi cortada, a potência exportadora alemã não teve mais barreiras na Europa, debilitando cada vez mais a produção da periferia europeia, e levando estes países a um processo de desindustrialização ou de instalação de maquiadoras externas. Entre 2002 e 2010, esse processo gerou um excedente comercial de 1,64 trilhões de euros na Alemanha, dos quais somente 554 bilhões foram aplicados no seu próprio mercado interno. O resto, 1,07 trilhões, foi colocado fora da Alemanha, e dessa parte 356 bilhões em empréstimos e créditos para financiar investimentos. As dívidas crescentes dos países da “periferia europeia” foram a forma de “encher” o vazio existente (e crescente) entre a produção interna de valor e uma moeda descolada da capacidade produtiva do país. Essa foi a raiz da crise da dívida dos “PIGS”, não suas políticas “populistas”. Ou seja, uma crise do próprio processo de produção capitalista nas condições criadas pelo projeto imperialista da EU, em que a queda tendencial da taxa de lucro foi compensada pelo deslocamento industrial e, sobretudo, pela especulação financeira. A UE atingiu 27 países, mas, em virtude da concorrência interna, as restrições do Tratado de Maastricht não foram respeitadas, o euro sofreu enormes pressões, e a bonança econômica nos países do Leste sob os novos regimes pós-comunistas converteu-se em um pesadelo para os bancos europeus. Apesar de uma avalanche de créditos dirigidos ao Leste europeu – e de uma guerra devastadora da OTAN que destruiu a ex Iugoslávia – a restauração capitalista na Europa central e nos Bálcãs mostrou sua fragilidade, e pôs de manifesto que dependia da arrecadação de capital estrangeiro, muito mais do que de estruturas econômicas capitalistas enraizadas localmente. CONTINUA NA PRÓXIMA EDIÇÃO www.culturaonlinebrasil.net /// CULTURAonline BRASIL /// www.culturaonlinebr.org

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