Revista Pindorama Ed. 9

 
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Revista Pindorama Ed. 9

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SUMÁRIO Walter Queiroz, filho da Bahia, por Assis Bandeira 5 Lobisomens e outros abantesmas, por Ruy Espinheira Filho 7 Arquitetura: o que não fazer em seu projeto 8 Teatro Vila Velha, feito de sonho e rebeldia 18Mandioca, o divino pão do Brasil 26Móveis Multiúso, por Bárbara Vivas 27Impressões ao pôr do sol, por Nelson Mattos Filho 29Diabetes, a doença que cresce..., por André Luiz Seixas Guia Pindorama 12 30 Revista Pindorama | Setembro/Novembro de 2016 3

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Editorial Mandioca para quem quiser Diante de tanta turbulência que passa o país, é oportuno voltarmos às nossa raízes. A vastidão do Brasil, e de sua história, reduzem os problemas do presente. Pois mesmo em tempo de profundas trevas, havia o brilho da nossa cultura, de uma identidade bela mesmo quando triste. Sob melancólicos compassos da maldade e opressão, os tambores ecoavam animados folguedos como gritos de libertação. “Minha gente/ Era triste amargurada/ Inventou a batucada/ Pra deixar de padecer” – cantava Assis Valente. A alegria do nosso povo é pérola nascida no lodo. Nesta edição, fomos atrás de um dos maiores símbolos do povo brasileiro, que remontam às nossas origens: a mandioca. Trata-se, literalmente, de nossas profundas raízes. Mostramos como ainda são feitos artesanalmente beijus, farinha, pamonhas. As casas de farinha fazem parte de uma tradição viva, herdada dos índios. Trazemos também matéria especial sobre o Teatro Vila Velha, monumento cultural e histórico da Bahia, sempre atuante. Abriga projetos de grande valor sociocultural, e continua firme como importante espaço de lazer de Salvador. Apesar da idade, continua um jovem sonhador, idealista, questionador e politizado. Na série de decoração e arquitetura, reunimos especialistas com dicas objetivas sobre o que não se deve fazer na hora de decorar, reformar ou construir. Após a leitura desta edição, esperamos que o caro leitor relembre o belo Brasil que anda um tanto cabisbaixo. Como garante uma antiga canção, “somos da crise, se ela vier, bananas para quem quiser”. Neste caso, vamos de mandioca. Boa leitura! 4 Revista Pindorama | Setembro/Novembro de 2016 REVISTA Setembro/Novembro de 2016 | Edição 9 | Ano II Revista baiana de variedades com distribuição trimestral gratuita dedicada à Cultura, ao Turismo, ao Meio Ambiente e ao Entretenimento. www.revistapindorama.com facebook.com/revistapindorama Jornalista Responsável Mario Espinheira - DRT: 4279 Diretora Executiva Janaina Seixas Espinheira (71) 98898-9598 janaina@revistapindorama.com Editor Mario Espinheira mario@revistapindorama.com Diretora Comercial Matilde Espinheira (71) 99924-7448 matilde@revistapindorama.com Colaboradores Gilka Bandeira, Ruy Espinheira Filho, Assis Bandeira, Valtério Sales, André Luiz Seixas, Nelson Mattos Filho e Bárbara Vivas. Diagramação e Design Gráfico Edinaelson Cruz Tiragem 20 mil exemplares Impressão: Gráfica Santa Bárbara (Grasb) Distribuição Salvador, Região Metropolitana e Litoral Norte da Bahia Foto de capa Mario Espinheira Contatos comercial@revistapindorama.com redacao@revistapindorama.com As matérias assinadas ou citações não representam necessariamente a opinião editorial. A Revista Pindorama não se responsabiliza por serviços ou produtos dos seus anunciantes. Apenas representantes institucionais/ comerciais têm autorização para a venda de anúncios. A reprodução de qualquer conteúdo desta edição requer autorização expressa do editor.

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/// Música Walter Queiroz, filho da Bahia Por Assis Bandeira ILUSTRAÇÃO: VALTÉRIO SALES Compositor e letrista de primeira grandeza, boêmio por vocação, carnavalesco por excelência. Walter Queiroz Júnior, o Waltinho, brilha entre os maiores nomes da música baiana de todos os tempos. Nascido em 1944, formou seu primeiro grupo aos 14 anos, o Abaeté Samba Trio, e não parou mais, sempre se destacando nos festivais que participava. Após três anos atuando como advogado, abandonou a profissão para se dedicar inteiramente à música. No Rio de Janeiro, a partir de 1970, conheceu os maiores cantores e compositores de uma época de ouro da MPB. Fafá de Belém, Beth Carvalho, Maria Creuza, Maysa, Elba Ramalho, Elizeth Cardoso, Amelinha e muitos outro grandes nomes gravaram suas canções. Entre as clássicas, destacam-se Pode Entrar, Tesoura Cega (com César Costa Filho), Feijãozinho com Torresmo, Filho da Bahia, Carrinho de Linha, Fogaréu e No meio da rua, no meio do povo. A convite de Glauber Rocha, participou da trilha sonora do filme O dragão da maldade contra o santo guerreiro, com a canção Diálogo na gruta. Também compôs o tema de Cascalho, filme de Tuna Espinheira. Teve grande destaque nas trilhas de novelas da Rede Globo, como Uma rosa com amor, Saramandaia, Gabriela, Sinhá Moça, e da minissérie Tenda dos Milagres (também como intérprete da faixa Maluco pra te ver, em parceria com Vevé Calazans) e o tema de abertura de Cambalacho. Waltinho também é um magistral compositor de jingles. Entre tantas realizações carnavalescas, foi fundador do Bloco do Jacu e do Chegando Bonito. “A casa escancarada, a lua ali Meu cachorro nunca morde Meu quintal tem sapoti Tem um roseiral crescendo lindo Quem for louco ou for poeta Pode entrar, seja bem-vindo” (Pode Entrar, Walter Queiroz Jr.) Revista Pindorama | Setembro/Novembro de 2016 5

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/// Crônica Certa vez visitei o escritor André Seffrin e Lia, sua mulher, e soube que seu filho, Rainer, ainda criança, gostava de histórias em que apareciam monstros, vampiros, lobisomens, etc. Falei que, segundo uma lenda, o sétimo filho de uma família de sete filhos homens se transforma em lobisomem, mas observando que em outra lenda o lobisomem é o mais velho dos sete irmãos. E revelei: era o meu caso, pois sou o mais velho de sete filhos homens. Rainer me olhou incrédulo e foi brincar, mas depois André me disse que ele o chamara a um canto, comunicando-lhe, preocupa- do: “Pai, estamos com um lobisomem em casa!” Lembro esta história porque li um livro de contos de lobisomem. Um livro bom como os que lia antiga- mente sobre o mesmo assunto ou similares. Na infân- cia (principalmente) e na juventude eu era bem mais impressionável, sim, mas também aquelas histórias eram, digamos, bem mais respeitáveis. Havia uma grande solenidade em tudo – o vampiro saindo len- tamente do caixão e lentamente caminhando, com os grandes dentes à mostra em direção à vítima, quase sempre uma virgem indefesa... O uivo do lobisomem dilacerando a noite na história e em nossa vida real. E até as assombrações nacionais – como a mula-sem- -cabeça, tão espantosa que não tinha cabeça, mas conseguia expelir fogo pelas ventas!... Hoje esses seres estão sendo desmoralizados em livros e filmes que não assustam mais ninguém, são apenas ridículos. O lobisomem, então, coitadinho... Bom, há diversas explicações para a crença milenar, mas tudo indica que o lobo não foi visto sempre como representação do mal, ao contrário: era cultuado como símbolo de sabedoria. Depois do cristianismo é que ele, o lobo, passou a ser considerado figura diabólica, originando histórias como a de Chapeuzinho Vermelho e outras bem mais arrepiantes. Nas noites da minha infância, na longínqua cidade do interior, os lobisomens uivavam longamente. Os mais velhos diziam que não eram lobisomens, era so- mente o vento entre as árvores e nas janelas da casa, mas eu, menino, sabia muito bem que os adultos não tinham bons ouvidos, não conseguiam diferenciar o uivo sobrenatural dos lobisomens de um simples vento da madrugada. E, assim, ficavam inventando histórias – talvez até para disfarçar o próprio medo... Mas também havia gente adulta que ouvia, não só os uivos como o bater das patas da mula-sem-cabeça, que eu também ouvia, o que aumentava assustadoramente o frio que sempre vinha das trevas. Gente adulta que vivera muito, sabia muitas histórias e, em certos casos, até com experiência pessoal com várias assombrações. Uma empregada da casa, por exemplo, era um infinito de narrações de tais experiências – já tendo visto de tudo, de cavaleiros sem cabeça a anjos brincando nas nuvens e o diabo em pessoa. Sim, o diabo, com toda a sua famosa circunstância de cacos, chifres e cheiro de enxofre... Voltando ao personagem principal: ao que parece, os cristãos intensificaram muito o mito – também arquétipo – do lobisomem. Jamais faltaram estudiosos e homens ditos santos que asseveravam a existência de lobisomens e sua ligação, ou fusão, com Belzebu. Usavam tal ameaça para atemorizar os crentes e mais ainda atraí-los à religião. E justificar muitas das perseguições, torturas e fogueiras da Santa Inquisição. Sempre houve testemunhas da existência de lobisomens. Até hoje ainda são vistos – ou ouvidos – aqui e ali. Um dos relatos mais impressionantes é o do sábio Jean Bodin, que, segundo Collin de Plancy, registrou a presença, em certa manhã de 1542, numa praça de Constantinopla, de nada menos do que cento e cinquenta lobisomens!!! Um belo número, sem dúvida, mas nada diante da quantidade dos que tanto assombram a política brasileira... Ruy Espinheira Filho Escritor, membro da Academia de Letras da Bahia Revista Pindorama | Setembro/Novembro de 2016 7

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Arquitetura /// FOTO: INTERNET O que não fazer na hora de construir,reformaroudecorar Arquitetura e decoração exigem amplo conhecimento técnico, estético, e muito talento, pois unem ciência e arte. Mas entregar o projeto a um profissional sem acom- panhar e passar com clareza o perfil que deseja, pode ser tão perigoso quanto fazer tudo por conta própria. Reunimos aqui os principais erros, de acordo com experientes profissionais, e como evitá-los. As dicas servem para quem deseja fazer apenas uma simples combinação de cores ou mes- mo construir uma casa. 8 Revista Pindorama | Setembro/Novembro de 2016 Planejamento - Autora de grandes projetos como o Cloc Marina Residence e a reforma do Mercado Modelo, a arquiteta Kiki Meirelles garante que o principal erro é começar a obra sem um bom planejamento. O que, segundo ela, quase sempre resulta em falhas graves e consequências desastrosas. “A orientação básica é: nunca comece uma obra sem projeto, o planeja- mento é essencial. A intervenção deve ser toda programada com o orçamento bem definido para evitar improvisos, porque alterar durante a execução ou depois de finalizada é muito mais complicado ou até mesmo inviável em se tratando de custos” - salienta. Este erro é comum tanto em re- forma e construção quanto em decoração. Kiki ainda ressalta que investir em pro-

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FOTO: OLYMPIO AUGUSTO RIBEIRO A arquiteta Kiki Meirelles. Nunca iniciar uma obra sem planejamento. “Os problemas advindos da falta de planejamento podem ser irreversíveis e onerosos, vale apenas ressaltar que investir em projeto é um excelente negócio”. (Kiki Meirelles). FOTO: INTERNET FOTOS: DIVULGAÇÃO O arquiteto Ciro Almeida, especialista em Urbanismo e Arquitetura Técnica. jeto é um “excelente negócio” e aponta alguns dos graves riscos que a falta de planejamento pode ocasionar. “Um exemplo bastante comum e radical é o caso de ter que demolir uma parte da construção, que iniciou sem projeto e alvará, por avançar sobre um recuo exigido por lei. Outro exemplo não menos infeliz é o do edifício mal implantado que proporciona uma série de desconfortos como excesso de calor ou frio, difícil acessibilidade dentre outros”. A importância do planejamento também é destacada como prioridade pelo arquiteto e urbanista Ciro Almeida. “Um dos pré-requisitos mais importantes para um projeto ser executado com perfeição é o planejamento. A falta de planejamento é o que leva muita gente a gastar mais dinheiro e tempo do que o previsto com a obra”. Para evitar as más consequências, ele sugere definir bem o es- Não subestimar as cores. “Em demasiado, podem causar irritação. Usar cores ‘tom sobre tom’, ou então complementares, é o segredo para um ambiente equilibrado”. (Márcia Rocha). copo da obra. “Parece algo óbvio, mas apenas com uma vaga ideia, muita gente já começa a comprar as tintas e outros materiais, sem ter definido quais cômodos do imóvel serão reformados. Antes de qualquer coisa, é importante que você reflita com calma sobre o que será feito, pesquisando referên- cias e colocando no papel os objetivos do projeto”. Para ele, não determinar bem o que vai ser feito é o principal erro em relação à reforma. “É impor- tante, portanto, decidir questões como: se o piso será frio ou quente, se será de madeira ou cerâmi- ca ou se, com a reforma da cozinha, será feita uma reformulação da estrutura elétrica para suportar um maior gasto de energia”. Para facilitar o plane- jamento, ele diz ser essencial um cronograma e, em caso de obra residencial, é preciso dividir por cômodos. Outro erro comum é deixar de contratar profissional para economizar: pode sair mais caro. “Se a reforma não for algo simples, é altamente recomendável consultar um engenheiro ou arqui- teto” - adverte Ciro, que também é arquiteto coor- denador do Alphaville Feira de Santana. A contratação de um profissional custa entre 5% e 10% do valor total da reforma. “Além de aprimorar o planejamento da obra, ajudando a definir custos, prazos e execução, esses profissionais podem dar dicas ou orientações de maneira que a reforma não compro- meta a estrutura do imóvel”. Ciro também explica que os profissionais devem Revista Pindorama | Setembro/Novembro de 2016 9

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FOTO: INTERNET Não esquecer o poder dos espelhos. “Os espelhos transmitem a importante sensação de amplitude para ambientes pequenos”. (Georgia Palmeira). alertar o proprietário sobre mudanças que possam desvalorizar o imóvel posteriormente. “Uma reforma que mude a planta, por exemplo, pode fazer sentido para o atual morador, mas gerar uma perda de valor em uma futura venda”. Os profissionais, ainda de acordo com ele, ajudam o cliente a planejar a reforma do começo ao fim, com economia, bom gosto, praticidade, sem problemas. Com experiência em empreendimentos imobiliários e arquitetura residencial, Ciro ainda destaca que é preciso ter cuidado na análise do terreno; e observar se o material é adequado para o local (se é úmido ou com maresia, por exemplo). Portanto, planejamento é a parte principal de qualquer obra, seja de reforma ou construção, como também na hora de decorar. FOTO: DIVULGAÇÃO FOTO: DIVULGAÇÃO Definir bem antes de começar. “Defina o escopo da reforma para evitar mudanças depois que a obra já começou. Sem saber o que você quer fazer, a reforma pode ser um fiasco”. (Ciro Almeida). A arquiteta e decoradora Georgia Palmeira. Os arquitetos Márcia Rocha e Fred Cunha. Hall de entrada do Studio de Beleza Doce Lilith, projeto Rocha Cunha Arquitetura 3D. FOTO: FREDERICO NETO FOTO: DIVULGAÇÃO Recepção clínica Sallus, projeto Rocha Cunha Arquitetura 3D. 10 Revista Pindorama | Setembro/Novembro de 2016

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Decoração – A arquiteta e decoradora Georgia Palmeira chama atenção para a importância da decoração sobretudo por criar sensação de amplitude dos espaços, que são cada dia menores. Entre os erros, ela destaca a utilização de móveis muito grandes, sugerindo preferência por móveis planejados, e o uso de cores fortes em ambientes pequenos. “Pois elas acabam criando a sensação de espaços menores”. Georgia aconselha não encher os ambientes de objetos e evitar variação nos pisos: “Quando cada cômodo da casa possui um piso diferente, a impressão de pequenez se faz ainda maior”. Outro pecado para espaços pequenos é deixar de utilizar espelhos, pois, conforme explica Georgia, “os espelhos transmitem a importante sensação de amplitude para ambientes pequenos”. Os proprietários da Rocha Cunha Arquitetura 3D, Márcia Rocha e Fred Cunha, têm a mesma percepção quanto à dica dos móveis e dos espelhos. “Grande quantidade de móveis e objetos de decoração congestiona o espaço e prejudica o estilo. Lembrando a máxima de Mies van der Rohe, ‘menos é mais” – explica Márcia. Ela salienta que espelhos conferem a sensação de que os ambientes são maiores. “Portanto, abrir mão deles em um espaço pequeno pode ser um erro”. Também chamam atenção para o cuidado com as cores. “Não subestime o poder das cores. Cores em demasia podem causar irritação. Usar cores ‘tom sobre tom’, ou então complementares, é o segredo para um ambiente equilibrado” – ensina Márcia. Revista Pindorama | Setembro/Novembro de 2016 11

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Cultura /// Feito de sonho e rebeldia o Teatro Vila Velha continua efervescente FOTO: DIVULGAÇÃO FOTO: RAFAEL GRILO Fachada do Teatro Vila Velha, localizado no Passeio Público. Sonia Robatto, uma das fundadoras do Teatro. Ao lado do Palácio há um pórtico, além dele, um jardim antigo com estátuas, bancos, belvedere dando para a mais bela baía que há e históricas árvores seculares, entre elas uma enorme palmeira imperial plantada em 1859. Num canto do jardim, um teatro, não simplesmente um, mas o muito amado Teatro Vila Velha (TVV), como ficou evidente durante a campanha para salvá-lo do fechamento. De tão significativo chega a ser um ente, conforme diz emocionada Sônia Robatto, uma das suas fundado- 12 Revista Pindorama | Setembro/Novembro de 2016 ras:“Não sinto o Vila como algo feito de barro, pedras, considero um ser vivo, um amigo companheiro que está sempre ao meu lado. Meu sentimento para com o Vila Velha é de amor”. O arcabouço foi, sim, feito de pedras e barro, como bem sabe Sônia, que com os outros artistas pegaram na massa, em meio aos operários, para construí-lo, porém o ideal, o esforço, as circunstâncias todas e a história que foi sendo construída lhe deram alma. Alma sempre ativa como se podia constatar naquela tarde de terça-feira. No palco principal se montava o cenário para a estreia nacional da nova versão de Bispo, de João Miguel; na sala de ensaio acontecia uma das muitas oficinas; o foyer era preparado para mais uma das Terças Pretas, enquanto na varandinha da entrada diante das árvores, ao som dos passarinhos e tambores de ensaio, ocorriam as entrevistas.

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Novos Quixotes – Era 1959, faltava apenas três meses para a primeira formatura da Escola de Teatro da Ufba, quando toda turma abandonou a Faculdade após se indispor com o diretor Martim Gonçalves. Maluquice de jovens rebeldes e sonhadores. Reconhece Sônia. “Mas também, se não tivéssemos cometido esta loucura, o Teatro Vila Velha não tinha sido criado”. Os insurretos atores Othon Bastos, Carlos Petrovich, Nevolanda Amorim, Sônia Robatto, Mario Gadelha, Echio Reis, Teresa Sá e Carmem Bittencourt, liderados pelo professor e diretor teatral João Augusto, se uniram e criaram a Sociedade Teatro dos Novos, a primeira companhia profissional de teatro da Bahia. Durante anos, o grupo vivia ocupando casarões abandonados. “Quando derrubavam um, a gente ia pra outro” - conta Sônia. A trupe conseguia uma verbazinha do Governo, através da venda de espetáculos e se apresentava em praças públicas e nos adros das igrejas. “Botavam um tablado e a gente fazia as apresentações. As peças eram sobre temas religiosos ou infantis”. A primeira montagem foi o Auto do Nascimento de autoria de Sônia, dirigida por João Augusto, encenada em frente a Igreja de São Francisco. Depois, com ajuda das prefeituras alugavam caminhão-palco. “A gente achava tudo bom, erámos unidos, idealistas, acreditávamos que podíamos mudar o mundo. Nada era mais importante do que fazer teatro. Deixamos empregos, tudo mais, para seguir esta vida. Estou com 78 anos, desde os 18 fazendo teatro e até hoje não há nada melhor que estar no palco” - revela Sônia, que além de atriz, teatróloga, é bibliotecária e escritora de livros infantis. Em 1961, o Governo cedeu à Companhia um terreno no Passeio Público para edificação do teatro, que teve projeto arquitetônico de Alberto Fiúza e Silvio Robatto e recebeu, em homenagem a Salvador, o nome de Vila Velha, primitiva designação da cidade. “Os próprios atores trabalhavam junto com os operários, todos pegamos pesado, eu mesma, com as mãos finas, montei muita cadeira. Os operários ficavam com pena da gente”- observa Sônia. Foi dura a luta para conseguir dinheiro e material da construção. Iam nas construções pedir sobra de material, um pouco de brita aqui, areia ali, “construíamos com que encontrava, tanto que o piso da plateia e do palco era de asfalto e o foyer de paralelepípedos, pois fora o que conseguimos”. Sônia continua lembrando. Faziam apresentações, passavam livro de ouro, vendiam cerâmica e outras coisas, compraram as cadeiras do teatro de Santo Amaro. “Somos heroicos” - exclama orgulhosa, mas ressaltando a ajuda que receberam. “A população ajudou demais, todo mundo gostava da gente e ajudava. Artistas, como Calazans Netos, ofertavam quadro para serem leiloados... Foi uma coisa muito bonita”. E conclui taxativa: “Por isso, o teatro não foi daquele grupo, é de todo mundo”. E em 31 de julho de 1964, em plena ditadura, o Teatro foi inaugurado com a apresentação da peça Eles não usam black-tie de Gianfrancesco Guarnieri, dirigida por João Augusto. Dias depois da inauguração, acontecia o marcante show Nós, por exemplo, que revelou Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Gal Costa, Tom Zé entre outros. FOTOS: ARQUIVO DO TVV Público na inauguração do Teatro Vila Velha, em 1964. Cena do espetáculo de inauguração do Vila, Eles não usam black-tie, texto de Gianfrancesco Guarnieri, dirigido em 1964 por João Augusto. Revista Pindorama | Setembro/Novembro de 2016 13

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FOTOS: ARQUIVO DO TVV Caetano Veloso e o Bando de Teatro Olodum no TVV. Público na inauguração do Teatro. A história continua – O Vila viveu período áureo na década de 70, como lembra Márcio Meirelles, diretor artístico do TVV, “tinha efervescência, tinha coisas incríveis acontecendo”. Depois, com a morte de João Augusto em 1979, segundo Márcio, o teatro “caiu, as pessoas tentando fazer as coisas sem um projeto político e estético que o TVV sempre teve”. Depois de passar por três experiências que não deram certo, falou-se que a Sociedade Teatro dos Novos queria vender o teatro. “Não era verdade, eles não queriam de fato vender, queriam dar um caminho. Entrei em negociação com a ideia de resgatar o espírito do teatro que estava meio disperso” - Márcio explica. Para não ficar apenas com o Bando do Teatro Olodum, que ele tinha criado e dirigia há quatro anos, Márcio chamou outros grupos, o Cereus, que Hebe Alves dirigia e Wagner Moura trabalhava, o Cria e o Bando. “Estes grupos conviviam aqui, tocavam a administração, a técnica, limpavam o teatro, ensaiavam, se apresentavam”. Depois o Cria saiu para casa própria, o Cereus se dissolveu, e terminou ficando apenas o Bando, mas com vários projetos e artistas circulando como o Meia Noite se Improvisa, Companhia da Bazófia, Zeca de Abreu. “Também chamamos Caetano, Bethânia, Gil, Tom Zé, Margareth Menezes, os que tinha uma história aqui, para darem um presente ao teatro, fazer shows, que o revitalizaria” - conta Márcio. Também foi possível, através da Secretaria de Cultura do Estado (Secult), fazer uma grande reforma com ampliação, dando o feitio atual, onde se sobressai o palco contemporâneo, único na Bahia, que de acordo com Márcio “pode se transformar em vários espaços”. Passou a dispor do Cabaré dos No- FOTO: MARIO ESPINHEIRA vos (sala alternativa), mais duas salas para ensaio e atividades de formação e capacitação, o foyer, o estúdio audiovisual e o Centro de Documentação e Memória nós, por Exemplo, onde são preservados documentos da história do teatro baiano. Tendo nascido a partir da rebeldia e do sonho, se caracterizou como espaço de liberdade, “num lugar de questionamento, de reivindicação. É um teatro revolucionário, de muita personalidade”, afirma Bianca Araújo, coordenadora do TVV, o que é comprovado ao longo da sua história. Acolheu artistas e estudantes perseguidos pela ditadura, abrigou encontros do movimento estudantil. Foi sede da Anistia Internacional. No seu palco aconteceram os julgamentos e aprovação das anistias políticas do cineasta Glauber Rocha e do guerrilheiro Carlos Marighella. Mais recentemente o Vila abrigou o Movimento Desocupa, realizou o projeto A Cidade que Queremos, apoiou o Movimento Passe Livre. O ator João Miguel (esquerda) e o diretor do TVV, Márcio Meirelles. 14 Revista Pindorama | Setembro/Novembro de 2016

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FOTO: INTERNET FOTO: BLOG DO TVV A diretora teatral Zeca de Abreu. Singular e Plural – O TVV tem mantido integridade estética e política, sendo também espaço de investigação, de pesquisa, de abertura pra novos artistas. Outra característica é a aposta “em pessoas que não se sabe no que vai dar” – diz Márcio. “A gente recebe uma proposta, ninguém conhece os caras, é um tema complicado, estética difícil, mas vale a pena arriscar, porque é novo, diferente. Às vezes é um fracasso, mas às vezes daí sai um Lázaro Ramos, um Othon Bastos”. Muitos artistas de renome nacional e internacional têm na sua história o começo no TVV. Importantes grupos artísticos nasceram ou foram abrigados ali, como o Teatrinho Chique-Chique, Vilavox, Companhia Novos Novos, Viladança, Vivadança, Teatro Livre da Bahia, Outra, Núcleo Afro-brasileiro de Teatro de Alagoinhas, Cia Teatro da Queda, Supernova. Conservando o espírito inicial nunca parou, nem durante a reconstrução, entre 1994 e 1998, com os atores atuando e o público acomodado entre tijolos e sacos de cimento. E assim ainda acontece, “passou por muitos momentos frutíferos, difíceis, de indagação, de questionamentos, mas sempre se mantendo firme e revolucionário. Acho que o Teatro Vila Velha representa a nossa sociedade de forma muito singular” O ator Lázaro Ramos, uma das grandes revelações do TVV. - observa Bianca. Por isso Sônia declara que o TVV é mais que um teatro, é “companheirismo e muita responsabilidade”. O Vila consegue ser singular e plural. É singular por produzir os seus espetáculos, fugindo da regra geral de apenas ceder pautas. É plural porque apesar desta singularidade de produzir seu próprio conteúdo, produz diversificado, dialogando com muitos públicos. “O pessoal que curte o Bando de Teatro Olodum é um público, o pessoal que curte a o Viladança é outro, o mesmo ocorrendo com os espetáculos infantis, internacio- nais e da Universidade Livre” - destaca Bianca. Para produtora Valdineia Soriano, atriz do Bando de Teatro Olodum desde sua formação em 1990, é um privilégio ser residente do Teatro, “onde você faz e monta espetáculo no mesmo lugar. Eu não preciso ensaiar fora e depois vir botar o espetáculo no palco, um mês antes eu já posso ensaiar no palco”. Outra vantagem desta residência, que já dura 20 anos, é a relação de parceria: “Quando a gente está com boa bilheteria a gente paga a pauta, se não, a gente rateia a bilheteria”. Outra peculiaridade do Vila são os programas, de formação, principalmente a Universidade Livre criada em 2013 e que está com a segunda turma. O programa que dura três anos, tem o reconhecimento do sindicato e registro profissional na Delegacia Regional do Trabalho com certificado, o que permite aos atores atuar em teatro, cinema, televisão. A Universidade Livre segue o princípio do “fazendo e aprendendo” e fazendo tudo, cenário, figurino, material gráfico, programa, cartaz, luz etc. Segundo Márcio, idealizador do curso, “a ideia é que cada um construa seu próprio método criativo a partir destas referências”. Desta forma, os futuros atores “estão em cena sempre, quase que diariamente, não ficam numa sala aprendendo a fazer teatro para um dia fazer, aprendem fazendo, quebrando a cara, encarando o público”. “O Vila está vivo e continua lutando. Essa é uma frase que eu tenho escutado há bastante tempo, desde 1999, quando eu tava lá, juntinho, na revitalização do Vila Velha. O teatro que me deu régua e compasso, que me deu companheiros, que me estimulou, que me educou”. Lázaro Ramos. Revista Pindorama | Setembro/Novembro de 2016 15

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