Revista O Biólogo nº 39 | Cerrado: Destamatamento torna esse bioma mais ameaçado do que a Amazônia ou a Mata Atlântica

 

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Revista O Biólogo nº 39 | Cerrado: Destamatamento torna esse bioma mais ameaçado do que a Amazônia ou a Mata Atlântica

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ISSN 1982-5897 o BiólogoAnoX-no39-Jul/Ago/Set2016 Revista do Conselho Regional de Biologia - 1a Região (SP, MT, MS) Cerrado Desmatamento torna esse bioma mais ameaçado do que a Amazônia ou a Mata Atlântica Paulo Nogueira Neto A trajetória do pioneiro da defesa do meio ambiente Pássaros x aeronaves O trabalho para evitar colisões e acidentes Responsabilidade dos Biólogos Conheça os procedimentos para dar baixa a ARTs

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TOME NOTOA Biólogo Revista do Conselho Regional de Biologia 1a Região (SP, MT, MS) Ano X – No 39 – Jul/Ago/Set 2016 ISSN: 1982-5897 Conselho Regional de Biologia - 1a Região (São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul) Rua Manoel da Nóbrega, 595 – Conjunto 111 CEP: 04001-083 – São Paulo – SP Tel.: (11) 3884-1489 – Fax: (11) 3887-0163 crbio01@crbio01.gov.br / www.crbio01.gov.br Delegacia Regional de Mato Grosso do Sul CRBio-01 Rua 15 de novembro, 310 – 7o Andar – sala 703 CEP: 79002-140 – Campo Grande – MS Tel.: (67) 3044-6661 – delegaciams@crbio01.gov.br Delegacia Regional de Mato Grosso - CRBio-01 Em breve novo endereço Diretoria Eliézer José Marques Presidente Celso Luis Marino Secretário Luiz Eloy Pereira Vice-Presidente Edison Kubo Tesoureiro Conselheiros Efetivos (2015-2019) Celso Luis Marino; Edison Kubo; Edison de Souza; Eliézer José Marques; Giuseppe Puorto; Iracema Helena Schoenlein-Crusius; João Alberto Paschoa dos Santos; Luiz Eloy Pereira; Maria Saleti Ferraz Dias Ferreira; Wagner Cotroni Valenti. Conselheiros Suplentes Ana Paula de Arruda Geraldes Kataoka; André Camilli Dias; Horácio Manuel Santana Teles; José Carlos Chaves dos Santos; Maria Teresa de Paiva Azevedo; Marta Condé Lamparelli; Normandes Matos da Silva; Regina Célia Mingroni Neto; Sarah Arana. Grupo de Trabalho na Área de Comunicação do CRBio-01: Giuseppe Puorto (Coordenador) João Alberto Paschoa dos Santos João Stenghel Morgante Wagner Cotroni Valenti Jornalista responsável: Jayme Brener (MTb 19.289) Editor: Cláudio Camargo Textos: Edmir Nogueira, Cláudio Camargo, Silvia Kochen e Carla Itália Projeto Gráfico, Diagramação e Capa: Regina Beer Periodicidade: Trimestral Os artigos assinados são de exclusiva responsabilidade de seus autores e podem não refletir a opinião desta entidade. O CRBio-01 não responde pela qualidade dos cursos divulgados. A publicação destes visa apenas dar conhecimento aos profissionais das opções 2dispoOnívBeIiOs LnOoGmOercJaadno/. Fev/Mar 2015 ÍNDICE 03 Editorial 04 O Cerrado sob ameaça 11 Dia Nacional do Biólogo 12 Grandes Biólogos Brasileiros Paulo Nogueira Neto 14 Prevenção de colisão entre aves e aeronaves 17 Ecos da Plenária 18 Responsabilidades dos Biólogos 21 Arquivo do Biólogo 22 CFBio Notícias 23 Tome nota

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EDITORIAL Caros Biólogos, Nossa reportagem de capa é sobre o Cerrado, o segundo maior bioma do país depois da Amazônia. Ocupando pouco menos de um quarto do território brasileiro – quase 2 mil quilômetros quadrados –, o Cerrado abrange 12 estados da federação: Pará, Maranhão, Piauí, Bahia, Minas Gerais, Rondônia, Tocantins, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Paraná, além do Distrito Federal e partes de Roraima e Amapá. Este bioma conta com fauna e flora extremamente diversificadas, com mais de 11 mil espécies de vegetais, 1.200 espécies de peixes e 837 espécies de aves. Pelo menos 199 espécies de mamíferos estão catalogados. Entre os vertebrados de maior porte que estão sob o risco de extinção, destacam-se o tamanduá-bandeira, anta, veado campeiro, lobo-guará e as já raras onças pintada e parda. Mais do que a Amazônia ou a Mata Atlântica, o Cerrado vem sofrendo perdas consideráveis de sua biodiversidade devido ao avanço descontrolado da agropecuária intensiva e do consequente desmatamento. De que maneira nós Biólogos podemos colaborar para evitar que esse processo avance descontroladamente? Você também poderá conferir nesta edição a brilhante trajetória do Biólogo Paulo Nogueira Neto, um dos pioneiros do ambientalismo no país. Ele não só arquitetou a primeira legislação ambiental a partir da Secretaria Especial do Meio Ambiente (Sema), nos anos 1970, como foi um dos responsáveis por formular o conceito de desenvolvimento sustentável. Outra reportagem desta edição trata do trabalho dos Biólogos empenhados em reduzir os riscos decorrentes da colisão de aves com aviões nos aeroportos brasileiros. Esses profissionais do Risco de Fauna – uma área da Biologia que está se estabelecendo no país – analisam as causas da presença de aves no entorno dos aeroportos e ajudam a tomar medidas para prevenção de acidentes, inclusive com o uso de falcoaria. Finalmente, outra matéria de grande interesse para a categoria trata dos procedimentos para se dar baixa de Anotações de Responsabilidade Técnicas (ARTs) depois que o profissional conclui determinado trabalho ou simplesmente se desliga da empresa. Boa leitura! Eliézer José Marques Presidente do CRBio-01 Antes de Emitir a ART Consulte a Resolução CFBio n.º 11/03 e o Manual da ART. Mudou de Endereço? Informe o CRBio-01 quando mudar de endereço, ou quando houver alteração de telefone, CEP ou e-mail. Mantenha o seu endereço atualizado. CFBio Digital O espaço do Biólogo na Internet O CRBio-01 estabeleceu parceria com a empresa Enozes Publicações para implantação do CRBioDigital, espaço exclusivo na Internet para Biólogos registrados divulgarem seus currículos, artigos, notícias, prestação de serviços, além de disponibilizar um Site a cada profissional. O conteúdo é totalmente gerenciado pelo próprio profissional. O CRBioDigital além de ser guia e catálogo eletrônico de profissionais, promove também a interação entre os Biólogos registrados, formando uma comunidade profissional digital.  Para acessar entre no portal do CRBio-01: www.crbio01.gov.br Jul/Ago/Set 2016 O Biólogo 3

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Pedro Ventura/Agência Brasília - Fotos Publicas CAPA 4 O Biólogo Jul/Ago/Set

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A ameaça sobre o Cerrado Mais do que a Amazônia ou a Mata Atlântica, esse bioma está sofrendo perdas significativas de biodiversidade devido ao avanço da agropecuária POR GEORGE ALONSO Jul/Ago/Set 2016 O Biólogo 5

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CAPA Q uando se fala em defender a natureza no Brasil, o que logo vem à cabeça é a Amazônia, floresta tropical que perde extensão ano a ano devido ao desmatamento, com a retirada ilegal de madeiras nobres, e a Mata Atlântica – ou melhor, o que sobrou dela na costa brasileira. O que pouco se fala, porém, é que outro gigantesco bioma brasileiro, o Cerrado, está ameaçado. Os motivos: perdas significativas na biodiversidade devido ao avanço da agropecuária extensiva e a ocorrência de incêndios sem controle. O Cerrado já ocupou 25% do território nacional, mas hoje abrange cerca de 22%. Esse bioma se estende do Mato Grosso do Sul a Rondônia e Tocantins; de Goiás a Minas Gerais e parte da Bahia. Segundo maior bioma brasileiro, com 2.000.000 km², o Cerrado tem uma incrível diversidade de fauna e flora: ali existem mais de 11 mil espécies de vegetais, 1.200 de peixes, 837 espécies de aves. Pelo menos 199 espécies de mamíferos estão catalogados. Entre os vertebrados de maior porte que estão sob risco, aparecem o tamanduá-bandeira, anta, veado campeiro, lobo-guará e as já raras onças pintada e parda. Pelo menos 137 espécies de animais que vivem no Cerrado estão hoje ameaçadas de extinção. A pressão pela abertura de novas fronteiras agrícolas, com o objetivo de aumentar a produção de carne e de grãos para exportação, tem provocado um progressivo esgotamento dos recursos naturais da região. Depois da Mata Atlântica, o Cerrado é o bioma brasileiro que mais sofreu alterações com a ocupação humana. “Atualmente, a devastação do Cerrado tem sido maior do que a da Amazônia. Dados de 2012 registram que foram derrubados 6.400 km² daquela mata, contra uma perda de 7.400 km² no Cerrado. Grandes áreas vêm sendo ocupadas no Centro-Oeste para o cultivo de soja e algodão. Certamente isso leva a uma perda cres- 6 O Biólogo Jul/Ago/Set 2016

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Tatu-bola Tamanduá-bandeira Anta Onça pintada Lobo-guará Veado campeiro cente de biodiversidade e uma forte ameaça à flora e à fauna”, diz a pesquisadora aposentada Lilian Zaidan. O pior é que, segundo ela, grandes áreas cultivadas requerem grande quantidade de insumos agrícolas (adubo, nutrientes, pesticidas, fungicidas etc.) que são em geral aplicados sem o necessário cuidado e respeito com as áreas protegidas vizinhas, podendo destruir a vegetação nativa e contaminar os rios e drenos de águas pluviais. Se considerarmos que aproximadamente 45% da área de domínio do Cerrado já foram tomadas por lavouras e pastagens, novas zonas de proteção deveriam ser criadas. Embora existam grandes parques nacionais [entre eles, o Parque Nacional das Emas, a Serra da Canastra, a Chapada dos Guimarães e a Chapada dos Veadeiros], a verdade é que “para a conservação de carnívoros de maior porte, como a onça-pintada e a onça-parda, por exemplo, o ideal seria que elas fossem ainda maiores”, escreveu, em artigo, o Biólogo Leopoldo Magno Coutinho (1934-2016), considerado no país e no exterior a maior autoridade brasileira sobre o Cerrado [leia texto sobre o pesquisador]. O fato é que a grande maioria das unidades de conservação está em “situação de abandono” – estejam elas sob a batuta municipal, estadual ou federal. Há inúmeros problemas, que vão da demarcação de terras à construção de cercas, do acesso por estradas de rodagem ao gerencia- mento incompetente dos recursos de toda ordem à falta de qualificação de pessoal. Sem falar no manejo da fauna e da flora. Segundo os estudiosos, não será a colocação de cercas que vai garantir, por exemplo, a preservação da biodiversidade. As cercas, na verdade, podem até representar uma séria ameaça às populações de animais remanescentes no Cerrado. A rigor, nessas condições podem ocorrer epidemias e problemas de consanguinidade sem que se saiba, afirmam os pesquisadores. Até porque nunca houve um trabalho de contagem dessas populações ou pesquisas de longa duração com a fauna do Cerrado. A questão da conservação do Cerrado via manejo da fauna e da flora já Jul/Ago/Set 2016 O Biólogo 7

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CAPA causou alguma polêmica no passado. O motivo: estudiosos passaram a defender queimadas controladas nas áreas de Cerrado original, como técnica conservacionista. Um leigo perguntaria: “Como conservar, ateando fogo?” Há, no entanto, razões científicas para essa forma de atuação, dizem os pesquisadores. Quando o homem ainda não tinha ocupado essas regiões, em tempos remotos, grandes incêndios aconteciam no Cerrado, devido ao período da seca – quando o acúmulo de palha acabava propiciando as condições ideais à queima, com o surgimento de focos de fogo naturalmente. Além disso, a queda de raios no começo da estação chuvosa produzia incêndios que, devido ao clima, se alastravam com extrema facilidade e velocidade. Por incrível que pareça, segundo os estudiosos, essas “queimadas naturais” não eram tão desastrosas quanto aquelas feitas atualmente pelo homem para implantar agricultura e pecuária. Por quê? A resposta a essa pergunta reforça um ditado popular que diz que “Deus inventou a terra e o diabo, o arame farpado”. Não havia cercas prendendo os animais, que assim conseguiam fugir do fogo para áreas vizinhas. Assim as áreas destruídas 8 O Biólogo Jul/Ago/Set 2016 Antigamente, grandes incêndios aconteciam no Cerrado devido ao período de seca e aos raios no começo da estação chuvosa. Estas “queimadas naturais” não eram tão desastrosas ao meio ambiente quanto aquelas feitas atualmente

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pelo incêndio espontâneo podiam ser repovoadas. ”A utilização de queimadas controladas e periódicas para o controle da diversidade biológica é uma prática usual nas savanas africanas e na Austrália”, explica Lilian Zaidan. “Queimadas preventivas, feitas em áreas delimitadas e a cada 2 a 3 anos podem evitar um incêndio de grandes proporções. Além de induzir a floração, o fogo sincroniza a floração nos indivíduos de uma mesma espécie, o que é importante para a ocorrência de polinização cruzada e para a recombinação genética”, continua. Ela diz que outra adaptação observada é a abertura de frutos e liberação das sementes poucos dias após a queimada. “Com isto, as sementes, que comumente se dispersam pelo vento, não encontram a macega de capim que poderia prejudicar a dispersão e podem ser levadas pelo vento a longas distâncias. Além disso, poderão germinar e suas plântulas terem seu crescimento favorecido pela maior exposição à luz, na ausência de sombreamento por outras plantas”, conclui Lilian Zaidan. Outro problema nos dias de hoje é que áreas de conservação, como parques nacionais, se tornaram verdadeiras ilhas. Por exemplo, o Parque das Emas, a sudoeste de Goiás, está cercado por plantações de soja e algodão por todos os lados. Nesse caso, sem ter para onde correr, os animais serão dizimados, caso ocorram grandes incêndios sem manejo adequado. Além disso, a criação extensiva de gado requereu a importação de gramíneas africanas, altamente produtivas, como o capim-gordura, o capim-jaraguá, a braquiária – esta última é particularmente agressiva, tolera bem o fogo e cresce com até mais vigor, reproduz-se com facilida- de e é tóxica para as espécies nati- cerrados mais arbóreos. A quantida- vas, matando as que crescem ao seu de de espécies nos cerrados abertos redor. Vários herbívoros do cerrado (tanto de plantas como vários gru- alimentam-se de folhas, frutos e flo- pos de animais: aves e répteis) é mui- res de espécies nativas e a eles pode to maior do que nos fechados – cerca faltar alimento nessas condições de de dois terços do total. Em ambien- competição. Muitas unidades de tes que permitem o desenvolvimen- conservação estão hoje tomadas por to do estrato arbóreo, como são, em essas espécies exóticas, o que contri- geral, os cerrados no estado de São bui muito para a perda da biodiversi- Paulo [ou o que sobraram deles], a dade no Cerrado. ausência de fogo leva a uma homo- Diante desse quadro, a professo- geneização fisionômica, com a per- ra Vânia Regina Pivello, do Departa- da das fisionomias abertas”, afirma a mento de Ecologia da Universidade pesquisadora. de São Paulo, foi indagada sobre o Em termos conservacionistas que fazer para reverter a situação. isso é ruim, segundo ela, porque Segundo ela, o Cerrado é composto além de muitas plantas, também por gradiente de fisionomias de ve- muitos animais acabam desapare- getação mais abertas (com poucas cendo e se extinguindo. Então, ex- árvores) ou mais fechadas (com mui- plica Vânia Pivello, o manejo por tas árvores). O uso do fogo promove meio de queimadas controladas as fisionomias mais abertas, pois fa- e com regime (leia-se frequência, vorece o estrato herbáceo, em detri- época, intensidade, extensão da mento do arbóreo. queimada) definido conforme os “O melhor é ter-se um mosaico objetivos de conservação é uma al- de fisionomias, pois assim podem-se ternativa eficaz e barata de propor- manter espécies que só vivem em cionar o mosaico de fisionomias em áreas abertas e as que só vivem em unidades de conservação. ¤ Jul/Ago/Set 2016 O Biólogo 9

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CAPA Leopoldo Coutinho: o “pirotécnico do bem” O Brasil perdeu em 19 de fevereiro deste ano um dos pesquisadores mais importantes na área do meio ambiente. Professor da Universidade de São Paulo (USP), durante 49 anos Leopoldo Magno Coutinho ensinou ecologia no Instituto de Biociências. Deu aulas de biologia vegetal até 2002. Seu principal campo de pesquisa foi o Cerrado e a importância do fogo para esse bioma, o que lhe valeu o apelido carinhoso dos amigos de “piromaníaco”. Ele visitava a região central do país com frequência, estudava a vegetação nativa, resgatava urubus e corujas, assistia ao florescimento. Morreu aos 81 anos, e mesmo no hospital trabalhava em um livro inédito, Os principais biomas do Brasil, a ser lançado ainda em 2016 pela editora Oficina de Textos. O gosto pela natureza e por plantas ele herdou do pai, um farmacêutico português que viveu na Amazônia e trabalhou como seringueiro no Acre, e da mãe, que adorava plantas. Quando não estava trabalhando, Leopoldo se dedicava às orquídeas, sempre presentes no quintal de sua casa. “Meu pai contava muitas histórias da floresta amazônica, da fauna e dos ambientes com os quais ele conviveu durante anos. Isso fez com que desde pequeno eu me impressionasse com a natureza e despertou a minha curiosidade”, revelou o estudioso em entrevista ao USP OnLine Destaque. Até a adolescência, ele teve intenso convívio com o ambiente farmacêutico. “Isso me trouxe certa familiaridade com laboratórios, vidrarias e princípios químicos. Além disso, as farmácias eram principalmente de manipulação, e suas matérias-primas eram plantas secas ou em pó”, lembrou ele. Em 1976, Coutinho defendeu sua tese de livre-docência com uma dissertação sobre os efeitos das queimadas na floração das espécies do Cerrado. Segundo o professor, a população tem o costume de atear fogo no Cerrado na época de seca, porque assim ele rebrota verde. A queimada, porém, costuma ser feita sem o cuidado para que o fogo não se alas- Leopoldo Magno Coutinho tre. Foi aí que o pesquisador passou a estudar como o fogo interferia na fisiologia de floração das plantas do Cerrado e fatores que determinavam a sua existência. “O fogo sempre foi um elemento presente no Cerrado. As pessoas sabiam disso, mas não havia ninguém avaliando esse fator ambiental. Sua origem era creditada só à intervenção humana, desprezando-se a ação de raios, como acontece na Savana Africana. Após vários estudos, eu e um grupo de alunos demonstramos a presença de queimadas naturais provocadas por raios”, contou ao site da USP. Depois, o professor investigou os fatores determinantes para que as plantas do bioma pudessem florescer. Em laboratórios e estufas fez três experimentos: primeiro pôs fogo nas plantas, no segundo as podou e, por fim, as expôs a períodos de seca. Em todos os casos, o efeito foi a floração. Assim constatou que o essencial era eliminar a parte aérea da planta, independente da forma. “Após entender o período de florescimento das plantas, eu costumava, por brincadeira, atear fogo num vaso com a espécie preferida da minha filha. Calculando o tempo necessário, entregava-lhe o vaso florido no dia de seu aniversário. Era um gesto simples, mas de grande simbologia”, disse o “piromaníaco do bem”. 10 O Biólogo Jul/Ago/Set 2016

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GRANDES BIÓLOGOS BRASILEIROS Paulo Nogueira Neto Integrante da comissão da ONU que definiu o conceito de desenvolvimento sustentável, ele foi um dos pioneiros da defesa do meio ambiente no Brasil 12 O Biólogo Jul/Ago/Set 2016 Até os anos 1980, muita gente desdenhava a preocupação com o meio ambiente, então ainda minoritária, mas crescente. O ambientalismo só entrou na pauta global em 1972, com a Conferência de Estocolmo patrocinada pela ONU. Enquanto isso, no Brasil os tecnocratas diziam que investir no meio ambiente era um desperdício, pois prejudicaria o esforço do país para superar seu atraso histórico e acabar com a miséria generalizada. Remando contra a corrente, o Biólogo Paulo Nogueira Neto assumiu em 1974 a Secretaria Especial do Meio Ambiente (Sema), de onde arquitetou uma legislação ambiental básica, e estabeleceu 3,2 milhões de hectares para 26 Estações Ecológicas. Nogueira também idealizou o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) e a Política Nacional do Meio Ambiente, lançando as bases do Ministério do Meio Ambiente. No livro Diário de Paulo Nogueira-Neto – Uma Trajetória Ambientalista, o Biólogo conta como surgiu o conceito de “desenvolvimento sustentável”. Foi no âmbito da Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento – CMMAD, criada em 1983 e mais conhecida como

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Comissão Brundtland, em razão do nome de sua presidente, a ex-primeira-ministra norueguesa Gro Harlem Brundtland: “Nos debates da Comissão Brundtland, cedo verificamos que o excesso de população, que está ainda crescendo, é um dos maiores problemas do planeta Terra. Assim, frear o crescimento excessivo da população humana pareceu prioritário. Como fazer isso? Somente seria possível, ou viável, através dos benefícios trazidos pelo desenvolvimento. Mas que desenvolvimento? De que tipo? Alguém sugeriu que seria um ‘Desenvolvimento Sustentável ou Sustentado’. E como seria este? Como ele se manteria no decorrer dos séculos? Chegamos à conclusão, chave e óbvia, que o Desenvolvimento Sustentável é o que não prejudica a geração atual nem as gerações futuras. Com os bons resultados assim produzidos, seria possível realizar uma das nossas metas principais aqui na Terra: a erradicação da miséria”. Paulo Nogueira Neto é um dos precursores do ambientalismo no Brasil. Nascido em São Paulo em 18 de abril de 1922, dois meses depois da realização da Semana de Arte Moderna, ele veio de uma família tradicional, que tinha entre os antepassados José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independência (por parte de pai), e Campos Salles, o 4º presidente do Brasil (por parte de mãe). Seu pai, Paulo Nogueira Filho, era um político militante, tendo sido um dos articuladores do Partido Democrático, em 1926; da Revolução de 1930; da Revolução de 1932 e um dos fundadores da UDN, em 1945. Mas o filho cedo despontaria para a Biologia. Frequentando a fazenda de propriedade de Manoel Ribeiro do Valle, na região de Campinas, Nogueira ficou fascinado pelas abelhas sem ferrão (Meliponinae) que o fazendeiro criava e guardava em caixas, e pela filha dele, Lucia Ribeiro do Valle, com quem acabou se casando em 1944. Bacharelando em Ciências Jurídicas e Sociais em 1954, Nogueira resolveu, incentivado pelo amigo zoólogo Paulo Vanzolini, fazer o curso de História Natural na Faculdade de Ciências e Letras da USP, o qual concluiu em 1959. Sua tese de doutorado, de 1963, foi sobre a arquitetura do ninho das abelhas sem ferrão que ele tinha visto quando mais jovem. Já a tese de livre-docência, de 1980, foi sobre o comportamento de pombas e psitacídeos silvestres. Paulo Nogueira Neto foi um dos que mais lutaram pelo reconhecimento da profissão de Biólogo, ocorrida em 1979, tendo sido o primeiro presidente do Conselho Federal de Biologia (CFBio), entre 1981-1986. Após sair da SEMA, em 1986, durante dois anos foi Secretário de Meio-ambiente do Distrito Federal, organizando e dirigindo a SEMATEC. Criou e implantou a Área de Proteção Ambiental (APA) de Cafuringa, no DF. Em 1988 obteve o título de Professor Titular de ecologia. Foi um dos fundadores do Departamento de Ecologia Geral, no Instituto de Biociências da USP. Aposentou-se em 1992, mas em 2001 recebeu o título de Professor Emérito do Instituto de Biociência da USP. Durante diversos anos deu cursos sobre o comportamento dos animais sociais e sobre as mudanças climáticas e os ecossistemas terrestres. Foi também um dos fundadores do Departamento de Ecologia Geral, no Instituto de Biociências da USP. Recebeu vários prêmios, inclusive internacionais, entre eles o Paul Getty, em 1981, e o Duke of Edinburgh, da World Wildwife Fund International (WWF), em 1997. Para Roberto Brandão Cavalcanti, ex-secretário de Biodiversidade e Florestas do Ministério do Meio Ambiente, Paulo Nogueira Neto tornou possível a carreira de Biólogo no Brasil. “Ele é um naturalista do estilo darwiniano, tem uma curiosidade insaciável. Cultivava na época abelhas sem ferrão e trouxe elandes (uma espécie de antílope) da África. Ele introduziu o conceito de estações ecológicas e ajudou a passar a Lei da Política Ambiental em 1981”, resumiu Cavalcanti. ¤ Jul/Ago/Set 2016 O Biólogo 13

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ACONTECE Aviões, urubus e falcões POR IAN PELLEGRINI MONTES Biólogos trabalham para diminuir casos de colisões entre pássaros e aeronaves 14 O Biólogo Jul/Ago/Set 2016 No último dia 15 de agosto, um voo que saía de Brasília com destino a São Paulo foi cancelado depois de o avião ter colidido com um urubu durante a decolagem. Este foi apenas mais um dos milhares de casos de aves que, a cada ano, se chocam com aeronaves em todo o Brasil, constituindo uma séria ameaça à segurança dos passageiros, dos aviões e até da fauna. Só em 2014, o Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) registrou 1.495 colisões de aves com aviões no país. O Risco de Fauna é uma área da Biologia que está se estabelecendo no Brasil e é responsável pelos estudos de identificação e gerenciamento dos riscos causados por aves à segurança de voo. O tema ganhou o noticiário internacional em 2009, quando um avião que saía de Nova York colidiu com um bando de gansos canadenses e teve que fazer um pouso forçado na água. Todos os passageiros sobreviveram, mas a repercussão do caso chamou a atenção para outros aspectos do Risco de Fauna.

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A Bióloga Mariane Biz, docente e sócia-diretora da Via Fauna, que trabalhou no gerenciamento de Risco de Fauna no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, destaca que muitas vezes os acidentes não são percebidos no voo. “Nem toda colisão é significativa para a segurança de voo, embora para as aves todo choque com aeronave seja fatal, uma vez que elas morrem em 100% dos casos”. Algumas vezes os pilotos do avião não percebem o choque e só depois do pouso o material orgânico da ave é notado em alguma parte da fusela- Entre as estratégias para diminuir a entrada de animais nos aeroportos estão as ações de manejo indireto, em que o ambiente é modificado para que não seja favorável à atração de diversas espécies. Também são usados pirotecnia, dispositivos sonoros e falcoaria. gem. Mas o relato desses casos é extremamente importante para que os Biólogos tenham os dados necessários para realizar um diagnóstico da situação. “Se a gente não sabe quais são as espécies que colidem, fica difícil fazermos alguma coisa. Cada espécie tem um manejo diferente; nós lidamos de forma diferente com cada espécie”, explica Mariane. O Cenipa é o órgão do governo que recebe as notificações e realiza um levantamento nacional de colisões entre aves e aeronaves. Para conseguir estatísticas mais detalhadas, o Cenipa também tem um protocolo para a coleta dos resíduos de animais nos aviões. Depois de coletado, o material é enviado para análise genética a fim de se identificar a espécie envolvida no acidente. Identificação da Fauna e Gerenciamento do Risco Em 2012 foi sancionada a lei 12.725, que dispõe sobre o controle de fauna em aeroportos, estabelecendo as normas para o controle e limitando as atividades atrativas às aves no entorno dos aeródromos, como aterros sanitários e matadouros. Em conjunto com essa lei, a norma 164/2014 dos Regulamentos Brasileiros da Aviação Civil, determina as regras e procedimentos para o gerenciamento do Risco de Fauna nos aeroportos públicos. A partir dessa regulamentação, ficou definido que todos os aeroportos públicos precisam realizar o estudo de Identificação do Perigo de Fauna (IPF) e a execução de um Programa de Gerenciamento do Risco de fauna (PGRF). Jul/Ago/Set 2016 O Biólogo 15

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