eisFluências - Revista Literária e Informação

 

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eisFluências - Revista Literária e Informação eisFluências - Literary Magazine and Information Revista de Fevereiro de 2011 - Suplemento Magazine 2011 February - supplement Revista literária e informação em lingua portuguesa e eventualmente com

Popular Pages


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issn 2177-5761 issn 2177-5761 9 772177 576008 revista bimestral fevereiro/2011 suplemento arruar por um recife histÓrico cultural e poÉtico pela passagem dos 474 anos do aniversário do recife reportagem escrita e realizada por mercêdes pordeus recife que canta e encanta quem nele vive e os que o visitam levando consigo a impressão de uma cidade lendária rica em tradições porém que a partir delas também se moderniza o recife fala por si só como vou lhes dizer recife fala através dos seus rios das suas pontes que sobre eles tecem um lindo visual suas praças igrejas e teatros da poesia desde a popular e livre aquela que está escrita de modo colorida nos seus muros como se não fosse suficiente se despir para seus transeuntes através dos poetas consagrados que o cantaram em versos e prosa poetas e escritores muitos já não estão entre nós porém deixaram como legado um grande acervo que consiste num hino de amor a cidade a poesia popular os cordéis enaltecem o recife e um dia se tornarão através da sua continuidade grande contribuição para as gerações futuras andar pelas ruas do recife é respirar história sentir pairar no ar a poesia reviver um passado de glória e nesse contexto ingressar num mundo real x ilusório recife histórico lendário com suas lutas de ideais libertários constantes dentre elas a revolução de 1817 e a confederação do equador em 1824 seu primeiro registro histórico aconteceu em 12 de março de 1537 na ocasião desse registro deu donatário duarte coelho pereira recebeu a carta de doação da coroa portuguesa foral de olinda nessa carta o lugar era denominado de ancoradouro de navios onde mais tarde um lugarejo originaria a capital de pernambuco no início do século xvii o recife possuía cerca de 40 casas apenas as quais se localizavam sobre o istmo que ligava olinda a recife o istmo apresentava pouca largura sendo banhado por um lado pelo mar e outro o rio beberibe em 1630 recife foi invadido pelos holandeses que inicialmente tomaram olinda seguindo para o recife com eles vieram muitos judeus que fugiam da perseguição religiosa e juntaram-se aos cristãos novos que já tinham migrado para o brasil ali estabelecidos deram início ao processo de aterro do rio beberibe e sobre esse aterro começaram a edificar prédios tais como habitações lojas armazéns etc essa rua que hoje se chama bom jesus na época era conhecida como rua dos judeus em uma destas casas instalaram uma sinagoga a kahal zur israel rochedo de israel foi a primeira criada nas américas e tinha primazia sobre as demais que foram criadas em seguida com a expulsão dos holandeses em 1654 a sinagoga foi desativada e muitos judeus saíram do recife seguiram para a nova amsterdam que deu origem a new york recife tornou-se cidade em 1823 e capital de pernambuco em 1827 foi palco de muitas revoluções sangrentas marcadas por lutas políticas mas aos poucos talvez como consequência foi se modernizando não vou me deter muito na nossa história pois a encontramos nos livros nas consultas em internet o que eu gostaria mesmo de lhes mostrar como é o recife atual no seu cotidiano violência pobreza sim nela existem mas qual cidade ou capital do brasil está livre delas na melhor das hipóteses diariamente com o êxodo rural aglomeram-se pessoas nas cidades fugindo das dificuldades como a seca por exemplo em busca de uma vida melhor e despreparadas acabam por se amontoarem sem chances de emprego outro problema a falta de emprego não só no recife pessoas que receberam uma boa educação formal sofrem a falta deste quanto mais aqueles que não tiveram chances na vida em decorrência desses problemas dentre outras realidades vão surgindo outros.

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02 eisfluências suplemento de fevereiro 2011 contudo não é problema só na nossa cidade mas no país em geral e isso ocorre também no exterior por isso digo recife é uma cidade como outra qualquer do país mas tem seus valores suas belezas tem sua memória pois não é uma cidade sem história recife rio capibaribe presente e cantados em versos e prosa que por vezes acolhe como reflexo as imagens de lindos casarios em suas águas como na rua da aurora por exemplo que foi uma constante na vida de manuel bandeira hoje ele ficaria feliz por ver que as ruas da aurora da união da saudade e do sol permaneceram com os mesmos nomes continuam lindos os nomes de suas ruas de sua cidade e não se chamam dr fulano de tal por que o recife e não recife transcrevo um texto de uma linda obra cujo título é arruando pelo recife de leonardo dantas da silva sebrae 2000 o recife por dever recife sim recife não gilberto freyre a regra geral ensina que todo topônimo originário de um acidente geográfico é antecedido do artigo definido adverte gonsalves de melo antes citado porque se originou de um acidente geográfico ­ o recife ou o arrecife ­ a designação do recife não prescinde do artigo definido masculino o recife nunca recife e não em recife de recife para recife e isto pela mesma razão porque ninguém diz em rio de bahia em pará em amazonas em rio grande do sul em paraíba etc como se não bastasse a lição gilberto freyre corrobora a mesma regra no seu o recife sim recife não pequeno guia do recife escrito para não recifenses pelo recifense de apipucos onde esclarece todo bom brasileiro de pernambuco diz o recife e não recife como diz o brasil e não brasil o rio e não rio o recifense constata gilberto freyre diz chegar ao recife vir para o recife sair do recife voar sobre o recife quando é outro o modo de a pessoa se referir ao recife o recifense conclui é gente de fora no mesmo diapasão são as observações de waldemar de oliveira isso de dizer em recife é ignorância de gente do sul que não sabe muito de tais coisas só tendo de lamentar que recifenses autênticos dêem curso a essa bobagem já numerosas vezes ­ e por vozes mais autorizadas que a minha ­ combatida sem contrapartida possível a errônea se vai alastrando mas é dever meu contraditá-la porque eu sou ­ e com muita honra do recife as outras vozes mais autorizadas a que se refere waldemar de oliveira seriam as do reverendo jerônimo gueiros in cidade de recife ou cidade do recife revista arquivos nº 1 1942 do jornalista mario melo in o nome da capital pernambucana revista da academia de letras v.8 rio 1944 além do ex-reitor da universidade do recife joaquim amazonas e do escritor luiz estevão que sobre o tema dissertaram longamente em sessão do instituto arqueológico histórico e geográfico pernambucano quem despreza o artigo definido masculino antes do nome de nossa cidade por certo nunca conheceu o nem residiu no e muito menos é originário do recife com orgulho como diria o poeta antonio maria o recife assim deseja para conhecer o pouco mais do conteúdo desta linda obra e fazer um maravilhoso passeio arruar pelo recife acesse http www.geocities.com/heartland/park/3143/recife2.html como será que os poetas viram e vêem o recife acompanhem-me neste jardim de poesia e verão vale a pena conferir ficha tÉcnica director victor jerónimo portugal/brasil directora cultural carmo vasconcelos portugal responsável pela redacção mercêdes pordeus brasil design gráfico e composição victor jerónimo nosso sítio http www.eisfluencias.verbostrepitus.com conselho de redacção abilio pacheco brasil humberto rodrigues neto brasil luiz gilberto de barros brasil marco bastos brasil petrônio de souza gonçalves brasil rosa pena brasil correspondentes alemanha antónio da cunha duarte justo argentina maría cristina garay andrade bielorussia oleg almeida brasil elizabeth misciasci colômbia eugénio de sá revista de eventos actualidades notícias culturais político/sociais e outras mas sempre virada à directriz cultural nas suas várias facetas propriedade de mercêdes batista pordeus barroqueiro recife/pe/brasil tiragem 100 ex distribuição gratuíta divulgação via internet depósito legal lei do depÓsito legal lei n° 10.994 de 14 de dezembro de 2004 biblioteca nacional brasil isnn 2177-5761 contacto eisfluencias@verbostrepitus.com

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eisfluências suplemento de fevereiro 2011 03 evocação do recife manuel bandeira recife não a veneza americana não a mauritsstad dos armadores das Índias ocidentais não o recife dos mascates nem mesmo o recife que aprendi a amar depois recife das revoluções libertárias mas o recife sem história nem literatura recife sem mais nada recife da minha infância a rua da união onde eu brincava de chicote-queimado e partia as vidraças da casa de dona aninha viegas totônio rodrigues era muito velho e botava o pincenê na ponta do nariz depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras mexericos namoros risadas a gente brincava no meio da rua os meninos gritavam coelho sai não sai a distância as vozes macias das meninas politonavam roseira dá-me uma rosa craveiro dá-me um botão dessas rosas muita rosa terá morrido em botão de repente nos longos da noite um sino uma pessoa grande dizia fogo em santo antônio outra contrariava são josé totônio rodrigues achava sempre que era são josé os homens punham o chapéu saíam fumando e eu tinha raiva de ser menino porque não podia ir ver o fogo rua da união como eram lindos os montes das ruas da minha infância rua do sol tenho medo que hoje se chame de dr fulano de tal atrás de casa ficava a rua da saudade onde se ia fumar escondido do lado de lá era o cais da rua da aurora onde se ia pescar escondido capiberibe capiberibe lá longe o sertãozinho de caxangá banheiros de palha um dia eu vi uma moça nuinha no banho fiquei parado o coração batendo ela se riu foi o meu primeiro alumbramento cheia as cheias barro boi morto árvores destroços redemoinho sumiu e nos pegões da ponte do trem de ferro os caboclos destemidos em jangadas de bananeiras novenas cavalhadas e eu me deitei no colo da menina e ela começou a passar a mão nos meus cabelos capiberibe capiberibe rua da união onde todas as tardes passava a preta das bananas com o xale vistoso de pano da costa e o vendedor de roletes de cana o de amendoim que se chamava midubim e não era torrado era cozido me lembro de todos os pregões ovos frescos e baratos dez ovos por uma pataca foi há muito tempo a vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros vinha da boca do povo na língua errada do povo língua certa do povo porque ele é que fala gostoso o português do brasil ao passo que nós o que fazemos É macaquear a sintaxe lusíada a vida com uma porção de coisas que eu não entendia bem terras que não sabia onde ficavam recife rua da união a casa de meu avô nunca pensei que ela acabasse tudo lá parecia impregnado de eternidade recife meu avô morto recife morto recife bom recife brasileiro como a casa de meu avô tarde no recife joaquim cardozo tarde no recife da ponta maurício o céu e a cidade fachada verde do café máxime cais do abacaxi gameleiras da torre do telégrafo Ótico a voz colorida das bandeiras anuncia que vapores entraram no horizonte tanta gente apressada tanta mulher bonita a tagarelice dos bondes e dos automóveis um carreto gritando alerta algazarra seis horas os sinos recife romântico dos crepúsculos das pontes dos longos crepúsculos que assistiram à passagem [dos fidalgos holandeses que assistem agora ao mar inerte das ruas tumultuosas que assistirão mais tarde à passagem de aviões para as costas [do pacífico recife romântico dos crepúsculos das pontes e da beleza católica do rio recife com arrecifes e ponte giratória ao fundo

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04 eisfluências suplemento de fevereiro 2011 domingo no recife mauro mota o número encarnado no calendário retalho do vestido esvoaçante na tarde de regata derradeira mancha de sangue o corpo recomposto nessa mancha deslizando na superfície do domingo domingo urbano colorido de acácias que acharam nesta floração apenas as sombras dos antigos namorados Ó pedra tumular do banco do jardim público dia nítido lavado pelo capibaribe o rio ninando o recife o recife criança em seus braços maternos domingo de várias ressurreições da mãe levando o menino para a missa do primeiro cinema impróprio para menores do circo do clarinete de seu miguel domingo colonial imutável no bairro de são josé vêm da igreja a música do órgão e as vozes femininas de dois séculos um vôo de pomba acaricia o espaço quieto o espírito santo baixará no pátio de são pedro domingo feito de silêncio e sombras descendo a escada perturbas somente a paz dos arquivos libertas o tempo prisioneiro nas gavetas as palavras das cartas soam como vozes as dedicatórias saem do mutismo da caligrafia para os lábios úmidos dos retratos exuma-se o baralho na mesa de jantar as primas em dezembro os valetes dormindo para sempre as damas louras consumidas vejo do cais da rua da aurora o domingo fugindo nas ioles na cor da tarde no vôo dos passarinhos na bicicleta de suzana assisto ao suicídio do domingo no recife o domingo jogando-se da torre do diario na música do carrilhão batendo meia-noite receio de entrar na madrugada fria recolho na praça as horas despedaçadas quero que este domingo seja a antecipação da eternidade capibaribe meu rio austro costa a luiz da câmara cascudo capibaribe meu rio espelho do meu sonhar quero fazer-te o elogio mas penso se te elogio é a mim que estou a elogiar capibaribe meu rio espelho do meu sonhar meu velho capibaribe meu irmão de sonho e amor capibaribe meu rio que vida levamos nós tu corres eu rodopio e há quarenta anos a fio sempre juntos e tão sós capibaribe meu rio que vida levamos nós mas sabe deus a constância com que sofreste e eu sofri para vencida a distância vermos quão cega foi a ânsia com que sofreste e eu sofri capibaribe meu rio vinhas de longe a correr aonde vais poeta vadio e ouvindo o meu desafio paraste para me ver capibaribe meu rio vinhas de longe a correr paraste e logo nascia em mim a doida ambição de seguir-te até que um dia fiz a enorme tropelia de abandonar meu rincão paraste e logo nascia em mim a doida ambição capibaribe meu rio tal chegaras tal cheguei mercê do fado sombrio tudo sofri mas com brio sem dizer aqui-del-rei capibaribe meu rio tal chegara tal cheguei por te ouvir que triste engano capibaribe que horror que destino inglório e insano tu corrias para o oceano eu corria para o amor por te ouvir que triste engano triste mas encantador a chuva cai sobre o recife mauro mota a chuva cai sobre o recife devagar banha o recife apaga a lua lava a noite molha o rio e a madrugada neste bar a chuva cai sobre o recife devagar a chuva cai sobre o telhado das casinhas de subúrbio canta berceuses a doce chuva É a voz das mães que estão no canto de onde a chuva agora veio a chuva cai desce das torres das igrejas do recife corre nas ruas e nestas ruas ainda há pouco tão vazias agora passam de capote transeuntes do tempo longe esses fantasmas de mãos frias.

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eisfluências suplemento de fevereiro 2011 05 paisagem do capibaribe joão cabral de melo neto a cidade é passada pelo rio como uma rua é passada por um cachorro uma fruta por uma espada o rio ora lembrava a língua mansa de um cão ora o ventre triste de um cão ora o outro rio de aquoso pano sujo dos olhos de um cão aquele rio era como um cão sem plumas nada sabia da chuva azul da fonte cor-de-rosa da água do copo de água da água de cântaro dos peixes de água da brisa na água sabia dos caranguejos de lodo e ferrugem sabia da lama como de uma mucosa devia saber dos polvos sabia seguramente da mulher febril que habita as ostras aquele rio jamais se abre aos peixes ao brilho à inquietação de faca que há nos peixes jamais se abre em peixes abre-se em flores pobres e negras como negros abre-se numa flora suja e mais mendiga como são os mendigos negros abre-se em mangues de folhas duras e crespos como um negro liso como o ventre de uma cadela fecunda o rio cresce sem nunca explodir tem o rio um parto fluente e invertebrado como o de uma cadela e jamais o vi ferver como ferve o pão que fermenta em silêncio o rio carrega sua fecundidade pobre grávido de terra negra em silêncio se dá em capas de terra negra em botinas ou luvas de terra negra para o pé ou a mão que mergulha como às vezes passa com os cães parecia o rio estagnar-se suas águas fluíam então mais densas e mornas fluíam com as ondas densas e mornas de uma cobra ele tinha algo então da estagnação de um louco algo da estagnação do hospital da penitenciária dos asilos da vida suja e abafada de roupa suja e abafada por onde se veio arrastando algo da estagnação dos palácios cariados comidos de mofo e erva-de-passarinho algo da estagnação das árvores obesas pingando os mil açúcares das salas de jantar pernambucanas por onde se veio arrastando É nelas mas de costas para o rio que as grandes famílias espirituais da cidade chocam os ovos gordos de sua prosa na paz redonda das cozinhas ei-las a revolver viciosamente seus caldeirões de preguiça viscosa seria a água daquele rio fruta de alguma árvore por que parecia aquela uma água madura por que sobre ela sempre como que iam pousar moscas aquele rio saltou alegre em alguma parte foi canção ou fonte em alguma parte por que então seus olhos vinham pintados de azul nos mapas chope carlos pena filho na avenida guararapes o recife vai marchando o bairro de santo antonio tanto se foi transformando que agora às cinco da tarde mais se assemelha a um festim nas mesas do bar savoy o refrão tem sido assim são trinta copos de chope são trinta homens sentados trezentos desejos presos trinta mil sonhos frustrado do livro livro geral ed póstuma 2 ªed 1999 pe

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06 eisfluências suplemento de fevereiro 2011 restos do carnaval clarice lispector não não deste último carnaval mas não sei por que este me transportou para a minha infância e para as quartas-feiras de cinzas nas ruas mortas onde esvoaçavam despojos de serpentina e confete uma ou outra beata com um véu cobrindo a cabeça ia à igreja atravessando a rua tão extremamente vazia que se segue ao carnaval até que viesse o outro ano e quando a festa já ia se aproximando como explicar a agitação que me tomava como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate como se as ruas e praças do recife enfim explicassem para que tinham sido feitas como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim carnaval era meu meu no entanto na realidade eu dele pouco participava nunca tinha ido a um baile infantil nunca me haviam fantasiado em compensação deixavam-me ficar até umas 11 horas da noite à porta do pé de escada do sobrado onde morávamos olhando ávida os outros se divertirem duas coisas preciosas eu ganhava então e economizava-as com avareza para durarem os três dias um lança-perfume e um saco de confete ah está se tornando difícil escrever porque sinto como ficarei de coração escuro ao constatar que mesmo me agregando tão pouco à alegria eu era de tal modo sedenta que um quase nada já me tornava uma menina feliz e as máscaras eu tinha medo mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara À porta do meu pé de escada se um mascarado falava comigo eu de súbito entrava no contato indispensável com o meu mundo interior que não era feito só de duendes e príncipes encantados mas de pessoas com o seu mistério até meu susto com os mascarados pois era essencial para mim não me fantasiavam no meio das preocupações com minha mãe doente ninguém em casa tinha cabeça para carnaval de criança mas eu pedia a uma de minhas irmãs para enrolar aqueles meus cabelos lisos que me causavam tanto desgosto e tinha então a vaidade de possuir cabelos frisados pelo menos durante três dias por ano nesses três dias ainda minha irmã acedia ao meu sonho intenso de ser uma moça eu mal podia esperar pela saída de uma infância vulnerável e pintava minha boca de batom bem forte passando também ruge nas minhas faces então eu me sentia bonita e feminina eu escapava da meninice mas houve um carnaval diferente dos outros tão milagroso que eu não conseguia acreditar que tanto me fosse dado eu que já aprendera a pedir pouco É que a mãe de uma amiga minha resolvera fantasiar a filha e o nome da fantasia era no figurino rosa para isso comprara folhas e folhas de papel crepom cor-de-rosa com os quais suponho pretendia imitar as pétalas de uma flor boquiaberta eu assistia pouco a pouco à fantasia tomando forma e se criando embora de pétalas o papel crepom nem de longe lembrasse eu pensava seriamente que era uma das fantasias mais belas que jamais vira foi quando aconteceu por simples acaso o inesperado sobrou papel crepom e muito e a mãe de minha amiga talvez atendendo a meu mudo apelo ao meu mudo desespero de inveja ou talvez por pura bondade já que sobrara papel resolveu fazer para mim também uma fantasia de rosa com o que restara de material naquele carnaval pois pela primeira vez na vida eu teria o que sempre quisera ia ser outra que não eu mesma até os preparativos já me deixavam tonta de felicidade nunca me sentira tão ocupada minuciosamente minha amiga e eu calculávamos tudo embaixo da fantasia usaríamos combinação pois se chovesse e a fantasia se derretesse pelo menos estaríamos de algum modo vestidas a idéia de uma chuva que de repente nos deixasse nos nossos pudores femininos de oito anos de combinação na rua morríamos previamente de vergonha mas ah deus nos ajudaria não choveria quando ao fato de minha fantasia só existir por causa das sobras de outra engoli com alguma dor meu orgulho que sempre fora feroz e aceitei humilde o que o destino me dava de esmola mas por que exatamente aquele carnaval o único de fantasia teve que ser tão melancólico de manhã cedo no domingo eu já estava de cabelos enrolados para que até de tarde o frisado pegasse bem mas os minutos não passavam de tanta ansiedade enfim enfim chegaram três horas da tarde com cuidado para não rasgar o papel eu me vesti de rosa muitas coisas que me aconteceram tão piores que estas eu já perdoei no entanto essa não posso sequer entender agora o jogo de dados de um destino é irracional É impiedoso quando eu estava vestida de papel crepom todo armado ainda com os cabelos enrolados e ainda sem batom e ruge minha mãe de súbito piorou muito de saúde um alvoroço repentino se criou em casa e mandaram-me comprar depressa um remédio na farmácia fui correndo vestida de rosa mas o rosto ainda nu não tinha a máscara de moça que cobriria minha tão exposta vida infantil fui correndo correndo perplexa atônita entre serpentinas confetes e gritos de carnaval a alegria dos outros me espantava quando horas depois a atmosfera em casa acalmou-se minha irmã me penteou e pintou-me mas alguma coisa tinha morrido em mim e como nas histórias que eu havia lido sobre fadas que encantavam e desencantavam pessoas eu fora desencantada não era mais uma rosa era de novo uma simples menina desci até a rua e ali de pé eu não era uma flor era um palhaço pensativo de lábios encarnados na minha fome de sentir êxtase às vezes começava a ficar alegre mas com remorso lembrava-me do estado grave de minha mãe e de novo eu morria só horas depois é que veio a salvação e se depressa agarrei-me a ela é porque tanto precisava me salvar um menino de uns 12 anos o que para mim significava um rapaz esse menino muito bonito parou diante de mim e numa mistura de carinho grossura brincadeira e sensualidade cobriu meus cabelos já lisos de confete por um instante ficamos nos defrontando sorrindo sem falar e eu então mulherzinha de 8 anos considerei pelo resto da noite que enfim alguém me havia reconhecido eu era sim uma rosa in felicidade clandestina ed rocco rio de janeiro 1998

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eisfluências suplemento de fevereiro 2011 07 um baobá no recife joão cabral de mello neto recife campo das princesas lá com um baobá crescido em frente das janelas do governador que sempre há aqui mais feliz pode ter úmidos que ignora o sahel dá se em copulas folhas verdes que dão nossas sombras de mel faz de jaqueiras cajazeiras se preciso de catedral faz de mangueiras faz da sombra que adoça nosso litoral na parte nobre do recife onde seu rebento pegou vive ignorado do recife de quem vai ver governador destes nenhum pensou se o viu que na África ele é cemitério se no tronco jesse baobá enterrasse os poetas de perto criaria ao alcance do ouvido senado sem voto e discreto onde o sim valesse silêncio e o não sussurrar de ossos secos silêncio em apipucos gilberto freyre as mangueiras o telhado velho o pátio branco as sombras da tarde cansada até o fantasma da judia rica tudo esta à espera do romance começado um dia sobre os tijolos soltos a cadeira de balanço será o principal ruído as mangueiras o telhado o pátio as sombras o fantasma da moça tudo ouvirá em silêncio o ruído pequeno recife e a força do homem ministério do trabalho hino da cidade do recife letra manoel arão música nelson ferreira mauricéia um clarão de vitória a visão de tua alma produz toda vez que dos cimos da história se desenha o teu nome de luz tecida de claridade recife sonha ao luar lendária e heróica cidade plantada à beira do mar mauricéia um fulgor vive agora que da pátria foi belo fanal dezessete que data e que aurora coroando a cidade imortal tecida de claridade recife sonha ao luar lendária e heróica cidade plantada à beira do mar e depois com suprema ousadia uma voz se exaltou senhoril vinte e quatro É daqui que irradia nova luz para o céu do brasil tecida de claridade recife sonha ao luar lendária e heróica cidade plantada à beira do mar a música é também fator de união mais uma vez o recife invoca o heroísmo de sua gente através dos defensores dos ideais de liberdade característicos do século xix no mundo ocidental o

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08 eisfluências suplemento de fevereiro 2011 símbolos oficiais do recife bandeira do recife através da lei 11.210 de 15 de dezembro de 1973 a municipalidade recifense instituiu uma bandeira para a cidade composta de símbolos que se referem a fatos memoráveis da história do recife a bandeira do recife é retangular e tem por base três colunas verticais sendo que as laterais são em azul e a central em branco reportando às cores da bandeira do estado de pernambuco do céu brasileiro e da paz a força e a fé ideais almejados pelo ser humano são representados pela frase em latim virtus et fides símbolos de fé força e esperança completam o visual da bandeira do recife são eles a cruz representando a colonização portuguesa que trouxe o cristianismo para o brasil o leão neerlandês coroado em amarelo remetendo ao escudo de armas de maurício de nassau e ao leão do norte apelido adquirido por pernambuco pelo seu potencial histórico de lutas e por fim o sol e a estrela ambos em amarelo aludindo ao nosso astro maior e à representação da república brasileira considerada originária das terras pernambucanas através do movimento de 1817 a exemplo da peça de antônio maria onde ele se apresenta ao pé de uma mesa de bar com um banco vazio ao seu lado aguardando a visita de alguém afirma o albuquerque manuel bandeira a escultura será está nr instalada próximo ao ginásio pernambucano ­ rua da aurora ­ considerado um dos maiores representantes da poesia moderna brasileira manuel de souza bandeira filho nasceu no recife em 19 de abril de 1886 entre suas principais obras estão o riacho do assombro libertinagem estrela da manhã mafuá do malungo opus 10 itinerário de pasárgada etc a escultura mostrará manuel bandeira sentado ao lado de um portal ou janela colonial de onde ele observa a paisagem do capibaribe e pontes do palácio do governo joão cabral de melo neto rua da aurora ­ teatro arraial ­ embora tenha viajado o mundo sempre exaltou sua identidade pernambucana com suas contradições e qualidades nisso a cidade do recife se coloca como símbolo e referência em sua obra de saudade do exílio do sertão no capibaribe daí a declaração quanto a ser o poeta número um digo que é uma afirmação que não me comove o que eu quero na verdade é ser um poeta de pernambuco a escultura representa joão cabral sentado em um banco de praça num gesto contemplativo aos seus pés um cão dorme e no colo ele segura um livro aberto com o poema sobre o rio capibaribe o cão sem plumas capiba rua do sol com avenida guararapes nascido em surubim adotou o recife como cidade compositor capiba ajudou a divulgar o nosso carnaval dandolhes belos frevos-canções que marcaram para sempre nosso povo como É de amargar madeira que cupim não rói etc apresentado em pé num balcão antigo relembra os velhos carnavais que ainda continuam no galo da madrugada e na vontade de pular o frevo provoca uma interatividade por se poder subir no balcão e assistir o carnaval passar na rua do sol carlos pena filho praça da independência ­ avenida dantas barreto ­ carlos souto pena filho nasceu em 17 de maio de 1929 no recife em 1952 publicou seu primeiro livro de poesias o tempo da busca já em 1955 foi a vez de memórias do boi serapião que foi ilustrado por aloísio magalhães a vertigem lúcida foi publicado em 1958 e no ano seguinte sua obra foi reunida no livro geral carlos pena faleceu no recife em 11 de julho de 1960 a escultura é um conjunto da figura mesa bancos e copos baseado no poema do escritor o chope clarice lispector praça maciel pinheiro ­ rua do hospício ­ nasceu em tchetchelnik na ucrânia no dia 10 de dezembro de 1920 quando recebeu o nome de haia lispector aos cinco anos de idade mudou-se com a família para o recife onde o pai pretendia construir uma nova vida clarice junto com a irmã tânia e a prima bertha estudaram no tradicional ginásio pernambucano no último andar de um prédio localizado na esquina da travessa do veras com a praça maciel pinheiro na boa vista viveu a escritora até mudar-se para o rio de janeiro onde faleceu em 1977 um dia antes de completar 57 anos de idade a escultura representa clarice sentada em uma cadeira onde se vê uma máquina de escrever a escritora segura com ambas as mãos uma xícara de café o recife recebeu mais cinco artistas imortalizados em esculturas através da 2ª etapa do circuito da poesia desta vez foram homenageados o jornalista antônio maria gravado na rua do bom jesus o escritor mauro mota na praça do sebo o músico luiz gonzaga em frente á estação central do metrô e os poetas ascenso ferreira no cais da alfândega e joaquim cardozo na ponte maurício de nassau o projeto é uma parceria da prefeitura do recife com a fundação banco do brasil e pretende mostrar o recife através do ideário de cada poeta imortalizado ao longo da cidade agora vamos conhecer o circuito da poesia em recife entenda o circuito da poesia em recife o trabalho desenvolvido pelo artista plástico demetrio albuquerque para a criação das esculturas durou quatro meses para ser finalizado o artista utilizou alguns critérios para escolha dos locais onde foram implantadas as obras os monumentos estão situados em locais que fizeram parte do cotidiano do artista ou em espaços que foram abordados na obra do poeta explicou antônio maria ficou na rua do bom jesus porque é um local de boêmia e grande movimento cultural já o poeta joaquim cardozo está na ponte maurício de nassau devido às citações encontradas na obra do poeta sobre o rio capibaribe ascenso ferreira ficou no cais da alfândega em cima de pilhas de livros local bastante visitado pelo poeta como o arquivo público foi um local onde mauro mota trabalhou a praça do sebo muito freqüentada pelo escritor foi o local escolhido finalmente luiz gonzaga ficou situado na estação central para homenagear os migrantes nordestinos outra característica encontrada nas estátuas é a interatividade todas as obras possuem algum aspecto que proporcionará aos visitantes a sensação de proximidade do artista todas esculturas possuem um ponto de interação.

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eisfluências suplemento de fevereiro 2011 09 uma comitiva reuniu o prefeito joão paulo secretários municipais jornalistas e diversos parentes dos artistas homenageados partindo da sede da prefeitura do recife em direção ao primeiro homenageado da tarde o jornalista antônio maria esta foi a maneira encontrada para perpetuar artistas que conseguiram transmitir a essência do recife e dos recifenses explicou o prefeito joão paulo o primo do jornalista eurico araújo inaugurou junto com o prefeito a escultura de concreto e fez questão de agradecer em nome de sua família antônio maria é o autor da segunda canção popular mais ouvida no mundo e até então não havia recebido uma homenagem como esta nossa família esta orgulhosa e feliz por este momento falou araújo depois disso todos seguiram até a ponte maurício de nassau onde foi inaugurada a escultura do poeta joaquim cardozo o sobrinho do poeta paulo cardoso falou sobre a importância do evento É importantíssimo este registro porque joaquim cardozo foi um poeta que nunca esqueceu o recife e até então não vinha sendo lembrado falou o cortejo foi até o cais da alfândega onde foi instalada a estátua do poeta ascenso ferreira no local estava aguardando ansiosa e emocionada a esposa do poeta lourdes ferreira o prefeito joão paulo foi uma pessoa que lembrou dos intelectuais É essencial fazer estas homenagens por aqueles que tanto fizeram por esta cidade relatou a penúltima escultura a ser apresentada aos recifenses foi a de mauro mota na praça do sebo o prefeito e o filho do escritor maurício motta inauguraram a estátua que mostra o poeta lendo um livro sentado num banco de madeira o circuito foi encerrado em frente à estação central ferroviária na praça mauá onde o trio chapéu de couro tocava o repertório musical do rei do baião a escultura de luiz gonzaga foi intencionalmente colocada na estação para receber todas as pessoas que vêm do interior para a capital e a estas também homenagear as outras duas esculturas do circuito da poesia chico science e solano trindade anunciadas pelo prefeito em agosto último estão em fase de acabamento e serão inauguradas no início de 2007 http noticias.recife.pe.gov.br as estações e as esculturas presentes em cada uma delas são as seguintes 1 ponte maurício de nassau joaquim cardozo 2 praça da independência carlos pena filho 3 pátio de são pedro francisco solano trindade 4 casa da cultura luiz gonzaga 5 praça maciel pinheiro clarice lispector 6 rua da aurora manuel bandeira 7 rua da aurora joão cabral de melo neto 8 rua do sol capiba 9 pátio do sebo mauro mota 10 cais da alfândega ascenso ferreira 11 rua da moeda chico science 12 rua do bom jesus antônio maria 1 joaquim cardozo nascido no recife bairro do zumbi a 26 de agosto de 1897 joaquim cardozo poeta é autor dos livros poemas signo estrelado o interior da matéria poesias completas e um livro aceso e nove canções sombrias no campo da dramaturgia escreveu inovando o gênero bumba-meuboi coronel de macambira de uma noite de festa e marechal boi de carro escreveu ainda os dramas o capataz de salema e antônio conselheiro alémdo pastoril os anjos e os demônios de deus com oscar niemeyer e lúcio costa participou da construção da cidade de brasília respondendo pelos cálculos estruturais dentre os edifícios calculados por joaquim cardozo em brasília destacam-se o palácio da alvorada o congresso nacional e a catedral como engenheiro calculista sensível à beleza das formas da arquitetura moderna joaquim cardozo à época em que foi no recife professor das escolas de engenharia e belas artes década de 30 escreveu também sobre questões pertinentes à engenharia e à arquitetura esses escritos foram publicados em periódicos como módulo arquitetura e revista do sphan pessoas que conviveram mais de perto com o poeta comentam que devido à sua timidez e senso crítico cardozo falava de tudo mas a sua poesia era quase toda guardada de cor sua maneira preferida de dar a conhecê-la era dizendo-a em voz alta nas reuniões com os amigos tanto é que foram alguns deles que tomaram a iniciativa de publicar em livro os seus poemas dessa iniciativa veio à luz o primeiro livro de joaquim cardozo poemas editado em 1947 quando o poeta estava com 50 anos de idade joaquim cardozo faleceu aos 81 anos em olinda seu nome conquistou um lugar ímpar entre os poetas modernos brasileiros além da participação que teve como um dos pioneiros em introduzir no brasil as formas ousadas da arquitetura moderna.

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10 eisfluências suplemento de fevereiro 2011 2 carlos pena filho carlos souto pena filho poeta pernambucano nasceu no recife no dia 17 de maio de 1928 seu pai era o comerciante português carlos souto pena e sua mãe d laurinda souto pena cursou o primário e o ginásio hoje ensino fundamental em portugal quando voltou ao recife estudou no colégio nóbrega e no joaquim nabuco muito cedo começou a escrever e manifestar sua vocação poética em 1947 publicou no diário de pernambuco o soneto marinha daí em diante continuou publicando seus poemas nos suplementos nordestinos e também em publicações do sul do país suas composições passaram a ser lidas e requisitadas era saudado como promessa de um grande poeta da novíssima geração pernambucana sua última poesia,eco,foi publicada no jornal do commercio no domingo véspera de sua morte trágica no dia 2 de junho de 1960 o poeta estava no carro de seu amigo o advogado josé francisco de moura cavalcanti quando foram atingidos por um ônibus desgovernado carlos pena recebeu uma violenta pancada na cabeça o rádio logo divulgou a notícia e as autoridades e os amigos acorreram ao pronto socorro o motorista e moura cavalcanti tiveram ferimentos leves mas carlos pena não resistiu aos ferimentos e morreu no dia 10 de junho de 1960 3 francisco solano trindade francisco solano trindade era poeta pintor teatrólogo ator e folclorista nasceu no dia 24 de julho de 1908 no bairro de são josé no recife e sempre lutou em prol da resistência negra fundou em 1936 a frente pernambucana negra e o centro de cultura afro-brasileira com o objetivo de divulgar a produção cultural dos intelectuais e artistas negros filho de pai sapateiro e mãe operária e quituteira solano trindade nasceu em recife pe em 1908 desde criança o menino solano acompanhava as danças de pastoril e bumba-meu-boi da região É a partir dessas manifestações culturais que nasce e se desenvolve a arte de solano trindade durante toda a sua vida foi operário comerciário funcionário público colaborador na imprensa ator pintor e teatrólogo morou no rio de janeiro na década de 40 depois em são paulo nos anos 60 ele inicia na cidade do embu o núcleo cultural que contribuiu para o atual batismo de embu das artes É lá também que raquel trindade filha do poeta fundou e mantém até hoje um grupo de teatro popular com o nome do pai além de grande poeta negro solano foi um lutador um grande defensor da liberdade e resgatou a cultura negra no país por tudo isso trindade sofreu perseguições um de seus poemas mais conhecidos tem gente com fome foi musicado em 1975 pelo grupo secos molhados a música foi proibida pela censura sendo resgatada e gravada em 1980 por ney matogrosso no álbum seu tipo mas por causa desta música em 1944 solano foi preso e teve o livro poemas de uma vida simples apreendido além disso em 1964 um dos seus quatro filhos francisco solano morreu numa prisão da ditadura militar por onde passou solano impulsionou a criação de grupos artísticos dentre eles o teatro experimental do negro que foi muito atacado pela elite nordestina e o teatro popular brasileiro com este solano levou para a europa um teatro cheio de música cores e poesia com a influência de danças populares como o maracatu no teatro foi solano trindade quem primeiro encenou a peça orfeu de vinícius de morais em 1956 depois adaptada ao cinema pelo francês marcel cammus como ator trabalhou nos filmes agulha no palheiro mistérios da ilha de vênus e santo milagroso trindade faleceu no ano de 1974 no dia 19 de fevereiro aos 66 anos no rio de janeiro mas ele mesmo chegou a afirmar me tornei cantiga determinadamente e nunca terei tempo para morrer sou negro sou negro meus avós foram queimados pelo sol da África minh`alma recebeu o batismo dos tambores atabaques gongôs e agogôs contaram-me que meus avós vieram de loanda como mercadoria de baixo preço plantaram cana pro senhor de engenho novo e fundaram o primeiro maracatu depois meu avô brigou como um danado nas terras de zumbi era valente como quê na capoeira ou na faca escreveu não leu o pau comeu não foi um pai joão humilde e manso mesmo vovó não foi de brincadeira na guerra dos malês ela se destacou na minh`alma ficou o samba o batuque o bamboleio e o desejo de libertação.

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eisfluências suplemento de fevereiro 2011 11 4 luiz gonzaga luiz gonzaga nasceu em exu pernambuco em 13 de dezembro de 1912 foi um compositor popular aprendeu a ter gosto pela música ouvindo as apresentações de músicos nordestinos em feiras e em festas religiosas quando migrou para o sul fez de tudo um pouco inclusive tocar em bares de beira de cais mas foi exatamente aí que ouviu um cabra lhe dizer para começar a tocar aquelas músicas boas do distante nordeste pensando nisso compôs dois chamegos pés de serra e vira e mexe sabendo que o rádio era o melhor vínculo de divulgação musical daquela época corria o ano de 1941 resolveu participar do concurso de calouros de ary barroso onde solou sua música vira e mexe e ganhou o primeiro prêmio isso abriu caminho para que pudesse vir a ser contratado pela emissora nacional no decorrer destes vários anos luiz gonzaga foi simbolizando o que melhor se tem da música nordestina ele foi o primeiro músico assumir a nordestinidade representada pela a sanfona e pelo chapéu de couro cantou as dores e os amores de um povo que ainda não tinha voz nos seus vários anos de carreira nunca perdeu o prestígio apesar de ter se distanciado do palco várias vezes os modismos e os novos ritmos desviaram a atenção do público mas o velho lua nunca teve seu brilho diminuído quando morreu em 02 de agosto de 1989 tinha uma carreira consolidada e reconhecida ganhou o prêmio shell de música popular em 87 e tocou em paris em 85 seu som agreste atravessou barreiras e foi reconhecido e apreciado pelo povo e pela mídia mesmo tocando sanfona instrumento tão pouco ilustre mesmo se vestindo como nordestino típico como alguns o descreviam roupas de bandido de lampião talvez por isso tudo tenha chegado onde chegou era a representação da alma de um povo era a alma do nordeste cantando sua história e ele fez isso com simplicidade e dignidade a música brasileira só tem que agradecer 5 clarice lispector clarice lispector tchetchelnik 10 de dezembro de 1920 rio de janeiro 9 de dezembro de 1977 foi uma escritora brasileira nascida na ucrânia de família judaica recebeu o nome de haia lispector terceira filha de pinkouss e de mania lispector seu nascimento ocorreu durante a viagem de emigração da família ao continente americano aportaram no brasil quando tinha pouco mais de um ano de idade 1 a família chegou a maceió em março de 1922 sendo recebida por zaina irmã de mania e seu marido e primo josé rabin por iniciativa de seu pai à exceção de tania irmã todos mudam de nome o pai passa a se chamar pedro mania marieta leia irmã elisa e haia clarice pedro passa a trabalhar com rabin já um próspero comerciante 2 clarice lispector começou a escrever logo que aprendeu a ler na cidade do recife onde passou parte da infância falava vários idiomas entre eles o francês e inglês cresceu ouvindo no âmbito domiciliar o idioma materno familiar o iídiche em 1944 publicou seu primeiro romance perto do coração selvagem a literatura brasileira era nesta altura dominada por uma tendência essencialmente regionalista com personagens contando a difícil realidade social do país na época clarice lispector surpreendeu a crítica com seu romance quer pela problemática de caráter existencial completamente inovadora quer pelo estilo solto elíptico e fragmentário que críticos reputaram reminiscente de james joyce e virginia woolf se bem que ainda mais revolucionário em verdade a obra de clarice ultrapassou qualquer tentativa de classificação a escritora e filósofa francesa hélène cixous vai ao ponto de dizer que há uma literatura brasileira a.c antes da clarice e d.c depois da clarice seu romance mais famoso talvez seja a hora da estrela o último publicado antes de sua morte este livro narra a vida de macabéa uma nordestina criada no estado de alagoas que migra para o rio de janeiro e vai morar em uma pensão tendo sua vida descrita por um escritor fictício chamado rodrigo s.m faleceu de câncer cancro em 9 de dezembro de 1977 um dia antes de seu 57º aniversário foi inumada no cemitério israelita do cajú no rio de janeiro origem wikipédia 6 manuel bandeira manuel carneiro de souza bandeira filho nasceu no recife no dia 19 de abril de 1886 na rua da ventura atual joaquim nabuco filho de manuel carneiro de souza bandeira e francelina ribeiro de souza bandeira em 1890 a família se transfere para o rio de janeiro e a seguir para santos sp e novamente para o rio de janeiro passa dois verões em petrópolis em 1892 a família volta para pernambuco manuel bandeira freqüenta o colégio das irmãs barros barreto na rua da soledade e como semi-interno o de virgínio marques carneiro leão na rua da matriz filho do engenheiro manuel carneiro de sousa bandeira e de sua esposa francisca ribeiro da silva filho era neto paterno de antônio herculano de sousa bandeira advogado professor da faculdade de direito do recife e deputado geral na 12ª legislatura tendo dois tios reconhecidamente importantes sendo um joão carneiro de sousa bandeira que foi advogado professor de direito e membro da academia brasileira de letras e o outro antônio herculano de sousa bandeira filho que era o irmão mais velho do engenheiro sousa bandeira e foi advogado procurador da coroa autor de expressiva obra jurídica e foi também presidente da província da paraíba e de mato grosso seu avô materno era antônio josé da costa ribeiro advogado e político deputado geral na 12ª legislatura costa ribeiro era o avô citado em evocação do recife sua casa na rua da união é referida no poema como a casa de meu avô

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12 eisfluências suplemento de fevereiro 2011 no rio de janeiro para onde viajou com a família em função da profissão do pai engenheiro civil do ministério da viação estudou no colégio pedro ii ginásio nacional como o chamaram os primeiros republicanos foi aluno de silva ramos de josé veríssimo e de joão ribeiro e teve como condiscípulos Álvaro ferdinando sousa da silveira antenor nascentes castro menezes lopes da costa artur moses em 1902 terminou o curso de humanidades e foi para são paulo onde iniciou o curso de arquitetura na escola politécnica de são paulo que interrompeu por causa da tuberculose para se tratar buscou repouso em campos do jordão campanha e outras localidades de clima mais ameno com a ajuda do pai que reuniu todas as economias da família foi para suíça onde esteve no sanatório de clavadel manuel bandeira faleceu de hemorragia gástrica aos 87 anos de idade na paraíba e foi sepultado no mausoléu da academia brasileira de letras no cemitério são joão batista no rio de janeiro poesia de bandeira ele foi um dos poetas nacionais mais admirados inspirando até hoje desde novos escritores a compositores aliás o ritmo bandeiriano merece estudos aprofundados de ensaístas por vezes inspira escritores não em razão de sua temática mas também devido ao estilo sóbrio de escrever manuel bandeira possui um estilo simples e direto embora não compartilhe da dureza de poetas como joão cabral de melo neto também pernambucano aliás numa análise entre as obras de bandeira e joão neto vê-se que este ao contrário daquele visa a purgar de sua obra o lirismo bandeira foi o mais lírico dos poetas pois escutava funk com seus amigos do boteco aborda temáticas cotidianas e universais às vezes com uma abordagem de poema-piada lidando com formas e inspiração que a tradição acadêmica considera vulgares mesmo assim conhecedor da literatura utilizou-se em temas cotidianos de formas colhidas nas tradições clássicas e medievais em sua obra de estréia e de curtíssima tiragem estão composições poéticas rígidas sonetos em rimas ricas e métrica perfeita na mesma linha onde em seus textos posteriores encontramos composições como o rondó e trovas É comum criar poemas como o poética parte de libertinagem que se transforma quase que em um manifesto da poesia moderna no entanto suas origens estão na poesia parnasiana foi convidado a participar da semana de arte moderna de 1922 embora não tenha comparecido deixando um poema seu os sapos para ser lido no evento uma certa melancolia associada a um sentimento de angústia permeia sua obra em que procura uma forma de sentir a alegria de viver doente dos pulmões bandeira sabia dos riscos que corria diariamente e a perspectiva de deixar de existir a qualquer momento é uma constante na sua obra origem wikipédia 7 joão cabral de melo neto joão cabral de melo neto nasceu na cidade do recife pe no dia 09 de janeiro de 1920 na rua da jaqueira depois leonardo cavalcanti segundo filho de luiz antônio cabral de melo e de carmem carneiroleão cabral de melo primo pelo lado paterno de manuel bandeira e pelo lado materno de gilberto freyre passa a infância em engenhos de açúcar primeiro no poço do aleixo em são lourenço da mata e depois nos engenhos pacoval e dois irmãos no município de moreno 1942 marca a publicação de seu primeiro livro pedra do sono em novembro viaja por terra para o rio de janeiro convocado para servir à força expedicionária brasileira feb é dispensado por motivo de saúde mas permanece no rio sendo aprovado em concurso e nomeado assistente de seleção do dasp departamento de administração do serviço público freqüenta então os intelectuais que se reuniam no café amarelinho e café vermelhinho no centro do rio de janeiro publica os três mal-amados na revista do brasil o engenheiro é publicado em 1945 em edição custeada por augusto frederico schmidt faz concurso para a carreira diplomática para a qual é nomeado em dezembro começa a trabalhar em 1946 no departamento cultural do itamaraty depois no departamento político e posteriormente na comissão de organismos internacionais em fevereiro casa-se com stella maria barbosa de oliveira no rio de janeiro em dezembro nasce seu primeiro filho rodrigo É removido em 1947 para o consulado geral em barcelona como vice-cônsul adquire uma pequena tipografia artesanal com a qual publica livros de poetas brasileiros e espanhóis nessa prensa manual imprime psicologia da composição nos dois anos seguintes ganha dois filhos inês e luiz respectivamente residindo na catalunha escreve seu ensaio sobre joan miró cujo estúdio freqüenta miró faz publicar o ensaio com texto em português com suas primeiras gravuras em madeira removido para o consulado geral em londres em 1950 publica o cão sem plumas dois anos depois retorna ao brasil para responder por inquérito onde é acusado de subversão escreve o livro o rio em 1953 com o qual recebe o prêmio josé de anchieta do iv centenário de são paulo em 1954 É colocado em disponibilidade pelo itamaraty sem rendimentos enquanto responde ao inquérito período em que trabalha como secretário de redação do jornal a vanguarda dirigido por joel silveira arquivado o inquérito policial a pedido do promotor público vai para pernambuco com a família lá é recebido em sessão solene pela câmara municipal do recife em 1954 é convidado a participar do congresso internacional de escritores em são paulo participa também do congresso brasileiro de poesia reunido na mesma época a editora orfeu publica seus poemas reunidos reintegrado à carreira diplomática pelo supremo tribunal federal passa a trabalhar no departamento cultural do itamaraty joão cabral era atormentado por uma dor de cabeça que não o deixava de forma alguma ao saber anos atrás que sofria de uma doença degenerativa incurável que faria sua visão desaparecer aos poucos o poeta anunciou que ia parar de escrever já em 1990 com a finalidade de ajudá-lo a vencer os males físicos e a depressão marly sua segunda esposa passa a escrever alguns textos tidos como de autoria do biografado conforme declarações de amigos escreveu o discurso de agradecimento feito pelo autor ao receber o prêmio luis de camões considerado o mais importante prêmio concedido a escritores da língua portuguesa entre outros foi a forma encontrada para tentar tirá-lo do estado depressivo em que se encontrava como não admirava a música o autor foi perdendo também a vontade de falar não tenho muito que dizer argumentava era sem dúvida o nosso mais forte concorrente ao prêmio nobel com diversas indicações dos mais variados segmentos de nossa sociedade faleceu em 09 de outubro de 1999.

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eisfluências suplemento de fevereiro 2011 13 8 capibamúsico e compositor músico e compositor lourenço da fonseca barbosa o conhecido capiba nasceu no município de surubim/pernambuco a 28 de outubro de 1904 de uma família de músicos seu pai era maestro da banda municipal o mais conhecido compositor de frevos do brasil aos 08 anos de idade já tocava trompa e ainda criança muda-se com a família para o recife em seguida vai morar no estado da paraíba primeiro na cidade de taperoá depois campina grande e joão pessoa onde toca piano em cinemas aos 20 anos de idade grava o primeiro disco gravação particular com a valsa meu destino em 1930 volta a morar no recife e aprovado em concurso torna-se funcionário do banco do brasil em 1938 termina o curso de direito mas nunca apanharia o diploma também no recife onde morou a maior parte da vida funda a jazz band acadêmica e com hermeto pascoal e sivuca funda o trio o mundo pegando fogo autor de mais de 200 canções não apenas frevo como também outros vários gêneros de samba à música erudita entre os seus sucessos estão maria batânia canção a mesma rosa amarela samba serenata suburbana guarânia verde mar de navegar maracatu e vários outros no gênero frevo compôs mais de cem canções também musicou poemas de carlos drummond de andrade vinícius de morais e outros poetas brasileiros morreu no recife a 31-121997 de infecção generalizada depois de passar dez dias na uti de um hospital uma de suas canções carnavalescas mais famosas É de amargar foi vencedora de um festival de frevo em pernambuco em 1934 entre outros prêmios em 1967 conquistou o 5° lugar no segundo festival internacional da canção com a música são do norte os que vêm 9 mauro mota mauro ramos da mota e albuquerque nasceu no recife pernambuco a 16 de agosto de 1911 passou a infância em nazaré da mata onde fez o seu curso primário em 1924 voltou ao recife e foi morar com os avós estudou no ginásio do recife e no colégio salesiano quando se tornou amigo íntimo do crítico literário Álvaro lins no colégio salesiano o padre nestor de alencar o ensinou a fazer os primeiros versos publicando seus primeiros poemas em o colegial jornalzinho dirigido pelo religioso em 1928 com Álvaro lins mauro mota voltou ao ginásio do recife para fazer o curso preparatório e onde se tornou amigo dos irmãos josé e joão condé os três passaram a atuar no jornalismo sendo que suas publicações foram divulgadas em a pilhéria e na revista do recife formou-se pela faculdade de direito do recife em 1937 entretanto continuou exercendo jornalismo sendo secretário e redator-chefe do diário da manhã foi diretor do jornal diario de pernambuco iniciando a seção de comentários e informações sobre livros e autores em 1955 tornou-se catedrático por concurso da cadeira de geografia do brasil no instituto de educação de pernambuco ingressou na academia pernambucana de letras em 1955 ocupando a cadeira nº 20 e chegou a ser presidente em 1970 foi eleito para a academia brasileira de letras ocupando a cadeira nº 26 faleceu no recife em 22 de novembro de 1984 aos 73 anos 10 ascenso ferreira poeta ascenso carneiro gonçalves ferreira nasceu no município de palmares zona da mata de pernambuco a 09 de maio de 1895 filho único do comerciante antônio carneiro torres e da professora maria luiza gonçalves ferreira Órfão aos 13 anos de idade passa a trabalhar na mercearia de um tio e em 1911 publica no jornal a notícia de palmares o seu primeiro poema flor fenecida em 1920 muda-se para o recife onde torna-se funcionário público e passa a colaborar com o diário de pernambuco e outros jornais em 1925 participa do movimento modernista de pernambuco e em 1927 publica seu primeiro livro catimbó viaja a vários estados brasileiros para promover recitais em 1941 publica o seu segundo livro cana caiana o terceiro livro xenhenhém está pronto para ser editado mas só sairia em 1951 incorporado à edição de poemas que foi o primeiro livro surgido no brasil apresentando disco de poesias recitadas pelo seu autor a edição continha ainda o poema o trem de alagoas musicado por villa lobos.

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14 eisfluências suplemento de fevereiro 2011 em 1955 participa ativamente da campanha presidencial de juscelino kubitschek inclusive participando de comícios no rio de janeiro em 1966 é nomeado por jk para a direção do instituto joaquim nabuco de pesquisas sociais no recife mas a nomeação é cancelada dez dias depois porque um grupo de intelectuais recifenses não aceita que o poeta e boêmio irreverente assuma o cargo É nomeado então assessor do ministério da educação e cultura onde só comparecia para receber o salário em 1963 a editora josé olympio rj lança catimbó e outros poemas a 05 de maio de 1965 morre no recife usava sempre um grande chapéu de palha que era uma verdadeira logomarca 11 chico science francisco de assis frança nasceu em 13 de março de 1966 cresceu na periferia de olinda berço de um dos carnavais mais tradicionais do brasil seus ídolos eram james brown grandmaster flash kurtis blow e outros papas do funk americano em 1984 quando os passos do break difundidos por michael jackson tomavam o mundo de assalto francisco integrou a legião hip hop uma das principais gangues de dança de rua da grande recife três anos depois resolveu investir pra valer na carreira de músico formou sua primeira banda a orla orbe que serviu de aquecimento para um projeto mais ousado o loustal cujo nome era inspirado no famoso quadrinista francês jacques de loustal a idéia era misturar soul funk e hip hop com rock dos anos 60 Àquela altura graças às suas alquimias sonoras o inventivo francisco já havia sido propriamente rebatizado de chico science em 1991 através do percussionista gilmar bolla 8 chico conheceu o trabalho do bloco afro lamento negro de olinda que tocava samba-reggae a explosão contagiante do trabalho de percussão do bloco o impressionou a tal ponto que a partir daquele momento mudou todo seu referencial sonoro se até então o que chico science se propunha era misturar todas as suas influências sonoras importadas com alguma pitada de brasilidade as regras do jogo passariam a se inverter o maracatu o côco de roda o caboclinho a ciranda o samba e a embolada viriam a predominar dividindo espaço com guitarras pesadas numa mistura pra lá de psicodélica não foi a toa que seu novo grupo acabou batizado de nação zumbi chico science voz lúcio maia guitarra alexandre dengue baixo toca ogam percussão e efeitos canhoto caixa gira tambor jorge du peixe tambor e gilmar bolla 8 tambor quando a banda voltou da primeira turnê canhoto saiu e entrou pupilo mostraram pela primeira vez essa mistura de sons definida como mangue beat no espaço oásis em olinda em junho de 1991 o público foi ao delírio e os pernambucanos por um bom tempo tiveram a exclusividade de conferir este novo estilo sonoro que acabou se disseminando entre várias bandas do estado só em 1993 após uma excursão por são paulo e belo horizonte os caranguejos nordestinos foram descobertos no resto do país a imprensa especializada não poupou rasgados elogios ao som do grupo e o resto da história era previsível chico science nação zumbi assinaram com a sony music e lançaram pelo selo chaos o disco da lama ao caos produzido por liminha e gravado no estúdio nas nuvens no rio o disco atendeu a todas as expectativas daqueles que já haviam assistido o grupo ao vivo da lama ao caos era o que faltava para o brasil inteiro perceber que o mangue beat era algo mais sério do que um modismo passageiro a faixa a cidade logo estourou nas rádios e a praieira foi parar na trilha sonora da novela tropicaliente e na boca do povo graças ao refrão uma cerveja antes do almoço é muito bom/pra ficar pensando melhor embora não tenha virado jingle de comercial de cerveja a identificação do espírito boêmio do brasileiro com a música foi total especialmente no rio de janeiro onde virou hit em festas e boates o talento do grupo obviamente passou a ser reconhecido também no exterior chico e seus caranguejos tiveram a honra de dividir o palco com gilberto gil durante um show no central park em nova york e se apresentaram também em diversas capitais européias além é claro de colherem elogios no festival de montreaux gil admirador confesso do grupo fez questão de participar do segundo disco afrociberdelia lançado em 1996 adicionando vocais alucinados à faixa macô o disco conta ainda com as participações especiais de marcelo d2 planet hemp e fred zero quatro mundo livre s.a mas é em uma das composições que está guardado o grande segredo da química sonora de science maracatu atômico de jorge mautner e nelson jacobina esta ganhou nova versão e mais três remixes ou melhor quatro se lembrarmos da roupagem jungle que recebeu para a coletânea red hot rio depois de ouvi-las não há mais dúvida de que o som do próximo milênio já deu as caras chico science 30 anos faleceu na noite do dia 2 de fevereiro de 1997 em um acidente de carro em recife a sua passagem pela terra foi rápida meteórica mas não há dúvidas de que ele soube utilizar este curto espaço de tempo muito bem e os carnavais seguintes a este ano com certeza nunca serão iguais àquele que passou desta vez a euforia que antecede o carnaval do recife deu lugar ao lamento dos maracatus.

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eisfluências suplemento de fevereiro 2011 15 12 antonio maria nasceu em recife em uma família de posses teve aulas de piano e francês na infância como era comum às crianças da classe alta na adolescência porém uma crise econômica afetou a indústria usineira e levou a família à bancarrota arranjou o primeiro emprego aos 17 anos como apresentador de programas musicais na rádio clube pernambuco por essa época já freqüentava a boêmia de recife em 1940 resolveu ir para o rio de janeiro de navio na então capital federal foi morar com o jornalista fernando lobo antigo amigo de farras pernambucanas e com abelardo barbosa que mais tarde se tornaria chacrinha a primeira estadia carioca não foi bemsucedida apesar de ter conseguido trabalho como radialista a vida era difícil e em 1944 voltou para recife e por lá se casou trabalhou em emissoras de rádio em fortaleza e na bahia onde fez amizade com dorival caymmi e jorge amado a segunda e definitiva tentativa de viver no rio de janeiro foi em 1947 desta vez com a mulher e os dois filhos foi diretor artístico da rádio tupi e da tv tupi participando ativamente do primeiro programa de televisão transmitido no brasil em 1951 sua atuação como jornalista e principalmente cronista é destacada escreveu crônicas diárias durante mais de 15 anos nas colunas a noite É grande o jornal de antônio maria mesa de pista e romance policial de copacabana como compositor começou criando jingles e em 1951 seu samba querer bem com fernando lobo foi gravado por aracy de almeida no ano seguinte depois de sua transferência da tupi para a mayrink veiga quando passou a ganhar o maior salário do rádio na época atuou como locutor esportivo além de apresentador de programas de grande audiência nesse mesmo ano 1952 a então estreante cantora nora ney realizou as gravações de menino grande e ninguém me ama esta última o maior sucesso de antônio maria e um verdadeiro clássico da dor-de-cotovelo figura boêmia freqüentador assíduo de noitadas intermináveis em boates compôs grandes sucessos com diferentes parceiros como valsa de uma cidade com ismael neto de os cariocas manhã de carnaval com luiz bonfá suas mãos com pernambuco e quando tu passas por mim com vinicius de moraes era cardiopata e se autodefinia como cardisplicente homem que desdenha o próprio coração morreu fulminado por um infarto na noite de 15 de outubro de 1964 http cliquemusic.uol.com.br/artistas/antonio-maria.asp creditos texto escrito por mercêdes pordeus outros textos com os devidos créditos fotografia mercêdes pordeus victor jerónimo circuito da poesia no recife

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