eisFluências - Revista Literária e Informação

 

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eisFluências - Revista Literária e Informação eisFluências - Literary Magazine and Information Revista de Fevereiro de 2011 Magazine 2011 February Revista literária e informação em lingua portuguesa e eventualmente com artigos em espanhol Literar

Popular Pages


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issn 2177-5761 issn 2177-5761 9 772177 576008 revista bimestral xix fevereiro/2011 ano ii núm jornais sem espaço para a cultura carlos lúcio gontijo s índices de leitura são baixos e vão continuar assim por muito tempo no brasil caso nossas escolas permaneçam assentadas sobre as mesmas estruturas pedagógicas educacionais nossos grandes jornais que deveriam usar a sua influência para exigir projeto educacional capaz de democratizar o ensino de boa qualidade e didaticamente montado sob o objetivo de atender por meio de linguagem adequada à totalidade de sua clientela em vez de apenas 20 dela ­ o que explica o gigantesco número de repetência e evasão escolar ­ não lidam bem com o assunto e nem conseguem demonstrar na prática a sua propalada preocupação com o ensino apesar de serem hoje drasticamente prejudicados pela falta de hábito e gosto pela leitura predominante na população metidos na visão estreita do corte de custos os proprietários de mídia impressa resolveram extinguir o departamento de revisão que na realidade funcionava como uma espécie de editoria final livrando os jornais não apenas de muitos erros gramaticais e de ortografia mas também de vários equívocos de informação a esse procedimento podemos somar a arrogância dos meios de comunicação impressa comportamento acompanhado pelos demais veículos de se sentirem os donos da notícia transformada por eles em simples questão de marketing baseados unicamente no jogo comercial e político de seus interesses a verdade insofismável é que esse procedimento desprovido de compromisso com a boa informação vinha há tempos provocando queda no estoque de leitores mas não era muito sentido no faturamento dos jornais pois os anunciantes ainda viam neles a influência do passado daí então surgiu a internet tirando-lhes o monopólio da notícia e eles atravessando desmesurada crise de identidade se nos apresentam despreparados para ser o contraponto uma vez que a divulgação inserida nos espaços virtuais sofre com a falta de credibilidade cobrando do leitor o exercício de constante filtragem no desespero muitos jornais optaram por se transformar em tablóide no qual é confundida a leveza jornalística com exposição de mulheres nuas priorização sensacionalista da violência urbana em detrimento da análise e da opinião dando origem a publicações que já chegam às ruas envelhecidas ultrapassadas e sem qualquer atrativo em suma uma vez nas bancas os tablóides coloridos têm curto período de procura e venda além de ser transformados em papel de embrulho no primeiro correr de olhos do leitor ou seja não há neles matéria a ser revista se a ideia era fazer um produto impresso absolutamente descartável acertaram em cheio e não têm do que reclamar nosso falecido amigo jornalista elias maboub que foi revisor por mais de 50 anos no mercado jornalístico de belo horizonte capital do estado de minas gerais gostava de brincar conosco dizendo que jornal sem revisão era a materialização do ato de fazer do erro a certeza do acerto num ambiente assim contrário ao prazer da leitura e ao indispensável momento de reflexão tomados como fatores prejudiciais à moderna cultura de eventos e lazer chega a ser ato de extrema ousadia a edição de livros no brasil onde são altos os custos gráficos com a impressão se mantendo em patamares elevadíssimos apesar de o governo ter retirado todos os impostos que incidiam sobre a produção literária que pouco espaço tem nos jornais onde a preocupação é tão-somente com as celebridades e os famosos ainda que ­ exaustos enfastiados e entediados ­ nada tenham a nos dizer carlos lúcio gontijo poeta escritor e jornalista www.carlosluciogontijo.jor.br carlos lúcio gontijo jornalista poeta e escritor é autor de 13 livros foi supervisor de revisão e editor de opinião do diário da tarde É cidadão honorário de contagem ex-presidente da associação mineira de imprensa ami membro da academia de letras do brasil-mariana alb-mariana da academia de letras de teófilo otoni alto da academia santantoniense de letras acadsal e do movimento poetas del mundo seu romance cabine 33 foi adotado em dois vestibulares da faculdade de administração de santo antônio do monte fasam no município de santo antônio do monte dá nome à biblioteca comunitária do bairro flávio de oliveira e do instituto maria angélica de castro imac mantém site de livre acesso www.carlosluciogontijo.jor.br desde junho de 2005 no qual disponibiliza ao público toda sua obra literária 13 livros

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02 eisfluências fevereiro 2011 privacidade carlos lúcio gontijo aonde vou levo minha casa minha intimidade está no outro perco privacidade se me escondo ela existe enquanto me revelo por autoestima velo o próximo como se cuidasse de mim mesmo a amizade é joia de anjo arranjo divino para nossa sobrevivência oraÇÃo dos casais carlos lúcio gontijo meu bem sei que deus protege os casais semeia trigais de ternura na pele para que o amor sele as marcas da procura então na hora em que a gente for dormir façamos jus aos cuidados do senhor por favor acenda-me quando apagar a luz www.carlosluciogontijo.jor.br ilha da madeira fahed daher ® ai mares vastos medonhos de cor ora verde ora azul donde singraram os sonhos donde partiu na conquista o nauta de longa vista buscando terras do sul ai mares mares do tejo por onde a fibra e o desejo buscou no leste a riqueza e cravou na Ásia distante a bandeira triunfante d el rei e sua grandeza portugal de sonhos tantos do fado o vira e os cantos e as bravuras de camões da voz sonora de amália mar profundo de cabralia mar de tantas emoções atlântico mar és lindo no teu horizonte infindo busco da vida o mistério e por mais que me aprofunde minha mente se confunde mergulhando em teu império ai mares mares profundos donde partiu para os mundos ambicioso o aventureiro encontrou terras no oeste com solo fértil e agreste e que se fez brasileiro 06/09/2000 na ilha da madeira portugal elos clube de londrina academia de letras de londrinacentro de letras do paraná curitiba dueto o meu paÍs antónio barroso carmo vasconcelos amo um país à beira mar plantado quero à bandeira tremulando ao vento e sinto no peito um calor sagrado vendo o sol no azul do firmamento quero ao seu verde campo iluminado nos dourados trigais meu pensamento vagueia feliz sereno e repousado como num mundo onde parasse o tempo e em cada papoila eu vejo de novo o sangue são vermelho do seu povo bater num coração que é ancestral oh país que nos tens a todos nós oh pátria de meus pais e meus avós teu nome faz a história portugal antónio barroso tiago parede/portugal amo estas margens onde o mar se deita e onde espargi de mel a tenra infância terra cujo perfume me deleita e a cor aos olhos meus é cintilância quero alçar-me às colinas da memória aos castelos de sonho que a bordejam ser pedra testemunha de ida glória sal eterno das ondas que a cortejam para ver cada flor do seu jardim renascer num futuro promissor de seiva colorida ao tom do amor e cada coração ter do jasmim a alva cor da igualdade fraternal a levantar do chão meu portugal carmo vasconcelos lisboa/portugal ficha tÉcnica director victor jerónimo portugal/brasil directora cultural carmo vasconcelos portugal responsável pela redacção mercêdes pordeus brasil design gráfico e composição victor jerónimo nosso sítio http www.eisfluencias.verbostrepitus.com conselho de redacção abilio pacheco brasil humberto rodrigues neto brasil luiz gilberto de barros brasil marco bastos brasil petrônio de souza gonçalves brasil rosa pena brasil correspondentes alemanha antónio da cunha duarte justo argentina maría cristina garay andrade bielorussia oleg almeida brasil elizabeth misciasci colômbia eugénio de sá revista de eventos actualidades notícias culturais político/sociais e outras mas sempre virada à directriz cultural nas suas várias facetas propriedade de mercêdes batista pordeus barroqueiro recife/pe/brasil tiragem 100 ex distribuição gratuíta divulgação via internet depósito legal lei do depÓsito legal lei n° 10.994 de 14 de dezembro de 2004 biblioteca nacional brasil isnn 2177-5761 contacto eisfluencias@verbostrepitus.com

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eisfluências fevereiro 2011 03 drummond o pescador de estrelas por petrônio souza gonçalves carlos drummond de andrade nasceu a 31 de outubro de 1902 em de itabira do mato dentro que depois se chamaria apenas itabira sem o belo pico do cauê filho do fazendeiro carlos de paula andrade e de dona julieta augusta drummond de andrade em 1916 o jovem poeta veio para belo horizonte para estudar no colégio arnaldo ficando lá por apenas 4 meses adoentando foi forçado a voltar à terra natal retornando para a jovem capital em 1920 quando a família se mudara definitivamente da cidade de ferro especula-se que a mudança repentina da família de drummond para belo horizonte deveu-se ao fato de que uma das irmãs de carlos rosa amélia estaria namorando um irmão bastardo xicado filho do coronel carlos de paula andrade que naquela época era dono de boa parte da pequena itabira como a mudança fora feita de maneira abrupta a família se hospedou primeiramente no hotel internacional mudando-se depois para a rua silva jardim na floresta para a bela casa que ficava defronte a igreja da floresta drummond compôs o poema a casa sem raiz onde o modernista questionava a falta de história do imóvel está lá nas páginas do livro boitempo iii aquela maravilha de poema a casa não é mais de guarda-mor ou coronel não é mais o sobrado e já não é azul É uma casa entre outras o diminutivo alpendre onde oleoso pintor pintou o pescador pescando peixes improváveis a casa tem degraus de mármore mas lhe falta aquele som dos tabuões pisados de botas que repercute no pará os tambores do clã a casa é em outra cidade em diverso planeta onde somos o quê numerais moradores aqui ninguém bate palmas toca-se campainha as mãos batiam palmas diferentes a batida era alegre ou dramática ou suplicante ou serena a campainha emite um timbre sem história ao final do poema o poeta ainda questiona silva jardim ou silvo em mim na nova cidade drummond começaria a escrever sua história subindo bahia e descendo floresta depois das reuniões costumeiras do grupo estrela na rua da bahia seja no bar do ponto no café estrela na livraria alves ou no cine odeon drummond voltava para casa colhendo poemas no céu polvilhado de estrelas desafiou a realidade do ar passeando por cima dos arcos do viaduto santa tereza contam que uma vez um guarda considerando a atitude do poeta como transgressora deu-lhe voz de prisão e ele lá de cima respondeu ao guarda se quiser me prender vai ter que vir até aqui o guarda tirou os sapatos as meias e tentou subir no arco mas como não sentia a poesia dos mundos paralelos foi-se embora fracassado no intento daí imagino o poema que o drummond não escreveu subíamos o mesmo caminho ele com um peso nas costas eu leve como passarinho assim como quem passa debaixo do arco-íris se encanta o arco-íris figurativo do viaduto encantou o poeta e outros que vieram depois dele passariam pelo mesmo batismo literário dos arcos do santa tereza como fernando sabino otto lara resende paulo mendes campos murilo rubião alphonsus guimarães filho entre outros com o casamento do poeta em 1925 com dolores dutra de morais e sua formatura em farmácia pela faculdade de odontologia e farmácia de belo horizonte encerrava-se o primeiro ciclo poético de drummond na capital depois de formado drummond nunca exerceria sua profissão de farmacêutico em 1926 o poeta muda-se para itabira para tentar manter a tradição fazendária viva na família mas como poeta só sabe versar abandonou a busca campesina lecionando português e geografia no ginásio sul-americano da cidade poucos meses depois drummond estava de volta ao mesmo número da rua silva jardim 107 tendo a casa cedida pela família para o novo casal de volta a belo horizonte drummond passou a trabalhar como redator e redator-chefe do oficioso jornal diário de minas formando com afonso arinos e joão alphonsus um reduto modernista na imprensa mineira a ida de drummond para o jornal foi uma indicação atendida pelo próprio presidente do estado antônio carlos que solidarizou-se ao pedido do modernista alberto campos e seu irmão francisco campos ­ secretário do interior do governo carlista drummond passaria ainda pela secretaria de educação do estado redação do jornal minas gerais redação da revista brazil-central ­ juntamente como os folclóricos verdes sendo eles juarez felicíssimo enrique de resende e rosário fusco os ases de cataguases e secretaria de interior em 1930 mais precisamente em 30 de abril o poeta dava apenas uma pequena idéia ao que veio lançando somente 500 exemplares do seu primeiro livro alguma poesia com 54 poemas drummond ficou em belo horizonte até 1934 transferindo-se para o rio de janeiro a convite do novo ministro da educação o antigo amigo que conhecera na época em que estudara no colégio arnaldo gustavo capanema como chefe de gabinete do ministro lá drummond começaria uma nova fase na sua poesia que pode ter sido inaugurada com o poema morro da babilônia como drummond acreditava que minas não existia mais ficou no rio de janeiro até ficar encantando infelizmente a casa sem raiz onde morou o poeta pertenceu a uma minas também sem raiz que foi levada pelo vento da história para morar apenas em nossa memória e na saudade das coisas que não existem mais e o pescador do poema virou pescador de estrelas no infinito petrônio souza gonçalves é jornalista e escritor www.petroniosouzagoncalves.blogspot.com deus e nÓs ana suzuki fico pasma quando as autoridades afirmam que só teremos um sistema de alerta daqui a quatro anos por que será que o brasil tem tanta mania de grandeza em jaguariúna cidade que fica a uns 20 minutos daqui houve enchente mas ninguém morreu porque o prefeito mandou a rádio anunciar o tempo todo que as águas do rio estavam subindo e porque ele mesmo pegou um megafone e saiu no seu carrinho berrando pela cidade as igrejas têm sinos por que não batem e mais em situações de risco até criança tem que andar com um apito pendurado no pescoço para que em caso de soterramento possam avisar que estão vivas e indicar mais ou menos onde estão há muitas medidas simples que podem minimizar as tragédias mas o povo além de eleger as gangs espera que deus faça tudo de que jeito deus vai sintonizar-se com o povo se o povo não estiver sintonizado com deus só vejo o povo votando às cegas preocupado com futebol carnaval compras copa olimpíadas que são coisas boas e válidas desde que ocupem o espaço certo na mente das pessoas igrejas oh sim elas estão cheias mas cheias de gente que quer benefícios e mais benefícios para sua própria vida ou porque tem medo de extinguir-se na morte e querem a salvação eterna por outro lado também vejo pessoas que dão o máximo de si não para conquistar isto ou aquilo mas para manifestar a divindade que sabem habitar nelas e a divindade age através delas já que deus não é um velho barbudo que vai descer do céu e usar um megafone ou distribuir apitos ele se manifesta no amor porque esta é a sua essência http www.anasuzuki.kit.net/index.htm

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04 eisfluências fevereiro 2011 os cronistas são os espiões da vida eugénio de sá esta definição tem alguma razão de ser a sua autora a jornalista brasileira nísia andrade silva pensou-a com conhecimento de causa pois ela caracteriza bem quem sabe observar comentar e criticar em termos sintéticos os pormenores curiosos e/ou importantes do quotidiano da sociedade nos múltiplos aspectos que a ela concernem esta qualidade torna quem a merece credor do respeito e da admiração dos que à criação literária dedicam o seu carinho e a sua atenção são esses os responsáveis por a crónica ter voltado a ser considerada uma vertente igualmente nobre desta arte maior da expressão do pensamento humano a literatura está bem mas que vem aqui fazer este tal eugénio de sá perguntareis vós estimados e ilustres leitores pois que não se espere de mim grande coisa a não ser um facto novo uma memória ou outra daquelas que coleccionei ao longo dos meus tantos anos de vida boa parte deles vividos nos mais belos recantos de lisboa e neles bebendo da vida que palpita nos seus mais castiços bairros e nesse mediano espaço oitocentista citadino onde se cruza a austera e imponente teia pombalina que do lado oriental está subordinado à imponência do castelo de s jorge enquanto que do ocidental sobe mansamente para a colina do chiado e do carmo o improvisado palco do episódio principal da revolução dos cravos aquela que tudo prometeu aos portugueses e que desgraçadamente acabou por descambar num mar de frustrações para quantos nela acreditaram hoje as ruas da bela cidade-capital bem como outras um pouco por todo o lado deste país enganado e escarnecido são as ruas da amargura para milhões de portugueses já descrentes seja no que for que se lhes diga porque a sabedoria popular ensina que quem por norma tem mentir/uma verdade não sente sempre que fale verdade/todos lhe dizem que mente que me seja perdoada esta expressão de revolta mas concluí ser esta uma forma possível de me apresentar perante vós como português e como amante da palavra escrita e verdadeira portanto não me proponho ficcionar neste espaço factos nem vivências e outrossim procurarei contar com rigor e comentar com critério e justiça usando de algumas faculdades que me foram outorgadas por um deus em que acredito e assim a primeira crónica que vos apresento foi escrita há alguns meses pouco tempo depois da minha chegada a bogotá a linda capital da colômbia um país com múltiplas realidades e culturas onde os nossos vizinhos espanhóis deixaram as suas raízes tal como por toda a américa central e do sul tal como nós as deixámos no brasil e nas duas costas africanas do que vi em terras de vera cruz onde residi dois anos e agora por cá avulta um aspecto a um tempo interessante e assustador o da visível necessidade de protecção pessoal e dos respectivos haveres que sentem sobretudo as classes média alta e alta mas que também vai atingindo os restantes estratos da sociedade e progredindo de sul para norte à medida que se avolumam os problemas sociais dos países mais desenvolvidos onde já existem muitos exemplos do que hoje vos trago as novas muralhas uma crónica de eugénio de sá ainda hoje nos deslumbram as construções defensivas medievais os castelos os fortes e os fortins e outras mais ou menos acasteladas encimadas por ameias rodeadas de fossos e com pontes levadiças muitas estão preservadas e são consideradas património mundial para nosso merecido aplauso face às acometidas guerreiras e invasoras desses tempos esse era o sistema eleito porque eficaz em termos defensivos ao toque dos vigias as populações que viviam e laboravam nas imediações dessas construções corriam a abrigar-se dos ataques sempre destrutivos dos exércitos conquistadores fica por perceber se a preocupação dos nobres que dominavam esses feudos acastelados e mandavam nos respectivos castelos era defender a integridade física dos seus súbditos por pura bondade sorriso ou garantir a sua principal fonte de receita os impostos sobre o trabalho que normalmente correspondiam à apropriação de parte significativa dos bens produzidos para consumo ou comércio próprios explorando as gentes que dominavam subjugavam e abusavam a seu bel-prazer não vou obviamente entrar na análise dos benefícios ou malefícios do feudalismo dominante à época mas não quero deixar de assinalar com uma nota de ironia a necessidade que nos nossos dias os novos grupos dominantes têm de voltar a fazerem-se envolver por autênticas muralhas também de natureza humana os conhecidos guarda-costas ou gorilas claro que estas novas muralhas não ameaçam já uma fritura do parceiro com azeite fervente mas outra a de uma descarga eléctrica de muitos vóltios ou pelo menos a garantia de um precoce ataque de parkinson a quem se atreva a tomá-las de assalto afinal perguntamo-nos em que evoluiu o homem que hoje tal como há muitos séculos atrás vive muralhado e caminha ou faz-se transportar em carros blindados e guardado por gente armada até aos dentes conhecemos as causas mormente as que se fundam na emergente e continuada movimentação das gentes famélicas do fustigado e explorado sul a caminho dos invejados e exploradores países antigamente conhecidos por mais ricos e felizes e que com a actual crise carecem de ser caracterizados de outra forma bem diferente agora os invasores são outros os que ameaçam conquistar novos e mais privilegiados espaços esses que habitam os muceques africanos as favelas brasileiras as comunas de muitos países das américas do sul e central e os que já alcançaram os bairros periféricos de todas as grandes cidades europeias as do sub continente americano e as da própria américa do norte onde já chegaram os dias de medo como o prenuncia já o cortejo dos seus milhões de desempregados sempre em crescendo afinal o famoso way of live dos gringos mais não era do que uma gigantesca farsa montada sobre uma montanha de créditos que acabaram inapelavelmente mal parados um way of live que caiu como um baralho de cartas e vai deixando aos poucos exposta uma pobreza que o mundo desconhecia num tecido social onde os espaços intercalares são cada vez mais estreitos eugénio de sá bogotá janeiro de 2011 http www.cantodapoesia.net/arquivos-ebooks/eugenio-de-sa-vontade-mente-emocao.exe

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eisfluências fevereiro 2011 05 a grandeza de amar eugénio de sá nos mais ternos momentos nos melhores quando se trocam hálitos e beijos e as mãos irrequietas de desejos não têm pouso certo para ficar quando o sangue sentimos fervilhar nos estreitos abraços que trocamos É tempo de nos dar a quem amamos num esplendor perturbado de sentidos em que a mistura dos nossos gemidos engrandece e sublima o verbo amar nesses ternos momentos nos melhores quando a fusão dos corpos é total e o fulgor dos olhares é crucial pra transmitir de nós ternura imensa as almas brilham com uma luz intensa É então plena a glória dos amantes que o desejo é fugaz e em instantes fica rendido às regras do desfecho mas fazermos amor é só um trecho do bonito romance que é amar bogotá/colômbia mondas da liberdade eugénio de sá hoje é franco e liberto o verso do poeta do vil grilhão obscuro da censura mas é de relembrar que essa amargura não vê da causa fim por ser provecta inda bem perto estão tempos aqueles em que hesitante a pena se mostrava porque a denúncia então periclitava entre a justa expressão e o talho reles folguemos no ditério à podridão já que a democracia isso consente que não caiba ao poeta a omissão mas que se esteja alerta firmemente contra a possível torna de um foução que venha pra mondar o que é excedente bogotá/colômbia manuel eugénio angeja de sá nome literário eugénio de sá nasceu em 1945 no típico bairro da ajuda em lisboa/portugal lisboa está-lhe nas veias tal como a literatura e a poesia que sempre cativaram o seu espírito hábitos de leitura a que uma avó querida não foi alheia dotaram-no de vontade e gosto pelo conhecimento o deslumbramento pela poesia chegou em 1968 trazida num livrinho que recebeu das mãos de josé saramago então colaborador do jornal a capital onde e.s iniciou a sua actividade de comunicador a que se dedicou largos anos durante a sua estada de 2 anos no brasil como vice-presidente da avpb para além de escritor cronista e poeta foi também editor literário É membro efectivo da app ­ associação portuguesa de poetas e da avbl ­ academia virtual brasileira de letras tem inúmeros trabalhos entre prosa e verso publicados na net e vários e-books sendo o mais abrangente da sua obra o constante do link acima mencionado É o novo correspondente literário na colômbia para a revista eisfluências futebol devoção abílio pacheco política futebol e religião não se discutem não se discutem claro que sim só não é preciso brigar tomar ar ir as vias de fato mas um bom debate por que não talvez sempre se diga isso desses três aspectos importantes de nossa vida social por causa do espaço que eles ocupam em nossos afetos ou por eles terem algo mais em comum não consigo ver que religião abarque características do futebol ou da política nem que política abarque rasgos próprios da religião e do futebol mas este sim está cada vez mais próximo da política e mais ainda da religião não é à toa que termos como fiel devoção ídolo e outros do mesmo campo semântico costumem se apresentar em discursos do futebol em outro país da nossa al tem jogador sendo chamado de deus existe igreja igreja culto e muitos muitos fiéis uma prática comum no futebol moderno a apresentação de um jogador recém contratado é um dos ritos obrigatórios afinal a chegada do craque faz aflorar verdadeiros e arraigados sentimentos messiânicos por isso não deve ser novidade ao leitor as notícias de desfile em carro de bombeiros ou mesmo a formalização da chegada num encontro com a torcida com o jogador sendo alocado num palco montado na arquibancada em evento para 20 mil fiéis fãs torcedores agora dá cá esta palha vender tijolinho personalizado para arrecadar fundos para um centro de treinamento isto sim é uma novidade embora não seja muito distante de recursos próprios a algumas neo-pentecostais no futebol ainda não tinha visto nada parecido sempre achei esse procedimento muito semelhante ao antigo caderninho de assinaturas existe ainda só que ampliado amplificado atribuindo ao assinante ou comprador do tijolinho mais benefícios devido ao valor agregado e praticamente invertendo a relação necessitado-benfeitor afinal não é o time que está precisando de você para a construção do ct ou coisa que o valha mas você que está tendo o privilégio de participar do projeto que só não é exclusivo por estar sendo transmitido para todos os televisores ligados possíveis mais internet ou ainda não é que o time importante não sei quantas vezes campeão esteja precisando ele apenas está sendo complacente com seus torcedores a ponto de oferecer esta possibilidade por sinal um recurso de marketing bastante comum não não recrimino quem compre fiz apenas um pequeno exercício nesta crônica eu mesmo só não vou pedir um tijolinho para mim porque não é o meu time que está vendendo ora nisso o futebol apresenta um grande diferencial enquanto a mudança de denominação é quase uma constante no brasil quem sabe devido à criação de tantas novas igrejas e a fidelidade partidária não segura político numa legenda nem à base de lei no futebol cada um torce por seu time até morrer belém 19 de janeiro de 2011 abilio pacheco professor escritor http abiliopacheco.com.br/

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06 eisfluências fevereiro 2011 maxim górky o homem tradução de oleg almeida nas horas da fadiga de espírito ­ quando a memória ressuscita as sombras do passado e o coração volta a sentir seu frio quando o pensamento feito o impassível sol outoniço ilumina o medonho caos do presente e gira sinistro por sobre a confusão cotidiana incapaz de subir mais alto e voar para frente ­ nas duras horas da fadiga de espírito eu fico evocando a majestosa imagem do homem homem igual ao sol nasce no meu peito e todo luminoso põe-se a marchar ­ para frente e para o alto ­ o homem tragicamente belo eu vejo a altiva fronte e os olhos bravos e profundos dele e nesses olhos os raios do intrépido pensamento daquela nobre força que nos momentos de cansaço cria os deuses e nas épocas de ânimo acaba com eles perdido no meio dos desertos universais sozinho num palmo de terra a precipitar-se com uma rapidez inconcebível não se sabe aonde ao fundo de um espaço imensurável atormentado pela questão pungente ­ para que é que ele existe ­ o homem segue corajosamente o caminho de superação de todos os mistérios terrestres e celestiais para frente e para o alto ele vai regando com sangue de coração seu árduo solitário e orgulhoso caminho e desse sangue quente faz as eternas flores da poesia hábil ele transforma o grito lúgubre de sua alma revoltada em música e suas práticas em ciências como o sol cujos raios adornam generosos a terra como uma estrela guia ele vai ­ sempre para o alto e para frente ­ e cada passo seu adorna a vida armado apenas com a força do pensamento que lembra ora um relâmpago ora uma espada friamente calma ultrapassando de longe as pessoas e a própria vida o livre e orgulhoso homem vai ­ a sós com os enigmas da existência sozinho na multidão de seus erros ­ e todos eles oprimem e ferem seu coração torturam-lhe a mente e pedem que os extermine envergonhado vai no seu peito bradam os instintos qual um mendigo importuno a pedir esmola não para de lamentar-se abominável o amorpróprio os fios viscosos dos apegos envolvem iguais à hera o coração dele e bebem seu quente sangue em altas vozes exigindo que ceda à sua força todas as emoções querem rendê-lo tudo aspira a apoderar-se da sua alma e montes de variadas ninharias do dia a dia parecem lama e nojentos sapos no seu caminho mas como os planetas circundam o sol as obras do espírito criativo rodeiam o homem seu amor sempre esfomeado a amizade que o segue de longe coxeando a esperança que o antecede cansada eis o Ódio que tomado de cólera faz tinirem os grilhões da paciência e a fé que fixa seus olhos escuros no rosto rebelde do homem a recebê-lo serena de braços abertos ele conhece a todos na sua triste comitiva as obras de seu espírito criativo são feias imperfeitas e fracas trajando os farrapos das obsoletas verdades envenenadas por preconceitos elas se arrastam inimigas atrás do pensamento mas não conseguem alcançá-lo assim como o corvo não se equipara levantando voo à águia e contestando sua primazia raramente se unem a ele numa chama potente e criadora e aí mesmo a muda e misteriosa morte perpétua companheira do homem sempre pronta a beijá-lo no coração queimado pela sede de viver ele conhece a todos na sua imortal comitiva e para terminar mais algo a loucura alada poderosa feito um turbilhão ela o acompanha com seu olhar hostil e ansiosa por meter o pensamento na sua dança selvagem inspira-o com sua força mas só o pensamento é amigo do homem o homem nunca se separa dele só as chamas do pensamento é que iluminam os obstáculos no seu caminho alumiam os enigmas da vida a treva dos mistérios naturais e o caos obscuro no coração do homem livre amigo do homem o pensamento passa seu olhar penetrante e arguto por toda a parte e inclemente ilumina tudo as artimanhas pérfidas e torpes do amor seu desejo de dominar o ser amado anseio de humilhar e humilhar-se e o semblante vil da sensualidade por trás dele a impotência temerosa da esperança e por trás dela sua irmã mentira pintada e ataviada mentira sempre pronta a consolar ­ e enganar ­ todo o mundo com suas doces palavras no coração mole da amizade o pensamento ilumina sua prudência interesseira sua curiosidade cruel e oca as manchas pútridas da inveja e nelas germes da calúnia o pensamento percebe a força do Ódio negro e sabe uma vez livrado dos ferros ele destruirá tudo na terra e nem um broto da justiça poupará na fé imóvel o pensamento ilumina a maldosa sede do poder ilimitado que busca subjugar todos os sentimentos e as garras ocultas do fanatismo e a fraqueza das asas pesadas e a cegueira dos olhos vazios dela até com a morte ele trava luta depois de transformar o animal no homem depois de criar tantas divindades doutrinas filosóficas ciências ­ chaves dos enigmas mundiais ­ o imortal e livre pensamento se vê contrário e adverso àquela força infecunda e muitas vezes estupidamente má a morte para ele é um trapeiro ­ trapeiro que anda pelos fundos e põe no seu imundo saco o que estiver caduco podre inúteis restos mas vez por outra furta insolente o que ainda é forte e saudável impregnada de cheiros de podridão coberta de horrores impassível informe muda a morte enfrenta sempre o homem como um mistério negro e severo e o pensamento ­ criador e luminoso feito o sol cheio de audácia louca e de altiva consciência de sua imortalidade ­ esmera-se em estudá-la assim é que marcha o homem insubmisso atravessando a pavorosa treva dos mistérios existenciais para frente e para o alto sempre para frente e para o alto maxim górky alexei maxímovitch pechkov 1868-1936 famoso escritor russo e soviético fundador do chamado realismo socialista principais obras romances a mãe 1907 a casa dos artamônov 1925 a vida de klim samguin 4 vv 1925-1936 peças de teatro o submundo 1902 os filhos do sol 1905 os inimigos 1906 trilogia autobiográfica infância no mundo e minhas universidades 1913-1923 http www.olegalmeida.com/

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eisfluências fevereiro 2011 07 ainda sobre gaia marco bastos essas linhas originaram-se de um comentário que fiz ao poema de sílvia mendonça no peapaz denominado gaia ­ a mãe terra o momento é de consternação e pasmo diante de recentes catástrofes climáticas no brasil austrália e em algumas outras partes no planeta nós somos como somos porque nascemos onde nascemos e além disso nós somos como somos porque evoluímos nos harmonizando como ser vivo com o ambiente que nos cerca condicionados portanto ao que é possível e necessário para sobreviver naquele ambiente nossos cromossomas carregam essa verdade passando para os nascituros as características e condições resultantes da adaptação organismo vivo que se adapta para poder receber do ambiente o que necessita para sobreviver não acredito que haja outra morada para o ser humano embora acredite que haja mais vida no universo mas os seres de outras terras devem ser diferentes do que somos podem respirar outros gases suportar outras temperaturas outras gravidades outras pressões atmosféricas e ter outros orgãos e outros metabolismos para promovererem trocas de outros materiais aquilo que para nós é nocivo e letal para eles pode não ser na terra há microorganismos aeróbicos e há também anaeróbicos os que vivem onde não existe oxigênio mera adaptação no entanto são necessários milhões de anos para ocorrerem mutações de adaptação e só o ser adaptado pode ter vida mais longa se mudamos as condições físico-quimicas ambientais perdemos a condição de sobrevivência e não se trata de abstração ou poesia muito embora a noção de gaia tivesse sido filosófica não empírica e quase intuição poética o homem é filho da terra e pensar diferente é ingenuidade irresponsabilidade e ignorância a troposfera aquela região onde o homem como é pode existir é pouco espessa e só conseguimos sobreviver em uma faixa de aproximadamente 7 km o que equivale a apenas 0,12 do raio da terra na vizinhança da terra os planetas são muito diferentes e não sobreviveremos em qualquer deles os outros sistemas solares são muito distantes inalcançáveis para o homem e não há alternativas ou cuidamos do nosso planeta ou desaparecemos como espécie É preciso compreender que vivemos num ambiente físico limitado e que a explosão demográfica e a mentalidade de consumo que decorre do vazio do ser e da exacerbação do querer ter estão delapidando os recursos do planeta e produzindo desequilíbrios ambientais que podem ser irreversíveis marco bastos janeiro/2011 o flÂneur egnaldo castelão e marco bastos em muitas formas do aprender o caminho se faz ao caminhar para o flâneur a viagem é o seu método e o dispositivo de formação preferido ­ caminhante curioso busca a realização pelo deslocamento para experimentar novas paisagens buscar contrastes e aprender olhando passando perguntando experimentando tocando sentindo o gosto e ouvindo histórias o flâneur é fascinado pelo prazer em que se deixa levar em suas andanças ao navegar pelas ruas-labirínto das cidades É um observador nato apaixonado pelo movimento ondulante das pessoas na multidão perfeito divagador o flâneur gosta das paisagens e da multidão e com sutileza dá significado às criações técnico-artístico-culturais das cidades espaço sagrado para suas andanças depara-se com suas contradições sente a tensão a indiferença da cidade e sozinho perambula entre os cidadãos quaisquer que sejam o flâneur é o ser que vê o mundo de uma maneira particular sem a pretensão de explicar mas com a intenção de mostrar levando a vida que viu para cada lugar por onde passa sua paixão é o mundo exterior além de si na rua encontra o seu refúgio afasta-se momentânea e fisicamente de sua esfera privada e busca identificação e diferenças na sociedade em que convive nas ruas das metrópoles o flâneur observa que significativa parte das pessoas na sociedade atual é influenciada pelo sonho de consumo pela excessiva valorização das opiniões nos relacionamentos interpessoais e a multidão na cidade busca prazeres efêmeros É um sujeito que contracena com cidadãos consumidores tem uma vida boêmia e um prazer simples de tudo observar ao seu redor mas sua boemia não é a consciente relutância em aceitar a excessiva modelização das compreensões em face aos reducionismos tecnológicos e a estereotípica robotização da vida cronometrada que esgotam o mundo das possibilidades que há na pluralidade das realidades flânerie é libertação com relação ao tempo e re-imaginação do mundo uma etnografia primordial imbricada em um mundo de cultura pósmoderna contrapondo-se a massificação e padronização mecanicistas da modernidade mas esses conceitos são objeto de estudo e compreensão exteriores à própria flânerie pois o flâneur embora também produtor não se detém nesses detalhes são desafios para aqueles que constroem os caminhos da educação que a tudo pretende cooptar em suas disciplinas em um mundo onde as diferenças não mais pedem licença para entrar para o flâneur o mundo é a escola egnaldo castelão e marco bastos interpretação do personagem à luz do texto de roberto sidnei macedo o flâneur e a formação caminhante e curiosa flâner do francês passear perambular zanzar flâneur euse n+adj pessoa que passeia ociosamente.

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08 eisfluências fevereiro 2011 se uma pedra cresceu marco bastos ah quem sou eu para escrever um verso assim como um pessoa mesmo que não seja o próprio pessoa como também não sou eu o ópio de mim quem seria eu para ser o autor de cantos já cantados por quem já cantou seus cantos se cantos recantos na alma os tenho como se fossem meus e não vivo em lugar nenhum quem sou eu para ser o reverso de mim se nos versos me estranho e quando chego ao fim não sou o mesmo que começou a escrever ali no alto quem sou eu para ser o coerente senhor que se repete se a cada manhã olho o mundo de forma diferente e vezes me assusto e outras vezes nem tanto quem sou eu para ser parecido comigo se a cada dia eu sou um ser diferente parecido é quem se parece com quem não muda nunca quem sou eu inteiro ser se às vezes me sinto a metade de mim que eu não conhecia ou que eu não sabia existir em minha mente quem sou eu para ter permanência e limite se a última fronteira está ali atrás só porque eu andava só e não vi nada riscado no chão que me dissesse é aqui quem sou eu para escrever aqui esses versos que contém uma poesia mas não a minha poesia só se a poesia desses versos não fui eu só que a escrevi eu nem escrevi nada ainda porque eu nunca escrevo eu sou só uma voz muda uma pedra que cresce e às vezes sai por aí dizendo para outras pessoas que as pedras crescem rindo e chorando quando encontro quem fala que viu que uma pedra cresceu marco bastos poema contido no e-book poesia brusca 2005 e que contém poemas do autor e de parceiros poetas e fotografias de algumas telas para acessar clique no link http recantodasletras.uol.com.br/e-livros/288816 salvador 12/01/2011 letrix em acrósticos de maria luzia fronteira g olpes a caneta despojo em vão aba que se abre o poema é surdo o corpo que jaz é mudo l inhas flageladas frágeis em água salina p ântanos mil em mim no prelúdio do tempo e go é paixão aberta mão absorta s eres mágicos secretos e trágicos oh flores mortais Í ngreme pálida oh estátua nua gelada n ota lânguida tnte seca des.codificada g inete fina e recurvada estrada r umor oh mágoa afogada em massa e stro nada corpo extinção terrenea m orte esqueleto desmirrado e nlaçada onda traçada sem distinção amén t rindade divina viçosa que sois e strela apagada oh perfil de ventos indecifráveis r ios mares terras oh liras que sois r amais frondosos ramais de cinzas a h lençóis de água campos de girassóis h umano que humano és poeta u m rio um estio ou um nada nada m etáfora bordada do tempo esse que não apaga a onde andas dor que o sol não te avista aonde n u entre paredes oh caiadas em que cores luto o h triste foste triste és e triste serás poeta o rlas batendo redemoinho carcomendo medo h oje e amanhã medo em série até do tempo m edo dos in.fieis medo dos pobres e dos poderosos e nredo medos dos vivos mortos oh e dos mortos vivos d os sábios e dos génios e dos estúpidos e medo o h de tudo tudo e até de nada medo maria luzia fronteira f ado oh primavera que se foi voltará a rte rupestre oh caverna contemporânea dor d or refém no tempo aqui eu abraçada ao corpo o h recapitulo dor e o poeta que dirá fim p alavra sobre palavra poeta és poema ponto a lerta de antes de agora e depois serás nada l adina matriz sem matiz aonde quer que navegueis a mor em versos sem tons lenda aqui e daqui dor oh v este tam sem brio oh mor em gerúndio r io poema aqui remando oh e gemendo a cordeão definitiva.mente oh e morrendo maria luzia fronteira maria luzia fronteira trabalha no estabelecimento prisional do funchal na área de reeducação e dá apoio aos técnicosas de reeducação tem um livro publicado romance com o nome esmeralda a filha do mar na chiadoeditora e outro de poesias que publicou no brasil de nome de.lírios sua tendência é poesia melancólica também escreve no peapaz ­ poetas e escritores do amor e da paz p rofeta sou na utopia in.acabada obra 2 a braça a brasa ferro e graça pedras na argamassa 5 s obra ao fogo sina im_piedosa pro_logos purificar a rosa 4 s ou lava im.pura epílogo 3 a o rio fogo frio fumaça nada é da chuva a uva-passa 1 marco bastos 1 4 5 maria luzia fronteira 2 3 pensamento vigie seus pensamentos porque eles se tornarão palavras vigie suas palavras pois elas se transformarão em actos vigie seus actos porque eles se tornarão seus hábitos vigie seus hábitos pois eles formarão seu carácter vigie seu carácter porque ele será o seu destino poeta grego teócrito c 310-250 a.c

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eisfluências fevereiro 2011 09 a paciente maria lindgren a mulher acamada não parava de falar e de se mexer fazia os gestos habituais com as mãos espalmadas frenéticas o pensamento mais rápido do que as palavras a brotarem da voz rouquenha de tanto uso a língua e os lábios sem encontrar espaço e tempo para uma articulação correta por milagre o rosto pouco enrugado para uma senhora de mais de setenta anos franzia-se apenas da boca até o pescoço a testa e as maçãs quase não se mexiam por bondade da natureza não por placidez de personalidade ninguém entendia como suportara a dor lancinante do fêmur quebrado olha que osso dói e pior ainda carregada nos braços por porteiro forte depositada na cadeira de uma das últimas fileiras do teatro conseguira assistir a peça até o final sem mandar aviso às amigas sentadas em poltronas das primeiras filas não queria interromper-lhes o prazer do espetáculo era mais afeita aos sentires da alma do que do corpo tinha sido sempre assim qualquer aborrecimento a torturava mais do que a morte de um parente dores corporais que bobagem o que lhe causava mal-estar mesmo eram as dores psicológicas jamais saradas sobretudo os traumatismos da infância paparicada e da adolescência muito ao contrário assim o susto do tombo parecia ter afetado mais aos circundantes e às amigas do que a ela própria só a cabeça fervilhava entremeada de pensamentos bobos e fragmentos da peça que lhe interessava o corpo quebrado alquebrado se teria que viver sozinha para sempre talvez enferma fosse melhor uma ou outra amiga podia aparecer talvez no hospital o emaranhado mental se diluísse a insônia cedesse e ela desmaiasse afinal num sono reparador se é que teria de ser hospitalizada no leito precirúrgico a aflição da espera não a afetava a fala escorria ininterrupta idem os gestos largos furos de veias para exames mudança do soro comadre para aliviar a urina nem mereciam ui quanto mais ai À noite o mesmo sono nenhum o que em hospital em todo caso passa despercebido por comum são incômodos ruídos e barulhos passos apressados portas que se abrem ou fecham macas que se arrastam velcros puxados de aparelhos de pressão visitas escandalosas até tocador de flauta e rezadeira últimas bocas do plano de saúde juro durante a cirurgia apreensão dos amigos calmaria da paciente pouco tempo de anestesia muita morfina nem vislumbre de dor tudo mais que normal no poscirúrgico atordoamento leve muita fala primeiras confusões desabituada ao marcar de horas de sono como gente comum por mais que ela cerrasse olhos ao som de programas televisivos insípidos nada cabeceava apenas comida nas horas habituais absurdo total para rotinas inexistentes sempre na contramão dos seres humanos ditos normais sem trabalho noturno que justificasse não tenho fome nunca quando me apetece como alguma coisa boa muito boa comoida ruim não é comigo jamais antes da madrugada como é que posso tomar café que detesto almoçar jantar e cear afirmava aos gritos às enfermeiras e serventes de olhos arregalados na primeira noite após a cirurgia de sucesso invejável ­ era uma fortaleza natural debatia-se de tal forma que duas auxiliares de enfermagens depois de esgotarem ponderações amarraram-na às grades do leito não por tortura ou procedimento psiquiátrico por temor de um desastre pós-operatório por dois dias a paciente pelejou contra fantasmas e vivos em tom mais alto do que lhe permitia a rouquidão exasperava-se com quantos lhe impusessem repouso às mãos e aos braços exercícios fisioterápicos comportamento dócil expulsou do quarto os pobres quasedoutores-quase-ginastas horror declarado a mexer com músculos e articulações que mania idiota é essa de fazer ginástica pura moda pudera jamais se afastava do sofá da sala televisão ligada dia e noite a não ser para necessidades cruciais cineminhas freqüentes e eventuais teatros quando os pés doídos aceitavam os sapatos de classe e lhe obedeciam as ordens no terceiro dia a paciente teve alta correria geral modernidade dos hospitais de hoje três dias no máximo para evitar infecção hospitalar empurram o doente para parente quando pobre ou enfermeiras particulares quando abastado não importa o grau de enfermidade e sim a vaga para mais um em terra de ganância no setor-saúde privado ninguém sabia por onde começar a retirada várias amigas ensaiaram levá-la para suas próprias casas estancaram o oferecimento por razões múltiplas eu não posso de jeito nenhum moro em apart-hotel de dois quartos pequenos ela vai precisar de espaço para andar com o andador não dá eu tenho três quartos mas um é para minha tralha de trabalho que é demais e os outros são minúsculos também não como em casa e eu mesma faço tudo eu tenho apartamento grande mas minha vida é cheia de compromissos só tenho empregada três vezes por semana eu nem pensar tenho filho doente mas dinheiro que é bom neca só a porcaria da aposentadoria jogo cruzado pelos ares a paciente no auge da lucidez deu a última palavra chega ninguém precisa se preocupar dou um jeito vivo sozinha fico sozinha uma a uma as amigas foram se retirando cabisbaixas decididas modernas obs este texto realmente aconteceu com minha irmã portanto é uma narrativa do real maria lindgren rio de janeiro/brasil http mariajoselindgren.blogspot.com maria lindgren é professora aposentada como assessora pedagógica da secretaria de estado de educação em 2003 ano em que publicou seu primeiro livro de literatura uma coleção de contos e crônicas denominada uma rolha na lágrima formada em letras português e inglês pela uff universidade federal fluminense tem mestrado em educação pela puc-rio publica em vários sites e portais da internet como portal vânia diniz espaço ecos também da vânia diniz portal maytê cronópios literatura e arte no plural letras livros garganta da serpente conexão maringá pd-literatura entre outros tem um segundo livro pronto aguardando editora e material para um terceiro livro.

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10 eisfluências fevereiro 2011 excepcionais chico e hebe humberto rodrigues neto há uns 30 anos atrás mais ou menos ao tempo em que hebe camargo ainda trabalhava na tv bandeirantes teve ela a oportunidade de entrevistar chico xavier já então bastante doente num programa que calou fundo nas fibras mais sensíveis do meu coração em dado momento levanta a mão no auditório uma senhora de aspecto distinto muito bem vestida a demonstrar por gestos e palavras tratar-se de pessoa de elevado verniz social a qual depois de obter licença da apresentadora dirigiu a chico xavier as seguintes palavras chico nunca tive problemas financeiros porquanto meu marido era fazendeiro de café no interior todavia nunca tivemos empregados aos quais deixássemos ao desamparo pois sempre os assistimos nas dificuldades monetárias na assistência médica no preparo escolar dos filhos e mesmo na ajuda para construírem ou melhorarem suas casinhas humildes já naquele tempo eu poderia se o quisesse freqüentar as festas e encontros sociais da aristocracia local ao invés disso porém empregava o tempo com minhas amigas a fazer roupinhas ou enxovaizinhos de tricô para crianças pobres atividades estas que ainda continuo exercendo aqui em são paulo não obstante a prática constante de amor ao próximo devo dizer-lhe que três dos meus quatro filhos são sadios inteligentes e estão muito bem situados na vida sendo um deles engenheiro o outro advogado e o terceiro uma filha é médica depois desses quis o destino não tivesse o quarto a mesma sorte dos demais É deficiente físico permanece sentado ou deitado o dia todo com o olhar perdido não se sabe onde não tem controle sobre a emissão de fezes e urina obrigando-nos a ingentes sacrifícios para atendermos ao imperativo de cuidar de sua higiene pessoal em resumo é como se fora uma planta um vegetal totalmente despido de quaisquer reações inúteis foram os esforços e o dinheiro despendido em tratamentos de nada adiantando a luta empreendida por mim e meu esposo em busca de sua cura assim sendo diante de um passado de inteira dedicação aos infelizes pergunto a você por que razão deus me deu um filho em condições tão precárias completou ela sem poder esconder algumas lágrimas a correrem sobre a suave maquiagem do rosto todos os olhares da platéia se fixaram na fisionomia cansado do médium de uberaba colocado então diante de uma interpelação de difícil resposta para um mortal comum chico xavier baixou a cabeça refletiu por alguns instantes olhou comovido para ela e respondeu a senhora é duplamente bem-aventurada primeiro por ter sido agraciada por deus com a benesse de ter gerado filhos felicidade que não é concedida a todas as mulheres segundo porque deus não entregaria um ser tão desventurado a quem não soubesse cuidar dele se o primeiro pranto daquela mãe exprimia a mágoa de um destino inglório as lágrimas que vieram depois deixavam extravasar o conforto de uma alegria interior que só as palavras daquele homem simples doente e humilde poderiam lhe oferecer escuta sabiÁ humberto rodrigues neto quando foste àquela casa no ruflar de cada asa que é que foi que viste lá viste alguém de lindo rosto que se traja com bom gosto não foi mesmo sabiá pousaste na laranjeira que se ergue bem fronteira com seu quarto de dormir que tem ela mais que as outras que vês nela mais que noutras no teu eterno ir-e-vir desconfio meu sabiá que o que te leva até lá é algum secreto pendor pois és dela o menestrel cuja boca anseia o mel que flui de tão linda flor mas não vás mais atrás dela nem voltes à sua janela se queres conselhos sábios desfaz os teus sonhos pois alguém já privou nós dois da corola dos seus lábios s.paulo/brasil É carnaval humberto rodrigues neto depois de se esfalfar o ano inteiro o povo espera o mês de fevereiro para as mágoas lavar no carnaval e é nessa transitória fantasia que ele busca a ilusória anestesia à dor sem cura de viver tão mal em casa na tv na arquibancada extasia-se ao vibrar da batucada e ao gingar das cabrochas na avenida todo o desfile das escolas segue e de alma livre já não se acha entregue á corrosiva agrura desta vida envolta em tais momescas terapias toda a platéia adere a tais folias gingando aos pares ou sem par algum e a bateria mescla os sons num só telecoteco do borogodó balacobaco do ziriguidum mas chega a quarta-feira e em tons ranzinzas do carnaval só restam plúmbeas cinzas que a madrugada vai levando embora só então a plebe vê em falaz catarse que a farra foi um cômico disfarce da máscara que a vida jogou fora s.paulo/brasil

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eisfluências fevereiro 2011 11 azuis luiz poeta luiz gilberto de barros ­ às 10 h e 27 min do dia 25 de abril de 2010 do rio de janeiro ­ ditado por deus às 4 h da manhã terceiro lugar no concurso interno realizado pela união brasileira de escritores em 27 de agosto de 20110 do rio de janeiro elas estavam nos lados opostos da rua uma chamava-se ruth a outra carolina precisavam de um nome entretanto a espontânea maneira como se miravam à distância de uns vinte metros dava-lhes uma especial identidade não havia semáforos e os carros eram mecanicamente vorazes mas as duas ignoravam suas velocidades fitavam-se alheias aos flashes de cada veículo a oitenta quilômetros horários sobre a sedutora e lisa excitação do asfalto os sorrisos tornaram-se reciprocamente simultâneos o de oitenta e cinco anos nunca fora tão inocente o de três tão ávido ambos cada qual com sua terna peculiaridade eram uma agradável e afetuosa conversa sem palavras ruth sorria para um nebuloso tempo do seu passado carolina para um futuro longínquo ambas magnetizadas pelo inusitado brilho de dois olhares profundamente azuis azuladamente felizes num átimo depois que dois últimos carros cruzaram-se oportunamente não titubearam atravessaram logo a rua uma vagarosamente apoiada na expressiva nudez de uma bengala de madeira a outra aos pulinhos solta sob o vento realçando os movimentos do vestidinho rosa encontraram-se quase no meio da estrada sob os implacáveis raios de sol do mês de dezembro afinal precisavam de uma data para celebrar aquele momento pleno de embevecimento e excitação não se conheciam porém não havia necessidade de apresentação os sorrisos cumprimentavam-se desde a primeira troca de olhares pararam uma frente a outra numa serenidade contemplativa de cujos azuis emanavam eternidades a menininha alongou a frágil mãozinha puxando carinhosamente a idosa para o lado de onde viera era um retorno marcado por cuidadosa precaução numa silenciosa e lírica perenidade de passos calculados findo o trajeto num quase derradeiro sorriso de felicidade retribuído por outro de agradecimento carolina simulou retornar a velhinha comprimiu sua mãozinha com suavidade como que pedindo mudamente que aguardasse a seguir abriu uma antiga e rota bolsa que levava consigo retirou dela uma frágil bonequinha de pano e entregou-a à menina o êxtase durou o tempo do embevecimento que eternizaria aquele sublime instante a inefável fisionomia de carolina congregava todos os risos num único sorriso imediatamente correspondido em reverência àquele lírico momento marcado pela leveza de gestos os carros foram parando um a um para que a menina de três anos avançasse levando nos seus momentos mais azuis a realização de um sonho tão grandioso e necessário como a sua aparentemente menor e mais expressiva atitude carolina voava como um passarinho e nem o calor do asfalto incomodava a maciez dos seus pezinhos descalços na mão a bonequinha de pano parecia dizer adeus à úmida lágrima de ruth que deslizava afetuosa sobre o melhor dos seus silêncios e o mais sublime dos seus sorrisos azuis aquele homem luiz poeta luiz gilberto de barros ­ às 2h e 11 min do dia 6 de outubro de 2010 do rio de janeiro durante o conselho de classe da escola municipal evangelina duarte batita aquele homem que se arrasta pela rua cambaleante caminhando sem destino É um menino que sofreu na pele nua a solidão de um velho dentro de um menino mÃe latina luiz poeta luiz gilberto de barros ­ às 15 h e 39 min do dia 6 de outubro de 2010 do rio de janeiro ­ durante o conselho de classe ­ escola evangelina duarte batista latinas solidões quem as possui vislumbra com seus olhos de poeta a turba inquieta que reflui da boca da canção mais incompleta repleta de aflições a multidão vagueia pelas ruas e vielas É nela que repousam corações enquanto a solidão jaz dentro delas janelas semi-abertas denunciam o medo de um projétil repentino que afogue um sorriso de menino nas lágrimas de sal que acariciam o rosto de uma triste mãe latina perplexa ante a dor que a assassina http www.luizpoeta.com aquele homem que caminha e gesticula comunicando-se sem interlocutor É um velhinho solitário que se anula porque acumula coleções de desamor como um de nós aquele homem fantasia a alegria de viver um tempo ausente mas indigente de alguma companhia sua alegria é viver-se impunemente aquele homem é um pedaço do que somos ou que já fomos sem ao menos perceber que se a vida é julgada pelos tomos tudo que fomos é um livro a escrever aquele homem solitário e indigente e tão carente do afago de um irmão É uma parte que se solta tristemente da nossa mente e se dilui num coração para sentirmos um pouco do que ele sinta que não se minta sua dor e que se entenda que quando o sonho acaricia a alma da tinta os nossos olhos se contentam com a venda http www.luizpoeta.com/

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12 eisfluências fevereiro 2011 entre a palavra e o ato rosa pena marina adorava o bisavô mesmo sem entender tudo que ele falava ele era um brincalhão sempre bem-humorado gostava de conversar com as borboletas sobre o tempo de vida tinha intuído que só viveria por mais uns três meses mas reclamar de quê quando seu resto era superior ao inteiro dessas maravilhosas asas coloridas quando ele partiu sua avó ficou preocupada com a carinha triste da menina e lhe falou bem de mansinho deus precisava de alguém que entendesse a fala das borboletas a menina sorriu e a vida voltou pro seu rostinho mês passado foi a vez do cachorro da família sua avó não parava de chorar e afirmar que perdera um filho sim era sim pois ele estava com mais de quinze anos três vezes a idade de marina ela olhou para a vovó e lhe falou bem de mansinho deus precisava de um cachorro para tomar conta do céu a avó ligou a tv caladinha dizer o quê a dor extinta milla pereira dia virá em que não sentirei saudade pois os teus braços enfim me abraçarão e os meus lábios sedentos te beijarão como a curar minh alma dessa enfermidade e dentro de minha vulnerabilidade libertarei minha voz da alienação verei sangrar a dor sem cicatrização para que se extinga nessa tempestade as chagas dessa saudade ainda abertas serão as portas de uma nova descoberta posto que a febre dessa paixão me destrói e cada noite findará este tormento verei o fim de todo o meu abatimento por tua ausência que ainda me corrói são paulo brasil http www.millapereira.prosaeverso.net inventário inútil rosa pena ficas com todas as cores exceto o azul a terra as matas quase todas as flores os frutos os animais as nuvens o sol a lua as estrelas eu fico com o céu e o mar tem coisas que não têm como se separar os peixes coloridos do fundo do oceano as asas das borboletas podes vir apanhar e aproveitas para me levar sou da cor da tua pele mais ainda sou ela se cobre comigo novamente tipo assim eternamente www.rosapena.com sou o que escrevo cecília rodrigues são palavras de inércia as que eu escrevo são o que minh alma sente e se lamenta em poesia deliro sou seu servo nesta vida que às vezes me atormenta escrevo e alinhavo áureas sem dedal no papel faço moldes que a alma inventa vagueio sobre as letras dou o meu aval tudo o que a pena dita eu estou atenta na poesia deliro um canto eterno palavras ao vento elevam meu ser são tudo o que medito e o meu querer galgo estes passos com ar maternal em cada poema é um filho que nasceu de um parto sem dor que alguém escreveu viseu/portugal veleiro de saudades silêncio da tela cecília rodrigues de corpo franzino e com pé no chão É um peregrino na estrada da vida ruma ao luar com migalha na mão olhar distante e a estrada é tão comprida busca em atalhos respostas e pão tem fome de afecto e segue a sua lida segue um caminho cumprindo a missão tem frio no olhar no mundo guarida no silêncio da tela a sua voz brada pequeno caçador seguindo a estrada com olhar de esperança e alma abatida na caça encontrou sua sobrevivência e o pintor tracejou sua inocência com traços de dor de criança sofrida viseu/portugal http www.cecypoemas.com/

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eisfluências fevereiro 2011 13 notÍcia da nossa correspondente em buenos aires-argentina maria cristina garay andrade enero 21 de 2011 las letras argentinas se vistieron hoy de luto por la muerte de maría elena walsh creadora de entrañables personajes infantiles y autora de libros que acompañaron a varias generaciones de niños latinoamericanos es una perdida irreparable para todos los argentinos y argentinas además de dejar en nuestra literatura un espacio muy difícil de llenar los genios de tu calidad suelen ser escasos siempre para el mundo ¿quién no ha cantado alguna vez tus canciones maría elena centenares de personas familiares amigos y diversas personalidades del arte y la cultura asistieron a las exequias de maría elena walsh que se desarrollaron en la sede de sadaic en la capital federal abuelos con sus nietos padres con sus hijos escritores músicos compositores actores intelectuales y dirigentes políticos se acercaron a despedirse de la genial compositora que falleció a los 80 años luego de una larga enfermedad terminal maría elena walsh fue la creadora de una de las canciones más queridas por los chicos y por los grandes manuelita esta canción recorrió el mundo como el personaje y forma parte del tesoro infantil que cada uno de nosotros tiene síntesis de su autobiografía nacida en buenos aires en 1930 walsh fue una creadora precoz publicó su primer poema con 15 años y su primer libro otoño imperdonable con 17 hija de un trabajador ferroviario descendiente de ingleses y de una argentina de padres andaluces que influyeron definitivamente en su formación walsh afianzó su carrera con un viaje a estados unidos con el poeta español juan ramón jiménez que le ayudó a publicar su segundo libro baladas con Ángel en 1951 en 1952 comenzó una nueva etapa al exiliarse a parís con su compatriota leda valladares con quien formó el dúo leda y maría y grabó el disco le chant du monde el canto del mundo de regreso en argentina el dúo grabó cuatro discos que lograron buena acogida entre el público infantil igual que las dos obras que walsh puso en escena doña disparate y bambuco fue durante la década del 60 con una carrera en solitario cuando se consagró con libros como zoo loco 1964 el reino del revés 1965 dailan kifki 1966 y cuentopos de gulubú 1966 en las décadas siguientes proliferaron sus publicaciones con personajes como la famosa manuelita la tortuga llevada con éxito a la gran pantalla en 1999 por el español radicado en argentina manuel garcía ferré creo que la gente sigue haciéndoles escuchar mis canciones a los chicos porque las consideran como una suerte de tesoro familiar señaló la artista en 1997 sus creaciones infantiles desde manuelita hasta el reino al revés pasando por sus temas comprometidos como serenata para la tierra de uno se han convertido en clásicos para varias generaciones de latinoamericanos nombrada en 1985 ciudadana ilustre de la ciudad de buenos aires y en 1990 personalidad ilustre de la provincia de buenos aires sus obras han trascendido fronteras y han sido traducidas al inglés francés italiano sueco hebreo danés y guaraní maria cristina garay andrade http mariacristinadesdemissilencios.blogspot.com trabajos de maría elena walsh vide http www.youtube.com/watch?v=ncl497m2-b4

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14 eisfluências fevereiro 2011 crónica duma acidentada viagem ao café da esquina que é o mesmo que dizer fui a penates beber uma bica antónio barroso tiago era uma vez ora bolas era uma vez o tanas quem é que estou a tentar enganar É que esta crónica não se refere a nenhuma enfadonha história de fadas e duendes para adormecer criancinhas o assunto é muito mais sério e profundo digno de interesse académico trata-se de descrever a odisseia sempre presente duma complexa deslocação a paragens tão longínquas como à avenida dos maristas na parede conhecem não santa ignorância com todos os perigos inerentes e os obstáculos que necessariamente têm de ser ultrapassados tem muito que se lhe diga ufa pois bem tudo começou num dia qualquer deste mês ou do mês anterior já não me recordo se bem que a data exacta seja pouco relevante para o caso numa manhã que resolvi situar sem chuva para não ter de carregar com as respectivas coberturas se falasse numa manhã de nevoeiro logo me apelidariam de monárquico por evocar d sebastião o que diga-se em abono da verdade não me incomodaria minimamente por isso fica assente era apenas uma manhã normal como tantas outras com o sol suficiente para secar a roupa no estendal das traseiras comecei a aventura abrindo a porta de casa não sei outra forma de sair pois não me assemelho a houdini nem possuo o poder da desmaterialização na altura correcta no sítio certo o no momento oportuno como diria o meu amigo toino da buraca típico e afamado cigano empresário de roupas de marca que exerce a sua actividade todas as quintas feiras na fic feira internacional de carcavelos empoleirado num exíguo estrado de madeira continuando porém logo ali dei de caras com um pequeno saco de pano semi-aberto parecendo conter artigos de limpeza dois tapetes assentes no corrimão e supostamente escovados um balde de plástico com água ensaboada um encardido e esfarrapado pano do chão uma longa esfregona de cabo encarnado e na continuação desta uma anafada senhora maria pessoa de farta palavra afiada língua e não menos prolongada eloquência É-me possível descrever o cenário com tanto rigor porque nele permaneci quinze longos e dolorosos minutos ouvindo as primeiras notícias da manhã as últimas da zona e as previsões para o resto do dia sem ter sequer a oportunidade de soltar um comentário uma exclamação um suspiro nada e apoiando-me alternadamente apenas numa das pernas que não têm a obrigação sozinhas e por tanto tempo de suster mais de cento e dez quilos bem pesados assim que pude desci um lanço de escadas e escapuli-me pela porta principal do edifício cuja fechadura para minha vergonha anterior administrador se encontra num impecável estado de conservação dantes fechava umas vezes outras não agora já não há intermitências não fecha nunca entrei então na linda luxuosa extensa e cosmopolita rua marginal sobranceira à turística ribeira das marianas paradisíaco local que salvaguardando embora as respectivas distâncias nos faz lembrar guanabara copacabana ou a barra da tijuca falta a vista do corcovado ou do cristo rei mas o que é isso que uma imaginação treinada e fértil não possa superar É apenas uma questão perspectiva ou de tempo ou até mesmo de memória porém continuando evitei cair num buraco do passeio estrategicamente colocado mesmo por debaixo da janela do meu vizinho porque já estava precavido e à espera duma jovial brincadeira da câmara ou da junta de freguesia ai estes serviços públicos e as suas maneiras simpáticas de desejar bom dia aos munícipes estragam-nos com mimos as pedras arrancadas da calçada e que deveriam estar junto do local em monte para serem atiradas à cabeça do presidente quando por aqui passasse como retribuição e resposta ao passatempo devem ter sido levadas por algum incivilizado para se compensar do irs pago e calcetar o quintal ou então para primeiro praticar com a sogra antes de entrar na brincadeira geral pensando estar livre de armadilhas acabei por pisar uma pastosa poia que parecia ter sido feita mesmo à medida do meu pé era difícil livrar-me daquele obstáculo porque outros havia à frente atrás dos lados e com as formas mais inconcebíveis que imaginar se possa não fora a involuntária pisadela que me fez vociferar raios e coriscos e até teria ficado a contemplar os desenhos artísticos que forravam toda aquela parte do passeio agora compreendo porque a todo este conjunto se costuma chamar calçada à portuguesa É típico artisticamente perfeito e sobretudo turístico olhando em meu redor enchi-me de tristeza por ver que as obras de arranjo do jardim tinham destruído uma pujante selva sem ninguém se ater minimamente aos protestos dos ambientalistas na sua inglória e frustrante luta pela defesa da fauna existente destruiu-se o habitat da ratazana das marianas e colocou-se em risco a sobrevivência da lagarta do pinheiro os insectos esses extinguiram-se quase por completo num esquecimento imperdoável das andorinhas migrantes só espero que para salvaguarda da natureza e do meio ambiente o próximo número da national geographic magazine faça a denúncia pública desta situação no entanto um pouco inexplicavelmente as obras pararam ficando como de costume sem data prevista para continuação talvez seja melhor assim porque por um lado obedece-se ao pec e no próximo ano já com o défice orçamental devidamente controlado poderão prosseguir os trabalhos urbanísticos que permitirão o sustento duns quantos romenos cosovares ou ucranianos É a isto que se chama uma verdadeira visão conjunta do problema ou um estruturado planeamento por objectivos com aplicação de acções faseadas numa tentativa de maior eficiência confesso com humildade que não sei bem o que isto significa mas lá que é bonito elevado e tem palavras bem-sonantes não tenho a menor dúvida e tenho que acreditar porque é dito por vários gestores que ganham milhões mais à frente do meu lado direito meio encobertos por alguns carros que ocupam metade da faixa de rodagem encontram-se dois grandes caixotes para recolha do lixo que de tão cheios por expressa e inequívoca amabilidade do pessoal da torre adjacente mais parecem enormes jarras repletas de flores em volta espalhados pelo chão dezenas de sacos de supermercados transmitem ao local o bucolismo de autênticas cenas campestres e aqueles que se encontram esventrados e apresentam os restos culinários de confecções esmeradas perfumam o ambiente com os característicos odores da putridez dos ingredientes são tão agradáveis estes perfumes primaveris para além de tudo o mais estas pequenas e assaz simpáticas estrumeiras domésticas tão esmerada e laboriosamente construídas são o encanto de qualquer gato que se preze por todas as redondezas e que dizer da muita pobreza que não conhecendo o significado de crises recessões orçamentos dívida pública mas sabendo o que é fome e miséria ali vão recolher alguns restos que outros desprezaram como hoje em dia o conceito de museu deixou de ser um amontoado de velharias para serem contempladas na obscuridade dum salão a cheirar a mofo e se transformou numa dinâmica de complementaridade de conhecimentos vemos mais adiante junto ao passeio e com uns pneus tão lisos como a careca dum monge budista um carro que já foi vermelho em permanente exposição indiferente ao sol ao vento e à chuva como se não o afectassem as inclemências atmosféricas os entrançados de ferrugem na chapa podre transmitem-lhe uma patine de antiguidade e moldam-lhe um desenho artístico dignos de realce numa visita bem planeada é obrigatório espreitar no interior restos de utensílios ou ferramentas montes de revistas quilos de trapos que já tiveram nome de vestuário e pedaços de cadeiras a exposição é gratuita e não dispõe de quaisquer receitas pelo que está impedida de contratar um guia para visitas acompanhadas de repente fujo dum carro que me tomou apesar do volume do ventre como pino de manobras arriscadas na prova de exibição dum rally dado que levava os vidros das janelas fechados talvez não se tenha apercebido dos doces nomes com que lhe mimoseei a mãe de que aliás logo me arrependi porque a senhora não tem culpa da forma displicente da condução do rebento bem já passei mais de metade do trajecto e agora é altura de ser cumprimentado pelos canídeos que das respectivas varandas ou janelas do lado esquerdo do percurso me ladram obscenidades com dentes arreganhados e focinho de grande ferocidade aqui abrando um pouco o andar tentando compará-los com os respectivos donos de quem dizem são o reflexo.

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eisfluências fevereiro 2011 15 será que com um enérgico puff não meteriam todos eles os rabinhos entre as pernas e procurariam um abrigo seguro ainda me tentei a soltar o tal puff mas receei ser observado que diriam as pessoas cruzando com um senhor circunspecto e ordeiro verem-no subitamente com ar tresloucado soltar aquelas exclamações não que me importasse mas convenhamos que era um bocado caricato antes de chegar ao destino tenho ainda de passar pelo salão de beleza de senhoras que como soe dizer-se está permanentemente às moscas motivo porque as cabeleireiras estão sempre cá fora fumando conversando telefonando e eu pensando que era altura de ter menos quarenta anos a propósito de beleza não resisto a contar aquela alentejana mais velhinha que matusalém que quando a recordo me faz rir sozinho atã mana porque é que pintas os bêços pra ficar mais bonita ah sim e porque é que na ficas e pronto amigos cheguei ao café se estiver com disposição da próxima vez conto-vos o regresso antónio barroso tiago parede/portugal antónio josé barradas barroso tiago nasceu em 7/10/34 em vila viçosa portugal terra de florbela espanca e de henrique pousão reside hoje na parede na bela linha de cascais É oficial do exército coronel reformado e a sua alcunha tiago vemlhe desde a idade de 11 anos como estudante nos pupilos do exército alcunha que adoptou como segundo nome familiarmente e entre amigos e com a qual assina todos os seus escritos É cronista e poeta mas é na poesia que mais se evidencia especialmente na bela arte do soneto É membro correspondente da academia cachoeirense de letras em cachoeiro do itapemirim/es e da avspe e sócio do grupo de poetas livres de florianópolis e do clube da simpatia de olhão o homem e o universo carmo vasconcelos desde a antiguidade tem o homem contemplado o firmamento estrelado ele está sempre buscando entender o significado daquilo que vê ao tentar relacionar suas especulações e ideias com suas mais profundas aspirações e mais íntimas questões relativas à sua existência o homem se defronta com o infinito que se lhe apresenta pelo céu afora o homem contemplativo sempre se sentiu profundamente atraído a buscar uma fonte de contínua inspiração e de prazer estético erguendo os olhos para o céu não obstante encontra real sabedoria ao descobrir correlacções terrenas no esquema da natureza e do homem os eventos que cercavam o homem primitivo devem ter-lhe proporcionado os estímulos para as suas primeiras especulações e investigações sobre a verdadeira natureza e o significado de todas as coisas do seu ambiente com suas primeiras indagações começou o homem a desejar conhecimento observou reflectiu e claramente percebeu mediante profundos insights os processos da criação ­ o desenvolvimento da natureza do homem e do universo muitos escritores antigos referem-se ao egipto e a civilizações ainda mais antigas e relativamente desconhecidas como fontes dessas primárias investigações dos fenómenos universais por exemplo o grego filipe de opunte escreveu que foram estrangeiros ­ egípcios e sírios ­ os primeiros observadores de eventos astronómicos vivendo num mundo sem nuvens e sem chuvas esses povos antigos observaram todas as estrelas no firmamento claro de seus belos desertos a antiga tradição do conhecimento e sabedoria do egipto é mencionada por platão no seu livro o timeu É também neste livro que se encontram as bases dos conhecimentos que vieram posteriormente a desenvolver-se sobre a atlândida o continente desaparecido conta até que alguns atlantes pressentindo a catástrofe se fizeram ao mar vindo a aportar na terra que viria mais tarde a ser o egipto não há personalidade eminente em todos os anais da história sagrada ou profana cujo protótipo não possa ser encontrado nas tradições meio fictícias e meio reais de antigas religiões e mitologias assim como a estrela bruxuleando a incomensurável distância da terra na ilimitada imensidão do firmamento se reflecte nas águas serenas de um lago também as imagens mentais de homens de eras antediluvianas se reflectem nos períodos que podemos abarcar em retrospecto histórico contemplando o universo o homem da antiguidade esforçou-se por descobrir o seu lugar no complexo esquema cósmico como fonte natural de ideias inspirações dúvidas e desejos sua contemplação consequentemente levou-o a procurar uma ligação entre a sua vida em geral e os seguintes processos a sucessão das estações desde o florescer dos campos na primavera o fluxo e refluxo da natureza viva com seus ciclos regulares de nascimento crescimento declínio e deterioração para depois renascer havia uma simetria nesses processos regulares do céu e da terra que levou o homem a conceitos como harmonia beleza unidade na diversidade e lei universal a repetição regular de eventos ajudou o homem a lidar com o seu ambiente o homem primitivo aprendeu a esperar a ansiar pelo alvorocer enquanto sofria os terrores da noite escura e fria sabia ele que o esperado alvorocer com sua luz dar-lhe-ia tempo para procurar um local menos frio e mais protegido para passar a noite seguinte que certamente sobreviria tão logo o sol desaparecesse por detrás das colinas ocidentais em função de suas experiências diárias e de seus mais profundos pensamentos concebeu o homem a ideia da estreita relação entre sua vida e o ritmo geral do universo para os nossos ancestrais mais reflexivos a vida parecia depender fortemente dos eventos que os rodeavam os sábios antigos reconheceram correspondências e começaram a acompanhar o curso da cíclica sucessão de eventos que ocorria em seu ambiente particularmente no egipto antigo aperceberam-se os sábios da fundamental unidade existente entre o homem e o universo ­ entre o microcosmo e o macrocosmo esses sábios seguidores de thot ou hermesa resumiram esta ideia numa concisa e poderosa declaração assim como em cima é em baixo aquilo que já existiu retornará assim como no céu é na terra

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