eisFluências - Revista Literária e Informação

 

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eisFluências - Revista Literária e Informação eisFluências - Literary Magazine and Information Revista literária e informação em lingua portuguesa e eventualmente com artigos em espanhol Literary magazine and information in Portuguese language and ev

Popular Pages


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fevereiro/2010 ano i nÚm iii editorial prezados leitores a revista eisfluências tem o prazer de apresentar-vos hoje o seu terceiro número como sabem eisfluências é uma revista bimensal cuja primeira edição foi em 15 de outubro do ano transacto com edição somada de três revistas e um suplemento de natal sendo ainda uma criança já editou uma merecida e justa reportagem com entrevista à grande escritora luso-americana deana barroqueiro feita pela nossa directora cultural carmo vasconcelos além de ter publicado vários trabalhos de mérito de escritores e poetas luso-brasileiros e também de autores oriundos doutros quadrantes geográficos ou aí residentes acção esta que pretendemos expandir com vista à concessão de iguais oportunidades a esses escritores e poetas autores de matérias que julguemos relevantes pelas inúmeras e gratificantes respostas recebidas ao nosso trabalho sentimo-nos incentivados a ampliar o nosso formato que tendo começado com 8 páginas conta nesta edição com 20 páginas e 1 suplemento bem-hajam os atentos e gentis leitores e os distintos colaboradores neste número trazemos com orgulho literário uma notável reportagem da nossa responsável pela redacção e proprietária da revista mercedes pordeus sobre um importante evento em que eu próprio estive presente:o i encontro pernambucano de escritores foram três dias excepcionais de 15 a 17 de janeiro que tiveram lugar no colégio americano batista e em que a união brasileira de escritores nos proporcionou engrandecedoras experiências culturais foi um começo de ano auspicioso no qual pernambuco e a sua capital recife fervilham de cultura e logo após o ano de 2009 ter terminado com o fliporto que promoveu o também proeminente encontro cultural iberoamericano na praia de porto de galinhas É por demais sabido que o recife é uma cidade com grandes tradições culturais e que as mantém o diário de pernambuco é o jornal mais antigo em circulação na américa latina em frente do seu prédio se fazia o ponto de encontro de poetas repentistas que recebiam o seu sustento monetário de uma platéia que muitas vezes era apenas composta de curiosos o estado de pernambuco foi o berço da cultura jurídica do brasil o gabinete português de leitura tem sido um marco na difusão da cultura e a sua rica biblioteca com mais de trinta mil volumes é visitada diariamente por dezenas de pessoas o recife tem inúmeras bibliotecas que aliadas aos museus e teatros formam um grande património histórico memórias dum vasto saber intelectual que percorrem gerações e gerações à disposição do povo dos estudantes e dos pesquisadores gilberto freyre joaquim cardoso joão cabral de melo neto waldemar lopes marcus accioly manuel bandeira mauro mota clarice lispector mário souto maior e tantos tantos são os grandes poetas e escritores de pernambuco e de sua capital o recife basta fazermos o circuito poético do recife que percorre várias ruas da cidade para percebermos que estamos numa cidade remota e verdadeiramente cultural e é desta ínclita cidade que vos saúda hoje este português que nela reside e que a adoptou como sua segunda pátria recife/brasil fevº/2010 victor jerónimo director esta edição contem um suplemento especial dedicado ao i encontro pernambucano de escritores organizado pela união brasileira de escritores/pe no colégio americano batista em recife/pe brasil nÃo perca

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02 eisfluências fevereiro 2010 terras de portugal ­ histÓria e suas lendas por carmo vasconcelos baiÃo baião é uma vila portuguesa no distrito do porto região norte e subregião do tâmega com cerca de 2800 habitantes o concelho oferece ao visitante o panorama deslumbrante das grandes serras e vales tranquilos por onde serpenteiam rios e ribeiras o município de baião apresenta no âmbito dos seus elementos culturais algumas das maiores referências ao património natural e cultural histÓria na passagem da alta para a baixa idade média dá-se a formação da terra de baião que era dominada por um castelo o castelo de matos antigo castelo de penalva a terra de baião é a origem da família nobre dos baiões descendentes de d arnaldo trisavô de egas moniz aio de d afonso henriques um guerreiro que veio combater os mouros na península ibérica por volta de 985 as terras de baião foram-lhe concedidas como prémio pela sua bravura pelo rei de castela alguns historiadores pensam que d arnaldo seria um guerreiro alemão que perdeu o seu ducado numa guerra outros que seria um cavaleiro de bayonne filho de um rei de itália e neto de um rei de frança e que seria essa a origem do nome de baião mais tarde d joão i deu as terras de baião a um parente do condestável d nuno Álvares pereira tendo voltado à coroa no tempo de d joão ii baião recebeu foral de d manuel i em 1513 embora na serra da aboboreira tenha sido achado «um uniface talhado num calhau rolado de xisto» do paleolítico inferior cerca de 30000 a.c terá sido no v ou iv milénio a.c de 5000 a 4500 a.c no neolítico que surgiram os primeiros povoados em plataformas próximas de linhas de água os estudos arqueológicos que têm vindo a ser realizados nas serras da aboboreira e do castelo desde 1978 revelaram já a existência de uma vasta necrópole megalítica das maiores que actualmente se conhecem em território português com cerca de 4 dezenas de mamoas identificadas as origens culturais deste concelho devem-se à passagem e fixação de vagas migratórias vindas do sul da alemanha da região de hallstat os celtas foram a primeira cultura que de forma consistente aqui se fixou castros meníres e outros achados arqueológicos mostram que esta foi uma região de domínio celta a cultura celta permaneceu sempre neste enclave do marão e ainda hoje se faz sentir a sua presença duas lendas frei comilÃo e o moleiro entre comer e rezar aquele frade do mosteiro de ansede ficha tÉcnica director victor jerónimo portugal/brasil directora cultural carmo vasconcelos portugal responsável pela redacção mercêdes pordeus brasil correspondentes design gráfico e composição victor jerónimo blogue http eisfluencias.wordpress.com contacto eisfluencias@gmail.com argentina maría cristina garay andrade bielorussia oleg almeida brasil elizabeth misciasci conselho de redacção armando figueiredo portugal humberto rodrigues neto brasil luiz gilberto de barros brasil marco bastos brasil maria ivone vairinho portugal rosa pena brasil revista de eventos actualidades notícias culturais político/sociais e outras mas sempre virada à directriz cultural nas suas várias facetas propriedade de mercêdes batista pordeus barroqueiro recife/pe/brasil tiragem 100 ex distribuição gratuíta divulgação via internet depósito legal lei do depÓsito legal lei n° 10.994 de 14 de dezembro de 2004 inclinava-se pela primeira das práticas reinava joão iii e se para o coro era o último para o refeitório era o primeiro e quando lhe ralhavam respondia ­ muito comer pouco rezar e nunca pecar leva a alma a bom lugar e um dia os frades de ansede decidiram ir comer uma boa merenda a oliveira mas evitaram dizê-lo a frei comilão porém o nosso frade tinha um sexto sentido e foi o primeiro a pôr-se a caminho bem frei comilão chegou junto do rio e não viu barca que o levasse para a outra margem pelo que estendeu a sua capa sobre as águas e navegou sendo o primeiro a chegar a oliveira e imaginem o espanto dos outros frades ao porem na relva a toalha das iguarias dando de caras com frei comilão que sorria como quem dizia ­ muito comer pouco rezar o moleiro e a princesa um moleiro foi nadar para ovil num poço entre os penedos do lugar do giraldo e quando quis sair da água uma força oculta puxou-o e foi parar ao riquíssimo palácio de uma moura encantada ali esteve dois dias acordado e sem fome queria irse embora mas não podia lembrou-se então de rezar um padrenosso ao contrário fórmula boa para quebrar alguns encantos e resultou os amigos já andavam à procura dele e contou-lhes o sucedido os outros revistaram o poço e não encontraram palácio nenhum chamando-lhe mentiroso e ele disse que ia lá buscar uma prova e foi trazendo uma barra de ouro logo uma rapariga quis casar com ele tiveram dois filhos e um deles chegando a adulto pediu ao pai que lhe comprasse um cavalo para correr mundo à busca de fortuna o pai comprou-lhe também dois leões e ele meteu-se a caminho chegando a uma terra onde havia uma mata nessa mata havia uma bicha de sete cabeças que comia pessoas todos os dias se sacrificava gente daquela terra até que calhou a vez à filha do rei e quando o rapaz ia a passar ao pé da mata viu uma linda menina a chorar não sabia que era a princesa mas ele agarrou nela e foi enfrentar a serpente ajudado pelos leões cortou as sete cabeças e as respectivas línguas embrulhando estas num pedaço do vestido da princesa depois despediu-se da jovem dizendo que mais tarde daria notícias o rei ficou muito contente e deu uma grande festa dizendo que casaria a princesa com o salvador um embusteiro encontrou as cabeças e levou-as ao rei a princesa dizia que não era ele mas o rei julgava que ela mentia então o moleiro pegou na sua trouxa e foi ao palácio real o rei não o queria receber mas a princesa mostrou que às cabeças faltavam as línguas que o moleiro levava embrulhadas num pedaço do vestido da princesa e assim o moleiro casou com ela fonte biblioteca pessoal da autora biblioteca nacional brasil

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eisfluências fevereiro 2010 03 ibÉria e amÉrica cultura partilhada por armando figueiredo vivenciamos na literatura e até certo ponto na sociedade peninsular ibérica um tempo de apaziguamento compreensão e aproximação entres as várias subculturas que se estendem desde a catalunha a portugal e galiza não passa despercebido a ninguém sobretudo a quem vive nas regiões do minho beiras e douro que há uma estreita ligação entre as literaturas oriundas da galiza e norte de portugal recorde-se que as raízes filológicas são comuns o latim vulgar gerado em dialecto o galaico-português depois expandido pelo centro do país incluindo lisboa e por simpatia pelo alentejo muita dessa consciência partilhada foi despoletada pelo ideário de miguel torga ou seja foi este poeta e escritor que focou especial atenção nas suas raízes telúricas explicando melhor estas não se limitavam às fragas de trás-os-montes mas estendiam-se por todas as cordilheiras que a leste se rendilham só terminando nos pirinéus pois à ibéria dedicou poesia muito valiosa esta noção de ibéria comum a todos os povos desta península haveria de constituir um coro empático em vários escritores e ensaístas e não é displicente nomeá-los neste espaço de aquém e além fronteiras gil vicente miguel unamuno fernando pessoa josé saramago estes os mais conhecidos mas há ainda outros a verdade é que de uma catalunha evidenciada pelas suas características naturais viradas essencialmente para a orla mediterrânea e por outro lado a galiza leão navarra biscaia e castela há uma diferença bastante acentuada entre aquela e estas que as especifica e em relação a portugal aquela só se aproxima pelas características históricas e climáticas compreendendo nesta amplitude a extremadura andaluzia o alentejo e o algarve mesmo assim considerada esta afirmação com alguma bonomia ou vontade benfazeja e sempre com alguma evidência intuitiva que não menoriza alguma intersecção de difícil medição os maiores adjuvantes à hipotética construção literária lusohispânica com uma forte dose de interligação são os escritores gil vicente que nos séc.s xv e xvi redigiu nas duas línguas e foi devidamente relevado na literatura do país vizinho e miguel unamuno que presidindo à reitoria da universidade de salamanca procurou entender a idiossincrasia portuguesa este poeta escritor ensaísta espanhol referir-se-ia a nós como um povo triste usufruindo duma triste e deslumbrante natureza capaz dos maiores arroubos de paixão mas também um povo suicida remetido no início à loucura bélica de alcácer-quibir depois à insatisfação pelos reinados dos filipes que foram melhores do que se apregoa e às crises económicas sistemáticas mal julgadas como sejam de natureza endémica um povo finalmente que não encontra nenhuma boa via nem nenhum modo renovadorres para sair da sua letárgica pobreza uma pobreza que não pode ser considerada como destino fatal intemporal pois esse pendor mítico foi vencido noutros povos da europa com iguais recursos naturais e uma dimensão semelhante ou até mais diminuída nomeadamente suíça holanda dinamarca e luxemburgo acrescentamos que os destinos do país foram causados sem assunção e escondidamente em lisboa pela realeza nacional e por interesse estrito dela-mesma assim como depois da monarquia da burguesia ali desde sempre instalada à sombra do poder recebendo dela protecção e benesses o povo andou sempre a navegar cegamente instigado e conduzido pela ideologia dominante nacionalista-guerreira da qual eles eram senhores donos e mestres formadores os oligarcas e os plutocratas são curiosas estas tentativas de definir o carácter identificativo dos povos é que elas só vingam por serem datadas no tempo efectivamente hoje não se adequam ao tempo e ao espaço presentes dado que os povos evoluíram eles evoluem de geração em geração ainda que muito lentamente povos cheios de soberba ignorando no entanto no caso português a sobranceria isso são bairristas sectários arrebatados os espanhóis todavia mais expansivos alegres ruidosos e sem a tendência miserabilista do passado enquanto os portugueses sofrem ainda de muita apatia que não ajuda a alterações significativas do seu modo de ser e estar no mundo contudo estão mais interventivos no presente começando a exercitar uma nova vontade de agitar movimentos culturais de cidadania responsável a tristeza ainda não deixou de lhe caber e a tendência suicida também não desapareceu completamente consequências da pobreza que continua a grassar de crise em crise políticas produtos de má gestão económica que nunca projectou séria e tenazmente o futuro da nação a médio ou longo prazo não é falho de senso comparar o povo português ao burro de cargo como fez guerra junqueiro há mais de um século burro besta teimosa torto que só vai onde lhe apetece por mais porrada que leve contudo aceitando sem queixa e na maior parte do tempo a chibata para ir onde o capataz manda foi isso que aconteceu na expedição guerreira de d sebastião na colonização de outros continentes em la lys na implantação da república na ditadura salazarista e na opção pela república semi-presidencialista partilhada com a democracia parlamentar foi guerra junqueiro o mais contundente crítico da república há cem anos atrás e não é por acaso que ainda hoje se recorre frequentemente a este escritor e poeta para caricaturar o povo aferroando-lhe o espeto da indignação para que reaja ao jugo por amor contudo não é elegante nem totalmente justo dizer nos tempos hodiernos que o indígena da pátria portuguesa é burro imbecilizado macambúzio o que é preciso saber é a razão de tanta calamidade o país tem sido dominado por elites políticas a consentir encorajar o seu estado de subdesenvolvimento secular retirando daí proveitos chorudos eticamente condenáveis a tristeza está associada a essa imbecilidade interligam-se numa espécie de causa e efeito mútuos que nem se sabe qual é a predominante a orientação política escolar não propicia a que o autóctone se prepare para a vida prática e o transforme consequentemente num programado modelo de homem produtivo disciplinado e eficaz quando paula rego este ano numa exposição sua em lisboa dizia que encontra nos contos populares o gérmen da sua arte pictórica não é displicente ou inócua a seu tom contundente são de todos os contos que leu nesta e noutras literaturas os que melhor descrevem a fealdade e a monstruosidade dos nossos carácter e temperamento lembrei-me da dama pé de cabra e do «gajeiro» que rebenta à instantânea presença do sinal da cruz efectivamente a doideira pode estar nos actos eleitorais de alguns municípios do país onde candidatos com lastro e cadastro criminais se apresentam a eleições e ganhamnas são abencerragens aberrações tribais resíduos de monstruosidades seculares estórias vergonhosas e ridículas para as populações visadas todavia este aparte aqui encaixado não caracteriza a totalidade dos gostos particulares na lusovisão estética um outro aspecto que vale a pena focar nos traços singulares que nos caracterizam é o sebastianismo cantado em camões assinalado em garret e reiterado em pessoa a pequena e média-burguesia sempre esperou «o desejado» especialmente nos momentos das crises sistemáticas que tem varrido a memória nacional elas nunca deixaram de aspirar a um salvador vindo da bruma imagem moderna que cesariny sintetizou magistralmente numa das tiradas poéticas mais curtas e surpreendentes da nossa história literária com dístico alegórico que reza assim «queria de ti um país de bondade e de bruma queria de ti o mar de uma rosa de espuma» este monumento frásico está prenhe da história lusitana.

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04 eisfluências fevereiro 2010 verdade é que tem havido alterações significativas no comportamento colectivo dos portugueses são mais sociáveis mais interventivos mais alegres ainda que não se comparem aos espanhóis são calmos menos apostólicos mais empreendedores do que há trinta anos atrás estão abertos à tecnologia moderna avançam nela rapidamente embora sejam sentimentais são capazes de se decidir pelo abandono relativo do rincão natural e emigram com facilidade e desenvoltura aliás parece estarmos num país condenado à emigração e quando emigrados são pacíficos respeitadores simpáticos e afáveis cumprindo as funções a que são destinados com lealdade e afinco não poderemos esquecer o forte sentimento de saudade que os acomete e os obriga a regressar ao país natal nas férias ou sempre que pode a talhe de gadanha há ainda alguma a dizer o gesto do «vai-te foder» de bordalo pinheiro não está completamente interpretado assim como o dichote «mandar abaixo de braga» são manifestações passivas que mereceriam engendrar uma repercussão activa pois o que pretendem é produzir uma reacção pró-activa em cadeia no sentido de tornar este país numa escola de civismo ou seja torná-lo numa terra de solidariedade de participação e de opção por acções concretas reformadoras da mentalidade perversa dos senhores governantes fazê-los repensar nos psico-arquétipos que os tornam vulneráveis e rapaces uns espertos saloios maravilhados pelo poder que os corrompe perdendo as boas teorias e práticas da moral e da ética esses valores cultivados nos homens de antanho que deveriam presidir nas relações entre eleitos e eleitores são as tais contrapartidas dos negócios de estado a servir para financiar partidos e enriquecer o património dos decisores políticos e a ocupação de chefias em empresas públicas semi-públicas e até privadas com características de monopólio apoiadas pelo governo que sustentam os barões da política bem aconchegados nos mais altos cargo da nação por artes secretas fruidores de escandalosos salários com direito a reformas milionárias É este o regime em que vivemos que apoia uma justiça que não funciona como é evidente exactamente por ser couto das manigâncias dos influentes e dos videirinhos e num país onde a corrupção ainda campeia são os contribuintes da pequena e média burguesia que pagam todo o desperdício e esbanjamento dos que usam a esperteza da ratice para os debitarem à conta dos cofres do estado o modo como o sistema bancário funcionou e colapsou a economia mundial no final desta década pôs todos os cidadãos responsáveis e conscientes de atalaia este panorama surrealista dominado pela ganância dos cifrões com a displicência e tolerância criminosas das supervisões bancárias adstritas aos bancos centrais é a prova de que os estados se deixam facilmente assaltar por uma escola moderna de delinquentes altamente qualificados que não se contenta com os privilégios de que gozam desde há muito aceites desleixadamente pelos governos ocidentais esses banqueiros são capazes de levar o estado à bancarrota e ainda ao arrepio da racionalidade humana são compensados com o dinheiro dos sacrificados contribuintes fiscais martirizados pelo fisco beneficiando ainda ilogicamente de colectas reduzidas escapando à tributação através dos paraísos fiscais criados para esse efeito e ao seu dispor para terminar este artigo direi apenas o seguinte desde a perda das colónias pelos dois países peninsulares e depois do hastear da bandeira pessoana consencuou-se a expressão de que a pátria não se reduzia mais a este atávico rincão diminuto escavado como fortaleza montanhosa na orla mais ocidental da europa um vasto couto murado por escarpas nas suas raias com duas trilogias uma para as diferenças climáticas diversificadoras do turismo outra para a produção agrícola nessa expressão expansionista prevê-se uma dimensão mais ampla mais abrangente e que implica os países de língua portuguesa falada pelo mundo consequentemente surge actualmente não só rudimentar mas também subtil e lentamente por enquanto um novo movimento que deseja dar voz à boa vizinhança à empatia e à aproximação entre os povos que são abrangidos pelas subculturas ibéricas e as americanas projectadas as duas línguas pelo novo continente com a colonização hoje extinta desse espaço americano e activadas pela nova força tecnológica a internet com motores de busca e pesquisa poderosos tais como a google e yahoo capazes de informar em todas as áreas do saber duma maneira como nunca aconteceu na história da humanidade a tendência actual é conducente à aproximação enlaçamento e convívio numa inter-acção que enriquecem e unem esses idiomas especialmente quando aceitam e partilham novos ideários filosóficos políticos estéticos e programáticos a arte com todas as suas manifestações expressivas pouco foi mais do que um produto autóctone de dimensão reduzida confinada ao conservadorismo secular duma região restrita mas por força da edificação moderna é hoje uma incessante renovação mais ou menos consensual uma regeneração ansiada uma unificação global na concretização de utopias geradas na pureza emotiva dos seres humanos mais esclarecidos desta civilização o texto apresentado atrás digitalizado não faz a história pormenorizada das considerações nele sintetizadas ao pretender ser uma síntese de muitas leituras efectuadas e delas obtendo conclusões pessoais não deixo de transcrever em rodapé alguns trechos que fazem amostra da orientação contemplada 1 o espírito ibérico é uma fusão do espírito mediterrâneo com o espírito atlântico por isso as suas duas colunas são a catalunha e o estado natural galaico-português fernando pessoa da ibéria e do iberismo in textos diversos iv ­ obras de fernando pessoa lisboa multilar vol ix prosa 1990 pp 69-100 especialmente p 73 2 um povo imbecilizado e resignado humilde e macambúzio fatalista e sonâmbulo burro de carga besta de nora aguentando pauladas sacos de vergonhas feixes de misérias sem uma rebelião um mostrar de dentes a energia dum coice pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas um povo em catalepsia ambulante não se lembrando nem donde vem nem onde está nem para onde vai um povo enfim que eu adoro porque sofre e é bom e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta uma burguesia cívica e politicamente corrupta até à medula não descriminando já o bem do mal sem palavras sem vergonha sem carácter havendo homens que honrados na vida íntima descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas capazes de toda a veniaga e toda a infâmia da mentira a falsificação da violência ao roubo donde provem que na política portuguesa sucedam entre a indiferença geral escândalos monstruosos absolutamente inverosímeis no limoeiro um poder legislativo esfregão de cozinha do executivo este criado de quarto do moderador e este finalmente tornado absoluto pela abdicação unânime do país a justiça ao arbítrio da política torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas dois partidos sem ideias sem planos sem convicções incapazes vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido análogos nas palavras idênticos nos actos iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero e não se malgando e fundindo apesar disso pela razão que alguém deu no parlamento de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar guerra junqueiro pátria 1896 3 « um assumido iberista em parte da sua obra miguel torga assume um certo iberismo « a minha pátria cívica acaba em barca de alva a minha pátria telúrica nos pirinéus.» a explicar a sua filosofia perdidos os impérios coloniais findas as ditaduras que emergiram da crise finissecular nos dois países criada a união europeia que relações para estes dois estados que desde há muito partilham alegrias e as suas tristezas o que torga propõe passa pela reivindicação de um legado cultural e um destino comuns para as pátrias de camões e lorca poetas que lia e admirava.

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eisfluências fevereiro 2010 05 para torga a península ibérica deve ser uma colectividade de nações unidas telúrica e espacialmente num único espírito escreveu este médico feito poeta «trago torgas à rosa de granada» e «enquanto houver poesia continuará a existir vida e o povo na ibéria.» torga historiador que antecipa a história visionário profético pro-europa assumido pesadelo de d.quixote sancho ouço uma voz etérea que nos chama ibéria dizes tu disseste ibéria acorda sancho é ela a nossa dama pois de quem hão-de ser estes gemidos pois de quem hão-de ser só dela sancho que nos meus ouvidos anda o seu coração a padecer ergue-te sancho quais moinhos quais ai pobre sancho que não sabes ver em moinhos iguais qual deles é só moinho de moer » colóquio miguel torga ­ dias 17 e 18 na fundação calouste 4 entrecruzando duas áreas de trabalho a cultura e a literatura sara reis da silva propõe-se estudar o iberismo cultural em miguel torga o poeta que se considerava «filho ocidental da ibéria» e «pela graça da vida peninsular» para tanto parte da procura dos valores semântico e operatório da noção de iberismo cultural empreendida também por autores como d sinibaldo de mas y sans oliveira martins magalhães lima antónio sardinha ou natália correia para um estudo das «referências mais ou menos explícitas às duas nações peninsulares como um todo indissociável» que aparecem na obra literária de torga desde «diário» e a «a criação do mundo a portugal» «traço de união» «poemas ibéricos e alguns poemas ibéricos» 5 « não existe um escritor mais ibérico que miguel torga o qual dizia que a sua pátria cívica acabava em barca de alva mas a sua pátria telúrica terminava apenas nos pirineus É preciso reconhecer que passados os pirineus o ar é mais leve a terra é mais fecunda a paisagem é mais doce mas eu prefiro o pesadelo a pobreza e a agressividade do outro lado há uma grandeza que se não mede em calorias e salamaleques É coisa mais profunda e significativa ora essa grandeza tem-na a espanha faminta esfarrapada a arder em febre desde que nasceu torga 1955 126 » miguel torga a paixão e a história poética ibérica 6 « não é por acaso que mais de um terço do texto do ensaio intitulado un pueblo suicida escrito em lisboa em 1908 e integrado em por tierras de portugal e espanha é constituído por uma carta de laranjeira ele próprio um futuro suicida mas não se pense que para unamuno portugal é um país de suicidas apenas porque se suicidaram alguns dos nossos mais notáveis escritores antero e camilo nomeadamente portugal é um país suicida porque deixou de olhar para o futuro de ter um verdadeiro ideal nacional para o reitor de salamanca o povo português meigo na aparência era no seu íntimo violento e apaixonado a sua condenação à inércia metamorfoseava-se em impulso suicida passo a citar pela tradução de josé bento a paixão trá-lo à vida e a própria paixão consumido o seu alimento leva-o à morte hoje o que lhe resta dentro de uns dias em 1 de dezembro celebrar-seão as festas da restauração da sua nacionalidade de ter sacudido a soberania dos filipes da espanha no dia seguinte voltarão a falar de bancarrota e de intervenção estrangeira pobre portugal » miguel de unamuno e o seu amor a portugal 7 este soneto de unamuno foi publicado n a Águia em fevereiro de 1911 del atlántico mar en las orillas desgreñada y descalza una matrona se sienta al pie de sierra que corona triste pinar apoya en las rodillas los codos y en las manos las mejillas y clava ansiosos ojos de leona en la puesta del sol el mar entona su trágico cantar de maravillas dice de luengas tierras y de azares mientras ella sus pies en las espumas bañando sueña en el fatal imperio que se le hundió en los tenebrosos mares y mira cómo entre agoreras brumas se alza don sebastián rey del misterio este soneto iniciou certamente a inspiração da colectânea de poesias da «mensagem» fernando pessoa como facilmente se percebe 8 «quando olhamos para a península ibérica o que é que vemos observamos um conjunto que não está partida em bocados e que é um todo que está composto de nacionalidades e em alguns casos de línguas diferentes mas que tem vivido mais ou menos em paz integrados o que é que aconteceria não deixaríamos de falar português não deixaríamos de escrever na nossa língua e certamente com dez milhões de habitantes teríamos tudo a ganhar em desenvolvimento nesse tipo de aproximação e de integração territorial administrativa e estrutural.» josé saramago http dn.sapo.pt/inicio/interior.aspx?content_id=661318 armando figueiredo nascido em ovar s.vicente e residente em gaia francelos portugal licenciado em letras filologia românica foi formador de professores da direcção-geral de educação de adultos na década de 80 colaborou em revistas páginas literárias e culturais antologias e jornais portugueses e estrangeiros algumas publicações acontecidas dor e amor 1961 ed autor porto antologias cormoran y delfin 1963 buenus aires mÁkua imbondeiro 1963 luanda sol xxi carcavelos 1996/00 lisboa escritores de gaia boletim da associação de escritores de gaia 1998/01 gaia poetas notÍvagos 2002 ed scortecci s paulo participações tratos de amor e outros tratos manoel virgílio 2008 all print editora são paulo as pessoas viajam para admirar a altura das montanhas as imensas ondas dos mares o longo percurso dos rios o vasto domínio do oceano o movimento circular das estrelas e no entanto elas passam por si mesmas sem se admirarem santo agostinho

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06 eisfluências fevereiro 2010 notÍcias jornalista e escritora elizabeth misciasci recebe indicação para ocupar cadeira vitalícia na academia de letras do brasil academia de letras do brasil alb indicaÇÃo de novo membro a jornalista elizabeth misciasci recebe em 30 de novembro de 2009 indicação do presidente da alb professor doutor mário carabajal para ocupar uma cadeira vitalícia na alb a jornalista e escritora elizabeth misciasci tem comprovado ao longo dos anos profundo comprometimento com os assuntos culturais de nosso país e do mundo sendo inequívoco o carater imortal de sua escrita e obra observo que esta nobre jornalista tem dedicado atenção personalizada e indiscriminada aos assuntos da academia de letras do brasil de norte a sul do país iniciando com o elo formado pela imortal andréia donadon leal diplomá-la em caráter vitalício na alb significa fazer justiça cultural pelo relevante mérito de seu trabalho onde tem cultura está a imortal jornalista elizabeth misciasci divulgando e incentivando são raros os jornalistas que dedicam-se gratuitamente com tanto afinco às causas culturais se contássemos com os ideais de uma misciasci em cada estado brasileiro nosso país já teria ultrapassado o atual estágio de pré-consciência política o qual perde inclusive para senegal na África muitiplique-se a cultura elevando-se a politização evolução e à qualidade de vida em nossa nação comunique-se em consulta à jornalista confirmando-se sua aceitação em somar uma cadeira vitalícia na alb agende-se sua diplomação de acordo com sua disponibilidade em uma das solenidades oficiais da alb previstas para o segundo semestre de 2010 mário carabajal dra vera rosendo ph.i secretária executiva da presidência/alb g h lisboa candidata-se a capital mundial do livro 2013 dia 18 de janeiro manuel maria carrilho embaixador português junto da organização das nações unidas para a educação ciência e cultura unesco em declarações à imprensa revelou que a cidade de lisboa é candidata a capital mundial do livro da unesco para 2013 de acordo com manuel maria carrilho o desafio da candidatura de lisboa foi assumido após a ideia ter sido bem acolhida pela câmara municipal de lisboa cml e pela associação portuguesa de editores e livreiros apel caso a candidatura tenha sucesso está prevista a elaboração de um programa extenso de actividades para o ano de 2013 associadas à promoção do livro e da leitura o embaixador português junto da unesco adiantou que a candidatura de lisboa ficou definida após encontros recentes entre antónio costa presidente da cml e paulo teixeira pinto presidente da apel a iniciativa capital mundial do livro foi lançada pela unesco em 2001 com madrid desde então a organização nomeou as cidades de alexandria egipto nova deli Índia antuérpia bélgica montreal canadá turim itália bogotá colômbia amesterdão holanda beirute líbano ljubljana eslovénia e buenos aires argentina fonte portal do cidadão unesco g h maria cristina garay andrade monte grande buenos aires argentina 5 de fevereiro de 2010 top 2009 2010 literatura filosofÍa jornalismo a revista eisfluências parabeniza a nossa prezada correspondente na argentina escritora poeta e jornalista maria cristina garay andrade pelo honroso 21º lugar dos 100 que merecidamente lhe foi atribuído veja em http www.talentseekers.net/top4detalle.php?esphacat=7&esphase=1 pagi_pg=3

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eisfluências fevereiro 2010 07 o cristo por carmo vasconcelos hoje lendo uma crónica do pe francisco agamenilton damascena o cruxifico do haiti in http www.prefacio.net/index.php?view=detalhesartigo&codigo=2332 ­ referindo-se à imagem crucificada do cristo que se mantém erecta e incólume após a derrocada da igreja sacre coeur du tugeau no haiti veio-me à memória um caso verídico que consta do meu romance o vértice luminoso da pirâmide escrito por mim há cerca de 9 anos salvas as devidas proporções na comparação de ambas as catástrofes mas tendo em conta que nós seres humanos somos um microcosmo do macrocosmo e também que como disse hermes trimegistrus o três vezes sábio três vezes grande como é em cima é em baixo/assim como no céu é na terra não posso furtar-me a associar a ínfima semelhança no caso que reconto agora para vós foi o que aconteceu uma noite quando jorge possesso de ciúme resolve alvejá-la com uma lindíssima peça de arte indígena frágil porque feita de um tipo de massa semelhante ao barro tinha-lhe sido oferecida pelo irmão vitor que a trouxera do brasil e carmen gostava imenso dela era um crucifixo grande pintado à mão onde pendia curvado o cristo agonizante carmen desviou-se e a peça espalhou-se pelo chão feita em minúsculos pedaços cega pela brutalidade do marido pelo desrespeito por seu irmão e por ela própria pelo sacrilégio e heresia contra a imagem sagrada carmen perdeu as estribeiras e enquanto houve fragmentos palpáveis daquilo que tinha sido o símbolo do sacrifício de cristo a sua mão como que movida pela mão divina ultrajada fez deles projécteis e com uma fúria que desconhecia possuir uma fúria feita de muitas fúrias contidas foi-os arremessando a esmo contra a cabeça o corpo as pernas daquele homem que a apunhalava nos sentimentos mais profundos ­ como se pretendesse assim destruir de vez o seu carácter aberrante e só parou quando naquele chão não havia senão migalhas de barro e pó com elas se misturava volátil invisível uma outra poeira de argila esboroada ­ massa de mulher doce pacífica e paciente a desfazer-se aos poucos para dar lugar a uma mulher agressiva descontrolada e vingativa mas carmen ouviu a voz dessas poeiras invisíveis elas falaram-lhe ­ cuidado mulher teu homem não há-de melhorar nunca tu é que sem dares conta te vais degradando te igualando a ele os indícios eram claros carmen tomou consciência dessa voz sapiente e jurou a si própria não mais se deixar arrastar cegar ao ponto de vir a dar por si moldada do mesmo barro sujo e lamacento curiosamente passadas semanas aquando de limpezas maiores carmen descobriu num canto atrás de um móvel qual relicário oculto a cabeça intacta do seu cristo que parecia dizer-lhe como vês carmen continuo aqui facto verídico reportado ao ano de 1965 e excerto do romance da autora o vértice luminoso da pirâmide que pode ser lido em e-book em http www.delnerobookstore.com/bibliotecas_virtuais/carmo_vasconcelos carmo vasconcelos nasceu em lisboa onde reside tradutora e revisora literária de várias obras de autores americanos ingleses e búlgaros é poeta escritora declamadora e conferencista autora de vários prefácios tem 1 livro de poemas impresso geometrias intemporais e 9 e-books incluindo poemas sonetos e romance É membro da associação portuguesa de poetas onde já fez parte dos corpos directivos e foi membro de júri de jogos florais pertence a poetas del mundo é representante da língua portuguesa na revista destaque do mural dos escritores gerente do grupo ecos da poesia e patrono da academia virtual sala de poetas e escritoresavspe directora cultural da revista eisfluências saiba mais em http carmovasconcelos.spaces.live.com e http carmovasconcelosf.spaces.live.com teresa de calcutÁ humberto rodrigues neto quando se vê a pobreza judiar e espezinhar tanta alma desvalida que nem na ermida encontra a paz de um lar onde aquietar cada agressão sofrida de alma partida fica-se a pensar como abrandar tão espinhosa lida dessa sofrida grei a nos buscar e a suplicar o bem de uma guarida é nesse instante triste que nós vemos que pouco temos pra doar que os valha ­ mera migalha com que os socorremos É quando o cristo o angelical rabi doa de si as graças que amealha e espalha outras teresas por aí são paulo-brasil «a obra do poeta » antónio boavida pinheiro na obra do poeta existe sempre a sensação de estar incompleta por mais que se esforce faça ou tente a vida é limitada curta e incerta tocar os sentimentos algo ingente quão excessiva ambição é sua meta escrever em rima ou não o quanto sente e se uma vez ao lê-lo em nós desperta o sentir de um momento plasmado em algo especial e tão diferente daquilo que é vulgar e consumado algo inesquecível porque é arte se tal for alcançado simplesmente não lamente o poeta quando parte lisboa-portugal divulgação de mercêdes pordeus

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08 eisfluências fevereiro 2010 em 1918 reinaldo ferreira publica em a manhã um inquérito à mendicidade fez-se fotografar mal barbeado e andrajoso de mão estendida e o público convenceu-se de que o repórter fizera de facto vida de mendigo mas salvo o retrato era tudo inventado incluíndo os 47 centavos que lhe teria rendido esta incursão na indigência neste mesmo ano volta à carga em o século com o suposto assassinato de uma estrangeira perpetrado pelo respectivo marido numa pensão de lisboa desta vez auxiliado por stuart de carvalhais vai ao ponto de pôr um quarto da dita pensão em pantanas e de espalhar sangue de galinha pelo aposento e a encerrar o ano de 1918 recolhe as últimas palavras do presidente sidónio pais assassinado na estação do rossio morro eu mas salva-se a pátria a verdade é que não presenciou o sucedido e ao que parece o estadista tombou sem ter tido tempo de dizer seja o que for reinaldo ferreira parte em 1920 para paris ao serviço da filial francesa da agência americana que fora fundada pelo escritor brasileiro olavo bilac pelos finais do ano seguinte já deixara esta empresa e radica-se em barcelona com a família É aqui que nasce edgar reinaldo que depois será o poeta reinaldo ferreira filho em 1926 está de novo em portugal fixando-se agora no porto e escrevendo simultaneamente para o abc e para o primeiro de janeiro É em março desse ano que se dá em lisboa o célebre assassinato da corista maria alves estrangulada num táxi e lançada morta para a sarjeta baseando-se em anteriores crimes congéneres e na intriga de um romance espanhol reinaldo aventa nos jornais que o culpado é o ex-empresário da vítima augusto gomes e o espantoso é que acerta veio a falecer em lisboa em 4 de outubro de 1935 num prédio do actual largo de s.carlos se como jornalista e não obstante os seus múltiplos talentos reinaldo ferreira merece óbvias reservas já a sua inspiração torrencial e até as acidentadas circunstâncias da sua biografia fazem dele uma das nossas mais fascinantes figuras da primeira metade do século xx reinaldo ferreira iniciou a sua carreira jornalística aos doze anos de idade e foi desde os vinte até à sua morte considerado o maior repórter português reinaldo ferreira repÓrter x reinaldo ferreira filho ­ poeta por carmo vasconcelos repórter x é um pseudónimo de reinaldo ferreira nascido em lisboa em 10 de agosto de 1897 foi repórter jornalista poeta dramaturgo e realizador de cinema imaginou entrevistas com mata hari e conan doyle enviou reportagens da rússia sem nunca lá ter posto os pés criou um dos primeiros detectives de gabinete da literatura policial deu forma a uma galeria interminável de heróis de folhetim fundou jornais realizou filmes previu ao jeito de júlio verne como seriam lisboa e o porto no ano 2000 reinaldo ferreira r de realidade e f de ficção nasceu há mais de um século os 38 anos da sua breve passagem pelo mundo foram vividos à beira do delírio com a morfina a ajudar um tipógrafo distraído inventou a alcunha que o iria consagrar repórter x na redacção de a capital a mãos com a cobertura da recém-deflagrada primeira guerra mundial garibaldi falcão jornalista da velha guarda interpelava um jovem aprendiz de 16 ou 17 anos o menino já fez incêndios interpretando mal a pergunta e julgando que o tomavam por pirómano reinaldo ferreira retorquiu com um indignado não senhor foi a primeira reportagem do futuro repórter x um fogo posto na rua de d estefânia em lisboa mas como a realidade se obstinava em lhe negar assuntos palpitantes só lhe restava inventar e inventou há que dizê-lo a torto e a direito ainda hoje será difícil determinar todas as suas reinaldices para usar a expressão posta a correr pelos que lhe iam desmascarando as farsas ele porventura consciente de que essa pulsão para confundir factos e ficções era afinal o sinal distintivo do seu génio peculiar retorquia com um neologismo da sua própria lavra reporterxizar em1917 com 19 anos arrepia os lisboetas com o crime tão tenebroso quanto inexistente da rua saraiva de carvalho que metia malfeitores empuçados um presumível cadáver e um vilão apropriadamente designado como o homem dos olhos tortos a história veio a lume no jornal o século e a coisa atingiu tais proporções que o jornal achou prudente revelar o embuste mas o folhetim finalmente assumido como ficção prosseguiu até ao seu desenlace e não tardou a transformar-se em livro o mistério da rua saraiva de carvalho que o grande cineasta josé leitão de barros tentou mesmo adaptar ao cinema mínimo sou mas quando ao nada empresto a minha elementar realidade o nada é só o resto reinaldo ferreira filho de seu nome completo reinaldo edgar de azevedo e silva ferreira nasceu em barcelona em 20/3/1922 e viveu em moçambique entre 1941 e 1959 data da sua morte motivada por um cancro colaborou em revistas musicais foi autor de algumas letras de canções que obtiveram êxito e participou em teatro radiofónico foi um dos editores da folha de poesia msaho lourenço marques 1952 tendo ainda colaborado em publicações como a voz de moçambique capricórnio ou paralelo 20.

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eisfluências fevereiro 2010 09 divulgando pouco a sua obra poética a edição póstuma de poemas surpreendeu os leitores metropolitanos que encontraram num autor quase anónimo alguns dos mais belos poemas da literatura portuguesa parecendo ter sido o zelo por uma vida retirada e a obsessão da perfeição as explicações plausíveis para que não tenha publicado em vida nenhum volume incluída numa linhagem que passa por camilo pessanha cesário verde ou fernando pessoa e que se distingue a nível da forma pelo culto do rigor por um expressivo trabalho métrico rítmico e lexical do verso a poesia de reinaldo ferreira para fernando j b martinho só muito raramente reflecte os valores do que os estudiosos das literaturas africanas de língua portuguesa consideram a moçambicanidade devendo antes ela ser enquadrada no âmbito da poesia portuguesa pela situação de inequívoco herdeiro do primeiro e do segundo modernismos que é a do poeta cf martinho fernando j b op cit 1996 p 452 o título que projectara para o seu primeiro livro de poemas um voo cego a nada constitui uma chave para a interpretação de um pensamento obsidiado pela suspeita da completa sem-razão das coisas e do mundo apenas compensada numa expressão poética rigorosa nítida altiva sabiamente contida por vezes quase majestosa na sua dignidade cheia de pudor com um quase omnipresente recurso à auto-ironia sempre suspeitosa de um demasiado deixar-se comover cf introdução anónima incluída na primeira edição dos poemas 1960 a sua poesia cavalo de várias cores quero um cavalo de várias cores quero-o depressa que vou partir esperam-me prados com tantas flores que só cavalos de várias cores podem servir quero uma sela feita de restos dalguma nuvem que ande no céu quero-a evasiva nimbos e cerros ­ sobre os valados sobre os aterros que o mundo é meu quero que as rédeas façam prodígios voa cavalo galopa mais trepa às camadas do céu sem fundo rumo àquele ponto exterior ao mundo para onde tendem as catedrais deixem que eu parta agora já antes que murchem todas as flores tenho a loucura sei o caminho mas como posso partir sózinho sem um cavalo de várias cores santos por victor jerónimo cada vez mais o ser humano se volta para causas humanísticas de ajuda ao próximo e se preocupa a cada dia com o sofrimento alheio não estou a escrever sobre as grandes organizações de ajuda humanitária mas sim sobre os mais simples e anónimos dos mortais que se deslocam a hospitais e similares para prestar ajuda aos que necessitam de ajuda moral espiritual e não só tenho-me apercebido agora e com frequência desses santos que vivem à nossa volta anonimamente e que só descobrimos por mero acaso ou se deles precisamos e quando precisamos são eles que nos descobrem senão só acidentalmente é que nós os descobrimos eles acercam-se de nós suave e cautelosamente tem de ser cautelosamente porque há os que deles necessitam mas os rejeitam orgulhosos e nos dão palavras de carinho de conforto e de ajuda espiritual para um doente debilitado e que já deixou de acreditar na própria vida esses santos são um bálsamo para o seu coração atormentado se procurar saber quem são eles escudam-se e procuram manter-se no anonimato honra e glória para eles é o que eu desejo recife 01 de jan 2010 victor jerónimo director da revista eisfluências que estranha a nossa verdade que estranha a nossa verdade Às vezes partida a meio minha ilusória unidade pensando sinto pensei-o mas quando penso o que penso estou-o pensando também na vertigem não me venço e recuo e vou além daquilo p ra que há defesa feliz quem pode parar onde a certeza é certeza e pensar é só pensar meu quase sexto sentido por detrás da névoa incerta da bruma desconcertante há uma verdade encoberta que é por trás da névoa incerta intemporal e constante oh névoa oh tempo sem horas oh baça visão instável que mal meus olhos afloras em vão transmutas descoras meu olhar é infatigável quero saber-me quem sou para além do que pareço enquanto não sei e sou nuvem que a mim me ocultou ai meramente aconteço com menos finalidade de que uma folha caída na boca da tempestade porque ele é na verdade morte a caminho da vida e eu não sei donde venho nem sei sequer p ra aonde vou rompa-se a névoa encoberta quero saber-me quem sou muito seria ainda de esperar deste inspirado poeta português mas para tanto lhe foi pouca a vida pesquisa e composição de carmo vasconcelos subsídios wikipédia e infopédia

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10 eisfluências fevereiro 2010 a vida nas prisÕes penitenciÁrias femininas por elizabeth misciasci há várias formas de relatar como é a vida numa penitenciária feminina por serem casos isolados dentro de um sistema penitenciário variado me possibilitou enquanto pesquisadora escritora e posteriori presidente do projeto zap conhecer ouvir e perceber a existência não só no que trata a sobrevivencia mais o cotidiano e parecer sob a ótica de cada uma delas sem dúvida alguma posso afirmar que a sobrevivência e a posição destas se divergem assim sendo a vida das mulheres na condição de pessoa presa não é vista vivida nem sentida de forma similar.diante de um sistema prisional construído por homens e para homens as mulheres enfrentam situações específicas e graves neste quadro onde as condições ainda são pouco discutidas pelo poder público e praticamente desconhecidas pela sociedade em geral uma imensa fatia tenta sobreviver em tese as mulheres que estão aguardando julgamento são as que enfrentam as piores condições a superlotação e os relatos de maustratos são mais freqüentes a assistência médica e jurídica é precária e quase não há trabalho remunerado que lhes permita obter a remição de pena onde três dias trabalhados dão remissão a um dia de cumprimento na pena sem nenhuma pretensão nem regionalismo posso contar recontar os milhares de fatos relatos desabafos e confidências que testemunhei talvez pelo próprio vínculo de amizade que inevitavelmente criei e crio com muitas a maioria delas sempre tive e tenho maior acessíbilidade aos acontecimentos cotidianos assim também se dá nas variadas formas que estas mulheres encontram para demonstração ou ocultação de sentimentos e a maneira como algumas driblam e sobrevivem dia a dia encarceradas.pelo fato de termos muitas mulheres detidas em regiões diferentes onde a cultura a formação familiar a formação educacional a religião a condição de maternidade ou não as muitas estrangeiras as que possuem relações afetivas fora dos cárceres as casadas as que são laranja as que são da turma do vai pra onde o vento sopra as do crime e as do crime mais integrantes de algum partido comandos fazem com que cada qual passe suas experiências de forma exclusiva sendo totalmente pareceres pessoais de qualquer forma e sem rótulos quase sempre é assim há as que preferem o cárcere e se apegam a este como de fato sua casa estas não demonstram desconfortos e quando podem relatam não quero sair daqui há as que morrem a cada dia não conseguem conviver com o cotidiano apenas suportam em silêncio as medidas disciplinares pesadas as violências praticadas entre parceiras as violências sofridas e praticadas por agentes a falta de emprego ou a exploração a alimentação precária e o difícil período menstrual há as que fingem que há uma multidão do lado de fora das muralhas esperando que saiam mais na verdade estas há muito foram literalmente abandonadas há as que dizem estou bem melhor do que na rua se comparada a vida que levavam estas agradecem as amigas a cama a parceria a comida e a pousada há as meticulosas que passam o tempo arquitetando e colocando em prática seus bárbaros projetos sejam estes para vingança pessoal ou de parceiras há as que encontram na cadeia seu par e vivem o tempo no cárcere alimentadas de amor ou de muita briga que chegam as vezes aos extremos e até fatais há as que trabalham tanto que só querem chegar em suas celas no final da tarde para dormir pois assim o tempo passa mais rápido há as que mães tiveram nos cárceres seus filhos e por estes sofrem do início ao fim há as que gostam da denominação ela é bandida e há as que se envergonham de estar ou terem estado nos cárceres sendo o inferno ou o conformismo diante de uma única opção o fato é que as condições quase sempre são desumanas e cruéis seja a visão de cada uma reflexo de experiências boas ou ruins vividas nas ruas é certo que não são tratadas como mulheres por mais que se esforcem os gestores de cada prisão para amenizar problemas e proporcionar boa permanencia carcerária não existem unidades criadas para aprisionar o feminil nem tão pouco manter de forma que atenda as necessidades que o sexo feminino exige assim desconhecedoras dos direitos onde uma parcela razoável adentrou muralhas vindas de um submundo o pouco muito vezes degradante é o tudo que ainda resta contudo um fator é comum 99 sofrem literalmente a nível nacional o latente abandono prisão feminina e sociedade by elizabeth misciasci zap is licensed under a creative commons atribuição-uso não-comercial-vedada 2.5 brasil license elizabeth misciasci jornalista humanista escritora pesquisadora presidente do projeto zap embaixadora universal da paz no âmbito do círculo universal dos embaixadores da paz cercle universel des ambassadeurs de la paix suisse/france membro correspondente da governadoria da inbrasci no estado de são paulo insti bras culturas internacionais membro efetivo avspe prêmio frente nacional dos direitos da criança honra ao mérito clube brasileiro da língua portuguesa título humanista honoris causa em língua portuguesa em razão da excelência de sua obra a favôr dos direitos humanos delegada para e estado de são paulo brasil do cen intercâmbio brasil portugal coordenadora de imprensa do proyecto cultural sur paulista 55 xx 11 9677.9428 e 55 xx 11 6461 1907 http www.eunanet.net/beth/index.php http reticencias.blog-se.com.br/blog http www.revistazap.org correspondente pelo brasil da revista eisfluências a mente que se abre ao conhecimento jamais retorna ao tamanho original einstein

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eisfluências fevereiro 2010 11 a busca 1 vitor figueiredo frc qualquer caminho é apenas um caminho e não constitui insulto algum para si mesmo ou para os outros abandoná-lo quando assim ordena o seu coração olhe cada caminho com cuidado e atenção tente-o tantas vezes quantas julgar necessárias então faça a si mesmo e apenas a si mesmo uma pergunta possui esse caminho um coração em caso afirmativo o caminho é bom em caso contrário esse caminho não possui importância alguma carlos castañeda ao longo do nosso percurso e busca pessoais conhecemos várias pessoas que buscam a espiritualidade com posições muito diferenciadas sem qualquer intenção de as rotular ou criticar podemos arbitrariamente agrupá-las em quatro grandes estágios diferentes por onde percorrem e nós o fizemos também mais ou menos transitoriamente o indefinido e tortuoso caminho da luz da verdade e de deus talvez a definição destas situações sirvam para alguma reflexão do leitor e de outros interessados neste assunto 1 ­ o intelectual ­ cultural ­ racional É o grupo de pessoas que isoladas independentes e bastante dialécticas parecendo até diletantes do conhecimento não aderem a qualquer instituição filosofia ou religião procuram descobrir a coerência da vida o sentido da existência e o mistério do universo e da criação através da sua auto-suficiência intelectual e racional sem qualquer compromisso com dogmas ou verdades estabelecidas relativas como sempre elas são e não acreditando em deus são os livres-pensadores da espiritualidade honesta e esforçadamente convencidos de que esgotando a pirâmide do conhecimento daqueles que singraram a via dolorosa na arte na filosofia na ciência na sociologia no humanismo etc conseguirão através dos livros dos conceitos e das ideias pela análise e reflexão chegar à verdade e a uma concepção de deus este grupo chega normalmente quase no final desta via sacra já desiludido e gasto à literatura do insólito do paranormal do mentalismo positivo panaceia exotérica não esotérica que geralmente estimula para uma aventura cultural mais séria e aprofundada e mais tarde para portais ocultos mais profundos É a fase napoleon hill rhine dale carnegie harold sherman joseph murphy vernon howard lobsang rampa jacques bergier richard bach og mandino u s andersen saint-exupery depois paul brunton castañeda etc 2 ­ o religioso tradicional É o grupo de indivíduos que simplesmente pertence e mais ou menos pratica consoante o seu grau de convicção satisfação ou necessidade uma religião antiga consagrada e tradicional bastando-lhe a sua fé simples em deus a autoridade dos instrutores e a doutrina rigidamente dogmática ou não porém indiscutível e isenta de qualquer dialéctica geralmente consideram-na verdadeira e superior a qualquer outra opção ou via espiritual como exemplo as igrejas cristãs o judaísmo o budismo o catolicismo as igrejas ortodoxas etc 3 ­ o espiritualista ou religioso nÃo tradicional É aquele grupo de pessoas que não se identifica com as vias intelectual-racional religiosa tradicional ou qualquer outra e segue uma das numerosas sendas do conhecimento e aprendizado mais ou menos religioso espiritualista e/ou filosófico opcionais em fundações associações fraternidades igrejas e religiões não tradicionais que se caracterizam principalmente por sua fundação relativamente recente sem alicerces num grande mestre ou avatar da humanidade reconhecido sem egrégora termo profundo difícil de definir aqui e que foram criadas por um ou mais indivíduos e por sua inspiração filosofia ou crenças pessoais É o caso das testemunhas de jeová igreja mórmon racionalismo cristão meditação transcendental ordem do graal análise transaccional igreja da unificação rev.º moon fé bahai igreja messiânica logosofia neo-sannyas de rajneesh osho igreja japonesa seichono-iê espiritismo kardecista círculo esotérico da comunhão do pensamento eubiose umbanda candomblé escola de khrisnamurti de gurdjieff a fraternidade rosacruz de max heindel antroposofia teosofia etc todas variam nos métodos e ensinamentos e perseguem o mesmo objectivo básico do encontro com deus e do aperfeiçoamento dos filiados através de estudos e práticas intrínsecas 3 ­ o mÍstico ­ esotÉrico É aquele grupo que não se identifica com nenhum dos outros caminhos não aceita a fé pura e simples nem somente a busca intelectual-racional por onde provavelmente transitou nem mesmo a aceitação de métodos espiritualistas não fundamentados na experiência e comprovação pessoal deseja e pratica o seu encontro individual com deus o conhecimento de si mesmo e a união pessoal com a mente divina pela harmonização e meditação e ainda deseja alcançar algum dia um estado superior de consciência ­ a consciência cósmica congregam-se em organizações ou ordens antigas ritualísticas esotéricas iniciáticas e tradicionais são as pessoas que buscam deus directamente sentindo-o imanente e panteisticamente dentro de si e em todas as coisas e que procuram o aperfeiçoamento da personalidade do ser interior e a evolução da sua consciência pessoal percebendo-a ligada tanto a deus quanto aos semelhantes embora com métodos e práticas diferentes exemplificamos os adeptos da maçonaria da ordem rosacruz ­ amorc do movimento sufi internacional etc cabe dizer aqui no entanto que certas religiões movimentos ou instituições são profundamente místicas como o budismo que não é uma religião o zen o yoga o hinduísmo etc estas classificações e generalizações são arbitrárias também ocorre que as pessoas transitem de um grupo para outro de uma para outra instituição situando-se em mais de um grupo ou organização ao mesmo tempo ou até mesmo se desiludam de determinada senda que abandonam temporária ou definitivamente às vezes nem tentando qualquer outra senda alternativa É oportuno referir também que o facto de uma pessoa se situar dentro de qualquer dos grupos ou instituições não faz dela um autêntico espiritualista religioso ou místico em nosso percurso pessoal pelas vias citadas na busca da verdade e de deus encontrámos casos particulares de pessoas que sem as julgarmos poderíamos definir se necessário na nossa óptica particular como ­ os diletantes que apenas superficialmente circulam pelos corredores externos sociais das organizações não comprometidos com qualquer desejo de transformação interior e de aperfeiçoamento.

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12 eisfluências fevereiro 2010 ­ os escapantes que apenas pretendem fugir temporariamente aos seus problemas psicológicos e existenciais não buscando qualquer conhecimento profundo mas somente coragem para resolvê-los junto dos mais preparados ­ os fanÁticos senhores soberanos ortodoxos e donos da verdade com quem o diálogo é inútil os quais policiam por sua conta e iniciativa aqueles que consideram menos sinceros e dedicados julgando e discriminando severamente os companheiros de trilha ­ os saltimbancos que pulam de instituição em instituição continuamente já que nenhuma lhes serve procuram o êxito fácil resultados imediatos evolução acelerada e compensações a breve prazo que na realidade não existem ­ os oportunistas que buscam situações de privilégio liderança distinção ou vantagens materiais a troco de um apostolado e aprendizado fictícios e breves ­ os inocentes aqueles que buscam idealmente encontrar nos portais das organizações ao entrar companheiros sábios já iluminados e de grande desenvolvimento moral com conhecimento e sabedoria adiantados quase divinos e que em breve tempo se chocam e desiludem ao reconhecê-los quase ou iguais a eles em seu aprendizado e limitações humanas ­ os que buscam poder aqueles que se filiam às organizações para receber a breve prazo forças segredos técnicas e poderes metafísicos especiais para dominarem o semelhante e obterem êxitos rápidos como o prémio maior da lotaria a promoção rápida no emprego ou o amor da vizinha com excepção dos inocentes que às vezes persistem todos estes indivíduos se auto-eliminam cedo pois facilmente compreendem que nenhuma das vias espiritualistas por mais simples que seja serve seus propósitos de apego de hedonismo de egocentrismo ou materialismo e só muito mais tarde ou nunca entenderão que o importante é o conhecimento de si mesmo a descoberta e encontro com deus em seu interior a consciência de que a única chave do segredo da transformação é o amor e que o ego é a causa de todas as misérias dores e fracassos e dos ódios e conflitos humanos neste mundo continua na próxima revista do e-book do autor a vista da pirâmide 2006 e publicado no jornal do incrível nº 391 de 12/5/87 vitor figueiredo frc g h

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eisfluências fevereiro 2010 13 internet o reduto dos mestres tere penhabe todo internauta é um mestre em potencial claro que para todas as afirmações que fazemos deve ser reservado o benefício da tolerância para as exceções à regra mas nesse particular há cada vez menos exceções muitos são os que gostam de pregar a suposta verdade acima de qualquer suspeita desses muitos todos conhecem o caminho sabem a direção que seus companheiros de caminhada devem tomar dentro e fora da internet há uma disseminação acentuada das mensagens de auto-ajuda por esses labirintos virtuais sobejam sabedoria e bom senso ou numa expressão mais explícita superabundam transbordam aos borbotões escapam pelo ladrão é o excesso porém o ideal é ler essas mensagens de autores que não conhecemos que nunca vimos ou então dos que já se foram para outro plano mas sabemos que deixaram um currículo apreciável porque é triste ver os contemporâneos falando em sinceridade em segredos da vida em regras comportamentais etc etc e no entanto eles próprios seguirem esmurrando ponta de faca querendo fazer valer a própria vontade como se ela fosse a lei e isso não é recente como nada no mundo é recente obviamente minha avó já usava muito esse dito popular ele enrola o rabo senta em cima e fica a falar dos rabos alheios o que mais preenche essa pauta de pregação é a mentira a falsidade a carência do ser humano de ser verdadeiro de estar aberto ao amor mas todo pregador deveria acrescentar no final da sua explanação outro dito popular atribuído supostamente ao clero façam o que eu digo mas não façam o que eu faço ou trocando em miúdos e atualizando o dito eu posso passar por cima de todo mundo como um rolo compressor para conseguir o que eu quero você não tenho um fascínio especial pelo ser humano por isso gosto de ler tudo que me chega às mãos nem sempre vou até o final claro mas às vezes isso se torna inviável porque chega a dar mal estar ver tanta prosopopéia de quem realmente a gente sabe que faz tudo aquilo que está aconselhando a que não façam utilizando-me do vernáculo do meu rincão é jogo duro analisando com cautela concluo muitas vezes que a inspiração dos pregadores vem da dificuldade de aceitarem um não como resposta pura e simplesmente se investigarmos todos eles tem algum não no currículo ou embaixo do tapete se preferirem como alguém ousou contrariá-lo então ele senta-se à frente do computador e martela as regras visando é claro o seu próprio benefício e não um conceito realmente imparcial adquirido com experiências e observações da vida eu que durante muito tempo e ainda hoje às vezes sou um muro de lamentações poético no que concerne a não ser amada também disse muitas vezes e reafirmo não é porque eu não fui amada que o amor não existe e todo mundo foi amado é claro quando se lê não fui amada leia-se não fui amada como eu queria ser se não ouço eco para os desejos do meu coração isso não equivale a afirmar que meu coração está certo e é digno de piedade ele pode apenas estar batendo no peito de uma doidivana que não tem noção nenhuma da vida apesar dos cinquenta e tantos no lombo idade não tem nada a ver com maturidade tem gente que morre com mais de oitenta tão infantil e ridículo para a idade como quando tinha oito sim porque querer as coisas na marra aos oito anos é compreensível mas perto dos oitenta dá o que pensar não quero me tornar mais uma na rede mas tenho visto se falar insistentemente em abrir o coração para o amor mas pelo que se passa à minha volta eu acho que o que se quer dizer na verdade é abrir o peito mesmo a talho de navalha com ajuda de martelo por conta da caixa torácica pra enfiar lá dentro do peito amado a sirigaita que não está sendo correspondida valha-me deus outro dia li uma entrevista onde a moça disse que tinha muita merda circulando na internet fiquei chocada com o que li e achei falta de respeito aquela afirmação porém mal comecei a abrir as mensagens mentalmente pedi desculpas à moça da entrevista ela estava certa tem muita merda circulando aqui sim e o que é pior às vezes é na cara da gente que jogam santos 02/10/2009 www.amoremversoeprosa.com tere penhabe santos ­ sp licenciada em letras 1986 várias participações e premiações em concursos literários referente à poesias e crônicas diversas publicações em antologias poéticas e revistas literárias impressas primeiro livro publicado amor em verso e prosa vol i em agosto 2009 página pessoal www.amoremversoeprosa.com os farsantes desconfia da tristeza de certos poetas É uma tristeza profissional e tão suspeita como a exuberante alegria das coristas mário quintana

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14 eisfluências fevereiro 2010 onde anda o meu sorriso rosa pena não sei precisar o dia em que tudo começou a parecer déjà vu mas sem as cores vivas da aquarela de mirò passei a ver meio desbotado maria rita eu já vi é quase a elis mas sem o vermelho da paixão não é pimenta original apenas genérica a estrela dalva não mais brilhou no céu nem a pioneira nem a oliveira o golden room do copacabana palace ficou chapeado e quebra os critérios com alguma tati ou quem estiver no hit-parade um alguém tão parecido com outro que eu juro que já vi a plataforma apresenta as brancas de algum sargentelli não aprovado pelo inmetro e tenho certeza que o di cavalcanti ficaria possesso algumas gostosas pretendentes ao bbb que eu juro que já vi dentro e fora da tv onde será que a morena d angola e a severina chique-chique de agora fazem escovas progressivas saudades da nega do cabelo duro essa eu nunca mais vi a feira de são cristóvão passou a tocar funk feito por um alemão que não ganhava um puto de um euro agora ganha espaço até no jô soares e os pagodeiros cujos pagodes inéditos eu já ouvi em algum lugar no passado e ouvirei muitas vezes no futuro que usam e abusam da água oxigenada feita pro leite nos cabelos qualquer hora a loreal vai comprar a parmalat nata com blondor eu nunca vi mas a punição em formato redondo e em forno a lenha eu já vi sim e muitas vezes não sei precisar a hora em que meu sofá tão bonito ficou com o jeito de vencido tanto quanto eu que a cortina do meu quarto assumiu o perfil da velha casa de meus pais na data em que foi vendida cheirando a mofo e carcomida também quem me mandou não comprar as persianas luxaflex aquela que impede ácaros meus pais dormiram com aracnídeos mas sem dalmadorm que os sapatos do mr cat ficaram com a cara de di santinni que tem a cara de qualquer pisante que já vi eu adoro sapatos masculinos -que pena que o coco não se abre mais com facão quanta carrocinha de fast coco bem higiênicas e a água com gosto de soro que o ponto de táxi não é mais parágrafo pois o espaço é da van dois pontos a cada cem metros que a nossa fome passou a ser medida a quilo estou com uma fome de 400 gramas mas pão a metro eu já vi e vejo há um tempão É moda por que não criam bom senso em litro não sei precisar o minuto em que meu grito de paz foi substituído pela vontade que o filme tropa de elite ganhasse o oscar e que não mais chorei por passarinhos presos em gaiolas será que agora cavalo-marinho já nasce no jockey club mas eu queria realmente descobrir o exato segundo em que perdi o encantamento do meu olhar acho que foi no dia em que não votei pro cristo redentor ser uma das sete novas maravilhas do mundo nunca consegui achar ele lindo e não gosto de concurso ou eleição tem jeito de roubalheira quantas eu já não vi e afinal a verdadeira maravilha do mundo não deveria ser o sol nosso de cada dia sem envelhecer danado esse meu calcanhar que teima em girar pro passado para que eu reveja em tecnicolor minha esperança verde rugido onde anda o meu sorriso juro que déjà vu palanque haiti muller barone fiquei em dúvida se escrevia ou não sobre o terremoto zilda arns brasileiros anônimos civis e militares gente da onu das ongs com todo o respeito todos os dias morrem zildas pelo mundo todos os dias terremotos matam pelo mundo se eu não fosse naturalmente cabreiro quase paranoico começaria a crer que o mundo está mudando está ficando bom ou menos mau porque não captei nada de interesses escusos por trás de tanta comoção e solidariedade alguém mais canalha do que eu ­ ou um crédulo de incomensurável proporção pode dizer que é simples ajuda humanitária mas então chegou muito tarde a mim parece mais extrema-unção precisou um terremoto para o mundo saber que o haiti precisa de ajuda ajuda não tropas a turma lá se mata desde a primeira rebelião de escravos e sua história sempre foi repleta de golpes ditadores e golpistas autoproclamados imperadores mais ou menos como fez salah edddine ahmed bokassa ou imperador bokassa i na república centro africana bokassa comia gente e papa doc lutou contra a malária e contra o povo com seus tonton macoutes a polícia especial mais assassina do mundo depois veio o baby doc tão tirano e ladrão quanto o pai foi deposto e vive bem obrigado em território francês e os ex-colonizadores se recusam a extraditá-lo e a devolver seus milhões de dólares roubados do povo haitiano viram só falei deles falei tanto que quase esqueço de algumas coisas que tinha separado para comentar os guarani kaiowá são os índios brasileiros que mais sofrem com mortes violentas no ano passado ocorreram 42 assassinatos e 34 casos de suicídio entre os indígenas claro que é totalmente desnecessário relatar os motivos segundo o instituto de pesquisa econômica aplicada ipea ainda existem 43 milhões de brasileiros abaixo da linha da pobreza o déficit habitacional no país é de quase 8 milhões de moradias e os dados são de 2006 ou seja estão desatualizados em quatro anos mesmo diminuindo sensivelmente a mortalidade infantil de crianças entre 0 e 1 ano de idade no brasil é de 20 crianças em cada mil nascidas em abril de 2009 enchentes nas regiões norte e nordeste do brasil deixaram em menos de um mês 19 mortos e 186 mil desabrigados vendavais fizeram estragos em santa catarina em setembro de 2009 e por aí vamos pense no haiti reze pelo haiti o haiti é aqui o haiti não é aqui seja herói seja marginal muller barone barone é escritor e editor da revista palanque marginal divulgação de rosa pena quer ajudar o haiti faça sua doação nessas instituições bancárias embaixada do haiti no brasil banco do brasil agência 1606-3 conta corrente 91.000-7 cnpj 04170237/0001-71 cruz vermelha hsbc agência 1276 conta corrente 14526-84

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eisfluências fevereiro 2010 15 momentos de poesia na escola secundÁria sebastiÃo e silva oeiras/portugal por maria ivone vairinho no dia 22 de janeiro pelas 10h30 no auditório da escola secundária sebastião e silva de oeiras realizou-se mais um evento poético dedicado a josé régio numa parceria feliz da escola secundária sebastião e silva antigo liceu de oeiras caso centro de acção social das forças armadas em oeiras e app associação portuguesa de poetas estiveram presentes 48 alunos de 10º ano de escolaridade 14 15 anos acompanhados por duas professoras e coordenadora dra teresa carvalho do caso estiveram presentes a responsável pela acção social dra dulce mendes e utentes da app estiveram aurélio tavares gabriel gonçalves e magnólia filipe da uso convidada felismina medeiros de lemos maria ivone vairinho presidente da direcção da app e professora da uso falou sobre josé régio ­ o poeta e o homem disseram poemas de josé régio esss sara costa vítor marques guilherme sousa carolina henrique ana matos sara becken e tais caso armando santos app aurélio tavares gabriel gonçalves magnólia filipe e maria ivone vairinho o actor jorge sequerra intérprete de o umbigo de régio monólogo de filomena oliveira e miguel real representado no teatro da trindade e no cinearte ­ a barraca deu-nos a honra e prazer da sua presença dizendo dois poemas de josé régio as minhas asas deumas e Ámen dois sonetos de josé régio libertaÇÃo josé régio menino doido olhei em roda e vi-me fechado e só na grande sala escura abrir a porta além de ser um crime era impossível para a minha altura como passar o tempo e diverti-me desta maneira trágica e segura pegando em mim rasguei-me abri parti-me desfiz trapos arames serradura ah meu menino histérico e precoce tu sim que tens mãos trágicas de posse e tens a inquietação da descoberta o menino por fim tombou cansado o seu boneco aí jaz esfarelado e eu acho nem sei como a porta aberta josé régio in poemas de deus e do diabo divulgação de maria ivone vairinho lisboa/portugal Ícaro josé régio a minha dor vesti-a de brocado fi-la cantar um choro em melopeia ergui-lhe um trono de oiro imaculado ajoelhei de mãos postas e adorei-a por longo tempo assim fiquei prostrado moendo os joelhos sobre lodo e areia e as multidões desceram do povoado que a minha dor cantava de sereia depois ruflaram alto asas de agoiro um silêncio gelou em derredor e eu levantei a face a tremer todo jesus ruíra em cinza o trono de oiro e misérrima e nua a minha dor ajoelhara a meu lado sobre o lodo josé régio in poemas de deus e do diabo g h seis trovas de marco bastos bahia/brasil no xadrez grande da vida não ser rei nem ser peão sendo torre resolvida grão-vizir nem grão nem grão coração é mar bravio qualquer luta calmaria iço as velas no vazio só naufrago na poesia amor é desassossego como sei ela sabia ao se ir aceso apego ao chover lá vem maria beijo na nuca cicio uni duni duni tê fogo afago arrepio bom saber seu ponto ge às vezes contos de reis outras vezes da raínha me encanta toda vez mesmo a mesma ladainha já quis ter um sol a pino aprendi essa lição no céu sonho de menino na mão chapa de fogão colaborar com a nossa revista É contribuir para a cultura imprima-a e distribua-a na sua área especialmente em escolas e instituições de apoio social esteja em ligação constante com a eisfluências através do nosso blogue e acesse todas as revistas em http eisfluencias.wordpress.com

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