Revista Mineração & Sustentabilidade - Edição 28

 

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Entrevista Milton Rego analisa o panorama do setor de alumínio reviMstaaimoEid.nJieçurãnaohc2aoo8d..ceoA2mn0o.1b56r Tecnologia Usina Solar Flutuante busca sinergia com matrizes energéticas Comunidade Alubar leva conhecimento a jovens ribeirinhos Siderurgia ArcelorMittal completa dez anos no Brasil Especial O caminho da logística reversa Modelo incentiva a gestão compartilhada de resíduos com foco no reaproveitamento em cadeias produtivas

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CLIQUE Wikipedia CONEXÃO MARÍTIMA Desde o início de junho, os segredos dos oceanos estão acessíveis para qualquer pessoa que tenha acesso à internet. Depois de dez anos e investimento de US$ 400 milhões, a Iniciativa de Observatórios Oceânicos, criada pela Fundação Nacional de Ciência dos Estados Unidos, leva os olhos do homem até o mar. A rede conta com 83 plataformas e mais de 830 instrumentos que trazem dados em tempo real sobre propriedades do fundo e da superfície dos oceanos Atlântico e Pacífico. EXPEDIENTE Diretor-Geral Wilian Leles diretor@revistamineracao.com.br Anúncios / Comercial + 55 (31) 3544 . 0040 comercial@revistamineracao.com.br On-line www.revistamineracao.com.br revista@revistamineracao.com.br Diretor de Relações Institucionais Francisco Stehling Neto francisco@revistamineracao.com.br Editor-Geral Thobias Almeida REG. 12.937 JPMG edicao@revistamineracao.com.br Redação Sara Lira Tacila Belas Bruna Nogueira redacao@revistamineracao.com.br Diagramação e Design Daniel Felipe Revisão Versão Final Distribuição e Assinaturas + 55 (31) 3544 . 0045 atendimento@revistamineracao.com.br Assessoria Jurídica Dias Oliveira Advogados Tiragem 10 mil exemplares Circulação Esta publicação é dirigida ao setor minerário, siderúrgico e ambiental, além de governos, fornecedores, entidades de classe, consultorias, instituições acadêmicas e assinantes. Foto da capa Arte / Can Stock Photo Conselho Editorial Eduardo Costa Jornalista Rádio Itatiaia / Rede Record José Mendo Mizael de Souza Engenheiro de Minas e Metalurgista J. Mendo Consultoria Marcelo Mendo de Souza Advogado Mendo de Souza Advogados Associados Rua Guacuí, 82 . Brasileia Betim . MG - 32.600.456 + 55 (31) 3544 . 0040 | 3544 . 0045 Acompanhe Não são de responsabilidade da revista os artigos de opinião e conteúdos de informes publicitários. /RevistaMineracao @RevMineracao 4 Revista Mineração & Sustentabilidade | Maio . Junho de 2016

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ESTANTE Processos metalogenéticos e os depósitos minerais brasileiros João Carlos Biondi Editora Oficina de Textos Muito utilizado em cursos de graduação e pós-graduação de Geologia e Engenharia de Minas, o livro ganhou uma segunda edição, revisada e atualizada, que incorporou ao conteúdo os desenvolvimentos mais recentes nas pesquisas sobre o tema. Minas a céu aberto: planejamento de lavra Adilson Curi Editora Oficina de Textos Aborda o processo de planejamento da lavra, desde os conceitos básicos de mineração e de projeto, análise da jazida e geometria da lavra, até a determinação de seus limites e sequenciamento, levando em conta aspectos geotécnicos, tecnológicos, econômicos, operacionais e ambientais. Mineração de Carvão, Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável no Sul de Santa Catarina - Uma Abordagem Interdisciplinar Geraldo Milioli e outros Editora Juruá A obra, da área do Direito Ambiental, apresenta 16 capítulos distribuídos em três sessões que apresentam um panorama sobre a produção de carvão em Santa Catarina. Ele contempla o ambiente físico, biótico e socioeconômico e ambiental, relacionado a esta atividade. • Ano: 2015 (2ª Edição) • 552 páginas • R$ 215 • 21 x 28 cm • Brochura • ISBN: 978-857975-168-4 • Ano: 2014 • 232 páginas • R$ 76 • 16 x 23 cm • Brochura • ISBN: 978-85-7975-149-3 • Ano: 2009 • 326 páginas • R$ 94,70 • Brochura • ISBN: 978853622730-6 Revista Mineração & Sustentabilidade | Maio . Junho de 2016 5

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SUMÁRIO revistamineracao.com.br Maio . Junho de 2016 Edição 28 . Ano 5 20 Especial O modelo da logística reversa: Ganhos na ida, economia na volta 10 Entrevista Milton Rego, presidente da Abal, avalia os desafios e as oportunidades do alumínio 46 Comunidade Projeto Catavento, da Alubar, incentiva o ensino no Pará 26 Siderurgia ArcelorMittal chega a uma década de operação no Brasil Seções 7 Editorial 8 Panorama 10 Entrevista 14 Internacional 18 Equipamentos 20 Especial 25 Mercado 26 Siderurgia 30 Tecnologia 34 Cetem 36 Cidades Minerárias 40 Produto Final 42 Ceamin 44 Eventos 46 Comunidade 50 Agenda 6 Revista Mineração & Sustentabilidade | Maio . Junho de 2016 30 Tecnologia Usina Solar Flutuante é promessa de integração energética 14 Internacional Alemanha busca oportunidades na mineração nacional 36 Cidades Minerárias O salto de Araripina com a mineração 40 Produto Final A versatilidade da gipsita

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EDITORIAL Destruição que não para Oito meses após a tragédia ambiental de Mariana, seus efeitos nefastos não param. Agora a Samarco oficializa uma decisão que, para 1,2 mil trabalhadores dos 3 mil que trabalham na mineração, tem o gosto amargo de uma tragédia: serão lançados ao desemprego. Vão juntar-se aos 11 milhões de brasileiros desempregados. Ainda que sob uma embalagem pintada sob o nome de Plano de Demissão Voluntária (PDV), com penduricalhos para retardar a falta de dinheiro nos primeiros meses, o nome certo é desemprego, com todas as consequências. A empresa tinha anunciado a volta às atividades ainda este ano com a meta de produzir até 60% dos resultados anteriores. Segundo a direção da Samarco, a decisão definitiva não sai agora. Uma série de questões ainda está em discussão. A maior parte dessas discussões está fora do controle da Samarco. É o caso das licenças ambientais e das ações judiciais. O certo é que as projeções de uma ampla decisão sobre a tragédia se arrastam no mesmo ritmo lento da lama que ainda escorre das barragens rompidas. É uma novela real que, ao contrário das fictícias, não tem data para terminar. Mas esta edição traz notícias de alento. Quase tão importante quanto o ar que respiramos, a geração de energia é uma preocupação permanente para a humanidade. E a busca de alternativas de produção hoje trilha vários caminhos, principalmente aqueles que oferecem menor impacto ambiental. Em São Paulo, na usina de Porto Primavera, município de Rosana, está sendo implantado um projeto experimental de Usina Solar Flutuante (USF) para a produção de 550 quilowatts de energia, capaz de atender a 9,5 mil consumidores. O projeto é composto por duas partes: uma com instalação de placas fotovoltaicas rígidas em terra firme à margem da represa e outra na lâmina d’água da hidrelétrica, apoiada em boias e com placas flexíveis. A produção de energia assim, em larga escala, vai permitir que se guarde a água na represa para ser usada em períodos de maior consumo. Cria-se, desse modo, uma sinergia entre as matrizes solar e hídrica. Quem explica o projeto é o engenheiro Demóstenes Barbosa, da empresa responsável pela instalação dos painéis numa ação conjunta com a Secretaria de Energias Renováveis do Estado de São Paulo. Nesta edição, a cidade minerária destacada é Araripina, no sertão pernambucano. O município é o maior produtor de gipsita. O mineral é fartamente encontrado na crosta terrestre. A gipsita produz o gesso, material utilizado numa diversidade de aplicações. O produto está presente na medicina, na construção civil, na indústria de fertilizantes e na petrolífera, entre outras atividades. Araripina extrai quase toda a gipsita consumida no país. No entorno da atividade exploratória estão 85 mil pessoas com empregos diretos e indiretos nas jazidas. Nas páginas verdes, o entrevistado é o engenheiro, economista e bacharel em filosofia Milton Rego, presidente da Associação Brasileira de Alumínio (Abal). A entidade reúne todas as empresas produtoras de alumínio primário, além de grande parte das transformadoras. O executivo destaca as qualidades do alumínio e as vantagens competitivas do produto em relação ao plástico e ao aço. Por ser mais leve, o alumínio reduz o peso de veículos como carros, caminhões, aeronaves, navios, além de garantir a economia nas operações e a aplicação em uma infinidade de outros produtos e edificações. Colabora na redução de combustíveis e torna mais duráveis bebidas e comidas que utilizam o produto nas embalagens. Ele lamenta a queda na produção brasileira, mas acredita na recuperação. Des- Francisco Stehling Neto Diretor de Relações Institucionais Com mais de 45 anos de experiência no jornalismo, atuou nas sucursais mineiras dos jornais Folha de S. Paulo e O Globo, além de 17 anos na editoria de política do Estado de Minas. Foi Secretário de Comunicação da Prefeitura de Belo Horizonte e Superintendente de Comunica- ção Empresarial da Cemig. taca que o alumínio reciclado consome apenas 5% da energia gasta no produto primário. Mas o detalhe mais interessante que levantou foi o que chamou de “pouco conhecimento” entre os engenheiros e arquitetos sobre o alumínio, o que restringe a sua utilização. E para não dizer que não falamos nele, como anda o novo Marco Regulatório do Setor Mineral? Com certeza, dormitando num dos escaninhos do Congresso Nacional. Boa leitura e até a próxima edição. Revista Mineração & Sustentabilidade | Maio . Junho de 2016 7

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PANORAMA AngloAmerican ANGLOAMERICAN I Em junho, a AngloAmerican lançou o livro Cavernas da Serra do Espinhaço Meridional, fruto da parceria com a Carste Ciência e Meio Ambiente. A publicação é resultado de cinco anos de pesquisas. Uma equipe de especialistas assina a obra: Augusto Auler, Tatiana Souza, Fabiana Fabri, Ataliba Coelho, Marina Leão, Gisele Kimura, Paulo Pessoa, Rinaldo Fernandes, Renata Andrade, Vanessa Linke, Andrei Isnardis, Vitor Moura e Luciana Alt. O livro, recheado de fotos, mostra as cavernas não apenas como objeto científico, mas de apreciação estética. São 352 páginas com conteúdo em português e inglês. ANGLOAMERICAN II Outra boa notícia da mineradora veio do Minas – Rio. Em maio, a empresa recebeu o Prêmio de Excelência em Lubrificação John R. Battle Award. A premiação é promovida pelo International Council for Machinery Lubrication (ICML) nos Estados Unidos. O conselho seleciona as melhores práticas globais em lubrificação e em análises de fluido. O projeto vencedor é uma criação da unidade de Negócio Minério de Ferro Brasil. É a primeira vez que uma empresa brasileira recebe o título do John R. Battle Award. STEEL WAREHOUSE CISA INICIA PRODUÇÃO Uma nova companhia de serviços siderúrgicos começa a operar no Brasil. A Steel WareHouse Cisa, joint venture entre a americana Steel Warehouse e a brasileira Cisa Trading, iniciou as atividades em maio, em Paulínia, no Interior de São Paulo. A empresa usa a tecnologia Temper Pass Cut to Lengh, que processa bobinas de aço para chapas de maior tolerância e planicidade. Os produtos da empresa são destinados aos mercados siderúrgico, de mineração, de maquinário industrial e de construção. A capacidade atual de produção é de 200 mil toneladas de chapas de aço por ano. CONTAGEM REGRESSIVA NA USIMINAS Deve ser concluído até o início de julho o aporte de R$ 1 bilhão nas Usinas Siderúrgicas de Minas Gerais (Usiminas). O plano é levar parte do capital disponível na Mineração Usiminas (Musa), que tem a japonesa Sumitomno como sócia, para o caixa da siderúrgica. A Musa dispõe de aproximadamente R$ 2 bilhões e, caso as negociações sejam bem-sucedidas, a Usiminas pode ganhar uma injeção de recursos da ordem de R$ 1,4 bilhão, o que corresponde à sua fatia na mineradora (70%). O aporte vai melhorar a condição de liquidez da companhia e deve voltar a gerar caixa. Durante o 27º Congresso Brasileiro do Aço, em São Paulo, o presidente da Usiminas, Sérgio Leite, descartou um processo de recuperação judicial da corporação. 8 Revista Mineração & Sustentabilidade | Maio . Junho de 2016

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DIREITOS HUMANOS A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) vai denunciar o Brasil para a Organização dos Estados Americanos (OEA), principal órgão de monitoramento do continente. O motivo são 13 casos levantados pela Comissão provocados pela atividade minerária no país. De acordo com o documento divulgado pelo órgão, as denúncias se referem aos impactos causados por mineradoras que influenciaram o modo de viver de milhares de pessoas no entorno das operações. Um dos casos expostos no documento é o rompimento da Barragem de Fundão, da Samarco, ocorrido em novembro de 2015, em Mariana (MG). Foram constatados desvios nos seguintes estados: Bahia, Goiás, Maranhão, Pará, Paraná, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e São Paulo. FISCALIZAÇÃO DE BARRAGENS O relatório da Comissão Temporária da Política Nacional de Segurança de Barragens, do Senado Federal, foi aprovado em 8 de junho e sugeriu mais rigor na fiscalização de barragens de rejeitos de mineração. Uma das recomendações é a trans- formação do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) em agência reguladora, garantindo ao órgão recursos humanos, materiais e financeiros para a atividade fiscalizatória. De acordo com o documento, o DNPM tem apenas 18 profissionais responsáveis por 662 barragens no país. Quase metade dos barramentos está em Minas Gerais, onde quatro fiscais executam o serviço. O relatório também prevê maior participação dos governos municipais e de órgãos de defesa civil no treinamento da população próxima às barragens. A Comissão Especial foi criada após o rompimento da barragem de Fundão em Mariana. TGM VALLOUREC TRANSFERE PRODUÇÃO A Vallourec planeja fechar dois laminadores de tubos na França e transferir a produção para a usina de Jeceaba, em Minas Gerais. O objetivo é tentar reduzir os impactos da crise do setor siderúrgico no município, que abriga a planta de tubos em aço da empresa. Jeceaba sofre com desemprego e queda na arrecadação em decorrência da baixa produção da usina. De acordo com o presidente da Vallourec Tubos do Brasil, Alexandre de Campos Lyra, a transferência vai ocorrer de forma gradual e deve ser concluída até o final de 2017. Segundo ele, os tubos produzidos em Jeceaba estão em fase final de qualificação técnica e de qualidade na Europa. O presidente da Vallourec confirmou o encerramento das atividades dos altos-fornos da unidade Barreiro, em Belo Horizonte. André Ribeiro VALE DEIXA A CSA Em 31 de maio, a Vale confirmou a venda de sua participação na Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA) para a ThyssenKrupp. A mineradora detinha 26,87% do capital da siderúrgica. A participação da Vale na CSA fazia parte do projeto da empresa de simplificar o portfólio de ativos. O valor do negócio não foi divulgado. O único contrato que vai continuar em vigor é o de compra e venda de minério de ferro entre as partes. Revista Mineração & Sustentabilidade | Maio . Junho de 2016 9

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ENTREVISTA Milton Rego PG1 / Abal Quem é: Engenheiro mecânico, economista e bacharel em filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Especialista em Gestão pela Fundação Dom Cabral. Presidente executivo da Abal desde julho de 2014, é também diretor da Abag e conselheiro da Fiesp. Tem 35 anos de experiência no setor industrial. Trabalhou na Case New Holland Industrial (CNHI), tendo ocupado, dentre outros, o cargo de diretor de Comunicações e de Relações Externas. Foi vice-presidente da Anfavea e vice-presidente da Câmara Setorial de Máquinas Rodoviárias da Abimaq. Desafios da indústria do alumínio Presidente executivo da Abal, Milton Rego fala sobre o atual momento de retração da produção, mostra-se otimista com o futuro e defende a sustentabilidade do setor 10 Revista Mineração & Sustentabilidade | Maio . Junho de 2016 Thobias Almeida

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O alumínio seria um produto praticamente perfeito, não fosse o preço mais alto na comparação com outros materiais, como o aço. É resistente, versátil, leve e, principalmente, amplamente reutilizável - característica muito valiosa num mundo cada vez mais atento à agenda ambiental e à eficiência econômica. No Brasil, a Associação Brasileira do Alumínio (Abal) reúne 100% das empresas produtoras de alumínio primário, além de grande parte das transformadoras. À frente da entidade está o economista e engenheiro mecânico Milton Rego, personagem com mais de 20 anos de experiência no meio industrial. Na entrevista à Mineração & Sustentabilidade, o presidente executivo da Abal fala sobre o cenário atual de retração do setor, interpreta as causas para o recuo e aponta caminhos. Munido de dados, Rego argumenta que a indústria está represada não somente em função da queda vertiginosa da economia, mas pela falta de políticas públicas que fortaleçam a competitividade dos produtores. É o caso de um dos principais insumos da cadeia, a energia elétrica, que em 2015 chegou a representar mais de 60% dos custos de produção. Ele também cita o fato de o alumínio ser um produto relativa- mente novo. Isso leva à falta de conhecimento dos profissionais sobre seu uso e sua capacidade. Milton Rego detalha as vantagens e as desvantagens do produto em relação a materiais concorrentes, os desafios de produzir no Norte do país e valoriza a pegada sustentável do alumínio. Dentre essas vantagens estão o aumento da eficiência do consumo de combustível quando aplicado no setor de transportes e os altos índices de reciclagem. O executivo cita estimativas que calculam que 75% do alumínio produzido ainda esteja em uso. Mineração & Sustentabilidade Em 2015, houve recuo do consumo de alumínio no país. O cenário foi o mesmo no âmbito internacional? Quais os fatores apontados para a queda? Milton Rego O desempenho brasileiro foi aquém do internacional na produção e no consumo. O consumo de alumínio no mundo cresce sistematicamente nos últimos 40 anos. Não houve nenhum ano em que foi inferior. Mas no Brasil, infelizmente, houve queda em 2015, que possivelmente vai se acentuar em 2016 devido à economia. Isso nunca aconteceu no Brasil, mas não só especificamente no setor do alumínio: na economia também. O uso do alumínio no mercado nacional tem crescido mais do que a média de desempenho da economia mundial. Caso o Produto Interno Bruto (PIB) cresça 2% ao ano, o consumo de alumínio deve crescer 6%. Isso porque, diferentemente de outros metais, o alumínio é um metal muito recente. A utilização do alumínio tem cerca de cem anos. Está em transição na sociedade, substituindo outros materiais. Esse uso crescia no Brasil até 2014. De lá para cá, começamos a ter uma queda que afetou o consumo. Dependendo do desempenho da economia em 2016, a redução esperada é de 4% a 5%. Com isso, o Brasil vai voltar ao nível de consumo de sete anos atrás. M&S Você afirmou que, no segundo semestre de 2015, o setor de alumínio nacional viveu o seu pior momento em 30 anos. Quais as perspectivas para os próximos anos? MR Do ponto de vista de médio prazo, não há dúvidas de que consumo do alumínio vai continuar crescendo e vai retomar a taxa média de crescimento. Com a perspectiva de que a economia vai se recuperar, o consumo de alumínio também deve crescer. O consumo de alumínio está relacionado com o crescimento da renda, urbanização e sustentabilidade. Por exemplo: o alumínio entra na parte de transporte – automóveis, aeronaves, navios,... Tudo está relacionado com a eficiência de combustível, pois a introdução do alumínio no transporte buscou a diminuição do peso e, portanto, menor consumo. Outro ponto: quanto mais leve a carroceria de um caminhão, maior a capacidade de carga. Essas duas coisas estão relacionadas com a redução da emissão de gases do efeito estufa. Em países como os Estados Unidos há uma exigência de eficiência de combustível muito grande, principalmente para reduzir emissões. A forma mais efetiva para conseguir isso é diminuir o peso sem perder características. Isso vale para navios, transporte urbano e transporte de massa como metrô, trem e transportes leves. Na construção, em mercados mais maduros como Europa e Japão, o alumínio entra em pontes e viadutos, pois há preocupação com a vida útil do equipamento. Já na parte de embalagem, está muito relacionado com a urbanização. Nos ambientes urbanos, grande parte do consumo é de alimentos industrializados. E a melhor forma de conservar comidas e bebidas é por meio do alumínio. À medida que aumenta o percentual de habitantes morando nas cidades, aumenta o consumo de alumínio. E finalmente vêm os novos mercados, como painéis fotovoltaicos, que são feitos de alumínio, iluminação urbana, dentre outros. M&S Quais são os principais clientes industriais do setor no Brasil e no exterior? MR Os principais clientes são montadoras de todos os setores de transporte, autopeças, embalagens e a construção civil. Um prédio novo tem toneladas de alumínio, como nos usos mais tradicionais, em estruturas de janelas e portas. Depois de pronto e habitado, o alumínio está presente em eletrodomésticos, linha branca, puxadores de móveis, entre outros. Internacionalmente, o setor mais importante é o de transporte. No Brasil, o de embalagens. A diferença é entre países de renda média e alta. Países desenvolvidos não têm grande crescimento populacional nas cidades, diferentemente de países como Índia e China. A indústria de transporte dos países de renda alta tem produtos que usam muito Revista Mineração & Sustentabilidade | Maio . Junho de 2016 11

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mais alumínio do que os nossos. Os Estados Unidos têm carros cujas carrocerias são totalmente de alumínio. M&S Como a Abal atua na importante frente do desenvolvimento de mercado? MR Há algumas funções que são iguais para todas as associações. A primeira é dar condições para os associados se desenvolverem. Há uma questão importante de difusão de tecnologia, de melhor governança. Outra é utilizar o que já existe da melhor maneira com o objetivo de melhorar a média da indústria. Isso é importante no Brasil para as pequenas e médias empresas. Outra preocupação é a de práticas desleais de mercado, de analisar parceiros comerciais no Brasil, como estão lidando com seções da exportação de alumínio. O que buscamos é identificar práticas usuais e fazer medidas de defesa comercial, como no caso de países exportando para o Brasil abaixo do preço de custo. Um desafio que enfrentamos é o pouco conhecimento sobre alumínio nos cursos de graduação e cursos técnicos. É uma questão relacionada com o fato de a criação do alumínio ser recente. Se você pegar um curso de engenharia mecânica, os engenheiros vão ter muito mais conhecimento sobre aço do que sobre alumínio. A mudança é muito lenta. Uma questão importante é o treinamento e a difusão para fora da indústria. Um exemplo está na arquitetura. Há muitas estruturas que usam o material, como em prédios públicos, museus, aeroportos, mas o arquiteto ainda conhece bem pouco do alumínio. Isso restringe a utilização. Outro fator é o desenvolvimento de projetos. No ano passado, a Abal desenvolveu uma estrutura de carroceria com uma empresa. A ideia foi criar uma carroceria que tivesse manutenção facilitada. É fácil você descobrir um carroçador que trabalhe com aço, mas não é fácil descobrir um que trabalhe com alumínio, pois a solda é diferente. Esse projeto foi colocado à disposição das empresas que quisessem desenvolvê-lo. Além disso, a Abal trabalha com análise de mercado, envolvendo toda a parte de inteligência e preparações. M&S Quais as vantagens e desvantagens do alumínio em relação a produtos concorrentes, como o aço e o plástico? MR A desvantagem do alumínio é o preço. Porém, quando comparado com aço ou plástico, apresenta muitas vantagens. O comportamento do alumínio está muito relacionado com o tipo de liga que o forma. Quando se faz uma folha de alumínio para ser usada em casa, é necessário um metal dúctil e maleável. Quando se faz um avião, é necessário um material que tenha a maior resistência possível. Entre uma coisa e outra há diferença pequena no percentual de ligas. Por exemplo: numa latinha de refrigerante, a parte de cima da lata é mais resistente do que o restante. A parte de cima tem um encaixe que vai selar a lata. A cada utilização do alumínio há uma resistência diferente. Não se consegue fazer certas estruturas com aço. O alumínio tem pontos de fusão e de fluidez muito maiores, além de maior condutividade que o aço. Esses pontos correspondem a um terço da massa específica do volume do aço. É possível produzir estruturas muito mais leves. E é por isso que os automóveis começam a ter cada vez mais alumínio. Com relação ao plástico, o material é mais complexo. O material composto do plástico é caríssimo. Se formos comparar o alumínio com o plástico comum, usado em pet, por exemplo, o alumínio é mais inerte. O líquido que está no pet fica com gosto de plástico. No alumínio não tem isso. O alumínio é uma barreira melhor contra as luzes. Por conta dessas características, você vê cada vez mais embalagens de alumínio e menos de plástico. Outro ponto é a reutilização do alumínio. Quando você pega uma lata no supermercado, essa lata era outra lata alguns dias atrás. São vantagens do ponto de vista de economia de energia, entre outros. M&S Como o setor se adaptou aos novos tempos de energia mais cara e, além disso, aos riscos relativos à oferta? Esse contexto afetou a competividade dos produtores? MR Afetou muito. O Brasil chegou a produzir 1,6 milhão de toneladas de alumínio. A previsão para este ano é de 780 mil toneladas. Isso ocorreu muito em função do custo industrial de energia elétrica. Todos os setores tiveram um impacto muito grande. A indústria não se adaptou. Ela cortou custos, aumentou eficiência das plantas, mas chegou a um limite em que as de maior custo tiveram de ser fechadas. No mundo inteiro, o peso da energia elétrica no custo total do alumínio gira entre 30% e 40%. No Brasil, esse custo chegou a 62% em 2015. Em 2014, eu me lembro de ter conversado com o governo sobre a possibilidade de apagão. Hoje o Brasil está vendendo energia para a Argentina. A queda do consumo, especialmente do consumo industrial, tirou esse fantasma da frente da indústria, justamente porque a economia encolheu. Os investimentos em energia no Brasil continuam muito atrasados. Outro ponto é o fato de o Brasil optar por ter energia barata para as residências. O custo da energia para o setor industrial cresceu muito em função desse contexto. Desde o início dos anos 2000, o custo está crescendo 10,5% ao ano. A energia onera os custos da indústria de alumínio brasileira em mais de 50%. Ter uma energia para o setor industrial competitiva significa ter um setor industrial competitivo, crescendo mais, gerando mais emprego e trazendo mais benefícios para a população. No Brasil, o preço das energias em geral é um dos mais caros do mundo. A conta não fecha. E isso tem um peso importante no porquê de o Brasil ter deixado de produzir cerca de 800 mil toneladas de alumínio. Esse volume foi importado de algum lugar, de países como a China, que tem uma matriz energética muito mais poluente do que a do Brasil, baseada no carvão. Há um vazamento de carbono quando o Brasil deixa de produzir alumínio. M&S Com relação ao mercado externo, o valor das exportações em 2015 ficou estável em relação a 2014. Como o senhor interpreta esse dado? MR Houve uma diminuição de preços do metal. O volume exportado cresceu, mas o preço diminuiu. Caso o preço ti- 12 Revista Mineração & Sustentabilidade | Maio . Junho de 2016

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Entrevista com Milton Rego vesse se mantido, o Brasil teria exportado mais. O país está aumentando as vendas de bauxita e de alumina. A bauxita brasileira é de excelente qualidade e está tendo substituição do alumínio de qualidade em função do patamar da taxa de câmbio. M&S Um grande polo produtor é o Norte do país. Quais os desafios e as vantagens de produzir nessa região? MR As vantagens são que as reservas são muito boas. Do ponto de vista de qualidade somos os melhores do mundo. As desvantagens estão ligadas à logística. A infraestrutura da região é muito precária. Esse fator faz aumentar os custos. A vantagem de o Brasil ter práticas sustentáveis de mineração nos coloca em pé de igualdade com os melhores do mundo – Canadá e Austrália. Só que o mercado internacional não paga a mais por isso. Um desafio é estar no bioma amazônico. Isso chama mais a atenção. No entanto, o Brasil tem muita tecnologia para trabalhar na Amazônia. A regeneração de áreas exploradas no país tem padrão internacional, e ainda mais alto na Amazônia. A discussão é muito acalorada, muito sensível e isso traz um ônus internacional. Ainda assim, vejo que o Brasil está se dando muito bem em termos de relacionamento com a sociedade e o meio ambiente. M&S O vínculo entre a reciclagem e a indústria do alumínio é histórico. Como se deu esse processo e quais as principais motivações para sua implementação? MR O custo de reciclagem do alumínio é muito baixo. A demanda corresponde a apenas 5% da energia necessária para a produção do produto primário. Isso faz com que a sucata seja muito valiosa. É uma questão econômica. O Brasil desenvolveu toda a cadeia da sucata do alumínio, desde as cooperativas dos catadores até as empresas de reciclagem. Isso é histórico e o país tem níveis de reciclagem urbana de alumínio muito altos. M&S Qual a importância socioeconômica da reciclagem de embalagens e latas de alumínio? MR A manutenção do índice próximo aos 100% de reciclagem é uma demonstração de que o modelo, referência para a construção da Política Nacional de Resíduos Sólidos, está consolidado e serve de exemplo para uma economia de baixo carbono, com geração simultânea de emprego e renda. Foram injetados R$ 845 milhões diretamente na coleta de latinhas em 2014. O número corresponde a 1,2 milhão de salários-mínimos. Daria um salário-mínimo por mês para cada habitante de uma cidade com cerca de 95 mil habitantes. A reciclagem de alumínio representa hoje um terço da demanda doméstica do metal. Desde 2001, o Brasil é líder na reciclagem de latinhas de alumínio, com índice de 98,4%. A atividade conta com um mercado maduro e estabelecido em todo o país, com centros de coleta, facilidade de transporte e venda. Vale frisar que o processo de reciclagem de alumínio reduz em 95% a emissão de gases de efeito estufa, quando comparado com a produção de alumínio primário. Entre outras ações, a Abal representa o setor no novo sistema de medição da pegada de carbono e água da ABNT. Fabricados a partir da hidroeletricidade e com elevados índices de reciclagem, os produtos de alumínio fabricados no país têm uma pegada de carbono menor que a dos itens importados. O alumínio é um mercado muito desenvolvido no que se refere ao reúso. Estima-se que 75% de todo o alumínio já produzido ainda esteja sendo utilizado. M&S Quais as principais medidas a serem adotadas nos âmbitos corporativo e de políticas públicas para fortalecer a indústria do alumínio? MR O Brasil sofre por não ter uma política industrial para a indústria de base. A Abal está levando ao governo uma proposta de política industrial para o setor do alumínio. A proposta abrange oito áreas sensíveis à competitividade da nossa indústria: política comercial, política energética voltada ao desenvolvimento industrial, política de apoio à reciclagem, me¬didas para reduzir o custo do investimento, incentivo ao desenvolvimento tecnológico, formação de capital humano e redução de custos trabalhistas, política mineral, polí¬tica de compras do Estado, além de questões estruturais e regulatórias que afetam toda a indústria. Se adotadas, as medidas vão resgatar a competitividade do setor e assegurar o avanço balanceado de toda a cadeia produtiva, recuperando a produção primária e mantendo o que foi investido na etapa de transformação. Com a recuperação da rentabilidade dos negócios vêm os investimentos e o aumento da produtividade. Assim a indústria vai poder manter os empregos e promover a geração de postos de trabalho e de riquezas para o Brasil. Revista Mineração & Sustentabilidade | Março . Abril de 2016 13

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INTERNACIONAL Cooperação Arte Daniel Felipe Jogada ensaiada na mineração Criado pela Câmara de Comércio e Indústria Brasil – Alemanha, centro voltado para a mineração quer ampliar as parcerias no setor entre os dois países 14 Revista Mineração & Sustentabilidade | Maio . Junho de 2016 Tacila Belas

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A Alemanha, um dos países mais industrializados e desenvolvidos do planeta, depende da importação de bens primários minerais para suprir o setor o industrial. Garantir o fornecimento estável e de longo prazo de matérias-primas, com preços competitivos, é de suma importância para a economia alemã. Em 2010, o país aprovou uma política estratégica com esse fim. O Brasil é um player essencial para o êxito do planejamento alemão. E o Centro de Competência de Mineração e Recursos Minerais (CCMRM) tem importante papel para a parceria. Em 2014, a Câmara de Comércio e Indústria Brasil – Alemanha (AHK) elaborou um estudo abrangente sobre o setor mineral brasileiro. O documento serviu de base para o Ministério da Economia e Energia da Alemanha (BMWi) autorizar, em 2015, a abertura do Centro de Competência de Mineração e Recursos Minerais (CCMRM) no Brasil. A intenção é criar um ente articulador entre a indústria alemã e o setor extrativo nacional. WORKSHOP Em abril de 2016, a AHK promoveu no país o primeiro evento voltado para a mineração – um workshop com a temática “Desafios Atuais e Atuação do Centro de Competência de Mineração e Recursos Naturais”. A intenção foi identificar os principais desafios do setor no Brasil e facilitar a interação dos atores presentes. Alessandro Colucci, especialista em mineração e recursos minerais e coordenador do CCMRM, classificou a iniciativa como um “evento inicial” para colocar na pauta das empresas filiadas à AHK no setor minerário brasileiro. O movimento reúne fornecedores, órgãos públicos e entidades interessadas no assunto. “O workshop deu início a um novo grupo de trabalho da Câmara, focado nos temas da mineração. Durante o evento, apresentamos a iniciativa do Centro de Competência e elaboramos com os participantes uma pauta com temas que vão ser abordados sistematicamente durante as próximas reuniões”, avalia. Alessandro Colluci ressalta que o objetivo da ação é criar um work in progress. Isso limita a possibilidade de fazer previsões. No entanto, o coordenador do CCMRM diz ter se surpreendido com a alta demanda e o interesse por parte das empresas em participar do grupo de trabalho. A cadeia minerometalúrgica representa 6,4% do PIB da Alemanha. SEMINÁRIO Colluci salienta que o ponto alto dos eventos programados para 2016 será o I Seminário Brasil – Alemanha de Mineração e Recursos Minerais. O encontro está marcado para Belo Horizonte nos dias 9 e 10 de agosto. “No primeiro dia teremos apresentações e palestras. No segundo, a programação prevê uma visita técnica ao Centro de Desenvolvimento Mineral da Vale em Santa Luzia. Além disso, o Centro está avaliando uma participação com um estande no World Mining Congress, no Rio de Janeiro”, adianta Colluci. O World Mining Congress está programado para ocorrer entre 18 e 21 de outubro. ATIVIDADES O Centro de Competência de Mineração e Recursos Minerais atua em diversas frentes: oferece serviços como organização de participação em eventos técnicos, estudos de mercado, apoio em contatos com órgãos públicos e empresas, inter- Alessandro Colluci, coordenador do CCMRM, lidera os esforços para estreitar os laços entre Brasil e Alemanha no setor minerário. mediação de parcerias de negócios, viagens para participação em feiras e viagens de delegações. O CCMRM brasileiro integra uma rede mundial de entidades irmãs, com presença na Austrália, no Chile, no Canadá, no Peru e na África do Sul. Além de propor soluções, o CCMRM recebe contribuições dos participantes. A empresa alemã Vulkan do Brasil é uma das líderes no fornecimento de acoplamentos, sistemas de frenagem e contra recuos para a indústria extrativa nacional e da América Latina. O presidente da companhia, Klaus Hepp, acredita que a vivência de 40 anos no mercado brasileiro possa ajudar os parceiros que integram o CCMRM. “A Vulkan do Brasil dispõe de uma enorme experiência sobre negócios com a indústria brasileira. Podemos contribuir para que as demais empresas alemãs entendam melhor como funcionam os negócios no Brasil e, assim, encontrem a melhor entrada para este mercado”, propõe. A Alemanha tem um longo histórico na mineração. A tradição do país no setor ajudou a criar uma eficiente estrutura de faculdades especializadas e institutos de pesquisa. Os alemães são importantes atores mundiais da área de máquinas e plantas industriais, assim como apresentam expertise no ramo de consultoria, com atuação mundial. Vulkan do Brasil Revista Mineração & Sustentabilidade | Maio . Junho de 2016 15

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