Pensares - n.º 21

 

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Revista do Agrupamento de Escolas João de Araújo Correia, Peso da Régua

Popular Pages


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ensar(es) Revista Escolas | João de Araújo Correia Nº 21 - Junho 2016

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Índice Editorial A. Marcos Tavares Um dia quis ser rica Cândida Rosa A Eutanásia Inês Carvalho Arte e Artista João Pedro Pereira As questões da participação... Manuel Ferreira O Medo Carlos Carvalhosa Amigo da arábias Luana Fernandes A Casa Amarela Conceição Dias A Homofobia Marta Queiroz Olá, descontente Jéssica Cardoso Orion, uma constelação... Sónia Lopes Arte urbana ou vandalismo? Leonor Babo Secularizados deveras? Pedro Miranda A liberdade Gustavo Lopes Uma noite de chuva Joana Santos Eutanásia Liliana Sofia Pensamentos de um aluno ... Isabel Gonçalves Aqui no cimo desta montanha Agostinha C. Araújo As montanhas fascinam-me! Elisa Guichard Para Ti José Artur Matos A importância das emoções Ana Araújo 02 03 04 07 08 09 10 11 13 14 15 18 20 22 23 24 26 28 30 32 34 35 37 38 40 42 43 44 46 47 48 50 51 52 53 54 56 57 58 59 60 O El - em busca de explicações A. Marcos Tavares O desgosto de Portugal Ana Machado O ser Humano como história Rita Correia Comenius e Erasmus+ Célia Carvalho Encontro de Dois Universos Ana Filipa Alves Talvez Fernando Fidalgo A igualdade de género Mariana Guedes Os olhos são o espelho da alma Ariana Lopes Passado Daniela Guerra Reflexões João Teixeira Cartas Francisca Costa Desculpa Gabriela Pinto As Mensageiras da Paz Maria Rita Ferreira O farol Inês Coutinho Eu não sei o que escrever... Alice Costa Igualdade Inês Marques O Amor Carlos Santana A importância dos outros... Clara Magalhães “Amigos”?! Carlota Pinto Pra onde vamos? Ana Aires

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Bulent Kilic (Fofógrafo Turco) World Press Photo 2016 - 3º Prémio - Stories, Spot News 1 Para uma tolerância aberta e dialogante . As tragédias humanas que tão assiduamente nos tocam têm levantado diversos problemas. Chegam a todo o momento às fronteiras da Europa milhares de pessoas que fogem à guerra, à fome, à insegurança. Como dizia a rainha Rania da Jordânia, estas pessoas não são migrantes mas verdadeiros refugiados. Vêm para a Europa não para procurar trabalho ou para alcançar melhores condições de vida, mas para encontrar a segurança que nos seus países não têm e com a intenção de regressar, quando possível. O fundamental problema que a nós, ocidentais, se nos coloca é o da tolerância. Passa a coexistir no mesmo espaço e no mesmo tempo uma grande variedade de culturas, algumas delas com perspetivas do mundo bem diferentes. Educados no respeito pela liberdade não temos, em geral, especiais dificuldades em aceitar e respeitar tal multiculturalidade. A situação complica-se quando, numa generalização infundada, somos levados a atribuir os atentados terroristas que têm assolado a Europa e outros países da Ásia e da África aos seguidores do Islão. Embora saibamos que os atentados são da responsabilidade de uns quantos fundamentalistas e radicais, permanece sempre a dúvida de se esta pessoa que aqui chegou, com aparência de árabe ou de religião muçulmana, não será um potencial terrorista. E esta incerteza, esta dúvida, põem em causa a tolerância. 2. Surge cada vez mais premente a questão de se a tolerância não terá limites. Umberto Eco, medievalista, semiólogo e filósofo, recém-falecido, afirmava que a tolerância da intolerância implicava a definição dos limites da tolerância. Uma tolerância indiferente pode promover a separação e conduzir à segregação, ao isolamento, à estagnação. Uma tolerância aberta e dialogante não é indiferente à procura de valores que, embora diversos nas suas manifestações, traduzam um sentido universal de defesa da dignidade humana e dos valores fundamentais, plasmados na Declaração Universal dos Direitos Humanos. A. Marcos Tavares Editorial

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ensar(es) 3 Um dia quis ser rica Um dia quis ser rica, Procurei rios e mares, Ilhas e continentes, E foi no fundo da rua, Que encontrei a maior riqueza. Eras tu, Cabelo despenteado, Roupa a agricultor, Mas eras tu. Fechava os olhos Para sonhar contigo, Fechava as mãos Para sentir as tuas, E abri o meu coração Para sentir o teu. Mas numa noite, Tudo o que achávamos perfeito Tudo aquilo que tínhamos vivido, Tudo se foi, numa noite. E foi nesse momento, Que libertei oceanos, Rios e lagos, Pois tudo tinha acabado. Cândida Rosa

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4 ensar(es) A Eutanásia Quanto vale uma vida? Inês Carvalho . Aluna do 10º E pesar da grande metamorfose que o mundo atravessa, certos temas como a eutanásia são ainda tabu na sociedade atual e desencadeiam bastante controvérsia. A única certeza que temos quando nascemos é que crescemos, envelhecemos e morremos. Nada podemos fazer contra a irreversibilidade da vida humana. É o nascer para morrer. Todo este processo faz parte da nossa constituição biológica. O homem está “programado” para nascer, viver e morrer. Se fôssemos eternos não daríamos valor à vida. Mas terá ela de facto valor? A eutanásia parece negar o valor da vida. Será assim? A palavra “eutanásia”, que surgiu em 1900, é um termo de origem grega (eu + thanatos) que significa “boa morte”, ou seja, morte sem dor. A eutanásia é o ato de proporcionar a morte sem sofrimento a um paciente atingido por uma doença incurável. No seu sentido amplo, a eutanásia implica uma morte suave e indolor e, no seu sentido restrito, implica o ato de terminar a vida de uma pessoa ou ajudar no seu suicídio. A eutanásia pode ocorrer por vários motivos: por vontade do doente; porque os doentes representam uma ameaça para a sociedade (eutanásia eugénica); ou porque o tratamento da doença implica uma grande despesa (eutanásia económica). Embora em alguns países como a Bélgica, a Holanda ou a Suíça a prática da eutanásia seja legal, este é ainda hoje um tema gerador de conflitos: uns defendem o direito de o doente incurável A pôr termo à vida quando sujeito a sofrimentos físicos ou psíquicos intoleráveis. Outros, porém, não aceitam a eutanásia de forma alguma, como é o caso das ideologias religiosas Cristianismo e Judaísmo, que negam claramente esta posição por a considerarem um atentado à vida do ser humano, um verdadeiro homicídio. Dizer NÃO à eutanásia implica que ninguém tem liberdade plena de decidir pôr termo à vida, aliviando o sofrimento físico, psicológico e espiritual de um ser humano em pleno estado de incapacidade total. Quem pode dizer que determinado tipo de vida não é digno? Quem pode avaliar um determinado tipo de sofrimento como inultrapassável? Ou, então, que mensagem cultural estamos a passar se dissermos que certas vidas, certos estádios de vida, não são dignos de serem vividos? O que pensarão os que estão em idade mais avançada ou os que padecem de algum tipo de incapacitação ou, simplesmente, que são um estorvo? Como é possível consentir o «quero morrer», quando os psiquiatras procuram demover pessoas que pretendem suicidar-se? Se os futuros médicos no Juramento de Hipócrates se comprometem a defender a vida, não seria agora um paradoxo estarem dispostos a colaborar para pôr termo à vida? A campainha do alarme social tocaria estridentemente e a nossa confiança nos médicos seria completamente nula. Para todos os defensores não há um direito constitucional à morte, há, isso sim, um

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ensar(es) 5 direito à vida. Ao inferirmos sobre este assunto, impõem-se questões de diferente natureza: se a sociedade aceitasse a eutanásia, quais as consequências que daí poderiam advir? O doente deixaria de confiar nos profissionais de saúde e sentir-se-ia tremendamente inseguro quando tivesse de recorrer a eles? Os laços de confiança em que assenta a relação doente-médico quebrar-se-iam? Os defensores da eutanásia dizem SIM e argumentam que cada pessoa tem o direito à escolha entre viver ou morrer com dignidade quando se tem consciência de que o estado da sua enfermidade é de tal forma grave que não compensa viver em sofrimento até que a morte chegue naturalmente. Argumentam também que uma vida em estado vegetativo é “uma vida sem vida”: nenhum sentido faz continuar a mantê-la, além de que quem decide se a vida que está a viver é digna de ser vivida ou não deverá ser o próprio. Assim, se ele decide coloca-lhe um fim, a sua vontade deve ser respeitada. Voltando ao NÃO, aqueles que condenam a prática de eutanásia utilizam frequentemente o argumento religioso de que só Deus tem o direito de dar ou tirar a vida e, portanto, o médico não deve interferir neste dom sagrado. Para estes, é impensável qualquer forma de atentado à vida, seja a prática da eutanásia cometida de forma ativa (injeção letal, medicamentos em dose excessiva) ou passiva (falta de água, alimentos ou cuidados médicos). Sendo esta uma questão tão difícil e complexa, “in dubio pro vita” (na dúvida, a favor da vida). Segundo o Código Penal, em Portugal é crime praticar a eutanásia. Qualquer médico que termine com a vida de um paciente por compaixão comete homicídio, visto que é um ato consciente e voluntário, logo tem de ser responsabilizado. O tema tem sido de tal forma polémico que recentemente os órgãos da comunicação social ainda o tornam mais arrebatador ao darem destaque às afirmações da Bastonária da Ordem dos Enfermeiros, que referiu que existe a prática nos hospitais públicos portugueses. Mais rios de tinta, mais vozes que se levantam à volta do problema, mais averiguações e inquéritos. Ao colocarmos o problema sob o ponto de vista da moral, questionamo-nos: será que a eutanásia não irá contra a nossa consciência moral - a nossa voz interior ou juiz que nos alerta, censura, sanciona, reprime? Se agimos de acordo com ela, sentimos uma certa paz e tranquilidade; se, pelo contrário, não a tivermos em conta, sentimos remorso, inquietação, desconforto e até arrependimento ou remorso. O que sentiríamos nós se ajudássemos um amigo a pôr fim à vida? Recordemos o filme Mar Adentro, baseado na história verídica de um homem que vai lutar na justiça pelo direito a pôr fim à sua existência e ao seu sofrimento: um acidente que teve no mar na sua juventude deixou-o tetraplégico e preso Revista Sábado . 9 Dez 2015

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6 ensar(es) vida, isto é, encontrar soluções para todos os problemas metafísicos, ultrapassar obstáculos, enfrentar desafios, concretizar sonhos, o importante é sermos felizes porque um dia deparamo-nos com o absurdo da morte, e, aí sim, daremos o último suspiro, o último olhar e o último sentimento. Termino citando alguns versos de Madre Teresa de Calcutá no seu tão memorável Hino à Vida: A vida é uma oportunidade: agarra-a. A vida é beleza: admira-a. A vida é felicidade: saboreia-a. A vida é um sonho: realiza-o. A vida é um desafio: enfrenta-o. (…) Bibliogafia e Webgrafia: a uma cama por longos 28 anos. Essa luta vailhe trazer problemas com a Justiça, a Igreja e até mesmo com os seus familiares. Apesar da sua convicção em pôr término à vida, duas mulheres vão ter um papel preponderante na sua luta: a advogada que o quer apoiar sua luta e uma vizinha do povoado que tentará convencê-lo de que viver vale a pena. Ele sabe que só a pessoa que o amar de verdade o ajudará a realizar essa última viagem. É, sem sombra de dúvida, um filme em defesa da eutanásia. E, a este propósito, ocorre-nos: pôr fim à vida será moralmente correto? A consciência moral não é inata, não nasce connosco. Ela vai-se adquirindo e desenvolvendo à medida que a criança vai interiorizando as noções de Bem e de Mal, as normas de comportamento. É através do contacto e interação com o outro que ela se vai construindo, que nos vamos construindo como sujeitos morais. Na nossa cultura ocidental, desde tenra idade, vamos assimilando a ideia de que a vida deve ser preservada. Como reagiria a nossa consciência se passássemos a apoiar a eutanásia, ajudando-a a pôr em prática? Ou, então, segundo o cristão, se Deus dá a vida, só Deus a pode tirar. Não haverá outra alternativa para os doentes terminais? É lícito referir que a preocupação dos familiares do doente é aliviar-lhe a dor, o sofrimento, proporcionar-lhe melhores condições de vida. No entanto, a Organização Mundial de Saúde em 2002 criou o tratamento em Cuidados Paliativos, a fim de melhor a qualidade de vida de pacientes e familiares diante de doenças que ameacem a continuidade da vida. Para tanto, é necessário avaliar e controlar de forma impecável não somente a dor, mas todos os sintomas de natureza física, social, emocional e espiritual. Uma equipe multiprofissional para ajudar o paciente a adaptar-se às mudanças de vida impostas pela doença, e promover a reflexão necessária para enfrentar tal condição de ameaça à vida para pacientes e familiares. O Estado tem o dever de criar instituições de qualidade onde os doentes sejam tratados com dignidade e com todas as condições necessárias. Não podia concluir esta minha reflexão sem deixar de perspetivar a minha opinião desfavorável à prática da eutanásia. Penso que, enquanto vivemos, deveremos tentar justificar a P. Vasco P .Magalhães - in Observador Pedro Vaz Patto - in Observador Pedro Afonso-in Observador Novos Contextos -10º ano Porto Editora http://observador.pt/opiniao/eutanasia-resposta-um-manifesto http://www.rtp.pt/play/p2233/e224685/Pros-e-Contras ica-da-eutanasia http://observador.pt/2016/02/15/medicos-juristas-catolicos-prat-

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ensar(es) 7 Arte e Artista Ó Arte, tanto poder Concentrado numa só obra! Tantos significados Colocados numa só palavra… Tantas imagens Comprimidas num só risco… Tanta entoação Conciliada numa só canção! Tu que tens o poder de um mundo, Tu que te fazes senhora do teu criador, Tu que canonizas todos os insanos Que pelo mundo te tentam imitar, Tu que abraças todos aqueles, Que usam a esperteza e o engenho, Para te imaginar E ao mundo te mostrar… Ó Arte, espada bem afiada, Grito de assalto. Tens o poder de criar as maiores guerras Dentro das ambições dos loucos… Fiel e submissa amante Quando a inspiração te serve, Mas quando os ciúmes te dão Fazes ao criador dura prisão! Tu que tens o poder de uma câmara, Tu que superas os melhores espelhos, Tu que aprisionas toda a essência do teu criador Nas formas que mostras num expositor. Tu que és: pensamento, Confissão, Sentimento De quem em ti apaga sofrimento… E tu, Verdadeiro Artista? Mestre da refinação. Criador da perfeição. Alma e corpo da imaginação. Tu que por veres o mundo de forma diferente És chamado de demente. Tu que crias Sem esperares regalias! Tu que só depois Deste cruel mundo deixares, Recebes o devido reconhecimento Pelo trabalho de uma vida de sofrimento! Mas tem esperança Porque o dia há de chegar Em que quem agora está a duvidar No teu valor vai acreditar! João Pedro Pereira. Aluno do 10ºC

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8 ensar(es) As questões da participação… Manuel Ferreira . Professor de Filosofia “Necessitamos de recuperar a expressão aristotélica de “Homem animal político”. Homem que vive com os outros, um ser da cidade, que não pode ignorar a sua condição de ser social (...)” generalizado no sistema político e nomeadamente no sistema político democrático. E quais as razões para esta desconfiança e indiferença? São muitas as razões apresentadas. Contudo, o que convém realçar é que não se pode ficar paralisado face a esta situação. É necessário ter uma conduta de coragem e resiliência. Isto significa não fugir, não nos desviarmos do que exige luta, conflito, confronto e projeto. Também aqueles cidadãos conscientes da sua cidadania têm de ser exemplos e contribuir, contagiando os outros para uma maior e melhor participação. A nível da organização social, é importante uma nova maneira de fazer e de se estar na política. A política e os responsáveis políticos devem estar mais ligados à realidade e às pessoas. É que, ao contrário do que se possa pensar, a eventual solução para o divórcio entre os líderes políticos e as pessoas está na política. Necessitamos de recuperar a expressão aristotélica de “Homem animal político”. Homem que vive com os outros, um ser da cidade, que não pode ignorar a sua condição de ser social, de exercer a sua participação e envolver-se na concretização de objetivos comuns, de melhorar e dar dignidade à sua vida e à dos outros. s questões da participação ou ausência da mesma, do envolvimento das pessoas na vida comunitária, são, hoje em dia, um dos grandes desafios de toda a sociedade. O tão falado défice cívico prende-se com o afastamento das pessoas da vida pública, isto é, da vida comum ou política. Vida política que se prende com a atividade na ‘polis’ - na cidade -, em que os indivíduos devem estar conscientes e devem assumir e praticar os seus deveres e direitos para com os outros. É que ser cidadão implica assumir uma liberdade e responsabilidade pessoal e social. Pessoal, porque se trata de um compromisso com os próprios pensamentos, projetos, princípios e valores. E social, porque se trata do mesmo compromisso relativamente aos seus semelhantes. O Homem não pode nunca esquecer que é um ser de relação e que a melhor forma de se realizar é no convívio com os outros. É aqui que está o nó górdio da questão e onde o homem, enquanto cidadão, tem falhado. É elevado o desinteresse dos indivíduos face à vida pública, em geral, e à política, em particular. O diagnóstico está sobejamente realizado. Existe descrédito A

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ensar(es) 9 O Medo Medo é fraquejar É ter receio, terror Do que nos possa acontecer Do que queremos expressar. É um perigoso sentimento Que é difícil de combater. Que nos faz duvidar E nos faz refletir O medo somos nós que o criamos E que é difícil de largar É como uma droga Que entra e não sai! O medo de algum dia Estar entre a vida e a morte O medo que há nas pessoas! De uma simples palavra... O Medo! Carlos Carvalhosa. Aluno do 10ºE

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10 ensar(es) Amigo das arábias Luana Fernandes . Aluna do 12º E tualmente o terrorismo, na perspetiva ocidental, é visto como sendo protagonizado por pessoas do Médio Oriente que atormentam a Europa com o intuito de destruir os valores ocidentais nomeadamente a liberdade. Todos os dias, somos assolados com notícias de ações trágicas realizadas pelo Daesh. Mas será que todos conhecem a sua origem? Os principais membros do Daesh derivam da antiga rede terrorista Al-Qaeda, organização que foi criada por Bin Laden, líder da antiga célula denominada por rebeldes afegãos. Por sua vez, esta célula tinha sido criada, organizada, treinada e financiada pelos E.U.A, com o intuito de travar a expansão do comunismo. Os americanos escolheram aquele grupo por serem os únicos capazes de combater a influência comunista no Afeganistão, evitando, assim, uma intervenção direta. Outro episódio de guerra protagonizado pelos E.U.A foi a invasão do Iraque em 2004, sob o falso pretexto da existência de armas químicas em grande escala. Desta intervenção militar resultaram 160.000 mortos oficiais e aproximadamente 1000000 não oficiais. Porém, tudo isto se revelou falso, pois as únicas armas encontradas tinham sido fabricadas na América com material europeu e em número reduzido. O verdadeiro motivo desta invasão era derrubar o regime de Sadam Hussein e escolher o próximo governante, A causando assim instabilidade política, económica e social nesta região do Golfo para que o preço do petróleo baixasse. Pelo exposto pode considerar-se que a abordagem terrorista que chega todos os dias pelos media aos ocidentais deve ser objeto de um grande escrutínio de modo a conhecermos os seus verdadeiros fundamentos e percebermos quem é o verdadeiro inimigo.

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ensar(es) 11 A Casa Amarela Conceição Dias . Professora de Inglês “A Casa Amarela, desbotada e carcomida, abandonada por aqueles que lhe davam alma, cor e som ressuscita, agora, das suas próprias cinzas” ituada no centro da cidade, no chamado centro histórico, a Casa Amarela ergue-se imponente e majestosa na sua estrutura de pedra; são 80m2 distribuídos por três andares, encaixados entre outras casas, mais ou menos da mesma época, mais ou menos dentro da mesma arquitetura, personagens do mesmo tempo, testemunhas de tantas vivências… A Casa Amarela resiste ao peso incomplacente dos anos que vai deixando as suas marcas na fachada principal, agora desbotada e carcomida, tal como crava as rugas nos rostos das pessoas deixando claro a sua tirania, o seu domínio sobre tudo e todas. Com as suas janelas em guilhotina, aos quadradinhos, a varanda estreita e comprida ao longo do último piso, as janelas que se abrem para o telhado das outras casas, por onde entravam os gatos vadios e saíamos nós, as crianças de então, para explorar telhados, casas decrépitas, para vigiar a minha avó que no tanque do nosso estimado terraço lavava a roupa, descascava feijões, costurava os “olhos”( como ela dizia) que teimavam em aparecer nas calças, por cima do joelho, nos cotovelas das camisolas, nas meias, enfim, nas suas lides diárias de dona de casa prendada, de mulher, mãe, avó, sogra querida… O telhado, por vezes traiçoeiro e escorregadio S pregava-nos partidas e não raras vezes a minha irmã, muito mais aventureira e destemida do que eu, aterrava no terraço solarengo da nossa Casa Amarela, mesmo em frente à minha avó, descoberta na sua demanda, flagrada em delito, exposta na sua traquinice de menina travessa e rebelde; uma Maria-Rapaz como tantas vezes lhe chamávamos. Voltemos à Casa Amarela, à sua porta principal ornamentada por dois rendilhados encaixes em ferro, um batente (em forma de punho) polido pela tia Arminda que energicamente o deixava luzente e dourado todos os fins-de-semana. A fechadura pesada que albergava uma chave igualmente pesada emitia um estalido sempre que se entrava ou saia de casa. Talvez por isso, quiçá, a porta da Casa Amarela nunca estivesse trancada… por ela passavam as crianças da rua que subiam a larga escadaria, de caminho ao terraço, ou mais dois lances de escadas rumo ao segundo andar não sem antes admirarem a altíssima

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12 ensar(es) claraboia que gentilmente iluminava e aquecia o percurso até ao quarto das bonecas. O quarto das bonecas era uma casa de bonecas; uma casa dentro de outra casa com as suas rotinas, risos e choros, como qualquer outra casa que se preze…. ali eramos as donas de casa, éramos os adultos que ditavam as regras, que diziam o que fazer aos mais novos, também eles transformados em bonecas, bonecas de carne e osso… nem sempre corria bem e era ver o meu irmão, de gatas, a sair devagarinho daquele domínio, à procura de refúgio , de um colo seguro… A varanda, toda ela delicadamente bordada a ferro forjado também conta histórias; lá éramos cantores a entoar os canções da Revolução do 25 de Abril, a plenos pulmões, incentivados, quiçá, pelo megafone vizinho que laboriosamente desempenhava o seu cargo de arauto da liberdade, da democracia e enchia a rua de esperança… Nó gostávamos patulamente do tema ”Somos Livres”, também conhecido como o tema ”Uma gaivota voava, voava” originalmente interpretado pela actriz Ermelinda Duarte e que celebra a liberdade almejada e finalmente conquistada pelo povo a seguir ao derrube da ditadura do Estado Novo e fim da censura pela Revolução de 25 de Abril, a dita “Revolução dos Cravos”. Ser livre de voar, de crescer, de dizer, de traçar o próprio destino, parecia-nos bem, bastante promissor…. A varanda da Casa Amarela assistiu à narração de vidas difíceis, a episódios vividos na ditadura, a piqueniques improvisados à volta de uma cesta de cerejas e pão de milho nas noites de verão enquanto se conversava com a vizinha da frente, a Dona Antónia, separada de nós pela rua estreita e calcetada, na velha e boa tradição portuguesa. “Os vossos pais estão cá no Natal e ficam durante um bom tempo…” dizia a minha avó. A cozinha, a sala verde que merecidamente aclamou este título por estar pintada de um verde água, a casa de banho com a sua banheira de pés, o autoclismo barulhento e a gata branquinha, a “Boneca” não raras vezes flagrada sobre a sanita, a satisfazer as suas necessidades fisiológicas vivem, hoje, nas minhas memórias, juntamente com os meninos e meninas da nossa rua. A Boneca… nunca soube muito bem se essa gata bonacheirona e branquinha era nossa ou da vizinha da frente, a dona Antónia, tão à vontade ela se sentia entre estes dois mundos. Acabou por morrer na casa da vizinha, a dona Antónia que nos disse que a Boneca devia andar por ai, nos telhados das outras casas, com outros gatos e que haveria de aparecer ….um dia…. A Casa Amarela, desbotada e carcomida, abandonada por aqueles que lhe davam alma, cor e som ressuscita, agora, das suas próprias cinzas, da degradação causada pelas intempéries, da inexorável autoridade do tempo e ergue-se, magistral, com a mesma fachada, as mesmas janelas em guilhotina, a mesma caixa do correio que diz ”Cartas”, o seu batente lustroso imponente e altivo…. Fico feliz por saber que a Casa Amarela tantas vezes por mim visitada e revisitada em sonhos e lembranças já tem nova alma, cor e som e se reergue, imortal, para compilar novas histórias, tecer novas memórias, albergar novos meninos… Fico feliz.

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ensar(es) 13 A Homofobia Marta Queiroz . Aluna do 12º A “…a homofobia deveria ser considerada uma forma de crime.” omofobia é a aversão, o ódio ou a discriminação contra homossexuais e, consequentemente, contra a homossexualidade. Significa não aceitar ou não respeitar pessoas devido à sua orientação sexual. É a palavra que dá nome ao preconceito sofrido pelos gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais. Atualmente, a homofobia tem aparecido na vida quotidiana nos media e a sua discussão está a tomar uma dimensão cada vez maior. Porém, a religião, o conservadorismo e o preconceito trabalham para mascarar a gravidade da homofobia. O que torna este tema mais grave é a violência que existe na decorrência do ódio e as restrições aos direitos humanos. A homofobia pode impedir pessoas de estudarem e trabalharem e limitar os seus direitos à saúde, segurança e, por isso, aos direitos humanos, apenas porque uma pessoa gosta de outra do mesmo sexo. É por isso que, na minha opinião, a homofobia deveria ser considerada uma forma de crime. Todos os valores e fundamentos difundidos na nossa sociedade, desde os antepassados, ajudam a reforçar a importância do casal heterossexual. Por isso, qualquer coisa que se afaste desse conceito não é visto como normal ou comum. Deste modo, sempre que uma determinada mi- H noria social começa a organizar-se, a ganhar voz, a exigir direitos e a combater preconceitos, confronta-se com uma reação conservadora, a reação de quem quer ver os gays apenas “enfiados” no seu mundo, e longe da realidade, confinados, assim, em mundos subterrâneos e paralelos. O problema central é o fato desta questão não se resumir apenas aos indivíduos homossexuais, ou seja, a homofobia compreende também questões da esfera pública, com a luta pelos direitos do Homem. Apesar das conquistas no campo dos direitos humanos, a homossexualidade ainda enfrenta fortes preconceitos. A legalização da união entre casais do mesmo sexo e a adoção por parte de casais homossexuais são temas ainda muito controversos e debatidos na atualidade e apesar destas legalizações, não seremos capazes de acabar com a homofobia, não seremos capazes de proteger estas pessoas, vítimas deste preconceito, já que estamos perante um problema social em crescendo.

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