A Vaca Malhada 7

 

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Revista de filosofia

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Revista de Filosofia Primavera 2016 A V A C A ISSN 2183-5470 M A L H A D A 7

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A VACA MALHADA 7 primavera 2016 Coordenação: Carlos Alberto Pinto Rodrigues Luís Filipe Paulo e Ladeira ISSN 2183-5470 Há uma nota crítica, de Luís Ladeira, sobre o filme «Ágora», em consonância com o tema «Hipácia», na rubrica «Filosofia e cinema». Victor Gonçalves apresenta a recensão do livro de Byung-Chul Han, “A Sociedade do Cansaço”. Joaquim Araújo dá-nos notícia do 2º «Encontro com a Filosofia» que decorreu em Torres Vedras, sob o tema “Espaço público: controlo e privatização” e traz-nos o texto que, a propósito, então apresentou. Endereço: avacamalhada1@gmail.com Colaboram também neste número: Ana Paula Rosendo, professora de Filosofia no Ensino Secundário. Anne-Françoise Jaccottet, professora na universidade de Genebra, Suiça Bento de Espinosa, filósofo séc. XVII. Eurico de Carvalho, professor de Filosofia na E S D. Afonso Sanches, Vila do Conde. (http://euricodecarvalho67.blogspot.pt/) Fernando Savater, filósofo contemporâneo João Álvaro, autodidata. Joaquim Carlos Araújo, professor do Ensino Secundário em Loures (joaquimcarlossenos@gmail.com) José Manuel Heleno, professor de filosofia na Escola Secundária Dr. Solano de Abreu, em Abrantes. Os colaboradores habituais, José Manuel Heleno, Eurico de Carvalho e Luís Ladeira trazem-nos textos de temática diversa que vão da ética estoica, ao papel do professor de Filosofia e ao conceito de humano, respetivamente. Carlos Alberto, em nome da coordenação da revista, responde à carta da leitora Graça Maria, que publicámos no número anterior. Esperamos que estes textos sejam suficientemente provocadores. Resta chamar-vos a atenção para o filósofo da próxima efeméride, David Hume, no 240º aniversário da morte. À V. colaboração apelamos, como sempre, para esta rubrica ou qualquer outra das várias que este projeto acolhe, ou para tema disperso. Boa leitura! Victor Gonçalves, professor de filosofia no Agrupamento de Escolas Damião de Goes, Alenquer. victorgoncalves2@gmail.com (http://decliniodaescola.blogspot.pt/) Adenda: todas as imagens usadas para ilustrar os artigos deste número da revista foram recolhidas em «Google imagens» www.google.com/imghp?hl=pt-PT NOTA DE ABERTURA Este número 7, da primavera de 2016, sai com algum atraso, resultante de imponderáveis do quotidiano e obstáculos editoriais de última hora que, acumulados, acabaram por produzir um efeito indesejado. De resto, temos, de um modo geral, assuntos renovados, dentro da estrutura de rubricas habitual. ÍNDICE: Hipácia de Alexandria por Anne-Françoise J. Pág 3 Heidegger segundo Savater 8 Cuidar é humanizar, Ana Paula Rosendo 9 Assim, como «Autor convidado» temos AnneFrancoise Jaccottet, professora da Universidade de Genebra, na Suíça, que destrinça o retrato histórico de outro(s) imaginário(s) duma personagem pouco conhecida da História da Filosofia, Hipácia de Alexandria, do final do século IV, no império romano do oriente. A rubrica «Efeméride» evoca, através duma nota biobibliográfica, de um texto de Fernando Savater e de um artigo de Ana Paula Rosendo, a figura e o pensamento de Martin Heidegger, nos 40 anos da sua morte. O Estado e o culto religioso em Espinosa Liberdade religiosa e Estado laico , J. Álvaro Filosofia e cinema: Ágora, Luís Ladeira Recensão: A sociedade do cansaço, Victor G. Espaço público controlado… , J. C. Araújo Epicteto e a soberania do sujeito, J.M. Heleno 13 13 14 15 18 24 Mantém-se ainda o debate, anunciado no número 5 e continuado no 6, do tema «Estado laico e liberdade religiosa» com um texto de Espinosa sobre o culto religioso e o Estado, e outro de João Álvaro sobre qual é «o dever do Estado laico» na matéria em apreço. O professor de Filosofia… , Eurico de Carvalho Uma jangada na correnteza, Luís Ladeira Resposta a Graça Maria, Carlos Alberto 26 28 30 2

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AUTOR CONVIDADO - O texto de autor convidado, que apresentamos, é a tradução de um excerto de um artigo de Anne-Françoise Jaccottet, publicado na revista suíça «Études de Lettres», em 2010, sobre uma figura histórica, mas obscura, da filosofia no feminino, Hipácia de Alexandria, do século IV/V. O texto completo, incluindo a bibliografia, pode ser consultado através do endereço da referência seguinte: Anne-Françoise Jaccottet, «Hypatie d’Alexan- drie entre réalité historique et récupérations idéologiques: réflexions sur la place de l’Antiquité dans l’imaginaire moderne», Études de lettres [En ligne], 1-2 |2010, mis en ligne le 15 mai 2013. URL: http://edl.revues.org/390; DOI: 10.4000/edl.390 Hipácia de Alexandria por Anne-Françoise Jaccottet A Hipácia histórica veio a tornar-se bispo de Ptolemais. Muito unido à sua antiga professora e amiga, permanece em contacto epistolar estreito com ela, deixando transparecer a sua nostalgia dos cursos passados, questionando-a sobre preci- 1 Mas quem foi Hipácia? Que dados da sua vida têm sões técnicas para construir um astrolábio e endereçanpermitido ou suscitado tantas recuperações diferentes? do-lhe os seus ensaios antes de publicação. A personaliFilha de Theon de Alexandria, matemático e último re- dade íntima da filósofa desenha-se assim aos nossos presentante conhecido de famoso Museu, Hipácia nas- olhos: a sua virtude é reconhecida unanimemente a toceu por volta do ano 360. Beneficiou da educação mate- dos os níveis; elogia-se o seu recato, a sua moderação, mática de seu pai e continuou a sua formação em Ate- mas também a sua beleza excecional e a sua resistência nas, aonde, sem dúvida, aprofundou a sua filosofia, e selvagem a qualquer sedução, decidida que estava de voltou a instalar-se em Alexandria. Aqui realizou pales- que devia continuar virgem e independente toda a vida. tras públicas - talvez mesmo no contexto de uma cáte- A sua ciência, reconhecida também, tanto quanto a sua dra pública - oferecendo instrução privada a um círculo reputação virtuosa e o seu inegável carisma fazem de de discípulos de camadas ricas e cultivadas da sociedade Hipácia uma personalidade muito bem vista em Alexanalexandrina ou de fora. Está-se hoje de acordo em atri- dria, uma pessoa de referência, frequentando entidades buir a Hipácia a redação de comentários sobre obras de de altos cargos, como Orestes, prefeito augustal, repregrandes matemáticos, nomeadamente um comentário sentante do poder imperial em Alexandria. sobre o Aritmética de Diofanto, matemático alexandrino 3 Mas, apesar das suas numerosas virtudes, do seu ca- do séc. III, ou ainda comentários sobre as Secções cóni- risma e dos seus conhecimentos fora do comum, certa- cas de Apolónio de Perge, geómetra do séc. II aC. Teria mente nada saberíamos de Hipácia se ela não tivesse participado igualmente na edição dos Cânones astronó- morrido de maneira trágica. Num dia de Março, do ano micos de Ptolemeu, famoso astrónomo, matemático e de 415, segundo relata Sócrates o Escolástico, na sua geógrafo, ativo em Alexandria no início do séc. II. Exce- História eclesiástica, Hipácia ao regressar a casa é ataca- lente matemática, Hipácia não é no entanto um génio da, em frente à sua porta, por uma horda de monges inovador: concorda-se hoje em reconhecer a sua capaci- fanatizados, sob a direção de um certo Pedro, leitor da dade notável de dominar e explicar assuntos muito ár- igreja de Alexandria. Estes arrastam-na para dentro de duos, nega-se-lhe qualquer invenção sua. Hipácia deve uma igreja (o Cesário, antigo lugar do culto imperial, antes ser considerada como uma brilhante criadora de transformado em igreja) onde a desnudam e a esfolam espécies de manuais com objetivo pedagógico. O seu viva, com cacos e conchas; o seu corpo é depois des- ensino misturava ciências naturais, matemática e filoso- membrado e queimado numa colina próxima. Sórdido! fia, de obediência neoplatónica. Mas é este fim atroz que vai garantir a imortalidade a 2 Devemos contudo reconhecer que a nossa documen- Hipácia, que vai fazê-la escapar ao esquecimento que tação sobre a Hipácia histórica é extremamente reduzi- conheceram outras mulheres intelectuais, porventura da, feita de fragmentos e elementos dispersos ou basea- tão brilhantes como Hipácia foi. da em escritos bem posteriores à época da sua ativida- 4 Como explicar a obstinação selvagem de monges crisde. Os elementos mais pessoais e mais fiáveis que pos- tãos contra esta personalidade, no quadro da sociedade samos reunir, sobre a figura de Hipácia, provêm da cor- alexandrina? É ao seu ensino “pagão”, aos seus laços respondência de Sinésio, um dos seus discípulos, que com a tradição cultural do helenismo que se deve esta 3

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agressão? É, no entanto, assim que este assassinato será pontuam a situação e tornam-na explosiva; Cirilo e Ores- interpretado pela maior parte dos que posteriormente tes confrontam-se indiretamente, através da comunida- reutilizarão Hipácia para defender a sua causa, e entre de judaica de Alexandria; aliados de Orestes, os judeus eles em primeiro lugar o anticlerical Voltaire. Será que é são perseguidos e forçados ao exílio por Cirilo; após a preciso procurar a causa da sua supressão, por cristãos condenação por Orestes de um gramático vinculado a em fúria, no seu ensino filosófico neoplatónico? As in- Cirilo, o prefeito augustal é atacado por monges do de- vestigações modernas privilegiam outra via, mais matiza- serto. Quando o líder deste "bando" é condenado à mor- da, que coloca o caso Hipácia no seu contexto geral, na te por Orestes, a situação está no auge da tensão entre sociedade alexandrina deste início do século V. Alguns os dois antagonistas. O imperador Teodósio II recebe, de anos antes, no final do século IV, os cristãos, por instiga- ambas as partes, um pedido de mediação. É neste mo- ção do patriarca Teófilo, queimaram o Serapeum, grande mento e neste clima que Hipácia é brutalmente assassi- templo pagão e ao mesmo tempo centro cultural de im- nada. O que causou a sua perda foi, sem dúvida, as exce- portância, que albergava uma parte da famosa biblioteca lentes relações que tinha com Orestes. Graças ao seu de Alexandria. A Igreja toma cada vez mais peso, tanto carisma e reputação de grande virtude, ela ombreava religiosa como politicamente. A sociedade alexandrina com as pessoas mais influentes da cidade; e a fação de oscila entre a tradição cultural do helenismo, que fez a Cirilo tinha a temer que a sua aura acabasse por fazer sua grandeza e que ainda está muito presente, e a nova pender o Imperador para o lado do seu 'aliado' Orestes. fé, conquistadora e ainda, às vezes, fanática. 6. É nesta guerra de influências, suspeita de influenciar Hipácia é uma figura típica deste “entremez” cultural e Orestes e impedir a reconciliação dos representantes da religioso, está como uma charneira entre estes dois Igreja com o poder imperial, que Hipácia é alvo de mon- mundos que alguns quereriam ver opor-se radicalmente, ges fanatizados. É Cirilo para aqui chamado? O golpe de mas que, não obstante, coexistem. Os alunos de Hipácia mão terá sido liderado por membros da sua guarda pes- frequentam os seus cursos de filosofia neoplatónica sem, soal, os 'ambulancistas' (parabalanos), encarregados, em no entanto, serem ferozes reacionários ao cristianismo; princípio, de acudir aos pobres de Alexandria? Certa- como prova a presença, entre os mais ferventes admira- mente que o desaparecimento de Hipácia, figura muito dores da filósofa, de numerosos cristãos, dos quais al- escutada nos escalões superiores da sociedade, pela sua guns, como Sinésio de Ptolemais ou Olímpias da Síria, sabedoria, não se deu à revelia do patriarca; no entanto, serão mesmo conduzidos a tomar as rédeas de impor- parece difícil provar hoje uma intervenção, até mesmo tantes comunidades cristãs na função de bispos. Ao in- indireta, de Cirilo, neste caso. A extrema tensão da situa- vés de uma oposição de fundo entre tradição clássica e ção e o fanatismo de algumas fações poderiam por si cristianismo, tem-se a impressão de uma fusão relativa- mesmas, sozinhas, engendrar esta ocorrência dramática. mente natural entre a cultura ancestral e a nova fé. Vê- A Hipácia recuperada se assim evoluir, em redor de Hipácia, uma juventude dourada, procedente das classes cultivadas e ricas, im- 7 As investigações meticulosas efetuadas no quadro his- pregnada de cultura e filosofia gregas, mas batizada e tórico de Alexandria neste período conturbado e a análi- destinada a ocupar cargos importantes, sejam eclesiásti- se detalhada de alguns raros textos relativos a Hipácia cos ou imperiais. permitiram elaborar um quadro matizado das circuns- tâncias e dos móbiles do seu assassinato, em 415. Mas 5 Se o assassinato de Hipácia não pode ser diretamente esta visão ponderada é apenas uma visão de especialis- relacionado com o seu ensino, como explicá-lo? A situa- tas. Não é esta Hipácia, demasiado real, demasiado hu- ção, é preciso admiti-lo, é tensa em Alexandria, desde mana, com as suas contradições e as suas implicações 412, ou seja, três anos antes dos eventos que nos ocu- nas controvérsias de seu tempo, não é pois a Hipácia pam. Neste ano, um novo patriarca vem substituir o fale- histórica que vai ser objeto de tantas recuperações, de cido Teófilo; é o seu sobrinho Cirilo, conhecido pela sua tantas apropriações sucessivas. Não é o ser de carne e intransigência e fanatismo. As relações não tardam a osso que vai ser tomado como porta-voz de causas di- apodrecer, ao longo dos meses, entre o novo represen- versas; mas um ser ideal, a cada vez reinventado em fun- tante da igreja e Orestes, o prefeito augustal, represen- ção das necessidades da causa e forjado a partir de al- tante do poder imperial em Alexandria. Vários incidentes 4

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guns dados espetaculares que conhecemos da sua bio- Virtuous, Most Learned and in Every Way Accomplish'd grafia: o que os séculos ulteriores reterão e reutilizarão Lady: Who Was Torn to Pieces by the Clergy of Alexan- de Hipácia, é a mulher filósofa, a mulher matemática, a dria, to Gratify the Pride Emulation, and Cruelty of their mulher pagã, última herdeira da cultura greco-romana, Archbishop, Commonly but Undeservely Stil'd St. Cyril… que ensina filosofia no contexto de um cristianismo con- um programa completo! Hipácia, cujas virtudes Toland quistador e fanático, é o corpo feminino terrivelmente não se cansa de elogiar – da estética do seu corpo às mutilado por uma horda de monges em delírio, é “a vir- suas capacidades intelectuais, passando pela sua alma gem assassinada”. virtuosa –, é utilizada para desestabilizar a Igreja católica 8 Retomar de modo exaustivo todas as Hipácias moder- mostrando a responsabilidade de Cirilo neste sórdido nas e expor todos os quadros aos quais esta figura antiga assassinato e pondo consequentemente em dúvida a foi adaptada, excederia de longe o alcance e as preten- canonização do patriarca. A resposta não se fez esperar: sões desta contribuição. Que nos baste aqui evocar as um ano mais tarde, em 1721, Thomas Lewis vem em de- retomas mais marcantes. fesa de são Cirilo e do catolicismo posto em causa por Toland propondo um ensaio The History of Hypatia, a 9 Talvez Hipácia tenha feito uma primeira falsa reapari- Most Impudent Schoolmistress of Alexandria: Murdeid ção, por volta de 1510, no imponente fresco de Rafael and torn to Pieces by the Populace. In Defense of Saint «A escola de Atenas», ornando a sala das assinaturas Cyril and the Alexandian Clergy from the Apsersion of Mr encomendada por Júlio II; esta obra gigantesca (de cerca Toland. Brutalmente desprovida das numerosas virtudes de 7,7 x 4,4 m), representando os maiores filósofos anti- que lhe reconhecia Toland, Hipácia não é mais do que gos, foi concebida como a contraparte de «A disputa do uma impudica mestra de escola. Pouco importa a Hipá- Santo Sacramento»; entre as numerosas figuras prestigi- cia histórica neste debate intercristão; Hipácia é tomada osas e todas masculinas, um personagem muito efemi- como refém na disputa entre protestantes e católicos, nado destaca-se dos outros pelo olhar que lança, único usada como argumento, positivo ou negativo, do papel entre os demais, sobre o espetador e pela brancura das da patriarca Cirilo e, por conseguinte, da Igreja católica. suas vestes; de acordo com a tradição, trata-se de Fran- Desta confrontação interconfessional, Hipácia sairá man- cesco Maria della Rovere, sobrinho de Júlio II, conhecido tendo o perfil de uma vítima do fanatismo religioso. para a sua aparência andrógena. No entanto, circula uma anedota, relativamente provável, sobre a verdadei- 11 Esta novela Hipácia parece talhada à medida para ra identidade do personagem. Rafael teria pintado Hipá- levar a bandeira do anticlericalismo que se manifesta, de cia, verdadeira mulher filósofa, mas esta inconveniência maneira mais ou menos aberta, no debate das Luzes. não teria sido ao gosto de um Cardeal que teria dito ao Assim, Voltaire não deixa de utilizar várias vezes esta mestre: “Retira-a. A fé não permite que se saiba nada Hipácia, vítima pagã do fanatismo religioso: “Haverá algo sobre ela. À parte isso, a obra é aceitável”. Se Rafael con- de mais horrível e mais cobarde que a ação dos padres cebeu bem uma Hipácia, disfarçada posteriormente num do bispo Cirilo, a quem os cristãos chamam de são Cirilo? jovem efeminado da corte do Papa, esta seria a primeira Havia em Alexandria uma rapariga famosa pela sua bele- reaparição moderna desta figura antiga; reaparecimento za e pelo seu espírito; o seu nome era Hipácia; criada devido ao reconhecimento do seu ensino filosófico e pelo filósofo Téon seu pai, ocupou a cátedra vaga de seu sem relação com as controvérsias que a sua morte levan- pai, e foi tão aplaudida pela sua ciência quanto honrada tou ou levantará ainda. Mas, na imensa maioria das re- pelos seus costumes; mas era pagã. Os buldogues tonsu- cuperações sucessivas de Hipácia, é a sua condenação à rados de Cirilo, seguidos de um bando de fanáticos, fo- morte e as responsabilidades que se adivinham por de- ram-na prender ao púlpito de onde ditava as suas lições, trás deste ato que justificarão a retoma desta persona- arrastaram-na pelos cabelos, lapidaram-na e queimaram gem antiga, que a tornarão uma figura emblemática. -na, sem que Cirilo, o santo, lhes fizesse a mais ligeira reprimenda, e sem que o devoto Teodósio, sujo pelo 10 Em 1720, John Toland, protestante muito comprome- sangue dos povos de Salónica, condenasse este excesso tido, lança “a moda” destas recuperações ideológicas, de humanidade”. dando como título ao seu ensaio, dirigido contra a Igreja católica, Hipatia or the History of a Most Beautiful, Most 12 Na pessoa de Hipácia, é a liberdade de pensamento que é assassinada pelo obscurantismo. Os termos são 5

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crus e sem apelo: “os buldogues tonsurados” destroem a se prepara para sitiá-la e que o pintor escolheu não mos- beleza do corpo, a lisura do espírito e a pureza dos cos- trar; só os olhos de Hipácia, o candelabro invertido, em tumes; a escolha de Hipácia permite a Voltaire ancorar a baixo, à direita, e a corrente de ar percetível na chama sua crítica acerba no emocional, opor a violência cega à dos círios traem a violência escamoteada. Pretexto para delicadeza de um corpo feminino. Esta componente sen- o estudo do nu, na Inglaterra vitoriana, a Hipácia de sual da morte de Hipácia vai ter grande sucesso. 13 Perto de um século mais tarde, Charles Marie Leconte de Lisle faz de Hipácia uma figura emblemática do passado perdido, que ele muito lamenta, do helenismo idealizado no qual, com os Parnasianos, ele procura desesperadamente refúgio. No seu Hipácia, um dos seus Poemas antigos, a encenação da figura antiga, para evocar o paraíso perdido da Antiguidade idealizada, merece um pouco de atenção. (Ver o poema em http:// poesie.webnet.fr/lesgrandsclassiques/poemes/ charles_marie_leconte_de_lisle/hypatie.html) Mitchell é uma ode à Beleza assassinada; é uma Vénus destinada a ser esfolada viva, um corpo sublime votado à destruição violenta. Quando se sabe que a Hipácia histórica deveria ter quase 60 anos no momento da sua morte… 14 Este mundo antigo que o poeta sonha é essencialmente feminino, estético, luminoso, virtuoso, Hipácia encarna-o em todo o seu esplendor. Ela é, do início ao Charles William MITCHELL, Hypatia, 1885, Laing Art Gallery, Tyne & Wear Museums fim do poema, a Virgem do helenismo (versos 22,25,49, 66); casta (v. 24), branca, pura e imaculada (v. 53-54, 16 O gesto que faz Hipácia em direção ao mosaico que 57,60,65) e pode ser comparada ao mármore de Paros pende sobre o altar é uma referência à novela de Charles (v. 68), com a luminosidade que isso subentende (v. Kinglsey, aparecida em 1853; este capelão anglicano pro- 24,40); ela é a Beleza, a “santa Beleza” do helenismo cura denunciar, na sua obra, uma nova corrente cristã, perdido (v. 72,75), evocada de maneira sensual pelo seu filosófica e espiritual, muito difundida nas camadas desa- seio que palpita (v. 32) e os seus lábios (v. 36,42,55). A fogadas e cultas da sociedade vitoriana, que, aos seus Hipácia de Leconte de Lisle resume-se nesta fórmula: “a olhos, desnatura o verdadeiro cristianismo, democrático respiração de Platão e o corpo de Afrodite” (v. 63). O e próximo do povo. Teme a substituição de um cristianis- poeta deixou-se manifestamente inspirar mais pelo cor- mo moral por um cristianismo intelectual. Hipácia, que po de Afrodite do que pela respiração de Platão. Esta por uma vez não tem o papel “bonito”, representa estes idealização física de Hipácia procura fazer transparecer a novos “inimigos”; ela é esta sociedade de cultura, de sua virtude, e através dela, a luz do helenismo, definiti- arte, de inteligência que, no seu elitismo, confunde o vamente perdida na sua morte; observar-se-á que só a povo. A morte de Hipácia, inevitável de acordo com versão final, de 1874, torna Cirilo, o “vil Galileu”, respon- Kingsley, representa a queda dos filósofos da religião e sável pelo seu assassinato. As versões anteriores atribu- dos objetivos elitistas dos intelectuais. No momento da em o fim de Hipácia, e do helenismo, apenas a um ponto sua morte, a Hipácia de Kingsley volta-se para o Cristo de viragem inevitável da História, ao fim de uma era de Cosmocrata da abside e levanta os braços para ele, num Beleza por um mundo de impura fealdade (v. 67). gesto de conversão final que a redime. 15 A Virgem Hipácia, Beleza personificada, entra, com 17 Vê-se quanto as diversas retomas de Hipácia são ligaLeconte de Lisle, na tradição. Será por exemplo a Virgem das umas às outras, como de um Leconte de Lisle a um assassinada de Maurice Barrès, em 1888. O quadro de Mitchell ou a um Barras, se forja a imagem da virgem Charles William Mitchell (1885) é a expressão pictural assassinada, quanto esta figura é maleável, capaz de asdesta nova imagem da figura antiga. A sua Hipácia é uma sumir todas as causas, guardando, ao mesmo tempo, das Afrodite; e não se pode deixar de ver uma citação, em suas metamorfoses sucessivas os traços suscetíveis de espelho, da Vénus de Botticelli; uma Vénus cheia de ter- aumentar a dimensão emocional, o pathos. ror, atemorizada em frente de uma horda selvagem que 6

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18 Com o século XX e o progresso dos conhecimentos a residir no museu de Brooklyn, representa uma mesa históricos sobre este período turvo de Alexandria, o con- triangular de 16 metros de lado, montada para acolher texto das reutilizações de Hipácia altera-se sensivelmen- 39 convivas. Cada lugar é guarnecido por um arranjo de te; a leitura mais fina dos textos antigos e a colocação mesa individualizado, com o nome da hóspede; em cada em contexto dos factos relatados matizam fortemente o lugar, um prato, também individualizado, figurando um quadro elaborado até então. O esclarecimento das cir- sexo feminino cuja estética escolhida deve evocar a percunstâncias políticas e partidárias que levaram ao assas- sonalidade da conviva; 39 convivas, 39 mulheres que sinato de Hipácia apazigua os espíritos: apesar do horror têm naturalmente, cada uma à sua maneira, marcado a do crime, Hipácia não pode mais ser apenas a branca civilização ocidental. Aí se encontram figuras históricas vítima de um cego fanatismo cristão. Estes novos conhe- como Hatschepsout, Christine de Pisan, Eléonore de cimentos travam a sua utilização no debate religioso Aquitânia, Elisabeth 1ª, ícones do feminismo nascente que, sinal dos tempos, não é mais, de qualquer modo, assim como homossexuais militantes, mas também entiatual. Mas Hipácia não cessa, no entanto, de ser utilizada dades mais vagas como a deusa primordial, ou outras como porta-voz das mais diversas causas. Citemos, sem divindades antigas como Ishtar. Hipácia, por conseguinpreocupação de exaustividade, a sua entrada no comba- te, está bem acompanhada! te político, em Andrée Ferretti, em 1987, onde Hipácia se 21 Quer seja por um esteticismo idealizado ao extremo, torna «a última resistência à instauração de um primeiro como em Leconte de Lisle, ou pela trivialidade mais propoder absoluto fundado numa visão hegemónica do vocante das vulvas de Judy Chicago, Hipácia foi capaz de mundo». Ou o seu papel de figura de proa em título de entrar em todos os discursos, de tornar-se a porta-voz revistas ou de obras que defendem a ciência no femini- de todas as causas. Os comentários de John Thorp resuno, quer sejam mulheres filósofas ou mulheres matemá- mirão com vantagem o largo espetro das recuperações ticas ou simplesmente feministas: Hypatia: A Journal of às quais Hipácia deu lugar: Já na antiguidade tardia, era Feminist Philosophy (desde 1983); Hypatia: Feminist Stu- ela uma heroína pagã por ter sido massacrada por crisdies (desde 1984); M. Alic, Hypatias Töchter. Der verleu- tãos, ou ainda uma heroína dos arianistas por ter sido gnete Anteil der Frauen ano der Naturwissenschaft massacrada pelos ortodoxos, ou ainda uma heroína dos (1986); Hypatia' s Daughters. Fifteen Hundred Years of cristãos de Constantinopla por ter sido massacrada pelos Women Philosophers (1996). Hipácia, por conseguinte, cristãos descomedidos de Alexandria. Mais recentemencaiu finalmente sob o controlo do movimento feminista. te, viu-se tratada de heroína anticlerical, vítima da hieNada de surpreendente enquanto “primeira mulher uni- rarquia; heroína protestante, vítima da igreja católica; versitária da tradição ocidental”. Se ela serve, na maior heroína do romantismo helenizante, vítima do abandono parte do tempo, de emblema para investigações sérias pelo Ocidente da sua cultura helénica; heroína do positisobre o lugar das mulheres na ciência, cobre também vismo, vítima da conquista da ciência pela religião; e, derivações ideológicas muito menos científicas. É assim muito ultimamente, heroína do feminismo, vítima da que sob a pluma de Ursule Molinaro, Hipácia se torna a misoginia cristã. primeira mulher sexualmente libertada, graças à sua cultura; primeira e última antes de muito tempo, dado que, 22 Poder-se-ia acrescentar ainda, heroína aristocrata de acordo com a autora, o cristianismo vai forçar as mu- apanhada na armadilha da filosofia; heroína da liberdade lheres a uma submissão sexual sem prazer: O assassinato e da rebelião contra qualquer poder absoluto… mas a sórdido da famosa filósofa Hipácia, em 415, por uma lista, em todo o caso, não é exaustiva, nem está definitimultidão de cristãos, em Alexandria, marca o fim de uma vamente fechada! época onde as mulheres ainda eram apreciadas pelo seu cérebro sob a sua cabeleira. 19 É destas reflexões que surgiram as Hipácia, nome “artístico” atribuído a si próprias por várias prostitutas? 20 Hipácia marcará igualmente a arte feminista. A artista estadunidense Judy Chicago fará figurar Hipácia no seu Dinner Party, de 1979. Esta instalação monumental, hoje 7

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EFEMÉRIDE - Com recurso a Fernando Savater, num texto já publicado em português, e a Ana Paula Rosendo, numa reflexão heideggeriana, mediada pelo seu autor de eleição, Michel Henry, bem como com uma pequena nota biobibliográfica evocamos aqui os 40 anos da morte Martin Heidegger (1889 – 1976). Para o próximo número, um nome se destaca: David Hume de cuja morte se assinala, este ano, o 240º aniversário. Breve nota biobibliográfica Martin Heidegger segundo F. Savater Nascido a 26/9/1889, em Meßkirch, Baden, na Uma das correntes filosóficas mais notáveis Alemanha, começou por estudar teologia, na universi- do século XX foi o existencialismo, que herda de dade de Fri- Kierkegaard a sua preocupação com o homem burgo, tendo concreto e sobretudo a noção de possibilidade como derivado uma vertigem angustiante perante a permanente para filosofia ameaça do nada e do não-ser. O seu principal e sido discí- representante, e sem dúvida uma das figuras mais pulo de Ed- destacadas do pensamento contemporâneo, é o mund Hus- alemão Martin Heidegger, nascido em Messkirch, serl, o fundador da fenomenolo- na Alta Suávia. Primeiro, quis ser sacerdote católico, mas trocou essa vocação pela filosofia, sob a influência de Heinrich Rickert e, sobretudo, da fenomenologia de Edmund Husserl, de quem foi gia. Tendo- professor assistente. Quando chegou o regime nazi, se candida- foi nomeado reitor da Universidade de Berlim e tado ao ensi- pronunciou um discurso reitoral de claras simpatias no universi- hitlerianas. Embora se fosse afastando tário, com do nazismo, cujos aspectos biologistas e raciais uma tese sobre Duns Scoto, “A Doutrina das Categorias eram estranhos ao seu pensamento, nunca rompeu e do Significado em Duns Scoto”, vem a ser assistente de forma explícita com ele e muito menos de Husserl, a quem sucede na cátedra de filosofia, no denunciou as suas atrocidades. Depois da derrota ano de 1929. Já então havia escrito, em 1927, a sua do Terceiro Reich, foi afastado durante anos da obra fundamental “O Ser e o Tempo”, dedicada a Hus- docência, até que, a pouco e pouco, a sua obra foi serl que, no entanto, não a aprovara. Do ano de 1929, de novo considerada e alcançou a maior das são os textos “Sobre a essência do Fundamento” e influências, desde a Europa até ao Japão. O estilo “Kant e o Problema da Metafísica”. literário de Heidegger é sumamente arrevesado, propenso à invenção de neologismos ou Em maio de 1933, ano em que Hitler sobe ao etimologias arbitrárias e, nos seus piores poder na Alemanha, Heidegger inscreve-se no partido momentos, converte-se num calão obscurantista, nazi, sendo, pouco depois, nomeado reitor da universi- ainda mais louvado por aqueles que menos o dade de Friburgo, em cuja tomada de posse exaltou a entendem. ditadura nazi, com o discurso “A autoafirmação da uni- A obra capital de Heidegger é, sem dúvida, versidade alemã”; mas dez meses depois demitiu-se do O o uma espécie de antropologia cargo. filosófica do homem moderno, que deixou Entre as obras publicadas posteriormente, des- inacabada (apesar de ser um dos seus primeiros livros). O seu ponto de partida é que a filosofia, tacam-se: “Hölderlin e a Essência da Poesia” (1937); quase desde os seus primórdios, esqueceu a “A Doutrina de Platão sobre a Verdade” (1942); pergunta pelo ser. Uma tentativa de esclarecimento: “A Essência da Verdade” (1943); “Carta sobre o Huma- é preciso distinguir os diversos entes do ser, quer nismo” (1947); “Introdução à Metafísica” (1953); “O que dizer, o que há (objectos viventes ou inanimados) é a Filosofia?” (1956); “Nietzsche” (1961). do facto de existir ou ser. A metafísica ocidental Vem a falecer, em Friburgo, em 26/5/1976. dedicou-se a estudar o que há, os entes, procurando 8

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em geral um ente superior aos outros, que oficie homem deverá voltar ao autenticamente seu, à como maestro nessa grande orquestra, mais ou liberdade das possibilidades e à correspondente menos harmoniosa; mas a autêntica questão de angústia que as car acter iza como duplos: a fundo é que o próprio concerto tenha lugar e essa angústia de sermos nós mesmos e nada mais que questão não se resolve recorrendo a nenhum dos nós mesmos, da qual nenhuma ajuda social nos intérpretes nem a qualquer instrumento musical. A poderá aliviar (a angústia da vida), e a angústia de filosofia moderna acredita que o ser é um objecto e estar sempre perante o não-ser e caminhar de modo que o Eu do sujeito é o seu fundamento e que o implacável para ele (a angústia da morte, ou a exis- tempo em que tal objecto se manifesta é puro tência como «ser-para-a-morte»). Quer dizer, a an- presente, pois o passado já não é e o futuro ainda gústia das possibilidades da liberdade e a angústia não é. Heidegger discorda radicalmente desta perante a definitiva possibilidade da impos- perspectiva. sibilidade, que tornará tudo possivelmente impossí- Há que voltar à pergunta pelo ser, mas, para vel: a morte. Ao saber-se e aceitar-se na sua possi- não o confundir com qualquer ente, é preciso bilidade perante o nada, que aniquilará de forma indagar em que consiste o ser para o ente que irremediável todas as nossas outras possibilidades, conhecemos melhor, ou seja, para nós mesmos. A ao não afastar a vista do nada e ao assumir a forma característica do ser do homem é o Dasein, a instabilidade perante ele, o homem alcança uma existência, que consiste em ver-se atirado para o existência autêntica. A sua estrutura essencial será o mundo e ter de se debater na incerteza da história. cuidado, a preocupa- O homem pode existir de duas formas: de maneira ção com as coisas e inautêntica e de maneira autêntica. A maneira com os outros, que inautêntica consiste em ater-se ao que «se» faz, converte a existência «se» diz, «se» pensa ou «se» venera e, portanto, num permanente trans- deixar-se levar por aquilo que nos vem de fora e cender em direcção não desvela - pelo contrário, oculta - o autentica- àquilo que ainda não é, mente nosso. Esta existência inautêntica não é de àquilo que mais cedo todo «má» (não são apenas as modas e as rotinas ou mais tarde já não que fazem parte dela, mas também as normas éticas será. O tempo constitui e as leis estabelecidas), mas é inferior e não pode -nos, mas, das suas três revelar-nos a verdade do ser. Uma das formas inau- fases tradicionais - pas- tênticas mais peculiares da modernidade é a sado, presente e futuro técnica, o «ter à mão» os objectos para os pôr ao -, a que mais conta para serviço do que Nietzsche chamava a «vontade de quem vive autentica- poder». Para Heidegger, a técnica constitui o maior mente é o futuro, onde está aquilo que desmente e perigo de que o homem se esqueça e vá contra a sua aniquila tudo o que consideramos estabelecido. relação autêntica com o ser. I – in História da Filosofia sem Medo nem Pavor, Lisboa, Planeta. 2011, pp. Para descobrir a sua existência autêntica, o 176-178. Cuidar é humanizar transforma progressivamente numa solicitude ou na por Ana Paula Rosendo disposição resultante de uma preocupação com o outro. Portanto, na essência da natureza humana encontra- «Para onde se dirige o cuidado senão no sentido de reconduzir o mos, a par da palavra e inseparável dela, a ação como a homem novamente para a sua essência?» M. Heidegger1 morada do ser, a sua habitação (oikos). Segundo a nossa Martin Heidegger (1889-1976)2 é uma referência fonte, Heidegger terá escolhido o termo Sorge (cuidado, incontornável na temática do Cuidado porque inscreve a pre-ocupação) antes mesmo de utilizar o termo Dasein ação na essência do ser humano perspetivando-a quer (existente) na caracterização da nossa natureza, mos- quanto à sua origem, quer quanto à sua finalidade como trando que o Cuidado é a essência do humano. O ser um cuidado. Toda a ação que é uma produção manifes- humano encontra-se na “senda”, na “clareira” do Ser e é ta-se originariamente como um cuidar de si que se sempre uma possibilidade, um projeto, isto é, algo em 1- Heidegger, M., Carta sobre o Humanismo, trad. António José Brandão, Lisboa, Guimarães, 1985, p.41 9

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aberto que não está previamente determinado. Nesta em vida, algo já proposto às “avessas” pelo “Santo Nie- ótica, vamo-nos construindo no tempo através da nossa tzsche”, como já alguém sábio e estimável o chamava. A ação livre e responsável; esta aceção conduz à superação pedagogia da via da salvação passa pela proposta tradici- de todos os tipos de determinismos individuais e coleti- onal de uma praxis muito concreta presente nas obras vos, como os que encontramos presentes, por exemplo, de Misericórdia. no pensamento de um Hegel ou de um Marx, porque De qualquer modo, consideramos que quer em apesar de “eu ser sempre eu e a minha circunstância”, Heidegger, quer em Henry se encontra patente a ideia também sou possuidor de uma liberdade essencial que de um re-ligare, de um reencontro consigo, porque a me permite construir-me e o campo da História também ação é, na sua essência, uma produção do pensamento passa a ser algo aberto e indeterminado, porque o ser atuante no mundo, que deverá estabelecer o percurso humano pode sempre infletir ou modificar o seu rumo. de uma humanização progressiva, a passagem de um ser O projeto que somos significa que nos vamos menos a um ser mais superiormente manifesto sob a definindo através da ação que pode humanizar-nos ou forma do Cuidado; um ser unido e reconciliado. desumanizar-nos. Na Carta sobre o Humanismo Heideg- Nos gestos mais simples e quando executamos ger parece sugerir que vivemos num tempo de alienação as tarefas do dia-a-dia, as diversas actividades que nos e de crise, porque o desenvolvimento científico e tecno- solicitam e aquilo que fazemos são, na sua essência, um lógico tornou-se a essência do humano e o seu fim últi- cuidar e este cuidar é a nossa morada, o local onde a mo, uma escatologia que descarta a sua verdadeira es- nossa existência quotidiana está imersa e onde ela habi- sência que é o cuidar de si e do outro. Se há um caminho ta. Como é que devemos seguir no rumo de uma huma- humanizante, este deverá traduzir-se numa ação cuja nização crescente e fugir à desumanização que é o seu essência seja um cuidado, pondo em prática a ideia do contrário? A desumanização é equiparável ao tolher do “Homem como o pastor do Ser” famosa imagem heideg- desenvolvimento, à inibição do progresso, à passagem geriana que clarifica quer o objetivo da nossa missão no de um ser mais a um ser menos presente, por exemplo, mundo, quer o modo como nos é dado cumpri-la. no recurso comum e constante ao uso da violência, ou à Nas derivas do cuidado interpretadas à luz de desqualificação do outro, porque desqualificar o outro é uma matriz cristã desumanizá-lo; a raiz de todo o mal. É claro que o fenó- mais ortodoxa e meno da violência é revelador de algo essencial, o pro- declaradamente blema da violência é ontológico; a violência faz parte da confessional como nossa essência, enraíza nos limites do nosso ser, é ação a de M. Henry, inconsciente e desesperada do existente, manifesta os podemos deduzir seus limites. O problema da violência é profundo e poli- que só pelo cuida- facetado, poderá o cuidado transformar-se em algo pa- do conseguimos radoxal e subverter-se tornando-se num gesto de violên- chegar à Salvação. cia? A ideia de Salva- 1- Análise fenomenológica da ação na perspe- ção aqui proposta tiva de Michel Henry não corresponde à de “um céu vazio”, Uma resposta possível a esta questão pode ser mas à de um re- dada a partir de um problema levantado pelo filósofo nascimento neste Michel Henry: o problema da duplicidade do aparecer mundo; a Salvação que se encontra presente na ação porque, por um lado é aqui e agora, esta manifesta-se como enraizada num ego, isto é, como algo que pode e ser no mundo e, por outro lado, como a essência invisídeve acontecer vel e inefável porque não somos causa de nós próprios e o nosso enraizamento efetivo e originário não coincide 2- Aquilo que foi dito sobre o Cuidado em Heidegger fundamentou-se no artigo da Irene Borges Duarte, A Fecundidade Ontológica da Noção de Cuidado. De Heidegger a Maria de Lourdes Pintassilgo, Ex aequo, nº 21, 2010, pp. 115 a 131. 10

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com o nosso ego. Esta duplicidade da ação talvez possa Esta invisibilidade do não poder que se opõe a traduzir-se pela existência de uma sobreposição de dois todo o poder que se manifesta e que aparece na luz do planos, um de ordem ôntica e outro de ordem ontológi- mundo, tende a cair no esquecimento. Faz parte da na- ca. No primeiro plano manifestamo-nos no mundo como tureza do exercício do poder, qualquer que seja a sua egos e no outro como Eus. O que é que isto significa? natureza, a ocultação do não poder que lhe é subjacente Há uma citação de Plotino à qual Henry recorre e que, como passibilidade absoluta que é, é invisível e dizendo-nos que «os filhos não sabem mais que são fi- nunca se manifesta. É por causa da ocultação da essênlhos»3 será por isso que «o Homem terá perdido a noção cia, na sua passividade absoluta porque a essência, como da sua essência verdadeira?»4. A resposta a esta questão diz Henry na senda de grandes Mestres como Eckhart ou pode assemelhar-se a uma mera questão de uma retórica catequizante, mas visa concluir que o Homem não é Novalis, é “pobreza”, “nudez”, “solidão”, “deserto “ou “noite”7, que tendemos a esquecê-la. Ex. Na leitura de causa de si próprio, que a sua origem não depende de si um livro de Filosofia, em que utilizo o poder que me é nem dos seus poderes, «a origem transcendental do eu conferido pela visão a par de outros, tendo a esquecer a na vida é passiva na sua essência»5, independente da possibilidade de ficar cega e impossibilitada de o ler. Isto vontade do próprio. Num primeiro momento, há uma significa que o não poder que está subjacente a todo o passagem do eu como ipseidade e passividade absolutas poder se encontra oculto e a nossa ação no mundo acapara o ego e este processo tem a sua origem na auto- ba por ficar unicamente centrada naquilo que aparece, afeção que é consciência de si. Como é que um eu se isto é, no exercício dos nossos poderes neste mundo. Por transforma num ego? Já vimos que o eu se egotiza pelo isso, tendemos sempre a valorizar e a considerar apenas sentimento de si, só que este sentimento de si é a mani- aquilo que aparece e se manifesta, aquilo que é visível, festação de um processo maior que é a vida e a ipseida- palpável, etc. Faz parte da nossa natureza tendermos a de originadora do eu não precede de si própria, mas da esquecer que o Eu como poder é ilusório, centrados que vida. O eu na possessão de si origina o ego e dele dima- andamos exclusivamente no visível e naquilo que apare- nam todos os poderes «indistintamente»; os poderes do ce na luz do mundo. Esquecemos que o poder nos é ou- corpo e os do espírito que, no caso de Henry, não se dis- torgado, é uma dádiva e que não tem origem nele mes- tinguem um do outro. É por mexer os braços e por poder mo. Relativamente a esta questão, Henry cita S. Paulo na ver que consigo ler um livro de filosofia. carta aos filipenses: «É Deus que na sua bem querença produz em vós o querer e o fazer.»8 É também por estarmos na posse dos nossos poderes que podemos afirmar «eu quero»; como diz É indubitavelmente pelo ego que exercemos os Henry, «Eu quero quer dizer Eu posso»6. Estes poderes poderes, mas o ego como centro da iniciativa também é como por exemplo, o de agarrar, o de se mover, de sen- algo de paradoxal. «É por ser um eu que um ego é um tir, ou o de imaginar, encontram-se totalmente à nossa disposição. Cada um deles, à medida que é exercido, é ego e é por ser um ego que o ego é livre. Assim, não há ego que não seja livre»9. Portanto, o ego é totalmente sentido como sendo integralmente nosso, encontra-se livre de exercer os seus poderes e apesar de ser munda- completamente à nossa disposição e o eu que o exerce no, não se constitui como um objeto do mundo. Onde sente-se como seu possuidor absoluto. Ex: Eu quero mui- reside, então, o paradoxo inerente à ação mundana do to ir a Roma ou acabar a minha tese. Estou na completa ego? A questão é que, apesar do ego ser livre e ser mun- posse de mim mesma, dona e senhora da minha ação. dano, a origem dos seus poderes não está nele. Aliás, o Todavia, para cada um destes poderes que podem ser Homem não é mais do que o produto dos múltiplos de- livremente exercidos e que são plenamente sentidos terminismos que compõem a trama do seu universo como nossos, há um não poder, um não poder absoluto objetivo. Os poderes que o ego detém, originam a ilusão que habita nas entranhas do poder à medida que este se egóica tornada fundamento de todo o ser. «Assim nasce exerce. Este não poder faz parte e é condição necessária para o seu exercício. Ex: Só consigo ver porque não sou a ilusão transcendental do ego, ilusão pela qual este ego se toma a si mesmo como fundamento do seu ser»10. O cega, mas a cegueira também é inerente à minha condi- ego ilude-se e tende a esquecer a sua condição essencial ção de poder ver e qualquer dia posso ficar cega. de dependência, em Henry de matriz cristã, a sua condi- ção essencial de filho. 3- C’est Moi la Verité: pour une philosophie du christianisme, Paris, Seuil, 1996, p. 170; 4- Ibidem, p. 176; 5- Ibidem, p.171; 6Ibidem, p.172; 7-Todos estes adjectivos que caracterizam a essência encontram-se na obra L’Essence de la Manifestation; 8Ibidem, Henry cita S. Paulo na Carta aos Filipenses (2, 13), p. 174; 9- Ibidem, p.176; 10- Ibidem, p.177. 11

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A primeira causa do esquecimento da condição seu reencontro com a Vida (Pai) é imperioso; a figura do transcendental de filho deve-se ao facto de o ego sair do pai na Parábola do Filho Pródigo também revela a essên- seu meio originário e, perdido no mundo, iludir-se sobre cia da ação como um cuidar desinteressado, o cuidar si mesmo, achando que tudo pode. O problema é que inerente ao amor paternal, um amor similar ao que a quanto mais exerce o seu poder, mais se esquece da sua Vida tem pelos vivos. origem, do seu não poder, dos seus limites e possibilida- Importa referir que Henry tem plena consciência des reais, enfim, da dádiva que lhe foi outorgada. Esque- de que há nesta proposta de salvação, um problema de cido do seu verdadeiro eu, o ego passa a alimentar-se do difícil solução, o da impossibilidade de encontrar a Vida mundo. Esquecido da sua verdadeira condição, projeta- absoluta no Mundo a partir do seu conhecimento; se fora de si e transforma-se na sua única realidade. O «Reencontrar a Vida absoluta na sua própria vida, eis império do visível passa a ser o seu único valor, o único aquilo que nos é muito difícil, precisamente porque que merece o seu esforço e a sua perseverança. O valor esta se esconde e, contrariamente aos nossos poderes, não nos pertence.»12 O conhecimento da Vida absoluta do objeto externo, o único realmente válido, é atribuído não se dá como o conhecimento de uma qualquer coisa a partir da relação que o ego vai estabelecendo com esse e é por isto que, não é de modo algum, a consciência objeto, passando a alimentar-se única e exclusivamente que nos salva. Deus não é passível de ser conhecido pela de si mesmo. O eu projetado no mundo é irreal exibe-se razão. A essência de Deus é uma presença invisível «está na sua luz, que não é a sua verdade, afastando-se da sua presente sem que nós consigamos vê-lo»13. Em Henry, essência. É a alienação e a excentricidade (fora de si) do Deus é auto revelação absoluta na vida e não pura inteli- Homem na sua condição de Narciso que conduzem à sua gência passível de ser compreendida pelas categorias da desumanização. É este ego mundano que se tem a si razão. Na total impossibilidade que há em compreender- próprio como única finalidade e que pode ser designado mos os seus desígnios, há que fazer uma opção, a de como egoísmo transcendental e quanto mais se alimenta percebermos que aquilo que conta é a ação. A nossa es- de si, mais esquece tende a esquecer os seus limites e as sência, aquilo que nos define é, indubitavelmente, a nos- imperfeições inerentes à sua condição, processo que sa ação, uma ação que traduzida num cuidar, já não é um cuidar de si mesmo, mas um cuidar solicito similar ao ocorre muito naturalmente, na medida em que na es- presente na Parábola do Filho Pródigo, reveladoras do sência que é a Vida, não há nenhum mundo. É a oculta- cuidado incondicional de um pai pelo seu filho. Mas tal- ção sistemática da essência que provoca a ilusão egóica vez a Parábola mais contemporânea e adequada à con- e esta ilusão é desumanizadora; aqui não há verdadeiro juntura internacional do mundo nos dias de hoje e com a amor e o Cuidado transforma-se num meio para a obten- crise dos refugiados seja a Parábola do Bom Samaritano. ção de ganhos pessoais e para o crescimento desmesura- Nela se espelha um cuidado muito raro e verdadeira- do de um falso poder, o poder ilusório de controlar o mente desinteressado, já não o cuidar de um filho, algo mundo, a ilusão de nos equipararmos a Deus (apesar de supostamente natural, mas o cuidar de um estranho, também o sermos, mas isso fica para outra hora). 2. Dois caminhos possíveis: o meu e o nosso alguém diferente, até mesmo hostil. Numa ética do cuidado derivada da Fenomenologia Material de Michel Henry, aquilo que nos permite o nosso segundo nasci- A ética cristã é uma proposta de salvação, sugere mento ou a Salvação é a prática porque «o agir implica que encontremos a nossa essência que é a Vida ou Deus que nos engendra na própria vida que por ela é engen- uma posse de si». Agir sim mas, como também nos diz «Confia no agir, mas não num agir qualquer»14. drada. Para encontrarmos a Vida na vida, o cristianismo Devemos confiar num agir que, muitas vezes, surge como a proposta de salvação. Uma proposta de desqualifique a linguagem e a contradiga, um agir que se salvação que corresponde a um segundo nascimento e traduza num cuidado verdadeiramente desinteressado onde há dois caminhos possíveis; o caminho do Mundo e como o do Bom Samaritano porque, são muitas as vezes o caminho da Vida. «A condição do Homem como filho em que o cuidado se manifesta como um farisaísmo, um é, precisamente, aquilo que nos permite a salvação»11. cumprimento insensato e irrefletido da lei, fruto da nos- Gostamos de estabelecer um paralelo entre a ação do sa vontade de poder e das nossas ilusões egóicas de Filho Pródigo e a ação do homem no mundo. Uma das “bondade” e de glória que em vez de cuidarem e ajuda- nossas conclusões habituais é a de que um ser vivo rem a crescer, tendem a violentar a aviltar e, claro está, (filho) não retira a sua condição de si mesmo e de que o a matar. 11- Ibidem, p.192; 12- Adaptação de uma frase de Henry, ibidem, p.193; 13- Ibidem, p. 195: 14- Ibidem, p. 211 12

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DEBATENDO - Iniciámos, no número seis, um debate sobre ESTADO LAICO E LIBERDADE RELIGIOSA ao qual damos continuidade neste número e, cremos, ainda em números posteriores. Partindo do pressuposto de que o Estado laico é a melhor forma de assegurar a liberdade religiosa, está aqui em questão qual a forma pela qual o Estado deve gerir a sua relação com as Igrejas. Dois textos de épocas bem diferentes (séculos XVII e XXI) levantam a mesma questão, isto é, a de saber como deve o Estado relacionar-se com as religiões. Espinosa trata do assunto no seu Tratado Teológico-Político, do qual extraímos um excerto, e o nosso colaborador João Álvaro volta ao tema para justificar a interferência do Estado, com base no que classifica como a essência do religioso. Espinosa sobre o culto religioso e o Estado1 Estado laico e liberdade religiosa Quando atrás estabeleci que que aqueles que O dever do Estado laico têm o poder em suas mãos por João Álvaro têm, por si sós, um direito Como respeitar a liberdade religiosa num estado absoluto sobre todas as coisas laico? Sabemos que os Estados-não-laicos ou não res- e que todo o direito só depen- peitam a liberdade religiosa (e apenas aceitam uma reli- de da sua vontade, não me gião) ou permitem (toleram) outras, mas tratam-nas de referia unicamente ao direito modo desigual. Pelo que um Estado que se diga laico, civil, mas também ao direito mas que tenha o mesmo procedimento de preferência sagrado de que são, por sua vez, intérpretes e sustentá- em relação à religião da maioria, por exemplo, apenas é culo. Quero insistir neste ponto e tratá-lo de modo laico na letra que não na prática. exaustivo neste capítulo pois que muitos são aqueles O que justifica a existência de um Estado laico? que negam que o direito de regular as coisas sagradas Ou, por que razão um Estado laico é preferível a um pertença aos que estão à frente dos negócios públicos e Estado religioso? As razões poderão ser múltiplas, mas se recusam a reconhecê-los como intérpretes do direito seguramente porque, sendo as religiões diversas, o Es- divino. tado laico está em melhores condições para assegurar o Partem daqui para acusá-los, persegui-los judi- exercício religioso plural e até mesmo a ausência de cialmente e, nalguns casos, como santo Ambrósio em orientação religiosa. Mas para que isso aconteça há que relação ao imperador Teodósio, expulsá-los do seio da ter regras claras sobre essa laicidade, pois que, como igreja. Demonstraremos, neste capítulo, que estas pes- acima referi, um Estado dito laico com procedimentos soas introduzem, deste modo, no Estado, um princípio de primazia para um culto e secundarização dos restan- de divisão, abrindo um caminho para a autoridade su- tes não cumpre a sua missão. Há pois que esclarecer o prema; mas antes quero provar que a religião só adquire força de direito por decreto dos que têm a faculdade papel do Estado laico. O qual é, sobretudo, o de gerir o de mandar, que Deus não pode fundar o seu reino en- direito ao exercício religioso (incluindo o direito a não tre os homens sem ser por meio dos soberanos, e, além ter qualquer religião). disso, que o culto e o exercício da piedade devem estar E por que razão as «pulsões» religiosas têm que de acordo com a tranquilidade e a utilidade pública, e, ser geridas do exterior, isto é, de fora das próprias orga- por conseguinte, determinados pelo soberano que deve nizações religiosas? Pois bem, é a própria História hu- também ser o intérprete das coisas sagradas. mana que nos alerta. Na luta dos povos pela hegemonia Falo aqui expressamente do exercício da pieda- sobre outros povos, a religião tem tido um papel rele- de e do culto exterior da religião e não da piedade em si vante. A aculturação, mesmo que violenta, tem tido na mesma e do culto interior dirigido à divindade, ou dos religião um suporte incontornável, com recurso ao deus meios pelos quais o espírito se dispõe, interiormente, a único, à verdade única, ao caminho único de salvação honrar a Deus em toda a integridade da consciência. O da humanidade. Se quisermos retirar esse papel históri- culto interior dirigido à divindade e a piedade em si co à religião (ou, para sermos mais precisos, àquelas mesma pertencem propriamente a cada qual e não podem submeter-se a vontade alheia. que sempre têm funcionado desse modo) há que criar as condições que permitam o são convívio das diferen- 1 - in Tratado Teológico-Político, cap. XIX. 13

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tes religiões. Porém, a maior parte das religiões (pelo mitir que ideologias antidemocráticas permaneçam no menos as mais influentes) estão impregnadas das carate- seio da sociedade. E pode e deve fazê-lo porque essas rísticas históricas da sua exclusividade, isto é, as religi- normas e costumes não pertencem à essência do fenó- ões, cada uma por si, têm-se tomado como as únicas meno religioso. possuidoras da verdade salvífica e não raro veiculam E qual é ela, a essência do fenómeno religioso? normas de conduta que assentam em visões antidemo- Tão só a existência de um ser poderoso (criador do uni- cráticas do mundo (xenófobas, racistas e machistas). verso) cujo poder os humanos querem (por rituais de Ora, esta tendência exclusivista e antidemocrática tem veneração e prece) chamar para sua proteção. Tudo o que ser sustida pelo Estado laico. O Estado laico tem de mais é circunstancialismo histórico que não é essencial impor às religiões não apenas a livre aceitação de outras em matéria de religiosidade. O Estado laico tem aqui a expressões religiosas como também a expurgação, nas justificação suficiente de interferência, pois que só ela suas doutrinas, do que seja de natureza xenófoba, racis- garantirá que ninguém é ou será perseguido por profes- ta e machista, sob pena de, não o fazendo, estar a per- sar uma religião ou por não ser religioso. FILOSOFIA E CINEMA - Nesta rubrica, Luís Ladeira faz emergir um filme ,«Ágora» de Almenábar, que já passou pelos Cinemas há algum tempo, mas que tem como referência a personagem histórica que o “autor convidado” deste número também trata, isto é, Hipácia de Alexandria, nascida no século IV. Mas não só por isso se justifica recordar este filme... ÁGORA de Alejandro Amenábar politeísmo; se a verdade única não tivesse abafado a Realização: 9 de outubro de pluralidade da verdade. 2009 (Espanha) Olhar para este filme como um documentário é Direção: Alejandro Amenábar um erro: embora sustentado em acontecimentos e per- Produção: Álvaro Augustín/ Fernando Bovaira/Simón de sonagens históricos, recriando uma trama coerente, o Santiago/ José Luis Escolar/Jaime Ortiz de Artiñano enredo obedece a uma ideia central que lhe dá uma Roteiro: Alejandro Amenábar/ Mateo Gil Elenco: Rachel Weisz/ Max Minghella/ Oscar Isaac/ Rupert Evans Género: drama histórico Música: Dario Marianelli Cinematografia: Xavi Giménez Edição: Nacho Ruiz Capillas Idioma: inglês determinada interpretação. Porém, querer vê-lo como uma distorção histórica é um erro maior. Alejandro Amenábar quis fazer a apologia da filosofia e denunciar como obscurantista e estiolante o culto da «verdade revelada». E isso consegue-o plenamente. Mesmo que Hipácia, como filósofa, possa ser uma ficção. Mesmo que o incêndio (os incêndios) da biblioteca de Alexandria não seja responsável pelo desaparecimento de uma obra filosófica que nunca terá existido! Ler, a este pro- pósito, o texto de Anne-Françoise Jaccottet, Hipácia de Ágora, o filme, é uma ficção. Hipácia, não. Po- Alexandria, nesta edição da revista. rém, a Hipácia do filme, é, em grande parte, ficção. O Ágora de Amenábar é pois um manifesto contra realizador serviu-se de uma figura histórica, cuja exis- o fanatismo e a verdade revelada. E é, fundamental- tência emerge no clima violento da afirmação do cristia- mente, um apelo à inquietação filosófica. O que não é nismo na Alexandria romana (império romano do orien- pouco. E mesmo que a cedência ao uso do inglês, como te), para apresentar uma mensagem contundente: há língua veicular (o que é que o justifica?), não o tenha entre este século IV, de Hipácia, e os séculos XVI e XVII, catapultado ao estrelato, não merece ser ignorado, co- de Galileu e Kepler (trazidos de modo ficcionista para o mo quase foi, quando passou pelas pantalhas das casas tempo de Hipácia), um hiato de obscuridade científica de espetáculo. / Luís Ladeira que poderia ter sido evitado se o cristianismo não tives- se triunfado. Se o monoteísmo não tivesse derrubado o COLABORE NA VACA MALHADA Envie o seu original, para o número de verão 2016, até 8/9. 14

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RECENSÃO - Victor Gonçalves faz-nos a recensão de uma obra de um autor alemão, de origem oriental, por alguns apontado como sucessor de Sloterdijk. A Sociedade do Cansaço, Byung-Chul Han, tradução de Gilda Lopes Encarnação para a Relógio D’Água, 2014. por Victor Gonçalves Com A Sociedade do Cansaço (Müdigkeitsgesellschaft, Tanto mais que “O paradigma imunológico não é 2010), Byung-Chul Han (sul compatível com o processo de globalização.” (p. 12) A coreano, estudante de verdadeira ameaça não vem agora de outrem, mas do metalurgia, formando-se depois próprio, cheio de positividade, alimentada, e em filosofia na velha Alemanha, alimentando, uma sobre-produção e uma sobre- com um doutoramento sobre comunicação histriónicas, contra as quais, por serem da Martin Heidegger) veio abanar mesmidade, não se consegue realmente reagir o meio filosófico alemão (quase (dinâmica cancerígena). Por excesso de positividade, a medusado pela áurea oceânica revolta tornou-se impossível, gozamos de uma infinita de Peter Sloterdijk). Estranha-se liberdade de escolha para produzir, consumir e que um livro tão curto (60 pp. comunicar até ao esgotamento, na vaga esperança de na tradução portuguesa) tenha “nos realizarmos”. Segundo Byung-Chul Han, a actual tido um impacto tão grande (apesar do autor ser omnipresença da performance demonstra o declínio desconhecido, vendeu quase imediatamente 2000 das sociedades da disciplina e da obrigação descritas exemplares na Alemanha, está traduzido em várias por Michel Foucault, hoje o sujeito modelo é o sujeito línguas e tem recensões prolíficas em francês e inglês). performativo, arredado de qualquer combate por Talvez a palavra “cansaço” – dentro da tese de Byung- princípios de justiça. Autodefinindo-se dentro dos Chul Han de que somos a civilização do cansaço (mau), limites que ele próprio escolheu para agir e ser. Sujeito uma doença, epidémica, sem verdadeiro antídoto – pós-colectivo, o seu estilo de vida extrema o tenha despertado o interesse do grande público. individualismo. Senhor e escravo de si mesmo, não se Por quê? Porque na nossa época (alucinada pela submete a ninguém, excepto a si e à ilusão de uma performance, cujo imperativo económico-moral poderia liberdade benigna sem limites. Em boa verdade, esta ser: “que as regras da tua conduta sirvam como modelo liberdade é paradoxal porque exige solidão (“o Eu universal de performatividade!”) não há reais inimigos tardomoderno está totalmente isolado”, p. 34), quando exteriores(I). Nas doenças bacterianas, e nas sociedades para Han a liberdade é sempre a liberdade com os da disciplina, era preciso combater as bactérias, ou as outros. E este paradoxo acaba por manifestar as linhas ordens, nas viroses, os vírus, era a cena tradicional das patológicas do cansaço: “A sociedade de trabalho e de patologias modernas. Mas na tardomodernidade produção não é uma sociedade livre. A dialéctica do (aposta da tradutora para postmodern) a imunização já amo e do escravo não desemboca, afinal, numa não trabalha com os meios defensivos normais: fechar sociedade em que cada homem que seja capaz de se ou dificultar o acesso da doença e construir anticorpos. entregar ao ócio é um ser livre. Ela conduz antes a uma Na época bacteriana, os amigos e inimigos estavam sociedade de trabalho em que o próprio amo se tornou claramente definidos, princípio da Guerra Fria e da escravo do trabalho.” (p. 35) Por outro lado, a ausência oposição proletariado/capitalistas. Esta polarização de crenças, o despojamento narrativo do mundo, simplista tornou-se anacrónica, o estrangeiro e o reforça o isolamento e “o sentimento de efemeridade, estranho já não são inimigos, mas coisas diferentes, e a tornando a vida nua.” (p. 34) simples diferença não possibilita reacções imunitárias. (I) - Alain Ehrenberg em La fatigue d’être soi. Dépression et société, 1998, defendia, num tom mais sócio-psicanalítico, que o cansaço provinha da obrigação de se ser si mesmo, de uma realização pessoal assumindo aquilo que se é, tarefa muito mais exigente do que a da velha obediência e respeito pelos interditos, onde a identidade se construía essencialmente pelo género, a classe social e o grupo profissional. Tudo isto enquadrado pelas lógicas disciplinares e de autoridade. Mas Ehrenberg avançava já com o mito do empreendedorismo, com poucos vencedores e muitos vencidos, sem nenhum exterior para responsabilizar, o falhanço na idade neoliberal deve-se exclusivamente a quem tentou mal ou não tentou, em vez de agressividade social fica-se com a vergonha de si mesmo. Tudo isto, diz Ehrenberg, aumenta exponencialmente os distúrbios de personalidade. 15

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