Revista O Biólogo nº 38 | A importância do registro profissional para a defesa da categoria e da sociedade

 

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Revista O Biólogo nº 38 | A importância do registro profissional para a defesa da categoria e da sociedade

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Ano X - no 38 - Abr/Mai/Jun 2016 o Biólogo Revista do Conselho Regional de Biologia - 1a Região (SP, MT, MS) ISSN 1982-5897 Biólogos A importância do registro profissional para a defesa da categoria e da sociedade Bertha Lange Pioneira da Biologia no Brasil O nome dos Seres Vivos Por que novas espécies ganham nomes de celebridades Pai da genética Os 150 anos das descobertas de Gregor Mendel

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TOME NOTA O Biólogo ÍNDICE Revista do Conselho Regional de Biologia 1a Região (SP, MT, MS) Ano X – No 38 – Abr/Mai/Jun 2016 ISSN: 1982-5897 Conselho Regional de Biologia - 1a Região (São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul) Rua Manoel da Nóbrega, 595 – Conjunto 111 CEP: 04001-083 – São Paulo – SP Tel.: (11) 3884-1489 – Fax: (11) 3887-0163 crbio01@crbio01.gov.br / www.crbio01.gov.br Delegacia Regional de Mato Grosso do Sul CRBio-01 Rua 15 de novembro, 310 – 7o Andar – sala 703 CEP: 79002-140 – Campo Grande – MS Tel.: (67) 3044-6661 – delegaciams@crbio01.gov.br Delegacia Regional de Mato Grosso - CRBio-01 Em breve novo endereço Diretoria Eliézer José Marques Presidente Luiz Eloy Pereira Vice-Presidente Celso Luis Marino Secretário Edison Kubo Tesoureiro 03 Editorial 04 Registro profissional 09 Ecos da Plenária 10 Grandes Biólogos Brasileiros Bertha Lange de Morretes Conselheiros Efetivos (2015-2019) Celso Luis Marino; Edison Kubo; Eliézer José Marques; Giuseppe Puorto; Iracema Helena Schoenlein-Crusius; João Alberto Paschoa dos Santos; João Sthengel Morgante; Luiz Eloy Pereira; Maria Saleti Ferraz Dias Ferreira; Wagner Cotroni Valenti. Conselheiros Suplentes Ana Paula de Arruda Geraldes Kataoka; André Camilli Dias; Edison de Souza; Horácio Manuel Santana Teles; José Carlos Chaves dos Santos; Maria Teresa de Paiva Azevedo; Marta Condé Lamparelli; Normandes Matos da Silva; Regina Célia Mingroni Neto; Sarah Arana. Grupo de Trabalho na Área de Comunicação do CRBio-01: Giuseppe Puorto (Coordenador) João Alberto Paschoa dos Santos João Stenghel Morgante Wagner Cotroni Valenti Jornalista responsável: Jayme Brener (MTb 19.289) Editor: Cláudio Camargo Textos: Edmir Nogueira, Cláudio Camargo, Silvia Kochen e Carla Itália Projeto Gráfico, Diagramação e Capa: Regina Beer Periodicidade: Trimestral Os artigos assinados são de exclusiva responsabilidade de seus autores e podem não refletir a opinião desta entidade. O CRBio-01 não responde pela qualidade dos cursos divulgados. A publicação destes visa apenas dar conhecimento aos profissionais das opções 2 O BIOLOGO Jan/Fev/Mar 2015 disponíveis no mercado. 12 O nome dos Seres Vivos 15 Arquivo do Biólogo 16 Mendel e o nascimento da genética 18 Ilustração científica 21 Vida em tempos de mudança 22 CFBio Notícias

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EDITORIAL Caros Biólogos, O CRBio-01 – Conselho Regional de Biologia – 1ª Região (SP, MT e MS) é o que congrega o maior número de Biólogos inscritos do Brasil, o que corresponde atualmente a cerca de 17 mil profissionais, ou seja, Biólogos aptos a exercer legalmente suas atividades. Do ponto de vista formal, considerando que a profissão de Biólogo está incluída no rol daquelas regulamentadas, o registro profissional é essencial para o exercício legal das atividades da categoria, para a valorização da mesma, para assegurar a ampliação dos campos de atuação, para a salvaguarda dos direitos do Biólogo e, ao mesmo tempo, para garantir a prestação de serviços responsáveis e com qualidade para a sociedade. Nos últimos anos, apesar do número representativo de cursos de Ciências Biológicas no país, o Sistema CFBio/CRBios, da mesma forma que outros conselhos profissionais, vem experimentando uma redução do número de novas inscrições, bem como uma sensível redução nas ofertas e/ou oportunidades de trabalho profissional. Nesta edição, você também vai conhecer a fascinante história da professora Bertha Lange de Morretes, uma das pioneiras da Biologia no país, especialista em anatomia vegetal e que dedicou uma vida exemplar na formação de novos profissionais e a excelência de trabalhos científicos na sua especialidade, junto à Uni- versidade de São Paulo (USP). Uma reportagem trata da nomenclatura científica e destaca algumas curiosidades sobre o hábito de nomearem seres vivos com nomes de celebridades, como o anfíbio amazônico Allobates vanzolinius, que homenageia Paulo Vanzolini, ou a aranha australiana Pinkfloydia harveii, referência à banda Pink Floyd. Outro destaque desta edição são os 150 anos da descoberta dos princípios da Genética pelo monge austríaco Gregor Mendel, a partir de pesquisas com ervilhas. A descoberta, no entanto, só seria reconhecida em 1901, bem depois da morte de Mendel, mas representou uma revolução no conhecimento científico. Leia também sobre a evolução da ilustração científica, principalmente a partir dos trabalhos de Margaret Mee, que hoje é reconhecida não apenas como um instrumento auxiliar preciso, necessário à pesquisa científica, como também pelo seu valor artístico. Por fim, lamentamos profundamente o falecimento do Prof. Titular Doutor Paulo Yoshio Kageyama, Engenheiro Agrônomo de formação e que ao longo de sua vida profissional se destacou como um dos mais importantes conservacionistas do Brasil e sempre dedicou um carinho especial aos Biólogos e a este Conselho. Boa leitura! Eliézer José Marques Presidente do CRBio-01 Antes de Emitir a ART Consulte a Resolução CFBio n.º 11/03 e o Manual da ART. CFBio Digital O espaço do Biólogo na Internet Mudou de Endereço? Informe o CRBio-01 quando mudar de endereço, ou quando houver alteração de telefone, CEP ou e-mail. Mantenha o seu endereço atualizado. O CRBio-01 estabeleceu parceria com a empresa Enozes Publicações para implantação do CRBioDigital, espaço exclusivo na Internet para Biólogos registrados divulgarem seus currículos, artigos, notícias, prestação de serviços, além de disponibilizar um Site a cada profissional. O conteúdo é totalmente gerenciado pelo próprio profissional. O CRBioDigital além de ser guia e catálogo eletrônico de profissionais, promove também a interação entre os Biólogos registrados, formando uma comunidade profissional digital.  Para acessar entre no portal do CRBio-01: www.crbio01.gov.br Abr/Mai/Jun 2016 O Biólogo 3

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CAPA 4 O Biólogo Abr/Mai/Jun 2016

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Registro profissional, Somente o registro profissional permite ao Biólogo o exercício legal da profissão em atividades de pesquisa, consultoria e projetos nas diferentes áreas da Biologia a garantia dos Biólogos POR GEORGE ALONSO Abr/Mai/Jun 2016 O Biólogo 5

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CAPA V Vale lembrar que, embora o primeiro curso de Biologia tenha sido criado há 75 anos sob o título de História Natural, foram necessários cerca de 40 anos para que a profissão fosse reconhecida, o que ocorreu em 03 de setembro de 1979, incluindo o Biólogo entre as profissões regulamentadas e definindo os campos de atuação desses profissionais. A mesma Lei criou os Conselhos Federal e Regionais de Biologia e determinou os requisitos para o exercício legal das ativiades do Biólogo. Dentre esses condicionantes, à semelhança de outras categorias O Biólogo Abr/Mai/Jun 2016 profissionais regulamentadas, disciplinou a obrigatoriedade do registro nos Conselhos, as graduações que permitiriam o registro, bem como as diferentes áreas de atividades de competência dos profissionais. Restou claro para os Biólogos envolvidos em atividades como projetos de pesquisa, estudos e projetos de docência, análises laboratoriais, perícias, fiscalização e outras, conforme definido na Lei, que as mesmas estavam compreendias nas grandes áreas de formação e competência como meio ambiente, saúde, biotecnologia e produção. Atualmente existem aproximadamente 64 mil Biólogos com registro ativo no país e atuando profissionalmente, ou seja, exercendo legalmente a profissão. No Conselho Regional de Biologia da 1ª Região, o maior do Sistema CFBio/CRBios, contamos com 17 mil registrados desenvolvendo atividades como empreendedores autônomos, como responsáveis técnicos em empresas ou em atividades de ensino e/ou pesquisa nos diferentes níveis. Qual a importância do registro profissional? A questão primordial é que sem o registro a pessoa que se identifica como profissional está exercendo ilegalmente a profissão, situação passível de responsabilidades legais 6

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e/ou criminais. Da mesma forma, para a sociedade, desenvolve atividades isentas da orientação, controle e fiscalização, o que pode representar uma ação lesiva à expectativa do compromisso e responsabilidade. Graduados sem registro não são Biólogos, o que motiva uma preocupação para o Conselho, na medida em que o número de novas inscrições está muito aquém do número de formandos, o que parece indicar um número significativo de pessoas que não estão exercendo a profissão ou fazem isso ilegalmente. Nesse aspecto, não podemos deixar de considerar que o país vem experimentando há algum tempo uma crise econômica, com redução de investimentos em muitas áreas de atividade que congregam oportunidades de trabalho para o Biólogo. O registro profissional é a condição que permite o exercício legal da profissão, a atuação como responsável técnico (TRT) em empresas prestadoras de serviços nas diferentes áreas da Biologia, e a emissão das anotações de responsabilidade técnica (ARTs) na prestação de serviços do profissional. Este documento permite identificar o responsável legal pelo trabalho realizado e a “construção” do acervo técnico do Biólogo, documento requerido com frequência em processos de licitação ou contratação de serviços, pois demonstra a experiência profissional do mesmo. A falta de profissionais registrados e não competitivos no mercado de trabalho pode ainda ensejar outras situações de interesse da ca- tegoria, permitindo, por exemplo, a atuação mais efetiva de outras profissões nas “áreas de sobreamento” de atividades e até o exagero de reivindicar a exclusividade para esses trabalhos. A profissão de Biólogo se valoriza pela atuação feita com a prestação de serviços de qualidade, o que é de importância fundamental para a valorização e reconhecimento desse profissional pela sociedade. O Conselho, ao longo de sua existência, sempre se defrontou com problemas decorrentes desse “sombreamento” entre áreas do conhecimento, especialmente naqueles casos em que se tenta impedir os Biólogos de exercer atividades para as quais são legalmente habilitados e capazes. Quando tomamos conhecimento desses fatos buscamos, em O CRBio sempre se defrontou com problemas do ‘sombreamento’ entre áreas do conhecimento, especialmente nos casos em que se tenta impedir os Biólogos de exercer atividades para as quais estão legalmente habilitados Abr/Mai/Jun 2016 O Biólogo 7

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CAPA um primeiro momento, a impugnação administrativa do ato restritivo e, em casos extremos, a impugnação judicial. Algumas vezes nos deparamos com a dificuldade de tomar medidas, pois os casos podem depender da adoção de ações por parte do próprio profissional ou por estarem restritos à área de competência de associações ou sindicatos. O Conselho está estruturado no conjunto dos profissionais registrados que ele representa, não somente por exercer as atividades formais que lhe são afeitas como uma Autarquia Federal – a orientação e fiscalização -, mas também a defesa das prerrogativas da profissão. Nesse sentido tem buscado assegurar a participação dos Biólogos em concursos públicos e editais de licitação de serviços a que são impedidos, da mesma forma que tem trabalhado junto a instituições de diferentes níveis da administração pública, com o objetivo de valorizar a participação dos Biólogos em atividades inerentes às mesmas. O C R B i o - 0 1 m a nté m como objetivo ampliar o seu quadro de profissionais inscritos, por toda uma série de razões já consideradas e também por entendermos ser o Conselho o fórum adequado para discutir a formação acadêmica, o mercado de trabalho e a educação continuada, buscando identificar e ampliar novas possibilidades de atuação no universo dos novos conhecimentos e, principalmente, como forma de assegurar sempre a melhoria da qualidade dos serviços prestados à sociedade. ¤ 8 O Biólogo Abr/Mai/Jun 2016

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ECOS DA PLENÁRIA N a 175ª Sessão Plenária Ordinária do CRBio - 01, realizada no dia 3 de junho, na sede do Conselho, em São Paulo, foi apresentado o Relatório de Gestão do exercício de 2015, compreendendo os projetos e atividades desenvolvidos pelo Conselho e que foi submetido ao Tribunal de Contas da União (TCU). No tocante ao Relatório e à programação de atividades para o presente exercício, o Plenário considerou a necessidade de aprimorar os mecanismos de avaliação e indicadores de qualidade na gestão dos projetos e processos relacionados. Ainda durante a Plenária foi discutida a participação do Sistema CFBio/CRBios na 11ª edição da EXPOPRAG, evento referência para o setor de controle de vetores e pragas, a ser realizado em Campos do Jordão (SP), nos dias 21, 22 e 23 de setembro. Para Giuseppe Puorto, coordenador da Comissão de Comunicação e Imprensa (CCI) do CRBio-01, “é extremamente importante a participação do Conselho em eventos de classe como a EXPOPRAG.” Caberá ao CRBio-01 a coordenação da participação do Sistema CFBio/CRBios no evento. Participaram da Sessão o presidente do CRBio-01, Eliézer José Marques, o vice-presidente, Luiz Eloy Pereira, além dos Conselheiros Celso Luis Marino, Edson Kubo, Giuseppe Puorto, Iracema Helena Schoenlein-Crusius, João Alberto dos Santos, Maria Saleti Ferraz Dias Ferreira e Horácio Manuel Santana Teles.¤ ANUNCIE NA REVISTA O Biólogo ATENÇÃO BIÓLOGOS! PAGAMENTOS AO CRBio-01 Todos os pagamentos a serem efetuados ao CRBio-01 (anuidades, recolhimentos, taxas de eventos e outros) devem ser pagos EXCLUSIVAMENTE por meio de BOLETO BANCÁRIO e não de depósito em conta, pois não é possível a identificação do mesmo, ficando, assim, o débito a descoberto. Consulte tabela de preços no Portal do CRBio-01: www.crbio01.gov.br Visite e curta a fan page do CRBio-01: www.facebook.com/CRBio01 Siga o CRBio-01 no twitter: @crbio01 Abr/Mai/Jun 2016 O Biólogo 9

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GRANDES BIÓLOGOS BRASILEIROS Bertha Lange de Morretes Pioneira da Biologia no Brasil, a professora que nasceu na Alemanha há 98 anos e chegou ao país com dois anos de idade, dedicou sua vida à docência e à pesquisa na USP POR CLÁUDIO CAMARGO 10 O Biólogo Abr/Mai/Jun 2016

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A os 98 anos, a Bióloga Bertha Lange de Morretes não é apenas uma das pioneiras das Ciências Naturais no Brasil, mas também uma das maiores autoridades em Botânica. Especialista em anatomia vegetal, ao longo de sua vida acadêmica junto à Universidade de São Paulo, foi docente nos cursos de graduação e pós-graduação, pesquisadora internacionalmente renomada e uma verdadeira apaixonada pela Biologia. Dra. Bertha foi orientadora de inúmeros trabalhos de Mestrado e Doutorado e responsável pela formação de muitos dos principais botânicos que atuam no país. Nascida em 28 de junho de 1917 em Iffeldorf, a 50 km a sudoeste de Munique (Baviera), na Alemanha, ela é filha de mãe alemã e pai brasileiro. O pai era zoólogo e a mãe, professora de canto. Bertha chegou ao Brasil aos dois anos, logo depois do fim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). A família fugia da grave crise econômica, social e política da Alemanha, derrotada no conflito. Em entrevistas, Bertha contou que uma vez disse ao avô que ele estava usando manteiga demais no pão. “Meu avô chorou e disse: ‘agora você vai comer pãozinho com manteiga todo dia. Você não está mais na Alemanha no tempo da guerra; você está no Brasil’”. O interesse de Bertha por plantas e animais veio de passeios que fazia com a família. “Criança, sempre que vê bicho, quer pisar, mas meu pai dizia: ‘não pode, ele sente dor como você’”, contou ela em uma entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo . A família havia se estabelecido inicialmente em Curitiba. Em 1935, seu pai, Frederico Lange, foi contratado pelo Museu Paulista para trabalhar na área de zoologia e a família se transferiu para São Paulo. Em 1938, Bertha e a irmã, Ruth, decidiram entrar no curso de História Natural (hoje, Ciências Biológicas) da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) da recém-fundada Universidade de São Paulo (USP). “Quando contamos ao meu pai que queríamos entrar nesse curso novo, meus tios disseram que ele era louco de deixar”, contou na mesma entrevista. O curso funcionava inicialmente na Faculdade de Medicina, cujos alunos viam com desconfiança a presença de estudantes de História Natural. Além disso, a maioria dos professores eram estrangeiros (alemães, italianos, franceses) e davam aula em seus próprios idiomas. Quando mudaram para a rua Jorge Street, as instalações eram tão precárias que o Departamento de Botânica funcionava num tablado em cima de uma piscina. Bertha e Ruth se formaram em 1941 e, no ano seguinte, foram contratadas para integrar o corpo docente. Nos anos 1960, os departamentos da FFCL foram transferidos para a Cidade Universitária, quando foi formado o Instituto de Biociências (IB), onde Bertha ocupa desde então a sala número 136A. Naquela época, ela também fez pós-doc na Universidade da Califórnia-Davis, com uma bolsa da Fundação Rockefeller. Com uma carreira marcada pela generosidade e pela solidariedade, Bertha disse em uma entrevista à revista do SESC que uma das coisas que mais preza é o saber compartilhar. “Se você tem uma coisa e ela é boa, tem que saber compartilhar. Essa rede de compartilhamento gera outros tantos compartilhamentos. Eu tenho obrigação. Primeiro eu recebi ensino – e ensino gratuito. Segundo, na melhor faculdade que existe no país. Então, compartilhar sempre foi uma das coisas mais importantes da minha vida e continuará sendo, enquanto eu puder”. Com esse sentido de generosidade, há alguns anos, Dra. Bertha fez uma doação financeira ao Conselho, gerando um fundo destinado à premiação da Sessão Painéis dos Congressos de Biólogos do CRBio-01. Em homenagem a ela, por decisão do Plenário do CRBio-01, em 31 de outubro de 2008, a premiação dos trabalhos científicos na mostra do referido evento, para estudantes de graduação e pós-graduação em Ciências Biológicas, tem o nome “Prêmio Bertha Lange de Morretes”. ¤ Abr/Mai/Jun 2016 O Biólogo 11

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ACONTECE Hábito de designar espécies desconhecidas com nomes de celebridades é prática comum e tradicional na Biologia O nome dos Seres Vivos POR SILVIA KOCHEN É muito comum que os pais usem nomes da moda ao batizar seus filhos. Tivemos gerações de Robertos, Marcelos, Brunos e Tiagos, por exemplo, ou de Aparecidas, Mônicas, Julianas e Marianas, uma tendência dada pela fama momentânea de alguma celebridade ou personagem de no- vela. Esse costume, de alguma forma, também pode ser observado na ciência, quando novas espécies receberam nomes de celebridades e até mesmo de atores e personagens de filmes. Mônica Antunes Ulyssea, doutoranda do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP), ex- plica que desde que o sueco Carolus Linnaeus (ou Lineu, como é conhecido pelo nome aportuguesado) criou seu Systema Naturae de Classificação dos seres vivos, no século XVIII, cada espécie animal ou vegetal ficou com uma designação única para não ser confundida com outra. O sistema, também chamado de Taxonomia de Shakira e a vespa Aleiodes shakirae 12 O Biólogo Abr/Mai/Jun 2016

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Adolf Hitler e o besouro Anophtalmus hitleri Lineu, combina dois nomes, um genérico e um específico, para identificar um ser vivo, de modo que é impossível a repetição da designação para espécies diferentes. No início, essas designações eram dadas de acordo com alguma característica do animal – como a região em que vivia ou alguma parte do corpo com qualidade marcante. “Há muitas combinações de radicais gregos e latinos que podemos utilizar para dar nome a alguma espécie”, diz Mônica. “Mas”, acrescenta, “hoje, a ciência interage mais com outras áreas e a busca por inspiração de nomes deslocou-se para outros ‘lugares’ que não no próprio bicho”. Além de homenagear cientistas e pesquisadores da área, as espécies passaram a ganhar o nome de pessoas. É o caso de Paulo Emílio Vanzolini, um médico dedicado à zoologia e também famoso músico brasileiro, que foi homenageado por seu trabalho científico com o nome de um pequeno anfíbio amazônico, o Allobates vanzolinius, um sapo que vive na região da bacia do rio Juruá. Em alguns momentos, a nomeação de bichos ultrapassou as fronteiras tradicionais. “Acredito que, como a ciência não é mais tão restrita a alguns grupos de pessoas ou elitizada, como era antigamente, o diálogo com outras áreas para se inspirar é mais aceito, assim como a ideia de brincar com os nomes”, afirma Mônica. Um caso curioso é o do besouro Anophtalmus hitleri, que recebeu esse nome em 1937, quando o então chanceler da Alemanha, Adolf Hitler, ainda era tido como um grande estadista. A fama do estadista se mostrou uma farsa e foi enterrada com ele, mas o besouro está condenado a carregar a sina de seu nome eternamente. diâmetro e que, com as pernas, ocupa uma área em torno de 8 cm de diâmetro. A espécie foi descrita por ele em 2007. Outro exemplo que ele cita é a Pinkfloydia harveii, uma pequena aranha encontrada na Austrália que foi batizada com esse nome em homenagem à famosa banda de rock inglesa Pink Floyd. Brescovit explica que metade das espécies de aranhas, sua especialidade, coletadas hoje no Brasil é desconhecida e precisa de um nome. Anualmente, cerca de 400 a 500 novas espécies de aranhas são identificadas no mundo. Desse total, cerca de 80 são encontradas no Brasil. Criatividade O recurso de usar outra fonte de inspiração que não as opções óbvias de nomes em razão da região ou característica do bicho, e de cientistas envolvidos no trabalho de identifica- Homenagens Segundo o biólogo Antônio Domingos Brescovit, do Laboratório Especial de Coleções Zoológicas do Instituto Butantan, a designação de bichos com o nome de pessoas se dá por vários motivos: para homenagear a pessoa que “descobriu” a espécie, ou a seus colegas e parceiros. De alguns anos para cá, também estão sendo homenageadas celebridades como roqueiros, cantores, atores e até mesmo personagens fictícios. “Eu mesmo nomeei uma espécie, a Ctenus fernandae, em homenagem à minha esposa, que se chama Fernanda”, diz Brescovit. A Ctenus fernandae é uma aranha que vive nas matas do Sudeste brasileiro, com um corpo de aproximadamente 4 cm de Pink Floyd e a pequena aranha Pinkfloydia harveii Abr/Mai/Jun 2016 O Biólogo 13

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ACONTECE Pteropus vampyrus Bagheera kiplingi ção da espécie para nomear espécies não é novo. Já no final do século XIX, temos o batismo da espécie Bagheera kiplingi, uma aranha centro-americana que recebeu esse nome inspirado no escritor britânico Rudyard Kipling e seu personagem Baguera, a pantera negra do Livro da Selva. Mas eram exceções até o século passado. À medida que mais e mais espécies começaram a ser descritas, houve necessidade de usar a criatividade para nomear as “novas” espécies. O recurso a fontes não convencionais de inspiração passou a ser crescentemente utilizado. Os cientistas foram buscar nomes inspirados em celebridades, obras clássicas de ficção, personagens de seriados de TV, histórias em quadrinhos, filmes, personagens históricos e folclore. Entre os exemplos de celebridades estão a vespa Aleiodes shakirae, Darth Valder e o besouro Agathidium vaderi que em 2014 recebeu o nome da cantora Shakira por causa de sua cintura fina; e o cupim Sivestritermis almirsateri, típico da região do Pantanal, terra do músico Almir Sater, que foi descrito em 2012. O pesquisador Diego Nunes Barbosa, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), descobriu sete novas espécies de vespa e resolveu buscar seus nomes na série “Game of Thrones”, da qual é fã. Há dois anos, ele publicou um artigo em que batiza as vespas com nomes que vêm das sete casas que lutam pelo poder na obra de ficção. Laelius arryni, L. baratheoni, L. lannisteri, L. martelli, L. targaryeni, L. tullyi e L. starki. Os fãs de Darth Valder, personagem da saga Guerra nas Estrelas, podem ver que a semelhança dele com o besouro Agathidium vaderi, não está apenas no nome. Amantes da obra de William Shakespeare ficarão deliciados com o nome de um gênero de orquídeas, que em 1830 recebeu a denominação de Oberonia em referência a Oberon, o rei das fadas da peça Sonhos de Uma Noite de Verão. O folclore popular não fica de fora, como o Pteropus vampyrus, um morcego gigante da Malásia Ctenus fernandae Oberonia Lindl que, por ironia, come apenas frutas, mas é associado a um vampiro em seu nome. Personagens históricos não são esquecidos na tarefa dos cientistas ao nomear uma nova espécie. Um exemplo é a vieira Chesapecten jeffersonius, nomeada em homenagem a Thomas Jefferson, líder da independência e presidente norte-americano.¤ 14 O Biólogo Abr/Mai/Jun 2016

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ARQUIVO DO BIÓLOGO A fotografia faz parte da rotina de muitos Biólogos. Esta seção da Revista publica fotos curiosas, interessantes, significativas e inusitadas da fauna, da flora e de paisagens, captadas por Biólogos. Martim-pescador Fotografado às margens do Rio Paraguai, na região do Porto da Manga (Pantanal - MS) Biólogo: Moysés Elias Neto (CRBio 64299/01-D). Mico-leão-dourado (Leontopithecus rosalia) De Erica Amadio, estudante de Biologia Flor de Ouratea spectabilis - Família Ochnaceae - área de Campo cerrado Biólogo: Fabio Vicentin Diniz, de Santa Bárbara D’Oeste. Abr/Mai/Jun 2016 O Biólogo 15

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