Anais referente ao 18º Seminário de Educação Infantil - Semeando Infâncias - 2015

 

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PRISMA - Centro de Estudos do Colégio Santa Maria

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S471a Seminário de Educação Infantil (18.,2015: São Paulo, SP) Anais do 18º Seminário de Educação Infantil: semeando infâncias, 24 e 25 de abril, 2015 / Organização: Suzana Rodrigues Torres. -São Paulo, SP: Colégio Santa Maria, 2016. E-book, PDF; 116 p. ISBN 978-85-67828-00-8 Evento realizado pelo Prisma Centro de Estudos, Colégio Santa Maria, Instituto das Irmãs da Santa Cruz, São Paulo, SP. 1.Educação. 2. Educação infantil. 3. Práticas pedagógicas. 4. Metodologia. 5. Gestão. 6. Linguagens – Infância. I. Torres, Suzana Rodrigues (org.). II. Título. CDD 372.218 Bibliotecária: Tauany Clemente Pazini – CRB-8/9322 2

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SEMEANDO INFÂNCIAS Dra. Suzana Rodrigues Torres Prisma – Centro de Estudos do Colégio Santa Maria srtorres@colsantamaria.com.br Há muito tempo, quando comecei a dar aulas para crianças bem pequenas, cantávamos muito, as crianças e eu, a música da dona aranha. Com coreografias e ritmos bem marcados era um verdadeiro sucesso. Eu via nesta música um elogio à persistência, uma homenagem ao trabalho sistemático. Sentia uma espécie de orgulho da dona aranha que, enfrentando as intempéries, se mantinha firme em seus propósitos, metas e sonhos. Dona aranha era quase uma heroína. Tempos depois ouvi uma estrofe, que eu desconhecia, acrescida à música que dizia, “ela é teimosa e desobediente, sobe, sobe, sobe e nunca está contente”. Surpresa com esta estrofe que desmontava o entendimento anterior, me perguntei: o que aconteceu para dona aranha passar de heroína à teimosa e desobediente? Seria um indicador de valores que desenvolvemos nos momentos atuais em que a velocidade, a aceleração do tempo, a competição, o consumismo, o desejo do ter e o imediatismo nos afastam de uma vida que possa ser vivida como uma experiência que envolve tempo para saboreá-la? Para alcançar um sonho, um projeto, é preciso lidar com a dificuldade, com as oscilações de tempo, com os contratempos, é preciso semear, aguar, zelar, amar, dar tempo ao tempo. É preciso certo esforço para semear sonhos, projetos, conquistas. Mas, ao mesmo tempo, olhando ao redor, vemos o quanto a contemporaneidade nos exige em termos de esforços para viver ou sobreviver. Estamos sempre cansados e sobrecarregados. Então, é preciso saber qual a direção e intenção dos nossos esforços. 3

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Será que nossos esforços não deveriam ser para nos aproximarmos mais, para fazermos juntos, para mais colaboração minimizando esforços, gastos, riscos e até mesmo dinheiro, aumentando nossas potências? Olhando o mundo que construímos, precisamos pensar num futuro que se construa em outras bases. Neste momento temos meios para nos destruir e destruir o planeta. Mas também podemos nos reinventar. Uma escolha ou outra passa pela INFÂNCIA como o lugar possível para semear futuros potentes que possam reinventar mundos e caminhos mais compartilhados, amorosos e acolhedores. Organizar um Seminário de Educação Infantil mobilizou paixão e entusiasmo pela Educação. Mais do que um trabalho, concebemos como um lugar quase de militância no sentido de que é preciso resistir a práticas e concepções que diminuam a crença e o entusiasmo no desenvolvimento de cada pessoa. Da aventura de coordenar um seminário trago a percepção de que um Seminário de Educação Infantil é um trabalho maior do que eu, maior que cada um de nós, maior que a instituição que o abriga, maior não pelo trabalho que ele demanda, mas justamente por sua potência. Por certo não estou sozinha. Os inscritos eram alunos, professores, coordenadores, diretores, agentes sociais, pedagogos, psicólogos; de escolas públicas, fundações, escolas particulares, faculdades e uma mãe em período integral. Alguns vieram do Sul, do Planalto Central e do litoral, do mesmo bairro em que fica o Colégio e de bairros tão distantes que nem parecem estar em São Paulo. Uns vieram sozinhos, outros em grupo. Uns já vieram em anos anteriores, outros pela primeira vez. Uns estão em começo de carreira, outros se aposentando e alguns começam a desenhar percursos e sonhos. Neste momento em que a responsabilidade de semear futuros se torna quase concreta: s omos todos pela Educação Infantil. 4

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Desta maneira, neste evento, nos comprometemos a criar espaços múltiplos de reflexão e trocas, assumindo o entendimento de Seminário a partir de sua etimologia: semear. E, pela primeira vez, trazemos outra modalidade de participação no evento: a comunicação oral de trabalhos. Professores de diferentes instituições, localidades, vivências, histórias e possibilidades se inscreveram e apresentaram suas práticas, dialogando com outros educadores, alargando os horizontes dos possíveis. Foram organizadas quatro mesas, com quatro temáticas: Mesa 1: Gestão, com a mediação da profa. Dra. Maria Alice Proença, Mesa 2: Linguagens da infância, com a mediação da profa. Claudia Lacerda, Mesa 3: Práticas pedagógicas, mediada pela profa. Eliane Lima, Mesa 4: crianças de 0 a 3 anos, mediada pela profa. Me. Leila Oliveira. Cada mesa carregava nossa crença de que não nos formamos sozinhos, mas que esta formação se dá na relação com outros educadores e, portanto, precisamos cultivar boas e importantes interações. Os textos nascidos deste momento estão aqui presentes como indícios de encontros potentes e provocadores. Indícios, pois não dão conta da intensidade do encontro. 5

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SUMÁRIO Comunicação de Trabalhos Mesa 1: Gestão Mediação: Profa. Dra. Maria Alice Proença 08 - SOBRE SEQUOIAS E OLIVEIRAS: UM ENSAIO EM BUSCA DAS PRÁTICAS PEDAGÓGICAS RADICAIS - Lia Cazumi Yokoyama Emi. 15 - OBSERVAR AS CRIANÇAS PARA INTEGRAR SAÚDE E EDUCAÇÃO - Damaris Gomes Maranhão / Fabiana dos Santos Rodrigues Coimbra / Tatiane Melo dos Santos / Débora Renata da Silva Clemente / Elaine Mattos de Barros. 27 - REGISTRO E PLANEJAMENTO EM EDUCAÇÃO INFANTIL: CONTEÚDOS RELEVANTES NA IDENTIFICAÇÃO DE DADOS DE ACESSO E BUSCA NUMA PLATAFORMA DIGITAL – BLOG - Angela Rizzi / Joyce M. Rosset / Maria Helena Webster / Blog Tempo de Creche. Mesa 2: Linguagens da Infância Mediação: Profa. Claudia Lacerda 41 - EXPERIÊNCIAS POÉTICAS NA EDUCAÇÃO INFANTIL: O PERCURSO NO PROCESSO DE CRIAÇÃO DO EDUCADOR E DO EDUCANDO NO ENSINO DE ARTE - Ms. Rita de Cássia Soares de Oliveira Sannazzaro Pereira – IEIFLAS. 64 - O OLHAR DOS PEQUENOS PARA A ESCOLA: UM FOLDER PRODUZIDO PELAS CRIANÇAS. - Silvia Helena Mihok Fuertes - Escola Primeira. 74 - BRINCAR ACABA EM PESQUISA OU PESQUISA ACABA EM BRINCADEIRA? - Luana Vieira Meneguello Roncoleta / Juliana Martins Canterucci / Danielle Cristina Wolff - CEDUC: Centro de Estudos Formação Profissional e Educacional. 85 - LABORATÓRIO DE MATEMÁTICA: ENTRE PRÁTICAS E CURRÍCULOS - Prof.ª Fernanda Medeiros Alves Besouchet Martins – UDESC: Universidade do Estado de Santa Catarina. 6

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102 - PRÁTICA DE GESTAR... GESTAR PENSANDO NO ACOMPANHAR, SENTIR, CRESCER, NUTRIR E TRANSFORMAR. - Eliane Lima - Colégio Santa Maria Mesa 3: Práticas Pedagógicas Mediação: Eliane Lima 105 - JOGOS, FORMULAÇÃO E INVESTIGAÇÃO DE PROBLEMAS MATEMÁTICOS: DESENVOLVENDO COMPETÊNCIAS NA EDUCAÇÃO INFANTIL. - Fabíola A. P. Plácido / Maple Bear - Vila Mascote. 117 - NAS PEDRAS DO CAMINHO ENCONTRAMOS UMA ROTA - Danielle Cristina Wolff / Maíra Franco Tangerino – CEDUC: Centro de Formação Profissional e Educacional LTDA 128 - BRINCADEIRAS COM AMIDO - Cleide Valadas / Daniela de Jesus / Gisélia de O. Sousa / Lynn Carone – CEDUC: Centro de Estudos Formação Profissional e Educacional Mesa 4: Crianças de 0 a 3 anos Mediação: Leila Oliveira 140 - O ESPAÇO FÍSICO COMO FAVORECEDOR DAS BRINCADEIRAS E INTERAÇÕES ENTRE OS BEBÊS - Patrícia B. Spakauskas / Fabiana B. Diniz / Rejane Menezes de Oliveira – CEDUC: Centro de Formação Profissional e Educacional. 151 - ESPAÇO QUE EDUCA E PROMOVE RELAÇÕES - Juliana Martins Canterucci / Luana Vieira Meneguello Roncoleta – CEDUC: Centro de Estudos e Formação Profissional e Educacional. 163 - CONSTRUINDO SINGULARIDADE NO ESPAÇO COLETIVO - Lica Teixeira – CEDUC: Centro de Estudos Formação Profissional e Educacional. 179 - PROJETO NA EDUCAÇÃO INFANTIL: ESCUTA SENSÍVEL E PROTAGONISMO - Karolina de Sousa Oliveira - Escola Primeira. 7

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SOBRE SEQUOIAS E OLIVEIRAS: UM ENSAIO EM BUSCA DE PRÁTICAS PEDAGÓGICAS RADICAIS 1 Lia Cazumi Yokoyama Emi 2 Resumo Ao falar sobre os “maiores malfeitores”, Hannah Arendt chama nossa atenção para a importância das lembranças, a necessidade de se pensar no passado para conquistar a profundidade. A autora faz referência, de forma metafórica, às raízes, que proporcionam a estabilidade necessária para que não se seja varrido pelos acontecimentos. É na natureza que, também, buscamos elementos que enriquecem essa reflexão, e é dela que serão retiradas pistas para pensarmos em práticas pedagógicas radicais, isto é, capazes de c riar raízes profundas e estáveis o suficiente para manter nossos futuros jovens em pé, dando folhas, flores e frutos. Essa discussão parece oportuna tendo em vista o tema deste encontro, “Semeando infâncias”, pois cabe a questão: quais sementes desejamos p lantar? Não pretendemos apresentar um manual com atividades, apesar de trazermos exemplos práticos. Trata-se de uma discussão filosófica a partir de vivências e reflexões relacionadas à inclusão de pessoas surdocegas na rede regular de ensino. Um convite para pensarmos sobre a diversidade e as possibilidades de se conquistar a profundidade. Palavras-chave: Educação, inclusão, surdocegueira. As sequoias gigantes são árvores conhecidas por muitos em todo o mundo. Não há quem consiga deixar de se impressionar frente ao porte e a beleza dessas raras gigantes, que só podem ser encontradas in natura na Califórnia. Vistas como testemunhas vivas do passado, por sua longevidade, trazemos sua imagem porque ela ilustra uma questão atual, que de certa forma está presente nas palavras de Arendt, e pode nos provocar sobre o papel da educação: nas sociedades modernas ocidentais capitalistas, é possível para qualquer 1 Ensaio elaborado a partir da releitura de “Algumas questões de filosofia moral”, de Hannah Arendt (2004) em disciplina cursada na FE-USP durante o primeiro semestre de 2013. 2 Graduada em História (FFLCH-USP); Licenciada em História (FE-USP); Mestre em História Social (FFLCHUSP); Mestranda em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano (IP-USP). 8

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homem permanecer em pé, crescer belo, imponente e monumental, sem um sistema de raízes mais profundo? E é por isso que, quando se pensa na educação atual, na criação de raízes, não se pode deixar de questionar a conclusão de Arendt (2004: 160): “O maior mal não é radical, não possui raízes e, por não ter raízes, não tem limitações, pode chegar a extremos impensáveis e dominar o mundo todo.” A reflexão de Arendt é metafórica, mas permite algumas divagações filosóficas que serão apresentadas apenas com um caráter ensaístico, para provocar um pensar sobre. O maior mal não é radical? Não tem raízes? O que, então, sustenta esses homens em pé? Talvez a questão não seja ter ou não ter raízes, mas qual o tipo de enraizamento que a sociedade tem proporcionado e propiciado? O broto da sequoia, ao fixar-se no solo, solta uma raiz que, a cada ano, pode penetrar cerca de vinte e cinco centímetros. Contudo, em uma etapa posterior, forma-se um sistema de raízes que se espalha não em profundidade, mas lateralmente. E o mais interessante, a raiz inicial desaparece ficando uma raiz tabular, “achatada como tábua”. “Pensar e lembrar, dissemos, é o modo humano de deitar raízes, de cada um tomar seu lugar no mundo a que todos chegamos como estranhos.” (Arendt, 2004: 166) Mas, se como nas sequoias, a raiz original se perde e entre o mim e o si mesmo há uma educação equivocada, uma ciência deturpada, uma igreja corrompida, uma sociedade movida pela irracionalidade? Não seriam os adultos os responsáveis pela manutenção dessa raiz original, que carrega a história e o passado? Mas e quando os adultos são apenas intérpretes fragilizados, incapazes de falar sobre o passado? E sem esse passado, qual o eu que se constitui nesse cenário onde o estar sozinho fica confinado a um lugar interdito, porque intermediado por i-phones, i-pads, i-tunes, lap tops, carregados com incontáveis imagens, músicas, mensagens do whatsapp, twitter, facebook e e-mails que a todo momento e em todos os lugares abafam a voz da minha companheira, que sou eu mesma? Tecnologias que me impedem de parar para pensar ou direcionam meus sentidos. E ainda: quais as raízes que podem ser constituídas através um processo de pensamento manipulado, quando as escolhas e até o querer são incutidos por meio de propagandas, mensagens subliminares e virais de grandes corporações, sem nenhum pudor? Com discursos retóricos comerciais que nos fazem acreditar que nossas escolhas são livres e corretas, somos colocados em lugares aonde chegamos sem a menor consciência. 9

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Então, o que significa “tomar seu lugar” neste mundo? Não pode se tratar de ser mais um consumidor, burocrata ou mero “dente de engrenagem” com raízes rasas. Deve significar tomar um lugar crítico e consciente neste mundo, com raízes profundas. Arendt (2004: 170) apresenta algo tão simples e possível a todos nós que julgamos essencial reforçar: pare e pense, pois “sempre que pensa mos, interrompemos qualquer outra coisa que poderíamos estar fazendo e, enquanto somos dois-em-um, ficamos incapazes de fazer qualquer outra coisa senão pensar”. Incorporar o parar e pensar à rotina escolar não é difícil, mas em meio a tantas exigências, pode acabar sendo esquecido. Nas rodas de conversa: antes de todos começarem a falar sobre determinado assunto, apresentar o tema e deixar as crianças parar para pensar por um minuto antes de iniciar a conversa, não é impossível e pode ser a criação de um hábito que tem se tornado cada vez mais raro com o deslizar dos dedos e as respostas imediatas nas redes sociais e nos aplicativos onde a agressividade tem saltado aos olhos de todos nós. Parar para pensar... e não se trata de calar o pensamento. A mesma opinião, as mesmas ideias, podem ser transmitidas de forma assertiva ou agressiva. Parar para pensar... antes de responder. Parar para pensar... antes de expor as próprias ideias. Essas questões são importantes porque, assim como as sequoias, o homem não precisa de um solo com muitos nutrientes para sobreviver. Como Arendt nos lembra: “posso me recusar a pensar e lembrar, e ainda assim permanecer muito normalmente humana”(Arendt, 2004: 159). E a sobrevivência humana a que me refiro está relacionada com a aparência. A beleza das sequoias é inquestionável. A beleza das pessoas – evidente, porque dentro de padrões vinculados como ideais, em modelos, artistas, jogadores, mas presente em todas as pessoas comuns – é inquestionável. E é onde está o grande paradoxo. Tendo em vista o seu porte, as sequoias gigantes têm raízes proporcionalmente muito rasas, mas em grande quantidade; e lembram a ânsia humana por vínculos, fomentada pelas novas tecnologias e meios virtuais que permitem contatos contínuos e imediatos, mas superficiais e laterais. E não é de espantar que essas raízes, com essa conformação, absorvam a umidade “como esponjas”. Assim como os homens que, com raízes superficiais e em grande quantidade – e essa quantificação e superficialidade devem ser pensadas dentro do contexto globital, como pensado por Anna Reading – consomem e sugam o que for possível para manter a sua beleza, força, o seu network e/ou rede de relações e bens materiais. E é essa raiz que alimenta um corpo gigantesco, envolto por uma casca que fornece proteção 10

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inclusive contra o fogo. E muitos humanos são sequoias gigantes, monumentais, com cascas difíceis de penetrar, com perfis virtuais que mascaram e escondem, com o intuito – ou desculpa – de proteger; e a auto exposição, tão desejada, coloca em evidência os belos corpos, a suposta perfeição, e oculta a instabilidade que raízes tão superficiais podem provocar. Mas não se trata de um ensaio em oposição à fala de Arendt. Pelo contrário! Sim, as raízes nos vinculam à natureza, à vida, à história. São elas as principais fontes dos nossos alimentos físicos, morais, emocionais e espirituais. Não questiono a importância nem a validade da reflexão da autora, e de forma alguma pretendemos criar um “discurso contra as sequoias”. O que considero necessário é lembrar que, como a natureza nos mostra, há raízes de diferentes tipos, e as da sequoia remetem a uma metáfora perfeita para pensarmos sobre os problemas dos homens. Porém, não somos pessimistas, e nem a natureza o é. Há uma árvore que parece encarnar o que poderia ser considerado “uma boa raiz”, com “uma personalidade moral”: a oliveira. Símbolo da fidelidade e determinação, a oliveira aparece em registros históricos desde a antiguidade. Tão longevas quanto as sequoias – há registros de oliveiras com mais de dois mil anos, apesar de não serem tão comuns –, suas raízes estão entre as mais profundas. Contudo, não são raízes axiais, com uma raiz principal de onde partem ramificações. São raízes fasciculadas: várias raízes finas partindo de um único ponto. E as palavras não são vãs. Fasciculada tem origem no latim fascículus, que remete à ideia de conjuntos de feixes que se entrelaçam e cruzam, como os fascículos de uma obra! As oliveiras, escolhidas aqui pela profundidade de suas raízes, têm característi cas que evocam a importância das mesmas: apesar de não gerar árvores tão frondosas quanto às sequoias – raramente atingem os dez metros de altura, sendo que algumas espécies podem chegar aos 20 metros – elas oferecem flores, frutos, óleo e madeira. E ressalve-se que esses produtos ilustram textos sagrados, sendo utilizados pelos homens em situações cotidianas, seja para iluminar, seja para alimentar, e até para ungir, limpar e curar. E as sequoias? Um dos usos, felizmente deixado de lado, era a sua transformação em um “túnel” para que, de forma curiosa, se pudesse passar por ela. Hoje, com a preservação da espécie, os homens podem apreciá-las nos parques, evidenciando-se seu caráter decorativo, estético, sem a possibilidade de cultivo e uso que não as coloque em extinção: 11

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crescem somente na costa Californiana e em condições específicas. A saber: sob a névoa. Tão famoso em cartões postais, o nevoeiro característico do verão californiano é o que garante a manutenção da umidade. Não é apenas por suas raízes que a água consumida é captada, mas também por suas folhas. A névoa que envolve as árvores lhes garante a nutrição; a névoa que envolve os homens, lhes garante a indefinição. Quando os outros veem apenas o nosso vulto, podemos ter uma aparência imponente, um porte invejável, e mesmo assim não ser ninguém. E com tanta “força”, poucos notariam o risco da extinção, pois todos somos só mais um ninguém, caminhando em busca da burocracia e contentandonos em ser apenas mais um dente de engrenagem... e o mais alarmante, desejando sê-lo, por medo de ficar fora da engrenagem! E, portanto, não poderia ser outro elemento a permitir o crescimento dessa árvore tão característica: o nevoeiro que esconde e alimenta, assim como o anonimato que permite a falácia dos homens. Já as oliveiras podem ser encontradas em regiões de clima mediterrânico, mas também em diversos países onde hoje é cultivada e apreciada. Mas qual a relação entre a raiz e as características da árvore e disso com o ser humano? Limito-me a responder que não se trata de um estudo de botânica e sabemos que essa metáfora não é universal e se restringe a uma reflexão a partir de dois exemplares da natureza. É um pensar sobre a necessidade de deitar raízes para que se possa formar “um ser pensante, arraigado em seus pensamentos e lembranças e, assim, conhecedor de que tem de viver consigo mesmo” e a importância de se garantir um tipo de raiz profunda, fasciculada, que permita a articulação do eu comigo mesma. Somente assim “haverá limites [auto-estabelecidos] para o que pode se permitir fazer”. (Arendt, 2004: 166) Aqui importa abrir um parêntese para destacar a importância da inclusão social de pessoas com deficiência. Tendo em vista o foco de muitas instituições escolares em “atender os clientes”, é possível ver dis cursos contra a inclusão porque isso poderia acarretar um “atraso”. O conteudismo vigora e cresce, sem que se pare e pense na qualidade. De que importa uma pessoa capaz de ler, escrever, multiplicar, mas incapaz de enxergar o outro? De que importa uma pessoa vigorosa e saudável, mas incapaz de ceder o lugar a um idoso? Essa nossa ação no sentido de criar uma competitividade e uma ânsia pelo sucesso, tem gerado muitas pessoas adultas ansiosas e, não raras vezes, incapazes de lidar com a frustração. Pessoas com dificuldade para reduzir o ritmo para auxiliar um colega, um familiar, um filho! Sempre em busca de resultados, da aprovação no vestibular, em 12

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concursos, como se houvesse uma linha progressiva e única – clara influência do pensamento positivista. A educação precisa atentar para a relação entre a raiz profunda, que dá frutos, e diferença-la da raiz superficial, que sustenta uma árvore de estabilidade duvidosa, apesar de sua aparente firmeza. Essa tarefa é difícil, pois como a oliveira, que necessita de c erca de quinze anos para dar frutos, a educação requer um tempo para maturar, e as sociedades modernas têm ojeriza à espera. Exigem produtos, mesmo com defeitos ou falhas. Prazos e produtividade tornaram-se motes, e tudo é “para ontem”, para que não se ofe reça tempo livre, pois este propicia a reflexão ou pode trazer lembranças que levam ao pensamento que deita boas raízes! E a educação precisa permitir que se engendrem ciclos contínuos onde as boas raízes alicercem o pensamento e, este, alimentado pelas lembranças, nutra as raízes que lhe dão base. Somente assim, estas poderão se aprofundar o suficiente para que os homens atinjam a maturação necessária e, então, consigam gerar bons frutos. Reproduzimos as palavras com que Arendt encerra seu texto sobre a Crise na Educação (2006: 247) para encerrarmos este convite à reflexão: A educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele e, com tal gesto, salvá-lo da ruína que seria inevitável não fosse a renovação e a vinda dos novos e dos jovens. A educação é, também, onde decidimos se amamos nossas crianças o bastante para não expulsá las de nosso mundo e abandoná-las a seus próprios recursos, e tampouco arrancar de suas mãos a oportunidade de empreender alguma coisa nova e imprevista para nós, preparando-as em vez disso com antecedência para a tarefa de renovar um mundo comum. [grifo nosso] Um mundo comum a todos, que não exclua por antecedência, que permita o convívio. Que não expulse nenhuma criança. Que não abandone ninguém a seus próprios recursos. Isso é particularmente importante quando pensamos nos alunos surdocegos incluídos na Rede Regular de Ensino da Prefeitura de São Paulo. Uma inclusão que tem aberto possibilidades. Acredito que isso é um requisito básico para que se garanta que nenhuma oportunidade de empreender alguma coisa nova e imprevista seja arrancada das mãos de nossas crianças. 13

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REFERÊNCIAS ARENDT, Hannah. “A crise na educação”. In: Entre o Passado e o Futuro . São Paulo: Perspectiva, 2006, p.221-247. __________. A condição humana . Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010. __________. Responsabilidade e Julgamento São Paulo: Companhia das Letras, 2004. KELLER, Helen. A história da minha vida : com suas cartas (1887-1901) e um relato suplementar sobre sua educação, incluindo trechos das narrativas e cartas da professora, Anne Mansfield Sullivan, por John Albert Macy. Rio de Janeiro: José Olympio, 2008. LOPES, Reinaldo José. "Pelas folhas e raízes". Revista PESQUISA Fapesp, Ed. 151, setembro 2008. Disponível em: http://revistapesquisa.fapesp.br/2008/09/01/pelas-folhas-e-raizes/. Acesso em maio de 2014. READING, Anna. The Globytal: Towards an Understanding of Globalised Memories in the Digital Age. In: MAJ, Anna & RIHA, Daniel. Digital Memories: Exploring Critical Issues. Oxford, United Kingdom: Inter-Disciplinary Press, 2009, p. 31-40. Disponível em: https://kclpure.kcl.ac.uk/portal/en/publications/the-globytal-towards-anunderstanding-of-globalised-memories-in-the-digital-age%2889753886-e032-45a1-88afab4c2304022a%29/export.html e em https://www.interdisciplinarypress.net/onlinestore/ebooks/digital-humanities/digital-memories-exploring-critical-issues. - Acesso em março de 2013. ROBBINS, Dorothy E. Kreiss. 1984. Can the Redwoods Date the Flood?. Acts & Facts. 13 (8), 1984. Disponível em: http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/sequoia/sequoia.php. - Acesso em maio de 2014. Outras informações referentes às sequoias e oliveiras foram consultadas livremente em páginas virtuais, a saber: http://www.floridata.com/ref/s/sequ_gig.cfm; http://www1.uol.com.br/biblia/revista/edicao1/oliveira.htm; http://www.labin.unilasalle.edu.br/infoedu/siteinfoedu1_03/turmasv_site/turma2_01/html s/md6plantas.htm. 14

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OBSERVAR AS CRIANÇAS PARA INTEGRAR SAÚDE E EDUCAÇÃO. Damaris Gomes Maranhão1 Fabiana dos Santos Rodrigues Coimbra² Tatiane Melo dos Santos³ Débora Renata da Silva Clemente⁴ Elaine Mattos de Barros 5 Resumo A observação, captação e análise de cenas de cuidados cotidianos considerando-se os procedimentos realizados pelos educadores e as expressões, interações e comportamentos das crianças tem como objetivo ampliar a percepção de enfermeiros e outros especialistas que atuam em equipe multidisciplinar em uma rede de creches. Esta metodologia evidenciou-se como uma eficaz estratégia formativa tanto para os enfermeiros como para especialistas em educação pois possibilita ampliar o olhar sobre o particular e o especifico de uma competência profissional com uma perspectiva enriquecida por outros campos de conhecimento. As enfermeiras, educadores e gestores que participaram deste processo ampliaram o olhar além do campo especifico o que possibilita integrar saúde e educação. Descritores: Cuidado. Educação infantil. Saúde. Integralidade. Introdução Organizações sociais e programas governamentais tem reiterado a necessária integração de politicas publicas para a promoção do desenvolvimento na primeira infância. Embora todos concordem com o principio que o binômio cuidar-educar é indissociável, observa-se no cotidiano dos serviços uma organização de trabalho que o fragmenta. Há ainda muita dificuldade de interlocução entre profissionais de campos diferentes embora com os mesmos objetivos: o desenvolvimento integral e saudável da criança. Conforme a neurocientista Suzana Herculano Houzel escreveu em crônica publicada na Folha de São Paulo no dia 14 de maio de 2014: ...” nosso cérebro, órgão do corpo responsável pela concretização dos pensamentos formulados, expressos e observáveis em linguagem, 15

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