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Titulo: Os Piratas Autor: Manuel António Pina © 1997, Manuel António Pina, Teatro Pé de Vento e Edições Afrontamento Edição: Edições Afrontamento, Lda./Rua Costa Cabral, 859 Porto Concepção gráfica: Departamento Gráfico/Edições Afrontamento Colecção: Tretas & LetraS/28 N" de edição: 637 ISBN: 972-36-0452-3 Depósito Legal: 118766197 Impressão e acabamentos: Dezembro de 1997 Rainho & Neves, Lda./Santa Maria da Feira

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A presente obra constitui a adaptação para teatro da novela Os Piratas, de Manuel António Pina. A adaptaçãofoi feita pelo próprio Autor, no quadro de uma residência na Companhia Pé de Vento, do Porto, realizada com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian. Com encenação deJoão Luiz; "Os Piratas" - primeira parte de um díptico dramático sobre o mar -foi estreadopelo "Pé de Vento» no Teatro da Vilarinha, no Porto, em 30 de Abril de 1997 .

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Cenário A cena é desnivelada. o nível inferior é constituído pelo quarto de uma casa pobre: uma cama de ferro, uma cómoda; alguns livros e cadernos sobre a cómoda; uma cadeira. Uma porta à direita. O mesmo nível serve ainda de sala, após mudança de adereços: a cómoda passa a ter um vaso deflores sobre um «naperon» de renda; a cama é substituída por uma mesa rodeada por três cadeiras. Breves escadas dão para o nível superior, o sótão, um metro acima. As escadas constituem outro «espaço», autónomo embora escasso: é um «espaço entre realidades», um lugar de passagem ... No sótão amontoa-se todo o tipo de velharias: pilhas de caixas, alguns brinquedos, pneus, uma máquina de costura, um manequim, duas pipas. Bancos e cadeiras velhas. Entre os dois níveis, uma janela alta para a rua (o chão do sótão encontra-se aproximadamente ao nível do terço inferior da janela, pelo que esta pertence tanto ao «espaço do quarto/sala» como ao «espaço do sâtão»}. Ajanela tem largas cortinas brancas soltas. aproximadamente no sentido de a inevitável arca. Paus altos e cordas, uma ou Os espaços relativos do quarto/sala e do sótão distribuem-se cena. da diagonal do palco, de modo que um e outro possam dispor de toda a profundidade Personagens: Manuel e Ana, adolescentes ambos; Capitão dos piratas (voz e vulto); Mãe de Manuel.

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Sótão. Meio da tarde. Dia de tempestade. A chuva bateforiosamente na Janela, o vento agita as cortinas. O ruído do mar embravecido aofondo. O gemido da ronca. Quando abre o pano, Manuel e Ana estão, de pé, em silêncio, olhando pela Janela. Água caindo pelas vidraças. O «espaço do quarto» está invisível (negro). ANA (De costas, diante da Janela) - Qpe tempestade! Se algum barco sai hoje ao mar, afunda-se! MANUEL (Também de costas) - Os barcos hoje não saem. O mar está muito bravo ... ANA MANUEL - O mar e a terra ... E o céu, e o céu também ... Vem aí uma trovoada ... Uma trovoada? Deus nos livre! Não dês azar! Brrrrrrrrumrnml. .. ANA MANUEL (Volta-se para Ana, erguendo os braçosameaçadoramente) - ANA (Recua, assustada) MANUEL (Rindo) - Não sejas palerma! Assustaste-me ... Não me digas que tens medo de trovoadas ...

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8 ANA MANUEL E tu não tens? .. Palerma ... Pronto, Ana, desculpa! (Ainda a rir.) Eu não trovejo (Dá-lhe a mão) - maIs ... Um trovão láfora. Ana e Manuel estacam, assustados. MANUEL - Eu não te dizia? .. Ana puxa Manuel para o centro da cena. ANA MANUEL - Sai da janela! Pode cair algum raio! Ora, um raio!. .. Os raios caem no mar! Ana senta-se num banco. Manuel vai sentar-se numa cadeira. A cadeira tem uma perna partida e Manuel quase se desequilibra. ANA (Rindo alto) - Ah, ah! Os raios a cair no mar e tu a cair no chão ... Manuel muda de cadeira e vem sentar-se ao lado de Ana. MANUEL (Voltando-se para a janela) - Lembras-te do naufrágio? .. Foi num dia de tempestade assim ... ANA - Não fales nisso ... É triste ... (Olha em volta, procurando mudar de assuntos) As coisas que a tua mãe aqui guarda! (Pega numa boneca sem i-desfeita) Não me digas que tu também brincavas com bonecas! ' Outro trovão. Ana encolhe-se de medo. MANUEL Foi no dia em que fomos despedir-nos do meu pai ... Chovia e trovejava ... Como agora ... (Sem tirar os olhos da janela} -

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9 Ana levanta-se e anda de um lado para o outro, mirando as coisas espalhadas no sótão, até que se detém diante da arca. Lá fora, um cão ladra furiosamente. MANUEL - Achas que a América é muito longe? Eu sei lá! É do outro lado do mar, deve ser longe. ANA (Sem o olhar) MANUEL - O meu pai não escreve há três semanas! A minha mãe não fala, mas eu sei que está aflitíssima. A última vez que escreveu disse que ia trabalhar para outra fábrica. A minha mãe tem medo que lhe tenha acontecido alguma coisa. (Pausar) Lembras-te do senhor Albino? ... - ANA -Não MANUEL Morava na casa ali defronte, mesmo do outro lado da rua. Foi para a América e a família nunca mais soube dele ... (Aponta para a janela) ANA - Ora ... Um dia, quando ninguém estiver à espera, aparece ... (Põe-se de joelhos diante da arca, e tenta abri-lar] O que é que haverá aqui dentro? Manuel fica um momento em silêncio, olhando para a janela. Finalmente levanta-se e aproxima-se de Ana. MANUEL - Devem ser roupas e coisas assim. A minha mãe tem a mania de guardar tudo ... Abrimo-la? E se cá estivesse um tesouro? .. Um tesouro?! Em minha casa? ... Só se ANA (Cheia de curiosidade) MANUEL (Baixando-se ao lado de Ana) - for uma tesoura ... ANA MANUEL - Abrimo-la, abrimo-la? Está bem, abre-se ... os dois sobre a arca tentando, em vão, abri-Ia. Debruçam-se

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10 ANA MANUEL - Está fechada à chave. O!tal chave qual carapuça! Está é perra! (Afasta-se, à procura de qualquer Olha, encontrei a tal tesoura ... Agora só falta o tesouro ... coisa com que abrir a arca. Volta com uma tesoura ferrugenta:) Esforçam-se ambos por abrir a arca com a tesoura. Manuel vai buscar o banco e senta-se, tentando forçar a arca. Ana está dejoelhos a seu lado. o vento continua a soprar láfora e a chuva a cair. De vez em quando, ao longe, soa a ronca. Depois de várias tentativas, Manuel e Ana conseguem finalmente ANA (Inclinada para dentro da arca) MANUEL abrir a arca. Ena, tanta tralha! Eu não te dizia? Ana puxa um velho vestido preto de dentro da arca. ANA MANUEL Olha! Parece a batina do Padre Timóteo! o vestido da mão, rindo) - (Tira-lhe Dá cá (Mete o vestido pela cabeça epõe as mãos, imitando Rezai pelos vossos pecados ... Cem pai-nossos e cem avé-rnarias ... Quem dá mais, quem dá mais? o padre:) Caros irmãos Ana ri e salta à volta de Manuel De repente, Manuel cala-se efica quieto e muito sério. Ana deixa também de rir, epára diante dele a olhá-lo, sem compreender. ANA MANUEL O que foi, Manuel? Nada, lembrei-me do (De cabeça baixa e braços caídos ao longo do corpo) - naufrágio ...

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11 ANA MANUEL - Do naufrágio? Outra vez? Oh, ManueL .. O Padre Timóteo, na catequese, pediu-nos que rezássemos pelos náufragos, lembras-te? Sei lá, já foi há tanto tempo ... ANA MANUEL - Rezámos um terço inteiro. O Padre Timóteo dizia que, se rezássemos todos juntos, Nossa Senhora salvava os náufragos. Nossa Senhora ouvia as crianças, porque as crianças lhe faziam lembrar o filho, que morreu na cruz. (Pausa:) Lembras-te do nome do navio? Era o «Dever» ... Morreram todos ... Nossa Senhora não nos ouviu ... Até acendemos uma vela, mas despedaçaram-se todos nas rochas ... Ana sentou-se de novo. Regularmente, ANA ao longe, soa a ronca. Não fales nisso, é muito triste ... Manuel senta-se ao lado de Ana. MANUEL - Eu fui lá, à Ponta de Santo António ... Fiquei no cimo da falésia a ver. O navio estava deitado de lado e as ondas passavam-lhe por cima, varrendo tudo. Estava tão perto! Quase se lhe podia tocar ... Viam-se os marinheiros no meio do nevoeiro, correndo de um lado para o outro, com os braços no ar, a pedir ajuda ... Mas os bombeiros não conseguiram atirar os cabos, e morreram todos. O navio afundou-se, só ficou a proa de fora ... ... ANA -Eusei MANUEL - Ainda lá está, meio desfeito ... Qpando o vejo ainda hoje me arrepio todo ... Manuel levanta-se e despe o vestido, atirando-o para a arca.

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12 MANUEL - Só depois é que soubemos que tinham todos morrido. Logo nesse dia deu à costa o corpo de um homem, despedaçado. (Pausa:) A minha mãe diz que o mar atira os náufragos ao terceiro dia, ao quinto dia e ao nono dia ... (Pausa:) O terço a Nossa Senhora não valeu de nada ... Manuel fica em silêncio. MANUEL Sabias que, antigamente, as pessoas acendiam fogueiras nos dias de tempestade para enganar os navios e os fazerem naufragar? Depois apanhavam na praia as cargas e as riquezas que os navios levavam ... Até vinha gente do outro lado da ilha! - ANA - Eu sei, é horrível! Não fales agora nisso. Continua a chover. A ronca, ao longe, não pára de gemer. ANA - Não fales mais nisso ... Ana aproxima-se de novo da arca. Pega na mão de Manuel epuxa por ele. ANA - Anda! Vamos procurar coisas na arca ... Ana recomeça a mexer nofundo da arca. Manuel está de pé, a seu lado. Ana tira um chapéu e coloca-o na cabeça de Manuel Depois tira um velho xaile de renda branca epõe-o na sua própria cabeça. ANA - Fica-me bem, fica-me bem? (Olha em volta:) Não há por aqui um espelho? (Sorrindo) - MANUEL Pareces uma noiva ... Manuel acaba por debruçar-se também sobre a arca. Ana continua a vasculhar e ergue-se com um lenço vermelho na mão, ANA - E isto? O que é isto?

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13 Manuel endireita-se subitamente. MANUEL (Pegando no lenço) - O lenço vermelho! cheia de curiosidade) - ANA (Ao lado de Manuel, O que é, o que é? Parece um lenço de pirata ... MANUEL (Num m urmúrio, fitando paradamente o lenço) - E é... ANA (Incrédula) - É um lenço de pirata? Oh, Manuel, não mintas ... Diz-me, diz-me ... MANUEL - É um lenço de pirata, já disse! Manuel fita o lenço. Ana tira-lho da mão e observa-o, curiosa. ANA MANUEL - Não acredito. Não existem piratas! Existem, existem! Se eu te contasse ... Manuel torna a pegar no lenço. ANA MANUEL - Não acredito ... Não sei se existem ou não existem ... É uma história tão estranha ... Às vezes acho que foi um sonho, outras vezes ... Não sei... Foi no dia do naufrágio ... Nunca contei isto a ninguém ... Até a mim me custa a acreditar ... Conta, conta! Não ... Não sei... Tu não acreditavas, Ana ... Acredito, juro! ANA MANUEL - ANA - Manuel faz uma pausa.

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'4 o vento MANUEL atirafuriosamente a chuva contra ajanela. (Virando-se para Ana) - E depois não te ris de mim? com a mão sobre a garganta) - ANA (Faz um gesto, jurando Não, juro! Conta, conta ... Ana força Manuel e sentar-se sobre a arca e senta-se a seu lado, dando-lhe o braço. Manuel pousa o lenço vermelho nosjoelhos e olha o vazio. ANA MANUEL - Conta, conta! Não sei se foi um sonho ou não ... Foi no dia do naufrágio do «Dever» ... Nessa noite eu não conseguia dormir ... Não me saiam da cabeça os gritos dos marinheiros a pedir ajuda ... Chovia muito e havia trovoada ... As luzes apagam-se lentamente. O vento, a chuva, a ronca. Um relâmpago atravessa o céu. • I

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Acendem-se lentamente as luzes no «espaço do quarto». Noite. Penumbra, sombras. A chuva e o ruído do mar, ao longe, ouvem-se agora distantemente. Manuel cabeça. Silêncio. está deitado na cama, em pijama, de olhos abertos e com as mãos sob a O vento agita levemente as cortinas da janela. Do escuro, ouve-se uma voz (vinda das sombras, do «espaço das escadas»), voz (Num murmúrio) - Manuel. .. Manuel, sobressaltado, soergue-se na cama, olhando em volta. Depois acaba por voltar a deitar-se. voz (Do escuro) - Manuel. .. Manuel soergue-se de novo. MANUEL (Assustado) Silêncio. Manuel senta-se na cama, esfregando os olhos e perscrutando e vai àjanela, olhando para fora . . ·\..\OíECA Quem é? .. Qpern está aí? a escuridão do ESCOl. quarto. Levanta-se Ruído da chuva na janela. (~:; . S"-4~ .- .... .. 1"'<4GO DE R\6"" -. _. Ú"

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16 Manuel senta-se de novo na cama. voz - Manuel, .. Anda, vem! MANUEL (Respondendo para o escuro) - Qpem? Eu? voz - Sim, tu ... Vem depressa ... Está a fazer-se muito tarde ... MANUEL (Olhando em volta) - Não compreendo ... Devo estar a sonhar ... voz - Não, não é um sonho ... (Insistindo.) Vem, anda ... Depressa ... MANUEL (De novo virado para o escuro das escadas) - Mas ... Eu ... Uma mão invisível pega na mão de Manuel epuxa-o. Aos poucos, Manuel deixa-se levar, oferecendo apenas uma ténue resistência. voz - Anda depressa! Manuel deixa-se arrastar em direcção ao escuro. MANUEL - Mas ... Eu ... Quem és tu? voz - Eu sou tu, meu tolo! Vem! MANUEL - Eu quem?,. (Pausa.) Confia em mim. Daqui a pouco amanhece e eu voz - Sou eu, tu! desapareço ... Depressa! É muito importante! Tens que salvar a tua mãe! MANUEL (Detém-se, assustado) - A minha mãe? Aconteceu alguma coisa à minha mãe? voz - Não, ainda não ... Mas tens que vir depressa ... MANUEL (Sem compreender) - Mas ... Eu ... Estou acordado ou estou a dormir?

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