Gazeta Valeparaibana

 

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Abril 2016

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Ano VIII - Edição 101 - Abril 2016 Distribuição Gratuita Vale do Paraíba Paulista - Litoral Norte Paulista - Região Serrana da Mantiqueira - Região Bragantina - Região Alto do Tietê RECICLE INFORMAÇÃO: Passe este jornal para outro leitor ou indique o site - Boa música Brasileira Cultura Educação Cidadania Sustentabilidade Social 1º de Abril o dia da mentira e o dia em que as nuvens negras tomaram conta da consciência cidadão do Brasil. Uma data que não devemos esquecer. Agora também no seu www.culturaonlinebrasil.net Baixe o aplicativo IOS Recomendados também Página 9 Página 2 Página 4 O ESTADO BRASILEIRO Estado é por si só é um mal necessário Vivemos um tempo aqui neste para grupos humanosso querido Brasil em que o nos, mas o discurso ódio está se manifestando explide igualdade e libercitamente. dade tem influenciado nosso País na tentativa de padronizar as formas de pensamentos e essa censura Página 12 “politicamente correta” tem sido a evolução natural da nossa sociedade e tem gerado o seguinte pensamento entre todos: se você pensa diferente Quem é que vigia o vigia? Página 16 e é oposto às tendências, então querem que se Neste período histórico do Brasil, as pessoas escale para não "contaminar" outras pessoas. MÊS DE ABRIL tão testemunhando mais uma das crises políticas brasileiras. A atual crise é considerada por alO Princípio da primavera em PORTUGAL guns ou muitos como uma das mais graves da história do país. Contra o Ódio: a Arte. Página 3 Todo dia era dia de Índio... Página 10 Sim. Antes da chegada dos portugueses ao Brasil, a terra era O BRASIL NUNCA FOI UMA COLÔNIA! PARTE II somente deles. Aqui habitavam diversas “A expansão portuguesa não foi, nem fruto do tribos, diversos poacaso, nem um feito político da Coroa ou de corvos indígenas, com tesão esforçados, antes a missão de uma Ordem seus costumes e sua iniciática.” cultura. O contato com os brancos fez com que muitos desses povos perdessem a sua identidade, morressem por causa das doenças e Página 15 por conta das lutas que travavam com os brancos, muitos foram escravizados e povos inteiros Capitalismo e democracia dizimados. Leia também: Página 5 Exercício da cidadania requer aprendizagem e prática E muito mais... Confira! na Europa www.culturaonlinebrasil.net /// CULTURAonline BRASIL /// www.culturaonlinebr.org

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Abril 2016 Gazeta Valeparaibana Página 2 Editorial O ESTADO BRASILEIRO Estado é por si só é um mal necessário para grupos humanos, mas o discurso de igualdade e liberdade tem influenciado nosso País na tentativa de padronizar as formas de pensamentos e essa censura “politicamente correta” tem sido a evolução natural da nossa sociedade e tem gerado o seguinte pensamento entre todos: se você pensa diferente e é oposto às tendências, então querem que se cale para não "contaminar" outras pessoas. Embora a democracia deva ser transparente e beneficiar o povo, há muito tempo está formado por pessoas interessadas em manter seus cargos e atingir seus objetivos atuando como vendedores da ordem social e tendo os cidadãos como alvos e meta de faturamento o que favorece senão a eles mesmos. Da mesma forma que o comércio, o Estado "fabrica" produtos da melhor e pior qualidade e para os menos favorecidos oferecem sempre o de menor qualidade e isso, chama-se jogo de interesses. Esse não é nosso pior momento, mas, ainda poderá ser, pois a sociedade sempre suportou o que agora está insuportável e a corrupção se assolou cada vez mais, apoiada em tiranos e em um povo que tem sido “cego-surdo-mudo”, mas, que agora querem gritar! Por que não temos uma boa educação se temos professores "formados"? Pelo simples fato de nossas escolas não serem bem geridas e não ter a participação da comunidade de acordo com seus próprios valores e necessidades. Precisamos de pessoas que pensem e não se esqueçam de onde vieram e com liberdade de agir e pensar pode fazer a diferença, desde que ajam não em benefício próprio, mas atentos e cobrando sempre do Estado, quer seja da direita ou da esquerda, sem vendar os olhos para que quando desvendados não comecem a agir como baderneiros cujas consequências são discórdias ofensivas, revoluções e quebras institucionais. O Estado e os "mais aptos" tem à mão o moralismo, mérito e prosperidade e os "exclusos" coletivismo ineficiente e decadência e isso nos trouxe a um momento onde quem tem dinheiro só ganha e quem não tem, por necessidade“gasta”. Pagamos muitos impostos, a duras penas, em cima do que consumimos e olha que o “povão” não sonega. Mas, é também preocupante a maneira de aceitar o “jeitinho brasileiro” que parece ser a única salvação, mas, no entanto, não precisaria agir dessa forma se soubesse cobrar o que lhe é de direito e devido. O Estado não tem que prometer e sim trabalhar em prol de todos que acreditaram nele e não cercear a liberdade, induzindo o cidadão a assumir uma postura de direita ou de esquerda sem que saiba realmente o que está acontecendo. Não basta somente informação é preciso que haja educação, formação e conhecimento através da boa escola com todos os direitos e recursos necessários para que isso aconteça. É necessário persistir na ética e incorporá-la, pois o errado é errado e o certo ainda continua sendo certo dentro da educação moral. É preciso insistir na punição a quem tiver que ser punido seja qual for a classe social ou patamar que esteja o contraventor. No final, quando deveria haver reflexão, veem-se manifestações acaloradas com profusão de sons, num momento trágico, sempre com o velho pensamento de que Deus ainda é brasileiro e, cujos problemas, certamente seriam mais bem resolvidos se a Nação estivesse unida e sóbria. Genha Auga – jornalista – MTB: 15.320 Gabriel Garcia Marques O amor é eterno enquanto dura. (Só vim falar ao telefone). Sempre falei que envelhecemos mais rápido nos retratos do que na vida real. (Boa viagem, senhor presidente). “A ilusão não se come” – disse ela. “Não se come, mas alimenta”, replicou o coronel. Voltarão – disse – A vergonha tem memória ruim. (A hora ruim). … lembrou-se de um velho provérbio espanhol: “que Deus não nos dê o que somos capazes de suportar”. Cuide do seu coração… você está apodrecendo vivo. (Cem anos de solidão). Rádio web CULTURAonline Brasil NOVOS HORÁRIOS e NOVOS PROGRAMAS Prestigie, divulgue, acesse, junte-se a nós ! A Rádio web CULTURAonline Brasil, prioriza a Educação, a boa Música Nacional e programas de interesse geral sobre sustentabilidade social, cidadania nas temáticas: Educação, Escola, Professor , Família e Sociedade. Uma rádio onde o professor é valorizado e tem voz e, onde a Educação se discute num debate aberto, crítico e livre. Mas com responsabilidade! Acessível no link: www.culturaonlinebrasil.net CONHEÇA - BAIXE www.gazetavaleparaibana.com Os artigos publicados são responsabilidade de seus autores, não refletindo necessariamente a opinião da Gazeta Valeparaibana IMPORTANTE Todas as matérias, reportagens, fotos e demais conteúdos são de inteira responsabilidade dos colaboradores que assinam as matérias, podendo seus conteúdos não corresponderem à opinião deste projeto nem deste Jornal. A Gazeta Valeparaibana é um jornal mensal gratuito distribuído mensalmente para download Editor: Filipe de Sousa - FENAI 1142/09-J Gazeta Valeparaibana e CULTURAonline BRASIL CULTURAonline BRASIL Ajude-nos a manter este projeto por apenas R$ 2,00 mensal Email: assinaturas@gazetavaleparaibana.com Juntas, a serviço da Educação e da divulgação da CULTURA Nacional

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Abril 2016 Gazeta Valeparaibana Página 3 Povos indígenas Todo dia era dia de Índio... Sim. Antes da chegada dos portugueses ao Brasil, a terra era somente deles. Aqui habitavam diversas tribos, diversos povos indígenas, com seus costumes e sua cultura. O contato com os brancos fez com que muitos desses povos perdessem a sua identidade, morressem por causa das doenças e por conta das lutas que travavam com os brancos, muitos foram escravizados e povos inteiros dizimados. Acredita-se que por volta do ano de 1500, quando os portugueses aqui chegaram o número de índios ficava entre 1 e 5 milhões. Entre as diversas tribos existentes, duas se destacavam mais, os Tupis e os Guaranis, que tiveram um contato mais intenso com o homem branco. Atualmente os índios brasileiros somam em torno de 900 mil segundo o censo do IBGE de 2010. São mais de 240 povos que se encontram em áreas rurais e cidades espalhados por todos os cantos desse nosso imenso país. Verdade que temos um dia especial para comemorarmos o dia do Índio, assim como temos outras datas que comemoram outros povos também. No Brasil esse dia é celebrado em 19 de abril, dia em que ocorreu o primeiro Congresso Indigenista Interamericano no México em 1940. Interamericano porque tratou da situação dos povos indígenas na América do Norte, do Sul e na América Central. Um dia para celebrar os povos indígenas serve para que todos percebam e valorizem a importância da cultura indígena, para que esses povos sejam respeitados e recebam os incentivos e a atenção devida do Estado e das pessoas em geral. Essa data passou oficialmente a fazer parte do nosso calendário por um decreto-lei do então Presidente Getúlio Vargas no ano de 1943. Então, termos um dia para comemorar é bom, porque nos faz agir, pensar e nos torna mais atuantes. Celebrar a data é necessário para que essa conscientização exista, visto que ainda são marginalizados e excluídos. Faz-se necessário também para preservar a cultura indígena e o respeito que esses povos merecem, por tudo que nos foi passado, ensinado, por toda a sabedoria e respeito que possuem pela terra, pelos animais e pela vida. Alguns perguntam de quem é o Brasil, e aproveitam a data que se aproxima para travar esse debate. Dos índios que habitavam essas terras? Dos portugueses que descobriram esse território? Quem já não ouviu dizer que o Brasil é dos índios que já aqui estavam quando ele foi descoberto pelos portugueses. Que depois da chegada deles, o que restou foram esses poucos índios que hoje se encontram espalhados por aí. Acredito que o Brasil é de todos os brasileiros. Somos um país miscigenado, índios, negros, brancos, mulatos, amarelos, enfim, somos a soma de todos esses grupos, de todas essas raças. Formamos a nação Brasileira que é única e possui uma multiculturalidade ímpar. Somos esse país que é de todos os cidadãos brasileiros. Somos um povo alegre, aberto para o mundo e segundo nossa Constituição Federal, sem distinção de cor, raça, credo ou sexo. Um Estado laico, mestiço e bonito por natureza. Somos todos brasileiros, não somos índios, mestiços, negros, brancos ou mulatos apenas, somos a nação brasileira. Verdade que temos um dia especial para comemorarmos o dia do Índio, pela importância que eles tem, pela contribuição e pelo legado, por suas lutas e conquistas, mas devíamos ter um dia especial chamado dia dos Brasileiros. Porque ser brasileiro não é só alegria futebol e carnaval, mas um povo que luta, que sonha, que se orgulha, e também sente vergonha. Ser brasileiro é ter medo de sair de casa, ter vergonha da roubalheira, do mau uso do dinheiro público, é ter vergonha dos políticos que nos representam, é querer uma educação de qualidade, saúde que funcione, é ter participação cidadã, querer um país melhor, cuidar dos nossos idosos, das nossas crianças, do futuro dos nossos jovens. É querer emprego para todos, menos miséria e menos fome. Ser brasileiro é ter orgulho também! Dos nossos cantores/compositores, artistas, escritores maravilhosos, pintores, cientistas,, é ter orgulho da nossa natureza exuberante, da nossa alegria que insiste em não se perder, da esperança que não nos deixa apesar de tudo. É ter orgulho dessa multiculturalidade, das tradições de cada estado, dos costumes, das artes, da música, dos sotaques, das cores. O Brasil de todas as raças, cores amores e dissabores, dos índios, dos brancos e dos negros, de quem nasceu aqui e de quem escolheu esse país para viver. Então, comemorar o dia do índio é importante, mas não esquecendo que antes de tudo eles são brasileiros. Somos todos brasileiros lutando pela igualdade na desigualdade. Mariene Hildebrando Especialista em Direitos Humanos Email: marihfreitas@hotmail.com Calendário Principais datas comemorativas 01 - Dia da Mentira 02 - Dia Internacional do Livro Infantil 07 - Dia do Jornalista - Dia Mundial da Saúde 08 - Dia Mundial do Combate ao Câncer - Dia Nacional do Sistema Braille 11 - Dia da Escola de Samba 13 - Dia do Hino Nacional Brasileiro 13 - Dia do Jovem - Dia da Carta Régia 15 - Dia Nacional da Conservação do Solo 18 - Dia de Monteiro Lobato - Dia do Amigo 19 - Dia do Índio 21 - Tiradentes - Dia da Latinidade 22 - Descobrimento do Brasil - Dia da terra - Dia da Comunidade Luso-Brasileira 23 - Dia Mundial do Livro 28 - Dia da Educação - Dia da Sogra 30 - Dia Nacional da Mulher Joaquim José da Silva Xavier Apelido: Tiradentes Nascido: 12 - 11 - 1746 Falecido: 21 Abril 1792 Gênero: masculino Nacionalidade: brasileira Profissão: dentista, ativista (patriota), militar Signo do zodíaco: Escorpião EDUCAÇÃO PARA A CIDADANIA A educação para a cidadania significa fazer de cada pessoa um agente de transformação social, por meio de uma práxis pedagógica e filosófica: uma reflexão/ação dos homens sobre o mundo para transformá-lo. Este é um dos objetivo do Jornal Gazeta Valeparaibana www.culturaonlinebrasil.net /// CULTURAonline BRASIL /// www.culturaonlinebr.org

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Abril 2016 Gazeta Valeparaibana Página 4 Fala maestro Contra o Ódio: a Arte. sagem forte durante este tempo todo inspirou inúmeras outras obras de arte. Óperas, balés, música incidental, filmes, canções e música Vivemos um tempo aqui neste nosso querido simplesmente surgiram inspiradas na tragédia Brasil em que o ódio está se manifestando do bardo inglês. Sempre impregnadas de uma explicitamente. A polarização das ideias, a forte emoção. rivalidade exacerbada, a falta de amor, de compaixão me fizeram lembrar de uma históEu, particularmente, dentro do campo musical ria que foi escrita no final do séc. XVI, ou seja tenho três preferidas: uma abertura, uma ópehá mais de 400 anos. Uma tragédia imortalira e um balé. zada por aquele que é até hoje considerado o mestre absoluto do Teatro, William ShakespeTchaikovsky, um compositor russo que viveu are, autor inglês que viveu entre 1564 e 1616. entre 1840 e 1893. Do período romântico da música. Romeu e Julieta, uma AberturaRomeu e Julieta. A Tragédia se difere do DraFantasia, é uma obra instrumental de aproxima na medida em que os personagens somadamente 20 min. de duração. Não descrefrem por causa do destino, ou por forças ave a história exatamente mas mostra duas lheias às suas próprias. Já no Drama os perideias principais com o “peso da tragédia” paisonagens sofrem as consequências de seus rando o tempo todo. A primeira ideia é o conpróprios atos. Romeu e Julieta são dois adoflito entre as famílias e a segunda o amor enlescentes pertencentes a famílias rivais dentro tre os jovens. Na seção do conflito a orquesda cidade de Verona, na Itália. Essas famílias tra simula algo como uma luta de espadas imse odeiam sem saber muito o porquê. Os jopressionante e é interrompida pela melodia vens das famílias lutam nas ruas, fazem promaravilhosa do tema de amor. Inesquecível. vocações, são como duas “gangues" que desE isso vai se alternando até que a tragédia tilam um ódio secular. finalmente vence… Aqui está um link para quem quiser ouví-la no YouTube: Num baile a fantasia organizado pelos pais de https://youtu.be/ZxOtYNf-eWE Julieta, Romeu e seus amigos entram disfarçados só para se divertir dentro da casa do Prokofiev, foi um outro compositor russo que “inimigo”. Romeu então conhece Julieta e os viveu um pouco depois, entre 1891 e 1953. dois se apaixonam dando origem a toda conEntre 1935 e 1940, o compositor recebeu a fusão. Em menos de um dia eles conseguem difícil tarefa de musicar a história dos amanencontros furtivos, entre eles a famosa cena tes de Verona para um balé. Romeu e Juliedo balcão onde Romeu embaixo da varanda ta, balé em 3 atos. Entre as tantas dificuldado quarto de Julieta. des estaria a de escrever um final que fosse coreografável (pudesse ser transformado em O casal procura Frei Lourenço, que luta pela dança) já que os amantes na história original paz entre as famílias, para que ele realize o não se encontram vivos no mesmo momento. casamento à revelia dos pais. Enquanto isso Ele acertou o final na segunda versão do balé a família de Julieta prepara o casamento dese ele até hoje é encenado com sucesso no sa com Páris para a mesma noite. A menina, mundo inteiro. Lindo do começo ao fim o balé desesperada, procura o frei para que ele o consegue se adaptar à dramaturgia (maneira ajude. Ele dá a Julieta uma poção que a faria de se construir a peça de teatro e seus persoparecer morta, mas, ela se reanimaria tempos nagens para que a história fique compreensídepois. O tempo suficiente para que ela fosse vel) de Shakespeare e deixa bastante em evicolocada em uma tumba onde Romeu a espedencia a parte violenta da narrativa. Num balé raria acordar. onde somente se dança e nenhuma palavra é dita ele consegue emocionar até os mais duFrei Lourenço escreve uma carta a Romeu ros espectadores. explicando o plano, mas essa carta nunca chega ao jovem apaixonado. Julieta toma a Um exemplo do balé completo: poção antes do casamento e cai desacordahttps://youtu.be/uwpZcae8tsw da. Os parentes a têm como morta e fazem o Uma das cenas mais bonitas pra quem não funeral, como o Frei previra. Mas Romeu, quer assistir a tudo! A dança dos cavaleiros sem saber do plano, se desespera. Assim que dentro do baile de mascaras. o cortejo sai da tumba ele entra, beija Julieta https://youtu.be/MDHc40aT_AY e se mata. Logo depois ela acorda, encontra E a última cena: Romeu morto e acaba se matando também. https://youtu.be/wt8Z8uQFV14 Uma morte comovente de dois jovens apaixoGounod, foi um compositor francês que viveu nados vítimas do ódio entre as famílias. entre 1818 e 1893. Gounod escreveu sua ópera Roméo et Juliette, em 1867. Diferente Esse texto foi escrito há mais de 400 anos e de Prokofiev, Gounod centra sua versão no continua sendo atual. Com sua força e menrelacionamento entre os jovens, diminuindo a parte das brigas entre as famílias. Uma versão um pouco mais adequada para cantores. Essa ópera é famosa por ter quatro duetos entre os protagonistas, fato bem raro no gênero. É sutil e delicada do começo ao fim. Vale a pena assistir e se emocionar com a história musicada por um gênio. Mais uma vez o final é um desafio. Difícil terminar a ópera sem um dueto. A solução encontrada foi retardar a morte de Romeu, para que eles tenham um encontro antes da morte. Genial. Aqui a cena final: https://youtu.be/ w87OkQH3_hk Há outras versões maravilhosas desta história, posso citar o musical West SideStory, de Bernstein, também as duas versões cinematográficas mais famosas: Romeu e Julieta de Zefirelli(1968) e Romeu + Juliet, de B. Luhrman, com Leonardo di Caprio (1996). Em todas elas podemos sentir na alma e no coração o estrago que o ódio pode trazer na vida das pessoas. O último trecho da peça original diz numa tradução livre: Uma triste paz essa manhã nos traz; O sol, por tristeza, não mostrará sua face; Vão, portanto, conversar sobre estes tristes acontecimentos; Alguns serão perdoados, outro punidos… Pois nunca houve uma história mais triste Que esta de Julieta e seu Romeu Eu gostaria que todos nós refletíssemos através desta triste história, escrita há mais de 400 anos, e lutássemos para se acabe com o ódio entre famílias, entre grupos, entre nações, entre ideais e conseguíssemos com isso fazer do mundo um lugar melhor. Já nos advertia Shakespeare e ele foi lembrado e louvado por tantos outros artistas. Acho que devemos fazer a nossa parte. Da minha parte farei sempre arte. A Arte contra o ódio. Luís Gustavo Petri é regente, compositor, arranjador e pianista. Fundador da Orquestra Sinfônica Municipal de Santos. Diretor musical da Cia. de Ópera Curta criada e dirigida por Cleber Papa e Rosana Caramaschi. É frequente convidado a reger as mais importantes orquestras brasileiras, e em sua carreira além de concertos importantes, participações em shows, peças de teatro e musicais. Se a música é o alimento do amor não parem de tocar. Dêem-me música em excesso; tanta que, depois de saciar, mate de náusea o apetite. William Shakespeare www.culturaonlinebrasil.net /// CULTURAonline BRASIL /// www.culturaonlinebr.org

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Abril 2016 Gazeta Valeparaibana Página 5 Cidadania firmação, para o cidadão, de que a solução democratização do Brasil, considerando encontrada satisfaz o problema social enfren- questões políticas e econômicas; para, ao tado. final, levantar algumas hipóteses sobre a esPara Mendes a questão da cidadania está, petacularização da cidadania e a transformahoje, mais vinculada a uma relação de con- ção dos cidadãos em plateias para projetos sumo do que a um processo de formação de de poder de políticos profissionais, principalpersonalidade. "Quando a pessoa vai fazer mente na fase brasileira atual. um documento no Poupatempo, ela pega um pedaço de papel e, com este ato, se considera um pouco mais cidadã. Mas cidadania não é isso: é viver em harmonia com o outro, transformar princípios e valores em atitudes que não beneficiam só interesses individuais, mas interesses coletivos. Por exemplo, eu varro a rua para evitar que o lixo se acumule e prejudique tanto a mim quanto aos meus vizinhos", explica. Segundo o pesquisador, a concepção de cidadania adquire seu formato de acordo com o problema a afligir a comunidade. O jurista argumenta que "talvez por isso seja tão difícil ser cidadão, principalmente em um país de tradição democrática recente como o Brasil e onde a educação formal não é valorada como elemento fundamental na diferenciação entre 'súdito' [aquele que simplesmente segue a vontade do governante] e 'cidadão' [capacidade para procurar e agir de maneira mais autônoma possível em prol de interesses próprios, limitado tão somente pelo ordenamento legal e pelo respeito ao bem comum]". Segundo o pesquisador, o estudo não intenciona julgar as sociedades dos teóricos pesquisados e suas concepções de cidadania, mas sim apenas tê-las como modelo-padrão para a formação de um conceito baseado em valores e princípios simples de vida em sociedade, como o respeito ao outro e o respeito à liberdade. Transformar princípios e valores em atitudes que beneficiam toda a sociedade é um exemplo de cidadania Atitudes como não jogar lixo na rua, dar lugar ao idoso em meios de transporte coletivo e esperar que as pessoas saiam do metrô antes de entrar são questões corriqueiras na vida da população que se encaixam perfeitamente na concepção de cidadania pretendida pelo cientista jurídico Ovídio Jairo Rodrigues Mendes. "No entanto, pela correria diária, essas atitudes não são observadas e acabam por se tornar problemas sociais. E a cidadania requer aprendizagem e prática, sob pena de funcionar como mero rótulo", destaca. Exercício da cidadania requer aprendizagem e prática Mendes assinala que a concepção de cidadania para não ser apenas formal, requer a capacidade de a pessoa dispor de objetivos racionalmente possíveis de como tornar concretos seus ideais. "Como toda regra, a formulação teórica de uma concepção de cidadania tem como primeiro passo a intuição para a identificação de regras sobre o assunto dentro da Constituição ou de leis inferiores, tornando a sua definição mais palpável ou palatável ao cidadão comum ", diz. Visão egocêntrica de mundo O pesquisador, no entanto, não se limita a questões individuais. "Muitas decisões governamentais não privilegiam a sociedade como um todo, mas o interesse de setores da população", conta. Ele cita o atual discurso de muitos meios de comunicação, sobre diversos acontecimentos cotidianos, como acidentes, enchentes, crimes. "Esse discurso valese de argumentações opinativas e não da lógica, e só acabam por inflamar a teia de queixas e reclamações vazias. Assim, os 'cidadãos' reclamam da ausência do Estado porque precisam encontrar um culpado pois pagam impostos e, por isso, devem ser servidos; enquanto que, do outro lado, o Estado se defende das reclamações, acusando os cidadãos de serem os provocadores para todas as desgraças cotidianas", destaca. Da redação A pesquisa de Mendes não teve a intenção de limitar-se à doutrina jurídicas (teorias de direito) e à jurisprudência (decisões do tribunais). O foco foi direcionado para "buscar uma maneira de elaborar uma teoria que o público comum e não só cientistas jurídicos ou pessoas esclarecidas se identificassem para Mendes estudou o tema em sua dissertação uma conceituação do que seja cidadania". de mestrado " Concepção da Cidadania", apresentada em 2010 na Faculdade de Direito Para realizar o estudo, o cientista jurídico (FD) da USP. De acordo com o cientista jurí- considerou diferentes tipos de narrativa sobre dico, simbolicamente, comportar-se como ci- a conceituação de cidadania nas teoria dos dadão implica em quatro momentos: o surgi- filósofos Aristóteles, Thomas Hobbes e Jeanmento do problema social (questões que afe- Jacques Rousseau; passando a uma análise tam a comunidade), entendimento e análise das transformações sofridas pela concepção lógica desta questão, procura racional de u- do termo no pós-independência no Brasil Imma solução adequada para o caso, e a con- pério, no Estado Novo e no processo de re- Porque precisamos fazer a Reforma Política no Brasil? Seus impostos merecem boa administração. Bons políticos não vem do nada. Para que existam bons políticos para administrar o país, toda a sociedade precisa colaborar para que eles possam nascer e terem sucesso. É preciso um sistema eleitoral moderno para melhorar a qualidade da política. Os políticos "tradicionais" tem horror à reforma política, porque ela pode mudar a situação atual onde eles usam e manipulam o eleitor e são pouco cobrados ! DESIGUALDADES Os contrastes sociais são responsáveis por todas as desigualdades raciais, étnicas e interculturais. Mesmo em tempos pós emancipação quem tem muita melanina, na maioria das vezes, é olhado de canto, é temido. Julgado e culpado. Prostrado à marginalização e banalidade. Jogado à sorte do destino. É triste ver que muitos são obrigados a sobreviver com pouca coisa, enquanto poucos riem e fazem de tudo um circo, vivendo bem e muito bem, "com muitas coisas" O problema da desigualdade social não é a falta de dinheiro para muitos, e sim o excesso na mão de poucos. www.culturaonlinebrasil.net /// CULTURAonline BRASIL /// www.culturaonlinebr.org

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Abril 2016 Gazeta Valeparaibana Página 6 Política Radicalização Política Um lado tem a mídia. O outro lado também, mas sempre contra. Um lado tem o senso comum, assimilável facilmente. O outro lado tem a análise a exigir esforço intelectual. Um lado importou seu discurso de laboratórios estrangeiros de interferência sociopolítica. O outro lado gerou o seu a partir do debate. Um lado tem o taxista tagarela, soldado incansável do senso comum. A dona na fila de banco e o que ela viu na televisão. A massa de manobra nadando fácil na direção que a mídia Por: Rogério Marcus quer. O outro lado tem o estudante, o profissional, o professor cansado de enxugar o gelo da ignorância, de nadar contra a corrente da Estou farto de ler sobre o tal processo de radi- burrice, de corrigir imprecisões ou cortar a cacalização "de ambos os lados". A radicalização beça da mentira que logo a repõe com mais existe, mas não provém "de ambos os lados". duas ou três. Comparemos. Um lado tem o familiar inculto, agressivo, abuUm lado publica um texto sensato e razoável. sivo, gritalhão e sem memória. O outro lado já Algumas dezenas, com sorte centenas, de se retirou da mesa pra evitar o mal estar. compartilhamentos. O outro lado publica boa- Um lado tem soluções brutais, simplórias e rátos, calúnias, mentiras óbvias. Dezenas de mi- pidas para os bodes expiatórios que a mídia lhares de compartilhamentos. grande o fez acreditar serem os problemas da Um lado distribui adesivos na eleição, para sociedade. O outro lado se debruça sobre a quem quiser aderi-los. O outro lado cola seus complexidade sem apelo emocional e sem míadesivos nos passantes e hostiliza quem não dia do que realmente é problema. os quiser, chegando mesmo a agredir quem Um lado racionaliza a defesa violenta de suas estiver usando outros adesivos. idéias porque as tomou como suas. O outro Um lado ensina suas crianças a agredir e trau- tomou as suas idéias por suas depois de usar matizar crianças que estiverem com uma cami- a razão. sa vermelha, ainda que da Suíça. O outro lado Um lado vê televisão, o outro lê livros. nem mesmo concebe dizer a seus filhos que agridam crianças posando com a Polícia Mili- Um lado tem fetiches com a imagética militar. O outro lado milita pela via civil. tar. Um lado agride um cadeirante por estar fazen- Um lado é emoção, mas racionaliza. O outro do campanha para o outro lado. O outro lado lado é razão, embora se emocione. gestou, embalou, debateu e praticou o concei- Um lado dá carteirada no cinema, o outro lado to de acessibilidade nas gestões públicas. vê bons filmes. Um lado agride um cachorro porque sua dona Um lado descobriu a corrupção ontem. O outro o enfeitou com um lenço vermelho. Houvesse lado sempre a combateu. correlato do outro lado, e veríamos fotos e víUm lado é machista, o outro não. deos de tucanos torturados nas redes sociais. Um lado é racista, o outro não. Um lado xinga, berra, escreve em CAIXA ALTA, personaliza o debate. O outro lado argu- Um lado é o que o ser humano sempre foi, o menta, e por isso mesmo é menos popular e outro lado é trabalho interno e superação rumo a uma nova etapa civilizatória. acessível. Um lado é o menino mimado, o dono da bola. Pra um lado é fácil, pro outro é difícil. Não aceita o resultado das urnas e quer a dita- Então não. dura de volta. O outro lado se criou sob a ditaNão é um conflito só de lados, horizontal, mas dura, lutando contra ela. de comportamentos, vertical. Um lado pretende sequestrar como símbolo seu a bandeira nacional que o outro lado de- Então fora com a "isenção" do discurso do fende de fato ao militar causas que seu anta- "ambos os lados". Abaixo o discurso fácil do "ambos os lados". gonista desconhece ou repudia. Nelson Rodrigues Falta ao virtuoso a feérica, a irisada, a multicolorida variedade do vigarista. Hoje é muito difícil não ser canalha. Todas as pressões trabalham para o nosso aviltamento pessoal e coletivo. Hoje, o sujeito prefere que lhe xinguem a mãe e não o chamem de reacionário. Invejo a burrice, porque é eterna. Jovens: envelheçam rapidamente!. Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos… Na mulher, certas idades constituem, digamos assim, um afrodisíaco eficacíssimo. Por exemplo:- 14 anos! Nada nos humilha mais do que a coragem alheia. Não acredito em honestidade sem acidez, sem dieta e sem úlcera. Não admito censura nem de Jesus Cristo. Não damos importância ao beijo na boca. E, no entanto, o verdadeiro defloramento é o primeiro beijo na boca. A verdadeira posse é o beijo na boca, e repito: – é o beijo na boca que faz do casal o ser único, definitivo. Tudo mais é tão secundário, tão frágil, tão irreal. Não existe família sem adúltera. Não há nada que fazer pelo ser humano:o homem já fracassou. Não se apresse em perdoar. A misericórdia também corrompe. Nem toda mulher gosta de apanhar. Só as normais. Nossa ficção é cega para o cio nacional. Por exemplo: não há, na obra do Guimarães Rosa, uma só curra. Nunca a mulher foi menos amada do que em nossos dias. www.culturaonlinebrasil.net /// CULTURAonline BRASIL /// www.culturaonlinebr.org

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Abril 2016 Gazeta Valeparaibana Página 7 Contos, Poesias e Crônicas MARIAS Se fosses eleger uma Maria, qual delas escolheria? - A que sofreu por seu único e santo filho entregue a Deus para morrer na cruz. VIDAS POR UM FIO Genha Auga - Oh! Virgem Maria! - Maria Madalena que os homens amaram na calada da noite e a quem o povo apedrejou quando a Jesus se juntou. - Ou Maria Bonita que soldados degolaram para por fim ao cangaço de Lampião que ela tanto amou. - Maria lavadeira que a vida inteira, sem cansaço roupa lavou e a quem o sol a pele avermelhou. - Poderia ser Maria que os passos de Joãozinho seguiu e a maldade conheceu na bruxa que quase a engoliu. - Maria Antonieta, rainha da França, forte em sua trajetória e assim sua história se deu. - Ou, Maria dos prazeres – que de luxúrias viveu com homens que em seu corpo deleitaram -se e acalentaram problemas sem fim. - Seria Maria Sem-Vergonha mal falada e por sua beleza cobiçada pelas princesas nos jardins. -Três Marias de fama universal pelas águas do “Velho Chico” -abriu se a porta para o céu e lá ficaram num encanto e magia - Maria Bethânia, Maria Rita, Maria das Graças! As famosas Marias dos nossos dias. Seja qual for a Maria, haverá nela o olhar do cansaço e de luta, ventre rasgado pela continuação da vida na Terra. Haverá nelas o amor entre Deus e o Diabo!Servirão como mães – amigas – prostitutas – virgens e amantes. Assim se doarão e todas terão seu homem, como destino. Qual dessas Marias o homem escolheria? Deus é quem sabe – segredo dele e das Marias... GENHA AUGA Vidas são ligadas por um fio. Não! Por vários fios agora. Contada nessa última versão... U.T.I. – Unidade de Terapia Intensiva – última morada. Os fios que ligam o aparelho por onde respira. Fio do acesso injetado na veia para sobreviver. Fio que o alimenta pela sonda gástrica. E a morte ronda incansavelmente puxando-o a cada dia, tentando tirar-lhe ora a respiração, ora as batidas do coração. Pensamentos que não podem mais serem compartilhados... Essa sombra maléfica e indesejável o puxa para levá-lo e se agarrando a um fio de vida, puxando ao contrário tentando ficar,assim, devagarinho, esgotando suas forças irá vencer e partirás. Mas, não se preocupe porque do outro lado do fio está um “Ser” maior que a morte a esperá-lo e então, “Ele”, sem mazelas, o libertará. Nessa nova morada, não haverá dúvidas e nem medos, descobrirá que a morte é somente a ponte inevitável para ir de encontro a um lugar reservado, escolhido por anjos que seguiram seus passos aqui na terra e que recompensarão com amor, todo sofrimento que passou. Acabada a dor e através da luz divina,continuarão olhando pelos seus que aqui ficaram. Amém! Faço um pedido a Deus que o tem agora: - Permita, por favor, que essa pessoa tão amada, que exemplo e saudade deixou não se desprenda do único fio que restou e nos une que é o fio do amor... Escrevo como se estivesse dormindo e sonhando: as frases desconexas como no sonho. É difícil ,estando acordado, sonhar livremente nos meus remotos mistérios. Clarice Lispector www.culturaonlinebrasil.net /// CULTURAonline BRASIL /// www.culturaonlinebr.org

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Abril 2016 Gazeta Valeparaibana Página 8 Estrangeirismos Ladrão era chamado de “amigo do alheio”. Para dinheiro, havia a palavra mango, que acredito ter sido importada do lunfardo, a gíria dos malandros de Buenos Aires. Mas falavase também uma palavra vinda do francês, que até mesmo os caipiras mais renhidos usavam, pronunciando corretamente “larjan”, que deriva de l’argent (a prata, o dinheiro). Mas ainda há quem use prata: “Custou cem pratas”. E outra pouco lembrada hoje era cobre. “Aquele carro velho eu passei nos cobres”. Ludopédio e muito mais Imagine alguém contando essa historinha: “Depois de receber uma premagem, o ludâmbulo desligou o lucivelo, colocou o focale, chamou o cinesíforo e foi ao local da runimol de que teve notícia por um amigo alvissareiro”. Assim seria contada essa historinha se se tivesse adotado a proposta de Antônio Castro Lopes, filólogo que viveu de 1827 a 1901 e, entre os vários livros que publicou, um de 1889, chama-se “Neologismos indispensáveis e barbarismos dispensáveis”, e tem essas palavras todas. Ele odiava o que hoje chamaríamos de imperialismo cultural que impunha um vocabulário cheio de vocábulos estrangeiros para nós. Na época, os fãs dos estrangeirismos (que ele chamava de barbarismos) tinham o francês como língua inspiradora, assim como os gringófilos de hoje adoram o inglês. Só que há uma diferença: os barbarismos que ele citava eram em grande parte palavras novas, sem equivalentes em português. Hoje, substituem palavras do português, que funcionam muito bem, por outras do inglês, e neste caso são desnecessárias. Bom, mas voltemos à historinha. Os neologismos que ele propôs, como ludâmbulo, focalo e cinesíforo não pegaram. Então podemos contar hoje a mesma historinha assim: “Depois de receber uma massagem, o turista desligou o abajur, colocou o cachecol, chamou o motorista e foi ao local da avalanche de que teve notícia por um amigo repórter”. Acho muito estranho nessas palavras a proposta de usar “alvissareiro” em vez de repórter. Alvíssaras é uma palavra sempre relacionada a boas notícias, o que não é bem o caso da maioria do que ouvimos ou lemos dos repórteres. Volto ao Castro Neves. Ele criou um monte de neologismos, inspirados no latim e no grego, propondo banir as palavras importadas. Mas quase nenhuma pegou. Duas que sei que são usadas: cardápio, em vez do francês menu, e, menos usada, convescote em vez de piquenique. Agora algumas que não pegaram, além das citadas na historinha: preconício no lugar de reclame (palavra que já não usamos hoje – foi substituída por anúncio, propaganda ou publicidade), nasóculos no lugar de pincenê (óculos sem hastes que se prendem ao nariz por uma mola – não se usa mais nem o dito-cujo nem a palavra), ancenúbio (nuance), castelete (chalé), joalheira (bijuteria), entrosagem (engrenagem) e vanaplauso (claque). Chofer, derivada do francês “chauffeur” foi nome de uma profissão por muito tempo, até cair em desuso de vez, mas não substituída pelo cinesíforo que ele propôs, virou motorista. Ou, no caso de competições, piloto. Por falar nisso, já citei o carro de praça, expressão substituída por táxi. Quem conduzia o carro de praça era o chofer de praça, o atual taxista. É atribuída a Castro Neves, também, a criação do neologismo ludopédio, que não pegou, para substituir futebol. Mas não sei se é dele mesmo ou de outra pessoa. Em 1889, época da publicação do livro “Neologismos…”, pelo menos, não havia futebol por aqui. E em 1901, quando morreu ainda era uma novidade. Outros nacionalismos Lima Barreto, em seu genial “O triste fim de Policarpo Quaresma” tinha nesse personagem um nacionalista extremo, que propunha algo mais radical: a adoção do tupi como língua do Brasil. Há alguns anos, o então deputado Aldo Rebelo propôs uma lei que, se adotada, redundaria em multa para quem usasse estrangeirismos desnecessariamente. Levou pancada de todo lado. Uma vez, encontrei um assessor dele e brinquei (mas até que não era tão brincadeira assim) propondo algo diferente: que se cobrasse taxas pelo uso de estrangeirismos desnecessários. Dei um exemplo: já existiam centros comerciais no Brasil, antes de um deles, o Iguatemi (em São Paulo) ser criado com o nome Shopping Center. Era preciso adotar esse nome? Acredito que não. Então que se cobrasse uma taxa anual, por metro quadrado, para manter a denominação shopping center, ou simplesmente shopping. E cada loja dentro dele, se adotasse nomes estrangeiros também, pagaria mais uma taxa por metro quadrado. Dupla tributação! Daria uma baita renda, não? Só na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, seria arrecadado dinheiro suficiente para os governos nadarem na grana. Muitas palavras do nosso cotidiano “antigo” foram excluídas para dar lugar a outras, em inglês, como citei lá em cima. A primeira que me lembro, e que na época me irritava, foi o insight. Usávamos aqui a palavra estalo, com o mesmo sentido, mas um certo pessoal achava mais chique falar em inglês. E vieram os sanduíches… hot-dog (no início traduzido, cachorro-quente), hamburger, cheeseburger, chese-egg, sendo que o cheese (queijo) acabou virando X: X-burguer… Faço um parêntese para me lembrar de uma vez que estava na periferia de Osasco, nos anos 1980, numa padaria, e um sujeitinho metido a besta pediu um “pão com egg”. O chapeiro ficou olhando pra ele sem entender e ele ainda esnobou: “Você é burro? Não entende? É aquilo ali”… e mostrou um ovo pra ele. Ah, agora com a onda de imitação de gringos, até a carrocinha de cachorro-quente perdeu a vez. Agora veículos maiores, exibidos, ostentam o nome food-truck e não se limitam a vender sanduíches (tá aí outro estrangeirismo: vem do inglês – da Inglaterra mesmo – sandwich). E vieram os computadores, a internet… Claro, muitas palavras usadas nessas coisas não existiam antes, foram criadas. E como a criação foi em terras de língua inglesa, normal que se esparramem com esses nomes, adaptando-se aos vernáculos ou não. Mas há exageros, né? Ninguém apaga mais nada, deleta. Não baixa arquivos, faz download. Até imprimir já perde a vez para printar. Para terminar, penso sempre – com aprovação – nos nomes de certos países e cidades que só são aportuguesados porque herdamos dos portugueses, mais ciosos da importância do vernáculo do que nós brasileiros. Com a mania brasileira de querer falar os nomes de países e cidades como se estivéssemos falando na língua deles, ou em inglês, acredito que logo vão abandonar nomes adaptados pelos portugueses e macaquear os gringos, falando empombado em London, England, Germany, Sweden, Swiss, Endland, Nederland… Só quero ver, se resolverem falar de acordo com a língua do próprio país e não do nome dado a ele em inglês, como vão se enrolar para falar da Hungria (Magyarország, em húngaro), do Iêmen (Al-Jumhuriyya Al-Yamaniyya), do Reino da Dinamarca (Kongeriget Danmark), da Croácia (Hrvatska) e da já citada Suécia que em inglês é Sweden, mas, em sueco, o Reino da Suécia é Konungariket Sverigee. Mas sei que não há esse risco: a língua padrão é o inglês, de preferência falado com sotaque dos Estados Unidos. Aliás, muitos já falam América para se referir aos Estados Unidos, como se só lá fosse América. E até sonham ser colonizados pelos “americanos”. Já eu preferiria que devolvêssemos o Brasil aos índios e nos adaptássemos a eles. Falaríamos línguas da família tupi-guarani, do macro-jê, aruaque, tikuna, tukano, aruaque, ianomâmi, baniwa, bororo… Viva Policarpo Quaresma! Rê-rê… Chato, cricri e zung-zung POR: Mouzar Benedito. No guichê do banco, a moça me pediu que digitasse a senha do cartão. Perguntei: “Os seis algarismos ou só quatro?”. Ela fez cara de espanto. E brinquei: “Epa! Usar a palavra algarismo é coisa de velho, né? Entrega a idade da gente. Vocês usam dígito”. Ela sorriu: “Até que gostei. Vou usar também”. Saí do banco pensando num monte de palavras que ninguém mais usa. Alguém ainda fala da repartição em que trabalha? E do ordenado que recebe? Algumas palavras, com certeza, jovens nem imaginam o que significam. Carapina, por exemplo, que vem do tupi e era usada como sinônimo de carpinteiro. Ceroula, ninguém mais usa: nem a vestimenta nem a palavra. Assim como capote, que virou sobretudo e agora ninguém mais usa. Nunca mais vi ninguém de sobretudo, nestas terras tropicais – em países de clima frio, usam. – E correia em vez de cinto ou cinta? Nunca mais ouvi. A palavra “chato” está aí, presente no dia a dia, mas houve uma época em que criaram uma outra para um chato mais chato, um chato que incomoda até o chato. E a palavra era cricri: esse seria o nome do bichinho que daria nos pelos públicos do chato. E nos pelos púbicos do cricri, segundo inventaram depois, teria o zung-zung. O chato do chato do chato. Vai ser chato!… Alguém aí ainda fala carro de praça? Nem mesmo nos confins do interior, onde ninguém usava a palavra táxi. E falando em praça, quem entrava na polícia dizia que sentou praça. Custoso era coisa difícil de se fazer. Marmota é um bicho que a gente vê em filmes sobre animais, mas antes era também o mesmo que palerma, bobalhão. Campear, originalmente, era procurar algo (geralmente a cavalo) no campo ou no mato, mas usava-se essa palavra como sinônimo de procurar qualquer coisa em qualquer lugar. Algumas palavras ainda usadas, mas raramente, como é o caso de frugal (simples), que hoje parece sofisticada, e merendar (lanchar), que, ao contrário, parece coisa de caipira. No futebol, a bola costumava ser chamada de pelota, e a chuteira, na gíria, às vezes era chamada de chanca, que originalmente é um calçado com sola de madeira, o mesmo que tamanco (aliás, quem usa tamanco hoje em dia?). A molecada gostava era da fuzarca (bagunça) e de arremedar ou remedar (imitar) os adultos. E as mães ainda adulavam (paparicavam) os pestinhas. Não sei se era para diferenciar do sentido político, mas para o vermelho usava-se a palavra encarnado. Coisa que entrava na moda de maneira forte e rápida, uma moda ostensiva do momento, era coqueluche. Algumas pessoas, em vez de Falando em futebol, no início e pelo menos até a década de pedir “por favor”, pediam “por obséquio”. 1950, o palavreado em inglês era dominante. Sobraram a própria palavra futebol (de football), pênalti (de penalty), driPara negar de forma radical uma coisa dita sobre ele ou algo ble (de dribbling) e gol (de goal). No meu tempo de criança, parecido, falava-se bravo: “É uma pinóia!”. Agora imaginem a no interior mineiro, ainda se falava córner no lugar de escanmúsica de Roberto Carlos: “De agora em diante, eu vou mo- teio, e no rádio ouvíamos falar do “escore” em vez de placar. dificar o meu modo de vida…”. Não daria certo usar Havia ainda quem chamasse goleiro pelo nome inglês, adap“doravante” com o sentido de “de agora em diante”. Quem tado: goalkeeper, que pelos confins do Brasil pronunciava-se fala doravante? E já que citei Roberto Carlos, uma gíria femi- golquipa ou golquipe (na roça, gorquipe). Os zagueiros de nina dos tempos da Jovem Guarda, para falar que um sujeito hoje eram beques, os laterais “alf” (não sei se era assim que era bonito: “Ele é um pão”. Aí alguns que não estavam nessa se escrevia), mas no interior pronunciavam arfe ou arfo. Arfo categoria começaram a gozar: “É mesmo. Pra ser bom, o esquerdo e arfo direito. No meio de campo recuado, o centepão tem que ser fresco”. rarfo… www.culturaonlinebrasil.net /// CULTURAonline BRASIL /// www.culturaonlinebr.org

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Abril 2016 Gazeta Valeparaibana Página 9 Educação em debate Pagamento, a partir de 1/06/2016, aos professores de educação infantil da parcela final da equiparação salarial com os professores da educação básica. Pagamento, a partir de 1/06/2016, da alteração da carga horária aos professores. O debito em atraso referente aos itens 1 e 2 será quitado parceladamente, segundo as negociações que devem ocorrer com a Comissão Permanente de Negociação. Manutenção da data base para maio/2016. Garantia ICV-DIEESE. Manutenção de todas as gratificações concedidas aos servidores anteriormente à edição do Decreto. Manutenção do decreto 33226, desde que não contrarie o que foi acordado diante do TRT. Abono do dia 15/03 e compensação do dia 21/03, com critérios a serem estabelecidos pela Comissão Permanente de Negociação. Os Servidores de Guarulhos mais uma vez foram afetados pela má gestão dos recursos públicos e pela ingerência do seu prefeito. A bola da vez foi o Decreto municipal nº 33226 de 25/02 que estabelece medidas de racionalização dos gastos públicos com pessoal. Pois bem, a princípio o decreto parece ser bem intencionado, uma vez que o município passa por diversos problemas financeiros e realmente precisa de algum tipo de reforma, entretanto, uma leitura mais atenta e uma breve articulação com outras informações nos permitem a refletir um pouco mais a fundo. Basicamente o decreto estabelece a suspensão de contratação de pessoal (sobretudo os comissionados), criação de novos cargos, licença de interesse particular, licença prêmio, ampliação de carga horária, horas extras e designações para funções gratificadas, além de estabelecer o corte de 20% dos cargos comissionados. Como foi dito anteriormente o decreto não deveria causar estranheza, uma vez que o município realmente atravessa um período difícil, porém, há que se ressaltar que o próprio poder executivo contratou funcionários comissionados no final de 2015 e fez nova contratação após a apresentação deste mesmo decreto. Ora, como o poder executivo baixa um decreto e não cumpre o que ele mesmo baixou? Qual é a função desses funcionários comissionados? Será que essa contenção de custos com todas as forças e a contratação desses comissionados tem alguma relação com as eleições municipais que se aproximam? O fato é que o decreto citado prejudica imediatamente os servidores da Educação. Professores, diretores, vice-diretores, coordenadores, cozinheiras e pessoal de secretaria, seriam os primeiros afetados por essa medida. Maiores explicações sobre essa construção da greve dos servidores de Guarulhos e do decreto 22332/16 você pode encontrar no YouTube, no canal do Programa E Agora José? Em que realizamos uma grande entrevista com as professoras Viviane Lourenço da Silva, Paula Geraldelli e Sara Santana, que representaram o Sindicato dos Trabalhadores da Administração Pública (STAP). Os servidores (principalmente da educação) deflagraram então a greve que iniciou e terminou no dia 21/03/2016. Sim, isso mesmo, um dia em greve. Mas o que houve com que acabasse em um dia. No decorrer deste dia de greve, os servidores foram para as ruas protestar contra o decreto. Outro grupo formado pelo sindicato e por outros representantes dos servidores tiveram uma reunião com o TRT para tratar das negociações. A ata da reunião está publicada no jornal Guarulhos web (http://goo.gl/MoIpG0) e também nas páginas do STAP e da Prefeitura. Após o fim da greve, vários servidores se manifestaram pelas redes sociais demonstrando sua indignação com o fim da greve. Entretanto, do ponto de vista estratégico de uma negociação, é preciso ter sangue frio, já que não é fácil negociar com o poder público. Minha experiência com o poder público (sobretudo na área da educação) me permite afirmar que os servidores de Guarulhos aceitaram a luz no fim do túnel que foi apresentado. Também seria imprudente que o prefeito prometesse aquilo que claramente não poderia cumprir (ainda que isso foi feito durante sua campanha eleitoral). De qualquer forma, posso compartilhar com o leitor minha experiência com o Governo do Estado de São Paulo, que em 2015 realizamos 92 dias em greve sem que houvesse absolutamente nenhuma proposta. E assim foi, 92 dias em greve, sem proposta e sem reajuste (inclusive considerando o dissídio) desde então. Os professores da rede pública paulista já partem para o segundo ano sem absolutamente nada de reajuste salarial. Voltando ao caso dos servidores de Guarulhos, após a reunião com o TRT houve uma outra assembleia, com os ânimos acirrados,e foi decidido que a greve acabaria. A maioria votou e a maioria ganhou. Do ponto de vista estratégico, garantir mais 2 ou 3 dias em greve seria inviável, uma vez que o movimento perderia sua força e a prefeitura não precisaria mais ceder a nenhum ponto reivindicado. O que ficou acordado entre o STAP e a Prefeitura? A insatisfação daqueles que se manifestaram contra está presente, principalmente, no fato de a Prefeitura não retirar o Decreto. De qualquer forma, pelo pouco que entendo, vejo que os direitos foram garantidos, e a jornada do professor será paga. Ai fica a pergunta: e se o prefeito retirasse o decreto, ele não abriria uma brecha para poder contratar mais comissionados? Lições que aprendemos com a greve dos Servidores: Se não concorda com o que é decidido em assembleia, participe da assembleia. Fazer greve não significa ficar em casa assistindo TV. Fazer greve é atuar em diferentes frentes para trazer a público as discussões sobre o movimento da greve e para pressionar o governo para negociar. Entenda que negociar significa ceder. Cada um cede um pouco de cada lado para que no final haja o mínimo de consenso. Se o governo não cumprir com o que foi acordado, volta-se à rua para cobrar o que é de responsabilidade de cada um acordado diante do TRT. Participar de uma greve não é fácil. Os conflitos que se estabelecem são múltiplos. É preciso convencer a comunidade, os colegas de trabalho e até os membros da própria família. Os ânimos se acirram e os conflitos acontecem. De qualquer forma, entendemos que é preciso que haja uniformidade, discussões coletivas e participação ativa. Diferentemente do que houve no ano passado com os professores da rede pública estadual de São Paulo, os servidores de Guarulhos demonstraram uma grande força para fazer valer a sua voz. Que sirva de lição para o próximo prefeito que vier. Ivan Claudio Guedes Geógrafo e Pedagogo. ivanclaudioguedes@gmail.com www.culturaonlinebrasil.net /// CULTURAonline BRASIL /// www.culturaonlinebr.org

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Abril 2016 Gazeta Valeparaibana Página 10 Cultura simbólica (artigo continuado) O BRASIL NUNCA FOI UMA COLÔNIA! PARTE II “A expansão portuguesa não foi, nem fruto do acaso, nem um feito político da Coroa ou de cortesão esforçados, antes a missão de uma Ordem iniciática.” sido a Ordem de Cristo a autora, patrocinadora e mentora dos Descobrimentos Portugueses, autêntica sucessora da Ordem do Templo de Portugal, esta, de consabido cariz militar e monástico. A Ordem do Templo foi uma cavalaria espiritual à conquista do mundo. A sua fama militar e monástica tem uma vertente exterior e uma vertente individual, contemplativa, ascética. Portanto, o testemunho militar deve ser consoante a missão assumida pela milícia templária. Concerne investigar criteriosamente o quanto da missão templária foi transposta (e se o foi e como) para o povoamento e formação do Brasil. Some-se a isso a relevante questão de a Ordem de Cristo ter exercido uma influência notável no povoamento e na formação do Brasil e, de ser o Brasil patrimônio da Ordem de Cristo, e não da Coroa Portuguesa: reservando para si a soberania. Foram tão rápidos os seus progressos e tão consideráveis as suas aquisições, que, mesmo em vida do Infante, a prudência exigiu outros contratos. Em vez da propriedade dos países adquiridos, que volveu à Coroa, concederam-lhes a jurisdição civil, certa superioridade militar, os dízimos e a jurisdição eclesiástica, com o consentimento dos papas. Anos depois, a boa política pediu que a supremacia de uma Ordem, tão rica e poderosa, fosse para sempre anexada à pessoa do rei, como de feito se conseguiu. Desde o cabo Bojador, onde tiveram princípio estas descobertas, não era permitida a navegação a navio algum português que não hasteasse a bandeira da Ordem; além deste cabo os portugueses não usavam outra” (Abade Correia da Serra. Os verdadeiros sucessores dos templários e o seu estado em 1805. In: Cadernos da Tradição. Lisboa: Hugin, 2000, p.59-70). O rei de que se trata foi D. João III. Tal política coincide com o início da decadência nacional propiciada pelo enfraquecimento da Ordem de Cristo, motivada pela supracitada reforma, conduzida por frei António de Lisboa, a mando do rei D. João III, em 1529, que mandou incendiar e destruir todos os documentos respeitantes à Ordem de Cristo. Manuel J. Gandra Barbara Freitag (in: Capitais migrantes e poderes peregrinos, 2009, p.43) cita a obra de Nestor Goulart Reis Filho e seus colaboradores Beatriz Piccolato Siqueira Bueno e Paulo Júlio Valentino Bruna (Imagens das vilas e cidades do Brasil colonial, 2001) que reescreve a formação da sociedade colonial alertando para um fato inédito ou pouco conhecido: Poucos sabem que quase todas as vilas e cidades mais antigas tiveram muros e portas, como grandes fortalezas. Poucos sabem também que muitas delas foram traçadas por engenheiros militares e tinham formas geométricas regulares. E muito poucos tiveram notícias sobre as aulas de Arquitetura Militar, que formaram esses engenheiros e partir de 1696, inicialmente na Bahia e em Pernambuco e, depois, também no Rio de Janeiro e no Pará. Freitag afirma que os estudiosos do período colonial negligenciaram o estudo das cidades do período colonial, disseminando a crença de que os portugueses teriam sido “semeadores” sem projeto e racionalidade de ocupação territorial na ocupação do espaço urbano brasileiro: “já começa a haver consenso entre pesquisadores brasileiros e portugueses de que havia uma atividade planejadora regular do mundo luso-brasileiro nos tempos de colônia”. À parte as providenciais “negligências”, tanto Freitag quanto Reis Filho alertam para uma “atividade planejadora regular” da Coroa no período colonial. Tal planejamento evidencia as características “militares” das cidades da “colônia”, corroborando a tese das feitorias (futuras vilas e cidades) como “colônias” militares, de Tito Lívio, o que incita, evidentemente, a ampliar o olhar sobre a forma de administração da Coroa. Quanto a isto, é pertinente perguntar sobre a origem e razão do “caráter militar” desse planejamento, porque, o argumento que se assenta sobre a idéia de “defesa” do território comunga uma visão reducionista do assunto. Isto porque, é consabido que Portugal não foi um império de conquista, portanto, o número de homens em armas era bastante reduzido. Ademais, é deveras sintomático o fato de ter “D. João II, rei de Portugal, e o rei de Castela assinam o Tratado de Tordesilhas, em 07 de Junho de 1494[…] E assim, seis anos antes da viagem de Pedro Álvares Cabral, já Portugal reivindicava a posse da terra do Brasil, para o patrimônio da Ordem de Cristo, segundo as bulas anteriores dos Papas D. Martinho V., D. Nicolau V e D. Calixto III, porque os descobrimentos portugueses eram custeados pelas rendas da Ordem de Cavalaria de Nosso Senhor Jesus Cristo, isto é, a Ordem de Manuel J. Gandra (in: O Projecto Templário e o Evangelho Português, 2013, p. 24), deCristo[…] monstra que, ao contrário, Portugal assumiu, Traçada a fronteira ideal das terras pertenem nome da Ordem do Templo, um comprocentes a Castela e das terras adjudicadas à misso ecumênico, interrompido (ou adulteraOrdem de Cristo, pelo Tratado de Tordesido) pelo incensado D. João II, que depois de lhas, em 1494, quatro anos mais tarde, em assassinar o Grão-Mestre da Ordem de Cristo 1498, Duarte Pacheco Pereira, mandado por assume para si esse cargo, bem como, a juD. Manuel I, cruza o Atlântico de norte a sul, risdição sobre o rico patrimônio da Ordem, para localizar geograficamente o patrimônio subvertendo a missão da milícia templária: ultramarino da Ordem de Cristo, no novo continente e chega até o cabo de Santo Agosti- “Recordo que foi o mesmo monarca que, pela nho, no litoral do atual Estado da Paraíba. E o sua própria mão, assassinou o Grã-Mestre da Papa Calixto III, pela Bula de 13 de março de Ordem de Cristo (seu cunhado), certamente, 1455, “declarara inerentes ao mestrado da porque este não tencionava abdicar daquilo Ordem de Cristo em Portugal a administração que, até do ponto de vista canônico, constituíe padroado das terras adquiridas e por adqui- a o cerne moral e religioso da Milícia. rir, desde o Cabo Bojador até à Índia (Ásia) e Além disso, D. João II promoveu, em 1485, a Xisto IV confirmara ao rei D. João II (de Portu- reforma do brasão real. A chamada operação gal) as bulas de seus predecessores”(Cf. de endireitar o escudo (i. e., os escudetes das Francisco Adolpho de Varnhagen. “História ilhargas) terá subvertido irremediavelmente o Geral do Brasil”, T. 1- p.69). significado das peças que empunham as arO diagnóstico acima separa as jurisdições pertencentes à Ordem de Cristo das da Coroa Portuguesa (igualmente, lança luz sobre o Pacto do Padroado e sobre o fato de a maioria dos reis portugueses – de 19 dos 34- terem sido excomungados pela Igreja de Roma, o que rebate a verdade aceita da absoluta catolicidade de Portugal!). É consabido o fato de no ano de 1420, o Infante D. Henrique, duque de Viseu, filho de D. João I, foi colocado à frente da Ordem de Cristo. Todos reconhecem neste nome o autor das descobertas e das colônias europeias; o que menos se sabe fora de Portugal, é que estas descobertas eram feitas à custa desta Ordem e em seu proveito. Os reis de Portugal, para animar estes cavaleiros, lhe concederam a princípio a propriedade dos países que poderiam adquirir, mas nacionais, as quais na sua configuração original representavam a Alma do Mundo, de acordo com Plotino: os três escudetes superiores voltados para a Inteligência (ou seja, para o interior) e o do meio e o inferior, voltados para a matéria (i. e., para o exterior). Ao preceder assim, D. João II terá entregue ao Corpo do Mundo a direção do destino nacional, transformando-o, doravante, numa mera questão de “Secos e Molhados. POR: Loryel Rocha CONTINUA NA PRÓXIMA EDIÇÃO Os artigos publicados são responsabilidade de seus autores, não refletindo necessariamente a opinião da Gazeta Valeparaibana www.culturaonlinebrasil.net /// CULTURAonline BRASIL /// www.culturaonlinebr.org

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Abril 2016 Gazeta Valeparaibana Página 11 Dia da mentira mo uma forma de evidenciar que a verdade sempre aparece. A comemoração do 1 de abril se espalhou pelo o mundo, ficando conhecida como o dia da mentira. “Poisson d’avril” é o nome recebido na França e na Itália esse dia é conhecido como “pesce d’aprile”, ambos significando peixe de abril. E você, já enganou alguém hoje? Seja criativo, mas cuidado com o que vai dizer, uma mentira bem Tradicionalmente, 1 de abril é considerado contada pode se transformar numa falsa o dia da mentira. Você sabe por quê? verdade, com consequências imprevisíveis. São muitas as explicações para o 1 de abril ter se transformado no dia da mentira ou dia dos bobos. De acordo com uma VERDADE versão, a brincadeira surgiu na França do século XVI. Nessa época, o ano novo era A porta da verdade estava aberta, comemorado dia 25 de março e as festividades só terminavam no dia 1 de abril. mas só deixava passar Quando em 1564, o rei Carlos IX da França meia pessoa de cada vez. adotou o calendário gregoriano e determinou que o ano novo seria comemorado no dia 1 de janeiro. Zombadores passaram a Assim não era possível atingir toda a ridicularizar o dia 1 de abril, enviando pre- verdade, sentes esquisitos e convites para festas porque a meia pessoa que entrava que não existiam. só trazia o perfil de meia verdade. Outras justificam o dia da mentira com a ideia de que a data foi inspirada E sua segunda metade na natureza, que costumava enganar as voltava igualmente com meio perfil. pessoas na virada de março para abril com mudanças climáticas repentinas. Ao serem E os meios perfis não coincidiam. feitas de bobas pelo tempo, as pessoas resolveram também adotar a brincadeira. Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta. No Brasil, o primeiro a adotar a brincadeira Chegaram ao lugar luminoso foi o periódico “A Mentira”, em 1º de abril de 1848. O informativo transmitiu a notícia onde a verdade esplendia seus fogos. sobre o falecimento de D. Pedro, fato que Era dividida em metades não havia acontecido e só desmentiu no dia diferentes uma da outra. seguinte. No imaginário de crianças e adultos, a mentira está associada à figura de Pinóquio, personagem que apareceu pela primeira vez em 1883, no romance As aventuras de Pinóquio, escrito pelo italiano Carlo Collodi. Depois de inúmeras adaptações, o personagem foi imortalizado no filme homônimo de Wall Disney. Toda vez que o boneco de madeira mente seu nariz cresce, coChegou-se a discutir qual a metade mais bela. Nenhuma das duas era totalmente bela. E carecia optar. Cada um optou conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia. FRASES SOBRE MENTIRAS E MENTIROSOS 1º de Abril Xiquote: “Não é difícil dizer sempre a verdade; difícil é conseguir que sempre nos acreditem”. *** Bernardo Pereira de Vasconcellos: “A verdade é a mentira muitas vezes repetidas”. *** Adolf Hitler: “As grandes massas cairão mais facilmente numa grande mentira do que numa mentirinha”. *** Camilo Castello Branco: “A verdade é às vezes mais inverossímil que a ficção”. *** Lucille Ball: “O segredo para permanecer jovem é viver honestamente, comer devagar e mentir a idade”. *** Camilo Castello Branco, de novo: “A verdade é algumas vezes o escolho de um romance”. *** Florbela Espanca: “Quem disser que pode amar alguém durante a vida inteira é porque mente”. *** Benjamin Disraeli: “Há três espécies de mentiras: mentiras, mentiras deslavadas e estatísticas”. *** Leon Kaseff: “Na conquista da verdade, não existem vencedores nem vencidos, mas, apenas, convencidos”. *** Humberto de Campos: “Em literatura, e em moral, repete-se o fenômeno: a verdade, nua, é, pela sua uniformidade, fatigante, enfadonha, fastidiosa”. *** José Américo: “Há muitas formas de dizer a verdade. E talvez a mais persuasiva seja a que tem a experiência da mentira”. *** Pereira da Silva: “As verdades de quase dois mil anos caducam como as senhoras respeitáveis de mais de cem”. *** Carlos Drummond de Andrade As pessoas que falam muito, mentem sempre, porque acabam esgotando seu estoque de verdades. Millôr Fernandes **** As verdades podem ser nuas - mas as mentiras precisam de estar vestidas. Textos Judaicos **** As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras. Friedrich Nietzsche www.culturaonlinebrasil.net /// CULTURAonline BRASIL /// www.culturaonlinebr.org

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Abril 2016 Gazeta Valeparaibana Página 12 Brasil - Política Quem é que vigia o vigia? Neste período histórico do Brasil, as pessoas estão testemunhando mais uma das crises políticas brasileiras. A atual crise é considerada por alguns ou muitos como uma das mais graves da história do país. Caro leitor e cara leitora. Muitos acham que o problema se restringe ao PT, que remover a Dilma da presidência e forçar a extinção do PT, tudo vai ser limpo. Outros que foram beneficiados ou testemunharam benefícios aos menos favorecidos da sociedade defendem a Dilma e o Lula, estão indignados com o que estão vendo acontecer. A minha interpretação da realidade política brasileira é assim. O Lula, a Dilma, os políticos petistas em geral, não vão viver para sempre. O Aécio Neves e o pessoal do PSDB também não. O Eduardo Cunha, o Renan Calheiros, o Michel Temer e o pessoal do PMDB também não. São todos efêmeros. Essa geração de políticos vai passar, e outras gerações virão. Então, eu entendo que a sociedade civil brasileira podia se apegar menos a partidos e a personalidades políticas, e se atentar ao verdadeiro problema da política brasileira, que é o sistema no qual o Brasil funciona. As pessoas que estão contra a Dilma e as pessoas que defendem a Dilma não vão conseguir chegar a um consenso, a um acordo que satisfaça ambas as partes. Isso ficou claro para mim. A sociedade vai permanecer dividida e, o lado que tiver mais força vai prevalecer. E no futuro, o filme vai ser um remake do atual, ou seja, o mesmo filme com atores diferentes. A sociedade, as pessoas deviam parar para pensar melhor, para refletir. Por que tais coisas conseguem acontecer no Brasil? Onde é que está a falha? Ou as falhas? O problema é cultural? É econômico? É religioso? Quais são as causas? Identificadas as causas, a sociedade devia procurar soluções, recursos, métodos, algo que impeça “a história se repetir”. Petrolão, Lava Jato, Mensalão... já está impregnada na história do Brasil. Não há como apagar isso da História brasileira. A corrupção é um defeito moral do ser humano, não há como extinguir a corrupção em absoluto. Tem gente honesta, mas tem gente que não vê motivos para ser honesta. E isso é mundial, não é só no Brasil. Eu acredito que uma fiscalização mais rigorosa ajudará a reduzir muito o problema da corrupção. O Poder Público que, em nome da sociedade, fiscaliza o Governo é o Legislativo. Nos Municípios é a Câmara dos Vereadores. Nos Estados é a Assembléia Legislativa e a nível federal é o Congresso Nacional. Isso, nós já sabemos. Mas, quem vigia os vigias? Quem monitora o funcionamento do Legislativo? Quem fiscaliza o fiscal? Muitos dizem que é obrigação do eleitor fiscalizar o eleito. Muitos outros dizem que o eleitor não tem tempo e nem recursos para isso, tem que trabalhar, tem família para cuidar, contas para pagar, etc. Eu tenho algumas idéias para compartilhar. Uma, o Ombudsman é uma pessoa encarregada pelo Estado de defender os direitos dos cidadãos, recebendo e investigando queixas e denúncias de abuso de poder ou de mau serviço por parte de funcionários ou instituições públicas. Nas empresas, indivíduo encarregado do estabelecimento de um canal de comunicação entre consumidores, empregados e diretores. O povo brasileiro precisa de magistrados tipo ombudsman para atuar no Poder Legislativo. Outra, o Ministério Público Eleitoral passar a ter, em nome dos eleitores, poder de processar criminalmente os legisladores eleitos em pleno mandato. Outra, a criação de uma imprensa especializada em política ligada à Justiça Eleitoral e ao Ministério Público Eleitoral. É claro que não servem a Globo, o SBT, a Band, a Record, etc. Tem que ser imprensa pública. Outra, o Recall Político. Outra, membros do STF e outros tribunais deixarem de ser escolhidos pelo Executivo e Legislativo. O Judiciário deve ser um Poder totalmente independente dos outros dois. Eu sei que não vou alcançar duzentos milhões de brasileiros, mas quem lê o que eu escrevo, eu desejo que esse reflita no que escrevo. Que pense a respeito. Talvez o leitor ou a leitora tenha idéias melhores do que as minhas. O real problema político do Brasil está na sociedade, e é a sociedade que precisa ser transformada. O político brasileiro é um reflexo da sociedade brasileira. A sociedade precisa se conscientizar de que mudanças profundas e amplas são necessárias. São muitos os detalhes a serem corrigidos. Não adianta a sociedade ficar brigando por causa de PT e PSDB, por causa de pessoas que ocupam cargos políticos, que tal contenda não vai promover mudanças. Nenhum governo, independente de partido, vai conseguir agradar todos os membros da sociedade. Um governo que tenta promover mudanças acaba tendo que afrontar interesses de gente que está satisfeita com o status quo, e isso gera inimizades e conflitos, disputas. Quem é beneficiado pelo atual não quer novidades, não quer mudança. Então, toda tentativa de mudança vai sempre encontrar resistência de quem está sendo beneficiado pelo atual. E, quem não está sendo beneficiado, vai sempre querer que as coisas mudem, que o sistema mude, por querer passar a ser beneficiado. João Paulo E. Barros Conhecimento A história do patrimônio da Igreja Católica No século 7, a Igreja já era a maior proprietária de terras do Ocidente. Hoje, a Santa Sé opera no vermelho, mas é dona de um patrimônio bilionário e alvo de denúncias de corrupção POR: Eduardo Szklarz O alerta faz sentido. A Igreja sempre penou para lidar com sua riqueza de forma equilibrada. Com o agravante de que vários líderes não foram tão escrupulosos como Leão XIII. No século 11, por exemplo, o papa Bento IX vendeu o cargo por 680 kg de ouro. Foi condenado por simonia (o comércio de sacramentos e postos eclesiásticos) em 1049. Apenas no século 20, a Igreja começou a contratar profissionais para administrar suas finanças mas volta e meia surge um escândalo. O grande alvo das denúncias tem sido o Banco do Vaticano, que já foi acusado de participar de esquemas de propina de políticos e até de lavagem de dinheiro para a máfia. Em setembro de 2010, as autoridades italianas colocaram sob suspeita 30 milhões de dólares depositados numa conta. Em resposta, o papa Bento XVI criou a Autoridade de Informação Financeira - uma espécie de cão de guarda, que chega com a função de prevenir delitos e garantir mais transparência aos negócios papais. Há pelo menos uma década, a Santa Sé tem um orçamento deficitário. O papa Leão XIII controlava de perto as finanças da Santa Sé. Tanto que guardava o dinheiro, o ouro e as joias do papado dentro de uma arca de ferro debaixo de sua cama. Quando ele morreu, em 1903, foi um deus nos acuda: ninguém sabia onde estava o baú. O pânico aumentou quando os empregados do Vaticano protestaram por melhores salários - os membros da Guarda Suíça até ameaçaram renunciar. Os assessores encontraram apenas 82 mil liras e joias. Mal dava para cobrir 10% do custo do conclave que tinha eleito o novo papa, Pio X. A agrura só terminou um mês depois, quando o monsenhor Nazareno Marzolini se apresentou com o cofre. Ele explicou que havia recebido instruções para demorar a entregar o dinheiro "Quando Pedro precisou pagar o imposto do templo, Jesus fez um milagre de modo a lembrar ao novo papa que ele deveria administrar bem o patri- para ele. Desde então, os papas têm rezado por milagres para conseguir seus objetivos", diz o padre Thomas J. Reese, autor de O Vaticano por Denmônio da Santa Sé. tro. www.culturaonlinebrasil.net /// CULTURAonline BRASIL /// www.culturaonlinebr.org

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Abril 2016 Gazeta Valeparaibana Página 13 Justiça - Brasil Observações sobre o Judiciário dio na rotina de um Estado dito “inchado” e ”ineficiente”. Um leviatã consumidor de excessivas verbas públicas. Cuja principal esfera de atividade – a prestação da justiça – deveria ser resolvida por mecanismos de intermediação (e conciliação) de demandas, sempre preservada a autonomia de vontade das partes envolvidas em litígios. Nessa chave de compreensão, era melhor que o judiciário ou não existisse – utopia inalcançável até na ótica dos discípulos de Friedman – ou pelo menos, ocupasse um papel bem menor na vida social. Claro, essa descrição do pensamento tucano em relação ao judiciário – exposta aqui em tom de caricatura – não encontra abrigo na realidade. Para fins práticos, os neoliberais buscam cooptar a justiça*. A indicação dos nomes dos ministros a compor os quadros do STF representa o evento culminante dessas práticas. Mas, não o único. Pois, desde os seus níveis elementares, a magistratura, refletindo a origem de classe de seus agentes – e com as naturais dissidências progressistas ou conservadoras – vai sendo adestrada para viabilizar um impasse: a reprodução de um regime de liberdades políticas sem correspondência no plano da luta pela igualdade social. Isto é, progressistas (na média), em matéria de costumes, direito de minorias, descriminalização das drogas leves, entre outros tópicos, os juízes costumam a ser conservadores na preservação dos direitos de propriedade (no que caminham a contrário sentido da Constituição de 1988, carta comprometida com a noção de caráter social do direito de propriedade.) de Mello ou de um Janio Quadros. E que agora serve de senha para o exibicionismo autoritário de parcelas do Ministério Público. Por sua vez, a esquerda, principalmente aquela ocupante do poder (ou seja, o Partido dos Trabalhadores e seus aliados), mesmo após a sua condução ao governo Federal, jamais se deu ao trabalho de desmontar os mecanismos de cooptação. Pelo contrário, intentou colocar esse processo a seu serviço. Não agiu assim por oportunismo. Em seu corpo teórico de fundação, o PT, coerente com certa vulgarização do marxismo, concebia o judiciário e o direito dentro do estatuto de superestrutura da ditadura de classe burguesa. Um espaço da dominação estamental dado, de antemão, por perdido, em vista do conservadorismo congênito das instituições jurídicas. Caberia buscar o realismo, portanto. Reduzir os interesses do executivo à tomada de decisões que provocassem impacto direto no governo, sobretudo as de natureza orçamentária, mas sem nunca adotar uma agenda de objetivos de longo prazo para o judiciário. Mesmo quando resolveram fixar objetivos menos imediatos em relação à administração da justiça, as iniciativas dos governos do PT objetivaram apenas promover as expectativas da população em relação aos tribunais: ou seja, criação de mecanismos de controle externo do judiciário, diminuição da morosidade nos processo ou democratização do acesso à prestação jurisdicional, para mencionar as ações mais rumorosas. O aspecto da formação valores capazes de orientar a prática dos magistrados no rumo do aprofundamento da democracia e da igualdade – temas que servem de coluna vertebral da Constituição de 1988 – permaneceu intocado. O vácuo da necessária politização do judiciário foi ocupado pela propaganda partidária. A resultante de tais processos? O risco do poder judiciário continuar rumando – à marcha batida – para assumir, no presente e no futuro, o papel desempenhado pelas Forças Armadas no passado: o de veículo de insatisfação permanente das camadas médias, operador da desestabilização da democracia. * O método da cooptação remete a uma herança das velhas elites territoriais, ainda ativas porém em franca decadência, presentes em boa parte, na estrutura do PMDB. Por Marcelo Barbosa Numa democracia representativa, assentada sobre um sistema de tripartição de poderes, cabe ao judiciário exercer uma função estabilizadora do sistema político. Em importante medida porque seus membros desfrutam de vitaliciedade nos cargos. Isto é, não estão sujeitos à ação das maiorias de ocasião que, por vezes, empolgam o executivo e o legislativo. Nessa modelagem, a que o Brasil aderiu desde antes do advento da Constituição de 1988, os agentes públicos do Judiciário guardam fidelidade ao Estado e não aos governos, tornando a instituição menos permeável à pressão econômica, política e social. Ou pelo menos em teoria, deveria ser assim. Mas, não vem sendo. Com o recrudescimento da luta política – sinalizadora do conflito de classes – as disputas em curso na sociedade, cada vez mais, se veem transferidas para o interior do aparelho de Estado, atingindo, em cheio, o judiciário e os corpos públicos oriundos de outros poderes, mas com os quais se Esses mecanismos de formação de um penrelaciona, entre os quais a Polícia Federal e o samento hegemônico nos quadros do judiciáMP. rio – marcados, repita-se, pelo uso de ferramentas de cooptação – serviu sem abalos, Por óbvio, não parece possível – e nem reco- até a irrupção do esgarçamento social abrigamendável – “blindar” os tribunais de tudo a- do nos protestos de 2013. Desde então, ao quilo que acontece no mundo à sua volta. Ma- que tudo indica, vai se verificando – e as prágistrados também têm direito de opinião. So- ticas do juiz Moro o comprovam – um enfrafrem influência das ideologias de centro, es- quecimento do compromisso da magistratura querda e direita em estoque na sociedade. É com preservação dos direitos e garantias indiinevitável, inclusive, que acabem expressan- viduais e coletivas. As informações veiculado essas preferências em suas sentenças e das nas mídias, tanto nas redes sociais quandespachos. Só não podem (conforme ocorre, to nas cadeias monopolistas de informação, ao momento), ser recrutados pela política par- atestam o declínio da observância aos princítidária, pois isso corrói os alicerces da Repú- pios da inocência presumida, do acesso ao blica. habeas corpus, da obediência à competência territorial, vistos na qualidade de estorvos à Infelizmente, por motivos diametralmente dis- prestação da justiça e subterfúgios para betintos, o comportamento perante o judiciário neficiar “a impunidade” (sic). Na narrativa da das duas parcelas mais influentes da esquer- linha dura judiciária, em face do crescimento da e da direita, no país, agrava esses fenô- endêmico da corrupção, só resta apelar à menos de partidarização. Providência e confiar no envio à Terra de uma personalidade ou de várias personalidades Expressão presumível dos interesses de justiceiras encarregadas de “passar a limpo o grande capital, exibindo nítida filiação à ideo- país” (sic). Um enredo gasto e responsável logia neoliberal, o PSDB trata, em sua matriz pela entrada na cena da vida pública brasileidoutrinária, o judiciário como mais um episó- ra de personagens no figurino de um Collor Marcelo Barbosa é advogado, doutor em Literatura Comparada pela UERJ e diretorcoordenador do Instituto Casa Grande e autor, entre outros, de “A Nação se concebe por ciência e arte – três momentos do ensaio de interpretação do Brasil no século XIX” O juiz não é nomeado para fazer favores com a justiça, mas para julgar segundo as leis. Platão www.culturaonlinebrasil.net /// CULTURAonline BRASIL /// www.culturaonlinebr.org

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Abril 2016 Gazeta Valeparaibana Página 14 Um conto (matéria continuada) Ao fundo uma oliveira (Parte I) POR: Joel Neto Lisboa joel.neto@oninet.pt Por muitas vidas que vivesse a seu lado, aquela mulher jamais compreenderia o que significava para o seu homem que agradecessem por ele que lhe afagassem a cabeça e depois sorrissem nas suas costas para o cavalheiro do outro lado da barricada, com um trejeito cúmplice de quem diz: "Não ligue" Agora que José voltava a olhá-lo, estacionado sem glória sob o toldo azul do talho, o Volkswagen não lhe parecia tão brilhante como o imaginara nos muitos anos em que o vira passar, lento, imperial e nas mãos de outro, durante as intermináveis tardes de domingo da cidade. Sentado ao volante de um Renault 5 creme, com o jornal aberto a toda a largura do pára-brisas, um homem pode ser especialmente obsessivo nos seus rituais de ciúme - mas assim que adquire o objecto do seu desejo, seja maior ou menor a engenharia financeira envolvida, metade do prazer morreu com o sonho. Ali, visto da janela, às cavalitas do passeio e com carros dos vários tamanhos a toda a extensão do seu horizonte, o Golf vermelho, o carro de todos os seus desejos, parecia-lhe um automóvel absolutamente normal - os faróis efeminados, um rabo farto de preta velha e umas rodas fininhas de bicicleta, esmagando-se sob o peso daquela estrutura arredondada de metal e vidros foscos. Tinha ainda o ar gordo de um sargento do exército, o semblante sério e autoritário dos homens poderosos, mas era como se a estrada lhe fugisse debaixo dos pés, deixando-o ali muito nu, com as calças na mão, perante um pelotão histérico que escarnece do seu ridículo. Então o vulto de Edite cresceu no peitoril da janela, muito devagar, e José chegou-se para trás a vê-la caminhar - primeiro apenas a nuca acima do parapeito, meneando em esforço por entre os caixotes do lixo, depois o pescoço ressequido, as costas curvadas, enfim as pernas tortas insinuando-se sem vergonha sob a saia castanha encontrada nalgum cartão antigo do quarto de arrumos. Trinta e oito anos haviam passado sobre o dia em que se juntara àquela mulher, oferecendo-lhe uma aliança de ouro e duas juras de amor eterno, e o mínimo que se podia dizer era que Edite envelhecera - envelhecera no aspecto e envelhecera nos modos, mas envelhecera sobretudo na maneira desesperada como, subitamente, decidira recupe- rar uma juventude que há muito a abandonara. O pior, possivelmente, teria sido a partida dos filhos, os sucessivos casamentos, mas havia de certeza algo mais - tinha de haver mais. O cabelo pintado de caju, a constante vontade de partir, a condescendência perante as mais variadas aberrações dos tempos - tinha de haver muito mais por detrás da inesperada reviravolta no comportamento daquela mulher boa e incapaz de um desejo, de uma altercação, de uma falta, e José sentia que a partir de algum momento haviam começado ambos a viver em comprimentos de onda muito próprios, muito diferentes, encontrando-se às refeições para trocar os silêncios da idade e afastando -se à noite nas bordas opostas da cama. nome intacto, continuava a ser o José que uma noite lhe aparecera junto a uma marcha de Lisboa, atestado de brilhantina e declamando promessas de rebentar com o mundo, passear com ela sobre os seus escombros e depois plantar-lhe um manjerico à beira-Tejo. Um José, sim, um homem igual a tantos outros, um vendedor de chocolates que escolhera a mulher numa noite de Santo António - mas ainda assim o toiro vigoroso que despia a camisa por um pobre com frio e dava a vida em troca da sua palavra, afiando ele próprio a guilhotina ao verdugo, se preciso fosse. E, ao pensá-lo, José voltou a sentir vontade de partir, partir de novo e novamente, cerrando os dentes às fotografias com a promessa de que - Então, vamos embora? - cantou Edite, de volta nunca mais voltaria. Meteu o polegar ao intercoao intercomunicador do prédio, atestado o Golf de municador e disse: velharias e desnecessidades para viagem tão cur- - Já vou. ta. E depois desceu, sem remorsos. José rodou o trinco, pegou na mala grande, penA estrada é larga, e, visto de longe, o Volkswagen durou ao ombro o saco da Singer e deu uma últiGolf parece ainda mais raquítico do que sob o tolma olhadela pelo corredor. E, ao olhar aquela divido azul do talho - pouco mais do que um carrinho são exígua, o seu tecto carunchoso e as molduras avançando devagar na faixa direita da via, assusbarrocas que adornavam as fotografias nas paretado com os camiões de exteriores e as comitivas des, sentiu o peito inundar-se-lhe de saudade de Estado que o ultrapassam velozes, quase o uma saudade imensa, não do que ficava, mas de fazendo rodopiar sobre si próprio. abandoná-lo uma e outra vez, repetida e repetidamente, até que da sua ligação àquelas coisas e Desconcentrado, esforçando-se por destacar a àquelas pessoas não restasse mais do que uma sua própria importância ao volante de um carro breve memória, um daguerreótipo esbatido como novo em folha, para mais inacessível à maioria as imagens fortuitas da primeira infância. Ali esta- dos homens da sua condição, José desentendeuva toda a sua vida: por aquela porta entrara um se com o sistema de pagamento de portagens e dia com Edite ao colo, naquele hall o abraçara foi parar ao guichet do concessionário da autotrês vezes uma parteira desdentada, congratulan- estrada, de boina na mão, muito tremente, menos do-o pelo nascimento dos filhos, ali tinham chora- em respeito pelo trabalho dos outros do que endo os cinco pelo encerramento da fábrica de cho- vergonhado da sua própria velhice. O funcionário, colates, ali haviam entoado juntos um cântico de pode dizer-se, foi simpático. Recebeu-o com um vitória por causa de um cinco-mais-um no Totolo- boa-tarde solidário, comentou vagamente a queda to, mais tarde consumado num prémio desconso- da ponte, trezentos quilómetros acima, e falou por lado que mal dera para substituir as canalizações momentos das sucessivas comitivas de Estado da cozinha - ali estava a sua vida e o que noutras que continuavam a passar na estrada e dos corcircunstâncias ela poderia ter sido, a sua história e pos que não havia maneira de aparecerem no rio respectiva negação, lado a lado, melodia e contra- e de Deus que permanecia dormindo no Céu. Decanto afinadas pela mesma tónica, para não en- pois deu a volta ao balcão e apontou o telheiro esverdeado que se estendia ao longo das dez pisvergonhar o maestro. tas da via: Edite, impaciente, voltou a premir a campainha. - Para a próxima, tem de parar em frente à caixa - José?! Vamos embora! amarela, carregar no botão e agarrar num cartãoEra curioso como ela o dizia: "José", as duas síla- zinho que ela lhe vai dar. Depois, à saída da autobas muito bem torneadas, como mandava a anti- estrada, entrega o cartãozinho ao portageiro e ga instrução primária. Para muitos, ele não fora paga o valor correspondente. nunca mais do que "Zé", quando muito um "Zé CONTINUA NA PRÓXIMA EDIÇÃO Manel", mas para aquela mulher conservava o Mantido o texto original em português de Portugal Numa sociedade movida à dinheiro e hipocrisia, encontramos pessoas propensas aos mais diversos rumos incluindo-se a devassidão. Cuidado com quem andas, pois tua companhia sumariza quem és. Não tenha medo de lutar pelo que acredita, apenas seja você mesmo nos mais divergentes momentos que possam surgir. Fazendo isto, certamente afetará os que estão à tua volta que não gostam do que veem. Saberão fazer a triagem do joio e do trigo. Só tome cuidado com o lado com que ficará, pois uma escolha errada pode te afetar drasticamente. Pense no seu futuro. Sua escolha hoje, será o seu futuro amanhã. Seja feliz, haja com honestidade sempre. Mas acima de tudo, cuidado com o que te tornarás! Filipe de Sousa www.culturaonlinebrasil.net /// CULTURAonline BRASIL /// www.culturaonlinebr.org

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Abril 2016 Gazeta Valeparaibana Página 15 EUROPA hoje e ontem (artigo continuado) Por: Michael Löwy Sociólogo, é nascido no Brasil, formado em Ciências Sociais na Universidade de São Paulo, e vive em Paris desde 1969. Diretor emérito de pesquisas do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS). Homenageado, em 1994, com a medalha de prata do CNRS em Ciências Sociais, é autor de Walter Benjamin: aviso de incêndio (2005), Lucien Goldmann ou a dialética da totalidade (2009), A teoria da revolução no jovem Marx (2012) e organizador de Revoluções (2009) e Capitalismo como religião (2013), de Walter Benjamin vinda de tropas britânicas e a submissão dos seus homens ao comando do general inglês Ronald Scobie. No país vizinho ao norte, diante da iminência da derrota nazista na Europa, a Liga Comunista da Iugoslávia, liderada por Josip Broz-Tito, tornou a colocar no tapete político internacional a questão da unidade política dos países dos Bálcãs. A URSS se interpôs nesse objetivo, contrário aos acordos celebrados pelo Kremlin com os EUA e Inglaterra em Yalta e Potsdam, preanunciando o conflito e a ruptura StalinTito de 1948. Em geral, a colaboração da burocracia do Kremlin com os imperialismos “aliados” foi decisiva para desarmar os elementos de guerra civil com que o segundo conflito mundial culminou em vários países da Europa, que possuíam um potencial suscetível de envolver todo o continente.[8] Foi a intervenção política do Kremlin, através das direções dos partidos comunistas, ou diretamente, a que permitiu o desarmamento dos partigiani italianos, que tinham participado decisivamente da derrubada da ditadura de Mussolini, assim como a desmobilização e desarmamento das forças guerrilheiras (maquis) da resistência antinazista francesa. Na Grécia, diversamente, a resistência antinazista chegou a se desdobrar em guerra civil revolucionária: “A revolução grega de dezembro de 1944, apesar do controle total do país pelas tropas da ELAS, foi esmagada pela intervenção das tropas britânicas, depois da capitulação dos dirigentes stalinistas da ELAS que devolveram as armas, aplicando as diretivas de Stalin de unificação das forças patrióticas numa Frente Nacional”.[9] A medida foi parte de um acordo internacional da URSS com as potências ocidentais: “As decisões de Yalta sobre a organização interna dos países da Europa oriental se inspiravam na fórmula de Frentes Nacionais (Frentes Patrióticas, Frentes Populares) lançadas pela URSS e aprovada pelos ocidentais durante a guerra… A aliança anglo -americana-soviética devia se desdobrar em cada nação europeia em uma aliança das forças políticas, dos comunistas até a direita nacional antialemã”.[10] Pouco antes da entrada das forças inglesas em Atenas, o PEEA se reuniu com os representantes do governo monárquico no exílio; em que pese o descontentamento dos chefes andartes e do próprio CC do KKE, sob a pressão dos enviados ingleses e da missão soviética encabeçada pelo coronel Popov, o PEEA capitulou diante das exigências hegemônicas do governo grego no exílio. lado dos apoiadores de Hitler, contra aqueles que haviam sido seus aliados contra ele. Quando 28 civis foram assassinados em Atenas, a responsabilidade não foi dos nazistas, mas dos ingleses… ‘Ainda consigo ver muito claramente, não me esqueci’, afirma Titos Patríkios. ‘A Polícia de Atenas disparou sobre a multidão, do telhado do Parlamento, na Praça Syntagma. Os jovens homens e mulheres jaziam em poças de sangue, toda a gente corria escada abaixo, tomada de choque, em pânico total’. ‘Eu estava profundamente convicto de que venceríamos (os nazistas)’: a vitória não chegou nesse dia, Grécia, libertada do Reich de Hitler havia umas meras seis semanas, estava agora a caminho de uma sangrenta guerra civil… “O poeta recorda, cada cena, cada disparo, o que aconteceu na praça principal da vida política grega, na manhã de 3 de dezembro de 1944. A multidão levava bandeiras gregas, norte-americanas, inglesas e soviéticas, e gritava ‘Viva Churchill, Viva Roosevelt, Viva Stálin’. Vinte e oito civis, na maioria jovens, foram mortos e centenas foram feridos. ‘Pensávamos que seria uma manifestação como qualquer outra. O nosso trabalho do costume. Ninguém esperava um banho de sangue’. A lógica dos ingleses era pérfida e brutal: o primeiro-ministro Winston Churchill considerava que a influência do Partido Comunista no movimento de resistência que ele próprio apoiara durante a guerra (a Frente de Libertação Nacional, EAM) se fortalecera mais do que ele havia calculado, o suficiente para prejudicar seu plano de colocar de novo o rei grego no poder e manter o comunismo à distância. Portanto mudou as alianças para passar a estar ao lado dos apoiadores de Hitler”. Os acordos de Yalta e Potsdam tiveram por objetivo fundamental fornecer o quadro legal para a política contrarrevolucionária das potências capitalistas e da burocracia da URSS: “Depois do ataque nazista à URSS, o problema das esferas de influência foi posto sobre a mesa, desde o primeiro momento, nas negociações entre os ‘três grandes’ e, também desde o primeiro momento, foi acompanhado da intensificação propagandística acerca dos objetivos reais perseguidos pelos ‘três’”.[12] Os acordos previam as seguintes “taxas de influência” por país para os aliados ocidentais e para a URSS, respectivamente: Hungria: 50%-50%; Iugoslávia: 50%-50%; Romênia: 10%-90%; Bulgária: 25%-75%; Grécia: 90%-10%. Grécia ficava reservada para o imperialismo inglês, como potencial plataforma de ataque militar ao Oriente Médio, dividido ainda em mandatos britânico e francês, obtidos depois da Primeira Guerra Mundial. As pretensões do imperialismo norte-americano ao aceitar a Europa Oriental como uma zona de influência soviética ainda não eram claras. E tampouco as de Stalin. CONTINUA NA PRÓXIMA EDIÇÃO Capitalismo e democracia na Europa PARTE IV A ELAS tinha libertado dezenas de aldeias e se tornado um governo paralelo, administrando diversas partes do país, onde o Estado literalmente desaparecia. Em inícios de 1943, Aris Velouchiotis foi convocado pelo Comitê Central (CC) do PC grego, que o acusou de “levar adiante uma guerra de classes” (e não uma guerra nacional) e de “exterminar os proprietários feudais”, assim como de provocar o confronto militar com a EDES do general Zervas: Velouchiotis foi “posto sob o controle” do CC. No mesmo ano, a agonizante Internacional Comunista (dissolvida por Stalin em 1943) criticava o líder comunista iugoslavo Tito por “conferir um caráter comunista ao movimento de resistência”. O movimento popular de luta antinazista, no entanto, ganhou seu próprio impulso e dinâmica. Em Atenas, a 20/21 de dezembro de 1942, os operários em greve eram 40 mil. Eles participaram no dia seguinte de uma mobilização de rua convocada pela EAM. Em fevereiro do ano seguinte, greves e manifestações urbanas conseguiram impedir o deslocamento de mão de obra grega para a Alemanha; os funcionários públicos chegaram a obter um aumento de salários. As forças ocupantes alemãs e os colaboracionistas ficaram rodeados nas cidades pelas “fortalezas vermelhas” das periferias, onde as tropas e milícias nazistas só conseguiam realizar pequenas operações, retirando-se de imediato. Já havia 40 mil andartes nas montanhas e nas zonas rurais. O prestigioso coronel Sophoulis, escolhido pelos ingleses para unificar a “resistência nacional antinazista” em concorrência com a EAMELAS, capturado por Aris Velouchiotis foi convencido por este, e se passou com 700 oficiais gregos, armas e bagagens, para a EAM. A 18 de abril de 1944, nas montanhas, o PC grego (EKK) constituiu um “Comitê Político de Libertação Nacional” (PEEA) com caráter de governo provisório, sob o controle do próprio PC. Na Grécia, o acordo aliado revelou de cara seu caráter completamente reacionário: “Em Atenas, o Exército Britânico, ainda em guerra com a Alemanha, abriu fogo (e deu armas aos elementos locais que haviam colaborado com os nazistas para que também o fizessem) sobre uma multidão de civis que manifestava a favor dos partisans. Para Depois da retirada alemã, no entanto, a ELAS colocar de novo o rei grego no poder e manteve seus 50 mil guerrilheiros armados manter o comunismo à distância, Churchill fora da capital e, em maio de 1944, aceitou a mudou as alianças para passar a estar do www.culturaonlinebrasil.net /// CULTURAonline BRASIL /// www.culturaonlinebr.org

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