Boletim Missiológico Veredas #1

 

Embed or link this publication

Description

O Boletim Missiológico Veredas é uma publicação de caráter evangélico não denominacional, que tem por objetivo compartilhar conhecimentos, fomentar o debate e promover a reflexão missiológica entre cristãos brasileiros e de demais países lusófonos.

Popular Pages


p. 1

O Boletim Missiológico Veredas é uma publicação de caráter evangélico não denominacional, que tem por objetivo compartilhar conhecimentos, fomentar o debate e promover a reflexão missiológica entre cristãos brasileiros e de demais países lusófonos. Mesmo cientes da humildade desta publicação, almejamos com a presente iniciativa ajudar a suprir a incompreensível e também injustificável carência de publicações periódicas que tenham por foco específico a Missiologia em nossas fileiras protestantes. Sendo assim, efetivamos aqui um clipping de artigos, resenhas, monografias, entrevistas e notícias de interesse para a igreja protestante e o seu esforço de reflexão & ação missionárias. Editor: Sammis Reachers Blog Veredas Missionárias www.veredasmissionarias.blogspot.com.br Número 01 Março 2016 SUMÁRIO ENTREVISTA Jairo de Oliveira ......................................... 02 O PERFIL DO MISSIONÁRIO EM UM MUNDO TURBULENTO Dr. Jonatán Lewis ....................................... 05 HUMOR & REFLEXÃO Nate Owens ............................................... 11 CHINA E BRASIL, BEM ALÉM DOS BRICS Wellington Barbosa ................................... 12 DOIS SEGREDOS DA CONTEXTUALIZAÇÃO (FILIPENSES 2:1-18) Barbara Helena Burns ............................... 14 LIVROS EM LANÇAMENTO ......................... 16 EVENTOS ................................................... 18 MAPA/GRÁFICO: Cores da Cultura ............ 19 CITAÇÕES ................................................... 20 As opiniões dos artigos não refletem necessariamente a opinião do editor. Você pode ser um colaborador deste boletim, enviando seu texto, notícia ou outro material para: sreachers@gmail.com >>>> 1

[close]

p. 2

Jairo de Oliveira é membro da 2 a Igreja Batista da Taquara (Rio de Janeiro – RJ), pastor da Convenção Batista Brasileira (CBB) e missionário da Missão para o Interior da África (MIAF). Como embaixador do evangelho e discípulo de Cristo, há mais de 10 anos tem desenvolvido o seu ministério no continente africano, onde serve com a sua família entre povos refugiados sudaneses. Como foi sua formação teológica/missionária, e como se deu seu direcionamento para o campo africano? A minha formaçao teologica/missionaria tem se dado ao longo da minha caminhada missionaria, numa tentativa de conciliar teoria e pratica. Tenho me esforçado para continuamente me qualificar para a obra missionaria a fim de servir adequadamente ao Senhor e aos africanos. Comecei na obra missionaria transcultural aos 17 anos, quando fui enviado por minha igreja local para a Africa do Sul, ha exatos 20 anos. Naqueles dias, o país vivia o pos-apartheid, tendo Nelson Mandela como seu presidente. Desembarquei na Africa do Sul com a missao de servir como missionario entre refugiados da guerra civil angolana. Apos cumprir o período de 2 anos e meio na Africa do Sul, retornei ao Brasil e dei continuidade ao meu preparo missionario. Cursei teologia no Instituto Bíblico Peniel da Missao Novas Tribos do Brasil e estudei missiologia e linguística na Associaçao Linguística e Missionaria em Brasília. Na volta ao campo fiz um treinamento missiologico pratico (Training in Ministry Outreach - TIMO) e, no momento, estou me preparando para iniciar um mestrado em Islamismo na Columbia International University na Carolina do Sul. Você é autor de sete obras sobre a obra missionária (caro leitor, conheça mais sobre os livros AQUI), além de um livro de poemas e é um dos comentaristas da Bíblia Missionária de Estudo publicada pela Sociedade Bíblica do Brasil. Qual é seu processo de escrita? Prefere seguir os caprichos da inspiração ou há um tempo metódico dedicado à pesquisa/redação? 2

[close]

p. 3

O trabalho missionario que desenvolvo no campo e extremamente inspirativo. Todos os dias, na relaçao com o meu contexto de trabalho, tenho motivos de sobra para escrever. Contudo, nao e a inspiraçao que encontro no campo que me faz escrever, mas a disciplina. Alem de produzir minhas obras literarias, tambem atuo como tradutor de literatura missionaria. Uma vez que a demanda no campo e grande, se eu nao tiver uma disciplina de escrita diaria, fica difícil produzir algo. O meu processo de escrita segue a filosofia do “devagar e sempre”. Pois, se deixasse para escrever somente quando tivesse um bom tempo disponível, todos os projetos literarios que ja realizei estariam engavetados. Há algum novo projeto de livro missiológico em andamento? Acabei de escrever um livro sobre o assunto do pecado. O título provisorio e “Pecado, o que voce tem a ver com isso?” e a obra conta com o prefacio do Rev. Hernandes Dias Lopes. Na area missiologica, tenho tres projetos em andamento. O que espero acabar primeiro e um livro sobre o Islamismo. Este e um assunto crucial em nossos dias, principalmente para aqueles que estao envolvidos com a obra missionaria. Com esta obra, quero muito ajudar a capacitar a Igreja brasileira para ter uma compreensao adequada dos muçulmanos e de como alcança-los com o evangelho. Tendo servido durante muitos anos num país majoritariamente muçulmano no norte da África, e atualmente servindo no Quênia, como você tem percebido o fenômeno da Primavera Árabe? Em que sentidos ela pode ter sido benéfica ou prejudicial ao avanço do Evangelho nos países africanos atingidos pela Primavera? A Primavera Arabe se manifestou majoritariamente no norte da Africa e encheu o mundo de esperança. Muçulmanos e nao muçulmanos passaram a acreditar no fim dos regimes ditatoriais presentes nos países arabes e no consequente estabelecimento de sistemas de governos mais democraticos. Contudo, o movimento nao produziu os resultados que se esperava e frustrou muita gente. A Tunísia foi de longe a experiencia mais bem-sucedida. La houve um movimento de reconhecimento das minorias e as igrejas nacionais passaram a desfrutar de mais liberdade religiosa. Contudo, em países como a Líbia a situaçao dos cristaos piorou. Ate hoje o país e conduzido por um governo transitorio que convive com a ameaça diaria do Estado Islamico e de outros grupos terroristas que exercem controle sobre partes do país. Um aspecto bem negativo, presente em alguns países que experimentaram a Primavera Arabe, e a queda de algumas ditaduras e o levante de outras, como aconteceu no Egito que foi governado pela Irmandade Muçulmana apos a queda do entao presidente Hosni Mubarak. Em termos de liberdade, pouca coisa mudou no país. Precisamos continuar orando pelo avanço do evangelho nesses países. Qual é a realidade religiosa do Quênia? Quais os maiores desafios da evangelização do território e das etnias quenianas? O Quenia e um país localizado na lesta da Africa, com 49% da sua populaçao evangelica, mas que abriga muitos desafios relacionados a segurança, a pobreza e a corrupçao. Apesar da forte presença evangelica, o Quenia abriga 31 povos nao alcançados 3

[close]

p. 4

com o evangelho. Um desafio que precisa ser superado pela Igreja queniana e a falta de visao missionaria, principalmente porque ela tem dentro das suas fronteiras a forte presença de refugiados muçulmanos originarios de países fechados da regiao. Voce encontra aqui desde somalianos de Mogadíscio a sudaneses de Darfur. O país e tambem uma porta de acesso aos países e povos nao alcançados da regiao conhecida como Chifre da Africa, uma das menos evangelizadas do continente. E o Estado Islâmico dentro da conjuntura do norte africano? É perceptível a penetração de tal organização na África? O Estado Islamico tem se infiltrado na regiao, divulgado a sua ideologia radical e recrutado novos militantes. Contudo, como consequencia de suas açoes barbaras, eles estao desencorajando muitos muçulmanos a permanecerem no Islamismo. Em países como o Sudao, por exemplo, as pessoas assistem diariamente na televisao as monstruosidades praticadas em nome de Ala. Em funçao do conhecimento da língua arabe, o povo tem plena compreensao da ideologia apresentada e dos versos coranicos utilizados. Muitos muçulmanos no norte da Africa estao se perguntando se o EI representa a verdadeira face do Isla e como consequencia estao se tornando ateus ou abraçando a fe crista. Como você avalia a presença missionária brasileira no continente africano atualmente, em termos de pontos positivos e negativos? O Brasil se identifica muito com a Africa. A presença brasileira aqui e grande, sobretudo nos países de língua portuguesa. Os brasileiros, em geral, tem facilidades de se ajustar ao contexto africano, de desenvolver bons relacionamentos e de realizar um bom trabalho missionario. Ha muitos exemplos de trabalhos extraordinarios realizados por brasileiros aqui no continente. Verdadeiros herois da fe que impactaram e impactam a vida de milhares de pessoas. O aspecto negativo tem sido em termos de atitudes paternalistas, desrespeitosas ou arrogantes. Por causa do mau exemplo de alguns, ha lugares em que os brasileiros estao deixando de ser bem-vindos. Ha varios casos assim acontecendo em Moçambique, por exemplo. Como a igreja no Brasil tem se comportado neste momento de crise econômica? A crise financeira tem representado uma enorme dificuldade tanto para o missionario no campo, por causa da desvalorizaçao do real, como para as igrejas no Brasil, em funçao do aumento da inflaçao. As igrejas que tem visao missionaria continuam sendo fieis no sustento dos seus missionarios, mas enfrentam limitaçoes para ampliarem suas parcerias de sustento e para enviarem novos obreiros para o campo. Bom seria que neste momento de crise financeira, parcerias fossem firmadas. Imagine se as igrejas que nao participam da obra missionaria auxiliarem o trabalho daquelas que ja investem? Minha oraçao tem sido para que, apesar da crise financeira, o serviço sacrificial dos crentes brasileiros nao se esvazie de entusiasmo a fim de que o Cordeiro, Jesus, continue sendo glorificado entre as naçoes. 4

[close]

p. 5

O perfil do missionário em um mundo turbulento Dr. Jonatán Lewis Vivemos nos melhores e nos piores tempos. Os avanços tecnologicos permitem a alguns viver vidas mais longas, mais produtivas, e com maior conforto que nossos antepassados. Porem, com todos os avanços tecnologicos, uma grande parte dos seis bilhoes de habitantes deste mundo tem uma pessima qualidade de vida, alguns ao ponto de uma desumanizaçao inacreditavel. Os problemas sociais sao enormes e endemicos: a AIDS, a duvida, o desmatamento, a contaminaçao ambiental, os refugiados, a guerras, o genocídio, a ameaça das armas biologicas e nucelares, o terrorismo etc. O secularismo, impulsionado pelos avanços científicos e a corrente do modernismo, nao oferece soluçoes. Como força missionaria, a estes desafios agregamos enormes correntes sociais, tais como o fundamentalismo religioso e sua hegemonia política em muitos países, que entorpecem nosso trabalho. Como realizaremos missoes frente a esses tremendos desafios? Pode sobreviver o trabalho missionario? E se ha de sobreviver, como se esboçara o missionario, sua missao, e o sistema que lhe envia e apoia nestes dias tao turbulentos? Uma perspectiva escatológica Em Mateus 24, frente a pergunta: Quando vira o fim? O Senhor Jesus descreve um mundo muito similar ao nosso. Porem apesar dos problemas descritos, no versículo 14 assevera que “Sera pregado este evangelho do reino em todo o mundo, em testemunho a todas as naçoes; e entao vira o fim.” Se entendemos missoes como a gama ampla de tudo o que Deus faz para cumprir com a pregaçao do evangelho a todas as “naçoes”, entao nao resta duvida de que Seu plano de “missoes” vai continuar ate o fim. Mas com esta declaraçao, tambem esclarecemos que “missoes” pode realizar-se por qualquer meio que Deus queira utilizar. A meta da missao nao muda, mas sim suas formas e normas. Se a historia se repete, Deus seguira utilizando meios voluntarios e “involuntarios” para cumprir a sua meta. Ele utiliza a adversidade e os problemas como “oportunidades” para estender seu Reino. Em nosso mundo, a perseguiçao a crentes e a dispersao que e a sua consequencia, segue sendo uma via missionaria importante como ja tem sido na historia das missoes (Ato 8.1). Nao so se estao mobilizando missionarios como refugiados, porem Deus esta movendo grandes populaçoes de nao-alcançados como imigrantes aos países povoados de cristaos com o proposito, segundo Atos 17.26,27, de que eles encontrem a Ele. Nao ha duvida que ha muita missao transcultural a realizar-se entre esses imigrantes por parte da igreja, sem necessidade de enviar missionarios a grandes distancias. Deus elegeu utilizar a seu povo como agente principal para a evangelizaçao mundial e realizara este trabalho de uma forma ou de outra (Gen 12.3; Ex 19.5,6). Porem o outro lado do quadro e que Deus tem comissionado a seu povo com a tarefa da evangelizaçao mundial, e cremos que lhe da muito prazer e honra quando seu povo se organiza voluntariamente para realizar este trabalho. Dou graças a Deus que vi5

[close]

p. 6

vemos um dia em que as missoes tem chegado a ser uma preocupaçao da igreja em todo o mundo. A visao de um movimento missionario “de todas as naçoes a todas as naçoes” tem impulsionado o ensinamento e a mobilizaçao missionaria a um nível global. Neste sentido, cremos que vivemos em um momento muito especial no plano de Deus, um momento quando quase todas as congregaçoes e quase todos os crentes verdadeiros no mundo estao sendo conscientizados de sua responsabilidade de participar com protagonismo na tarefa global. Este momento historico tambem reune condiçoes que nos permitem asseverar que a Grande Comissao se pode cumprir em nossa geraçao. Forças tecnologicas nos permitem uma agilidade tremenda no envio e nas comunicaçoes com os missionarios e seus projetos, e a possibilidade de cobrir massivamente o globo terrestre com a Mensagem. Mas mesmo com essas ferramentas o trabalho nao e facil. Os missionarios e suas organizaçoes estao sendo afetados por grandes forças sociais, economicas e espirituais que representam desafios e oportunidades nesta feroz guerra espiritual. As forças da Globalização Tecnológica Quase trinta anos atras, um futurista popularizou o conceito de “aldeia global”. A realidade e que vivemos em um mundo pequeno. Pela influencia das comunicaçoes instantaneas, nos inteiramos do que se passa com todos os “vizinhos”. Dentro de poucas horas, vemos transmitidas por satelites imagens de qualquer acontecimento catastrofico acontecido no mundo, das consequencias do terrorismo, de guerras, de secas, terremotos, e com todo o horror do momento. Hoje podemos receber canais de televisao de todo o mundo em nossos lares. Por meio da internet, temos acesso a notícias de quase qualquer país e cidade. Pelo mesmo meio, podemos pesquisar qualquer tema que nos possa interessar. O telefone celular abre as possibilidades de comunicarmo-nos com quem quisermos em todo o globo terrestre. E ja entramos na era em que os telefones vem armados com sistemas de vídeo para vermos a pessoa com quem estamos nos comunicando. A tecnologia sem duvida tem mudado o perfil do missionario. A habilidade no uso da internet e indispensavel. E como parte de seu equipamento vai o computador que permite acesso ao correio eletronico e leva em si quase todos os outros elementos que tem chegado a ser quase indispensaveis para a obra. O correio eletronico permite comunicaçoes quase instantaneas com sua igreja local, sua família e seus amigos de uma maneira eficiente e economica. Hoje e possível conversar com um amigo em outro continente sem custo, utilizando o computador. A facilidade e efetividade destes meios de comunicaçao aumentarao durante os proximos anos e serao cada vez mais acessíveis a todos os cidadaos de nosso planeta. O transporte e outro meio que tem diminuído nosso planeta. Hoje, se pode viajar de qualquer país do mundo e estar em qualquer outro país dentro de 24 horas. Ainda que as passagens aereas pareçam caras, em comparaçao com o que historicamente custou viajar, sao realmente baratas. Quando William Carey navegou da Inglaterra ate a India em 1790, a passagem para ele e sua equipe custou o equivalente a 50 anos de um salario mínimo. Hoje, a mesma viajem (dessa vez por via aerea) custa uma fraçao de um salario mensal (em termos de países desenvolvidos). Vivemos numa epoca em que todo mundo viaja ao redor do mundo e a possibilidade de mover uma família de um lugar a outro e relativamente facil e economica. 6

[close]

p. 7

Outro grande avanço na globalizaçao e a transferencia de divisas e valores eletronicamente. Hoje em dia, qualquer um que obtenha um cartao de credito pode utiliza -lo para retirar dinheiro em milhares de caixas automaticos em todo o mundo. Todos os produtos sao mais acessíveis com “o cartao”. O comercio utilizando a internet e cartoes de credito, cresce vertiginosamente. Quando Hudson Taylor serviu na China em meados do seculo XIX, uma carta demorava seis meses para chegar e se havia alguma necessidade economica, levaria um ano inteiro entre avisar os irmaos e receber o dinheiro. Hoje as comunicaçoes e as transferencias eletronicas permitem a atender o missionario de um dia para o outro. Ha muitos que resistem aos avanços tecnologicos. Os mesmos lhes atribuem um valor moral. Porem a tecnologia, como o dinheiro, a influencia, e quantas outras coisas, podem ser utilizadas para o bem ou para o mal. O apostolo Paulo utilizou os meios tecnologicos ao seu alcance (como passagens em barcos e a palavra escrita) para realizar a tarefa de evangelizaçao. Nao duvidemos que os avanços tecnologicos devem utilizar-se para o avanço do Reino. Os elementos tecnologicos da globalizaçao nos facilitam e possibilitam a obra missionaria. O Perfil das Agências Missionárias A historia de missoes nos apresenta varias estruturas que se tem utilizado para recrutar, enviar e manter a força missionaria. E certo que as estruturas utilizadas para mobilizar voluntarios para a missao, historicamente, sempre tem tomado seu padrao de estruturas ja existentes na sociedade. Pode surpreender a alguns que os movimentos monasticos seguiram o padrao militar com o proposito de levar a cabo a expansao da igreja. Utilizando este modelo, os jesuítas puderam avançar a causa em lugares tao remotos como Paraguai, Japao, China e Canada. Os celtas da ilha britanica adotaram este modelo para a evangelizaçao de todo o norte europeu. O movimento “moderno” protestante que nasceu em fins do seculo XVIII, utilizou estruturas que correspondiam ao modelo empresarial que surgiu em sua geraçao. As “sociedades” que se criaram foram manejadas com os criterios que correspondiam ao padrao comercial. Eventualmente, essas estruturas foram modificadas com o correr do tempo. Hoje em dia, falamos de “agencias missionarias” que se manejam em muitos sentidos, como empresas modernas. Adotaram muito das ciencias sociais como o manejo por meio de objetivos e os sistemas de manejo de pessoas contemporaneo. Se queremos entender de onde procedem as estruturas missionarias, e importante entender de onde procedem as instituiçoes “seculares” e o efeito geral que tem a globalizaçao sobre elas. Mudanças nas forças estruturais nos últimos anos Nos ultimos anos, se tem visto uma grande mudança na estruturaçao de empresas. A direçao da mudança e de estruturas piramidais com varios níveis de supervisao para estruturas planas com menos níveis hierarquicos, de onde os que realizam o trabalho tem mais controle sobre as decisoes que afetam diretamente o seu trabalho. Algumas grandes empresas se administram como uma coleçao de microempresas. Cada unidade e avaliada por sua eficacia. Quando nao cumpre as metas, essa unidade se reorganiza ou e encerrada. 7

[close]

p. 8

As missoes tambem estao sentindo o efeito da descentralizaçao de controle. Novas agencias nos países historicos de envio que tem seguido essas inovaçoes, tem crescido e prosperado. Lançam equipes ao campo e permitem que estas tomem as decisoes que afetam sua obra. Agencias que nao puderam adaptar-se e seguem o padrao hierarquico com tomada de decisoes centralizadas, tem diminuído em membresia e em muitos casos, se tem visto forçados a abandonar sua autonomia e fundir-se com outras agencias para sobreviver. Os efeitos da globalizaçao reforçam o modelo descentralizado em que ate mesmo as igrejas locais podem enviar missionarios sem depender de agencias. Com a possibilidade de comunicaçao, transporte facil e barato, o envio direto do missionario e seu sustento, muitas igrejas tem preferido nao utilizar as agencias que historicamente realizaram essas funçoes, entre outras. A descentralizaçao de agencias, com equipes que funcionam com certa autonomia no campo, e talvez o bem mais valioso desta tendencia estrutural. Isso permite flexibilidade e a agilidade necessaria na tomada de decisoes que requerem a situaçao local em um mundo em mudança. Mas e importante destacar que essas equipes necessitam de supervisao, apoio e cuidado por pessoas experimentadas nas exigencias e desafios da obra missionaria na regiao onde servem. Ainda que as funçoes das agencias missionarias tenham mudado em razao dos avanços tecnologicos, nao se dispensou sua necessidade. Igrejas que enviam missionarios sem contar com esse apoio, na maioria dos casos, perdem tempo e recursos. Historicamente, o ‘micromanejo’ da obra no campo pela igreja local com frequencia leva a ineficacia e fracasso. A Força das Alianças Internacionais A globalizaçao tambem tem afetado as empresas. A cada dia se escutam notícias de grandes empresas internacionais que historicamente foram competidoras, agora unindo esforços e formando sociedades para trabalhar em conjunto. Volkswagen e Ford produzem um automovel em conjunto, linhas aereas se unem as suas excompetidoras para formar uma aliança estrategica que pode captar uma maior proporçao do mercado global. As Missoes tambem estao formando alianças estrategicas localizadas em grupos culturais ou geograficos. Dezenas de alianças tem surgido entre grupos cristaos com origens muito variadas. Foram apagadas muitas das barreiras denominacionais e nao e muito estranho ver uma equipe missionaria que contem batistas, pentecostais e presbiterianos trabalhando em conjunto. Nesta mesma equipe pode haver mexicanos, filipinos e canadenses. Frente a esta realidade, o missionario eficaz cultivara uma atitude ampla em relaçao a seus companheiros de batalha. O missionario que trabalha nesse ambiente tem que ser flexível e tratar de entender e apreciar as diferentes perspectivas doutrinarias e culturais. Isso requer humildade e habilidade de ver a meta de almas achegadas ao Senhor por meio do testemunho e trabalho da equipe. O egoísmo e a ambiçao pessoal, nao funcionam nesse mundo de colaboradores. A Força do Pluralismo e o Fanatismo Religioso Nem todo mundo esta de acordo que Cristo e o Senhor. Os seguidores de outros pro8

[close]

p. 9

fetas e mestres sao numerosos. Dos seis bilhoes de habitantes na Terra, somente um terço se identifica como cristao. No Ocidente, o pluralismo religioso “respeita” o direito de cada um de crer em qualquer deus e religiao. A relatividade diz que “se e verdade para voce, e sua verdade”. “Porem sua verdade nao e necessariamente minha verdade, senao aquilo que eu interpreto como verdade.” Qualquer proclamaçao de Cristo como unico Senhor pode ser repudiada e ainda condenada como intolerante. Mais de um julgamento foi realizado com base em alegaçoes de "angustia emocional" provocada pela pregaçao da condenaçao do pecador, frente a um Deus justo. O fato de que o pregador tambem revela a salvaçao oferecida em Cristo nao e suficiente para justificar os evangelistas que sao acusados de usar “pressao psicologica” para ganhar partidarios. Do mesmo modo, os missionarios em países onde dominam as grandes religioes como o Isla, o Budismo e Hinduísmo, estao sendo atacados por uma nova onda de fundamentalismo. Paralelamente, a “retribalizaçao” do mundo e um fato que tem tido suas piores expressoes nos terríveis massacres em nossa historia recente. A brutal carnificina em Ruanda e os conflitos belicos dos países balticos sao exemplos de uma corrente global que cada vez mais quer manifestar sua propria identidade racial, religiosa e cultural. E esses estao dispostos a matança e ao genocídio para obte-lo. Neste ambiente, o pregador de uma religiao estrangeira nao e bem-vindo. As igrejas cristas minoritarias nesses países se veem sob perseguiçao aguda e os missionarios tem sido expulsos e expostos ao martírio. O missionario tem que enfrentar essas realidades com a sabedoria da serpente e a inocencia da pomba. O Perfil Missionário com as Duas Mãos As forças sociais de oposiçao nao podem ser enfrentadas com conceitos tradicionais do missionario do seculo XX. Os países onde vivem as grandes maiorias de inalcançados nao permitem a entrada de missionarios tradicionais. Frente a essa realidade, se tem revitalizado o conceito do missionario bi-ocupacional, o missionario que vai a outro país com a Palavra em uma mao e sua ferramenta de serviço na outra. Lamentavelmente, a abordagem a esta questao tem sido em grande parte pragmatica sobre como resolver o problema para entrar e viver no país. Essa orientaçao se tem comprovado deficiente em suas consideraçoes eticas e teologicas. O fracasso desta abordagem nos chama a uma profunda reflexao sobre a cosmovisao “crista” popular, que propaga a falsa dicotomia entre o “sagrado” e o “secular”. A posiçao bíblica e que tudo o que fazemos e “sagrado” se o consagramos a Deus. Todos estamos chamados a realizar nossa vocaçao por meio de todas as nossas ocupaçoes e nao apesar delas (1Co10.31). Para isso, a igreja necessita mover-se para eliminar de uma vez a distinçao entre ministros laicos e profissionais, completando o que a “Reforma Protestante do Seculo XVI” começou, com seu ensino sobre o sacerdocio santo de cada crente (1Pe 2.8). So assim se lançara a tremenda força missionaria latente da igreja. Tomado pelo aspecto pratico, o sistema bi-ocupacional para o envio e sustento do missionario e talvez o que mais potencial oferece aos movimentos missionarios dos países de menores recursos. A maioria dos grupos nao alcançados se encontra nos países mais pobres do mundo. Com uma larga historia de fracassos no apoio economico direto aos governos destes países, os países desenvolvidos se tem voltado para o uso de organizaçoes nao governamentais (Ongs) e Fundaçoes na canalizaçao de 9

[close]

p. 10

apoio economico e social. A igreja esta descobrindo este meio para inserir obreiros bi -ocupacionais e assim realizar suas metas. A oportunidade e enorme e a igreja tem que fazer muito mais, para aproveitar-se disso. Ainda que existam varios canais para os bi-ocupacionais, nao restam duvidas de que essa pessoa tera que se capacitar adequadamente. A experiencia demonstra que tomar uma profissao simplesmente como “cobertura” para estar em um país, e incoerente com a meta de ser testemunha de Cristo nesse lugar. As melhores testemunhas sao as que realizam seu trabalho profissionalmente, e tambem se tem capacitado para realizar a obra de Deus nesses lugares. Ambas linhas de capacitaçao sao necessarias. As Forças Espirituais do Maligno Hoje a igreja esta despertando para a necessidade de enfrentar diretamente as forças satanicas que tem cegado os olhos de milhoes, por milenios. A igreja sempre tem tido os dons e sempre tem possuído as armas espirituais. Porem nem sempre as utilizou com um enfoque maior. Graças a este despertar para a guerra espiritual, o enfrentamento de potestades e poderes esta sendo encarado de forma específica e sistematica. Na medida em que a igreja se mobiliza para marchar sobre seus joelhos e levanta guerreiros espirituais, tera exito na grande luta pelas almas de milhoes. Ha muitos que acreditam que as expressoes das forças malignas aumentarao ao aproximar-se o fim. Vao lutar de forma desesperada para manter sua autonomia e deter seu castigo eterno. O perfil do missionario hoje e o perfil de um guerreiro. Necessita saber manejar as armas espirituais com maior eficacia para defender-se, e para aplica-las na libertaçao dos que vivem debaixo do poder do maligno. Conclusões Como se apresenta o ministerio missionario diante dos desafios de hoje? Nao ha duvida que sera distinto de seus precedentes. Deus cumprira Seus propositos com ou sem o esforço voluntario da igreja. Porem seu povo vive um momento especial que permite a alegria de crer que se pode cumprir a Grande Comissao dentro desta geraçao. A igreja global esta captando a visao. As forças da globalizaçao tem provido ferramentas que facilitam a comunicaçao, a mobilizaçao e o envio de recursos. As estruturas de envio tambem serao mais ageis, apoiadas pela flexibilidade e acesso que provem desses meios. A organizaçao missionaria sera descentralizada e disposta a uma colaboraçao entre crentes de diversas origens e denominaçoes. Alianças estrategicas serao forjadas no solo nao so entre grandes entidades, mas tambem entre igrejas pequenas que juntas podem realizar projetos que sozinhas nao empreenderiam. Tomadas por uma visao de evangelizar aos povos que nao escutaram a mensagem do Evangelho “ate o ultimo da terra”, unirao esforços com quem nao poderiam imaginarse trabalhando poucos anos atras. Por tudo isso, adoramos a Deus. Por outro lado, a dificuldade da tarefa de evangelizaçao aumentara. A resistencia dos movimentos nacionalistas e das filosofias pluralistas identificarao o missionario como “o inimigo cultural numero um”. O preço sera a rejeiçao e o martírio. As perseguiçoes sobre as igrejas minoritarias aumentarao. A unica consolaçao e saber que Deus 10

[close]

p. 11

utilizara este sofrimento para Sua gloria (Ap 6.9-11). Na oposiçao e no martírio, a missiologia e as bases teologicas em que se baseia renovarao seu compromisso com o Cristo do Novo Testamento e o compromisso que isso demanda. So assim se conseguira “fazer discípulos de todas as naçoes”. E frente a um inimigo desesperado, aumentara a quantidade e a qualidade de guerra espiritual para libertar as almas. Que o movimento missionario seguira em frente, nao ha duvida. Deus e o que se encarrega de ver que Sua palavra se cumpra. E foi Ele que nos assegurou que “Sera pregado este evangelho do reino em todo o mundo, em testemunho a todas as naçoes; e entao vira o fim”. Que o povo de Deus seja fiel a seu chamado e desenvolva seu compromisso voluntariamente com todas as vantagens tecnologicas que temos hoje, mas tambem com o sacrifício e o compromisso que demanda evangelizar nosso mundo turbulento. A Ele seja a gloria, a honra e o domínio para sempre. * * * Dr. Jonathan Lewis nasceu em 1949, filho de pais missionários em Buenos Aires, Argentina. Durante sua carreira profissional viveu e trabalhou em Honduras, Peru, México e Argentina. Jonathan está casado com Dawn por quase 35 anos e tem quatro filhos: Natanael, Heather, Josías e Anneliese. Traduzido por Sammis Reachers a partir de original em espanhol publicado pela COMIBAM (Cooperación Misionera Iberoamericana). Disponível em: el_perfil_del_misionero.pdf http://www.comibam.org/wp-content/uploads/2016/02/ H U Nate Owens www.thecreativefinder.co m/nateowens M O R & R E F L E X Ã O 11 Traduzido a partir de www.christianchallenge.org

[close]

p. 12

CHINA E BRASIL, BEM ALÉM DOS BRICS “O impacto da igreja chinesa para o cenário missionário global” Por Wellington Barbosa http://www.martureo.com.br/ Brasil e China são parte de um bloco econômico que agora está enfrentando algumas crises, os BRICS. Temos muitas similaridades e diferenças. Nesse artigo quero pensar como podemos aprender sobre a China, seu movimento econômico e missionário e tentar avaliar como podemos mudar nossos paradigmas. De 28 de setembro a 1 de outubro de 2015 aconteceu em Hong Kong a primeira Conferência Mission China 2030, que reuniu 900 líderes chineses continentais para pensarem e agirem sobre a missão. É impossível pensar sobre China, sem olhar o passado. Mais impossível ainda, no entanto, é olhar para o futuro missionário global sem a presença do grande dragão vermelho. Em 1949, os missionários estrangeiros foram expulsos da China sob a tutela do governo comunista. A igreja foi perseguida, muitos líderes foram presos, torturados e alguns migraram para países livres, onde pudessem exercer sua fé. A igreja na China nas décadas seguintes tornou-se uma igreja rural, com líderes leigos e perseguida. O ocidente orou, mobilizou e enviou centenas, possivelmente, até milhares de missionários. Estima-se que desde o pioneiro Robert Morrison até o início deste século a China tenha recebido aproximadamente 20.000 missionários transculturais. A igreja chinesa também tem passado por um ajuste expressivo nas duas últimas décadas, deixando cada vez mais de ser rural, liderada por idosos leigos e tornando-se urbana, com características marcantes apesar das dicotomias apresentadas em seu próprio contexto tais como: ruralidade e urbanização, falta de treinamento apropriado para as igrejas rurais onde há muitas seitas, uma geração de líderes jovens totalmente diferente de seus predecessores e cada vez menos perseguição por parte do governo. Fatores como estes nos fazem perceber que a igreja na China pode estar despontando para ser uma das maiores potências missionárias da história. Em 2013, um grupo de líderes chineses que não puderam participar do III Congresso do Movimento Lausanne na Cidade do Cabo, África do Sul, reuniram-se em Seul, na Coréia do Sul, e chegaram a conclusão de que a China está em dívida com o movimento missionário global pelo fato de já terem recebido 20.000 missionários. Assim, seu desejo é de que até 2030 possam enviar 20.000 chineses para os povos não-alcançados. Iniciativas heróicas como o “De Volta para Jerusalém” (Back To Jerusalem – BTJ) têm sido avaliadas pelos seus erros e acertos e a 12

[close]

p. 13

igreja chinesa começa a entender a necessidade de treinamento missionário apro priado e de um melhor cuidado missionário. No encontro ocorrido em setembro de 2015, dos 900 presentes, 200 dedicaram suas vidas para irem como as primícias destes que a igreja na China enviará. Qual lição a igreja brasileira pode tirar com a igreja chinesa? Seu DNA, sua perseverança e sua adaptação aos novos tempos e desafios nos fazem perceber que precisamos aprender com os nossos irmãos do outro lado do mundo. Apesar deles abertamente quererem absorver de nós brasileiros o modelo missionário que temos, e pedirem ajuda para os treinarmos, precisamos ainda avaliar e rever nossas próprias políticas missionárias. Os chineses, ávidos empreendedores e disciplinados para os estudos, conseguiram mudar a órbita de seu futuro. Ezra Jin, um cristão de meia idade, pastoreia uma das igrejas mais vibrantes da capital chinesa, Pequim, e diz que a única instância capaz de confrontar o comunismo na China é a igreja. “Dentro de 30 anos é inevitável que o governo abra sua política acerca do cristianismo na China” acredita. A igreja chinesa, assim como no mundo de negócios chinês, entendeu que a renovação na liderança seria a razão de sua sobrevivência nesse novo milênio. O perfil da liderança econômica assim como a eclesiástica na China são de jovens com menos de 40 anos de idade. As igrejas que antes eram domésticas, seguem crescendo em centros urbanos, entre imigrantes. Seus líderes já não são os antigos senhores carismáticos, mas jovens graduados no exterior, ou nas melhores escolas da China, homens de negócio, líderes na educação e instâncias da sociedade. É fato que a igreja na China cresce, mesmo em meio a sofrimento. Ainda há muitos desafios internos, mas eles têm conseguido entender seu papel global. Logo, deixo algumas considerações para pensarmos: – Por quê não vemos no Brasil, jovens líderes de expressão nacional abaixo dos 40 anos de idade? – Por que a liderança evangélica brasileira não consegue investir nos jovens? – Por que o movimento missionário brasileiro ainda é em sua maioria liderado por homens e mulheres que não passam o bastão? – E por que, com uma igreja tão grande, enviamos tão pouco aos campos missionários? Daquele encontro, 200 se comprometeram a irem aos campos. Quando pensamos em nossa igreja brasileira, temos muito mais a aprender do que a ensinar. Que aprendamos com nossos irmãos e irmãs chineses. 13

[close]

p. 14

Wellington Barbosa – brasileiro, serviu por 5 anos na Ásia, bacharel em teologia, pós-graduado em Antropologia Cultural e Estudos da Missão e Mestrado em Gerenciamento e Marketing pela UKSW, Indonésia. É consultor de novas frentes missiológicas na Missão Kairós. Notas De acordo com o Seoul Commitment (compromisso de Seul), publicado pelo encontro da ACLF, que aconteceu na Coreia do Sul, em 2013. JIN, Daniel. Mission China Today Magazine,, Páginas 34-36, Junho 2013 3. Conforme relato do Dr. Jeferson Chagas, representante brasileiro e um dos palestrantes no Mission China 2030. JIN, Ezra. A Landmark Encounter the significante of the aclf for the church in China . Disponível em https://www.lausanne.org/content/lga/2013-11/a-landmarkencounter-the-significance-of-the-aclf-for-the-church-in-china. Acesso 25/11/2015 LAUSANNE MOVEMENT, Inaugural Mission China 2030 Conference. Disponível em:https://www.lausanne.org/news-releases/inaugural-mission-china-2030conference. Acesso em 25/11/2015 __________________________________________________________________________ em DOIS SEGREDOS DA CONTEXTUALIZAÇÃO (FILIPENSES 2:1-18) Por Barbara Helen Burns http://preparomissionario.com.br/ Paulo escreve para a igreja de Filipos com o forte desejo de ver os membros vivendo como fiéis testemunhas do Senhor Jesus Cristo. Os crentes deviam ser “luzeiros”, vivendo de forma “irrepreensível”, “sincera” e “inculpável”, no meio de uma “geração pervertida e corrupta” (v. 15). Com esta descrição pesada, o contexto da igreja é condenado como proibido para ela. Não há nenhum elogio ou instrução de identificação com o mundo que a cerca. A igreja tem que ser diferente, um contraste marcante contra a opressão, a sensualidade, as brigas, a escuridão espiritual, o egoísmo e a destruição que marcava o cotidiano da cidade. Contextualização para os crentes em Filipos era viver Cristo de forma evidente e agradável, como luzes na escuridão. Essencial para ser luz são o amor e a unidade. Em vez de egoísmo, deviam se preocupar com e servir ao outro. Deviam ter compaixão, afetos e misericórdias, tendo o mesmo sentimento, o mesmo amor e a mesma alma (vss 1-4). É ex14

[close]

p. 15

cluído a “luta pelo poder”, a necessidade de receber reconhecimento, os ciúmes e a exclusão. A igreja tinha que ser diferente do seu contexto, visívelmente superior, refletindo a glória de Deus como se fosse estrela refletindo a luz do sol. Para tanto há dois segredos: HUMILDADE e a PALAVRA DA VIDA. Jesus é o primeiro exemplo de humildade e da importância da Palavra. No sentido de humildade, Jesus abriu mão de todos os Seus direitos. Sendo Deus, se tornou homem e, em obediência ao Pai, se submeteu à morte da cruz, a mais degradante e penosa morte possível. A identificação era profunda, no sentido de compartilhar a vida cotidiana, da comunicação eficaz e do sacrifício em favor dos outros. Jesus é servo do Pai e servo dos homens e mulheres que Ele veio salvar. Jesus também é exemplo da importância da Palavra da Vida. Constantemente Ele a ensinava e, no final, exortava Seus discípulos a levar pessoas até aos confins da terra a guardar com fidelidade a tudo que Ele dizia (Mt 28:18-20). Paulo usa Jesus como exemplo a ser seguido (Fp 2:5) e ele próprio exibe estes mesmos dois segredos, no fato que ele implora para eles a serem fiéis a Palavra (v. 16) que ele tinha ensinado, e a ele mesmo não importa ser oferecido como libação (v. 17) em favor deles, atitude de extrema humildade. Sem humildade e sem a Palavra a igreja não consegue ser fiel, nem luz. A contextualização da igreja se torna uma coisa insípida, sem limites e sem critérios. O contexto sufoca a luz, a igreja imita o mundo e os crentes se tornam iguais as pessoas ao seu redor. Na igreja de Filipos tinha grande possibilidade disso acontecer, devido a força da cultura romana pagã e a grande diversidade de pessoas dentro dela, como a mulher rica, carcereiro, jovem que tinha sido endemoninhada, escravos, servos e filhos (Atos 16:11-40), que poderia a ter fraturado e lhe tirado a luz. No entanto, com humildade e com a Palavra, ela enfrentou os desafios do seu mundo em submissão a Deus e a Sua vontade. Nós também devemos ser diferentes e mostrar Deus através das nossas vidas e através da vida da comunidade cristã. Contextualização cristã é isso – levar a mensagem relevante da Palavra de Deus ao mundo que sem ela perece. Em amor e espírito de servo, é importar com o outro dentro da igreja e com o outro que ainda não conhece a verdade da Palavra. Bárbara Helen Burns A norte-americana Bárbara é radicada no Brasil há mais de 40 anos, servindo nas áreas de despertamento, preparo e envio de missionários transculturais. Tem mestrado em missões do Denver Seminary em Colorado, EUA, e doutorado em missões do Trinity Evangelical Divinity School em Chicago. Barbara tem participado da Comissão de Missões da Aliança Evangélica Mundial, ajudado na produção de livros, escrito vários artigos e capítulos de livros, e ajudado no planejamento de congressos missionários, como COMIBAM, os Congressos Brasileiros de Missões e o 1º Congresso Nordestino de Missões em Caruaru, 2002. Ela foi fundadora (1984) e depois Secretária Executiva da APMB (Associação de Professores de Missões no Brasil) entre 1992 e 1999, quando saiu de São Paulo). 15

[close]

Comments

no comments yet