AMPLITUDE - Revista Cristã de Literatura e Artes - #2

 

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Revista de literatura e artes de caráter cristão, em sua segunda edição.

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AMPLITUDE Número 02 — Fevereiro 2016 Poeta em Destaque: Júlia Lemos E MAIS: Cinema - Fotografia - Música - HQ 1

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AMPLITUDE é uma revista de cultura evangélica, com foco principal em ficção e poesia. Mas nosso leitmotiv, nosso motivo de ser e de existir, é a arte cristã em geral: Transitamos por música, cinema, fotografia, artes plásticas e quadrinhos. Publicamos artigos, estudos literários, crônicas e resenhas. Nossa intenção diz respeito àquela despretensiosa excelência dos humildes. Nosso porto de partida e porto de chegada é Cristo. Nosso objetivo é fomentar a reflexão e a expressão, AMPLIAR visões, entreter com valores cristãos, comunicar a verdade e o belo e estimular o engajamento artístico/ intelectual entre nossos irmãos. Nosso preço é nenhum: a revista circula gratuitamente, no democrático formato pdf. COLABORE: SUMÁRIO Revista Amplitude - Número 02 - Fev 2016 Editorial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . 03 Poesia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .04 Conto: O canto do sabiá preto / Lindolfo Weingärtner . . . . . .05 Luminares / Joana Cristina . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .10 Cinema: 3º Festival Nacional de Cinema Cristão . . . . . . . . . . . . 08 Conto: A Morte da Encrenqueira / Judson Canto . . . . . . . . . . .11 Jardim dos Clássicos / Eça de Queirós . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .12 Crônica / Max Lucado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .17 Conto: O Poeta do Salmo Exilado / J.T.Parreira . . . . . . . . . . . . . 18 Poeta em Destaque / Julia Lemos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21 Poesia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23 Conto: A Troca / Joed Venturini . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .24 Galeria / Lya Alves . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .30 Conto: A Matilha Fantasma / Sammis Reachers . . . . . . . . . . . . 32 Notas Culturais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .37 Cinema / 3º Festival Nacional de Cinema Cristão . . . . . . . . . . . 38 Conto: O Hóspede / Florbela Ribeiro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 39 Luminares / Helena Branco . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .40 Conto: O Menino / Myrtes Mathias . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .41 Hot Spots: Ramon Llull (Lúlio) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .44 Poesia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 46 Especial / Estêvão para tempos de perseguição . . . . . . . . . . . . 47 Resenhas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 50 Luminares / Camilo Borges Júnior . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .52 Crônicas / Chris Amag & Rofa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .53 Álbum / William Rosa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .54 HQs . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 55 Parlatorium . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .56 CAPA: He Qi, Calling Disciple (Jesus chamando os discípulos) - trecho. He Qi é um artista cristão chinês que tem feito um trabalho assaz singular, e gentilmente cedeu sua obra para ilustrar a capa de AMPLITUDE. Conheça mais do trabalho do autor: http://www.heqiart.com Será uma felicidade ter você como um colaborador de AMPLITUDE. Envie-nos seu material para avaliação (conto, crônica, artigo, estudo literário, trabalho em artes plásticas ou fotografia artística, resenha ou crítica de filmes, livros ficcionais ou poéticos e (boa, per favore) música cristã/evangélica, JUNTAMENTE com breve biografia. Envie também notícias sobre eventos artísticos, lançamento de livros e quaisquer notas culturais envolvendo arte/artistas evangélicos que você julgar relevantes. E escreva-nos ainda para prosear, indagar, criticar, elogiar... Nossos e-mails: revistaamplitude@gmail.com sammisreachers@ig.com.br Facebook: www.facebook.com/RevistaAmplitude Blog: www.revistaamplitude.blogspot.com.br Editor: Sammis Reachers 2

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Editorial É com felicidade que apresentamos o segundo número de AMPLITUDE. Durante estes seis meses de espera ou gestação desta segunda edição, pudemos auferir a boa recepção que a nossa primeira edição obteve entre autores e leitores. Isso nos incentiva a avançarmos na jornada, cientes da seriedade e importância da iniciativa de reunir em revista, o melhor da produção literária poética e ficcional, além de outras expressões artísticas levadas a cabo por cristãos protestantes e de outras filiações. Vamos ao panorama da edição: Na seção Hot Spots, a sapiência de um dos maiores nomes da mística cristã, Ramon Llull (Raimundo Lúlio). Em Galeria, a obra da pastora, artista plástica, grafiteira, quadrinista e ativista cultural Lya Alves. Na seção Cinema, destacamos a realização da terceira edição do Festival Nacional de Cinema Cristão. Esta edição chega inaugurando diversas novas seções. Uma delas é Poeta em Detaque, iniciando com a obra da pernambucana Júlia Lemos. Inaugurando a nossa seção Especial, de enfoque temático, temos como mote Estêvão para tempos de perseguição, uma mini-antologia reunindo as percepções de seis excelentes poetas acerca de nosso protomártir, sobre quem nos é oportuno refletir em tempos de recrudescimento das perseguições aos cristãos ao redor do globo. E as artes visuais ganharam ainda mais destaque: além da já citada seção Galeria, e de HQ (História em Quadrinhos), inauguramos mais uma seção, Luminares, destacando, em singelas inserções, a pintura, ilustração ou desenho de nossos concidadãos de Reino. E a Fotografia chega com força na seção Álbum, abrindo as portas com a obra de William Rosa. Os contos, como diria meu pai, estão de lascar: Iniciamos com Eça de Queiroz, na seção Jardim dos Clássicos, apresentando o conto O Suave Milagre. Seguimos com o humor e a precisão de Judson Canto (A Morte da Encrenqueira); a dramaticidade soberba de J.T.Parreira (O Poeta do Salmo Exilado); Florbela Ribeiro relatando (em O Hóspede) sobre o príncipe que tinha por norma se hospedar junto aos pobres; Lindolfo Weingärtner num conto terno e luminoso (O canto do sabiá preto); Joed Venturini com o impactante & metafísico A Troca; este vosso humilde escriba, num conto de terror(!?), A Matilha Fantasma; e concluímos com nossa saudosa e maravilhosa Myrtes Mathias, num conto com um toque arrebatador (O Menino). Queridos trinta leitores, agora uma nota triste: havia idealizado a periodicidade da revista para semestral, mas percebo agora que infelizmente não poderei manter tal ritmo. Não que o trabalho seja tanto (mesmo que seja! Rsrs), embora eu faça aqui tudo sozinho, mas o fato se dá em virtude de meu pouco tempo. Retomei estudos universitários, e, junto ao trabalho secular e minhas outras iniciativas, das quais não posso abrir mão, percebo que o tempo de seis meses não é suficiente, ao menos nesse momento de minha vida, para dar conta de uma publicação desta magnitude. Portanto, fica em aberto, até palavra em contrário, a periodicidade de AMPLITUDE. Lembrando: a revista não acabará; apenas terá expandido seu período de gravidez. E aproveitando o ensejo, não deixem de orar por nosso bebê! E, como sempre, paz e bem e uma boa leitura! Sammis Reachers, editor Nota: Tenho buscado, nas seções de contos e poesia, efetuar um rodízio de autores. Assim, temos nesta edição em sua grande maioria autores não publicados na edição anterior. Com isso buscamos dar voz a tantos quanto possível, e apresentar aos leitores sempre um melhor panorama da grande e boa produção de nossos irmãos. 3

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OFEREÇO A MINHA MORTE J.T.Parreira Ofereço a minha morte. Levanto O meu sangue no silencio das feridas. As maos abrem-se rasgadas, sao duas Cartas abertas de amor. Um horizonte, o meu lado esquerdo Abre-se para o voo do meu coraçao Abandonado por Deus, ofereço a minha morte Serei retirado da cruz por maos amorosas. Prenda Karla Waters Das entranhas As estranhas Dos meus labios Para os teus No ventre De minh'alma É que a poesia Se concebeu NÔVO ! Helena Branco o som trazia abs(traído)...harpeando luz a lagrimas na vidraça o ANO começa... perpassa... rendilhando suspiros consumindo notas breves d alaude ritmo insondavel batuta esgrimida d promessa comovida por STRAUSS ! Das cortinas Dos meus veus Da materia uterina Ate os ceus Éis que a palavra surge Vindo de outra alma ruge Se encontra em minha casa É dentro dela cria asa O poema enfim nasceu Vindo de gritos e dores Contudo, cheio de esplendores danço em pontas e tules a esbelteza no espaço abraçada pela cintura o tempo escreve...avida a rosa perfumada e o AMOR que...murmura A VIDA! Escuro vale Patrícia Costa COM DEUS Alfredo Pérez Alencart (Espanha) Aberto estou, Deus, ao teu relampago eterno, pregado ao chao onde escuto um rouxinol que canta quando me estendo sobre a Cruz! Nem ao crepusculo se me quebra a esperança, tributaria duma carne que rangeu tao longe para nos amparar com a sua altíssima ternura. Assim, tu, eu, bem aventurados do milagre na chave profetica, espelhos duma aliança habil em redençoes sob sois escuros! Subita liberdade para voltar ao ponto de partida! Liberdade para desordenar-me entre a luz onde decerto treme a sua Voz! Rasga a noite, Deus, e muda-me de planeta! Tradução: António Salvado Éscuro vale este onde o medo quer ser companhia e o descredito busca titubear a fe Das Tuas maos o amparo a certeza e o cuidado de ser refugio e fortaleza que ha de guiar meus olhos meu corpo meus pes quando tudo parecer contrario. 4

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O canto do sabiá preto Lindolfo Weingärtner O asilo ainda fora construído no tempo em que se pensava que pessoas idosas, para se sentirem bem, antes de tudo precisavam de ar fresco e de natureza nao poluída. So mais tarde se havia descoberto que o maior inimigo de gente velha era a solidao. Mas tal inimigo, como se sabe, nao poupa nem mesmo os asilos situados em meio ao turbilhao dos centros urbanos. Éle nao olha classe social, rico ou pobre, gente culta ou inculta. Tambem nao olha homem ou mulher, apesar de que muitos (em sua maioria, homens) afirmem ser mais facil para as mulheres lidar com a solidao do que para seus parceiros masculinos. Infelizmente nao existe nenhum aparelho com o qual se pudesse medir o grau de solidao sentido por uma pessoa, a nao ser que classifiquemos um coraçao grande e amoroso de aparelho, coisa de que Deus nos queira preservar. O asilo que nestas paginas vamos apresentar ao leitor estava situado distante da cidade, em meio a montanhas e colinas cobertas de matas, e com vista a verdes vales, pontilhados de campos e lavouras vicejantes. Viviam na instituiçao cerca de 120 idosos, e nenhum deles carecia de coisa alguma que se tem por essencial na vida das pessoas. A associaçao que administrava o asilo nao poupava esforços para que os seus velhinhos nao sofressem nenhuma carencia e para que tambem pudessem ser recebidos na casa nao poucos que eram incapazes de pagar as mensalidades vigentes. Como era que os asilados conviviam com a solidao? Bem, essa e uma pergunta a parte, que por enquanto ternos que deixar sem resposta. Ja que nosso asilo era uma instituiçao da igreja, vinha sendo dirigido por um pastor, que cuidava de seu rebanho tanto na area física como na espiritual. Os velhos que adoeciam, nao precisavam ser deslocados para o distante hospital, eles eram tratados na propria casa, na proximidade de seu cura d'almas habitual; eles ficavam sob os cuidados de um medico, que atendia o asilo uma vez por semana, e quando alguem falecia, era sepultado no cemiterio do asilo. O cemiterio fazia parte do dia-a-dia dos inquilinos, e a maior parte deles tinha feito as pazes com o campo-santo. Sabiam que, quando eles proprios morressem, permaneceriam perto do lugar onde tinham passado seus ultimos anos de vida, e esse nao deixava de ser um pensamento confortante. Todas as pessoas, ao chegarem a velhice, aprendem, de certo modo, a viver como vizinhos da morte. Alguns conseguem estabelecer uma vizinhança pacífica, outros nao gostam de ser lembrados do termino de seus dias, em especial, quando o fim se aproxima a olhos vistos. Ém nosso asilo nao era so a proximidade do cemiterio que constantemente lembrava os velhinhos da morte. Éra a situaçao elementar dos septuagenarios e octogenarios que os lembrava dela, pois seguidamente viam alguem sendo arrancado de seu meio, que nao deixava nada a nao ser um lugar vazio no refeitorio. Raros eram os meses em que ao menos um dos asilados nao viesse a ser carregado para o campo-santo. É quando acontecia que num período de um ou dois meses nao falecia ninguem, poderia ter a certeza de que o sino da capela dobraria duas ou tres vezes seguidas no mes seguinte. Com batidas compassadas e solenes ele revelaria que 5

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mais uma vez alguem tinha ido embora que por muito tempo convivera com a pequena comunidade. Provavelmente cada um dos velhinhos, bem no fundo do coraçao, se perguntava: Quando chegara o dia em que o sino vai dobrar para mim? Ontem o sino anunciara a morte da velha Irmingard. Aqui ainda vivia gente com nomes como o dela, nomes arcaicos e solenes, sem a marca de modismos modernos. Havia mulheres chamadas de Irmingard, ou de Clotilde, havia homens chamados de Fridolino ou Teofilo, naturalmente alem dos que, conforme uso da terra, se chamavam Maria, Jose, Dulce ou Giacomo, dependendo do lugar onde o destino colocara o seu berço. Nao raras vezes, aqueles que tinham tais nomes antigos eram pessoas bem especiais, que liam livros de conteudo nada corriqueiro, versadas em assuntos que nao costumavam aparecer nas paginas das revistas e nos programas de televisao. Irmingard tinha sido uma pessoa assim. Tivera uma vida nada facil. Ém sua comunidade de origem, pela maior parte de sua vida adulta ela servira como organista, e ela nao so amara a musica e os cantos, mas tambem as pessoas que tocavam e cantavam, principalmente as crianças, que ela havia reunido ao seu redor para lhes ensinar a cantar e a tocar violao e flauta doce. A nao poucos dos pequenos ela tambem ensinara a viver. Sim, uma pessoa assim tinha sido a velha Irmingard. Aos quarenta anos, ela casara com um viuvo, pai de quatro filhos. Nao tivera filhos proprios, e quando o seu marido, poucos anos depois do casamento, chegara a falecer, ela educara os filhos dele com dedicaçao e com amor, fato de que os filhos, agora adultos, jamais poderiam esquecer-se, como nao deixavam de assegurar, sempre que a visitavam no asilo. Mas nao esquecer e uma coisa, e retribuir amor com amor e outra. Acontecera o que em nossos tempos parece ser a coisa mais natural do mundo: os filhos tinham casado, tinham ido para outras cidades, todo mundo na família trabalhava ou estudava, e em seus apartamentos simplesmente nao havia lugar para uma mulher velha e necessitada de cuidados, mesmo uma mulher como Irmingard, que com seu coraçao carinhoso era capaz de gerar e de repartir amor, nao so de retribuir o amor de outros. Assim Irmingard afinal chegara ao asilo, depois de se convencer de que por causa de seu diabetes nao poderia mais ficar sozinha em sua propria casinha. Tinha sido realmente a melhor soluçao para ela. Ja um ano antes de sua mudança para o ancionato lhe haviam amputado uma perna, e, anos mais tarde, os medicos tiveram que cortar-lhe a outra tambem. Irmingard de começo se revoltara contra esta segunda amputaçao, dissera que preferia antes morrer, do que aceitar ser mutilada daquele jeito. Tinha passado por uma luta dura antes de finalmente concordar com a operaçao. Ja que nao podia mais sentar na cadeira de rodas, ela tivera de passar os ultimos anos deitada em seu leito, totalmente dependente de outras pessoas. Sendo pequena e de figura franzina, as atendentes a carregavam nos braços como se fosse uma criancinha, sempre que a tinham de mover do seu lugar. Ém seus ultimos anos de vida ela nao deveria ter pesado mais de 35 quilos, um feixe de sofrimento e de miseria humana. Irmingard era uma mulher crente, por isso ela nao acusava a Deus por sua sorte. Mas por vezes ela se admirava das ordenanças e dos caminhos do Senhor. Éla conhecera tempos de luta, tempos de duvidas ferozes, em que sua fe parecera um mero pavio fumegante, ameaçado de se extinguir a cada momento. Mas ela nao acreditava em sua fe, ela cria no Deus que faz nascer fe e certeza, em meio a duvidas e desespero. Irmingard tinha um segredo. Éla aprendera a extrair paz e alegria íntimas nao da propria situaçao e dos proprios sentimen6

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tos, mas sim, das promissoes de Deus. É os outros velhinhos sentiam aquele segredo dela, e eles vinham ao seu leito, silenciavam com ela, ou conversavam com ela sobre a vida deles. Irmingard sabia ouvir, calada, e ela tambem sabia falar no devido tempo, e havia muitos que tinham encontrado conforto e novo animo junto ao leito dela. Mesmo Fridolino, que conhecia a Bíblia como poucos, gostava de sentar junto a cama de Irmingard, falando-lhe das descobertas que fizera nos livros do Novo e do Antigo Testamento. Irmingard gostava de ouvilo, se bem que ela nem sempre compartilhava suas opinioes e interpretaçoes. Para ela, a Bíblia indicava a direçao em que andar, nao a considerava um caminho ladeado de indicaçoes e prescriçoes que mantinham o cristao na linha. A Éscritura era um curso de fe e de vida, que Deus mandara escrever, nao uma coleçao de dogmas e doutrinas infalíveis. Mas a fundo os dois se entendiam muito bem, e o velho Fridolino, depois de uma de suas conversas com Irmingard, sempre costumava ser um pouco mais tratavel e mais cordial. O dirigente do asilo bem sabia que Irmingard era a confessora secreta da casa, e nao raras vezes encaminhava para ela homens ou mulheres que tinham problemas com os familiares ou que tinham começado a retrair-se em si mesmos, acometidos de depressoes, coisa propria da velhice. Éle nao ignorava que em muitos casos a mulherzinha com aquele corpo mutilado sabia ajudar as pessoas melhor do que ele proprio. De começo constatamos que o maior inimigo de gente idosa costuma ser a solidao. Isso tambem era o caso em nosso asilo, e nao era so pelo fato de ele estar situado distante da cidade, e rodeado de lavouras e campos. As fontes amargas da solidao em realidade brotam dos abismos do coraçao humano, e quando neles sobe o lençol das aguas da tristeza, elas sao capazes de aflorar a superfície, revelando um mar de soli- dao, mesmo em meio a gente alegre. Éste mar, constantemente alimentado por fontes secretas, e capaz de afogar qualquer alegria com suas aguas amargas. So depois da morte de Irmingard alguns dos velhinhos e do pessoal do asilo se deram conta de que na presença dela eles jamais se tinham sentido solitarios. Ninguem poderia dizer precisamente por que tinha sido assim. Devia ter sido o segredo dela. Ja que ela tinha Deus por fonte de vida e de esperança, ja que nao vivia de seus proprios recursos, ela tinha recebido do seu Criador o dom de poder abrir seu coraçao para outros, e com isto conseguia tambem que os outros lhe abrissem o proprio coraçao. Ate o fim de sua vida ela tivera a capacidade de amar as pessoas e de compartilhar da vida delas. Agora Irmingard tinha falecido, e ela deveria ser sepultada no cemiterio do asilo, a tarde do dia apos a sua morte. Tudo que os humanos costumam fazer numa ocasiao destas, tinha sido feito. O corpo murcho e mutilado de Irmingard tinha sido lavado, seus cabelos ralos foram penteados e ajustados, e tinham lhe botado o melhor de seus vestidos. Assim ela estava deitada em seu esquife, seu rostinho estreito emoldurado por flores multicoloridas, e mesmo os que viviam familiarizados com a morte, sentiam, mais que em outros casos, uma grande tristeza, e algo como uma incredula estranhes perante o fato de ela nao se encontrar mais em seu meio. Énfermeiras e atendentes tinham enchido a parte inferior do esquife com crisantemos brancos, assim que nao caía em vista que no corpo da falecida, no lugar das pernas, havia um espaço vazio. No cemiterio o coveiro tinha preparado para ela uma das sepulturas ja escavadas de antemao, e havia urna profusao de flores e coroas destinadas a enfeitar seu ultimo lugar de repouso. Filhos e netos, mais alguns conhecidos de sua cidade, tinham comparecido, e tudo deveria seguir o ritual costumeiro. 7

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Mas Deus tinha resolvido dar um ar festivo ao dia em que iria ser sepultada sua serva Irmingard. Por isso ele havia ordenado que a hora do sepultamento se formasse urna tempestade sobre o vale, com relampagos e estrondos de trovao, acompanhados de cortinas de chuva fustigadas pela ventania. Assim o feretro, que seguiria da capela ao cemiterio, chegou a atrasar-se por um bom tempo. Éra tradiçao no asilo, o pastor, por ocasiao de um sepultamento, fazer a alocuçao funebre no cemiterio, nao na capela, e os velhinhos apreciavam a pratica, ja que lhes ajudava a suportar o silencio pesado do paradouro dos mortos. Assim, jovens e velhos se haviam reunido na parte superior do cemiterio, enchendo os estreitos espaços entre os jazigos, os olhares dirigidos para o vale, enquanto o pastor se tinha posicionado na parte inferior, com o rosto voltado para o distante cerro, atras do qual o sol ja ia desaparecendo. Quando, apos o hino inicial e a leitura de um trecho da Bíblia, o pastor iniciou sua alocuçao, repentinamente toda a paisagem parecia mergulhar num brilho irreal. Ainda pairava um paredao escuro de nuvens sobre o vale, mas do meio do paredao ia surgindo um esplendor, que lentamente se transformava num magnífico arco-íris. Éra um arco festivo, cujo brilho aumentava a olhos vistos, assim que se vinha refletindo mais e mais nos rostos dos presentes. O pregador estava de costas voltadas para o vale, portanto nada enxergava do maravilhoso esplendor. Verdade, ele via o brilho refletido nos rostos dos presentes, mas nao sabia como explica-lo. Assim ele continuou comentando a palavra do apostolo Paulo constante no oitavo capítulo da Épístola aos Romanos - que os sofrimentos deste tempo nao sao para comparar a gloria que nos devera ser revelada no reino de Deus. Para a comunidade, em sua maioria composta de idosos, poderia parecer coisa muito logica o pregador falar sobre os sofri- mentos deste tempo. Cada um dos velhinhos tinha seu historico de sofrimentos que a vida lhe impusera. É muitos viviam de coraçao machucado, e havia feridas do passado que continuavam sangrando secretamente. Nao, nao se podia varrer as coisas doídas da vida para debaixo do tapete, ao querer falar da gloria a ser revelada. Assim o pregador falou do sofrimento da falecida, descreveu sua vida, lembrou seu serviço e enalteceu sua fidelidade. Sim, ela tivera de provar os sofrimentos desta vida, fora obrigada a esvaziar ate o fundo o calice da dor. A vontade inescrutavel de Deus era essa: justamente as pessoas de fe eram marcadas por contratempos e sofrimentos. Éla, cujos pes por tantos anos tinham acionado os pedais do harmonio e do orgao de sua igreja, para dar gloria a Deus, ela fora obrigada a amputar ambas as pernas. Justamente ela, que tanto gostara de lidar com crianças e jovens alegres, tivera de findar os seus dias enferma, em meio a outras pessoas enfermas e idosas. Os caminhos de Deus para com os humanos eram verdadeiramente inescrutaveis. No momento em que o pregador mencionara as pernas amputadas de Irmingard, o arco-íris tinha intensificado o seu brilho; e começara a espelhar-se nas nuvens, assim que aos poucos se ia formando um arco duplo, fenomeno como que sobrenatural, que poucas pessoas tem oportunidade de ver no decorrer de sua vida. Ja que o sol acabara de desaparecer por detras do cerro, o vale aos poucos mergulhara na sombra; mas agora a paisagem toda começara a resplandecer com um brilho que nao parecia desta terra. O pregador sentia a comoçao dos presentes. Via como os rostos familiares haviam mudado, assim como se diante deles ja nao se viesse desdobrando um ritual religioso, mas como se lhes estivesse ocorrendo algo de novo e maravilhoso, que os arrebatava de seu dia-a-dia. O pastor, porem, continuava falando dos 8

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sofrimentos deste tempo. Éle nao poderia mudar o escopo de sua pregaçao, so porque os rostos do pessoal pareciam espelhar comoçao e admiraçao. Éle parecia perturbado, sim, pelo fato de os presentes, pelo que parecia, ja terem antecipado a segunda parte de seu sermao, antes que ele tivesse falado uma palavra sequer da gloria que em nos devera ser revelada. Por alguns momentos, admirado da comoçao refletida nos rostos dos velhinhos, o pregador chegou a silenciar. Foi aí que uma voz quebrou o silencio: "Pastor, olhe para suas costas, olhe para o ceu — O Sinal da Aliança!" Éra Fridolino, que ousara interromper o solene ritual, apontando para o espetaculo celeste. O pastor, em sua convivencia com os velhinhos, se acostumara a muitas esquisitices e atitudes excentricas proprias de gente idosa, assim atendeu o pedido de Fridolino olhando na direçao indicada. É entao tambem ele passou a ver a gloria. É se deu conta de que o proprio Deus havia assumido a parte do seu sermao que tratava da gloria a ser revelada em nos. Assim ele limitou-se a dizer: "Sim, Fridolino tem razao. O Sinal da Aliança." É assim aconteceu que, na hora do sepultamento de Irmingard, pastor e comunidade quedavam-se em silencio, ao lado da sepultura aberta, abrindo-se ao fulgor que irradiava do arco da aliança de Deus. É enquanto paravam, silenciosos, bem de manso, do beirado da floresta proxima, começou a trinar um sabia preto. Éle cantava como que de voz contida, assim como os sabias pretos costumam cantar ao luscofusco do dia. Cantou por uns dois minutos, e quando enfim silenciou, igualmente o arcoíris foi perdendo o seu fulgor. Ao fim, o pastor voltou a encarar a comunidade. Falou da esperança dos que adormeceram em Cristo Jesus, falou da gloria da vida eterna — e tudo correu segundo a ordem costumeira. O esquife foi baixado a sepultura: Terra a terra, cinza a cinza e po ao po. Semeia-se um corpo corruptível, ressuscitara um corpo espiritual. Juntos, finalmente, todos oraram a oraçao do Senhor, e depois foram despedidos com a costumeira bençao. A maior parte dos velhos voltara ao asilo, logo apos a cerimonia. So ao redor de Fridolino se havia formado um grupo que se envolvera numa discussao com ele. Fridolino insistia que o arco-íris tinha sido um sinal de Deus; o proprio pastor o tinha confirmado. É vinha escrito na Bíblia: Deus havia colocado o arco no ceu, apos o diluvio, para que servisse de eterno sinal da aliança estabelecida entre Éle e os humanos. Mas ele nao admitia que tambem o canto do sabia era parte desta aliança. Nada se encontrava na Sagrada Éscritura a respeito de aves que tinham a tarefa de dar recados aos humanos atraves de seu canto. A pomba que carregara no bico a folha de oliveira, nao havia arrulhado nada para Noe, o corvo que havia trazido pao e carne a Élias, na margem do arroio de Querite, nao havia grasnado nenhuma mensagem para o profeta. Seu serviço fora mudo. Deus nao falava atraves de passarinhos, e o canto deles nao tinha nenhum significado para nos. Um dos circunstantes alegava que o galo, que, afinal, tambem era ave, por certo tivera um recado a dar a Pedro, na noite em que este negara a seu Mestre. Mas Fridolino nao se deu por achado. O galo tinha cantado, mas era hora de ele cantar de qualquer jeito, ele nem sabia porque estava cantando e que seu canto poderia ter um significado pala Pedro. A gente facilmente se tornava vítima de fantasias, ao querer dar as coisas da natureza uma interpretaçao espiritual. Alguns do grupo nao concordavam com ele, mas ninguem costumava argumentar com o velho Fridolino sobre questoes que envolviam a Bíblia, e assim sua opiniao prevaleceu. Mas por ocasiao da janta, Fridolino se mantivera calado, como que contrariado, e 9

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quando todos abandonaram o refeitorio, ele reteve alguns de seus amigos, com os quais havia discutido pouco antes no cemiterio, e humildemente lhes pediu perdao. Éle se havia enganado. O sabia fora mensageiro de Deus, sim. Éle havia conferido na Bíblia; constava no Salmo 148, com toda clareza: Éntre feras, gados e repteis estavam tambem os volateis, isto e, os passarinhos - todos sendo convocados para louvarem a Deus. É aí o sabia preto nao podia ficar de fora. É como ele poderia louvar a Deus, a nao ser com seu canto? É talvez em realidade o canto do sabia tinha uma coisa a ver com o fato de a falecida Irmingard ter tocado e cantado para a gloria de Deus, enquanto ainda fora capaz de faze-lo. É tambem constava no Salmo 148 que os velhos junto com os jovens deviam louvar a Deus, e que isto era uma coisa que Irmingard sempre havia falado, e por- tanto era um recado bem pessoal de Deus para todos eles. Éu penso que poderemos concordar com o velho Fridolino, aceitando sua interpretaçao da Éscritura tambem em nossa propria vida. É talvez que nesta interpretaçao se revele o mais profundo segredo de Irmingard: o louvor a Deus havia secado em seu coraçao aquela fonte amarga da qual se alimenta a solidao humana, fazendo nascer em seu lugar a vertente vivificante do amor. Com isso sua propria vida, e a vida de muitas outras pessoas, tinham sido transformadas. Lindolfo Weingärtner nasceu em 1923 em Águas Mornas - SC. É pastor luterano, professor, escritor e poeta. Possui 27 livros publicados, dentre os quais O Canto do Sabiá e outros contos cristãos (Blumenau: Gráfica e Editora Otto Kuhr, 2003), de onde retiramos o presente texto. L U M I N A R E S “Aslam”, de Joana Cristina. Conheça mais AQUI. 10

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dose de maldade, comentou que ela havia morrido de ansiedade por nao conseguir Judson Canto colocar as fofocas e murmuraçoes em dia. A notícia de sua morte se espalhou, e Sabe a irma encrenqueira, aquela infatigavel promotora de confusoes na igreja, que gente de toda a cidade, em numero suficienpode ser definida como o friozinho na espi- te para encher a arca de Noe, vítimas de suas intrigas, correu para a igreja, espremennha do pastor ou a dor de dente do-se nos bancos e corredores da congregaçao? Éssa era Porfíem silenciosa confraternizaçao. ria, talvez o equivalente a muiAlguns, desconfiados da sorte, tos tratamentos de canal. beliscavam disfarçadamente o — Mas ela era tao terrível cadaver, para ver se ela nao esassim? tava fingindo. Depois se beliscaO diacono Padilha, que revam para ver se nao estavam sopassava a um novo convertido nhando. curioso a biografia da encrenA Morte da Encrenqueira queira, balançou a cabeça confirmando. Éle proprio fora uma das vítimas daquela língua muitas vezes comparada a uma víbora, so que — todos concordavam — mais venenosa. Éla havia cismado que fora ele quem lhe dera o apelido de Morte na Panela, e nao poupava o coitado. Se ele se demorava um pouco mais no cumprimento a uma mulher, ela puxava alguem pelo braço e cochichava: “Ja vi esse filme…”. Se ele abraçava um velho amigo com maior efusao, ela comentava: “Nao sei nao…”. — Éla costumava encarar a pessoa bem de perto, e entao começava a falar mal de alguem, sempre repetindo: “Nao acha que eu tenho razao?”. É a pessoa que nao concordasse! — acrescentou o diacono Padilha, explicando o principal metodo da fofoqueira. — Depois ela procurava o irmao ou irma de quem havia falado mal e dizia quem inventara aquelas coisas fora a outra pessoa. Porque, se voce concordava, e como se tambem tivesse dito, nao e? — Nao posso imaginar nada pior. — Pois imagine. Éla tinha mau halito. O diacono Padilha e o novo convertido estavam conversando no velorio de Porfíria. Sim, ela adoecera meses antes. É, depois uma subita melhora, ate voltara a frequentar os cultos, porem morreu passados alguns dias, de forma tao repentina quanto fora a sua recuperaçao. Alguem, com certa *** No cemiterio, o pastor Rodolfo pigarreou, ajeitou o no da gravata e começou: — Irmaos, estamos aqui neste culto de açao de graças — todos fingiram nao perceber a gafe — pelo passamento da irma Porfíria… Atras dele, um coral de cochichos composto por irmaos ansiosos para enterrar o passado instigava: — Anda logo! Anda logo! — Vamos ler uma passagem da Bíblia, no Évangelho de Joao, capítulo onze… É novamente o coral de cochichos, com expressao de pavor: — Le outra! Le outra! Finalmente a sepultaram. Os irmaos nem haviam ainda deixado o cemiterio quando o ceu enegreceu e um raio fendeu a escuridao de alto a baixo. Ém seguida, um trovao fez estremecer o lugar. O diacono Padilha olhou para o alto e exclamou: — Ih! Éla ja chegou la. Judson Canto é editor, escritor, revisor e tradutor. Mantem o blog O Balido. Do autor, baixe em formato pdf o conto ilustrado Ate os Confins da Terra. CLIQUÉ AQUI. 11

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Jardim dos Clássicos Eça de Queirós (1845 - 1900) nasceu em Póvoa de Varzim, no norte de Portugal. Foi um dos maiores prosadores de nossa língua, filiado ao Realismo português. Iniciou sua carreira nas Letras publicando no Jornal Gazeta de Portugal. Autor de diversas obras, tais como os romances A Ilustre Casa de Ramires, A Capital, O Crime do Padre Amaro, O Primo Basílio e A Relíquia, dentre outros. Suas obras estão traduzidas para mais de vinte idiomas. O presente conto foi publicado originalmente em 1898, na Revista Moderna. O Suave Milagre Eça de Queirós NÉSSÉ tempo Jesus ainda se nao afastara da Galileia e das doces, luminosas margens do Lago de Tiberíades: - mas a nova dos seus milagres penetrara ja ate Énganim, cidade rica, de muralhas fortes, entre olivais e vinhedos, no país de Issacar. Uma tarde um homem de olhos ardentes e deslumbrados passou no fresco vale, e anunciou que um novo profeta, um Rabi formoso, percorria os campos e as aldeias da Galileia, predizendo a chegada do reino de Deus, curando todos os males humanos. É enquanto descansava sentado a beira da Fonte dos Vergeis, contou ainda que esse Rabi, na estrada de Magdala, sarara da lepra o servo De um decuriao romano so com estender sobre ele a sombra das suas maos; e que noutra manha, atravessando numa barca para a terra dos Gerassenios, onde começava a colheita do balsamo, ressuscitara a filha de Jairo, homem consideravel e douto que comentava os Livros na Sinagoga. É como em redor, assombrados, seareiros, pastores, e as mulheres trigueiras com a bilha no ombro, lhe perguntassem se esse era, em verdade, o Messias da Judeia e se diante dele refulgia a espada de fogo, e se o ladeavam, caminhando como as sombras de duas torres, as sombras de Gogue e de Magogue o homem, sem mesmo beber daquela agua tao fria de que bebera Josue, apanhou o ca- jado, sacudiu os cabelos, e meteu pensativamente por sob o Aqueduto, logo sumido na espessura das amendoeiras em flor. Mas uma esperança, deliciosa como o orvalho nos meses em que canta a cigarra, refrescou as almas simples: logo, por toda a campina que verdeja ate Ascalon, o arado pareceu mais brando de enterrar, mais leve de mover a pedra do lagar; as crianças, colhendo ramos de anemonas, espreitavam pelos caminhos se alem, da esquina do muro, ou de sob o sicomoro, nao surgiria uma claridade; e nos bancos de pedra, as portas da cidade, os velhos, correndo os dedos pelos fios das barbas, ja nao desenrolavam, com tao sapiente certeza, os ditames antigos. Ora entao vivia em Énganim um velho, por nome Obede, duma família pontifical de Samaria, que sacrificara nas aras do Monte Ébal, senhor de fartos rebanhos e de fartas vinhas - e com o coraçao tao cheio de orgulho como o seu celeiro de trigo. Mas um vento arido e abrasador, esse vento de desolaçao que ao mando do Senhor sopra das torvas terras de Assur, matara as reses mais gordas das suas manadas, e pelas encostas onde as suas vinhas se enroscavam no olmo, e se estiravam na latada airosa, so deixara, em torno dos olmos e pilares despidos, sarmentos, cepas mirradas, e a parra roída de crespa ferrugem. É Obede, agachado a soleira da sua porta, com a ponta do manto sobre a face, palpava a poeira, lamentava a velhice, ruminava queixumes contra Deus cruel. 12

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Apenas ouvira falar desse novo Rabi da Galileia, que alimentava as multidoes, amedrontava os demonios, emendava todas as desventuras - Obede, homem lido, que viajara na Fenícia, logo pensou que Jesus seria um desses feiticeiros tao acostumados na Palestina, como Apolonio, ou Rabi BenDossa, ou Simao, o Sutil. Ésses, mesmo nas noites tenebrosas, conversam com as estrelas, para eles sempre claras e faceis nos seus segredos: com uma vara afugentam de sobre as searas os moscardos gerados nos lodos do Égito: e agarram entre os dedos as sombras das arvores, que conduzem, como toldos beneficos, para cima das eiras, a hora da sesta. Jesus da Galileia, mais novo, com magias mais viçosas decerto, se ele largamente o pagasse, sustaria a mortandade dos seus gados, reverdeceria os seus vinhedos. Éntao Obede ordenou aos seus servos que partissem, procurassem por toda a Galileia o rabi novo, e com promessa de dinheiros ou alfaias o trouxessem a Énganim, no país de Issacar. Os servos apertaram os cinturoes de couro - e largaram pela estrada das Caravanas, que, costeando o Lago, se estende ate Damasco. Uma tarde, avistaram sobre o poente, vermelho como uma roma muito madura, as neves finas do monte Hermon. Depois, na frescura duma manha macia, o lago de Tiberíades resplandeceu diante deles, transparente, coberto de silencio, mais azul que o ceu, todo orlado de prados floridos, de densos vergeis, de rochas de porfiro, e de alvos terraços por entre os pomares, sob o voo das rolas. Um pescador que desamarrava a sua barca duma ponta de relva, assombreada de aloendros, escutou, sorrindo, os servos. O Rabi de Nazare? Oh, desde o mes de Ijar, o Rabi descera, com os seus discípulos, para os lados para onde o Jordao leva as aguas. Os servos, correndo, seguiam pelas margens do rio, ate adiante do vau, onde ele se estira num largo remanso, e descansa, e um instante dorme, imovel e verde, a sombra dos tamarindos. Um homem da tribo dos Éssenios, todo vestido de linho branco, apanhava lentamente ervas salutares, pela beira da agua, com um cordeirinho branco ao colo. Os servos humildemente saudaramno, porque o povo ama aqueles homens de coraçao tao limpo, e claro, e candido como as suas vestes cada manha lavadas em tanques purificados. É sabia ele da passagem do novo Rabi da Galileia, que como os Éssenios ensinava a doçura, e curava as gentes e os gados? O essenio murmurou que o Rabi atravessara o Oasis de Éngaddi, depois se adiantara para alem... - Mas onde, "alem"? - Movendo um ramo de flores roxas que colhera, o essenio mostrou as terras de alem Jordao, a planície de Moabe. Os servos vadearam o rio - e debalde procuraram Jesus, arquejando pelos rudes trilhos, ate as fragas onde se ergue a cidadela sinistra de Macaur... No Poço de Yakob repousava uma larga caravana, que conduzia para o Égito mirra, especiarias e balsamos de Gileade; e os cameleiros, tirando a agua com os baldes de couro, contaram aos servos de Obede que em Gadara, pela lua nova, um Rabi maravilhoso, maior que Davi ou Isaías, arrancara sete demonios do peito duma tecedeira, e que, a sua voz, um homem degolado pelo salteador Barrabas se erguera da sua sepultura e recolhera ao seu horto. Os servos, esperançados, subiram logo açodadamente pelo caminho dos peregrinos ate Gadara, de altas torres, e ainda mais longe ate as nascentes da Amalha... Mas Jesus, nessa madrugada seguido por um povo que cantava e sacudia ramos de mimosa, embarcara no Lago, num batel de pesca, e a vela navegara para Magdala. É os servos de Obede, descoroçoados, de novo passaram o Jordao na ponte da Filhas de Jaco. Um dia, ja com as sandalias rotas dos longos caminhos, pisando ja as terras da Judeia romana, cruzaram com um fariseu sombrio, que recolhia a Éfraim, montado na sua mula. Com devota reverencia detiveram o homem da Lei. Én13

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contrara ele por acaso esse profeta novo da Galileia que, como um Deus passeando na terra, semeava milagres? A adunca face do fariseu escureceu enrugada e a sua colera retumbou como um tambor orgulhoso: - Oh, escravos pagaos! Oh, blasfemos! Onde ouvistes que existissem profetas ou milagres fora de Jerusalem? So Jeova tem força no seu Templo. De Galileia surgem os nescios e os impostores... É como os servos recuavam ante o seu punho erguido, todo enrodilhado de dísticos sagrados - o furioso Doutor saltou da mula, e, com as pedras da estrada, apedrejou os servos de Obede, uivando: Racca! Racca! e todos os anátemas rituais. Os servos fugiram para Énganim. É grande foi a desconsolaçao de Obede, porque os seus gados morriam, as suas vinhas secavam – e, todavia, radiantemente, como uma alvorada por detras de serras, crescia, consoladora e cheia de promessas divinas, a fama de Jesus da Galileia. Por esse tempo, um centuriao romano, Publius Septimus, comandava o forte que domina o vale de Cesareia, ate a cidade e ao mar. Publius, homem aspero, veterano da campanha de Tiberio contra Partos, enriquecera durante a revolta de Samaria com presas e saques, possuía minas na Atica, e gozava, como favor supremo dos deuses, a amizade de Flaco, legado imperial da Síria. Mas uma dor roía a sua prosperidade muito poderosa, como um verme roi um fruto muito suculento. Sua filha unica, para ele mais amada que vida e bens, definhava com um mal sutil e lento, estranho mesmo ao saber dos esculapios e magicos que ele mandara consultar a Sidon e a Tiro. Branca e triste como a lua num cemiterio, sem um queixume, sorrindo palidamente a seu pai, definhava, sentada na alta esplanada do forte, sob um velario, alongando saudosamente os negros olhos tristes pelo azul do mar de Tiro, por onde ela navegara de Italia, numa opulenta galera. Ao seu lado, por vezes, um legionario entre as ameias apontava va- garosamente ao alto a flecha, e varava uma grande aguia, voando de asa serena, no ceu rutilante. A filha de Septimus seguia um momento a ave, torneando ate bater morta sobre as rochas; - depois, com um suspiro, mais triste e mais palida, recomeçava a olhar para o mar. Éntao Septimus, ouvindo contar, a mercadores de Corazim, deste Rabi admiravel, tao potente sobre os espíritos, que sarava os males tenebrosos da alma, destacou tres decurias de soldados para que o procurassem pela Galileia, e por todas as cidades da Decapolis, ate a costa e ate Ascalon. Os soldados enfiaram os escudos nos sacos de lona, espetaram nos elmos ramos de oliveira e as suas sandalias ferradas apressadamente se afastaram, ressoando sobre as lajes de basalto da estrada romana, que desde Cesareia ate Lago corta toda a tetrarquia de Herodes. As suas armas, de noite, brilhavam no topo das colinas, por entre a chama ondeante dos archotes erguidos. De dia invadiam os casais, rebuscavam a espessura dos pomares, esfuracavam com a ponta das lanças a palha das medas; e as mulheres, assustadas, para amansar logo acudiam com bolos de mel, figos novos, e malgas cheias de vinho, que eles bebiam dum trago, sentados a sombra dos sicomoros. Assim correram a Baixa Galileia - e, do Rabi, so encontravam o sulco luminoso nos coraçoes. Énfastiados com as inuteis marchas, desconfiando que os judeus sonegassem o seu feiticeiro para que Romanos nao aproveitassem do superior feitiço, derramavam com tumulto a sua colera, atraves da piedosa terra submissa. A entrada das pontes detinham os peregrinos, gritando o nome do Rabi, rasgando os veus as virgens: e, a hora em que os cantaros se enchem nas cisternas invadiam as ruas estreitas dos burgos, penetravam nas sinagogas e batiam, sacrilegamente com os punhos das espadas nas Thebahs, os Santos Armários de cedro que continham os Livros Sagrados. Nas cercanias de Hebron arrastaram os solitarios pelas bar14

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bas para fora das grutas, para lhes arrancar o nome do deserto ou do palmar em que se ocultava o Rabi - e dois mercadores fenícios que vinham de Jope com uma carga de malobatro, e a quem nunca chegara o nome de Jesus, pagaram por esse delito cem dramas a cada centuriao. Ja as gentes dos campos, mesmo os bravios pastores de Idumeia, que levam as reses brancas para o Templo, fugiam espavoridos para as serranias, apenas luziam, nalguma volta do caminho, as armas do bando violento. É da beira dos eirados, as velhas sacudiam como taleigos a ponta dos cabelos desgrenhados, e arrojavam sobre eles as Mas-Sortes, invocando a vingança de Élias. Assim tumultuosamente erraram ate Ascalon; nao encontraram Jesus: e retrocederam ao longo da costa enterrando as sandalias nas areias ardentes. Numa madrugada, perto de Cesareia, marchando num vale, avistaram sobre um outeiro um verde-negro bosque de loureiros, onde alvejava, recolhidamente, o fino e claro portico dum templo. Um velho, de compridas barbas brancas, coroado de folhas de louro, vestido com uma tunica cor de açafrao, segurando uma curta lira de tres cordas, esperava gravemente, sobre os degraus de marmore, a apariçao do Sol. Debaixo, agitando um ramo de oliveira, os soldados bradaram pelo sacerdote. Conhecia ele um novo profeta que surgira na Galileia, e tao destro em milagres que ressuscitava os mortos e mudava a agua em vinho? Serenamente, alargando os braços, o sereno velho exclamou por sobre a rociada verdura do vale: - Oh romanos, pois acreditais que em Galileia ou Judeia apareçam profetas consumando milagres? Como pode um barbaro alterar a ordem instituída por Zeus?... Magicos e feiticeiros sao vendilhoes, que murmuram palavras ocas, para arrebatar a esportula dos simples... Sem a permissao dos Imortais nem um galho seco pode tombar da arvore, nem seca folha pode ser sacudida na arvore. Nao ha profetas, nao ha mila- gres... So Apolo Delfico conhece o segredo das coisas! Éntao, devagar, com a cabeça derrubada, como numa tarde de derrota, os soldados recolheram a fortaleza de Cesareia. É grande foi o desespero de Septimus, porque sua filha morria, sem um queixume, olhando o mar de Tiro - e todavia a fama de Jesus, curador dos languidos males, crescia, sempre consoladora e fresca, como a margem da tarde que sopra do Hermon e, atraves dos hortos, reanima e levanta os açucenas pendidas. Ora entre Énganim e Cesareia, num casebre desgarrado, sumido na prega dum cerro, vivia a esse tempo uma viuva, mais desgraçada mulher que todas as mulheres de Israel. O seu filhinho unico, todo aleijado, passara do magro peito a que ela o criara para os farrapos da enxerga apodrecida, onde jazera, sete anos passados, mirrando e gemendo. Tambem a ela a doença a engelhara dentro dos trapos nunca mudados, mais escura e torcida que uma cepa arrancada. É, sobre ambos, espessamente a miseria cresceu como o bolor sobre cacos perdidos num ermo. Ate na lampada de barro vermelho secara ha muito o azeite. Dentro da arca pintada nao restava grao ou codea. No Éstio, sem pasto, a cabra morrera. Depois, no quinteiro, secara a figueira. Tao longe do povoado, nunca esmola de pao ou mel entrava o portal. É so ervas apanhadas nas fendas das rochas, cozidas sem sal, nutriam aquelas criaturas de Deus na terra escolhida, onde ate as aves maleficas sobrava o sustento. Um dia um mendigo entrou no casebre, repartiu do seu farnel com a mae amargurada, e um momento sentado na pedra da lareira, coçando as feridas das pernas, contou dessa grande esperança dos tristes, esse Rabi que aparecera na Galileia, que de um pao no mesmo cesto fazia sete, e amava todas as criancinhas, e enxugava todos os prantos, e prometia aos pobres um grande e luminoso Reino, de abundancia maior que a 15

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