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Figuras&Negócios - Nº 169 - JANEIRO 2016 3

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CARTA DO EDITOR 4 Figuras&Negócios - Nº 169 - JANEIRO 2016

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CARTA DO EDITOR O Presidente do Ruanda, Paul Kagame reafirmou, numa entrevista ao jornalista Baffour Ankomah que publicamos com o destaque devido nesta edição, que não tem de ouvir na sua governação os apelos de forças externas que sem conhecerem a realidade dos países africanos, procuram influenciar com ideias malévolas que mais não visam do que minar o ambiente de paz que se pretende criar para o desenvolvimento dos países. Paul Kagame, que irrita o Ocidente e os EUA por manifestar intenção de concorrer a mais um mandato presidencial, não esconde a sua dureza a classificar forças e políticos estrangeiros que, sem moral, pretendem dar lição aos africanos, mas ele não se coibe de criticar com frontalidade aqueles que aquí no continente, africano de origem, estão mais dispostos em abraçar as ideias importadas do que se vestirem da realidade dos seus países. Fala da sua experiência como teve que vencer a guerra fratricida no Ruanda, há 21 anos, e hoje construir um País que regista progressos, quer na reconciliação das famílias como no desenvolvimento. "Eu vejo a situação que viveu o meu País há 21 anos e onde estamos hoje. Agora podemos ter esperanças para o futuro. Nós verificamos que o Ruanda torna-se prospero, estavel e um lugar onde as pessoas podem realizar as suas ambições. Os progressos alcançados entre 1994 e 2015 são encorajadores, eles provam que nenhum problema é insuperável"- assim falou o Presidente que é ponto assente que, "por vontade do Povo, a Constituição foi adaptada para que ele "possa fazer mais um mandato" à frente dos destinos do País. As declarações do Presidente do Ruanda remetem-nos para a questão dos conceitos de democracia onde urge reconhecer que não existem modelos acabados e num mo- delo de governação que permite e defende a alternância não deixa de reconhecer que é sempre fundamental respeitar-se a idiossincrasia de cada povo e País. E é nessa realidade onde os interesses chocam, porque o ocidente continua a acreditar que é o paladino da democracia e impõe modelos à África e os africanos, que se costura uma linha onde se encontra as raízes de muitos conflitos que, infelizmente, grassam pelo continente. A África, vale dizer sempre, precisa de lideres convictos, que defendam primeiro e acima de tudo, os interesses do continente, do seu povo e dos seus países e não de homens que, vestidos com a roupa do poder celestial, mais não sabem do que enriquecer, apadrinhar a corrupção e trair os interesses mais sagrados dos povos. É hora de mudanças pela paz e realismo e contra a guerra fratricida. Boa leitura! ServiçoS locaiS do conSelho nacional de carregadoreS naS ProvinciaS Serviço Provincial de Benguela, com Sede no loBito Avenida 1º de Dezembro nº 89 R/C Zona Comercial Vinte e Oito – Lobito - Angola Telefones: 272226771 / (+244) 923323921 Email: rui.ferreira@cnc-angola.gv.ao / cnc@cnc-angola.gv.ao Web site: www.cnc-angola.gv.ao chefe do Serviço Provincial Rui Domingos Ferreira Serviço Provincial de caBinda, com Sede em caBinda Rua Irmão Evaristo, s/n Telefone: 924 552 913 Email: assuncao.luis@cnc-angola.gv.ao / cnc@cnc-angola.gv.ao Web site: www.cnc-angola.gv.ao chefe do Serviço Provincial António Assunção Luís Serviço Provincial do cuanza Sul, com Sede no Porto amBoim Largo CFA, edifício da empresa Portuária do Amboim Telefones: 23607788 / 926207393 Email: ivo.ernesto@cnc-angola.gv.ao / cnc@cnc-angola.gv.ao Web site: www.cnc-angola.gv.ao chefe do Serviço Provincial Ivo Fortunato Ernesto Serviço Provincial do zaire, com Sede no Soyo Rua do Porto Comercial do Soyo, Rés do chão do Edifício do Porto Telefone: (+244) 932764742 Email: francisco.tchimbavo@cnc-angola.gv.ao / cnc@cnc-angola.gv.ao Web site: www.cnc-angola.gv.ao chefe do Serviço Provincial Francisco Tchimbavo Serviço Provincial do namiBe, com Sede no namiBe Largo José do Espírito Santo Rua Travessa do Horto, Casa nº 4B Telefones: 264 266 338 / (+244) 927 523 679 Email: binayze.sousa@cnc-angola.gv.ao / cnc@cnc-angola.gv.ao Web site: www.cnc-angola.gv.ao chefe do Serviço Provincial Binayze de Sousa 5 Figuras&Negócios - Nº 169 - JANEIRO 2016

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3. 7. CARTA DO EDITOR PONTO DE ORDEM SOLUÇÕES COLECTIVAS 16. LEITORES CONVIVER NA DIFERENÇA: EIS A QUESTÃO! 19. CRÓNICAS DA ILHA DE BURROS E DIPLOMAS 24. FIGURAS DE CÁ 27. MUNDO REAL 28. SOCIEDADE AS INCERTEZAS DO MUNDO ADULTO 30. POLÍTICA 34. CULTURA ELIAS DIÁ KIMUEZO O REI DA MÚSICA ANGOLANA 41. NA ESPUMA DOS DIAS 54. CONJUNTURA A INDÚSTRIA MEDIÁTICA AFRICANA A SUL DO SAHARA 10. PÁGINA ABERTA PAUL KAGAME, PRESIDENTE DO RUANDA "ESTOU DISPOSTO A FICAR" ECONOMIA & NEGÓCIOS 42. CAPA: BRUNO SENNA 54. CONJUNTURA 72. MUNDO 87. FIGURAS DE JOGOS 88. SAÚDE & BEM-ESTAR Figuras&Negócios - Nº 169 - JANEIRO 2016 6

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ÁFRICA 64. CRISE POLÍTICA NA GUINÉ-BISSAU 84. DESPORTO 90. MODA & BELEZA 96. PUBLIREPORTAGEM 100. FIGURAS DE LÁ 104. RECADO SOCIAL Figuras&Negócios - Nº 169 - JANEIRO 2016 Publicação mensal de economia, negócios e sociedade Ano 16 - n. º 169, Janeiro – 2016 N. º de registo 13/B/97 Director Geral: Victor Aleixo Redacção: Carlos Miranda, Júlia Mbumba, Sebastião Félix, Suzana Mendes e Venceslau Mateus Fotografia: George Nsimba e Adão Tenda Colaboradores: Édio Martins, Juliana Evangelista, João Barbosa (Portugal), Manuel Muanza, Rita Simões, Ana Kavungu, D.Dondo, Wallace Nunes (Brasil), Alírio Pina e Olavo Correia (Cabo-Verde), Óscar Medeiros (S.Tomé), Crisa Santos (Moda) e Conceição Cachimbombo (Tradutora). Design e Paginação: Humberto Zage e Sebastião Miguel Publicidade: Paulo Medina (chefe) Assinaturas (geral): Katila Garcia Revisão: Baptista Neto Tel: (+-244) 937 465 000 Brasil: Wallace Nunes Móvel: (55 11) 9522-1373 e-mail: nunewallace@gmail.com Inglaterra (Londres): Diogo Júnior 12 - Ashburton Road Royal Docks - London E16 1PD U.K Portugal: Rita Simões Rua Rosas do Pombal Nº15 2dto 2805-239 Cova da Piedade Almada Telefone: (00351) 934265454 Produção Gráfica: Imprimarte (Angola) Cor Acabada, Lda (Portugal) Tiragem: 10.000 exemplares Direcção e Redacção: Edifício Mutamba-Luanda 2º andar - Porta S. Tel: 222 397 185/ 222 335 866 Fax: 222 393 020 Caixa Postal - 6375 E-mails: figurasnegocios@hotmail.com artimagem@snet.co.ao Site: www. figurasenegocios.co.ao Facebook: Revista Figuras&Negócios Angola 7

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SOLUÇÕES COLECTIVAS A Victor Aleixo victoraleixo12@gmail.com ngola já perdeu 555 milhões de USD em 2016, em consequência da crise de petróleo que se vive internacionalmente o que corresponde a diferença entre a cotação actual do crude, abaixo dos USD 30, e a prevista no Orçamento Geral do Estado, de USD 45. Esta constatação foi tornada pública pelo economista Alves da Rocha, director do Centro de Estudos e Investigação Científica da Universidade Católica e é um caso eloquente para classificar o momento apertado que o País vive, uma situação que, se não controlada, pode originar algumas convulsões sociais. Já muito se escreveu sobre a crise que Angola vive, as medidas que devem ser tomadas para a conter e eu alinho com João Melo quando refere que um trunfo essencial para a mobilização de todas as forças vivas do país para os desafios que se impõem requer o papel determinante que o Presidente da República, José Eduardo dos Santos pode e deve jogar tendo em conta a sua importância relevante não só como o actual condutor dos destinos da governação mas também pelo peso histórico que granjeou ao longo do percurso que levou Angola ao alcance da paz. Num alheamento cada vez mais evidente de sectores muito importantes da sociedade aos problemas da nação, se calhar na esteira de um certo descontentamento com a postura que os políticos da praça vão assumindo no exercício das suas actividades, é determinante que se eleja a gestão participativa como um modelo mobilizador para que todos se empenhem com iniciativas que possam minimizar os efeitos da crise, onde o trunfo tem de estar no saber definir as grandes prioridades da recuperação e melhor aproveitamento das potencialidades que o País possui, e nessa altura é determinante que o processo mobilizador conte com a orientação directa do Mais alto mandatário da Nação. Aliás, viu-se o impacto que teve o realismo da sua mensagem à Nação no final do ano de 2015, onde o Presidente da República reconheceu que os esforços encetados para a diversificação da economia estavam muito aquém do pretendido e isto porque, de uma forma geral, acreditou-se que bastava gritar-se aos quatro ventos que a hora é de diversificar e, qual canto do cisne, tudo se transformava para melhor. Passou a haver um pensamento mais realista, sobretudo dos poderes políticos e governamentais que, embora timidamente, começam a acreditar que a governação de costas viradas para o Todo da Sociedade não resolve, antes pelo contrário, encurta o caminho da solução. Ao País são hoje colocados novos e maiores desafios porque a incerta valoração das matérias primas no mercado mundial colocam novas questões e obrigam a outras abordagens. Por exemplo, o trabalho de reajustamento dos programas e dos planos de ação é uma constante, sempre efectuado sob o signo da estabilidade e da proteção das condições de vida dos cidadãos angolanos, pelo que urge não adormecer nos muitos erros já cometidos onde se acreditou que o petróleo era o suficiente para a acomodação de todas as nossas desgraças. A crise económica e financeira que atravessa, em diferentes níveis e com diferentes amplitudes, a economia mundial é agravada pelo preocupante pulular de conflitos de diferentes intensidades, de âmbito local, sub-regional e regional e geradores de graves crises humanitárias. No caso concreto de Angola, não se pode ignorar igualmente que o ambiente social não é dos mais positivos, a julgar até pelas constantes manifestações que vão surgindo questionando muitas das políticas dos poderes constituídos e que, em situações várias, poderiam ser evitadas se estivesse bem vincado a necessidade do diálogo permanente e abrangente entre governantes e governados. Mesmo a nível dos poderes instituídos, cada vez é mais evidente a falta de solidariedade institucional que reina, pelo que é imperiosa a necessidade de limar arestas para se criar ambientes sadios e reconciliadores, pelo que o papel do Presidente Eduardo dos Santos é determinante. Olhando para esses desafios, vale dizer que estamos diante da necessidade de uma estratégia colectiva que tem de passar por um verdadeiro Pacto de Nação e para a sua materialização, urge apelar à orientação sempre sábia de quem, quer se goste ou não, quer se argumente que o tempo no poder já é excessivo, continua a ser o determinante para a orientação de um caminho que leve os angolanos a enfrentar os desafios com tranquilidade, respeito pelas diferenças e trabalhando todos pela construção de uma Angola melhor. E este homem, hoje, chama-se José Eduardo dos Santos. PONTO DE ORDEM Figuras&Negócios - Nº 169 - JANEIRO 2016 9

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PÁGINA ABERTA DESTAQUE Paul Kagame é o todo poderoso Presidente do Ruanda, o político que encontrou a varinha magica para a reconciliação do povo ruandes e, por isso mesmo, é grande a corrente que defende a sua permanência no poder. E tudo vai ser assim porque a Constituição foi "arranjada" para esse propósito, numa situação que irritou muitas vozes de fora do Ruanda, mormente do Ocidente e dos EUA. Nessa entrevista a Baffour Ankomah, da revista NewAfrican, que pela sua oportunidade, nós a reproduzimos, Paul Kagame fala das suas razões. Entrevista de Baffour Ankomah Tradução de Conceição Cachimbombo - Senhor Presidente o que o motiva enquanto homem e enquanto Presidente da República? Paul Kagame (P .K) - É uma combinação de factores, associação da pessoa e do desenvolvimento. Acho que soube tirar proveito de muitas situações que vivenciei na minha juventude e tive de as superar. O carácter também é um motivo, mesmo sem escolher, herda-se dos pais e de outros a nos ligados. Mas é graças a isto que eu perspectivo os aumentos. Quando confrontados com as dificuldades, elas nos oprimem e ou nos tornam mais fortes. Eu enfrentei desafios e descobri que a vontade de vencer e mudar o curso dos acontecimentos estimulou-me. Eu enfrentei muitas dificuldades P PAUL KAGAME PRESIDEN “ESTOU 12 Figuras&Negócios - Nº 169 - JANEIRO 2016

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PÁGINA ABERTA durante a minha infância como um refugiado, mais tarde nas lutas dos rebeldes no Uganda e Ruanda. Sempre lutei pelos nossos direitos. Eu sei que não se faz nada de graça. Tivemos de lutar nas matas e na área política. P- O que vos estimulou durante estes 21 anos? P.K- Quando você enfrenta os problemas e vence, o progresso também é levado aos outros, sabe que o seu trabalho valeu a pena, isto incentiva-o a continuar. Ver a vida de outras pessoas tornar-se melhor, gera um grande sentimento de satisfação e estímulo pessoal. Eu vejo a situação que viveu o meu país há 21 anos e onde estamos hoje. Agora podemos ter esperanças para o futuro. Nós verificamos que o Ruanda torna-se próspero, estável e um lugar onde as pessoas podem realizar as suas ambições. Os progressos alcançados entre 1994 e 2015 são encorajadores. Eles provam que nenhum problema é insuperável. P- Na vossa opinião, o País já virou a página? P.K - Os ruandeses têm demonstrado que estão a trabalhar, eles sabem que têm de se adaptar e estar seguros. Isto cria um sentimento de confiança. O êxito no terreno é ainda mais notável, dado o histórico do País e as dificuldades do continente, o que prova que o País mudou e o melhor ainda está por vir. P- O Ruanda conta com um dos maiores números de mulheres no Parlamento, no Governo e em outras esferas do poder. Essas mulheres trazem algo de diferente na tomada de decisões? P.K - Fala-se muito de igualdade e de respeito pela vida e no Ruanda, queremos implementar estes princípios, adaptando-os à nossa cultura. Eu sempre digo que os muitos problemas da nossa história deixaram-nos lições, e estas são usadas para racionalizar o que fazemos. No Ruanda, as mulheres representam 52% da população e é importante não as deixar de fora. Pode ser que entendamos melhor do que ninguém por causa da nossa história. Como temos muito a fazer, precisamos da contribuição de cada um e não nos podemos esquecer das mulheres. Elas fizeram muito e participaram activamente no desenvolvimento nacional. Por outro lado, é uma questão de direitos. As mulheres têm os mesmos direitos que os homens, e urge ter isto em conta. Para responder à pergunta, sabemos que os homens e as mulheres têm diferentes qualidades e nós ganhamos, se as reunirmos. Hoje, no Governo, no Parlamento ou em outros lugares, as mulheres fazem a diferença e são complementares aos homens. Elas são mais eficazes! P- Elas não são difíceis de lidar? P.K - (Risos). Elas fazem o mesmo trabalho que os homens, mas são mais económicas. Elas tendem a ser mais racionais e eficazes. Os homens fazem coisas que nem sempre são necessárias porque eles podem pagar e a sociedade permite. Estas qualidades femininas podem agregar valor ao que fazemos. E não podemos falar sobre as mulheres como se fossem dispositivos de pessoas. Elas são nossas mães, nossas filhas, nossas irmãs e nossas esposas. Elas são parte de nós. Os homens e as mulheres vivem juntos, não faz sentido deixá-las de fora. Nos encontros, eu prefiro gerir as coisas melhor do que deixar os homens a trabalharem sós. P - Disse que no exterior as pessoas se opuseram à sua tentativa de usar o sistema tradicional Gacaca, do Ruanda, para resolver conflitos. Por que? P.K - Vivemos num mundo onde os valores devem ser constantemente redefinidos. Não conseguimos suportar que certas pessoas são superiores às outras e que elas podem definir as normas que os outros devem seguir. O mundo é feito de diferentes lugares e povos. As pessoas devem trabalhar juntas, em vez de impor padrões que funcionam em suas casas, para os outros seguirem. Isto não leva a nada, porque os problemas são diferentes de acordo com os lugares. O que se adopta em um país não é, necessariamente, para outro. Voltando ao Gacaca, os críticos se opõem simplesmente porque eles não cumprem a norma internacional. Pedimos-lhes o que era a norma internacional para julgar os casos de genocídio numa sociedade onde uns matam os outros, quando há centenas de milhares, até mesmo milhões de casos a serem julgados... A magnitude do problema - o número de crimes por juizo - foi uma dificuldade enorme. Então, nós queremos justiça para as vítimas, que também queriam alcançar a reconciliação. Mas estes dois processos são contraditórios. P - É uma situação complexa? P.K - Pedimos aos adversários que pensassem cuidadosamente: o padrão internacional obrigou-nos a usar cada caso de genocídio em um Tribunal de Justiça. Mas, no Ruanda, não tínhamos o desempenho do sistema judiciário no momento; foi tudo destruído. Mesmo que nós tivéssemos o melhor sistema judicial, com o julgamento de milhões pessoas, teríamos levado milhares de anos. Explicamos que tínhamos meios tradicionais para resolver os nossos problemas, mesmo que não os tivéssemos conhecido antes, nesta magnitude. Estávamos a olhar para o que iria permitir às pessoas viverem juntas no futuro. Pedimos aos adversários que proponham uma solução, se eles sentirem a nossa inadequada. Eles não têm sido capazes de oferecer absolutamente nada porque sabiam que podiam pedir-nos para criar rapidamente um sistema legal e confiável, antes dos perpetradores do genocídio tentarem. Nós insistimos que tínhamos de resolver os problemas urgentes de genocídio. É isto o que nós fizemos. Eles continuaram a queixar-se dos tribunais de Gacaca, foram tidas em conta quase 2 milhões de pessoas, permitindo que às U DISPOSTO A FICAR” Figuras&Negócios - Nº 169 - JANEIRO 2016 13 NTE DO RUANDA

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PÁGINA ABERTA crimes e levam as famílias aos lugares onde os corpos foram enterrados. Esta abordagem permitiu a reconciliação entre os ruandeses. P - O senhor Presidente permite que as pessoas do exterior ditem os seus padrões para África? P.K - De forma alguma! Sobretudo nas áreas que têm impacto sobre as nossas vidas. Eu pergunto-me porque razão os africanos aceitam tudo dos outros e gastam o seu tempo a reclamar, em vez de agarrarem o "touro pelos cornos" para melhorar a sua sorte. Eu não posso explicar isto a mim mesmo. Eu não entendo por que fazemos isto enquanto nação. Eu não posso aceitar esta situação. P - Em 2011, a revista ‘NewAfrican’ perguntou-lhe: "Vai cessar o seu mandato depois de sete anos,-ele não pode ser renovado nos termos da Constituição?". A sua resposta foi muito clara: "A nossa Constituição define claramente o número de mandatos. Eu não tenho nem a intenção e nem o desejo de quebrar a lei constitucional". Agora, 3,7 milhões de ruandeses mandaram-no, por meio de uma petição, para conduzir um novo mandato. O que vos compete dizer? P.K - Esta declaração foi dada em 2011, hoje ainda é verdade. Em primeiro lugar, eu não tentei modificar a Constituição e nem pedi a alguém que o fizesse. Alguns escreveram que eu estava em busca de um terceiro mandato. Não, eu não busco nada. Em segundo lugar, os 3,7 milhões de ruandeses que assinaram a petição e outros ao redor, são aqueles que querem mudar a Constituição. Afinal, são eles que escreveram, eu não! São eles que querem mudar a constituição. Eu respeito e continuo a respeitar, se fôr a opção do povo. Se a Constituição for alterada e eu concorrer a um terceiro mandato, eu vou respeitar. São as pessoas que quiseram mudá-la e não eu. P- Diz-se que os bons reis reinam até que eles morrem. Os maus reis são perseguidos pelo seu povo ... P.K. - Não há nada de errado com isto e é por isso que eu enfatizo o facto de que as pessoas distorcem a realidade quando dizem que eu quero buscar um terceiro mandato. Eu não contei a ninguém. E fico por fora para me certificar de que percebo o que está a acontecer. Encontrei-me com executivos do meu partido, 2000 pessoas numa sala, pessoas voltassem para casa e começassem a viver juntas. Foi assim que nós conseguimos a estabilidade que vemos hoje, graças a ela podemos nos dedicar ao desenvolvimento. P - Ao permitir que os perpetradores de crimes e as vítimas chegassem a um acordo, o sistema de Gacaca facilitou a tarefa do governo? P.K - Absolutamente! Esta é uma outra vantagem de Gacaca. As vítimas e os culpados discutiam em conjunto para resolver os seus problemas. Isso é diferente de um Tribunal de Justiça, onde a outra parte acusa e o juiz pronuncia o seu julgamento. Com o Gacaca, as vítimas e os agressores são fundamentais para o processo. Os autores desculpam-se das suas vítimas, reconhecem os seus 14 Figuras&Negócios - Nº 169 - JANEIRO 2016

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