Revista Karipuna Kult

 

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Description

Academia Rondoniense de Letras - ARL

Popular Pages


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2 NOVEMBRO 2015

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A HABEMUS ACADEMIA os dezessete dias do mês de agosto de dois mil e quinze foi criada a Academia Rondoniense de Letras - ARL, entidade de direito privado, sem fins econômicos, sem cunho político ou partidário, com a finalidade de aglutinar forças em prol da cultura do vernáculo, do desenvolvimento das ciências e das artes como um todo, levando as aspirações e sugestões dos titulares da instituição aos órgãos governamentais, à iniciativa privada, às bibliotecas, às universidades públicas e privadas. A academia ora criada patrocinará, dentro das suas possibilidades, ou em parceria com entidades públicas e privadas, uma revista impressa e eletrônica, um site para divulgação de notícias e eventos culturais, uma home page no Facebook, livros dos associados, salão de artes plásticas e shows musicais, com composições que valorizem a cultura do estado. DIRETORIA Presidente Cadeira - 8 JÚLIO OLIVAR Patrono Edgar Roquette-Pinto Vice-Presidente Cadeira - 3 Secretário Geral Cadeira - 36 Tesoureiro Cadeira - 10 WILLIAM HAVERLY MARTINS Claude Lévi-Strauss Patrono RENATO W. MENGHI Patrono D. João Batista Costa WALTER DE O. BARIANI Patrono Esron Penha de Menezes 3 NOVEMBRO 2015

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CONSELHO FISCAL Cadeira - 21 Cadeira - 05 Cadeira - 25 PATRÍCIA FRAN Marise Castiel Patronesse ANGELLA SCHILLING Patrono José Otino de Freitas JOSÉ DETTONI Patrono Dom Xavier Rey EMBAIXADORES RICARDO LEITE Correspondente em Brasília SEBASTIÃO FERRARINI Correspondente no Amazonas JOSÉ WALDIR Correspondente no Ceará MEMBROS EFETIVOS Cadeira - 01 Cadeira - 04 ABEL SIDNEY Joaquim Augusto Tanajura 4 NOVEMBRO 2015 Patrono WILMA SUELY BATISTA Patrono Manoel Ferreira Rodrigues ANÍSIO GORAYEB Patrono Cândido M.da Silva Rondon Cadeira - 07

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Cadeira - 11 HEINZ ROLAND JAKOBI Ary Tupinambá Pena Pinheiro Patrono LUCILEYDE FEITOSA SOUSA Patrono Ferreira de Castro Cadeira - 14 DIMIS DA COSTA BRAGA Patrono Samuel Benchimol Cadeira - 18 Cadeira - 17 REGINALDO TRINDADE Francisco Meirelles Patrono HERCULANO MARTINS NACIF Patrono Osvaldo Cruz ISAÍAS FONSECA MORAES Patrono Amizael Gomes da Silva Cadeira - 26 Cadeira - 27 ANTÔNIO SERPA DO AMARAL Mário de Andrade Patrono LUIZ DE GONZAGA BRITO Patrono Danna B. Merril FRANCISCO MATIAS Patrono Antônio José Cantanhede 5 NOVEMBRO 2015 Cadeira - 32 Cadeira - 15 Cadeira - 16

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Cadeira - 40 Cadeira - 38 MONTEZUMA CRUZ Assis Chateaubriand Patrono SELMO VASCONCELLOS Patrono José Ailton Ferreira (Bahia) MARIA MIRANDA Patrono Afonso Ligório Cadeira - 12 BENEDITO ANTÔNIO ALVES Jorge Teixeira de Oliveira Patrono MIGUEL NENEVÉ Patrono Frans Keller Cadeira - 30 DELSON XAVIER Patrono Enos Eduardo Lins Cadeira - 19 Cadeira - 20 CARLOS ANTÔNIO C. JUNIOR Luis Hidelbrando P . da Silva 6 NOVEMBRO 2015 Patrono JOÃO BATISTA CORREIA Patrono Joaquim Araújo Lima ROBSON OLIVEIRA Patrono Bolivar Marcelino Cadeira - 31 Cadeira - 34 Cadeira - 24

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EDITORIAL revista Karipuna Kult é uma publicação bimestral da Academia Rondoniense de Letras – ARL, que escolheu este título pensando nas mudanças semânticas que as palavras, como sinais das ideias, podem experimentar em seus transcursos espaço-temporais. Como proposição de marketing, optamos pela letra “K” dobrada, após breve pesquisa com a juventude universitária. Essa letra, segundo se depreendeu da pesquisa, parece carregar certa atração visual e sonora, de forma que optamos por Karipuna, ao invés de Caripuna, e Kult, ao invés de Cult. O termo “Karipuna”, visto no A KK sentido regionalista, remete o leitor a uma das principais etnias indígenas, atualmente quase extinta, envolvida com a história dos primórdios da formação de Porto Velho, capital do estado. Trata-se, então, de uma marca espacial, mas a revista não pretende se restringir às causas da literatura regional, por isso o termo “Kult” realiza essa espécie de contraponto à “Karipuna”. Ele enuncia a universalização das proposições, ao mesmo tempo em que foge do rótulo “Cult”, já muito explorado no mundo editorial. O nome Karipuna Kult, portanto, sobrecarrega diversas informações com a missão de atrair leitores de todos os segmentos culturais, daqui e d’alhures. 7 NOVEMBRO 2015

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CARTA AO LEITOR Academia Rondoniense de Letras, preenchendo um vazio cultural há muito ambicionado pela comunidade acadêmica, apresenta aos seus possíveis leitores, fãs e colecionadores o primeiro exemplar de Karipuna Kult, uma revista bimestral nascida sob o signo de uma nova apreensão do saber, onde o regional se funde ao universal para invadir a mente do leitor, ávida por novos caminhos, estruturados no tripé – ciências, filosofia e artes − que a direcione ao conhecimento de forma prazerosa. A cada página visitada, você se surpreenderá com o inusitado, dentro do assunto escolhido pelo conselho editorial, e com o modo de expressão, a forma como experientes jornalistas, juristas, artistas, quase todos escritores com obras publicadas, atacam a informação, a estética, enfim, a cultura dita regional e, em seu conceito mais amplo, universal. Anísio Gorayeb abrilhanta/rá a coluna bimestral titulada Histórias da Nossa Terra. Em História Regional o leitor conhecerá as informações precisas do historiador Francisco Matias. O brilhante compositor, cantor, músico, poeta Antônio Serpa do Amaral, o querido Basinho, assinará a coluna Música Karipuna, apresentando as novidades do setor, neste número ele apresenta uma crônica de seu rico repertório in memoriam de Herculano Martins Nacif. As Artes Plásticas serão administradas na revista pelas conceituadas Angela Shilling, Patrícia Fran e Maria Miranda. O romancista William Haverly Martins apresenta o aplaudidíssimo conto O Pedófilo, e a cada nova edição trará uma novidade da sua lavra. Curiosidades, artigos científicos de interesse global, lições do vernáculo, frases famosas, poesias, crônicas, desenhos, charges, complementam/rão a Karipuna Kult. Boa Leitura! Até a próxima. A

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11 SUMÁRIO EDITORIAL......................................................................... 07 CARTA AO LEITOR ............................................................ 08 SUMÁRIO ......................................................................... 09 PALAVRAS DO PRESIDENTE ............................................. 10 CARAVANA DA ESPERANÇA ............................................. 11 VERNÁCULO. ..................................................................... 13 A MÚSICA KARIPUNA – ANTONIO SERPA DO AMARAL .... 16 ARTES VISUAIS .................................................................. 20 LIVRO DE IMORTAL FAZ SUCESSO ..................................... 21 26 28 HISTÓRIA REGIONAL – FRANCISCO MATIAS .................... 22 HISTÓRIAS DE NOSSA TERRA ANÍSIO GORAYEB – ............ 24 40 ANOS DA BIBLIOTECA FRANCISCO MEIRELLES ............ 26 O CONTO DO BIMESTRE - O PEDÓFILO ............................ 30 POESIAS ........................................................................... 33 PRÊMIO INNOVARE .......................................................... 34 POLÊMICA ........................................................................ 36 CRÔNICA .......................................................................... 38 NUARS ............................................................................. 42 TORRE DE BABEL .............................................................. 45 36 45 E X P E D I E N T E Jornalista Responsável: Montezuma Cruz Diretor de Redação: William Haverly Martins, Conselho Editorial: Selmo Vasconcelos, Lucileyde Feitosa e Wilma Suely.

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PALAVRAS DO PRESIDENTE Júlio Olivar Academia Rondoniense de Letras deste meio, conquanto a linguagem verbal não atende a todas estas possibilidades; o texto está sempre ali ao alcance das mãos e dos olhos; a fala não pode ser reprisada facilmente, mesmo que gravada. As letras foram/são/serão uma maneira de se perpetuar. Vem daí talvez a expressão “imortal” que define os escritores que ocupam as academias de letras: são esses os verdadeiros panteões. Entretanto, mesmo aos imortais é imperativo mais do que inspiração; prevalece a transpiração. Não é à toa que um livro é chamado de obra. Exige-se de fato um labor contínuo e disciplinado para produzi-lo. Ainda mais nestas terras de Rondon, onde os talentos são fartos mas os estímulos rasos. A semeadura tem sido feita. E não é de hoje. Porto Velho tinha apenas dois anos de existência quando, em 1916, era publicado o primeiro livro nestas plagas - “Coisa alguma”, de Joaquim Vespaziano Ramos. Nunca, desde então, nossa terra deixou de ver publicados trabalhos de valor literário, jurídico e histórico, mesmo que em forma de poemas soltos, artigos, ensaios e crônicas. Os abnegados autores estiveram presentes desde o princípio do quase centenário jornal “Alto Madeira”, criado em 1917 por Joaquim Tanajura, mestre das letras, político, polemista, médico e discípulo rondoniano que hoje é - assim como Vespaziano - um dos patronos da ARL. O reconhecimento é justo a todos os que ousaram/ousam “fazer letras” neste rincão. Porém, é notório o predomínio do idealismo e do voluntarismo. Não existe propriamente um movimento literário tampouco políticas públicas de incentivo à produção e ao mercado literário e editorial locais. A Academia Rondoniense de Letras assume para si dois desafios básicos, dentre tantos outros: 1) reunir os devotos das letras e das artes em geral para propor espaços e mecanismos para a valorização artístico-literária; 2) difundir os livros e as artes correlatas produzidas em Rondônia. É assim que o universo das letras genuinamente rondoniense ganha uma confraria viva com o fito de não somente produzir livros, mas fazê-los benditos na medida em que esses cheguem de fato ao povo em feiras literárias, sendo adotados pelas escolas e disponíveis em bibliotecas com programações vivas, além das versões digitais que hoje são as mais acessadas e vedetes da vez. Por fim, evoco Castro Alves em homenagem aos escritores rondonienses: “Bendito aquele que semeia livros e faz o povo pensar” ara que servem as letras? Comunicar e expressar. Simples assim! Com o surgimento do telefone, do rádio, da fotografia, muitos imaginaram que as letras perderiam sua densidade no cotidiano. Ledo engano! Pois chegamos a 2015 usando mais do que sempre as letras para nossa comunicação trivial e para compartilhar textos de toda ordem na rede mundial de computadores, onde também trazemos a lume os mestres das letras de épocas remotas que continuam a influenciar, imortais que são. Do simples ao complexo, produzir letras vai do caráter utilitário à arte. Mesmo escrevendo sem pretensão, é preciso habilidade para organizar e expressar idéias e emoções. E, neste caso, os “erros” são irrelevantes, pois a linguagem é maior que a língua considerando que é algo dinâmico cuja normativa está a serviço. As letras são a mais democrática, eficiente e acessível forma de comunicação e expressão porque atende à necessidade do momento, documenta para a posteridade e transcende as limitações idiomáticas e deficiências físicas do escritor/leitor que pode ser surdo-mudo e ainda assim desfrutar P

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Caravana da esperança comemora sucesso ia 23 de outubro, uma sexta feira do ano 2015, entrou para a história do povo Cinta Larga, como o dia em que as autoridades estaduais e federais ouviram o clamor dos indígenas, capitaneados pelo Procurador da República e imortal da Academia Rondoniense de Letras, Reginaldo Trindade, e pelos representantes do grupo Cinta Larga: Amigos em Movimento pelo Resgate, em prol de condições dignas de sobrevivência e de convivência. Com o lema CONHECER PARA AJUDAR, esta visita às ter- D ras indígenas vinha sendo costurada, por Reginaldo Trindade há alguns meses: começou com a assinatura de uma carta de intenções por deputados estaduais, federais, senadores, o governador de Rondônia e várias outras autoridades, foi sequenciada com a II Ação Social ocorrida no dia 15/10 e culminada em 23/10, com a presença das autoridades signatárias às terras do povo Cinta Larga, onde foram feitas promessas de toda ordem, tomara que não sejam apenas promessas de palanque, que se materializem em ajuda financeira, assistencialista e de regulamentação do garimpo de diamantes. Reginaldo Trindade acompanha de perto a questão dos Cinta Larga há 11 anos, desde que ocorreu um conflito entre índios e garimpeiros pelos diamantes da reserva, em abril de 2004. Recentemente, imbuído do sentimento de que só ama quem conhece, pronunciou o seguinte discurso: A Terra Indígena Cinta Larga tem uma área total de 2,7 milhões de hectares, onde moram cerca de 2.500 indígenas. Na aldeia Roosevelt, porta de entrada para a reserva, residem em torno de 330 pessoas, em sua maioria crianças e jovens. 11 NOVEMBRO 2015

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Qual o significado da palavra Esperança? Uma comunidade completamente massacrada pela violência da história possui o direito de ter esperança? O Governo pode violar a essência do ser humano, de todo um povo, roubando-lhe o próprio coração? Um grande filósofo ensinou que a esperança é a última coisa que a ser perdida pelas pessoas. Quem nada possui, mesmo assim ainda pode preservar a esperança. Suas palavras exatas foram mais sublimes: A esperança é o único bem comum a todos os homens. Até os que já nada possuem, a possuem ainda. Há um povo na Amazônia Brasileira que perdeu praticamente tudo. Roubaram-lhe o território, essa coisa sagrada que se confunde com a sua vida, seu coração, a sua essência. Roubaram-lhe as riquezas naturais e culturais, fonte da vida e alicerce para a eternidade. Roubaram-lhe até a dignidade, essa sublime condição do homem que, uma vez vilipendiada, torna o ser humano em ser não humano. Resta-lhe, no entanto, ao menos, a esperança! Pode, o Governo do Brasil, roubar a esperança de toda uma comunidade indígena da Amazônia? Senhoras e Senhores! A história do Povo Indígena Cinta Larga começou, para o mundo, há cem anos, quando uma expedição, realizada por dois homens maiores que a vida, fez trazer para este sagrado solo que pisamos um ex-presidente norte americano e um dos maiores brasileiros de todos os tempos. A partir de então a paz nunca mais reinou para essa sofrida comunidade. Ela foi quase dizimada na década de 1960, por ocasião das “frentes de pacificação” do Governo Federal, sob o slogan “integrar para não entregar”. No alvorecer do novo milênio descobriu-se/impulsionou-se o tal garimpo de diamantes nas terras indígenas do Povo Cinta Larga. A violência daí decorrente fez tombar dezenas de pessoas. Só no episódio mais triste, havido em abril de 2004, 29 vidas se perderam... Pois que, por pior que tenha sido aquele momento, sustentamos, com toda a força de nosso clamor, que hoje, 23 de outubro de 2015, a situação está ainda mais sombria... Dissemos na abertura da II Ação Social Cinta Larga, havida no último final de semana, e repetimos hoje. A situação atual é muito mais grave que era no abril indígena de 2004. Hoje nós temos garimpeiros casando com índias adolescentes (de 13, 14 anos) ou anciãs (de 60 anos ou mais) apenas para ter acesso privilegiado ao hediondo garimpo. Hoje temos a ameaça de conflitos não apenas entre índios e garimpeiros, mas entre os próprios indígenas. Hoje a bebida alcoólica, a droga, a arma de fogo está presente na aldeia. Tristemente presente. Mas, o Governo Federal não sabe disso. Nem aparenta querer saber... Gritemos, pois, ao Brasil e ao mundo. Há um povo na Amazônia, de uma história e riqueza absolutamente singular. Por aqui já passou o festejado Theodore Roosevelt, acompanhado, nada menos, que pelo imortal Marechal Rondon...Essa nação indígena está à beira da extinção! Sim, Senhores! Aqui há uma comunidade indígena à beira da extinção! A bebida alcoólica já chegou. A droga também, assim como a arma de fogo. Pior ainda, aqui já chegou – e não demonstra nenhum interesse em sair – o que de pior pode afligir qualquer comunidade humana: a ganância do homem pela desmesurada riqueza! São esses os tempos que põem à prova as almas dos homens... Assim, nessa hora mais escura, quando o desespero parece querer assombrar-nos o coração, apelamos para que o de mais elevado há no espírito de cada um de vocês. Para a bondade na alma de cada um. 12 NOVEMBRO 2015 Ajudem o Povo Cinta Larga! Nós somos pessoas tão abençoadas. Temos Saúde, Família, temos Amor. Temos Vida! Ajudemos quem necessita... A ação social, feita há uma semana, provou que podemos estar próximos, como irmãos! Não desconhecemos a dimensão da tarefa que se desenha no horizonte. But if you never try you´ll never know! Nessa caminhada, precisaremos urgentemente render mais que podemos... Dar mais do que recebemos. Teremos que ser corajosos. Teremos que ter a coragem do índio mais bravo. Conforta-nos, todavia, saber que não estaremos sozinhos. Teremos ao nosso lado a melhor companhia. Teremos a Justiça e o Amor a nos guiar nessa legítima luta. Estaremos acompanhados, também, do Povo Cinta Larga, que não se entrega nunca! E o Povo Cinta Larga está armado... Armado de Amor! Armado dos sentimentos mais sublimes e divinos que podem povoar o coração humano. Estão armados de esperança! Algumas lideranças, o coração pesa por ter que dizer isso, estão envolvidas com o maldito garimpo. Merecem sair da aldeia para a cadeia? Pois digo sem medo de errar, do alto de mais de onze anos dedicados a essa nação indígena, com a consciência tranquila e absoluta paz no coração, que o Povo Cinta Larga é inocente! Os índios são muito mais vítimas que infratores neste processo “civilizatório”. E essas poucas lideranças envolvidas em atividades escusas são as que mais precisam de nossa compaixão e amor. Elas precisam mais de solidariedade que de nossa repreensão. Elas precisam de ajuda porque já jogaram a toalha, já perderam até a esperança que um dia o Governo venha em seu socorro. Por mais árdua que seja a batalha, que o Altíssimo não nos permita fraquejar. Mesmo porque não viemos aqui para pregar a desesperança. Não nos deixemos abater pelas dificuldades. É nos momentos mais extremos que os talentos precisam surgir. É nas tempestades mais longas que a solidariedade precisa imperar. A história já revelou que nenhuma montanha é alta o suficiente. Assim, por mais impossível que seja a guerra, eu tenho esperança. Eu tenho esperança que um dia, nesse maravilhoso país, índios e não índios serão tratados como verdadeiramente são: seres humanos! Eu tenho esperança que um dia nossa Constituição será efetivamente respeitada e não simplesmente modificada ao sabor dos interesses da ocasião e pelas mais inconfessáveis razões. Eu tenho esperança que um dia o preconceito, mesquinho e ignorante, será substituído pelo amor. Eu tenho esperança que a fé dos índios por dias melhores será eterna – assim como os diamantes! Eu tenho esperança que sempre haverá pessoas de bem, que jamais repousarão enquanto não reverterem essa secular história de indignidades contra as minorias no Brasil e no mundo. Eu tenho esperança que um dia o Governo do Brasil defenderá, de verdade, os povos indígenas. Não depois, mas antes que aconteça alguma tragédia – da qual tanto todos se lamentem. Um grande amigo nos ensinou que temos que ter, acima de tudo, fé no ser humano. Como na canção, fé na vida, fé no homem, fé no que virá. Nós podemos tudo. Nós podemos mais... Aldeia Roosevelt, Terra Indígena Roosevelt, Estado de Rondônia, Brasil, 23 de Outubro de 2015. REGINALDO TRINDADE Procurador da República Responsável, no Estado de Rondônia, pela Defesa do Povo Cinta Larga

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A cada número da KK, apresentaremos sugestões, regras e correções de erros, comuns a redações de estudantes, de candidatos a concursos e dos que escrevem regularmente. ERRO 1 - orações com sentido de tempo em início de frase pedem vírgula logo após sua ocorrência Ao analisarmos uma mensagem é importante observar o contexto […] A expressão “ao analisarmos” é equivalente a “quando analisamos”, na qual o sentido de tempo fica mais claro. Como corrigir: Basta inserir a vírgula após a oração adverbial de tempo. Ao analisarmos uma mensagem, é importante observar o contexto […] V ERNÁCULO Erro 2 - o uso da conjunção aditiva “e”, em início de frase, é coloquial E por m, há a questão do aquecimento global. Como corrigir: Eliminar a conjunção inicial. Por m, há a questão do aquecimento global. ERRO 3 - o verbo ter, no sentido de existir, é coloquial, ou seja, próprio da língua falada, mas proibido na língua escrita Portanto, essa função não será exclusiva, mas terá uma predominante. Como corrigir: Substituir pelos verbos haver ou existir. Portanto, essa função não será exclusiva, mas haverá/existirá uma predominante. Erro 4 - “onde” deve ser usado apenas para referenciar local físico, espacial, e não como pronome relativo para todos os casos. Além disso, existe a função metalinguística, onde as palavras são utilizadas para explicar elementos da própria língua. Como corrigir: Substituir por outro pronome relativo, como no(a) qual ou em que, respeitando a concordância necessária. Além disso, existe a função metalinguística, na qual/em que as palavras são utilizadas para explicar elementos da própria língua. 13 NOVEMBRO 2015

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Erro 5 - uso de termos entre aspas para lhes acrescentar signicados ou modicá-los [Falando das funções da linguagem] – “A que se destaca é a que traduz a intencionalidade de sua comunicação e essa recebe a “assistência” das demais funções.” Como corrigir: Um avaliador olha para este uso e pensa: “o candidato não sabia que palavra usar e, por isso, colocou outra entre aspas para tentar dar o sentido que queria. Isso é falta de vocabulário”. Se realmente não souber que palavra usar, apenas elimine as aspas. [Falando das funções da linguagem] – “A que se destaca é a que traduz a intencionalidade de sua comunicação e essa recebe a assistência das demais funções.” ERRO 6 - O VERBO “ACARRETAR” É TRANSITIVO DIRETO Toda essa situação acarreta em problemas para a sociedade Como corrigir: O verbo deve unir-se a seu complemento sem o auxílio de preposição. Toda essa situação acarreta problemas para a sociedade Veja outros verbos cujas regências causam dúvidas: 1. Visar é VTI quando tiver o sentido de almejar, pretender, objetivar: Este trabalho visa ao bem-estar geral. 2. Obedecer/Desobedecer são sempre VTI: Como filhos, devemos obedecer a nossos pais. 3. Esquecer/Lembrar são VTD: O aluno esqueceu/lembrou a informação da aula anterior. 4. Esquecer-se/Lembrar-se são VTI. Isso mesmo, os mesmos verbos, em suas formas pronominais, mudam de regência: O aluno esqueceu-se/lembrou-se da informação anterior. 5. Assistir, no sentido de ver e ouvir, presenciar, observar, é VTI: Eu não consegui assistir ao filme que você me indicou. Note que, na fala, a maioria de nós usa esse verbo como VTD, o que é considerado incorreto pela norma culta. 6. Atender pode ser VTD ou VTI: O professor atendeu o / ao aluno. 7. Necessitar/Precisar também podem ser VTD ou VTI: Não precisam/necessitam defesa de ninguém. OU Não precisam/necessitam da defesa de ninguém. Erro 7 - o uso da conjunção adversativa “mas” em início de frase é coloquial Os meios de comunicação, hoje, têm a capacidade de controlar tudo que um indivíduo consome em nível de informação ou entretenimento. Mas aqueles que desejam escapar da massificação ainda possuem opções. Como corrigir: Em início de frases, use as outras conjunções adversativas – porém, no entanto, entretanto, contudo, todavia. Os meios de comunicação, hoje, têm a capacidade de controlar tudo que um indivíduo consome em nível de informação ou entretenimento. Contudo, aqueles que desejam escapar da massicação ainda possuem opções. 14 NOVEMBRO 2015

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Erro 8 - presença de frases fragmentadas, soltas, principalmente pela falta de elementos coesivos Ela se serve dos verbos no modo imperativo, em grande frequência, para causar reflexão no receptor da mensagem. Bastante utilizada no meio publicitário. Em “logo você saberá a verdade, Maurício”, há exemplo de seu uso. Como corrigir: A frase em destaque caiu de paraquedas no texto, sem nada que a interligue ao que veio antes ou depois. Esse tipo de erro tira muita nota do candidato no quesito coesão textual. Para resolver, basta utilizar um operador argumentativo adequado ou transformar o período em oração subordinada. Usando o operador argumentativo: Ela se serve dos verbos no modo imperativo, em grande frequência, para causar reflexão no receptor da mensagem. Além disso, é bastante utilizada no meio publicitário. Em “logo você saberá a verdade, Maurício”, há exemplo de seu uso. Baixe uma lista de operadores argumentativos, com exemplos práticos de uso. (PDF) Transformando em oração subordinada: Ela se serve dos verbos no modo imperativo, em grande frequência, para causar reflexão no receptor da mensagem, sendo bastante utilizada no meio publicitário. Em “logo você saberá a verdade, Maurício”, há exemplo de seu uso. Erro 9 - erro no uso de pronomes demonstrativos ``este``, ``esta`` e ``isto`` ou ``esse``, ``essa``, ``isso`` como elementos coesivos A fome do Brasil é um fenômeno que tem se alastrado nos últimos anos. Este problema tão sério é prioridade para o governo federal. Como corrigir: Quando o referente já foi citado anteriormente no texto, use sempre “Esse, Essa, Isso”. Se, caso contrário, o referente será citado a seguir, use “Este, Esta, Isto” IMPORTANTE: Dificilmente você deverá usar o segundo caso. O erro ocorre, geralmente, pelo uso do “T” em lugar do “S”. A fome do Brasil é um fenômeno que tem se alastrado nos últimos anos. Esse problema tão sério é prioridade para o governo federal. Erro 10 - separação de termos essenciais da oração por vírgula (sujeito e predicado ou verbo e complementos) Construir um padrão de linguagem que não esteja ligado a manifestações elitistas, significa admitir que as funções exercidas pelo mesmo vão muito além daquelas massificadas pelos meios de comunicação. Como corrigir: o trecho destacado é um período composto que desempenha o papel de sujeito em um período composto maior ainda, que é a frase inteira do exemplo. O uso da vírgula para separar sujeito e predicado, portanto, é incorreto. Construir um padrão de linguagem que não esteja ligado a manifestações elitistas significa admitir que as funções exercidas pelo mesmo vão muito além daquelas massificadas pelos meios de comunicação. 15 NOVEMBRO 2015

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