Indico N35

 

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Revista Indico N35

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SÉRIE III | N.35 | JAN • FEV | JAN • FEB | 2016 LEVE ESTA REVISTA CONSIGO. É SUA. | TAKE THIS MAGAZINE. IT’S YOURS. Maputo Berlim More Jazz Revista de Bordo da LAM | Inflight Magazine

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FICHA TÉCNICA TECHNICAL DATA ÍNDICO PERIODICIDADE BIMESTRAL BIMESTRAL PERIODICITY Janeiro/Março/Maio/Julho/Setembro/Novembro January/March/May/July /September/November Série Series III, nº 35 PROPRIEDADE PUBLISHER LAM - Linhas Aéreas de Moçambique SA CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO DA LAM LAM BOARD OF DIRECTORS Dr. Silvrestre Sechene (Presidente do Conselho de Administração Chairman of The Board) Dr. Iacumba Ali Aiuba (Administrador Delegado CEO and Board Member) Dr. Jeremias Tchamo (Administrador do Pelouro Administrativo e Financeiro Chief Financial Officer and Board Member) Eng° João Carlos Pó Jorge (Administrador do Pelouro Técnico Operacional Chief Tecnical & Operation Officer and Board Member) Dr. Carlos Fumo (Administrador do Pelouro Comercial Chief Comercial Officer and Board Member) Dr. Paulo Negrão (Administrador Não-Executivo Non-Executive Board Member) Drª Maria da Graça Fumo (Administradora Não-Executiva Non-Executive Board Member) 03 04 06 10 20 26 32 36 46 56 64 68 74 78 84 93 MENSAGEM MESSAGE NOTA DO EDITOR NOTE FROM THE EDITOR NOTÍCIAS A JACTO JET NEWS MAPUTO, A MINHA DE TODAS AS CIDADES MAPUTO, OF ALL CITIES, THIS IS MINE JARDIM TUNDURU REVISITADO TUNDURU GARDEN REVISITED MAZIONES PRAIAS, A GEOGRAFIA DO VERÃO BEACHES, THE GEOGRAPHY OF SUMMER PORTEFÓLIO: PAISAGENS INTERIORES PORTFOLIO: INTERIOR LANDSCAPES DOURO, UM ABELEZA ABSOLUTA DOURO, AN ABSOLUTE BEAUTY BERLIM, ENTRE A MEMÓRIA E A SAUDADE BERLIM, BETWEEN MEMORY AND NOSTALGIA MORE JAZZ MOREIRA CHONGUIÇA: “SOU UM PIANISTA FRUSTRADO” MOREIRA CHONGUIÇA: “I’M A FRUSTRATED PIANIST” MFW - LAM DESTACADA NO MFW MFW - LAM PROMINET AT MFW FUNDAÇÃO FERNANDO LEITE COUTO FERNANDO LEITE COUTO FOUNDATION VOE COM A LAM FLY WITH LAM MAPA DE ROTAS ROUTE MAP EDITOR EXECUTIVO EXECUTIVE EDITOR Nelson Saúte – nelson.saute@marimbique.co.mz COLABORAÇÃO CONTRIBUTORS Adelino Timóteo, Amâncio Miguel, Paola Rolleta Paula Fortes da Cunha TRADUÇÃO TRANSLATION Paul Fauvet REVISÃO EDITING Olga Pires FOTOGRAFIA PHOTOGRAFY Chico Carneiro, Filipe Branquinho, Mauro Vombe, Yassmim Forte, Fora de Foco, Corbis/VMI CAPA COVER Corbis/VMI DESIGN Atelier 004 PAGINAÇÃO E PRODUÇÃO LAYOUT AND PRODUCTION Atelier 004 | Joana Miguéis, Sara Fortes da Cunha IMPRESSÃO PRINTING Norprint TIRAGEM PRINT RUN 20 000 exemplares NÚMERO DE REGISTO REGISTRATION NUMBER 08/GABINFO-DEC/2006 DEPÓSITO LEGAL LEGAL DEPOSIT 117117/97 MARKETING E PUBLICIDADE ADVERTISING Marimbique - Conteúdos e Publicações, Lda. EDIÇÃO E PRODUÇÃO PRODUCTION AND EDITION Marimbique - Conteúdos e Publicações, Lda. indico@marimbique.co.mz Rua da Sé, nº 114, 6 º andar, sala – 614 Telefone: 258 – 84 30 32 070 Maputo Moçambique LAM Call Center: (+258) 21 468 800 móvel: 82147 e 84147 C.P. 2060 Maputo – Moçambique revistaindico@lam.co.mz www.lam.co.mz www.facebook.com/VOELAMM

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MENSAGEM DO ADMINISTRADOR DELEGADO MESSAGE FROM CEO IACUMBA ALI AIUBA Estimado Cliente Amigo, bem-vindo a bordo da Companhia Moçambicana! O ano de 2016 marca o início do processo de mudanças profundas na companhia com a implementação de acções de reestruturação que visam a sustentabilidade da LAM e a melhoria contínua dos processos e dos serviços que prestamos aos nossos clientes. Somos ambiciosos e queremos continuar a crescer de forma segura e sustentável. Para isso, vamos, no ano em curso, introduzir o Check-in Online e a consulta de horário de voos em tempo real no nosso website www.lam.co.mz. Apostamos também em desenvolver a nossa rede de voos na região, com a abertura de mais destinos em 2016, consolidação das ligações diárias entre Maputo – Luanda e vice-versa, sendo dois voos directos e outros via Joanesburgo, proporcionando ao mesmo tempo ligações para a Europa e América, através de parcerias comerciais. Vamos continuar a cumprir com as melhores práticas de qualidade e operacionais da indústria de aviação civil. O reflexo disso foi a recente renovação dos nossos certificados IOSA – IATA Operational Safety Audit e ISO 9001:2008. Continuaremos a valorizar o capital humano, apostando na sua formação e desenvolvimento de competências, de modo a aprimorarmos a nossa proficiência como empresa social e ambientalmente responsável. Estamos convictos de que, com energia, determinação, dedicação e espírito de equipa, podemos atingir patamares elevados de competitividade, para sermos uma companhia de referência no mercado doméstico e regional onde operamos. Bem haja e muita prosperidade. Dear Client and Friend, Welcome on board the Mozambican company! 2016 marks the start of a process of profound changes in the company, with restructuring aimed at ensuring the sustainability of LAM and continual improvement in our procedures and in the services we provide to our clients. We are ambitious and we want to continue growing in a safe and sustainable manner. Hence, in the coming year, we shall introduce on-line Check-in, and consultations of real time flight timetable on our website, www.lam.co.mz. We are also banking on expanding our network of regional flights, with the opening of routes to more destinations in 2016, a consolidation of the daily connections between Maputo and Luanda, with two direct flights and others via Johannesburg, providing connections to Europe and America through commercial partnerships. We shall continue to comply with the operational practices of the civil aviation industry. The reflection of which was the recent renewal of our IOSA (IATA Operational Safety Audit) and ISO 9001:2008 certificates. We shall continue to value our human capital, focusing on training and skills development, so as to improve our proficiency as a company that is socially and environmentally responsible. We are convinced that with energy, determination, dedication and team spirit, we will be able to attain high standards of competitiveness, to become a company that is a reference point in the domestic and regional markets were we operate. We wish you a very prosperous New Year. |3

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NOTA DO EDITOR NOTE FROM THE EDITOR Maputo é uma soberba e esplendorosa cidade sobre o Índico. Uma das mais belas e vibrantes cidades africanas. Iniciamos esta Índico com um elogio à cidade. Sobre a capital moçambicana muitos escreveram, outros tantos cantaram-na, alguns glorificaram-na, na fotografia, na pintura ou na música, na dança ou no cinema. Filipe Branquinho, em “Paisagens interiores” – título de livro e de exposição –, faz uma imaginativa celebração da cidade. O fotógrafo propõe uma viagem pela cidade interior e esta defronta-nos com o tempo e toda a experiência entre a sua arquitetura e a forma como experienciamos a nossa vivência quotidiana. É um olhar também sobre a memória. Imagens que nos indagam, interpelam, na sua surpreendente e crua beleza. É o tema do nosso portefólio principal. Outros portefólios: Yassmin Forte e Chico Carneiro. Yassmin revisitou o Jardim Tunduru. É um dos exlibris da cidade. É também uma homenagem à cidade pelo olhar e pela lente da fotógrafa: o jardim revisitado. Chico fotografa os mazione, uma emblemática imagem da orla de Maputo. Também de Chico as imagens de praias na geografia do verão. A fotografia tem sempre primazia nas nossas páginas. Publicamos outros portefólios culturais, um sobre o More Jazz e outro sobre o MFW. Moreira Chonguiça trouxe-nos a quinta edição do More Jazz, inscrito definitivamente na agenda cultural da cidade - Maputo no roteiro das cidades que têm festivais de jazz. O jornalista Amâncio Miguel, que vive em Washington e de lá permanece atento, traça o perfil do saxofonista. A Fundação Fernando Leite Couto é hoje um marco cultural na cidade. Paola Rolleta apresenta-nos esta casa de janelas abertas ao mundo. Adelino Timóteo escreve sobre Berlim, uma belíssima cidade alemã, que se distingue pelo seu cosmopolitismo e a sua reinvenção depois da queda do Muro. É vibrante. Paula Fortes da Cunha fala-nos do Douro, no norte de Portugal: uma beleza absoluta. Maputo, o elogio da cidade, a cidade do jazz e da moda, a cidade que se revela na sua paisagem interior e no exterior do seu jardim emblemático, a cidade do mar índico e das suas coreografias culturais e religiosas, aqui, nestas páginas, como Berlim ou Douro, fazem o roteiro inicial de 2016. Maputo is a superb and splendid city on the shore of the Indian Ocean. It is one of the most beautiful and vibrant of African cities. We begin this issue of Índico with a eulogy to the city. Many people have written about the Mozambican capital, and many others have sung about it. Some have glorified it in photography, in painting or music, in dance or on film. Filipe Branquinho, in “Paisagens interiores” (“Interior Landscapes”) – the title of the book and of the exhibition – undertakes an imaginative celebration of the city. The photographer proposes a journey through the inner city. This faces us with the time and all the experience between its architecture and the way in which we live our daily lives. It is also a look at memory. Images that examine us, challenge us, in their surprising and raw beauty. This is the theme of our main portfolio. Other portfolios: Yassmin Forte and Chico Carneiro. Yassmin revisited the Tunduru Garden. They are one of the jewels of the city. This is also a tribute to the city through the eye and the lens of the photographer: the garden revisited. Chico photographs the maziones (devotees of the Zionist churches), an iconic image of the Maputo shoreline. Also from Chico we have images of beaches in the geography of summer. Photography always enjoys pride of place in our pages. We are publishing other cultural portfolios, one on More Jazz and another on MFW. Moreira Chonguiça has brought us the fifth edition of More Jazz, enrolled definitively on the cultural agenda of the city - Maputo on the road map of the cities which host jazz festivals. The journalist Amâncio Miguel, who lives in Washington and from there remains attentive, draws the profile of the saxophonist. Adelino Timóteo writes about Berlin, a gorgeous German city, distinguished by its cosmopolitanism and its reinvention after the fall of the Wall. It is vibrant. Paula Fortes da Cunha tells us of the Douro, in northern Portugal: an absolute beauty. Maputo, the eulogy of the city, the city of jazz and of fashion, the city that is revealed in its internal landscape, and in the outside of its iconic garden, the city of the Indian Ocean, and of its cultural and religious choreographies, here in these pages, like Berlin or the Douro, make up our initial road map of 2016. Nelson Saúte Editor Executivo Executive Editor 4|

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LAM ASSINA ACORDO COMERCIAL COM A TAAG A LAM - Linhas Aéreas de Moçambique, S. A. e a TAAG – Linhas Aéreas de Angola, rubricaram no dia 12 de Novembro, em Luanda, um acordo comercial – SPA ( Special Prorate Agreement – Passanger) que visa criar facilidades de ligação a preços acessíveis para os passageiros das duas companhias. O acordo, que se enquadra no âmbito da implementação do Plano Estratégico da LAM, permite que os passageiros, por exemplo, com origem em Maputo, possam adquirir as suas passagens, viajando na LAM, para Luanda, podendo, ao mesmo preço, escolher entre regressar a Maputo num voo directo ou via Joanesburgo, no voo da TAAG, e de Joanesburgo até Maputo no voo da LAM. Permite também que, a preço único, o passageiro, por exemplo, com origem em Maputo, possa adquirir a sua passagem na LAM e poder voar na LAM até Luanda e, a partir desta cidade, fazer ligações com o voo da TAAG para destinos domésticos em Angola ou para fora do território angolano, a preço único e acessível. Significa também que a LAM passa a oferecer voos diários a Luanda, sendo dois directos e os LAM SIGNS COMMERCIAL AGREEMENT WITH TAAG LAM – Mozambique Airlines and TAAG – Angolan Airlines signed in Luanda on 12 November, a commercial agreement, known as an SPA (Special Prorate Agreement – Passenger) which seeks to establish connection facilities at accessible prices for the passengers of the two companies. The agreement which forms part of the implementation of the LAM Strategic Plan, allows, for example, passengers starting their journey in Maputo to acquire their tickets on a LAM flight to Luanda and then, for the same price, choosing between returning to Maputo on a direct flight, or via Johannesburg on a TAAG flight, and then from Johannesburg to Maputo on a LAM flight. It allows that, for a single and accessible price, a passenger starting from Maputo can acquire a LAM ticket and fly on LAM to Luanda and then make connections with the TAAG flights to destinations within Angola or outside of Angolan territory. It also means that LAM now offers daily flights to Luanda. Two of these are direct flights, and on the other days of the week the flights are via Johannesburg, with TAAG as the transporting company, without any additional cost for the passenger. 6|

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restantes dias da semana via Joanesburgo, cuja companhia transportadora será a TAAG, sem que isto signifique custo adicional para o passageiro. A coberto deste acordo, os passageiros da LAM com destinos intercontinentais (Lisboa, Porto, Havana, São Paulo, Rio de Janeiro), com destinos domésticos de Angola (Lubango, Malanje, Cabinda, Catumbela, Huambo, Saurimo, Soyo, Ondjiva, Menongue e Luena), bem como com destinos regionais (São Tomé e Príncipe, Lusaka, Brazaville, Bangui, Douala, Praia) poderão fazer ligações a partir de Luanda. Os passageiros oriundos de Luanda poderão fazer ligações, a partir de Maputo, nos voos operados pela LAM para Nampula, Nacala, Pemba, Tete, Quelimane, Inhambane, Vilankulo e, a partir de Joanesburgo, para Maputo, Beira, Vilankulo, Inhambane, Pemba, Tete e Nampula. PNG E LAM ESTABELECEM PARCERIA A LAM - Linhas Aéreas de Moçambique, S. A., representada pelo seu Administrador Delegado, Iacumba Ali Aiuba, e o Parque Nacional da Gorongosa (PNG), representado pelo seu Administrador, Mateus Mutemba, assinaram, no dia 2 de Dezembro, na cidade de Maputo, um acordo de parceria. Este acordo de parceria foi assinado no âmbito do Clube Empresarial da Gorongosa, uma iniciativa que pretende encorajar e envolver a comunidade empresarial moçambicana no nobre esforço de restaurar um dos Parques mais emblemáticos em África e no mundo. LAM RECERTIFICADA PELA ISO 9001:2008 Fruto de excelentes resultados obtidos na auditoria, a LAM obteve a quarta certificação consecutiva ISO 9001:2008 . A ISO 9001 é uma norma internacional que define requisitos para o Sistema de Gestão da Qualidade, e tem como principal objectivo identificar e atender às necessidades dos clientes, ou seja, melhorar continuamente a qualidade dos seus produtos e serviços e a satisfação dos seus clientes. A LAM é certificada na norma ISO 9001 pela SGS – Portugal, desde 2006. As recertificações ocorrem no intervalo de três anos, tendo a última ocorrido em Agosto de 2015. Under this agreement, LAM passengers with intercontinental destinations (Lisbon, Porto, Havana, São Paulo, Rio de Janeiro), Angolan domestic destinations (Lubango, Malanje, Cabinda, Catumbela, Huambo, Saurimo, Soyo, Ondjiva, Menongue and Luena), as well as regional destinations (São Tomé and Príncipe, Lusaka, Brazzaville, Bangui, Douala and Praia) will be able to make connections from Luanda. Passengers starting their journey in Luanda will be able to make connections from Maputo, on flights operated by LAM to Nampula, Nacala, Pemba, Tete, Quelimane, Inhambane, Vilankulo and from Johannesburg to Maputo, Beira, Vilankulo, Inhambane, Pemba, Tete and Nampula. PNG AND LAM SET UP PARTNERSHIP LAM – Mozambique Airlines, represented by its Chief Executive Officer, Iacumba Ali Aiuba, and Gorongosa National Park (PNG), represented by its Administrator, Mateus Mutemba, signed a partnership agreement in Maputo on 2 December. This partnership agreement was signed in the context of the Gorongosa Business Club, an initiative which intends to encourage and involve the Mozambican business community in the noble effort to restore one of the most iconic Parks in Africa and the world. LAM RE-CERTIFIED BY ISO 9001:2008 Thanks to the excellent results obtained from audits, LAM has obtained its fourth consecutive ISO 9001:2008 certification. ISO 9001 is an international standard which defines requirements for the Quality Management System. It has as its main objective to identify and attend to the needs of the clients – or rather to improve continually the quality of its products and services and the satisfaction of clients. LAM has been certified under the ISO 9001 standard by SGS – Portugal since 2006. The re-certifications are done at intervals of three years and the latest took place in August 2015. 8|

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Map “O homem não inventou a cidade; a cidade é que criou o homem e os seus costumes. Urbanidade vem originalmente da palavra latina para cidade. A cidade como a conhecemos foi originada possivelmente na Ásia, entre o sexto e o primeiro milénio antes de Cristo. Mas é na Grécia, onde surge a cidade-Estado ou polis, que a ideia de cidade atingiu o seu auge com o que Aristóteles chamou “uma vida comum para um fim nobre”. Em Roma, criadora do império Romano, a cidade, a própria Roma, edificada originalmente sem plano nem ordem, cresceu até se transformar num modelo de outras cidades criadas à sua imagem e semelhança. Sob os Antoninos, Roma chegou a ter quase dois “Man did not invent the city: it was the city that created man and his customs. Urbanity comes originally from the Latin word for city. The city as we know it possibly originated in Asia, between the sixth and first millennium BC. But it was in Greece that the City-state or polis arose, where the idea of the city attained its peak with what Aristotle called “a common life for a noble purpose”. In Rome, the creator of the Roman Empire, the city, Rome itself, built originally without planning or order, grew until it was transformed into a model for other cities created in its image and likeness. Under the Antonines, Rome came to have almost two million inhabitants, where the rich lived in splendour and the poor in 10 |

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puto a minha de todas as cidades of all cities, this is mine texto text Nelson Saúte fotografia photography Filipe Branquinho milhões de habitantes, onde os ricos viviam em esplendor e os pobres na miséria, criando o que até hoje em dia se chamam ilhas ou solares. Mas a cidade foi destruída mais do que uma vez pelo homem que julgou criá-la. Segundo a lenda, Nero incendiou Roma, mas Roma foi reconstruída e vive até aos nossos dias: a única cidade que é uma lição de história.” Este “Elogio da cidade” não me pertence, furtei-o a um escritor cubano - Guillermo Cabrera Infante - no seu belíssimo “O Livro das Cidades”. Cabrera Infante foi um amante de La Habana e sobre ela deixou-nos páginas inolvidáveis. Morreu em fevereiro de 2005, longe da sua cidade, no exílio de Londres. misery, creating what even today are called islands or mansions. But the city was destroyed more than once by man – man who thought he created it. According to legend, Nero burnt Rome down, but Rome was rebuilt and lives on today: the only city which is a history lesson.” This “Eulogy of the city” does not belong to me. I have stolen it from a Cuban writer - Guillermo Cabrera Infante - in his beautiful “Book of the Cities”. Cabrera Infante was a lover of Havana, and left us unforgettable pages about it. He died in February 2005, far from his city, in exile in London. All of us have a city, our city. Maputo is my chosen Índico | 11

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Todos nós temos uma cidade, a nossa cidade. Maputo é a minha cidade eletiva. Como diria o meu amigo e mestre de ofício Baptista-Bastos: “As coisas devem pertencer a quem as ama”. Maputo pertenceme também porque a amo. Baptista-Bastos é um cronista exemplar de Lisboa, um soberbo escritor da cidade. Aliás, tem um livro – “A Cidade Diária” -, que foi para mim uma espécie de viático para a jornada. Um manual para a escrita. Li-o exultante aqui há trinta anos. Eu sou um amante inveterado das viagens. Utilizoas amiúde para galgar certas cidades. Cruzar mapas, adejar em aeroportos, atravessar longas auto-estradas, alcançar pontes, abraçar rios, contemplar os mares. O ofício de viajante é aquele que definitivamente gostaria de cumprir para sempre. Escrever sobre destinos, sobre city. As my friend and master Baptista-Bastos would say: “Things should belong to those who love them”. Maputo belongs to me also because I love it. BaptistaBastos is an exemplary chronicler of Lisbon, a superb writer of the city. Indeed, he has a book – “The Daily City” -, which was for me a kind of viaticum for the day’s work. A manual for writing. I read it here exultantly thirty years ago. I am an inveterate lover of travel. I use journeys often to reach certain cities. Consult maps, flit through airports, drive down long motorways, cross bridges, embrace rivers, contemplate the tides. The craft of traveller is what I would definitely like to practice forever. Writing about destinations, about places, about the inhabitants of these places, their dreams and despairs, their hopes and disappointments. co lugares, sobre habitantes desses lugares, os seus sonhos e desesperos, as suas esperanças e desilusões. Porque gosto tanto de viajar e de conhecer cidades? Porque tanto me empolgo quando se anuncia uma viagem? E por que razão me emociono quando regresso a Maputo? Não sei dizer. Há algo que não sei traduzir por palavras. Maputo exerce sobre mim um fascínio relutante. A despeito de tudo o que menos gosto nela e que é produto da nossa incúria, da nossa incapacidade de cuidar dela. Da nossa displicência individual e coletiva. Maputo é, naturalmente, bela. A sua paisagem exuberante, o seu esplendor quotidiano. A indisputável beleza das suas pessoas – sobretudo das suas mulheres -, oriundas por vezes de outras geografias, de todas as geografias, mas habitantes assertivas da cidade. Why do I like travelling and getting to know cities so much? Why do I feel so ecstatic when a trip is announced? And why do I become emotional when I return to Maputo? I can’t really say. There is something I cannot put into words. Maputo exercises a reluctant fascination over me – despite everything which I least like about it, which is the product of our negligence, our inability to look after it. Of our individual and collective nonchalance. Maputo is naturally beautiful, with its exuberant landscape, its daily splendour. The indisputable beauty of its people – particularly of its women – who have often came from other places, from all places, but are assertive inhabitants of the city. I am convinced that cities are the spines of unopened books. Just as I love books, in the same way I model my relation with cities in a kind of 12 |

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Estou convencido de que as cidades são lombadas de livros por abrir. Assim como amo os livros, modelo do mesmo modo a minha relação com as cidades, numa espécie de cumplicidade inédita entre a escrita dos textos e a escrita das formas arquitetónicas. São linguagens, modos de dizer e de ser. Percorrer uma cidade é como atalhar uma página, um capítulo, uma lombada. É discretear sobre a fascinante descoberta dos outros. Contudo, devo dizer que o meu amor pela cidade não radica apenas na admiração de estátuas, edifícios ou monumentos. Adoro o bulício das cidades. O rumor que elas desprendem nas suas ruas desconhecidas em que circulamos à sua descoberta. Os labirintos apaixonam-me. Gosto de serpentear as cidades desconhecidas. Como se não tivesse rumo ou destino. Maputo unprecedented complicity between the script of the texts and the script of the architectural forms. They are languages, ways of saying and of being. Passing through a city is like changing a page, a chapter, a spine. It is to look discreetly into the fascinating discovery of others. But I should say that my love for the city is not rooted merely in admiration for the statues, buildings or monuments. I adore the bustle of the cities. The whispers that rustle in their unknown streets in which we move as we discover them. I am in love with their labyrinths. I like to meander through unknown cities. As if I had no direction or destination. Maputo is not a labyrinthine city – it is very predictable in the way that its avenues and streets are organised. But it has a beauty deriving from the fact that it is coastal, it has the não é uma cidade labiríntica, é bastante previsível na forma como as suas avenidas e ruas se organizam, mas tem uma beleza que lhe advém do facto de ser costeira, de ter mar, da sua paisagem – humana, física, natural! Escrevi sobre algumas muitas cidades que visitei. Escusado será relatar aqui o roteiro das cidades que conheço, seria enfadonho e, quiçá, imodesto. Não é isso que está em causa. O que quero dizer quando aludo a estes factos é sublinhar o seguinte: o que mais me impressiona nos lugares que visito são as pessoas. Tento conhecer as cidades perscrutando o olhar dos seus habitantes. Há certas personagens que viajam comigo até hoje e que foram roubadas às suas cidades. Seja em África, ou na Europa, na América Latina ou na Ásia. sea, it has its landscape – human, physical, natural! I have written about some of the many cities I have visited. I shall be excused from listing here all the cities that I know, for it would be tedious and perhaps immodest. That is not what is in question. What I mean when I allude to these facts is to stress the following: what most impresses me in the places I visit are the people. I try to understand cities by scrutinizing the gaze of their inhabitants. There are certain figures who travel with me up until today and who were stolen from their cities, be they in Africa, or Europe, in Latin America, or in Asia. I was born in Maputo, and I have always lived in Maputo, except for the five years I spent in Nacala, in the early days of our independence, the period spent in Lisbon taking my university course, or the exciting Índico | 13

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