F&N#168

 

Embed or link this publication

Description

F&N#168

Popular Pages


p. 1



[close]

p. 2



[close]

p. 3

Ao completar 23 anos, de existência, a MABOQUE orgulha-se de ter conseguido manter-se firme e forte enfrentando e vencendo as adversidades do mundo empresarial. A experiência, tradição, capacidade inovadora e lealdade aos seus clientes tornaram a MABOQUE numa marca incontornável do mercado nacional e não só. Contacte os seus serviços comerciais e inteire-se da variadíssima gama de oferta de serviços no domínio de eventos, catering de aviação e gestão de empreendimentos. s o n a 3 2 a ajudar angola a crescer e a diversificar a economia. Email: maboquecomercial@gmail.com Contactos: 917 409 641/ 934 295 039/ 928 884422 Figuras&Negócios - Nº 168 - DEZEMBRO 2015 3 etniacomunicação

[close]

p. 4

CARTA DO EDITOR C M Y CM MY CY CMY K 4 Figuras&Negócios - Nº 168 - DEZEMBRO 2015

[close]

p. 5

015 chega ao fim e no início dades desiguais com forte pendor para do ano não imaginávamos a crise de valores, o que instiga a esse sequer que ele se vesteria, cenário de violência que hoje se vive como acontece agora, com para Angola isso não pode deixar de a marca da violência a ocu- reflectir quer no seu desenvolvimento par espaços relevantes no económico social, muito afectado pela mundo. Infelizmente é esta a realidade falta de recursos, quer numa governanua e crua que vamos observando a ção nem sempre eficiente na altura de nível mundial onde o radicalismo islâmi- identificar prioridades para o melhor co demonstra a sua sanha agressiva e aproveitamento das potencialidades cruel promovendo o massacre de cida- do País como na sensibilização e vondãos inocentes, se destrõem em nome tades colectivas para um engajamento da religião infra-estruturas de países e mais patriótico e sintonizado de todos se mancha um percurso que deveria na procura de um mundo melhor para ser de paz e concórdia entre os povos se viver. na procura de um mundo com amor Engasgam-se esperanças porque e fraternidade. Da-se por isso mesmo se adiam vontades para se vislumbrar espaço para que as governações te- a curto espaço, um mundo melhor, de nham caminho livre para pouca trans- mais igualdade, de mais justiça e de parência o que se alimenta no mundo melhor compreensão entre os homens, casos flagrantes de alta corrupção mais sejam eles dirigentes ou dirigidos. evidente quando se vive uma crise fiParte 2015 deixando para 2016 um nanceira conjuntural que afecta a vida cenário difícil que pode ser vencido, é dos povos. Emagrece-se os bolsos dos certo, mas desde que haja mais compaíses, aumenta-se a pobreza dos po- preensão entre os homens, mais convos Pulungunza-AF e mais facilmente se criam socie - vivência, DOPPEL imprensa 230x148.pdf 1 17/07/15 15:36 mais diálogo, mais respeito 2 CARTA DO EDITOR pelos direitos e diferenças de cada um. Com esta edição, despedimo-nos de 2015, acreditando que nesta frente da comunicação procuramos cumprir da melhor forma o nosso papel de formar e informar mas com a mágoa de sentirmos e vivermos este mundo violento que atrapalha a paz que já deveria estar enraizada em todos os países do mundo. 2016 recebe o peso dessa carga negativa que todos teremos de gerir para que nesse amanhã hoje ainda distante se possam conhecer melhorias significativas traduzidas num melhor relacionamento entre países, entre governantes de todo mundo, que não se acirre a contradição entre os povos, que se cultive mais transparência, melhor governação e se combata a chaga da corrupção que, regra geral, se infiltra no seio da política para tornar oportunistas muitos ricos e propiciadores de climas de violência, cultivando eles o fosso entre os que querem e têm tudo e os que não têm absolutamente nada. Figuras&Negócios - Nº 168 - DEZEMBRO 2015 5

[close]

p. 6

3. 7. CARTA DO EDITOR PONTO DE ORDEM RESGATE DE VALORES 18. LEITORES QUARENTA MILHÕES DE DÓLARES É MUITO! 21. CRÓNICAS DA ILHA ALCOOLISMO 24. FIGURAS DE CÁ 29. MUNDO REAL 32. CULTURA LUÍSA BAPTISTA ELEITA MISS ANGOLA 2016 35. NA ESPUMA DOS DIAS A IRMÃ QUE ME PUXOU! 36. ECONOMIA & NEGÓCIOS ANÁLISE DO OGE 2016 76. MUNDO FRANÇA RECUSA A EXTREMA-DIREITA 10. PÁGINA ABERTA "OS PROBLEMAS COMPLICADOS DE UMA SOCIEDADE DOENTE" DOSSIER 24. 86. DESPORTO CAPA: BRUNO SENNA O TERRORISMO ISLÂMICO 89. FIGURAS DE JOGOS Figuras&Negócios - Nº 168 - DEZEMBRO 2015 DECISÕES QUE AGITAM O FUTEBOL 6

[close]

p. 7

ÁFRICA 74. CABO VERDE E A TAXA ECOLÓGICA 94. 90. SAÚDE & BEM-ESTAR 100. FIGURAS DE LÁ 104. RECADO SOCIAL UM MURRO NO ESTÔMAGO DOS POBRES Figuras&Negócios - Nº 168 - DEZEMBRO 2015 MODA & BELEZA Publicação mensal de economia, negócios e sociedade Ano 15 - n. º 168, Dezembro – 2015 N. º de registo 13/B/97 Director Geral: Victor Aleixo Redacção: Carlos Miranda, Júlia Mbumba, Sebastião Félix, Suzana Mendes e Venceslau Mateus Fotografia: George Nsimba e Adão Tenda Colaboradores: Édio Martins, Juliana Evangelista, João Barbosa (Portugal), Manuel Muanza, Rita Simões, Ana Kavungu, D.Dondo, Wallace Nunes (Brasil), Alírio Pina e Olavo Correia (Cabo-Verde), Óscar Medeiros (S.Tomé), Crisa Santos (Moda) e Conceição Cachimbombo (Tradutora). Design e Paginação: Humberto Zage e Sebastião Miguel Publicidade: Paulo Medina (chefe) Assinaturas (geral): Katila Garcia Revisão: Baptista Neto Tel: (+-244) 937 465 000 Brasil: Wallace Nunes Móvel: (55 11) 9522-1373 e-mail: nunewallace@gmail.com Inglaterra (Londres): Diogo Júnior 12 - Ashburton Road Royal Docks - London E16 1PD U.K Portugal: Rita Simões Rua Rosas do Pombal Nº15 2dto 2805-239 Cova da Piedade Almada Telefone: (00351) 934265454 Produção Gráfica: Imprimarte (Angola) Cor Acabada, Lda (Portugal) Tiragem: 10.000 exemplares Direcção e Redacção: Edifício Mutamba-Luanda 2º andar - Porta S. Tel: 222 397 185/ 222 335 866 Fax: 222 393 020 Caixa Postal - 6375 E-mails: figurasnegocios@hotmail.com artimagem@snet.co.ao Site: www. figurasenegocios.co.ao Facebook: Revista Figuras&Negócios Angola 7

[close]

p. 8

8 Figuras&Negócios - Nº 168 - DEZEMBRO 2015

[close]

p. 9

A INTENÇÃO E A COERÊNCIA N Victor Aleixo victoraleixo12@gmail.com PONTO DE ORDEM ão sei o que os dirigentes do MPLA, o partido político que há quatro décadas governa o País, pretenderam com o pronunciamento feito na recente reunião de quadros realizada em Luanda de que era chegado o momento de se acabar com a discriminação de quadros no País quanto a remuneração que geralmente redunda em pagar-se salários chorudos a estrangeiros e valores minguados a nacionais mesmo que a decalage em termos de saber seja grande à favor dos segundos. O que sei é que a sociedade, de forma geral, agastada com a situação que se arrasta desde há muito, aplaudiu mas demonstrou vontade de acompanhar os próximos capitulos na mira de mudanças radicais que possam atenuar um certo descontentamento que, em muitos casos, já não se pode esconder. Pessoalmente não acredito em mudanças imediatas nesse comportamento infelizmente apadrinhado, em grande parte, por instituições e pessoas do cimo da pirâmide da governação, porque ao longo de todo esse percurso desde que Angola é País fomos assistindo a esse endeusamento do quadro estrangeiro em detrimento do nacional, um comportamento que deixa a nu um complexo de pensamento neo-colonialista daqueles que, chamados a desempenhar cargos de responsabilidade no governo, deveriam vestir a roupa patriótica e saber que na construção de uma nação é importante, senão mesmo primordial, que os principais actos sejam feitos primeiro na defesa dos interesses nacionais. Não sendo assim, de forma geral, o que assistimos é a criação de uma sociedade de comportamento mercantilista onde, também nesses casos os angolanos que decidem, mesmo respeitando as excepções, encontram no gesto, de se beneficiar o estrangeiro mesmo sem se aquilatar da utilidade das suas capacidades técnicas, uma forma de se ganhar dinheiro. Já não dá para acreditar que uma série de casos nesse sentido, que conformam manifestação de rombo descarado ao erário público sem contrapartidas absolutamente nenhumas para o desenvolvimento do País, se realize apenas por certa ingenuidade de quem a pratica. É verdade que não se consegue esconder a manifestação de descontentamento que a situação acarreta pelo que é mais fácil acreditar que, em função dessa situação, o MPLA decidiu abordar publicamente o problema mas escapa a ideia de que ele, enquanto Partido que governa Angola há quatro décadas, e quer continuar, parece não ter soluções eficazes para liderar a mudança que se impõe precisamente por estar em evidência uma falta de coesão no seu seio. Não se sente, e é preciso dizê-lo com frontalidade, uma firmeza e coerência de pensamento e principios no seio de um Partido com larga presença na governação capaz de alimentar a esperança séria de mudança desse estado de coisas. Fica-se com a ideia que se está mais diante de uma posição de bancada, ou seja, com laivos populistas para porque não se vislumbra alguma estratégia de como o MPLA, com responsabilidades directas no rumo da governação, quer gisar mudanças. Na verdade, o que mais facilmente se evidência é o apadrinhamento de uma política do militantismo de cartão, por isso uma aposta na quantidade dos membros que possam ingressar no partido dirigente sem se cuidar com a qualidade dos quadros para melhor se motivarem e, em consequência, o seu engajamento nas tarefas que se prendem com o desenvolvimento do país se realizar de forma mais entusiasta e benéfica. No momento em que o país reclama por um aperto generalizado dos cintos para melhor se enfrentar os problemas decorrentes da crise económica e financeira que se vive, este poderia ser um bom cenário para a mudança de mentalidades e de acção com o exemplo à partir daqueles que nos governam. Figuras&Negócios - Nº 168 - DEZEMBRO 2015 9

[close]

p. 10

10 Figuras&Negócios - Nº 168 - DEZEMBRO 2015

[close]

p. 11

Figuras&Negócios - Nº 168 - DEZEMBRO 2015 11

[close]

p. 12

PÁGINA ABERTA DESTAQUE O ano está a terminar e, nesta altura repetimos as reportagens sobre o Natal e o final do ano. Muitas vezes esquecemo-nos que falar da harmonia destas datas, é hipocrisia, quando não pensamos nos maus momentos que fizeram parte do nosso ano e sobre os quais devemos reflectir como forma de preparar melhor o seguinte. Antes de atermo-nos pensarmos em comemorações e festejos, urge pensar no ano que se avizinha, pegarmo-nos numa grande reflexão sobre o ano que agora termina. E diga-se em abono da verdade, 2015 foi recheado de atropelos com vários fenómenos que surgiram na sociedade. Ao longo do ano, falamos de problemas como a falta de energia eléctrica e água potável, corrupção, o acesso à educação e saúde, e embora se conheçam pulos significativos nestas áreas, é importante sabermos que antes de tudo, existem entre os jovens questões que precisam de ser vistas com olhos clínicos, como é o problema do respeito e Amor ao próximo. Problemas que têm sido deixados para trás mas que precisam de ser vistos como muito sérios. A mentalidade jovem precisa de transformação de forma que ainda se consiga arranjar um porto seguro para onde se leve o barco que quase se afunda. Através de uma conversa com dois especialistas bem conhecidos da nossa praça social conheçamos um bocado mais a fundo os fenómenos com que a sociedade convive hoje, como forma de pensarmos cada um na mudança que só assim, caminharemos para o real resgate de valores que a sociedade angolana precisa. Uma conversa que sem ser propriamente uma entrevista, atrevi-me a chamar-lhe um “atiçar as feras” num debate animado com os psicólogos João Paulo Ganga e Maria da Encarnação Pimenta Texto: Júlia Mbumba Fotos: Arquivo F&N F iguras & Negócios (F&N) - Balanceando o ano de 2015, olho para a realidade social angolana como uma realidade caótica. Parece-vos exagero? João Paulo Nganga (JPN): Primeiro, devemos pensar que vivemos numa sociedade completamente nova, onde os valores, os costumes, as práticas, os pensamentos e acções da nossa sociedade, não têm nada a ver com a sociedade que tínhamos há 10 anos. O país mudou completamente, do ponto de vista social, do pensamento e das práticas. As pessoas que temos hoje, não têm nada a ver com a geração que as precedeu. Portanto, as respostas que vamos ter de encontrar, hoje, são completamente novas para problemas completamente novos também. Só pensarmos na diferença que existia entre jovens e velhos, hoje esbateu-se. Porque hoje os jovens têm acesso à muita coisa que as pessoas antes tinham apenas na idade adulta, tanto em termos de entretenimento, relações afectivas, trabalho... A posição que um mais velho outrora levava muitos anos para ter, é hoje dada a um jovem em dois tempos. Deixamos de ter a sociedade tridimensional, que era nascimento, vida e morte. Pulamos etapas e o nascimento, a vida e a morte hoje podem acontecer num único dia. Portanto, a dinâmica social apresenta-se de tal ordem que nos leva a repensar tudo. Por isso é que devemos ter cuidado, para que as respostas que tínhamos no passado, não sejam as mesmas. A título de exemplo, pensemos num jovem de 25 anos, recém formado e director de uma grande empresa. Hoje acontece, antigamente havia a progressão da carreira, aprendizagem, experiência. Portanto, havia a maturação laboral, e hoje há catapultação de jovens a posições chave. A realidade, hoje, vai implicar que tenhamos uma sociedade diferente, e assim vamos ter que aprender a conhecer e lidar com a nossa sociedade, e visto não termos muitas respostas ainda, estamos todos a viver o processo de aprendizagem. Encarnação Pimenta (EP): As pessoas estão a viver uma situação de mudança brusca, fundamentalmente relacionada com a situação económica. É importante contabilizarmos estes problemas que vivemos com papel e lápis, porque só assim, podemos medir o somatório do peso que temos nas nossas costas. O problema da falta de água, falta de energia... e, mesmo, o problema económico que entrou de uma forma invasiva, encontrando, todo mundo na contramão, afectaram directamente a vida das pessoas. F&N - João Paulo, o que afinal estamos a fazer da nossa socieda- PSICÓLOGOS JOÃO PAULO GANGA E ENCARNAÇÃO PIMENTA “OS PROBLEMAS COMPLIC 12 Figuras&Negócios - Nº 168 - DEZEMBRO 2015 DE UMA SOCIEDADE D

[close]

p. 13

PÁGINA ABERTA de?! O que é isso de aceitação? Afinal aquilo que é transportado para a nossa sociedade, que até não tem nada a ver com a nossa angolanidade, devemos aprender a conviver? JPN: Aceitar apenas que a sociedade é dinâmica. Agora a questão colocada da defesa da nossa identidade é muito importante. Nós temos uma personalidade própria como angolanos, e somos as pessoas que mais atacamos esta personalidade, porque não temos a ideia da valorização do que é nosso, ou seja, é mais fácil valorizarmos o que vem de fora, do que aquilo que é nosso. Se pensarmos na escola como instituição fundamental, o saber produzido nas nossas escolas, não é tão valorizado como o saber produzido nas escolas do estrangeiro. Portanto, para defendermos o conhecimento da nossa sociedade, teríamos de valorizar a nossa escola, dotá-la de conhecimento, apetrechá-la, fazer dela uma escola moderna. Mas nós procuramos sempre que possível ir frequentar as escolas no estrangeiro. E, depois, quando viemos do estrangeiro, não apetrechamos o conhecimento dessas mesmas escolas, acabando por esvaziar a nossa própria escola, que é o principal factor de sociabilização. Vejam que o kuduro, criado como manifestação angolana, há 10, 15 anos, já não é o mesmo hoje. Os angolanos que vieram da África do Sul e Namíbia, foram lhe juntando ao afrobeat, e hoje já nem sabemos distinguir o que, na verdade é kuduro ou não. As nossas novelas, são uma réplica do que passa no Brasil, por exemplo, a sexualidade, a forma de vestir... nós hoje deixamos de defender a nossa própria identidade. Quer dizer, fazemos questão de querer fazer como os outros fazem, esquecemo-nos de fazer imperar o que é nosso. Até as igrejas, que pregavam o discurso do evangelho, da boa nova e do Amor ao próximo foram deixadas para trás, em detrimento de um discurso da necessidade. E as pessoas, hoje, perderam a noção da solidariedade e vivem egocéntricas. Se olharmos para as prisões domiciliárias que hoje vivemos, vemos que cada um sabe apenas de si e acabou. A guerra terminou há 13 anos, mas as pessoas continuam fechadas dentro das suas casas, e isso não faz parte da nossa cultura. Nós somos de cultura aberta, em que as famílias devem se cruzar..Mas agora, não há transmissão de testemunhos entre mais velhos e mais novos, as pessoas têm vergonha de falar a língua nacional. Nós hoje fazemos apologia do valor capital, quem tiver isso e aquilo, está inserido na sociedade, e quem não tiver vive à margem. Mas essa sociedade, é de valores, de mitos, culturas, sonhos... mas os angolanos são os maiores impulsionadores da aculturação, infelizmente. Um exemplo que dou é a página do Jornal de Angola que fala sobre as pessoas. E quase no fim, pergunta-se às pessoas: Defende a homossexualidade? E a resposta é, defendo. Defende a poligamia? E esta é, não! F&N - Impensável, se calhar há uns vinte anos, que uma sociedade como a nossa fosse defender antes a homossexualidade do que a poligamia? JPN: Pois, as pessoas para quererem estar bem, preferem defender uma aberração que é a homossexualidade, do que dizerem que é normal o Homem ter muitas mulheres, desde que assuma e as respeite, que faz parte da nossa cultura. A cultura homossexual que temos estado a impor- DOENTE” Figuras&Negócios - Nº 168 - DEZEMBRO 2015 13 Foto de: João P. Nganga CADOS

[close]

p. 14

PÁGINA ABERTA DESTAQUE tar mostra o medo de nos assumirmos e dizer que é cultura errada e que não nos pertence. Portanto, nós angolanos temos medo de sermos nós próprios dentro do país. Medo de nos assumirmos. As pessoas vão percebendo que ser angolano não dá lucro e enveredam para as batatas fritas, em vez do funge, do inglês, em vez das línguas nacionais. F&N - Falemos senhora Psicóloga do fenómeno amantes que a nossa sociedade hoje vive, e que é entendido como poligamia? A sua obra intitulada “Amantes, concubinas ou esposas”, espelha uma poligamia secreta. Porquê viver ela secreta se faz parte de nós? EP: Foi exactamente por isso que escrevi esse livro. Eu gostaria que a sociedade toda lê-se, e compreendesse o fenómeno, que para mim tem várias explicações. Aliás, o livro tem um subtítulo, que é “uma poligamia sincrética, secreta. Uma poligamia desestruturada”. Porque nós nunca tivemos casamentos monogámicos; os casamentos em África, em Angola, são sempre poligâmicos; ou seja, sempre houve poligamia. Ela está desestruturada. Porque o casamento monogámico é apenas uma imposição da igreja católica, inclusive eu ponho lá um histórico sobre isso. Na altura, procurei uma grande figura que desenvolvia bem este tema, o falecido Mendes de Carvalho. Trago muitas informações que ele me deu a respeito da poligamia que o próprio defendia. Tudo para dizer que o fenómeno não é bem o que pensamos. No final do meu livro, ainda deixo um conselho ao Estado angolano, isso para acabar com a poligamia, se quiserem. As cartas de pedido devem ser levadas a conservatória para serem reconhecidas, porque se assim for, é reconhecido o casamento tradicional, que é por excelência, para nós angolanos e africanos, o casamento fundamental. Você pode ir agora aos EUA ou a Inglaterra casar-se, mas quando chegar aqui, aos olhos do angolano, você não casou. Você traz um documento de lá mas que aqui não vale nada. O sincretismo nos casamentos é, de facto, essa mistura que há. As pessoas vão à igreja, vão à conservatória, dão tanto show, mas, no fundo, o Homem está a pensar como polígamo. Que, depois de dois ou três dias, ou volta para a namorada antiga ou vai apanhar a primeira rapariga na esquina. Mas o meu livro também fala da Mulher, que hoje temos milhentas senhoras casadas, até pela igreja que têm os seus amantes, por razões várias, como é a questão dos assédios sexuais nos serviços, retaliação porque o marido andou com A, B ou C, a questão do poder económico... Em resumo, nós não temos monogamia no país, simplesmente, desde 1933, altura que os casamentos foram obrigados, pareceu ser que as nossas mães, foram felizes porque só tiveram um marido. E aconselho mais a todos os jovens, leiam o livro de Mendes de Carvalho, que se chama “Ritos especiais”. Esse explica muito bem como aparecem, também, os casamentos pela igreja e a não aceitação, na altura, por pessoas cristãs, alguns até eram catequistas... Nós não somos uma ilha em África. Somos mesmo africanos, e eu vou ser franca, todos os homens angolanos pensam como polígamos. Fingimos que não sabemos, mas sabemos perfeitamente o que os nossos maridos fazem na rua, e é um orgulho para nós mulheres angolanas, sabermos que o nosso marido é viril. Como recebo casos aquí no consultório de mulheres que se entristecem e acham anormal que os maridos não saiam de casa, ou não sabem que o marido tem uma namorada! por isso digo, é patológico, faz parte da cultura... A mulher angolana gosta de ouvir dizer que o seu marido tem outras namoradas e sentir-se ameaçada. E a realidade está no caso apelidado de Gindungo, onde um Senhor casado, aparece no tribunal diante de uma história cabeluda com a “amante”, com quem tem um filho. É desestruturada porque são casos escondidos e que as pessoas fingem não aceitar, mas que ela existe, existe. Muita gente anda aí muito bonito, abraçados na tv e revistas, mas em casa, nem se falam. Andam abraçados apenas por causa dos cargos e dos dinheiros. Como não entrar a palavra “amante” nesta relação? F&N - E agora queremos perceber da psicóloga de onde vem este crescimento da homossexualidade na nossa sociedade? EP: A homossexualidade não tem só um factor hormonal, como se quer justificar. Uma parte de facto tem a sua génese na questão biológica. Mas as orientações sociais para este ou aquele comportamento são também uma reali- 14 Figuras&Negócios - Nº 168 - DEZEMBRO 2015

[close]

p. 15

PÁGINA DESTAQUE ABERTA dade. Relativamente à questão das violações, as pessoas que são violentadas na infância, sobretudo por membros da família, dependendo da forma como foi o primeiro acto sexual, podem, de facto no futuro enveredar para a homossexualidade. Não é aleatório, mas tenho muitos casos desses no meu gabinete. Muitas meninas até acabam por ter filhos mas depois deixam de sentir prazer por relações heterossexuais e mudam de orientação. F&N - Indiscutivelmente, as línguas estrangeiras são hoje factor importante para um bom emprego e/ou outras aberturas. Mas aí está, vamos aprender o que é do outro, o que começamos de muito novos, sem sabermos o que é nosso? Olhamos à nossa volta e, todo o africano, fala pelo menos uma língua Bantu, o que é raro acontecer em Angola.. É triste olharmos para os resultados da valorização que damos às línguas nacionais. Mas é verdade que não é bem um problema actual... JPN: Isso é problema das elites. Ou seja, as elites que assumiram o poder em Angola, recusaram as línguas nacionais. Há uma mentalidade, que é herança do colonialismo, de que Angola é uma ilha isolada em Africa. E essa mentalidade fez-nos pensar que somos portugueses de Angola, falar a afinar, seria um passaporte para a modernidade, e as línguas nacionais, seriam o resquício de um passado selvagem, menos desenvolvido. Portanto, era importante libertarmo-nos. A independência em vez de fazer esse corte umbilical com a assimilação, aumentou, ou seja, quanto mais assimilada for a pessoa, nos seus costumes, hábitos e linguagem, mais prestígio social tem. Mas não encontramos esse problema apenas na linguagem, mas na tonalidade da pele, por isso é que temos o problema do complexo de inferioridade no país. Pessoas escuras a quererem ficar claras, pessoas escuras que querem casar com mulatos ou brancos, porque acham que existe um adiantamento da raça.. portanto, este fenómeno vem das elites que institucionalizaram, não de forma oficial mas nas suas práticas, este conceito. Em qualquer país do mundo, normal, as línguas são a envoltura material do pensamento, vê-se aí o peso da civilização. Portanto, as línguas são uma riqueza. Já entre nós, dizem as elites erradamente, que as línguas nacionais são factor de desunião. Mas como? Se a diversidade é que une as pessoas? Nós em África somos realmente mal olhados, andamos isolados e não pensamos como africanos. O que, a prazo, vai trazer-nos muitos problemas. carência afectiva. Este comportamento do angolano, de se querer afirmar, aparece como compensação. É como um bebé. De manhã, depois do banho dado, vestidinho, papinha boa, ele tem ainda a necessidade de brincar. A mãe, que não pode porque tem ainda a lida da casa por fazer, pega em muitos brinquedos, de várias cores e espalha pelo chão. Estes objectos, são todos de compensação, não é a mãe! As pessoas, apesar das várias perdas que tiveram, receberam várias novidades. E se você for fazer um estudo, as pessoas que se comportam dessa maneira, vêm de um passado carente. Muitas mesmo nascendo na cidade, sempre comeram massa com massa, ou arroz com arroz. Não estou aqui a ofender ninguém, estou a falar da realidade. Ora, quando as pessoas têm as coisas ao seu alcance aparentemente, querem apenas obter de qualquer maneira. Ponho-a à prova: Ponha-se em frente a uma rua com várias montras, e olhe a maneira como um europeu passa por elas e a maneira diferente que o angolano passa. As pessoas procuram compensar os traumas e carências nos bens materiais; e outra questão muito patente, é o querer aparecer. Nós angolanos, em vez de mostrarmos individualidade no saber e naquilo que podemos fazer para mudar a sociedade, procuramos aparecer de uma maneira triste. Não é à toa que ouvimos muitas vezes a questão: “Quem pensas que sou?”.. Ou em muitos óbitos de ministros e outras individualidades, pessoas que nem sequer conheciam o falecido, e se dão o desfrute de aparecer, para “aparecer”, para vender imagem. Eu fico perplexa com esta atitude. Não podemos ter um grande carro quando nem lugar para estacionar temos, por isso vemos pessoas a viverem dentro dos carros. Dar festas de muito dinheiro e no dia seguinte, ir pedir sal à vizinha; ou, mesmo, dar festa de casamento no valor de 10 milhões de kwanzas, quando nem sequer casa para viver os nubentes têm. Por outro lado, chamo aqui atenção, principalmente às meninas, para terem muito cuidado. Muitos homens, esses "papoides" como são carinhosamente chamados, têm doenças e é-lhes imposto envolverem-se com crianças, e, então, eles dão esses carrões e outros adornos caríssimos, sim senhor, mas para deixar-vos cheias de doenças. Em qualquer país do mundo, normal, as línguas são a envoltura material do pensamento, vê-se aí o peso da civilização. Portanto as línguas são uma riqueza. Já entre nós, dizem as elites, erradamente, as línguas nacionais são factor de desunião. Mas como? Se a diversidade é que une as pessoas? ” “ F&N - Mas essa questão de elites, é relativa. Sinceramente, não se percebe o que forma as elites na sociedade angolana. Hoje em dia, queremos todos fazer parte da elite. Não existe diferenciação nenhuma nas classes sociais.. JPN: É o desespero da participação social. As pessoas querem participar em grupos. O grupo que vem sendo uma forma de afirmação... Quando o grupo dominante tem uma postura, quer todo mundo fazer parte dele. Ninguém quer ser derrotado, ninguém quer ser perdedor. E hoje, o soberano das relações é o capital, e é ele que apagou a distinção das elites. Não interessa de que maneira, o importante é ter. Por isso se debate essa questão dos valores. Hoje em dia se eu roubar e enriquecer, as pessoas não querem saber. Vender droga se for para me enriquecer, "tá" tudo bem. Interessa fazer parte do mundo do capital. E a partir daquele momento, estou nas elites e aí sou respeitado e aceite por todos, ostento um prestígio. Quer dizer, vivemos numa selva de pedra; na sociedade do vale tudo. Tem de se resgatar as Instituições que eram as famílias, as igrejas e as escolas.. Porque não podemos avançar sem referências, principalmente as morais. EP - Existe uma necessidade muito grande de auto-realização. E esta necessidade é como quando temos uma Figuras&Negócios - Nº 168 - DEZEMBRO 2015 15

[close]

Comments

no comments yet