A Luz Difusa do Abajur Lilás e a Eterna Rosa Vermelha - Contos e Crônicas

 

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Contos e Crônicas de Renato Baptista

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Dezembro 2015 1

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Índice 03 – Prefácio 04 – CONTOS 05 - Madeleine... A Luz Difusa de Um Abajur Lilás e a Eterna Rosa Vermelha. 11 – Alvoroço no Galinheiro 13 – Por que existe Ópera? 15 - Conto do Canto de Uma Sereia 16 – Aconteceu no Recife 18 - O Menino Eternamente Perto de Um Sonho 19 – Conto Minimalista – Entrega 20 - Pânico Entre os Amantes 21 – A Ponta da Praia 22 – Holografia 23 - CRÔNICAS 24 26 27 29 29 31 32 35 - Comunicado Importantíssimo... E triste – Sonhos de Criança – Confraternização ou a Solidão da Leitura – “Eita” Língua Difícil a Nossa... - Ídolos do Futebol – Espécie em extinção? – Crônica sobre o Amor e a Tecnologia – Crônica sobre o telefone – Lixo Literário na Internet 39 - Créditos 2

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Prefácio Acredito que, desde que comecei a escrever, além dos poemas, já escrevia crônicas. Não sou lá um grande craque nisso, mas me viro bem, até que assumi colunas semanais em sites que falavam de futebol. Bem, isso sim foi um aprendizado, porque os leitores desse segmento não nos poupam mesmo... criticam, xingam, odeiam, e outros amam de paixão tudo o que se escreve, o que é exatamente tudo o que se espera quando o assunto é futebol. Confesso que uns 3 anos nesse fogo cruzado me ensinaram bastante sobre o assunto. Nisso, continuei a escrever alguns contos, dos quais particularmente, eu nunca gostei muito... achava que faltava ideia, determinação, conteúdo, mas isso tudo era consequência do meu senso crítico apurado demais e honesto. Foi aí que, de tanto perseguir o aprendizado, resolvi participar de um grande concurso nacional sediado lá no Rio Grande do Sul e que aceitava inscrições de poemas e contos. Muito bem, poemas eu tirava de letra (faziam parte do meu dia a dia) e mandei logo 3, sendo que um deles eu tinha certeza que estaria entre os 3 primeiros colocados... olha a confiança. Para o item “Contos”, mandei 2, pois sabia que seria apenas participação e mais um aprendizado. Foram uns 3 meses esperando a resposta e no fim uma surpresa incrível... meus 3 poemas nem passaram perto da final e um dos contos ganhou o 3º Lugar do concurso entre milhares de contos vindos do Brasil inteiro . Ele está aqui nessa coletânea, é o “Alvoroço no Galinheiro”. A partir desse dia resolvi que vou escrever e só, parei de julgar meu próprio trabalho, porque esqueci, no meio de toda a turbulência do concurso, que a comissão julgadora, pela característica do concurso deveria ser formada por poetas (escritores) clássicos, daqueles que escrevem com rimas e métrica e todo um gesso com o qual eu não combino... minha poesia é mais aberta, escrita com versos soltos, versos brancos e com detalhes nada acadêmicos. Dancei no resultado dos premiados em Poesia, mas aprendi muito sobre o “escrever”... o que era tudo o que eu queria, na verdade. Neste livro eu coloquei alguns contos, sempre estudos que faço, exceto “Madeleine”, que tende a ser um roteiro que cabe numa minissérie para TV ou algo assim. Nesse eu acho que me superei e estou focadíssimo para escrever a continuação. Tomara que eu consiga. Os outros trabalhos são crônicas que fui escrevendo nesse tempo, mas não escolhi nenhuma das que eu publicava na mídia esportiva, pois era um trabalho direcionado, temporal e específico. Espero que gostem. Renato Baptista 3

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Contos 4

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Madeleine... A Luz Difusa de Um Abajur Lilás e a Eterna Rosa Vermelha. Capítulo 01 – O Sonho Estávamos nos idos de 1946, pós-guerra na Europa. Um território destruído pela ambição humana, mais uma vez, iniciava a sua reconstrução. Madeleine Morgan, nascida e criada na Inglaterra, morava em Ashford, na Kent Avenue, 05, em um sobrado de tijolinho aparente com a porta pintada de branco, quase esquina com a Magazine Road, perto de uma rotatória. Ela havia sofrido com as agruras do conflito como todos os Europeus, tendo perdido seus pais, tios e irmão nesses anos de fogo e tormenta. Hoje o seu lar está reconstruído graças a seus esforços e a seu trabalho incessante numa fábrica local. Madeleine havia conhecido David Justin Keagan um pouco antes do início da guerra, em 1938, em Canterbury, cidade natal dele, pois fora visitar amigas durante férias que ela tirara na fábrica de bolsas onde trabalhava. David morava na St. New Ruttington Lane, 09, em um sobrado que acabou por ser o refúgio do amor mais lindo de que já tivemos notícias; amor daqueles que as histórias não conseguem contar por inteiro, e assim eles se amaram como ninguém nunca havia se amado a partir daqueles dias. Após visitas intensas naquele meio tempo, a guerra os separou, pois David foi convocado para servir na Royal Air Force, como piloto de avião caça (Spitfire MK IV), sendo que ele completou, até o final da guerra, 23 missões e abateu 17 aeronaves inimigas sem nunca ter sido atingido seriamente. Foram dias, meses incontáveis em que se correspondiam e não conseguiam se encontrar, exceto na semana do Natal de 1941, em Londres, onde puderam matar a saudade que o conflito gerava. Durante a guerra, Madeleine ficou na Capital durante muito tempo trabalhando na produção de armamentos e depois na cruz vermelha como enfermeira, por isso que se encontraram por lá e passaram duas semanas magníficas juntos. Nunca se ouviu, na Grã Bretanha, tanta história contada como naquele pequeno período. David era sempre enviado para frentes diferentes e passou a fazer parte do corpo de treinamento dos pilotos que iriam, junto com os aliados, impor a contraofensiva final da guerra na Europa com a tomada de Berlim. Os anos se passaram, a guerra terminou e iniciou-se o processo de reconstrução da Europa. As cidades estavam destruídas, os lares exterminados, as famílias dilaceradas, os corações embotados de 5

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tristeza e assim, agonia era o que se via, mas a vida tinha que continuar, porque o Japão se rendia após as bombas de Hiroshima e Nagasaki e a grande guerra chegara definitivamente ao fim. O sonho de Madeleine e David era o de fixarem residência no sul da França, numa cidade onde antigos parentes de Madeleine haviam deixado uma propriedade que, por presente divino, não havia sido destruída nesses anos de desatinos e crueldade. Há muito eles combinavam que iriam se casar e viver o resto de suas vidas por lá. David estava em Londres onde preparava os documentos para sua mudança e o plano era que ele fosse de avião para Ashford, para onde voltara Madeleine, e de lá rumassem por trem até Dover, de onde sairiam, atravessando o canal da Inglaterra até Calais, na França, e depois viajariam de carro pela autovia L’Autorute des Anglais até Thérouanne – Rue de Boulogne, 37, que era o endereço dos sonhos dos dois. Uma vida os esperava, definitivamente e para sempre, contemplando o amor construído em tempos difíceis e que sobreviveu a tudo por ser eterno e verdadeiro. Um amor que veio de outras vidas e naquela época se reencontrava em meio a turbulência absurda que contrastava com os sentimentos dos dois. Madeleine havia vendido a sua casa e livrou-se de todos seus bens, pois iria constituir família e nova vida a partir de agora com David, que já fizera o mesmo. Capítulo 02 – A Realização e a Realidade Chegara o dia finalmente. Dia 07 de Janeiro de 1946, 17:00hs, hora do chá quente com um pingo de leite, e Madeleine chegou à estação de trem de Ashford, onde se encontraria com David. Ele viria de avião de Londres e eles se encontrariam na estação para embarcar no trem 724, das 19:00 hs, com destino a Dover. Chovia muito lá fora e o frio era gélido, flocos brancos de neve brindavam o encontro que estava por acontecer. A noite começava a cair, escurecia, e Madeleine estava em pé ali na plataforma acompanhada por sua paixão, por seu destino e por todos os seus sonhos. Os minutos passavam e as suas mãos suavam dentro das luvas de couro marrom com pele de carneiro no interior, tal ansiedade que a cercava. O tempo, nosso inimigo, às vezes, não colaborava e o relógio da estação anunciou 18:40 hs. Finalmente o trem 724 chegou à estação e passageiros desceram apressada e conturbadamente. Madeleine em pé na plataforma, coração acelerado, aguardava David enquanto o último aviso de partida foi dado pelo maquinista através de um apito longo. O mais longo da vida de Madeleine. David não aparecera. No rosto de Madeleine via-se escorrer uma lágrima solitária como ela naquele momento enquanto o ruído da partida da composição tomou conta da estação. O trem se 6

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distanciava ruidosa e decididamente com as poltronas 23 e 24 do 3º vagão vazias, escondendo a tristeza e o desconsolo. A estação, agora vazia, aguardava o próximo trem, o destino? Não importava. No guichê de passagens, Mark Costner, o vendedor de tickets, cochilava a ponto de roncar. Ele e suas sobrancelhas grossas, tez clara e pele do rosto enrugada pelo frio constante a que se expunha ali no ambiente do seu trabalho. Dormia a estação naquele momento e Madeleine desolada, sofria o seu inconformismo. Ela estava quase congelada pelo vento do sofrimento que percorria a plataforma. Sua boina bege de lã segurava os cabelos castanhos que em parte viajavam com a brisa forte, fria, cortante, e os seus cachos se misturavam ao seu cachecol na mais longa e triste das esperas. Outro expresso começava a se anunciar e parou na estação. E depois outro, e outro, e as pessoas apressadas entre malas e volumes desviavam de Madeleine que mantinha junto aos seus pés a sua mala preta enquanto apertava contra seu peito uma valise de tecido cinza. Na valise, as cartas de David; as cartas que contavam a história de um grande amor, seu único bem e que se misturavam às recordações, presentinhos, que ele lhe enviava constantemente das cidades onde estivera. Madeleine permanecia estática e o barulho gritante da partida do último trem daquela noite junto com o vapor que se levantava a partir dos trilhos polidos fez com ela abrisse seus olhos castigados. A plataforma estava novamente vazia e David não estava lá. Não havia notícia dele. A estação fecharia às 00:00 hs pontualmente, pois as viagens haviam sido suspensas pela defesa civil em função de uma forte nevasca que assolaria várias cidades da Grã-Bretanha, com ventos de 130 Km/Hora. Todos deveriam se recolher às suas casas, era o aviso, mas Madeleine não tinha mais casa, sua casa era a espera, e assim, o tempo deixara de existir. No momento exato em que o relógio da estação marcou 23:38 hs, ela vagarosamente se virou, esboçando uma réstia de vida, e viu encostado na parede um banco azul, já com a pintura meio descascada. Ela abaixou para pegar sua maleta e depois caminhou vagarosamente até o banco e sentou-se. O frio era intenso ao extremo e seus olhos se fechavam. As pálpebras enrijecidas tornavam o ato dolorido até. Ela tremia compulsivamente e seu rosto assumia o contorno das lágrimas congeladas pelo vento. Madeleine sobrevivia naquele momento apenas. Ela não estava bem. Meia noite em ponto e a estação foi fechada. Mark não havia percebido Madeleine sentada ali naquele canto. Todos haviam ido embora e ela foi esquecida com seus pensamentos e o seu amor latente e tão distante. Algo havia acontecido, ela sentia. Em determinado momento um tremor extremo percorreu o seu corpo cansado e sofrido que a tosse ininterrupta castigava. Contrações aceleradas a perturbavam e seus olhos se reviraram nas suas órbitas. 7

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Suas mãos se abriram e deixaram cair no colo e depois no chão a sua valise cinza, onde morava a memória de David. Madeleine estava fraca e nunca havia sido curada da grave infecção pulmonar que adquirira nos tempos da guerra e assim, naquele momento, ela partiu levando a sua angústia e todo o seu desespero. Sua cabeça pendeu por cima do ombro esquerdo, os braços caíram pelo corpo e não houve reencontro e nem despedida. No seu semblante um mistério. Seus lábios esboçavam um sorriso. Capítulo 03 – O Reviver Na manhã seguinte, o trem 724 chegou ao seu destino determinado. Acordou Dover com seus guinchos e apitos ensurdecedores. Muita gente na plataforma de desembarque, confusão, idas e vindas, bagagens e os passageiros continuavam a se levantar das suas poltronas, pegando seus pertences e se preparando para descer dos vagões. Quase no final do tumultuo, ali no vagão 03, nas poltronas 23 e 24, permanecia sentado um casal. Eles descansavam calmamente, sem tempo, enquanto outras pessoas se aglomeravam. Eles se olhavam doce e apaixonadamente e suas mãos se apertavam e dedos entrelaçados trocavam segredos. Era um momento de encanto onde alma conversava com alma e um mundo particular se formava. O homem levantou-se e aprumou seu sobretudo negro, pegou no guarda-volumes superior as malas e o seu chapéu ainda úmido e o colocou na cabeça, rodando os dedos pela borda da aba. Ele olhou para a sua linda mulher pedindo aprovação, e ela com um sorriso e um ligeiro movimento de cabeça o fez entender que o chapéu negro precisaria ser levemente inclinado; o charme. Com um breve movimento o homem consertou o seu semblante em concordância com o toque sutil da sua amada e em seguida estendeu sua mãos para ela e a ajudou a levantar-se. As mãos dela esticavam o linho da blusa, abotoou os botões do casaco, endireitou sua boina bege, enrolou seu cachecol no pescoço e calçou suas luvas marrom. As bagagens foram empunhadas... uma valise cinza e uma maleta, e assim eles se dirigiram até a porta do vagão. Pararam por instantes, olharam para fora, respiraram fundo e desceram abraçados, caminhando pela plataforma em direção à vida que os esperava. Alguns dias depois, contam os moradores de Thérouanne, que a chaminé da casa da Rue de Boulogne, 37, apesar de fechada há anos, deixava escapar fumaça, como se a lareira estivesse acesa. No seu interior vivia um casal que os olhos humanos não podiam ver. Na verdade, ninguém ousava bater à porta ou tentar descobrir o que ali se passava. 8

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O amor prevalecera e o destino se cumpria porque a vontade de Deus era sublime. Epílogo Na tarde do dia em que Madeleine faleceu, um avião do exército britânico havia sofrido avarias no motor, em pleno voo, durante uma tempestade de neve e desapareceu num dos desastres aéreos mais incríveis da história da aviação. David havia perdido a hora do seu voo de carreira, que sairia de Londres naquela tarde, e como tenente da aeronáutica reformado, ex-combatente, conseguiu embarque numa aeronave da RAF. Os seus destroços foram encontrados tempos depois numa floresta em terras francesas. Sobre uma das asas incineradas uma rosa vermelha permanecia tenra e não há notícias de sobreviventes, pois tripulação e passageiros tiveram morte instantânea, sendo incinerados, segundo avaliação da aeronáutica e da peritagem da polícia francesa. O corpo de Madeleine fora encontrado sem vida na manhã seguinte na estação, foi recolhido e não se sabe qual destino tomou. Seus pertences foram guardados em um armário corroído pela ferrugem na delegacia de polícia cujas portas foram trancadas com cadeado. Nunca ninguém os reclamou. As residências de David e Madeleine existem até hoje em Canterbury e em Ashford e conservam as suas características originais apesar das reformas que nelas foram feitas. O tempo passou e, após mais de meia década, em Thérouanne, a casa da Rue de Boulogne, 37, continua fechada, depois que vários locatários desistiram de lá morar e saíram quase que fugidos da cidade. Quem passa pela rua à noite pode ver uma pálida luz lilás através da janela, por trás da cortina, e pode ouvir risadas baixas e poemas de amor declamados em voz alta vinda de dentro da casa. À porta, uma rosa vermelha eterna enfeita a entrada, ela resiste ao tempo mantendo seu frescor e perfume indefinidamente. Ninguém ousa tocar a campainha e nem mesmo chegar perto da porta e das janelas da casa, que virou uma espécie de templo do amor maior para poucos e um lugar de magia e almas perdidas para muitos. Os personagens, David e Madeleine, assim como todos na história, são fictícios, mas existiram e existem de verdade no coração de cada pessoa que conhece o amor verdadeiro. Eles viverão juntos para sempre e, assim como a rosa vermelha, seu amor será eterno! 9

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Complemento: Investigações das polícias francesa e inglesa sobre o acidente em que Mark foi envolvido concluiu que o piloto havia se tornado agente duplo da MI6 (Agência de inteligência inglesa), ou uma derivação inicial dela, e da KGB (URSS) no final da guerra. Não se sabe se ele embarcou no voo da RAF propositalmente, pois soube-se que esse voo transportava documentos secretos Soviéticos da época que esta era aliada à Alemanha no início da guerra. Dizem que a missão de David era capturar todos os documentos, ou em último caso destruí-los, os documentos e seus portadores, os agentes da precursora da DPSD (agência de inteligência francesa)... Foi o que aconteceu, mas esta é uma outra história a ser contada brevemente. Conto protegido pela Lei dos Direitos Autorais. Registro na Biblioteca Nacional _____________________________ 10

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Alvoroço no Galinheiro Era um dia perfeito. Sol, brisa quente e suave, harmonia total no galinheiro. O galo Querêncio imponente, fazendo valer o seu domínio, era mais do que admirado pela dupla dezena de galinhas que se esforçavam para mostrar a ele as suas crias amarelinhas, frutos do seu segundo de amor. Era milho no almoço, milho na sobremesa, milho no lanche, no jantar e quirera para os menores e depois um golinho de água aqui e outro ali e Querêncio só olhando, avaliando, afiando o seu esporão e esperando. E naquele final de tarde, entre uma ciscada e outra, uma tempestade se formou. De repente, vinda ninguém sabe de onde, uma jararaca se apresentou bem no meio do terreiro. Aquele olhar congelante, ávido por uma refeição. Foi, vocês nem imaginam, um corre-corre danado. Era pena para tudo que era lado. As galinhas se debatendo e tentando voos desesperados, pintinhos correndo de uma lado para o outro, sendo que alguns coitadinhos nem sabiam direito o que acontecia. Só corriam também. Uma gritaria infernal, tão grande que até parecia briga na feira ou quem sabe uma briga de galo. O Querêncio preocupado juntava forças, pois tinha que defender os seus domínios, a sua família. A jararaca se divertia e já tinha até mirado a sua presa quando Querêncio estufou o peito, abriu suas asas, empinou sua crista e voou direto no meio da cara dela. Fez-se um silêncio total, todos pararam para ver a embolação que se seguiu. Teresa e Querêncio travavam uma batalha de vida ou morte. Querêncio era um valente, porém numa derrapada inesperada quebrou sua perna direita. Uma dor lancinante. Bem que ele tentou continuar, mas ele sabia que seria fatal e sendo assim, usando suas asas fortes, afastou-se de Teresa para poder avaliar o que iria fazer. Algumas galinhas se desesperaram. Uma delas, coitada, engoliu seu próprio ovo. Não sei se pensou em defendê-lo e botá-lo depois de novo ou se tentou o suicídio. Isso ninguém nunca saberá, pois Felisberta morreu engasgada naquele mesmo minuto. Enquanto isso, Teresa se recompunha do ataque, pois já estava ferida por Querêncio, mas não fora de combate. Foi nessa hora que Dagoberto, um pinto encorpado, forte, já um Frango e que tinha assistido de perto a desgraça de Felisberta ao morrer engasgada com seu próprio ovo, teve uma idéia... Se ele provocasse Teresa até que ela abrisse a sua bocarra peçonhenta, ele poderia, como um Kamikase, atirar-se dentro da 11

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garganta dela rápido o bastante para não ser picado pelas presas de Teresa e tentar sufocá-la com seu próprio corpo. E assim fez Dagoberto, um Frango herói em seu dia de fúria. Bicho arrojado... filho mais velho de Querêncio. Ele mergulhou sem piar na garganta de Teresa. Cravou seu bico e suas garras afiadas nas suas entranhas e abriu suas asas com toda a sua força para não ser engolido. Teresa ficou imóvel, não conseguia reação. Querêncio vendo aquilo superou sua dor e, encorajado pelo aparente sacrifício do filho, precipitou-se contra a jararaca. Ela, entalada e imobilizada, nada pode fazer. Nem esboçou reação. Com seu bico guerreiro, Querêncio despedaçou Teresa enquanto seu esporão dilacerava aquela pele escamosa. Teresa agonizava, sucumbindo ao ódio de quem defende os seus. E Querêncio não parava, até que abriu de vez a barriga de Teresa e qual não foi sua surpresa... encontrou Dagoberto meio desfalecido, com as penas todas lambuzadas, tonto e já sem ar, mas...vivo! Foi uma festa. Asas aplaudindo o novo Príncipe. Todos em reverência a Dagoberto, o Frango Herói, inclusive Querêncio que não cabia dentro de si de orgulho. Josué Carvalho, o dono do sítio, preocupado com o alvoroço, apareceu correndo para ver o que tinha acontecido, e ao entender o ocorrido, também se sentiu orgulhoso de suas crias. - Naquela noite, Felisberta foi servida assada com ovo e tudo no jantar para a família de Josué. - Teresa, ou o que sobrou dela, foi enterrada com suas enzimas numa cova funda bem longe da porteira do sítio sem direito a lápide. - Querêncio, após receber a condecoração de “O Galo do Ano” aposentou-se por invalidez permanente em virtude dos ferimentos que recebeu naquela tarde. - Dagoberto foi eleito o novo Rei do Galinheiro e durante muitos e muitos anos contou essa história para os seus descendentes. - Dagoberto faleceu cinco anos depois em virtude de uma fome abrupta da família Carvalho. - Até hoje essa história é contada nos galinheiros da cidade de Macupira do Sul e região e acabou por se tornar uma lenda. “A lenda de Dagoberto, O Frango-Rei Esperto!” Moral da História : Mais vale ter na vida coragem e inteligência do que uma boa dose de veneno. O lugar, os fatos, os personagens e seus nomes são absolutamente imaginários. Qualquer semelhança com pessoas, lugares ou animais reais é mera coincidência. ___________________________ 12

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Por Que existe Ópera? Odeio Ópera! Fico tentando imaginar o que pode ser mais chato e irritante do que uma bela Ópera. Aquele clima de gala, Channel nº 5 e Colônia Pinho Campos do Jordão misturados no ar, desafiando as narinas alérgicas. Peles, brilhos, naftalinas, sedas de cores sóbrias, sapatos de cromo alemão e fraques do casamento do filho do irmão, tudo aguardando o apagar das luzes. As cortinas se abrem e o show vai começar... O espetáculo de luzes se resume a um foco. Um foco! Um jato de luz sobre um cara bochechudo que mais parece um provolone vestido de noivo. Existem atores que entram em cena e congelam, saem de cena... Que esquisito. Está criada uma atmosfera que anuncia um grande acontecimento. O público na expectativa... - Agora rola! diz a madame ao meu lado (moderninha, não?) e que por sua vez está ladeada pelo marido narigudo que ainda não tinha acordado do desmaio provocado pelo aperto excessivo de sua gravata borboleta vermelha... Sorte a dele! E a coisa parece que vai mesmo... Mas é Ópera ou Balé? Tem dançarinos perdidos em cena, rodopiando suas plumas e collants pelo palco. Até que após segundos mudos e surdos, o Tenor ou Barítono, sei lá, começa a gritar. A garganta do cara parece uma turbina de avião a jato. E que língua era aquela, meu Deus?? Seria Aramaico Arcaico ou Italiano do Século Meio AC ?... Não dava para entender uma maldita palavra... Nem uminha! A mulher ao meu lado, cujo marido acordava assustado imaginando estar no pregão da Bolsa de Valores, chorava como uma doida e devia ser de raiva, eu creio, ou de vergonha por achar ser a única a não entender o que o Provolone berrava aos sete ventos. Um horror total aquilo! E que piorou ainda mais quando entrou em cena um casal fantasiado, ele de Pinguim e ela de Cinderela. Bem que eles podiam ser polidos e educados e explicar o que o Provolone gritava insuportavelmente. Explicar em voz baixa, didaticamente, para que todos os Visons entendessem o que se passava. Que nada... O troço virou feira livre. Mais gritos e berros espetaculares e estrondosos. Se eram palavrões, nem imaginávamos. A esganiçada da Cinderela ficava até vermelha... Coitada. Imagino o que passa em casa o marido dessa donzela. Se eu fosse ele, eu a empurraria para dentro de um poço e lacrava a boca, dela... E o outro, o Pinguim, com cara de sapo-boi, nem te conto. O homem era nada mais que um megafone transcendental insuportável. E o meu saco explodindo. A mulher do meu lado, chorando sem parar, os penteados das madames desmoronando com a vibração e finalmente, depois que o Provolone berrou uma, somente uma palavra durante três minutos e quarenta e oito segundos cronometrados, o silêncio se fez. 13

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Os três se deram as mãos, adiantaram-se e se curvaram... Acho que com medo de chuva de ovos e tomates ou algo próximo que imaginavam receber. Na sequência viraram-se e saíram rápido (não são bobos...), talvez porque nem eles mesmos se suportem. A cortina subia e descia freneticamente e as luzes produziam efeitos especiais engraçados. Talvez tudo isso tenha sido quebrado pelos berros alucinantes daqueles três chatos incompreensíveis. E o público em pé, aplaudia veementemente o fato deles terem ido embora. Quiçá para sempre!!!...E gritavam: - Bravo!!, Bravo!!! E eu que achava que só eu é que tinha ficado bravo com aquela coisa infernal. Quando acenderam a luzinha vermelha que indicava a saída, foi a maior felicidade da minha vida. Eu podia finalmente caminhar até o meu carro e ir para a minha casa ouvindo meus Blues. Para vocês verem, até a mulher que estava ao meu lado, parou de chorar e o marido dela, ainda meio roxo, perguntou-me baixinho em som rouco: - Você sabe tirar essa porcaria dessa gravata do meu pescoço? Odeio Ópera!!! Coisa de doente mental essa coisa chata. Aliás, a palavra...”Odeio”, tem cinco letras. Deveriam inventar uma palavra “Odeio”, com umas cinquenta letras, para que eu pudesse gritá-la com todos os meus pulmões no ouvido daquele desgraçado do Provolone por uns vinte minutos ininterruptos. Odeio Ópera!!! Essa droga me instiga à vingança. ____________________________ 14

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Conto do Canto de Uma Sereia Em algum ponto entre Dublin e Aracati no Ceará, reina Maria Adelaide, filha de Pai navegador Irlandês com Mãe Cearense. Maria Adelaide era Senhora da Ilha do Bom Abrigo, rainha dos navegantes e musa dos marinheiros. Mulher das pernas lindas, quadris grandes e robustos, seios duros, maduros e empinados. Um anjo que espanta a sua solidão acolhendo os viajantes que chama com seu canto delicado e enfeitiçador. Única mulher naquele fim de mundo. Uma Deusa maquiada, endiabrada, sempre pintada para a guerra. Um dia, engravidou de um marinheiro errante, sem pátria como ela, que nascera a bordo de um navio sem bandeira. O tempo passou e nasceu do seu ventre uma menina linda. Maria enlouqueceu. Nascera a sua sombra para a alegria dos navegadores. A menina virou moça e não quis aquela vida... Não quis ser a Maria Adelaide dos navegantes naquela ilha. E assim, virou sereia, mergulhou no mar e sumiu. Maria Adelaide morreu de tristeza e a ilha submergiu para sempre. Há notícias hoje de que há uma ilha no Atlântico Norte, mas que não consta em nenhum mapa, que é muito frequentada por marinheiros errantes. Na praia, está em evidência uma estátua de bronze. A escultura de uma sereia. Em baixo da escultura uma placa com os dizeres: -Aqui renasceu Maria Adelaide – A Deusa dos Mares. Dizem que seu canto se escuta ao longe até hoje, causando intempéries nos sete mares e enfeitiçando os marinheiros e navegantes. Sereias são eternas nas nossas mentes. ____________________________ 15

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